segunda-feira, junho 22, 2009

Manifesto dos Economistas


     Voltamos à velha questão: já sabemos o que não queremos, mas não ainda o que queremos. O Manifesto dos Economistas, lá bem no fundo, diz apenas que é preciso pensar muito bem onde aplicar os recursos. Pode até parecer que estão contra os grandes investimentos, mas não foi isso que escreveram: admitem que esses investimentos possam ser realizados, mas só depois de muito bem estudados — pelo que a proposta, em última análise, se resume a um adiamento das despesas previstas.
     Gritada assim abruptamente, a frase "isso tem de ser muito bem estudadinho antes de se avançar", até pode dar a ideia de que se quer fazer uma grande reforma nas políticas governamentais. Ou, recorrendo a linguagem mais tecnocrática, até soa a um apelo à mudança de modelo económico: "É preciso mudar de vida", parece ser a mensagem. Mas será? Quantos destes economistas defenderam, nos últimos tempos, a mudança do nosso modelo de desenvolvimento? Talvez apenas um: Medina Carreira, e nem disso tenho a certeza.

domingo, junho 21, 2009

Quem paga a crise?

Os mais pobres, obviamente. Não os miseráveis, que não têm rendimento para tal, mas os trabalhadores por contra de outrém (através dos impostos que servem para salvar do colapso as grandes empresas), os que caiem num desemprego que se poderá prolongar até ao fim da vida, as pequenas e médias empresas que se evaporam, perdendo património e activos que alguém já embolsou. Está tudo a correr conforme o costume e conforme previsto. O capitalismo e a economia de mercado, afinal, dá-se maravilhosamente com as políticas de origem (remota) na esquerda, o Estado Previdência: porque funcionam como estabilizadores automáticos (o que já se sabia há muito tempo) e (novidade) porque, afinal, o Estado Providência também pode ser usado para impedir que os imensamente ricos percam os seus privilégios. Tudo isto concretizado, não por façanhudos e barrigudos capitalistas, mas por elegantes heróis de esquerda, tais como Sócrates e Obama (o deles é mais bonito, mas o nosso também pratica desporto.)

quarta-feira, junho 03, 2009

Também tu, Champalimaud ?

É muito referida, como um dos factores da mudança política ocorrida em Abril de 1974, a tese do general António de Spínola de que a guerra do Ultramar não podia ser ganha por meios militares, mas sim políticos, tese veiculada no seu livro "Portugal e o Futuro". Isto quereria dizer que os militares já não acreditavam na vitória. Mas os "capitães da indústria e das finanças" também não. António Champalimaud, na Assembleia Geral anual do Banco Pinto & Sotto Mayor, apresentou ao Grupo que liderava um "Novo programa de acção que assenta essencialmente no aproveitamento articulado de recursos de Moçambique, de Angola e da Metrópole":
     "A Nação sofre todos os dias, nas presentes circunstâncias, perdas irreparáveis de vidas e uma sangria exaustiva de recursos materiais.
     O Sotto Mayor e as Empresas de índole industrial e financeira que lhe estão ligadas por laços de parentesco accionista, encontram-se amplamente disseminadas em Angola e Moçambique. Nada do que ali sucede pode por isso ser-nos indiferente.
     Isso exige, e todos estaremos de acordo com o ponto de vista, que o encargo com a defesa militar tenha de dar decisivamente o passo à cooperação económica. E embora a presença de forças armadas continue a ser ser imprescindível por período indeterminado para manter a ordem e a segurança, sem as quais não pode haver progresso, o essencial das forças de ataque tem de ser constituído por uma participação consentida de brancos e pretos, por mais gente que saibamos atrair, por crédito adequado e por investimento pertinaz, porque o inimigo mais sagaz em que os demais procuram apoiar-se será a falta de desenvolvimento".
"Dar passo" significava aqui "ser substituído por" (hoje diríamos "ceder o passo"); "os demais" refere-se aos que lutavam pela independência das Colónias. Ainda recentemente, na série de documentários sobre as guerras coloniais de Joaquim Furtado, militantes dos movimentos de libertação reconheceram que o desenvolvimento económico lhes criou alguns problemas de mobilização, mas que encontraram uma solução dizendo: "pois, mas isso está a acontecer só porque nós iniciámos a nossa luta".
O discurso de Champalimaud teve lugar em 22 de Março de 1974, a poucas semanas da Revolução. Marcelo Caetano bem pode ter pensado: "Também tu, Champalimaud ?"
Copiei o texto do jornal O Sesimbrense dessa época, mas o discurso integral também se encontra aqui →

