![]() ![]() Beautiful Blade (excerto) Projecto original de Dawn McCartney (por vezes também apresentado como sendo um duo, com Nils Frykdahl). A leitura do autor norueguês Erwin Neutzsky-Wulff, que integra a mitologia com a neurologia e a ciência cognitiva, teve uma grande influência em Dawn: “comecei a compreender que um certo número de sensações e experiências que eu tinha tido, e que não tinham qualquer significado no mundo em que vivia, eram compreensíveis sob uma óptica religiosa”. Dawn, no entanto, afasta-se das religiões usuais e procura contactos com uma religiosade mais primitiva, como as correntes religiosas escandinavas pré-cristãs e o xamanismo. “As experiências físicas estão associadas a um elevado grau de conceptualização. São as definições que fazem com que os objectos ou entidades sejam considerados “algo” em vez de “nada”. Nem todas as conceptualizações, ou experiências, são comunicáveis porém, no dia-a-dia, a nossa conceptualização é limitada pela necessidade de interacção. É por isto que é razoável dizer que a nossa linguagem é o limite do nosso mundo. O materialismo “duro” (na sua forma mais banal) é apenas um desesperado desejo de consenso conceptual. Isto significa que, como pessoa religiosa, tenho de evitar o consenso no presente, por forma a permitir que o mundo se manifeste de diferentes modos.” | Página oficial | Entrevista | upload: Psychedelic Folk | |
quinta-feira, abril 28, 2005
Faun Fables
Mayana Zatz
Publicidade on-line
A revista Economist inclui um artigo sobre o crescimento da publicidade na Internet. Citando uma previsão da Advertising Age, durante o corrente ano os rendimentos publicitários do Google e do Yahoo deverão rivalizar com os das três grandes cadeias televisivas americanas: ABC, CBS e NBC. Este crescimento tem sido suportado por uma série de inovações, das quais uma das mais recentes é um novo sistema de leilão para publicidade da Google.Outro exemplo desta inovação, criado pela AdMedian, é um anúncio que, em vez de tomar a forma de um irritante pop-up que o cibernauta deve "atravessar" para aceder à página que pretende visitar, apresenta-se como um browser funcional que dá passagem para qualquer das páginas desejadas do anunciante (ver artigo).
«Período de adaptação [à concorrência dos têxteis chineses] foi coisa que não faltou ao sector têxtil nacional. A modernização e os ganhos de competitividade foram, em termos médios, incipientes. Como vai conseguir fazer em três anos o que não fez em dez é a grande questão. Para que o tempo que venha a ganhar não acabe por ser uma verdadeira perda de tempo.»Luisa Bessa in Jornal de Negócios
«Para reformar a administração pública não são precisos grandes consultores, nem é necessário inventar a pólvora. Os verdadeiros problemas estão há muito identificados. Ao contrário do que é muitas das vezes afirmado, não há Estado a mais. Há Estado a mais nuns sectores e a menos noutros. Não há funcionários públicos a mais. Há funcionários a mais numas áreas e a menos noutras. Temos um Estado excessivamente centralista e uma administração com problemas de qualificação, produtividade e avaliação. Mas nenhum destes problemas se resolve com a campanha negativa sobre a administração pública.»Pedro Adão e Silva in Diário Económico
quarta-feira, abril 27, 2005
A culpa é do sistema...
Impressionou-me (muito negativamente) um dirigente sindical que, perante a proposta do governo de aumentar os períodos de estudo da matemática, disse ter "muitas dúvidas" da sua eficácia; tanto quanto ele sabia, acrescentar mais horas até poderia ter o efeito oposto. Eu suspeito que o dirigente sindical é capaz de ter razão: no que respeita à fatia de professores incompetentes (ou irresponsáveis) quanto mais horas estes estiverem com os alunos pior para a aprendizagem. Mas se estivermos à espera que os sindicatos admitam que possa haver uma fatia de incompetência no corpo docente, podemos esperar sentados. Mesmo que se prove essa inconpetência, o Sindicato dirá: a culpa é do sistema, tal como Riff, o jovem delinquente do West Side Story...
O meu pai bate na minha mãeOu seja (parafraseando):
A minha mãe bate em mim
O meu avô é comunista
A minha avó snifa chá
A minha irmã usa bigode
E o meu irmão veste saias
- Ainda se admiram que eu seja um marginal?
Nós não somos maus alunos,
Somos é malcompreendidos...
Exames e preguiça
O Público de hoje inclui um dossiê sobre os exames, onde encontramos um depoimento da professora Fátima Bonifácio, historiadora e professora universitária, exprimindo a opinião de que «os exames são um antídoto contra a preguiça e o facilitismo». Confrontada com o facto de sistemas como o finlandês e o coreano só aplicarem exames no final do secundário, contrapõe:
«Os exames nacionais antes do final do secundário podem ser dispensáveis em sistemas de ensino que reunam pelo menos duas ordens de condições: serem altamente responsabilizadores de professores e alunos e dominados por uma cultura de grande rigor e exigência; gozarem de uma estabilidade do corpo docente que permita aos professores de cada escola conhecerem-se uns aos outros e conhecerem os "seus" alunos. Estas condições não estãoreunidas nas escolas portuguesas»Avançando mais na sua análise, a professora adianta um exemplo:
«Num comunicado citado pelo Público de 16 de Abril último, o PCP deplorava que os exames nacionais do 9º ano deixassem "para último plano os aspectos de ordem afectivo-emocional, relacionais, as atitudes e a aplicação prática do saber", e que se limitassem a avaliar conhecimentos! Este tipo de discurso, que combina vacuidade e pieguice, é exemplar da mentalidade dominante segundo a qual a escola serve para para tudo menos para trabalhar e aprender. Não tenho dúvidas de que estas "teorias" pedagógicas são as principais responsáveis pelo clamoroso fracasso do sistema educativo nacional»Eu concordo com esta análise. Fui testemunha de que a geração que formatou o actual sistema de ensino fez uma crítica, no período imediatamente anterior à Revolução de Abril, do sistema de avaliação baseado exclusivamente em exames, que fazia identificava aquele sistema com a ideologia da ditadura; segundo eles, era um sistema "destinado a formar os quadros da bueguesia", que formava mentes "acríticas", etç.
