quarta-feira, setembro 07, 2005

O que significa perder Nova Orleães

© La Belle Galerie - http://www.realpagessites.com/labellegallery/page4.html«A primeira revista literária publicada na Luisiana foi obra de negros, poetas e escritores fancófonos, que reuniram os seus trabalhos em três edições de um pequeno livro com o título L'Album Littéraire. Foi nos anos 1840 e nessa altura a cidade possuía uma classe próspera de negros livres que eram artesãos, escultores, negociantes, proprietários, trabalhadores especializados em todos os campos. Milhares de escravos viviam também à sua conta na cidade, em vários ofícios, enviando todos os meses alguns dólares para os seus proprietários.

«Isto não é para diminuir o horror do mercado de escravos no local do famoso St. Louis Hotel, ou a injustiça do trabalho escravo nas plantações, duma ponta à outra da Luisiana. É apenas para dizer que nunca foi uma questão de "tudo ou nada" nesta estranha e bela cidade
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«Através de tudo isto, a cultura negra nunca se foi abaixo na Luisiana. Na realidade, Nova Orleães tornou-se o lar de muitos negros , de um modo que talvez poucas outras cidades americanas tenham sido. A Dillard University e a Xavier University tornaram-se duas das mais importantes escolas negras da América; e logo que se venceram as batalhas contra a segregação, os negros de Nova Orleães ascenderam a todos os níveis de vida, construíndo uma visível classe média que se encontra ausente em muitas cidades do ocidente e norte da América até hoje.

Quarteirão dos escravos - St. Louis Hotel - NO«A influência dos negros na música da cidade e da nação é demasiadamente grande e conhecida para ser descrita. Foram os músicos negros que demandavam Nova Orleães que a apelidaram como "the Big Easy" porque era um sítio onde podiam sempre encontrar trabalho. Não é justo para Nova Orleães considerar o jazz e os bkues como a música do homem pobre, do oprimido.
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«Agora a Natureza fez o que a Guerra Civil não conseguiu. Agora a Natureza fez o que os motins de 1920 não conseguiram. Agora a Natureza fez o que a "vida moderna" com a sua incessante busca de eficiência não conseguiu. Fez o que nem o racismo nem a segregação conseguiram.
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«Partilho esta história por uma razão - e para responder a perguntas que surgiram nestes últimos dias. Logo que as câmaras de televisão começaram a filmar os telhados e os helicópteros a socorrer os que estavam encurralados no topo das casas, um coro de vozes ergueu-se: "Porque é que não saíram antes? Porque é que ficaram ali quando sabiam que se aproximava uma tempestade?" Um jornalista chegou mesmo a perguntar-me: "Porque é que as pessoas vivem num sítio como aquele?"
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«Bem, eis uma resposta. Milhares de pessoas não saíram antes porque não podiam sair. Não tinham o dinheiro necessário. Não tinham veículos. Não tinham nenhum sítio para onde ir. Eles são os pobres, negros e brancos, que vivem na cidade em grande número; e fizeram o que acharam que podiam fazer - juntaram-se nas casas mais resistentes que conseguiram encontrar. Não havia a alternativa de ir para o hotel mais próximo. E além disso, milhares de outros que poderiam ter saído, ficaram para ajudar outros. (...)»

Anne Rice
"Do You Know What It Means to Lose New Orleans?"
New York Times

Ann Rice é uma escritora que nasceu e cresceu em Nova Orleães. Conhecida quer pelo seu nome, quer pelos pseudónimos Anne Rampling e A. N. Roquelaure, é famosa a sua infindável série de livros "góticos" sobre vampiros, um dos quais, "Entrevista com o vampiro", teve uma qualificada adaptação ao cinema. O seu mais recente livro, "Christ the Lord: Out of Egypt" - na onda da saga de Jesus - sairá no início de Novembro próximo.

Subsequentemente a este artigo, o Netlexfrance presta homenagem a um dos fundadores do L'Album Littéraire: o poeta Armand Lanusse.

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