segunda-feira, maio 25, 2009

     A arte de compor capas de jornais tem muito que se lhe diga: a escolha dos temas a destacar, o tamanho e o posicionamento dos títulos, a articulação das manchas entre si, a "contaminação" entre notícias vizinhas, etc. Tudo isto a ser feito diariamente, recomeçando cada dia do zero — deve ser uma das tarefas mais emocionantes do jornalismo.
     Supostamente as notícias mais importantes merecem maior destaque, mas nem mesmo essa regra é assim tão simples: como se destaca uma notícia? Pelo tamanho do cabeçalho? Pelo tamanho da fotografia? Por ambas as coisas? No caso da capa do Público de hoje não pode deixar de chamar a atenção que o título mais destacado (Uma em cada dez crianças nascidas em Portugal é filha de imigrantes) está muito próximo da fotografia de João Salaviza, o jovem realizador português premiado em Cannes — quase tão próximo quanto ele o está da jovem que o cumprimenta. Honny soit qui mal y pense, mas recordando uma notícia comentada mais abaixo (sobre os contactos sexuais no contexto dos fluxos turisticos) poderá associar-se também este fenómeno a uma outra "contaminação": sabemos que há muitos imigrantes em Portugal; mas há assim tantos casais imigrantes?
[ clique para ampliar ]
     A arte de compor capas de jornais tem muito que se lhe diga: a escolha dos temas a destacar, o tamanho e o posicionamento dos títulos, a articulação das manchas entre si, a "contaminação" entre notícias vizinhas, etc. Tudo isto a ser feito diariamente, recomeçando cada dia do zero — deve ser uma das tarefas mais emocionantes do jornalismo.
     Supostamente as notícias mais importantes merecem maior destaque, mas nem mesmo essa regra é assim tão simples: como se destaca uma notícia? Pelo tamanho do cabeçalho? Pelo tamanho da fotografia? Por ambas as coisas? No caso da capa do Público de hoje não pode deixar de chamar a atenção que o título mais destacado (Uma em cada dez crianças nascidas em Portugal é filha de imigrantes) está muito próximo da fotografia de João Salaviza, o jovem realizador português premiado em Cannes — quase tão próximo quanto ele o está da jovem que o cumprimenta. Honny soit qui mal y pense, mas recordando uma notícia comentada mais abaixo (sobre os contactos sexuais no contexto dos fluxos turisticos) poder-se-ia associar também este fenómeno a uma outra "contaminação": sabemos que há muitos imigrantes em Portugal; mas há assim tantos casais imigrantes?
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quinta-feira, maio 21, 2009

Trabalho para casa

fotografia alojada em www.flickr.com

Há aqui algum padrão?
Bem, nas crises mais recentes (1990, 2001) o período de recuperação do emprego foi bastante mais longo do que nas anteriores. Pensem nisso.

Retirado de John Batchelor Show, sendo o argumento original de George Melloan: "a culpa é do Estado". Ou, mais detalhadamente, do Economista.