Logicamente, esta geração, quando assumiu as rédeas (não só os altos cargos do poder político formal, mas todas as instâncias onde é possível exercer uma fatia de poder) aplicou o sistema "alternativo" da avaliação contínua. Isto coincidiu com uma entrada massiva, no sistema de ensino, de professores mal preparados para tais funções - muitos nem tinham a formação legal necessária. A mistura desta postura anti-exames com a incompetência formal de grande parte do quadro docente mudou a natureza do ensino, passando a replicar essa ideologia anti-exame. (Sempre suspeitei que, se submetessem os professores aos exames que os meninos têm de fazer, que um número razoável chumbaria.)
Finalmente o sistema político, muito sensível, eleitoralmente, à satisfação dos paizinhos e mãezinhas dos meninos, foi acolhendo esquemas facilitistas que permitiam a progressão das criancinhas pela escola acima, quer soubessem muito, pouco, ou nada. Por isso acho interessante as propostas hoje divulgadas pelo governo no sentido de restringir o acesso ao ensino da matemática a licenciados em matemática. Mas não se esqueçam da avaliação dos professores e da definição de metas/gestão por objectivos.
domingo, abril 24, 2005
A reforma agrária de Sá Carneiro
A revista do Público de hoje inclui uma reportagem sobre os rendeiros da Herdade dos Machados (em Moura): um grupo de trabalhadores agrícolas com quem o governo de Sá carneiro iniciou, em 1980, uma espécie de reforma agrária "social-democrata".
Esta entrega de terras a 94 trabalhadores agrícolas coincidia, na época, com a devolução, aos antigos proprietários, de parte das terras que lhes tinham sido ocupadas logo a seguir à revolução de Abril.
Sá Carneiro procurava assim uma terceira via: nem a grande propriedade latifundiária, nem o colectivismo comunista. A entrega das terras a estas famílias destinava-se declaradamente a inaugurar um novo modelo de reforma agrária; na altura terá sido feita a promessa de que a propriedade lhes viria a ser entregue, mas no papel o que ficou escrito foi um arrendamento por 25 anos: que estão a terminar.
A revista transcreve estas palavras de Sá Carneiro, incluídas no discurso que fez no dia 26 de Abril de 1980, no acto de entrega das terras:
"Enquanto formos Governo e maioria, ninguém lhes tirará as terras, cuja exploração lhes é agora garantida em posse útil mas que podem tratar como se fosse vossa."Entretanto, a nível governamental, ninguém parece ter dado muita importância ao assunto e o tempo correu a favor dos antigos proprietários; alguns dos arrendatários falecerem, outros desistiram e, nesses casos, as terras foram imediatamente retomadas pela Casa Agrícola Santos Jorge, que gere a Herdade. Um representante da Casa usa mesmo esta metáfora: "Somos como as crianças. Sempre que sabem que há ali um chupa-chupa, vão lá e comem-no". (A "posse" de terras anteriormente expropriadas no âmbito da Reforma Agrária é um dos motivos justificativos da "reversão" da propriedade, ou seja, da passagem do Estado para os expropriados, conforme se pode ler neste Acordão do STA relativo a esta Herdade.)
Os restantes arrendatários parecem não saber o que fazer. Recusam-se a celebrar contratos com a Casa Agrícola Santos Jorge, na esperança de que a antiga "promessa" de se tornarem proprietários se cumpra, mas aparentemente sem grande convicção; em alternativa sugerem uma indemnização por parte do Estado.
Emfim, espasmos de um país que tem andado à deriva.
sexta-feira, abril 22, 2005
iPod + iPod + mixer (e pode ?)
Clique na imagem para ampliar e veja aqui outra imagem.
Veja ainda outras novidades da Musikmesse.
Uma dupla "Unidade"
O governo acaba de criar uma "Unidade de Coordenação do Plano Tecnológico" (UCPT) cujas funções duplicam as da UMIC - Unidade Missão Inovação e Conhecimento, criada em 2002.
O Diário de Notícias lembrou-se de questionar os ministérios da Economia e da Ciência sobre este possível problema mas ninguém diz nada. Acresce que a UCPT é de puro financiamento orçamental enquanto que a UMIC tinha comparticipação da União Europeia. Aqui está mais uma embrulhada tipicamente portuguesa. Esperemos que, neste imbróglio de "Unidades" não se verifique:
In The Country
![]() ![]() In My Time of Need Trio de jazz formado em 2003, na Noruega, pelo pianista Morten Qvenild (26) com o baixista Roger Arntzen (28) e o baterista Pål Hausken (25) [foto]. Este seu primeiro disco, "This Was the Pace of My Heartbeat", foi lançado no mês passado pela Rune Grammofon. A gravação é analógica e para além de "In My Time of Need (original de Ryan Adams) inclui nove originais de Qvenild e ainda uma versão da ária ”Lascia Ch´io Pianga”, de Händel. Morten Qvenild colabora ainda na "Susanna and the Magical Orchestra" e é um dos membros da banda norueguesa de pop/rock "The National Bank". |página oficial | upload original: The suburbs are killing us | + fotos | |
Canivete suíço da mente
Um interessante artigo, a começar pelo título: Swiss army knife and Ockham's razor: modeling and facilitating Operator's Comprehenson in Complex Dynamic Tasks. A ideia é: a partir de duas metáforas da mente desenvolver um modelo (VAN, Virtual Association Network) que permite explicar o desempenho humano e apoiar os processos de tomada de decisão em tarefas complexas, envolvendo multiplas variáveis e constrangimentos em rápida mutação. Sendo um instrumento multi-funcional, os autores recorrem à metáfora do "canivete suíço". O artigo inclui um perturbante exempo de aplicação: o bombardeamento de alvos móveis por um avião.
