quinta-feira, Agosto 18, 2005

Pensamento Crítico ?

A capacidade para o pensamento crítico é, talvez, um dos maiores "buracos negros" do ensino português: desde logo porque pouco se fala disso. Creio que muitos professores têm deparado com este problema: incapacidade dos alunos para equacionar problemas, ou para reconhecer uma questão quando ela é colocada sob um ângulo ligeiramente diferente daquele que foi ensinada ou que consta nos manuais. Acontece isto com alunos que sabem a matéria, mas apenas se ela for apresentada de forma facilmente reconhecível. Creio que este é um sintoma típico de fracas competências de pensamento crítico: dos alunos, e talvez também dos professores.

Como não existem estudos científicos sobre o nosso ensino (apenas muitas "reformas", inspiradas sabe-se lá em quê...) não conhecemos a dimensão do problema nem a sua origem. Podemos suspeitar que a deriva pelo ensino "pós-moderno" e "hippie", com a ênfase no "prazer" em aprender (por oposição à suposta "tortura" do antigo estilo) tenha privado os alunos do desenvolvimento de capacidades críticas.

Recordo, por exemplo, como as demonstrações de teoremas (no final do secundário) eram penosas: e nós não tínhamos que as "inventar": tinhamos apenas que seguir o percurso que alguém já tinha feito. Mas tinham essa capacidade de mostrar como se podia abordar um problema de várias formas, de utilizar uma mesma ferramenta para vários fins. Alguém hoje tem que demonstrar teoremas? A suposta simplificação da aprendizagem, feita em nome (que ironia!) da luta contra o ensino "acrítico" e "de empinanço" pode mesmo ter resultado em que o ensino, hoje, seja mais de "empinanço" do que antigamente. Não é por haver livros "sedutores", carregados de imagens e caixas de texto coloridas, que a memorização de matéria deixa de ter lugar.

Na Internet encontra-se muita matéria sobre ensino e "pensamento crítico", essencialmente nos EUA. Não faço ideia se essa preocupação tem resultados efectivos na capacidade de pensamento crítico dos alunos, mas aflige-me que, aqui, isso nem sequer esteja na "agenda", como agora se usa dizer.

Alguns exemplos:

  • O "Critical Thinking Project", uma iniciativa da Washingston State University, onde se encontram vários materiais de apoio: apresentações em powerpoint, fontes de informação, textos;

  • "Critical Thinking Community", com o objectivo de melhorar o ensino aos diversos níveis; realiza conferências, formação, disponibiliza materiais de apoio (artigos, videos, etç). Inclui vários textos em espanhol, como por exemplo: El Arte de Formular Preguntas Esenciales, La Mini-Guía para el Pensamiento Crítico Conceptos y Herramientas, Cómo Estudiar y Aprender una Disciplina, Pensamiento Analítico, Cómo Mejorar el Aprendizaje Estudiantíl, Ideas Prácticas para Promover el Aprendizaje Activo y Cooperativo, Guía de los niños al pensamiento crítico);

  • "Critical Thinking: The Value and Teaching of This Objective in the Information Age", texto que se inicia com uma história curiosa: um rapaz de 14 anos que escreveu um trabalho escolar sobre o Holocausto dos Judeus, trabalho onde a certa altura se lia: "encontro três motivos para a comum, mas errada, crença de que milhões de Judeus foram mortos durante a II Guerra Mundial";

  • "Beyond Critical Thinking: A Framework for Developing the Decision-Making Skills of Secondary School Students", enfatizando três ideias: (1) a capacidade de tomada de decisão é de vital importância para o currículo escolar dos EUA; (2) a boa tomada de decisão envolve a integração de valores pessoais e sociais com factos; (3) a tomada de decisão é uma capacidade [skill] e, tal como a biologia ou o basquetebol, requer o domínio de princípios básicos e bastante prática;

  • "Rationality and its application in the idea of Critical Thinking", uma análise da relação entre os dois conceitos;

  • "Student Assumptions About Knowledge and Critical Thinking in the Accounting Classroom", análise de três estádios do processo de resolução de problemas: (1) identificação da natureza do problema (2) análise da informação e enquadramento do problema (3) formular e justificar uma opinião sobre a solução mais adequada;

  • "Critical Thinking: Teaching College and University Students to Think Critically and Evaluate", uma espécie de manual com numerosos exemplos de aplicação na sala de aula;

  • "teaching Critical Thinking: Some Lessons from Cognitive Science", seis "lições" acerca do tema: (1) Pensar críticamente é "duro" (2) A prática ajuda a aperfeiçoar (3) Praticar para transferir [de um contexto para outro] (4) Teoria prática ("o conhecimento da teoria ajuda a perceber o que se passa") (5) Fazer mapas (mapeamento da argumentação (6) Preservação das crenças (evitar o preconceito);

  • "Critical Thinking and the Internet" - lista de livros sobre o assunto;

  • "Critical Thinking articles", listagem de artigos publicados em revistas científicas;

  • "Critical Thinking books";

    Critical Thinking and Learning Critical Thinking Critical Thinking: An Introduction
    Critical Thinking: Basic Theory and Instructional Structures Critical Thinking Handbook: High School, A Guide for Redesigning Instruction Critical Thinking in the Classroom
  • 9 comentários:

    LusoFin_oBlog disse...