Taxas de desemprego da UE e dos EUA convergem

taxa de desempregoFoi para isto que os europeus andaram a apoiar a eleição de Obama?


quarta-feira, maio 20, 2009

Portugal Exportador


     O jornal Público de hoje divulga resultados de investigações sobre migrações do virus HIV, que apontam Portugal como "país exportador" de sida. A cartografia das contaminações desta doença, através do mapeamento genético das diversas variantes, permitiu aos investigadores chegar a diversas conclusões:
— "Grécia, Portugal, Sérvia e Espanha são fontes disseminadoras do HIV-1"
— "Áustria, Bélgica, Dinamarca, Alemanha e Luxemburgo, pelo contrário, constituem alvos migratórios"
— "Itália, Israel, Noruega, Holanda, Suécia, Suíça e Reino Unido apresentam migrações bidireccionais."
— "A maior parte dos vírus 'exportados' por Portugal foram-no para o Luxemburgo"

     O virologista e co-autor do estudo, Ricardo Camacho, comentando estes resultados para o mesmo jornal, afirma não estar surpreendido: "Houve um ano desta década em que 86 por cento das pessoas diagnosticadas como seropositivas no Luxemburgo eram portugueses."
     E sobre a "rota turística" do HIV: "Portugal exporta HIV para outros países; nós encontrámos esta realidade e a explicação que nos ocorre é que ou foram pessoas já infectadas que emigraram para outros países, ou foram turistas que vieram de férias e foram infectadas em Portugal."
     É sabido que o comportamento sexual aparente das comunidades humanas pode diferir muito da realidade. Nos anos 60 era visível que havia em Portugal um "turismo sexual" integrado no paradigma do "amor livre" daquela década — mulheres nórdicas procurando relações temporárias com os bronzeados jovens portugueses; estes relacionamentos chegavam mesmo a ser ostentados com orgulho pelos nossos compatriotas, fenómeno exibicionista de que sobreviveu o fóssil algarvio Zezé Camarinha. Mas hoje, aparentemente, o turismo seria mais casto, acossado, precisamente, pela ameaça do HIV. O que a referida investigação nos vem revelar, se a hipótese e os resultados da investigação estiverem certos, é que há mais "anos 60" e mais "amor livre" no turismo actual do que se suspeita, eventualmente com maior recato.
     Quem sabe: talvez o Zezé Camarinha não seja assim tão anacrónico, e talvez ele próprio esteja enganado quando se apresenta como "O últmo macho man português".

terça-feira, maio 19, 2009


Depois de uns meses a descer pela colina do Quelhas abaixo, o Índice de Confiança do ISEG hesitou e... ficou-se!
Alto lá — pára já tudo!
Teria a crise chegado ao fim? Seria o gajeiro do ISEG o primeiro a ver terra à vista?
O Prof. Doutor João Ferreira do Amaral foi encarregue do horóscopo de Abril. Sob o título Queda Interrompida (onde é que eu já ouvi isto?) e em 235 palavras de puro story telling [leia aqui]: a coisa explica-se "provavelmente com o aumento do rendimento disponível daqueles que não perderam o emprego e que recebem rendimentos salariais ou pensões de reforma. De facto, a desaceleração do crescimento dos preços leva a que esses grupos sintam uma melhoria, em termos reais, no seu rendimento disponível". Além disso, "a descida da taxa de juro descomprime a situação financeira das muitas famílias endividadas – mais uma vez daquelas que continuam a receber regularmente os seus rendimentos".
Quanto à crise: "ainda estamos longe de iniciar a recuperação. Ela só virá quando o comércio mundial tornar a crescer".

Ó que pena, ainda não foi desta.

terça-feira, abril 07, 2009


Aula do Comércio (1759-1844): Primeiro Estabelecimento Governamental de Ensino de Contabilidade
Apresentação da professora Lúcia Lima Rodrigues, disponível aqui →

