sexta-feira, junho 15, 2007

Aeroporto


Tubarão de Alcochete engolindo uma marm'Ota

O fórum de debate da TSF de hoje centrou-se numa questão minorca: deveriam ter sido divulgados os nomes dos empresários que financiaram o recente estudo da CIP sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa?

Creio que a "questão" surgiu por causa da reacção do lóbi da Ota, que a enunciou insistentemente: "queremos saber quem pagou os estudos!"

É sintomático que este lóbi não consiga apresentar argumentos positivos (no sentido de mostrar porque que é que o aeroporto deve ser construído na Ota) e só tenha recorrido a weak arguments, a saber:
  • insinuação de que por detrás do estudo da CIP estariam "interesses" obscuros
  • solene aviso ao Governo de que, ao recuar da posição "Margem Sul - jamé!", perde autoridade
  • choradinho de que, sem aeroporto, a zona definha

  • Mas tendo a TSF decidido levar a "questão" ao seu fórum, foram curiosas as insinuações de que ali devia haver "gato", pois os empresários "só querem é lucro". É a endémica síndrome do empresário-explorador, contraída pelo país na última revolução, que volta a atacar. Até o comunista Demétrio Alves, recentemente despedido da falida Setúbal-Polis, veio às hertzianas dizer que "não há almoços grátis", aproveitando para "denunciar" que grande parte das cerimónias do 10 de Junho em Setúbal fora também financiada por empresas privadas. Ora eu lembrei-me de várias possibilidades em que, mesmo aceitando que "não há almoços grátis", o financiamento dos empresários pode ter utilidade pública:
  • as empresas também podem ter um papel cívico. Eu sei que Friedman diz que pedir a uma empresa para ter uma responsabilidade social é o tão absurdo como pedi-lo a um prédio, mas as empresas são, essencialmente, pessoas, e impensável seria que a condição humana não extravazasse para a conta corrente da empresa; tanto no bom sentido (filantropia, p.ex.) como no mau (corrupção visando ganhos pessoais, etc).
  • as empresas têm a ganhar se o país for mais eficiente e competitivo em termos das grandes redes de transportes;
  • uma empresa pode ter um interesse muito particular numa dada localização do aeroporto (na Ota, Alcochete, ou alhures) e mesmo assim esse interesse coincidir com o do país; impossível seria encontrar um sítio onde esses interesses inexistissem; desse ponto de vista, Alcochete, com o peso de terrenos já públicos, é até o local que os minimiza.

  • Por tudo isto vejo a coisa mal parada para o lado da Ota. Devo confessar que a perspectiva do aeroporto no Poceirão nunca me entusiasmou, por uma razão meramente egoísta: o ruído. Mas para lá de Alcochete (como é o campo de tiro) a coisa melhora. Tenho pena que terminem as magníficas vistas das aterragens sobre o rio e a cidade de Lisboa, mas isso não chega para me transformar num Portelómano. Como nunca fui Otómano, fico-me a cantar:

    Toma lá Alcochetes d'oiro
    Toma lá meu bem!...

    2 comentários:

    Anónimo disse...

    Gostaria de o esclarecer,caro Aldeia, pressupondo-o como pessoa de bem a quem interessa o rigor, que eu "Não fui despedido" como você, com alguma ligeireza,afirma no seu texto.De facto, fui eu que pedi a demissão, porque quiz, pelos motivos que então referi, e por outros que entendi não divulgar. Depois, eu não denunciei coisa nenhuma; limitei-me a reproduzir notícias e afirmações públicas da CMS. É pena que não me tenha citado em coisas bem mais substanciais que eu já esvrevi sobre a problemática do NAL. Enfim, por vezes a ligeireza dá jeito, não é verdade!!
    Demétrio Alves

    J.A. disse...

    Caro Demétrio Alves: ainda que a expressão que utilizei seja um pouco agreste, corresponde à explicação que o engº Demétrio Alves deu aos jornais após a sua saída, onde acentuou que tinha vindo a sentir pressões da parte do Presidente da Setubal-Polis (Eng. Fonseca Ferreira). Formalmente, apresentou a demissão, é verdade, e essa atitude tem o seu mérito. Mas creio que foi pressionado nesse sentido — o que aliás não abona muito em favor do Presidente da empresa, que, em última análise, será o responsável pelo colapso do projecto, ainda agravado após a saída do eng. Demétrio Alves.

    Não me tenho pronunciado sobre o NAL por não ter conhecimentos suficientes um assunto tão complexo. E mesmo este meu texto, nem sequer é directamente sobre o NAL, mas sim sobre esta mania portuguesa de ver conspirações malévolas em tudo, sobretudo quando há empresas envolvidas. Certamente que há interesses (podemos chamar-lhe egoístas) em todos os negócios dos humanos, mas isso deve ser tratado como algo inerente à sociedade, e não como uma luta entre o "bem" e o "mal" (coisa que herdámos da Religião, mas que foi retomado com sucesso pelo Comunismo).

    Agradeço a sua atenção e o seu comentário.