sexta-feira, fevereiro 20, 2009

PIB - taxas de variação homóloga - 2008
 I    II    III    IV    
 Alemanha 2,8 2,0 0,8 -1,6
 Áustria 2,5 2,1 1,4 0,5
 Bélgica 1,9 1,9 1,2 -0,5
 Espanha 2,7 1,8 0,9 -0,7
 EUA 2,5 2,1 0,7 -0,2
 Finlândia 2,6 2,2 1,4 :
 França 2,1 1,2 0,6 -1,0
 Grécia 3,1 3,5 2,9 2,6
 Irlanda -1,2 -0,7 0,1 :
 Itália 0,3 -0,4 -1,1 -2,6
 Japão 1,4 0,6 -0,2 -4,6
 Luxemburgo 0,9 2,4 0,0 :
 Países Baixos 3,6 3,3 1,9 -0,6
 Portugal 0,9 0,6 0,5 -2,1
 Reino Unido 2,6 1,7 0,3 -1,8
 Fonte: INE

Ano eleitoral

O debate de ideias ao "serviço" da campanha eleitoral do Bloco de Esquerda
     «Os textos que aqui apresentei servem para demonstrar dois pontos de vista quase antagónicos: um mais catastrófico, de Adelino Fortunato, prevendo a explosão de uma bolha financeira sustentada na especulação imobiliária; e outro, de João Aldeia, que tenta desmontar a opinião do primeiro acusando-a de fazer política da terra queimada e como sendo um resíduo do esquerdismo revolucionário, chegando a considerar o diagnóstico de Adelino Fortunato completamente errado.
     «Passados 4 anos, o texto de Adelino Fortunato assume um carácter premonitório, enquanto a argumentação contrária é praticamente esvaziada pela forma avassaladora como a crise financeira se instalou.»
( Carlos Macedo no blog Varam'ess'aiola )
Talvez valha a pena ler, aqui »»

quarta-feira, fevereiro 18, 2009


     Há standards no Jazz e há standards para o ensino da Economia: uma clara definição de conceitos, princípios e leis básicas. Não limitam o que o docente pode ensinar, mas constituem uma espécie de "serviços mínimos" para o ensino dos princípios básicos da Disciplina. É claro que os Programas das disciplinas de introdução à Economia têm implícitos estes mesmos princípios, mas seria mais útil se estes "mínimos" ficassem claramente definidos.
     Acreditam que há alunos da matéria que, terminada a licenciatura, não sabem definir algumas destas coisas básicas, tais como a Produtividade? Não sabem ou "já não se lembram bem". O que não os impede de ter uma opinião sobre se a produtividade da economia portuguesa está boa ou má. "Está má, é evidente", adiantam, sem contudo conseguirem definir os contornos da evidência.
     Também há quem pense que aprender conceitos é uma perda de tempo. Qual a necessidade de definir o que é um Banco se não faz falta para nos sentarmos em cima de um?
«Relativamente à Qimonda [...] eu fiz tudo, mas rigorosamente tudo o que era possível e estava convencido que a situação iria resolver-se, mas, para tal, era necessário que o governo central alemão também tivesse feito a sua parte»
Manuel Pinho, ministro da Economia
É evidente que a culpa é dos alemães: para começar, não foram eles que cá colocaram a Qimonda? É só fazer contas.

sexta-feira, outubro 24, 2008

fotografia alojada em www.flickr.com
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O caderno de Economia do jornal Público de hoje inclui um excelente artigo da jornalista Ana Rute Siva sobre a participação de Paul Krugman no estudo sobre a economia portuguesa, realizado pelo MIT em 1976, e a que fiz referência no post anterior. Devido à publicação aqui feita de parte do relatório elaborado por Krugman, Miguel Beleza e outros, o Público faz uma referência ao blog Pura Economia, que muito agradeço.