quarta-feira, março 25, 2009

     «Em anos recentes os consumidores foram-se habituando a beneficiar de "borlas" online, dos mais variados tipos: notícias, música, e-mail e até acesso rápido à internet. Actualmente, contudo, as dotcoms não estão a ser notícia por causa de novas "borlas", mas por despedimentos e anúncios de que passarão a cobrar pelos seus serviços.
     »Estas palavras apareceram no The Economist de Abril de 2001 mas aplicam-se à actualidade. Durante a explosão das dotcoms espalhou-se a ideia de que, afinal, poderia haver almoços grátis, ou, pelo menos, serviços da Internet gratuitos. Foram então surgindo empresas que ofereciam conteúdos e serviços em linha, na esperança de que poderiam, eventualmente, "monetarizar" os milhões de visitas com promoção publicitária. Mas as coisas não seguiram esse caminho e o resultado foi o crash das dotcoms. As empresas tentaram então outros modelos de negócio, tal como o de cobrar pelos acessos, mas poucas tiveram sucesso nessa via.
     «Voltou então tudo ao princípio a partir de 2004, com a entrada do Google na bolsa, empolando uma nova bolha "Web 2.0". A capacidade do Google em colocar pequenos textos publicitários junto dos resultados das buscas na Internet, bem como em outros sites, significava que muitos dos modelos de negócio que tinha sucumbido à crise dotcom, afinal podiam regressar das tumbas — parecia que se podia ganhar mesmo dinheiro com publicitade na net desde que se lidasse convenientemente com o problema, fazendo o outsource para o Google. A razão pela qual não tinha funcionado inicialmente, concluiu-se, tinha sido a insuficiência das ligações em banda larga. A busca recomeçou e emergiu uma então série de novas empresas: MySpace, YouTube, Facebook e agora o Twitter. Cada um delas fornecia serviços gratuitos para atrair largas audiências que poderiam, a dada altura — indefinidada no tempo — atrair grandes montantes de retorno publicitário. A verdade é que tinha funcionado com o Google. Os almoços grátis estavam de volta.
     «Mas agora a fria realidade volta a atacar. O número de empresas que pode ser sustentada com rendimentos provenientes de publicidade na Internet parece ser muito menor do que se pensava e tudo indica que Silicon Valley está a entrar de novo num "inverno nuclear". (...)

Artigo no The Economist →

quarta-feira, março 18, 2009

Subsídio-dependência, Consumo, Mulheres:
Pecados de Ontem, Virtudes de Hoje.


     Em tempos a Religião propugnava a salvação pela abstinência. Com a recente crise parece que a salvação poderá estar no pólo oposto: consumo, consumo, consumo! Se assim for, será uma grande ironia, pois continuamos a ouvir que a nossa economia anda a ser — erradamente — sustentada por um consumo suportado em endividamento externo (... volta Keynes, que estás perdoado...)
     Recentemente, as empresas de comunicação, através da Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social (CPMCS), apresentaram ao Governo português um "Plano de Incentivos Fiscais ao Investimento Publicitário". A ideia é que o Governo conceda incentivos, em matéria de IRC, às empresas que aumentem o seu investimento publicitário durante este ano. Segundo João Palmeiro, presidente da CPMCS, «Não se trata de mais um subsídio, mas de um incentivo às empresas que, em vez de se deixarem mergulhar na crise e começar a cortar pelo mais fácil (a publicidade) façam um esforço de investimento num sector que, através das várias plataformas de comunicação, atinge directamente o cidadão e lhe pode induzir esperança.» As palavras "investimento" e "esperança" estão aqui simpaticamente colocadas (ah, o marketing, o marketing!...), sem dúvida, mas trata-se apenas de um incentivo ao consumo através de um subsídio, ainda que indirecto, retirado ao Orçamento de Estado.

Outra novidade pró-consumo é dada pelo The Economist:
"Na América, onde os consumidores femininos representam mais de 80% das compras de uso geral [discretionary], as empresas começaram a dotar os seus produtos e mensagens com apelos ao sector feminino, num esforço para ampliar as vendas. A Frito-Lay, uma companhia de snack-food detida pela PepsiCo, lançou uma campanha designada "Only In A Woman’s World", para convencer as mulheres de que as batatas fritas e as pipocas não são apenas para adeptos de futebol masculinos. A OfficeMax, segundo maior fornecedor de artigos de escritório nos EUA, redesenhou os seus bloco-notas e suportes de ficheiros para atrair as mulheres e desenvolveu anúncios encorajando-as a tornar os seus cubículos mais coloridos. Pela primeira vez, a McDonald’s patrocinou a New York Fashion Week, em Fevereiro último, promovendo uma nova linha de bebidas para mulheres."     »»»

