terça-feira, outubro 04, 2005

O ópio da classe média

«O retrato que faço do perfeito louco é o seguinte: ele não acredita na religião, fornecendo motivos inteiramente racionais para tal descrença. À superstição e fé cega, ele contrapõe o método científico. Mas o cepticismo humano parece estar confinado a certos domínios e é relegado para a sala de aulas. O cepticismo do meu louco sofre uma severa atrofia fora destes debates intelectuais:

«1) Ele acredita na Bolsa de Valores porque lhe dizem para o fazer - comprometendo automaticamente uma parcela da suas poupanças de reforma. E não compreende que o gestor dos seus fundos não consegue melhor do que faria a sorte - na realidade até um pouco pior, considerando as (generosas) comissões. Nem compreende que os mercados dependem mais do acaso e são mais arriscados do que ele é levado a acreditar pelos sumo-sacerdotes dos mercados financeiros.

«Ele descrê dos bispos (baseando-se no método científico) mas substitui-os pelo analista financeiro. Ele aceita as previsões de analistas financeiros e de "especialistas" - sem confirmar o seu acerto no passado e verificar os registos. Se o tivesse feito concluiria que não são melhores do que o acaso - e frequentemente são piores.

«2) Ele acredita na capacidade do governo para "prever" variáveis económicas, preços do petróleo, crescimento do PNB, ou a inflação. A Economia fornece equações muito complicadas - mas o nosso registo do sucesso das previsões é miserável. Não custa muito verificar estes factos - um simples empirismo bastaria. No entanto temos previsões dos déficites da segurança social feitos por ambos os lados (democratas e republicanos) em horizontes de trinta anos! Este Escândalo das Previsões (que eu capitalizo) é mais severo do que as religiões, simplesmente porque ele determina a política.

«3) Ele acredita nas "capacidades" dos gestores das grandes empresas e paga-lhes enormes quantias pelo seu "desempenho". Ele esquece que os contributos deles são os menos observáveis. Esta atribuição de capacidades é, na melhor das hipóteses, inconsistente - mas nunca se verifica o possível papel da sorte no seu sucesso.

«4) A sua integridade científica fá-lo regeitar a religião, mas ele acredita no economista porque a "ciência económica" inclui a palavra "ciência".

«5) Ele acredita que os meios de comunicação fornecem um relato adequado dos riscos existente no mundo. Mas não fornecem. Através daquilo a que chamo falácia narrativa, os média distorcem o nosso mapa mental do mundo, alimentando-nos com uma história que é comprimida para dentro das nossas mentes. Por exemplo, o (prevenível) cancro é que é o grande perigo - não o terrorismo. O número de pessoas mortas por furacões é mínimo quando comparado com os milhares que morrem diariamente nas camas dos hospitais. Mas estas não merecem a dignidade da notícia. A diferença entre os riscos reais, definidos actuarialmente, e a percepção dos riscos, é enorme - e, lamentavelmente, em crescimento com a globalização, os média e a nossa maior vulnerabilidade aos estímulos visuais.
(...)
«A religião fornece consolo a muitas pessoas. Em termos pessoais, tenho de admitir que sinto maior elevação em catedrais do que nas Bolsas de Valores - nem que seja por razões estéticas. Se tenho que ser crédulo relativamente a qualquer coisa, prefiro sê-lo em algo que seja menos perigoso para o meu futuro - e que alivie a minha sede de estética.

«É tempo de nos preocuparmos com o ópio da classe média.»

Nassim Taleb
"The Opiates of the Middle Classes


Nota - o título é uma paráfrase do aforismo marxista segundo o qual "A religião é o ópio do povo".

1 comentário:

António disse...

Muito interessante.
Este blogue cumpre um verdadeiro serviço público e a sua qualidade não pára de aumentar.

Muito obrigado ao seu autor.