terça-feira, outubro 14, 2008

A Economia ao serviço das Esperanças de Abril

     Paul Krugman, o economista a quem foi (finalmente) atribuído o prémio Nobel, esteve em Portugal em 1976, juntamente com outros alunos de doutoramento do MIT (Andrew Abel, Luís Beleza, Jeffrey Frankel, Raymond Hill) sob a orientação de Dornbush, Eckaus, Solow e outros. Este grupo elaborou para o Banco de Portugal o relatório "A economia portuguesa: evolução recente e situação actual", de 6 de Agosto de 1976. Apesar de não se depreender do título, o relatório sugere algumas medidas de política económica "destinadas a reduzir o défice [externo] em 1977" e a tornar a economia portuguesa "mais capaz de concretizar as esperanças da revolução de 25 de Abril de 1974".
     Apresentam-se a seguir cópias da página de agradecimentos (entre outros, a Amílcar Theias, mais tarde meteórico ministro do Ambiente) e do Prefácio subscrito por E. Cary Brown, Rudiger Dornbusch, Richard C. Eckaus, Robert M. Solow e Lance J. Taylor.
     Ao contrário do que já ouvi dizer a J. Braga de Macedo — que nessa altura o "pessoal de Economicas" [actual ISEG] desprezou o Krugman — o relatório foi estudado e utilizado para reprodução dos modelos económicos, na cadeira de Economia Pública, de Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite. Krugman era apenas um investigador desconhecido, e a economistas como Dornbush e Solow era reconhecido muito mérito.



Agradecimentos

Prefácio (1)

Prefácio (2)

Prefácio (3)

Prefácio (4)

terça-feira, outubro 23, 2007


A Ciência terá limites ?
Gulbenkian, 25 e 26 de Outubro
25 Out.26 Out.


10:30
  • George Steiner
    (Conferência de abertura)


    15h00 A teoria das cordas e o paradoxo da não-verificabilidade
  • Dieter Lüst: "Previsibilidade do panorama das cordas em Física das Partículas e em Cosmologia"
  • Peter Woit: "A teoria das cordas e a crise da Física das Partículas"


    17h00 Que progressos nas ciências da vida?
  • Gerald Edelman: "Da dinâmica do cérebro à consciência: nenhum limite à vista"
  • Wolf Singer: "Desafios nas Neurociências"



  • 09h30 Incompletude e inconsistência
  • Luis Alvarez-Gaumé: "Ideias e falsidades acerca da teoria das cordas
    e os limites da Ciência"
  • Lewis Wolpert: "Quanto precisamos de saber acerca das células? "


    12h00
  • Helga Nowotny: "A produção do conhecimento e as suas condicionantes: considerações epistémicas e societais


    15h00 O nosso entendimento sobre o lugar do homem no universo
  • Eörs Szathmáry: "Origens, perspectivas e limitações da Humanidade"
  • John Horgan: "O código neuronal, o último grande problema da ciência"


    17h00 Diálogo de encerramento
  • Freeman Dyson
  • Laura Bossi
  • Jean-Pierre Luminet

  • Página da conferência

    terça-feira, outubro 16, 2007



    Os EUA continuam a dar cartas na teoria económica, acumulando Nobeis com a mesma rapidez com que os coelhos se reproduzem. Ainda por cima, prémios concedidos pela "boa velha Europa" (supostamente...)

    Mas há um lado positivo nisto: quando se der o colapso (pelos mercados financeiros ou pelo esgotamento das matérias-primas) e se iniciar a caça aos economistas, sempre poderemos dizer: a culpa foi dos americanos.

    segunda-feira, outubro 15, 2007

    Nobel da Economia

    Roger Meyerson
    Nasceu em 1951, formou-se em Matemática em Harvard, trabalhou em Cambridge e desde 2007 é professor na Universidade de Chicago

    Leonid Hurwicz
    Nascido em 1917, em Moscovo, mudou-se para os Estados Unidos na década de 1940. Hurwicz é cidadão americano e professor emérito de Economia na Universidade de Minnesota
    Eric Maskin
    Nascido em 1950, em Nova Iorque, formou-se em Matemática em 1976 pela Universidade de Harvard. Trabalhou em Cambridge e desde 2000 desempenha o cargo de professor de Ciências Sociais em Princeton.

