quinta-feira, julho 21, 2005

O Amigo da Música


Este J.A. que aqui habitualmente escreve, vai participar no programa "O Amigo da Música", de José Nuno Martins, na Antena 1. Trata-se de uma amigável e agradável conversa sobre algumas das "canções da minha vida". O programa será emitido no próximo Domingo às 12 horas (e creio que repete na 5ª feira às 00.10) mas como já foi previamente gravado, posso dar uma ideia sobre o seu conteúdo, nomeadamente acerca das canções incluídas.

Como facilmente se poderá confirmar, os temas escolhidos por mim para representar o meu percurso de ouvinte da rádio, foram na realidade "escolhidos" por pessoas como o José Nuno Martins e outros que, desde os anos 60, formaram a minha cultura musical através de notáveis programas de rádio - programas informados, cultos, democráticos, divertidos e ousados. Tratou-se, portanto, de um reencontro entre pessoas que nunca se tinham visto face a face, mas que tinham dialogado bastante através dos "cantores do rádio".

No programa também se falou da blogosfera e da protecção dos direitos autorais, mas sobre esse tema farei um post específico. Também escreverei um post sobre José Cid: um caso de talento sub-valorizado pela minha geração, com prejuízo, sobretudo, para nós próprios.

As canções por mim escolhidas - dentro da única limitação colocada, o serem de expressão latina - foram:

  • "Tu nombre me sabe a yerba" de Joan Manuel Serrat - eu pretendia "O Ferro Velho", num LP de 1969, integralmente cantado em português, por um catalão que raramente cantou noutras línguas que não a sua e o castelhano. Traduções das letras revistas por Alexandre O'Neill. Infelizmente não foi possível encontrar este disco; em alternativa passou a magnífica "Tu nombre me sabe a yerba".

  • "Canção Nordestina" de Geraldo Vandré - desde que ouvi pela primeira vez esta canção, num pequeno rádio, não mais a esqueci, durante os vários anos que se passaram até a escutar de novo; nesse tempo não dispunha de meios de reprodução, gira-discos ou gravador, pelo que cada audição era preciosa. Quanto à canção: o tom de lamento, as imagens fortes do abandono, da seca, do efeito terrível sobre as pessoas ("menino de pé no chão/já não sabe nem chorar") e, sobretudo, aquele "Ai" no penúltimo verso – tudo isso contribuíu para uma primeira impressão indelével. Geraldo Vandré é mais conhecido pela balada "Para não dizer que não falei de flores" (cuja interpretação ao vivo no Maracanãzinho, acompanhado em uníssono pelo público, é um dos mais emocionais momentos da história da música brasileira) mas, para mim, será sempre e essencialmente o autor e intérprete de "Canção Nordestina"

  • "Tropicália" de Caetano Veloso - um dos hinos do Tropicalismo, que viria a dar lugar a um curioso incidente, em 1969, no castelo de Sesimbra, com o meu amigo Rafael Monteiro, que lhe "reinventou" a canção, numa inesperada e insólita interpretação, de tal forma convincente que deixou Caetano Veloso na dúvida. Caetano estava em Portugal com Gilberto Gil, de passagem para Londres, a caminho do exílio imposto pelos militares, mas o episódio marcou-o de tal forma que lhe dedica amplo espaço no seu livro "Verdade Tropical".

    Rafael Monteiro pertencia ao grupo da "Filosofia Portuguesa" (de Álvaro Ribeiro e Agostinho da Silva, entre outros). Caetano, como aluno de filosofia na universidade de Salvador, tinha conhecido Agostinho e contactado com esta corrente filosófica, o que contribuíu ainda mais para a surpresa do cantor.

    Esta passagem de Caetano por Portugal (no início de 1969) também é referida por Nelson Motta no livro "Noites Tropicais", onde conta como, em lua-de-mel, se cruzou no Bairro Alto com Gil e Caetano, enquanto a malta do bairro atirava bocas ao baiano pela sua indumentária hippie - e Caetano ria.

  • "Andaluces de Jaen" de Paco Ibañez, com letra do poeta Miguel Hernández - uma elegia "brechtiana" dos trabalhadores dos olivais andaluzes, "aceituneros altivos":
    ¡Cuántos siglos de aceituna,
    los pies y las manos presos,
    sol a sol y luna a luna,
    pesan sobre vuestros huesos!
    Andaluces de Jaén,
    ...
    de quién son estos olivos?
    Como recordou José Nuno Martins, Miguel Hernández foi encarcerado pelos fascistas de Franco, após ter sido rechaçado quando buscava abrigo na terra portuguesa, vindo a morrer no cárcere (*). Por isso o violoncelo da canção talvez também chore por nós.

  • "Flor de Laranjeira" da Filarmónica Fraude - música pop/rock cantada em português, uma crítica soixante-huitard a um casamento burguês, com sugestões rítmicas do folclore nacional e coros à "beatles".

  • "João Nada" do Quarteto 1111 - esta canção extraordinária é de um disco de 1970 proibido pela censura: um álbum conceptual sobre - e contra - a emigração, o racismo e a guerra colonial; inclui a primeira gravação da "Trova do Vento que Passa", da autoria de Manuel Alegre e Adriano. José Cid esteve quase sempre na vanguarda musical – tal como acontece neste disco – mas talvez tenha sido essa incessante busca que o tenha afastado sucessivamente dos públicos que ia conquistando. Ou talvez tenha sido a nossa hipocrisia. (tema a desenvolver noutro post).

    Já não houve tempo para o último tema:

  • "Maré Alta" de Sérgio Godinho - Um puro rock ao serviço da revolução. Isto em 1972 - e ainda há quem diga que Rui Veloso é o "pai do rock português". Um ritmo alucinante para uma premonitória canção que se liga, na minha memória, aos dias da "cantina nova" de Económicas.



    (*) - "El fin de la guerra civil [1939], va a cambiar toda su vida. Comienza la retirada y el exilio de intelectuales. Miguel no se asila en la embajada de Chile, como se lo ofreció. Va a su pueblo [Orihuela - Alicante], luego a Sevilla, intenta pasar a Portugal, pero es detenido por la policia de aquel país, que lo devolvió a la guardia civil española, dando inicio así a su durísimo calvario. (...) Muere en el 28 de Marzo de 1942, a las cinco y media de la mañana, com treinta y un años de edad." in biografia
  • 2 comentários:

    Anónimo disse...

    Caro João
    Estava para lhe escrever há semanas mas as férias afastaram-me do computador. Chamo-me Isabel Oliveira, habito em Setúbal (onde, aliás, já me cruzei consigo em alguns eventos culturais) e também eu passei pelo programa do José Nuno.
    Pela audição do seu programa e pela leitura do seu texto posso perceber que gostou da experiência. Se for o caso não está só... eu diverti-
    -me imenso, tanto mais que a minha existência é bem mais pacata e oculta que a sua (não escrevo publicamente, por exemplo) e a gravação foi uma lufada de ar fresco na minha vida (nunca tinha entrado numa estação de rádio, ou conversado com um "ídolo" radiofónico de juventude...) Lamento imenso que tenhamos que ouvir sempre a mesma música formatada (mesmo na Antena 1 já se submeteram às "listas") e que não hja mais programas "de autor", como este onde participámos.
    Cumprimentos

    J.A. disse...

    Isabel:
    Agradeço o seu comentário. Eu também me diverti bastante no programa. Creio que não tive oportunidade de ouvir o seu programa, infelizmente. Se lhe vierem a entregar uma gravação do seu programa (a mim disseram-me que me enviariam depois um CD) pode ser que me possa facultar uma cópia.

    Cordiais saudações.