Tomar decisões a partir da simplificação de uma realidade observada altamente complexa, eis o programa da nossa mente - e dos seres vivos em geral, mesmo dos mais primitivos. Este artigo apresenta uma hipótese de trabalho para a compreensão (e replicação) dessa tarefa.
Nas referências bibliográficas lá estão dois artigos do "nosso" António Damásio:
Time-locked multiregional retroactivation: a systems-level proposal for the neural substrates of recall and recognition Cortical Systems for the Recognition of Emotion in Facial Expressions .
quarta-feira, abril 20, 2005
O poder da pirâmide...
O governo americano colocou on-line uma nova pirâmide alimentar. Encontra-se disponível uma opção de consulta em que o cibernauta indica a idade, sexo e actividade física extra desenvolvida, por forma a receber uma proposta de dieta adequada. Acontece que o acesso a esta modalidade é quase impossível dada a quantidade de solicitações (se alguém conseguir resposta, passe-me a dieta, tá ?)Bem me avisou o Adam Gaffin.
Citação
Joachim Fels, economista da Morgan Stanley:«Políticas fiscais extremamente generosas em alguns dos países membros da União Europeia poderão afectar outros países menos pródigos, por via de custos de crédito mais elevados, especialmente se os mercados acreditarem que os estados membros terão de apoiar os seus pares que se tornem insolventes. Se isso acontecer, os membros pródigos poderão tomar o freio nos dentes, cavalgando os restantes. Não é necessário ter um doutoramento em ciência política para compreender que um tal cenário criaria conflitos sérios na União e ameaçaria as suas próprias fundações»[Original aqui; tradução minha]
Josephine Foster
![]() ![]() Hell's Bells "A passagem de Josephine Foster pela escola de ópera deixou nítidas marcas na sua voz, vagamente associável ao canto lírico. Mas o seu terreno é, definitivamente, o da folk psicadélica. Se quisermos, Josephine Foster está para a folk de Donovan, como a lírica Vírginia Rodrigues está para o tropicalismo de Caetano Veloso. No caso de Josephine, são os Jefferson Airplane, Vasthi Bunyan e Shirley Collins, entre muitos outros, que andam por ali." (in Famalicão - Portal ) | J.F. no Porto | upload original: 100songsising | outras referências: | Enxoval | Crónicas da Terra | Vidro Azul | Som Activo | DN | |
Internet mais rápida
Segundo o Diário de Notícias, a PT vai quadriplicar a velocidade de acesso à Internet, sem aumento de preço. Afinal, de vez em quando, sempre há "almoços grátis". Ou não ?
PME inovadoras
O jornal Público de hoje inclui um pequeno suplemento (2 folhas) sobre "PME inovadoras", salientando os casos das PME vencedoras do prémio "PME inovação", uma iniciativa da Cotec com o apoio daquele jornal (notícia do DN).
O caso mais detalhado é o da empresa Chipidea, grande vencedora daquele prémio; são igualmente referenciadas as empresas que obtiveram menções honrosas, a Ydreams e a Critical Software.
Nesta cerimónia o Ministro da Economia fez esta intervenção.
sábado, abril 16, 2005
Economia, confiança e imageologia cerebral
O campo da neuroeconomia continua a revelar-se uma fonte de descobertas: a Science Magazine do corrente mês inclui o interessante paper "Getting to Know You: Reputation and Trust in a Two-Person Economic Exchange". É uma experiência em que se simulam, através do "jogo da confiança", as mútuas reacções de um investidor e de um procurador a quem este confia uma certa quantidade de dinheiro; o procurador, a seguir, retorna ao investidor parte da verba que recebeu e então é a vez deste lhe confiar nova quantia, e assim sucessivamente.
Através de técnicas de imageologia (observação da activação de zonas do cérebro) conseguiram-se estabelecer relações significativas, modelizando nomeadamente comportamentos "generosos", "neutros" ou "maldosos" por parte do investidor para com o procurador e analisando as reacções deste último. É interessante o modo como o procurador, ao fim de algum tempo, consegue antecipar as decisões do investidor, hipótese consistente com as descobertas de António Damásio, já aqui referidas - e também coerente com os pressupostos da "racionalidade limitada".
Outra revelação interessante é a da assimetria entre as situações em que o investidor manifesta "mais confiança" ou "mais desconfiança": a primeira situação exerce um efeito maior do que a segunda no comportamento do procurador.
Os investigadores salientam a importância que as suas conclusões podem ter para a compreensão de patologias como a esquizofrenia ou o autismo. Mas também o comportamento dos agentes económicos pode ser melhor entendido com estas descobertas.
Quem quizer aceder ao artigo na Science, terá de o pagar; mas o "pura economia" está em condições de facultar o acesso gratuito aqui. (Bem, na realidade, a divulgação do texto e do link devo-o ao blogue de Kevin McCabe, o Neuroeconomics).
Reconhecimento 'Público'
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| O suplemento do Público, "Mil Folhas", na secção "Ciber-Escritas", onde Isabel Coutinho usualmente divulga a nossa blogosfera, podemos encontrar (e ler...) uma longa reportagem sobre o "pura economia"; tenho a certeza de que não merecíamos tanto. O que é que se pode dizer ? Bem, hoje é dia de festa no "pura economia". Como leitor compulsivo do Público (mesmo quando acedia livremente à edição on-line) fico embevecido, a sério. |
sexta-feira, abril 15, 2005
Eliane Elias
![]() ![]() Ponta de Areia - Canção do Sal - Cravo e Canela (Milton Nascimento medley) Natural de São Paulo (1960) Eliane Elias teve formação clássica e, ainda adolescente, fez o circuito de clubes. Foi para Nova Iorque em 1981, onde entrou para o grupo "Steps Ahead" do saxofonista Michael Brecker. Depois tocou com o trompetista Randy Brecker, com quem se casou. Gravaram juntos o disco "Amanda" (nome da filha do casal). Nos anos seguintes tocaria com músicos consagrados como Joe Henderson, Toots Thielemans, Jack DeJohnette, Peter Erskine, Eddie Gomez, Marc Johnson e Herbie Hancock; com este último gravou "Solos and Duets", de 1995, disco elogiado pela crítica e nomeado para os Grammy. Eliane compõe continuamente e temas de sua autoria já foram interpretados por diversos músicos, como Pat Metheny, Toots Thielemans e os Brecker Brothers. | Página oficial | upload original: Blue Note | Biografia | |
Apenas uma marca...
