segunda-feira, setembro 05, 2005

Deamonte Love, família e amigos

© Mark Boster / LAT«No caos da Avenida Causeway surgiu este grupo de refugiados: um miúdo de 6 anos vinha estrada fora, segurando uma criança de 5 meses, rodeado por 5 outras crianças de andar titubeante e que o seguiam como se fosse o líder. Vinham todos de mãos dadas. Três das crianças tinham cerca de 2 anos, uma delas apenas com fraldas. Uma miúda de 3 anos, com totós coloridos nos cabelos, trazia o irmão de cinco meses a reboque. O miúdo de 6 anos falou em nome do grupo e disse que se chamava Deamonte Love.

(...) No centro de gestão da crise as crianças receberam comida de cafetaria e caíram num sono profundo. Deamont revelou as suas estatísticas vitais: disse que o seu pai era alto e a mãe baixa. Deu a morada, telefone e nome da sua escola. Revelou que o garoto de 5 meses era o seu irmão, Darynael, e que dois outros eram seus primos, Tyreek and Zoria. Os outros três viviam no mesmo prédio de apartamentos.

As crianças estavam limpas e saudáveis - gorduchinho, no caso do mais novo. Joyce Miller, uma enfermeira que os examinou, achou que "tinham tomado bem conta dos miúdos". O bebé estava "gordo e feliz".

Toda a tarde e Quinta-feira, enquanto as equipas de socorro se deslocaram até à cidade inundada, o voluntário Ron Haynes brincou com uma das miúdas de 2 anos até que estivesse suficientemente calma para jantar. "Esta criança estava aterrorizada," disse ele. "Depois de ter acalmado, ficou esfomeada, esfomeada, esfomeada."

À medida que informações pouco confortantes chegavam da cidade, uma mulher desatou a chorar ao pensar que as crianças teriam sido abandonadas em Nova Orleães. Nessa mesma noite receberam uma notícia encorajadora: uma mulher do abrigo de Thibodeaux andava à procura de um grupo de sete crianças: as pessoas começaram a bater palmas. Mas quando falaram com a mãe ao telefone perceberam que se tratava de uma outra família.

As crianças foram transferidas para um abrigo gerido pelo Departamento dos Serviços Sociais (DSS), com quartos cheios de brinquedos e berços onde responsáveis do Big Buddy Program estavam dia e noite. Nos dois dias seguintes os responsáveis andaram a fazer trabalho de detective.

Uma das miúdas de dois anos recusou-se a dizer o seu nome, até que uma das auxiliares lhe tirou uma fotografia com uma câmara digital e lhe mostrou. A criança apontou a fotografia e gritou: "Gabby!" Um dos rapazes - de cabelo encaracolado - tinha um G na sua T-shirt quando chegara. Quando os voluntários começaram a chamar-lhe "G", repararam que ele reagia.

Deamonte começou a dar mais detalhes a Derrick Robertson, um monitor do Big Buddy Program: como vira a mãe chorar quanto o colocaram no helicóptero. Como lhe prometeu que tomaria conta do irmão mais pequeno.

Sabado à noite, já tarde, encontraram finalmente a mãe de Deamonte, que estava num abrigo em San Antonio (Texas), juntamente com as quatro mães das outras cinco crianças. Catrina Williams, de 26 anos, vira as fotografias das crianças num website disponibilizado durante o fim-de-semana pelo National Center for Missing and Exploited Children No domingo, um avião privado da Angel Flight aguardava para levar as crianças para o Texas

Numa entrevista por telefone, Williams disse que ela é o tipo de mãe que não deixa as crianças fora de vista. O que acontecera na terça-feira, depois do furacão, foi que a sua família, bloqueada num edifício de apartamentos, começou a ficar desesperada.

A água não descia e encontravam-se sem electricidade, comida ou ar condicionado, durante 4 dias. As crianças necessitavam de leite e o leite acabara. Então decidiu que teriam de sair dali. Quando chegou um helicóptero, disseram-lhes para enviar primeiro as crianças e que regressariam em 25 minutos. Ela e as vizinhas tiveram de decidir rapidamente.

Foi um momento difícil. O pai de Williams, Adrian Love, disse-lhe para deixar ir as crianças adiante. "Eu disse-lhes para irem primeiro, porque eu daria a minha vida pelos meus filhos. Eles devem sentir do mesmo modo", disse Love, de 48 anos. Todos choravam. "Eu disse: deixem ir as crianças".

A sua filha e as amigas seguiram o conselho. "Fizemos o que tinhamos de fazer pelos nossos filhos, porque os amamos" disse Williams. Mas o helicóptero não voltou. Enquanto as crianças eram levadas para Baton Rouge, os pais acabaram por ir parar ao Texas, e embora tivessem garantido a Williams que a família seria reunida, passaram dias sem qualquer contacto. Finalmente, no Domingo, pôde dar largas à sua alegria. "Tudo o que sei é que quero ver os meus filhos," disse ela. "O resto não interessa nada."

Às 3 da tarde de Domingo o pessoal da DSS disse adeus às sete crianças que agora já tinham nomes: Deamonte Love, Darynael Love, Zoria Love e o irmão Tyreek. A miúda que gritara "Gabby!" era Gabrielle Janae Alexander. A miúda a quem chamavam "Peanut" era Degahney Carter. E o rapaz a quem chamavam "G" afinal era Leewood Moore Jr.» (Ellen Barry - LA Times)

1 comentário:

Rui Martins disse...

É incrível que nem hoje (dia 6/7 depois do Katrina) esteja ainda concluída a evacuação de NO! E isto na superpotência americana... Eis a prova como a guerra no Iraque e Afeganistão está a sorver todos os recursos dos EUA...