quinta-feira, junho 14, 2007

A classe ociosa

     «Em 1965, o homem médio [nos EUA] gastava 42 h por semana a trabalhar no escritório ou na fábrica; se juntarmos pausas para café, para almoço, e deslocações de e para o trabalho, atingem-se as 51 horas. Actualmente, em lugar destas 42 e 51 horas, gasta 36 e 40. E onde ocupa ele o tempo livre extra? Uma pequena parte em compras, outra pequena parte em trabalhos domésticos, e uma grande parte a ver TV, ler o jornal, ir a festas, descansar, ir a bares, jogar golfe, navegar na Net, visitar amigos e praticar sexo. No conjunto, dependendo do que se considerar, tem mais 6 a 8 horas por semana para lazer: o equivalente a nove semanas extra de férias por ano.
     «Quanto às mulheres [nos EUA], o tempo que gastavam no emprego ia de 17 a 24 horas por semana. Com pausas e deslocações, os valores sobem para 20 e 26 h, respectivamente. Mas o tempo gasto em tarefas caseiras desceu de 35 horas por semana para 22, um ganho líquido de 4 a 6 horas, ou o equivalente a 5 semanas de férias extra.
     «Uma pequena parte destas mudanças deve-se a factores demográficos: o americano médio é mais velho e tem menos filhos, actualmente, por isso não surpreende que trabalhe menos. Mas mesmo quando se comparam os modernos americanos com a mesma dimensão familiar, idade e nível educacional, os ganhos continuam a ser da ordem das 4 a 8 horas por semana, qualquer coisa como 7 semanas extra de férias por ano.
     «Mas não acontece assim com todos. Cerca de 10% continuam em 1965, em temos de tempo de lazer. No extremo oposto, outros 10% ganharam umas espantosas 14 horas por semana, ou mesmo mais. Dum modo geral, os maiores ganhos de tempo de lazer foram precisamente para aqueles com rendimentos mais estagnados — ou seja, os menos capacitados e com menor nível educacional. Simetricamente, os menores ganhos de tempo de lazer concentram-se nas pessoas com maior nível educacional — o mesmo grupo que teve os maiores ganhos de rendimento.
     «Aguiar and Hurst [autores do paper Mesuring Trends in Leisure] não conseguem explicar esta crescente desigualdade, tal como ninguém consegue explicar totalmente a crescente desigualdade nos rendimentos.»

Steven E. Landsburg, Slate
"The Theory of the Leisure Class"

4 comentários:

Rui Fonseca disse...

A VANTAGEM DOS POBRES

De vez em quando, os cientistas surpreendem-nos (melhor dizendo, a natureza não pára de nos surpreender) com descobertas que mudam a nossa visão do mundo. Hoje mesmo, foi notícia a publicação de um "paper" que dá conta das conclusões a que chegou um mega-grupo de cientistas (35 equipas de 80 instituições) acerca daquilo que, até agora, era considerado pela comunidade científica "lixo" na cadeia do ADN, qualquer coisa como 98% da sua composição. A descoberta agora revelada conclui que o tal "lixo" é tão fundamental à vida como os 2% do genoma, que determinam a produção de proteínas essenciais à vida.
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Fazendo pela vida, vão também tentando descortinar os cientistas sociais algumas suspresas que desafiem o senso comum.
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Ciência? Quando falamos de ciência, falamos de quê? Em sentido muito lato, ciência é o "conhecimento atento e aprofundado de alguma coisa"(Houaiss), não sendo, nesta acepção descabido considerar científico o "paper", que a seguir se transcreve, e que conclui que, se os que auferem menos rendimentos (nos EUA) têm visto alargar-se o intervalo que os separa dos que mais ganham, também, por outro lado, se tem alargado o intervalo, entre uns e outros, do tempo de trabalho e, consequentemente, de lazer, mas, neste caso favorável aos mais desfavorecidos em termos de rendimento. Resumindo: Os que mais ganham são também os que mais horas trabalham, ainda que todos estejam a ganhar mais e a trabalhar menos; os que menos ganham são os que mais tempo têm de lazer.
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Os autores do estudo não conseguiram, contudo, encontrar explicações para este resultado inesperado, para eles, pelo menos.
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Tenho as maiores dúvidas que este resultado seja válido qualquer que seja o universo de indivíduos considerado ou o tempo em que se observa. O mesmo método de análise aplicado à actual comunidade chinesa de Xangai provavelmente conduzirá a resultados diferentes. Em qualquer caso, contudo, uma lei (da oferta e procura) parece-me explicar perfeitamente as conclusões do estudo em causa: a uma redução da oferta de emprego corresponde uma contracção (ou menor expansão) do valor dos salários e a uma redução (maior ou menor) das horas trabalhadas. Rendimentos e horas trabalhadas correlacionam-se em consequência da oferta. Encontrando-se as funções menos qualificadas sujeitas a uma maior procura (pelos trabalhadores), em consequência da globalização ou da emigração, serão os trabalhadores menos qualificados aqueles que verão os seus rendimentos crescer menos e menores as suas oportunidades (ou interesses) de ganhar. O déficit comercial norte-americano com a China poderá explicar, em parte, por que razão os chineses menos qualificados, provavelmente, trabalharão muito mais horas que os chineses afluentes.
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E só por ironia se pode concluir que rendimento e lazer se podem contrabalançar em termos de vantagens: se assim fosse, seriam enormemente felizes os desempregados pobres.

Rui Fonseca disse...

Tomei a liberdade de comentar nas minhas palavras cruzadas (vd. homepage) este seu "post" nos termos que a seguir transcrevo.

J.A. disse...

Tudo bem. Quanto ao estudo, é sempre bom lembrar o aforismo de Ronald Coase: se torturarmos os dados durante tempo suficiente, eles acabarão por confessar.

J.A. disse...

Há uma possível explicação para isto: o custo de oportunidade. Esse custo é maior para os que ganham mais. Não se podem dar ao luxo de não trabalhar mais umas horinhas...