quinta-feira, julho 21, 2005

Ouvidos com paredes: José Cid no índex (*)


José Cid tem uma carreira longa, iniciada em 1956, quando fundou o grupo "Babies". Em 1960 seguiu-se o "Conjunto Orfeão", com os conhecidos José Niza e Proença de Carvalho (actualmente advogado).

Mas é em 1966, com a criação do ""Quarteto 1111"" e a composição de "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" que o país toma conhecimento de José Cid. O impacto é tão grande que o programa de rádio "Em Órbita", exclusivamente dedicado à música pop-rock de expressão anglo-saxónica, abre um excepção (a única) para emitir uma música portuguesa. É de referir que os padrões de qualidade do "Em Órbita" eram elevados, tendo contribuído para divulgar em Portugal nomes como o de Bob Dylan, Donovan, Joan Baez, etç.

A excepcionalidade da transmissão desta canção justificou a leitura prévia de um comunicado (disponível aqui), lido pelo locutor João Mota, que corporiza um autêntico manifesto para uma nova música popular portuguesa. Entre os "requisitos mínimos" deste manifesto estavam:
1 ° - Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.

2° - Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.

3° - Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Bênidorm.

4° -Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse de forma a não deixar dúvidas, apelando a uma imitação grotesca que se faz no estrangeiro, quer na forma de copia pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
E o comunicado adiantava ainda mais: "O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país."

Estas eram algumas das qualidades atribuídas pelo "Em Órbita" à composição de José Cid. Algumas pessoas poderão considerar o episódio algo ridículo, mas isso deve alertá-las para o seguinte: talvez as posições que defendem hoje venham a ser consideradas igualmente ridículas.

Em Agosto de 1969 José Cid tentou organizar o primeiro festival pop-rock em Portugal, no Estoril (parque dos Salesianos); a proibição em cima da hora irritou a assistência, que queimou umas quantas cadeiras, seguindo-se a intervenção da polícia de choque, com escaramuças que se prolongaram palas ruas do Estoril (ver aqui). Nesse mesmo mês de Agosto teve lugar nos EUA o mítico Festival de Woodstock. Portugal terá de esperá por 1971 para ter o seu Woodstock, o Vilar de Mouros de 1971, onde o "Quarteto 1111" também participou.

Ainda em 1969 José Cid grava o seu primeiro disco a solo, "Lisboa Camarada", que é proibído pela censura. Também nesse ano o "Quarteto 1111" grava o seu primeiro LP, com o nome do grupo, que é lançado no início de 1970 e imediatamente proibido, com apreensão dos exemplares prensados. Trata-se de um álbum conceptual, com um fio condutor em torno dos temas da emigração, do racismo e da guerra. A canção com o título "A Lenda de Nambuangongo" (nome mítico da zona de Angola onde eclodiu a guerra) fala expressamente da guerra e termina com uma mensagem de paz forçada pela natureza:
E o vento rugindo (...)
fendeu a montanha

De dentro saíram
na raça irmanados
indígenas brancos
e negros soldados
Era demais para a censura. Mas também não era exactamente a "mensagem" da esquerda estudantil contestatária (na linha do Maio de 68) ou da oposição comunista, que preferia uma emancipação pura dos africanos, e não essa coisa de "braço dado". Este disco inclui ainda a primeira edição da canção "Trova do Vento que Passa", de Manuel Alegre e Adriano Correia de Oliveira.

Trata-se de um disco de grande qualidade musical, tanto nos temas melódicos como nos arranjos, execução instrumental e qualidade de gravação. Uma obra-prima do pop-rock português que ficou na gaveta. A PIDE não gostou. Mas a esquerda também não: haveria de preferir as baladas chatas e soturnas, mais de acordo com o "realismo popular" soviético, que era o que passava nas sessões musicais clandestinas promovidas pelas associações de estudantes.

Com o 25 de Abril chegou a grande radicalização: numa discussão do tipo "qual o detergente que lava mais branco", a esquerda radical só considerava legítimo o pessoal do Canto Livre (Zeca Afonso, Adriano, etç.) considerado mais "consequente", com desprezo por todos aqueles que tinham, por exemplo, participado nos Festivais da Canção: tal era o caso de José Cid.

Por esta altura, é certo, já José Cid tinha criado os "Green Windows", uma variante do "Quarteto 1111" com coros femininos e a cantar em inglês, para tentar entrar no mercado internacional: uma espécie de "Abba à portuguesa". Obtém grande sucesso comercial com "20 anos", porém a inteligentzia não mais perdoará a José Cid, que passará a ficar rotulado como cantor "comercial" e de gosto duvidoso.

Sobre esses "20 anos" já passaram outros 30 anos. Mortos os "Abba", já a elite musical os reconhece como um "grupo importante", elogiado um pouco por todo o lado.

Em 1978 Cid gravou nova obra prima: o LP "10,000 Anos Depois Entre Venus e Marte", considerado hoje uma das melhores obras de rock progressivo em todo o mundo. E assim estamos nós: um dos nossos mais criativos artistas, e com maior sucesso, tanto no país como no exterior, considerado aqui como um artista sem qualidade. Creio que isto diz muito sobre o país que somos. Eu próprio alimentei esse preconceito. Mas não há maneira de esconder a idiotice desta atitude.