quinta-feira, março 12, 2009

Diga: a crise começou em:    1991
2001

2008

Fonte: Apresentação de Vitor Constãncio sobre O Financiamento da Economia e as Empresas
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A capacidade creditícia das pessoas, ao que parece, pode ser observada nos seus rostos
     «A Ciência progride por tentativa e erro. Porém, enquanto os sucessos são amplamente apregoados, os erros são frequentemente encarados com embaraço pelas gerações subsequentes e relegados para os sótãos da memória, tal como os familiares loucos de uma novela vitoriana. Normalmente ficam esquecidos por lá, como fantasmas. A craniologia, a frenologia e a eugenia, que em tempos foram respeitáveis áreas de estudo e passaram depois a ser encaradas com sobressalto, reaparecem de tempos a tempos, mas poucas pessoas sãs lhes prestam atenção. Um desses fantasmas, contudo, reapareceu mais uma vez, e tenta a sua reabilitação. Durante anos, a fisiognomia — a ideia de que o rosto de uma pessoa reflecte o seu carácter — tem sido encarada com desprezo. Mas ressurgiu uma vez mais.
     «Certamente que as aparências contam. As mulheres, por exemplo, avaliam os homens pelos seus rostos. Os níveis de testosterona são reflectidos no rosto, e ser visto como uma companhia apenas para uma noite ou como um potencial marido, depende em parte do aspecto físico. Do mesmo modo, o rosto de um macho revela a agressividade subjacente do dono e até mesmo a sua perspicácia para o negócio. A beleza facial, em ambos os sexos, é também associada a rendimentos elevados. A investigação mais recente, contudo, vai direita ao aspecto moral. Jefferson Duarte, da Rice University (Houston), e os seus colegas sugerem que uma das características morais mais reveladoras, a capacidade creditícia [creditworthiness], também é revelada pelos rostos.»

artigo — The Economist

Pergunta: será que a capacidade ilusionista dos banqueiros/bancários também se revela nos seus rostos?
Empreendedorismo
«Ken Carroll está a por em causa uma das crenças da economia global: a de que todos nós precisamos de aprender Chinês (Mandarim) para conquistar o maior mercado mundial — mas que aprender Chinês é muito aborrecido. Ken Carroll, um professor de línguas em Shangai que se transformou num empreendedor da Internet, diz que não tem de ser necessariamente assim: foi pioneiro na criação de um método que recorre ao podcast para aprender Mandarim, e quase um quarto de milhão de pessoas recorre agora ao Chinesepod.com, que envia diariamente lições de Mandarim para iPods e Google phones

artigo no Financial Times

quarta-feira, março 11, 2009

Teoria do Rebanho

     Você está sentado numa sala com mais 10 pessoas que parecem concordar num dado assunto, mas você tem uma opinião contrária. Você manifesta-se? Ou simplesmente segue os outros?
     As técnicas de imagiologia ajudam os cientistas a olhar na base para os princípios da psicologia social no cérebro. Décadas de investigação mostram que as pessoas tendem a seguir o ponto de vista da maioria, mesmo se esse ponto de vista estiver objectivamente errado. Agora os cientistas complementam essas teorias com imagens do cérebro.
     Um novo estudo publicado na revista Neuron mostra que quando uma pessoa tem uma opinião diferente dos outros, num dado grupo, o seu cérebro produz um sinal de erro. Uma zona do cérebro popularmente apelidada como "oops area" torna-se extra-activa, enquanto que a actividade duma "zona de recompensa" abranda, fazendo-nos pensar que estamos a ser demasiadamente diferentes.
     «Podemos provar que um desvio relativamente à opinião do grupo é reconhecida pelo cérebro como um 'castigo'», afirma Vasily Klucharev, estudante de pós-doutoramento no F. C. Donders Centre for Cognitive Neuroimaging na Radboud University Nijmegen, na Holanda, principal responsável pelo estudo.