A Slate tem dificuldade em definir que "produto" é Pamela Anderson. É certo que tem tido um sucesso duradouro desde o longínquo mês de Outubro de 1989 em que foi capa da Playboy. Entretanto a menina participou em várias séries televisivas (a mais recente é Stacked), escreve colunas de opinião, é autora de dois livros baseados na sua escandalosa vida, lançou uma griffe de roupa e tem um negócio de slot machines; Será ela uma actriz ? Segundo a sua própria e abalizada opinião, nickles:«Não sou uma actriz. Não creio que seja uma actriz. Acho que criei uma marca e um negócio."»Ainda segundo a Slate, «o exagerado mega-feminismo e a confusa vida pública de Pamela fazem com que o projecto de ser uma mulher pareça maravilhoso, cómico - e difícil. O seu processo de contínua auto-reinvenção, desde pin-up até mulher de negócios e depois escritora e depois actriz, não se parece nada, por exemplo, com o percurso de Madonna, a outra grande empreendedora loura. Madonna sempre se pareceu com um ditador disfarçado, combinação de Evita Perón e Feiticeiro de Oz, controlando tudo dos bastidores. O que atrai em Pamela é que a sua persona manifesta as contradriedades e o ridículo esforço de se tentar manter como "a mulher mais sexy" durante mais de década e meia. O apelo da "Marca Pamela" é, acima de tudo, o quão natural ela parece; pode ser falso, mas é um falso genuíno.»
Falências douradas

O Tribunal de Contas descobriu que o gestor liquidatário da empresa Silopor auferiu (será que ainda aufere ?) mensalmente a quantia de 10.500 euros, mais do dobro do mais alto vencimento tabelado para um gestor público (Presidente do Conselho de Administração, que é de 4625 euros). (Diário de Notícias)
A Silopor é uma sociedade anónima de capitais públicos que resultou, em 1987, do destaque da EPAC (Empresa Pública de Abastecimento de Cereais) dos silos portuários públicos existentes nos portos de Lisboa e Leixões. O organograma da Comissão Liquidatária pode ser consultado aqui. É muita malta para liquidar uma empresa, portanto está garantido que ela irá mesmo ser liquidada...
Mas será que (estou agora a recordar a Teoria da Agência) os interesses do "principal-Estado" e do "agente-comissão-liquidatária" serão os mesmos ? Depois de liquidada a coisa, para onde irão estes liquidatários? Não serão as remunerações um incentivo ao prolongamento da agonia?
A decisão de liquidar a Silopor foi tomada em Reunião de Conselho de Ministros de 26 de Abril de 2001, já lá vão 4 anitos.
Um dia ainda se descobre que as empresas públicas dão mais prejuízo em falência do que vivinhas da costa...
quinta-feira, abril 14, 2005
Literatura e Economia
Na mailing-list Teach-Econ (ensino da Economia) abriu-se um espaço de sugestões sobre romances para uma cadeira com o título: "imagens do negócio na literatura americana" ("Images of Business in American Literature"); entre as sugestões já apresentadas apareceram:
E também, embora não sendo um romance, The Literary Book Of Economics de Michael Watts (editor).
Pergunto a mim próprio que livros poderíamos indicar para uma cadeira equivalente mas nacional:
...
quarta-feira, abril 13, 2005
Karen Ann
Semântica
Interessante notícia no blogue Notícias de Ovar sobre a designação de uma feira popular em Monção. Mas que linda metáfora...
Notícias da deslocalização
Mais uma empresa localizada em portugal que anuncia planos para deslocalização da produção: a Yazaki Saltano, produtora de cablagem para automóveis, o que poderá fazer perder mais 500 postos de trabalho.
Segundo o Notícias de Ovar, "a empresa reconhece que "os níveis de produtividade da unidade são positivos", mas justifica que "o sector das cablagens, que representa um volume de vendas bastante significativo, tem vindo a diminuir", o que, associado "a uma conjuntura económica desfavorável obrigam a Yazaki a reduzir o número de postos de trabalho". Entretanto a empresa afirma ter solicitado o apoio a instituições do Estado, nomeadamente ao governo e autarquias, "no sentido de encontrarem outras formas que diminuam os efeitos sociais da medida" que pretende tomar.
Referência também no Diário de Notícias.
Mulheres trabalhadoras
Segundo estudo do Eurostat divulgado pelo Diário de Notícias, «a taxa de emprego das mulheres portuguesas com filhos menores de 12 anos é das mais elevadas da União Europeia a 25, somente abaixo da Eslovénia, Dinamarca e Lituânia. Portugal detém ainda a terceira maior proporção de mulheres empregadas com três ou mais filhos, ou seja, a taxa de emprego nesta situação é de 60%.»
segunda-feira, abril 11, 2005
Economia e sexo
Posner e Becker, no seu blogue, escrevem sobre a Revolução Sexual. Posner inicia o diálogo questionando-se porque é que a moralidade sexual sofreu tantas modificações nos últimos 50 anos, proponde-nos uma "abordagem económica": «Uma vez que os benefícios do sexo, no sentido do prazer ou do alívio da tensão que proporciona, tem profundas raizes biológicas, é provável que a resposta deva ser procurada do lado dos custos», os quais, segundo Posner, cairam dramaticamente no último século; depois de desenvolver este raciocínio, Posner conclui que «na medida em que, devido às mudanças económicas e tecnológicas, o sexo deixará de ser considerado quer perigoso quer importante, podemos esperar que se venha a transformar numa actividade moralmente neutra, tal com aconteceu com o acto de comer»
Becker não concorda com esta última previsão:«Discordo de Posner em que o sexo se virá a tornar, quer moralmente quer em outros domínios, em apenas mais uma actvidade de consumo, como comer. O acto sexual constitui uma relação muito íntima entre duas pessoas, a qual se foi constituindo á medida que os humanos evoluiram ao longo dos últimos 50 mil anos, quando parece que se começaram a organizar em famílias. Esta relação provoca uma grande ligação e bagagem emocional, a qual não vai desaparecer apenas porque os contraceptivos se tornaram eficientes e as taxas de nascimento baixas.»