É certo que José Cid parece ter uma febre por acompanhar tudo o que é novidade: ainda recentemente o ouvi na rádio dizer que estava a seguir uma nova corrente, o "etno rock". Esta deriva constante pode ter contribuído para alienar muitos dos admiradores que foi entretanto conquistanto: a inovação na música (como noutras áreas) não é apreciada no nosso país.

José Cid bem se queixa da injustiça com que é tratado, mas não tem hipótese: os "heróis" desta telenovela musical nunca se auto-promovem: esse é um trabalho reservado para alguns corifeus.

Há uma semana, no programa "O Amigo da Música", o ouvinte convidado passou, como uma das "músicas da sua vida", um tema de José Cid - precisamente os "20 anos". Foi quanto bastou para a Antena 1 receber emails de ouvintes indignados com o facto. Acharam, certamente, que José Cid não tem "cabidela" num programa de qualidade.

Eis o que somos: um país com a censura na cabeça de cada um. No programa em que participei, José Nuno Martins citou uma frase do Maio de 68: "As paredes têm ouvidos. Os ouvidos têm paredes". Creio que é isto que explica a censura da intelectualidade portuguesa a José Cid.


(*) Índex: designação da lista de livros proibidos pela Inquisição; por analogia: lista de obras ou autores proibidos.

Adenda - referi o caso de José Cid, mas poderia também ter referido o de Lena d'Água, que parece não "passar" no crivo da "qualidade" cultural da nossa intelligenzia; Lena d'Água tem um blogue intimista, assumidamente para falar da sua música e de si (como são todos os blogues, embora a maioria se disfarce de púlpito da boa moral). Bastou uma referência aqui a esse blogue para logo alguém ter ficado ofendido. Pois volto a conselhar uma visita ao blogue da Lena d'Água, que agora também disponibiliza canções da Lena, tais como as excelentes "Armagedon" ou "Redondo Vocábulo" e, sobretudo, "Laura" (com Jorge Palma).

11 comentários:

Rui Pedro disse...

Muito bom o seu post! A censura, auto-imposta ou alheia, amordaça e impede um juízo justo.

AMN disse...

Concordo com tudo, inclusivamente com o reconhecimento devido à música da Lena D'Água. Um abraço
Adolfo

Cú disse...

Post muito actual se considerarmos o momento em que os mortos se estão a levantar dos túmulos, como o recente anúncio de Mário Soares à Presidência.
Pena que o postador não saiba copiar a palavra "requisitos" e a "corrija" para "requesitos".

J.A. disse...

Que magnífica argumentação! E não um - o que já seria extraordinário - mas dois argumentos irrefutáveis!

E que maestria e elegância: uma analogia de grande profundidade conceptual, e a detecção de um erro estrutural, com o que toda a argumentação dispendida cai por terra!...

É uma crítica sólida e sonora mas, vinda do local assinalado, até que nem é de admirar assim tanto.

Colonel Kurtz disse...

lacarote no cabelo, la la la la la la
hoje,ontem e amanha...

C INDICO disse...

Há uns anos li algo relacionado com um ranking dos 100 melhores álbuns de musica Rock, no mundo, e um disco do Cid estava incluido.
Será verdade?

J.A. disse...

Deve ser o LP "10.000 Anos Depois Entre Venus e Marte", de 1978, considerado uma das melhores obras de rock progressivo em todo o mundo. Aparece em vários rankings.

Eu considero melhor o LP de 1970, com o título "Quarteto 1111", mas como se tratou de um disco apreendido pela censura, quase não teve divulgação, nem mesmo em Portugal, onde muito pouca gente ouviu sequer falar dele.

Januário disse...

Excelente Post. A memória nacional é curta, sem dúvida.

jpt disse...

excelente post. obrigado por lembrar essas paredes

kimikkal disse...

Um post muito interessante com alguns aspectos que gostaria de comentar, pois vai de encontro ao que estou a fazer/descobrir através do meu blog sobre a música portuguesa pré-1980:
1 - A importância de "A lenda de El-Rei D. Sebastião" na música portuguesa;
2 - O Quarteto 1111 esteve na linha da frente da contestação ao regime, não sendo uma banda de teor anódino;
3 - O Realismo Popular/Canto Livre, no qual Portugal teve muitos nobres representantes nos anos 70, abafou a produção pop/rock portuguesa de então;
4 - O valor de "10,000 Anos Depois Entre Venus e Marte" de José Cid(dentro de dias irei referir este disco no meu blog);
5 - A má gestão de carreira do José Cid a partir dos anos 80;
6 - Os preconceitos de muita gente relativamente a certos artistas, principalmente derivado do desconhecimento da sua obra. (exemplos: Sabiam que Cândida Bran-Flor participou na lendária Banda do Casaco?

Anónimo disse...

"...in the beautiful fields of America... California girls... the texas cowboy... stereets of Filadelphia... la-la-la... RADIO CLUBE POR-TU-GUÊÊÊÊS..." AHAHAHAHAHAH, mijo-me a rir quando os bacanos dizem isto. Nunca ouvi José Cid nesta estação, embora os meus colegas de trabalho me torturem com esta sucessão repetitiva de lenga-lengas americanas antigas todos os dias... Na rádio agora só gosto do canal OFF.