quarta-feira, janeiro 05, 2005

livraria Buchholz


Soube agora, pelo A Revolta das Palavras, que a livraria Buchholz se encontra ameaçada.

O certo é que parece estar a desaparecer o modelo das livrarias urbanas com características próprias, "especializadas" em qualquer coisa, por troca com as mega-livrarias dos centros comerciais. É um tempo que desaparece e eu tenho pena. Talvez nós, que agora passamos o tempo nesses centros comerciais - porque vendem muitas coisas e nós já nem temos tempo nem estacionamento para andar a cirandar pelas ruas da cidade - sejamos todos culpados disso.

Recordo a Buchholz por várias coisas: um ambiente único que me é difícil qualificar, a diversidade de livros em língua estrangeira, muitos livros sobre e com música, e a galeria de exposições. Tinha mais coisas, mas eram estas que me levavam à Buchholz, onde de resto continuo a ir com alguma frequência, nem que seja para sentir aquele transporte do tempo.

A recordação mais antiga que tenho, que é a da primeira vez que ali entrei, é de uma exposição de pintura de Noronha da Costa, servida com uma "explicação" personalizada, a mim e ao meu amigo José Cristóvão, pelo crítico de arte Francisco Bronze. O "Chico" Bronze, que nos atraíra ali a partir das tertúlias do Café Central de Almada, tinha de escrever um texto qualquer sobre a exposição e cirandava de um lado para o outro, sentava-se, pensava, tomava notas, levantava-se, falava, punha hipóteses, divagava... simplesmente inesquecível.

Adenda: no Público de hoje o novo director-geral da Buchholz afirma que "a livraria não está em situação de pré-falência mas apenas a recuperar de uma fase crítica"; no entanto reconhece que "alguns importantes editores tinham cessado os fornecimentos à livraria devido às dificuldades financeiras da Buchholz, mas já os retomaram". Adiantou ainda que a notícia sobre a eventual pré-falência da livraria se ficou a dever "a um e-mail que em poucas horas se espalhou por centenas de endereços (...) remetido por algum cliente bem intencionado que julgou assim dar o seu melhor para ajudar a livraria".


[Imagem do site da livraria; clique para abrir pop-up com imagem mais abrangente]

3 comentários:

Hugo Garcia disse...

Sou levado a desconfiar dessa justificação.
A especialização dos meios de distribuição é, na maioria das vezes, a resposta para as necessidades da concorrência onde existe progresso comercial. A melhor forma de se fazer concorrência às grandes livrarias é exactamente encontrar um público-alvo e ter aqueles livros que são difíceis de encontrar que os especialistas procuram.
Mas é engraçado ver como os grandes capitalistas das livrarias (Fnac) são antigos trotskistas.

hamy-pros-friends disse...

essas de que fala, nos centros comerciais não têm o carisma de uma verdadeira livraria, com traços e ambiente acolhedor e outro tratamento ... tudo se transforma e em muitos casos para pior em função dos interesses meramente materiais...

J.A. disse...

Concordo com o Hugo Garcia; o problema é que Lisboa está cada vez mais difícil de "usar" - e nós cada vez mais dependentes do automóvel. Nesses idos tempos eu costumava ir de transporte público; agora chego a dar várias voltas àquela zona para poder estacionar e ir calmamente à livraria. Não é fácil.

De facto os fundadores da FNAC eram soixante-huitards desiludidos com o rumo que as coisas estavam a tomar após o período "heróico". É uma grande ironia a coisa ter tomado o rumo capitalista que tomou; o estilo "amigável" do conceito FNAC acabou por casar bem com as mais recentes teorias do marketing relacional. Partidas da História. No entanto a nossa élite cultural não desdenha fazer ali a presentação das suas obras.

PM tem razão, mas o facto é que todas as livrarias tendem hoje a ser generalistas, dominadas pelas novidades do último ano. O mercado é que manda ou, como dizem certas pessoas: "o mercado não dorme".