Publish or Paris ?
No meios universitários é muito utilizado o aforismo "Publish or Perish" ("ou publicas ou morres!") para significar a importância, no meio académico, de fazer publicar artigos de investigação em revistas da especialidade. A publicação funciona como uma variável proxy da capacidade do académico para investigar e para se manter actualizado. Um modo de classificar as universidades é mesmo através da avaliação da quantidade de artigos publicados pelos seus "profes". Uma variante mais sofisticada deste indicador recorre ao número de vezes que um artigo é citado por outros artigos, na suposição de que esse endicador representa o interesse e influência das ideias contidas num texto.Mas não era sobre isso que eu vinha escrever, mas sim sobre uma paráfrase desse famigerado "Publish or Perish", utilizado num artigo acerca da alocação que os juízes de Direito fazem do seu tempo: "Publish or Paris ?", ou mais conretamente: "Publish or Paris ? Evidence of How Juges Alocate Their Time" [upload aqui]. O artigo é de Ahmed E. Taha, assistente de Direito da Wake Forest University, e é caso para lhe dizer: "com títulos desses, hás-de ir longe..." (na carreira judicial, entenda-se).
O trabalho desenvolve-se a partir de modelos com funções de utilidade em que juízes federais obtêm utilidade a partir da actividade judicial, do lazer, da reputação, da popularidade, do prestígio e de não ter sentenças suas anuladas.
O trabalho apoia-se em investigação anterior do conhecido teórico da corrente Direito e Economia, Richar Posner, ele próprio também juíz, e que é frequentemente citado no paper. Das citações retive esta:
«Para o punhado de juízes que actualmente ainda publicam as suas opiniões, e para alguns que o não fazem, existe uma utilidade adicional [à utilidade específica da natureza judicial, como a criação de precedentes], semelhante à que é obtida por qualquer autor literário ou académico. Existe também o prazer instrínseco da escrita, para aqueles que gostam de escrever, e do exercício e exposição da capacidade analítica ou outros dons intelectuais, para aqueles que os possuem e deles querem fazer uso».A metáfora do título é pois: vamos lá ver como é que os juízes escolhem entre trabalho (escrever para publicação) ou lazer (flanar por Paris). Claro que o modelo formal não apura a quantidade de viagens a Paris ou outro destino turístico qualquer.
Entre os resultados, detecta-se alguma prevalência na tendência (embora sem grande relevância estatística) para a publicação em juízes mais jovens, em anteriores alunos de escolas de Direito de elite, em anteriores acusadores, bem como em anteriores juízes estatais ou locais. Anteriores advogados de defesa são menos inclinados para a coisa.
Como conclusão geral o investigador confirma a suposição teórica de que "os juízes alocarão o seu tempo de forma que a utilidade marginal derivada de cada actividade, judicial ou não judicial, seja a mesma."
O paper não é muito inovador, mas só o título vale a citação.
domingo, abril 10, 2005
Modas à margem do tempo
![]() ![]() Além daquela janela
Discos publicados: Modas à Margem do Tempo (2001) e Cantarolices (2003) upload original: Modas à margem do tempo |
sábado, abril 09, 2005
| Julie London | ![]() |
![]() Goody Goody So you met someone that set you back on your heels - goody, goody You met someone and now you know how it feels - goody, goody You gave her your heart too, just as I gave mine to you And you're broken in little pieces, now how do you do ? You lie awake just singing the blues all night - goody, goody You think that love's a barrel of dynamite Hooray and hallelujah, you had it coming to you Goody goody for me, goody goody for her And I hope you're satisfied, you rascal you. upload original: Umblu.com (ficheiro swf; pode levar algum tempo a carregar) | |
Belmiro
Está na moda atribuir todos os males da nossa economia ao peso do Estado e anunciar, como solução para todas essas maleitas, o respectivo corte. É a versão contemporânea da "banha da cobra". Por isso são de salientar as declarações de um dos nossos capitães da indústria (e não só), Belmiro de Azevedo, que coloca antes a tónica na necessidade, na função pública, de bons gestores que invistam uma atitude permanente de competitividade. Claro que isso "implica necessariamente uma preocupação constante com a redução de custos e a inovação".
A ineficiência da função pública em Portugal é notória e, tal como nas empresas, exige uma mudança; mas acontece o mesmo nas empresas, onde os sectores protegidos e as atitudes de "rent seeking" são dominantes.
O que se passa nos países com melhor desempenho económico é que possuem uma administração pública mais eficiente, nomeadamente no domínio da regulação e fiscalização económica - o que lhes permite reduzir o respectivo peso na despesa global.
É confrangedor ler na blogosfera posts como este, propagando uma relação rígida entre o peso do Estado e o crescimento económico ("curva de Rahn"). Coerentemente com estas análises simplistas, o que os nossos liberais propõem é o desmantelamento do Estado, coisa que as empresas que praticam o "rent seeking" muito apreciariam.
Havia uma boutade keynesiana segundo a qual bastaria empregar funcionários públicos para abrir buracos e depois tapá-los para fazer crescer a economia. Os defensores do neo-liberalismo económico inventaram uma semelhante: bastaria diminuir o número de funcionários públicos para promover o crescimento.