    Este seu post vai, parece-me um pouco na linha do "antigamente ë que era bom". Serä mesmo ou será que dantes havia menos alunos com acesso ao ensino superior e liceus, logo havia um limite à mediocridade?

    Nao sou adepto das novas teorias e concordo absolutamente que um dos maiores problemas é a falta de pensamento critico - notei a diferença quando estudei na holanda e cá. Mas era assim tao diferente, quando se era obrigado a empinar livro atras de livro? Nao foi isso que ca me ensinaram.

    Laurindinha disse...

    "A capacidade para o pensamento crítico é, talvez, um dos maiores "buracos negros" do ensino português: desde logo porque pouco se fala disso."
    Tem a certeza de que os professores "não falam disso"?

    "Como não existem estudos científicos sobre o nosso ensino (apenas muitas "reformas", inspiradas sabe-se lá em quê...) não conhecemos a dimensão do problema nem a sua origem."
    Tem a certeza de que não há estudos? Procurou-os?

    "Recordo, por exemplo, como as demonstrações de teoremas (no final do secundário) eram penosas: e nós não tínhamos que as "inventar": tinhamos apenas que seguir o percurso que alguém já tinha feito."
    Imagino que esteja a falar do ensino secundário de há mais de dez anos. Posso informá-lo que, mais recentemente, os alunos não tinham que decorar demonstrações, mas, em compensação, tinham que as "inventar" (sim!), na geometria do 9.º ano.

    Em conclusão, fala sobre o que não conhece.

    Laurindinha disse...

    Errata: Posso informá-lo de que...

    J.A. disse...

    homem_neves:
    Não, não tenho esse discurso de que "antes", ou "no meu tempo" é que era bom. Acho mesmo muito difícil comparar o ensino de agora e de há três décadas atrás, por exemplo. Mas existem certas matérias - caso da matemática - onde as dificuldades foram "alisadas"; o resultado disto é que os alunos encalham mais à frente, em níveis mais complexos da matemática.

    laurindinha: sim, falo do secundário de há mais de 10 anos. E limitei-me a fazer uma pergunta: "alguém hoje tem de demonstrar teoremas?". Agradeço a sua informação. Fiquei a saber que os alunos, mais do que demonstrar, "tinham que as "inventar" na geometria do 9.º ano". O que eu questiono, é: e faziam-no (fazem-no) ?.

    Vejo que sobre o assunto propriamente dito do post, nicles. É mesmo capaz de ser um buraco negro.

    pedro Miguel Reboredo Marques disse...

    Num ponto tem razão, a matéria "critical thinking" não existe nas escolas portuguesas, embora haja movimentações no sentido de transformar a disciplina de filosofia no estudo, avaliação e formulação do pensamento. Mas é, apesar de se poder argumentar ser um aspecto central, mais uma das matérias que se pretende que as escolas ensinem: dos primeiros socorros à literacia mediática, dos métodos contraceptivos à cultura geral (a escolher entre a cultura geral e o pensamento crítico, estou francamente do seu lado). Não há critério, pense-se em alguma coisa, por mais absurda que seja, e terá havido sempre alguém a defender o seu ensino.
    Também é verdade que a escola só ensina o que lhe pedem - e o que lhe pedem insinua-se de muitas formas, não só através de programas e documentos oficiais. A escola dedicou-se, a partir de meados de 80, de alma e coração ao ensino dos descobrimentos portugueses, descurando quase completamente outras épocas. Veja-se se a lição não foi aprendida, até com uma nota algo nacionalista. Mais recentemente, a escola tem-se dedicado à sexualidade - e a prova maior de que ela tem existido (a educação sexual) é a reacção que se tem vindo a fazer sentir, nomeadamente nos meios de comunicação social.
    Será o pensamento crítico algo desejado em Portugal, para lá dos documentos oficiais? Duvido - duvido ainda mais agora. A profusão de cursos profissionais que estão abrir nas escolas é reveladora. Não é que não seja possível conciliar um curso de natureza vocacional com o ensino do pensamento crítico, mas a ideologia por trás destes cursos é contrária ao pensamento crítico. Se é possível fazer alguma associação, a ideologia por trás da reacção à educação social é adepta do amestramento das atitudes e da capacidade de julgar e avaliar e não do pensamento crítico.
    Será preciso mais do que lamentar a ausência do ensino do pensamento crítico, será necessário desenvolver acções mais afirmativas e visíveis.
    O erro (comum) é considerar a escola portuguesa um deserto de tudo. É pelo menos razoável admitir que alguma aprendizagem de pensamento crítico (mesmo sem um programa de pensamento crítico) aconteça em 9 ou mais anos de escolaridade. Portugal cresceu, tem gente mais qualificada, atenta e crítica e com percursos diversificados e interessantes. Por pouca evolução que tenha havido, dizer que escola não tenha a sua responsabilidade nisso, ou até que tenha prejudicado! esse desenvolvimento é desonesto. Bem sei que não diz isso, mas muito do que se publica ignora completamente a escola e baseia-se em mitos, fantasmas e muito pouco em factos (exemplo: a discussão sobre o ensino do inglês ignorou quase por completo o facto de já existir em muitas escolas do 1º ciclo e até jardins de infância - públicos).
    Para terminar, estou consigo na implementação do ensino crítico ou como disciplina, ou como parte de uma ou mais disciplinas, até porque o perigo é, neste momento, de regressão.