artigo no CNN.com/Health

Estamos actualmente a sofrer devido a problemas económicos que são piores do que aqueles que nos atormentavam há 35 anos, quando se formou a Eastern Economic Association. Desde então, não fizemos grandes progressos no sentido de desenvolver métodos de observação e de análise que fariam da Economia uma verdadeira ciência empírica, proporcionando meios para melhores políticas. Muita, se não a maioria, da actividade da profissão está ainda focada nas vias tradicionais de fazer micro (sentados numa cadeira e inventando) e macro (pretendendo que a economia é uma só pessoa, ainda que grande). O facciosismo ainda abunda na profissão, apoiado em tendências políticas. Os economistas comportamentalistas e experimentalistas partem do princípio de que podemos aprender o que necessitamos saber acerca de negócios através da observação de estudantes envolvidos em jogos concebidos pelos seus professores. A Neuroeconomia não passa de uma questionável diversão relativamente ao que deveriamos estar a fazer. Muito poucos economistas estão ocupados na observação directa dos negócios, tal como efectivamente se realizam. É necessário fazer mais deste trabalho.

Barbara Bergmann
The Economy and the Economics Profession: Both Need Work

segunda-feira, março 09, 2009

Picoeconomia

Midbrain Mutiny: The Picoeconomics and Neuroeconomics of Disordered Gambling
Don Ross, Carla Sharp, Rudy E. Vuchinich e David Spurrett


     A Picoeconomia, ou análise dos padrões de consumo, é definida pelos autores deste livro como a «modelação das escolhas intertemporais num mercado sub-pessoal [subpersonal] onde o equilíbrio entre os diferentes interesses é atingido através da negociação». Dito assim, parece a definição da economia de mercado, mas é apenas mais uma teoria que vai recuperar o famigerado homo æconomics. A investigação integra-se na corrente da Neuroeconomia, com apoio de investigação laboratorial por recurso a técnicas de imagiologia.
     Segundo uma recensão publicada pela revista JASSS (ler —>), o livro enumera os "métodos que os humanos adoptam para auto-controlo e para evitar uma gama de escolhas excessiva de soluções de curto prazo: as regras pessoais de comportamento auto-impostas são aquelas em que os autores se focam mais extensivamente, e são de facto as estratégias nas quais, ao longo do livro, se baseia o conceito de que o comportamento é um equilíbrio entre jogos de negociação entre interesses sub-pessoais".
     Segundo a recensão da MIT Press (ler —>), "o livro descreve a dependência patológica [addiction] como uma disfunção crónica do equilíbrio entre o sistema dopamínico do cérebro médio [midbrain] e o sistema serotogénico frontal e pré-frontal, e revê recente evidência de investigações sobre a eficácia de drogas anti-dependência. Os autores argumentam que a melhor maneira de compreender a dependência patológica do jogo [gambling] é utilizando um modelo um modelo híbrido picoeconómico-neuroeconómico".
Does Macroeconomics Need Microeconomic Foundations? [pdf]
Sérgio da Silva

Era uma vez uma época em que havia a ideia de que a macroeconomia se apoiava na microeconomia, e havia também quem dissesse que a macroeconomia nem sequer existia, apenas micro (cujos resultados, somados, resultavam apenas numa "economia dos grandes agregados": João César das Neves). Agora temos um investigador brasileiro a inverter a situação: é a microeconomia que necessita de fundamentos, e não a macroeconomia: as preferências necessitam de ser fundamentadas na biologia e, emparticular, na Neurociência.








Esta douta "sentença" foi divulgada por Carlos Fiolhais no seu blogue De Rerum Natura, sob o título "ignorância matemática". É de facto inacreditável que um meritíssimo Juiz não saiba que 1/5 é maior do que 1/6. Nos meus tempos do ensino secundário dizia-se que a principal vantagem da matemática era atingir a "noção de potência" (humor juvenil...) mas este magistrado parece não ter chegado sequer a atingir a "noção de fracção".