Que cromos! Aliás, keynesianos e neo-liberais, estão bem uns para os outros: "les beaux esprits se rencontrent ".
sexta-feira, abril 08, 2005
Kate Fenner
![]() ![]() Stardust Ainda adolescentes, a canadiana Kate Fenner e o seu namorado, Chris Brown, fundaram a banda The Bourbon Tabernacle Choir, com quem andaram pela estrada durante 10 anos. Fixaram-se depois em Nova Iorque, onde têm actuado e gravado como duo. Kate e Chris compuseram a canção Resist War, que foi adoptada pelo movimento internacional pela paz (ver letra). Kate lançou o álbum a solo "Horses and Burning Cars" (2003) e tem participado como artista convidada nos concertos de B. B. King (fotos [a], [b] e [c]). Quando for a Nova Iorque não perca a oportunidade de ouvir Kate Fenner no Living Room. imagens: | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | Fotos: | 4, 5, 6 e 7 - Bob Anderson | 2 - Jules Bowden | 3 e 8 - Muneeb Kahn | (a) e (b) - Ann Johnson | 9 - Vic Brody | (c) - Dino Perrucci | Upload original: página de Kate Fenner | |
Ridículo

Já aqui tinhamos feito referência a um artigo do New Scientist que atribuía ao comércio um papel na evolução do homo sapiens. Agora é o Economist que pega na história para tentar provar a excelência do neo-liberalismo económico moderno. Abusivamente, através do uso de expressões como "sound economics" e "free trade", o Economist tenta extrapolar uma hipótese de há 35 mil anos para a realidade actual.
O certo é que a hipótese agora colocada - que o homo sapiens terá adquirido vantagem com o comércio, o qual, aparentemente, não era praticado pelos neandertais - é apenas mais um elemento a somar a outras possíveis causas. Por exemplo: calcula-se que os neandertais não tivessem pensamento simbólico, ou apenas muito limitado; isso limitaria igualmente as suas capacidades linguísticas e de comunicação.
É igualmente discutível a hipótese de que o desaparecimento dos neandertais e o florescimento dos sapiens tenha representado um progresso, mas isso éoutra discussão.
No fim do artigo o Economist emenda um pouco a mão, reconhecendo que "nada disto prova em absoluto que a economia [economics] tenha permitido à humanidade o domínio da Terra, mas levanta a intrigante possibilidade de que a ciência deprimente [dismal science] seja responsável por algo mais do que lhe foi outorgado por Smith e Ricardo".
Simplesmente ridículo.
quarta-feira, abril 06, 2005
Assimetria
Segundo Le Figaro, a Comissão Europeia fez uma proposta de uma dotação de 11
«Embora sejam economicamente justificadas, as reestruturações de empresas são politicamente incorrectas e socialmente dolorosas; para lutar contra este efeito assimétrico a Comissão propõe-se diminuir os seus efeitos e fazer com que se perca menos tempo, para que o capital humano seja utilizado da melhor maneira evitando que as pessoas passem 5 anos no desemprego.»A proposta será discutida na próxima 6ª feira pelos ministros dos Assuntos Sociais, prevendo-se alguma contestação.
Onde estás tu Mamã ?...
Consta que o 2º casamento do herdeiro da Coroa inglesa vai ser do tipo low profile; mas se isso fosse verdade não estava agora o Carlitos a esmolar à mãe uns cobres para pagar o policiamento da boda - notícia do Sky News.
terça-feira, abril 05, 2005
Ministra relativista ?
Ontem o primeiro-ministro e a ministra da Educação visitaram a Escola Básica 2+3 Matilde Rosa Araújo, em São Domingos de Rana; Maria de Lurdes Rodrigues disse que, neste momento, o Governo não está "em condições" de avaliar as virtudes e os defeitos dos exames do 9º ano.
No entanto o DN dá o seguinte título à notícia, que não aprece reflectir exactamente o conteúdo: "Governo admite extinguir exames do 9.º ano em 2006". O DN cita depois uma "fonte oficial do gabinete da ministra da Educação", que admitiu que "todas as hipóteses estão em aberto", ressalvando que "nenhuma decisão está tomada". Mas segundo o DN, o próprio discurso da ministra demonstra a sua clara intenção de mexer rapidamente neste dossier.
Este assunto é preocupante, nomeadamente devido a estas declarações da ministra, relativizando a importância dos exames provas na avaliação dos conhecimentos dos alunos:
«Os exames são uma única peça num sistema de avaliação que tem que ser um pouco mais vasto", considerou. "É preciso ter consciência de que avaliam apenas uma parte das capacidades. Não avaliam coisas como a oralidade e o saber fazer das crianças. Têm um lugar importante, mas limitado.»A relavitização do processo de aprendizagem e a ideia de que nele a memorização tem um papel secundário (ou nulo) foi uma invenção pós-25 de Abril, inspirada nas locubrações hippies e "soixante-huitards" da década anterior, que muito contribuiram para a degradação do nosso ensino. A ideia de que a aprendizagem teria de ser mais orgânica e mais "agradável", resultou na famigerada "avaliação contínua" que, apesar das boas intenções, contribuiu para a degradação do nosso sistema de transmissão de conhecimentos.
A notícia é de Pedro Sousa Tavares no Diário de Notícias.
segunda-feira, abril 04, 2005
Blogues
O provedor do leitor do Diário de Notícias, José Carlos Abrantes, debruça-se sobre o fenómeno dos blogues, colocando a questão: o que podem os jornalistas aprender com os blogues? Apoiando-se numa reflexão de Steve Outing na página do Poynter Institute, José Carlos Abrantes reflecte sobre as seguintes características dos blogues (na opinião de Steve Outing):As fontes e os modos de acesso à informação seriam mais transparentes; O ciclo noticioso tornou-se mais rápido; A notícia começa quando é publicada; Os erros são facilmente admitidos e corrigidos.