    antónio filipe fonseca disse...

    Caro J.A.

    Qualquer atitude crítica na aprendizagem requer um bom conhecimentos das matérias. Não é porque o aluno assiste a duas ou três demonstrações diferentes do mesmo teorema que ele fica automáticamente capaz e disposto a uma atitude critica. No mínimo pode simplesmente ficar a saber que um certo teorema pode ser validado de duas ou três maneiras diferentes. A atitude crítica requer sobretudo uma relativização subjectiva das verdades ou dos factos e para ser consequente e produtiva um bom domínio, que deve ser prévio, das matérias.

    Quando você diz:

    "A suposta simplificação da aprendizagem, feita em nome (que ironia!) da luta contra o ensino "acrítico" e "de empinanço" pode mesmo ter resultado em que o ensino, hoje, seja mais de "empinanço" do que antigamente. Não é por haver livros "sedutores", carregados de imagens e caixas de texto coloridas, que a memorização de matéria deixa de ter lugar."

    Está a cair no aversão simplista aos 'bonecos', suspeito concerteza apenas para justificar de um modo coxo o trabalhão que terá tido em ler muitas páginas de texto sem um só. As figuras e os diagramas são bastante úteis para a compreensão dos fenómenos e para a sua memorização referencial, que necessárimente terá de ser préviamente bastante consolidada para poder haver uma actividade crítica consistente. Richard Feynman, por exemplo, devido à complexidade dos fenómenos que estudava teve de inventar uma notação de 'bonecos' para os poder compreender. Na altura foi muito criticado porque ninguém percebia para que serviam aquele tipo de gatafunhos. Hoje em dia é uma notação padrão na física das particulas. Quem melhor exemplo de pensamento crítico?

    O pensamento crítico não se ensina, convoca-se, mostrando como as coisas podem ás vezes ser relativas.

    J.A. disse...

    Agradeço os comentários. Esta questão é evidentemente controversa e, na falta de estudos, só se pode especular. Mas a falta desses estudos, só por si, é motivo de preocupação. São muitos os indícios de que há problemas de qualidade no ensino, e isto terá de ter uma abordagem mais séria do que simples "artigos de opinião".

    Não concordo que o pensamento crítico não se ensine. O pensamento crítico é inerente à condição humana e transmite-se socialmente, e nesse sentido pode considerar-se que toda a gente possui tal faculdade; mas pode - e deve - ser aperfeiçoada em termos formais.

    Tiago Mendes disse...

    Não tenho muito tempo para comentar mas concordo plenamente com o post (obrigado ao LA-C pelo link sugerido). A falta de autonomia de pensamente é uma das marcas da pobreza do ensino em Portugal. E essa falta de autonomia propaga-se para todas as dimensões da sociedade, em que o espírito dos "coitadinhos" e da vitimização reinam.

    IC disse...

    Não venho comentar, apenas dizer que achei o seu post importante (agradeço ao Miguel Sousa ter posto o link no blog dele). Mas sempre comento uma afirmação: a Matemática foi de facto alisada (prefito dizer a Matemática, em vez das dificuldades nela)- sob o pretexto da massificação do ensino, optou-se pelo nivelamento por baixo - e quando se faz isso em níveis de escolaridade como o 2º e o 3º Ciclos há depois consequências ("é de pequenino que se torce o pepino")