Duas economias
No "Diário de Notícias" João César das Neves escreve sobre As duas economias e a competitividade (ou seja, os sectores dos bens transaccionáveis e os restantes):«A esmagadora despesa pública, que já atinge metade do produto nacional, está dirigida sobretudo aos sectores protegidos da concorrência, educação, justiça, saúde, etc. Ao propulsionar os seus custos, impostos e salários, a política orçamental contribui maciçamente para agravar os problemas da competitividade nacional»
domingo, abril 03, 2005
Bo Carter
![]() ![]() Corrina Corrina
O guitarista e multi-instrumentalista Bo Carter (ou Bo Chatman) nasceu em Chatmon, no Mississippi no início dos anos 1890. Embora na maioria das suas gravações - mais de 100, entre 1928 e 1940 - tivesse actuado como solista, Bo fundou com os irmãos os "Mississippi Sheiks", onde tocava guitarra e violino. "Corrina Corrina" foi composta por Bo Carter, que também a gravou pela primeira vez. As numerosas variantes desta composição deram origem ao estudo "Corrine Corrina, Bo Chatmon, and the Excluded Middle", de Christopher A. Waterman, onde se analisam as variantes e o seu contexto social, incluindo as conhecidas versões de Bob Dylan - que a adaptou ao estilo revivalista do urban folk - e Taj Mahal. Sobre esta canção leia também aqui. Excertos de "Corrina" por Bob Dylan e Taj Mahal. Outros músicos que gravaram versões desta canção foram Red Nichols, Art Tatum, Muddy Waters, Albert Ammons, Mississippi John Hurt, Big Joe Turner, Bill Haley, Jerry Lee Lewis, Phil Spector, Bobby Vinton, Steppenwolf e George Winston. |
Regiões francesas
O pura economia já tinha feito um post sobre o programa de francês de pólos de competitividade; o assunto foi objecto de um concurso público, a que se candidataram as diferentes regiões francesas; entre as candidatas foram seleccionadas 6 regiões para a fase seguinte: Sillon Lorrain, Normande, Loire Bretagne, a metrópole que associa Marseille e Aix-en-Provence, Côte d"Azur e a aglomeração transfronteiriça franco-alemã constituída por Estrasburgo e Ortenaukreis. Notícia da Inteli no jornal Público.
Jornal Público 'on-line'
O jornal Público anuncia que a partir de amanhã o acesso ao seu conteúdo on-line passará a ser pago.
sábado, abril 02, 2005
Mais uma vítima do mercado...
Segundo um recente artigo da New Scientist, o "livre comércio" pode ter sido a causa da extinção, há 30 mil anos atrás, dos Neandertais.
A revelação é feita, não por arqueólogos ou antropólogos mas (imaginem...) por economistas holandeses e americanos.
Entre as "explicações" anteriores para o desaparecimento destes nossos primos atarracados contavam-se as mudanças ambientais (o friozinho glaciar...) ou capacidades mentais limitadas (relativamente aos primos sapiens) que os tornavam piores caçadores. O certo é que tinham tido sucesso durante um longo período de tempo - 260 mil anos - incluindo vários episódios de glaciação.
A tese económica é a de que o desenvolvimento do comércio entre diferentes comunidades de sapiens permitiu iniciar o processo de especialização. "O comércio terá permitido a divisão de trabalho, libertando indivíduos com capacidades especiais, por exemplo para a caça, para se concentrarem nas tarefas em que eram melhores"
Esta hipótese baseia-se na evidência arqueológica da existência de quarteirões organizados de modo complexo, com diferentes partes destinadas a funções específicas, enquanto que os Neandertais viviam em espaços indiferenciados. Outra evidência indica que os humanos primitivos importavam diversos materiais e que esta diversidade de recursos terá favorecido a inovação.
Recorde-se que os últimos dos Neandertais devem ter resistido na Península Ibérica e, nomeadamente, neste nosso cantinho. Isto costuma explicar-se pela progressão dos sapiens pela Europa fora, substituindo gradualmente os primos devido à vantagem competitiva. A famosa "criança de Lapedo" levanta mesmo a hipótese de ter havido aqui contacto genético entre as duas espécies.
Querem ver que as nossas dificuldades competitivas e de inovação ainda acabam por ser atribuídas à pré-história?
Criança de Lapedo (clique)
Blogosfera

No Mil Folhas / Público, Isabel Coutinho continua a divulgar a blogosfera portuguesa. Desta vez é o Da Literatura, de Eduardo Pitta, João Paulo Sousa, Jorge Melícias e 'valter hugo mãe'.
Isabel Coutinho destaca os comentários aos posts do blogue e pergunta: "Quem quer blogues sem reacções dos leitores?". Bem, há para aí bué...
Courrier Internacional

Com as chuvas florescem as revistas. Hoje é a "Courrier Internacional", cujo número 0 é distribuído com o Expresso.
Como refere em editorial o seu Director, Fernando Madrinha, a revista está associada à homónima francesa Courrier International, caracterizando-se assim por "reunir e editar trabalhos dos jornais de referência mais influentes e de maior tiragem a nível global, bem como de órgãos que normalmente não aparecem nos grandes circuitos comerciais de informação". A edição portuguesa é referida online aqui.
Refectindo a influência francófona, o tema de capa e de fundo é a ameaça da vitória do não nos referendos à Constituição Europeia.
Outros destaques: Dusan Sidjanki, professor em Genebra, fala do seu antigo aluno e assistente, Durão Barroso e do seu titubeante desempenho à frente da Comissão Europeia. Artigo de Mia Couto sobre a pobreza em África, com o tírtulo: "Os sete sapatos sujos" (uma espécie de sete pecados mortais que impedem os africanos de se desenvolverem). Artigo de António Guterres sobre o possível "não" francês. Uma reflexão de José Gil, da qual citamos:
"Notemos apenas, no campo dos traços pessoais que influenciam a acção política e ajudam à criação do carisma, uma virtude que o primeiro-ministro possui, muito valorizada pelos portugueses (talvez porque a eles, na sua generalidade, ela lhes falte): a obstinação, a persistência, a fidelidade sem concessões ao rumo adoptado. (Por a possuírem num grau superior, Cunhal e Cavaco são admirados pelos portugueses de todos os estratos sociais e políticos). Que a obstinação duradoira e a firmeza do engenheiro José Sócrates o ajude - e nos contamine, se vier por bem."
Assombrações
Um muito bom texto no Semiramis: "A maldição da Economia". Concordo com tudo, excepto com esta ideia: «Obviamente que são os políticos que tomam as decisões. Cabe aos economistas elencar os resultados possíveis dessas decisões».
Toda a gente toma decisões, e todas essas decisões influenciam o percurso da sociedade. A "explicação" de que são os políticos quem toma as decisões é um "modelo" demasiadamente simplista. É claro que nem todas as decisões têm o mesmo peso no curso da festividades, mas as decisões dos economistas, seja no papel de políticos acidentais, seja no de gestores, investigadores, professores, jornalistas, etç, têm mesmo muita influência na nossa sociedade. A "racionalidade" de muitas das decisões tomadas por outros agentes (nomeadamente os políticos profissionais) são muito determinadas pelas "teorias" dos economistas, nomeadamente de alguns defuntos economistas, como referiu Keynes numa conhecida frase:
«Practical men, who believe themselves to be quite exempt from any intellectual influences, are usually the slaves of some defunct economist.»Com esta frase Keynes pretenderia criticar os tais "homens práticos", mas podemos ler a frase ao contrário e ver como as ideias dos economistas, mesmo depois de mortos, continuam a assombrar o mundo dos vivos.
sexta-feira, abril 01, 2005
Mecano
![]() ![]() Untitled
Um dos melhores brinquedos que tive foi uma caixa da Meccano, conjunto de pequenas peças metálicas modulares, incluindo parafusos e porcas, com que se podiam conceber os mais estravagantes objectos. A história da banda holandesa Mecano também está associada àquele brinquedo: o fundador do grupo, Dirk Polak, encontrou em 1977 um manual da Meccano e foi "atingido" pela visão de um "mundo inteiramente construído com peças Meccano, na pintura, na escultura e até em música e letras de canções". Polak passou a pintar influenciado por aquela visão (ver aqui); mais tarde decidiu formar a banda. Os Mecano descrevem-se a si próprios como um grupo new wave, deixando o punk para trás, acrescentando-lhe poesia e arranjos pouco usuais (...) influenciado por poetas como Andre Breton, Paul Eluard e, sobretudo, o poeta russo Maiakovski. Outras músicas dos Mecano podem ser escutadas aqui. Existe uma banda espanhola com o mesmo nome, mas são de outra onda. |
Metal luzente e louro
Portugal vai receber 6 milhões de euros pelas jóias da Corôa roubadas em 2002 na Holanda. A coisa vem mesmo a calhar, pois equivale a uma venda de património que, de outro modo, seria impossível de realizar. Até parece que foi de propósito.
O economista Miguel Cadilhe anda também a propor a venda de parte das reservas em ouro para financiar uma reforma "brutal" da administração pública; como ninguém lhe liga, a solução poderá ser o roubo do ouro algures, com a subsequente indemnização.
A propósito: Cadilhe propõe a constituição de uma comissão de independentes para gerir a operação. Estarão os governantes tão mal vistos que já nem o "metal luzente e louro" lhes podemos confiar ?
Atlântico: primeiras reacções
Continuando o post de ontem sobre a revista "Atlântico", encontrei informações detalhadas sobre a referida publicação nesta notícia do Público, do jornalista Marco Monteiro Cândido.
Como referi, esfrego as mãos de contente à espera das reacções da esquerda, particularmente do Eduardo Prado Coelho. Aguardo especialmente as reacções ao artigo de Rui Ramos, "José Sócrates na Ilha da Páscoa" que, para além de um delicioso humor, constitui um libelo de acusação ao programa político da esquerda - e está muito bem escrito.
Uma primera reacção à revista pode ser encontrada no Blogue de Esquerda, pela mão de Jorge Palinhos. Título do comentário: "Naufrágio no Atlântico".
Este comentário desilude muito, pela sua superficialidade e insulto gratuito: considera que a revista um "plágio" da "The Atlantic", mas feita por "amadores subfinanciados", que a primeira página é "pirosísima", e parece encanitar-se com o facto dos colaboradores parecerem "ter sido todos recrutados na blogosfera dextra portuguesa". O Acidental respondeu assim.
Mas, depois, lá admite que "isto são apenas circunlóquios, pois o que verdadeiramente interessa é a qualidade de escrita, o rigor da informação, a clareza e frescura das ideias expressas". Porém, quanto a isto, pouco adianta, limitando-se a transcrever "várias primeiras frases de alguns artigos" da revista "escolhidos aleatoriamente"; achará Jorge Palinhos que citar umas quantas frases mostra à evidência que os artigos (e a revista) não prestam ? Ou, simplesmente, não teve tempo para digerir tudo ?
O certo é que Jorge Palinhos se "esquece" de citar os dois mais importantes artigos: o de Paulo Tunhas sobre o "narcisismo" dos intelectuais ocidentais e o já referido "José Sócrates na Ilha da Páscoa", de Rui Ramos. Assim, e ao contrário do Bloguítica, não me parece que esta seja uma "crítica equilibrada".
Ou seja:
Aguardam-se pois comentários mais estruturados, subsequentes a leituras mais demoradas.
Adenda: noutro post de ontem, Jorge Palinhos admite que a revista inclui "duas ou três peças que me pareceram de algum mérito: um ataque ao Sócrates do Rui Ramos, um artigo sobre a Guerra do Vietnam do Luciano Amaral e um ensaio do Paulo Tunhas. Mas apostava um bilhete para a Festa do Avante com o PPM em como seria capaz de prever boa parte da argumentação e das conclusões destes artigos sem mesmo os ler."
Mas que argumentação é esta ? Afinal leu ou não os artigos ? Se não os leu, como sabe que possuem "algum mérito" ? Se leu, para quê a aposta ? E o facto de ele, Jorge Palinhos, poder prever "boa parte da argumentação", é isso critério de qualificação/desqualificação dos artigos ?
Vá lá, rapazes, um pouco mais de esforço!
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