    O Prémio Nobel da Economia foi atribuído a três economistas norte-americanos: Leonid Hurwicz, Eric Maskin e Roger Myerson foram galardoados por terem «criado as bases da teoria do desenho de mecanismos».

    «Segundo o comunicado, a teoria permite aos economistas distinguir situações em que os mercados operam bem de outras em que não operam. "Hoje, a teoria do desenho dos mecanismos desempenha um papel central em muitas áreas da economia e em partes da ciência política"».

    domingo, outubro 14, 2007


    Manuela Arcanjo

    Ao mesmo tempo que no Quelhas se inicia uma sessão sobre o Nobel da Economia de 2007 (17 Outubro, 15 horas), na Ordem dos Médicos a professora Manuela Arcanjo fará uma conferência sobre o tema: «Influência dos meios de controlo electrónico de presenças sobre a produtividade – a versão do economista».

    Já antes tinhamos o "imperialismo da Economia" (o individualismo metodológico dos economistas a "explicar" tudo e mais alguma coisa). Depois veio a Lei que permite aos economistas entrar para o território da medicina, e agora vemos uma ilustre economista a ensinar os médicos a picar o ponto. Como os médicos manifestaram opinião contrária ao "ponto electrónico", fica a curiosidade de saber se a professora Manuela Arcanjo lhes irá dar razão.

    Adenda - ao reler o texto ocorreu-me o seguinte: a expressão "a versão do economista" não será demasiadamente relativista (no sentido em que haveria também a versão do médico, do jurista, do informático...)? E acaso todos os economistas pensam o mesmo sobre este assunto?
    Na senda da destreza das dúvidas também arrisco a minha aposta para o Nobel da Economia: William Baumol. Em coerência com o dogma, é uma escolha puramente egoista: como andei a ler alguma coisa do senhor, poupar-me-ia ao trabalho humilhante ir a correr ver quem é a nova estrela do passeio da fama. Ou de ir à sessão de esclarecimento de Económicas, embora seja sempre emocionante voltar ao Quelhas. (O laureado será conhecido no próximo dia 16 15, a sessão no dia 17).

    E a propósito: aqui fica uma foto do ISCEF, in illo tempore (1963):

    fotografia alojada em www.flickr.com
    [ foto de Armaldo Madureira - clique para ampliar ]

    sexta-feira, outubro 12, 2007


    Vitor Constâncio no Congresso dos Economistas: os mercados financeiros ainda se conseguem controlar, agora os computadores é que é mais difícil (nem com uma mãozinha da Ordem...)

    Do congresso retive esta frase de Hernâni Lopes: «Quando há dinheiro fácil não há desenvolvimento, há aviltamento». E também a ternura com que o economista chinês Patrick Huen se dirigiu ao seu amigo e anfitrião, tratando-o por "doctor Nabo".

    No geral:
  • excelentes sessões plenárias e mesas redondas — não tanto Manuel Pinho, que comparou o nosso percurso recente às epopeias nórdicas e se proclamou o herói da reestruturação da base produtiva ("stick to the plan", prometeu ele); foi pena Vitor Constâncio não ter tido tempo para falar sobre este domínio.
  • fracas sessões "paralelas" de apresentação de comunicações, com vários oradores a faltar à chamada: será que enviam as comunicações só para os respectivos nomes constarem do programa? Se for assim, também quero.
  • ainda não foi desta que os economistas portugueses chegaram a acordo sobre a carga fiscal: a maioria é a favor da baixa (para dar impulso às empresas e cortar a "mesada" com que o Estado alimenta os vícios), mas Vitor Constâncio é que não deixa.
  • sobre o Congresso pairou o anúncio governamental da previsão para o défice deste ano. No geral as reacções foram: "Sim, mas..." Não sei se o anúncio foi programado para coincidir com o Congresso, mas o timing foi excelente. Miguel Cadilhe falou no "fantasma do antigo Pacto": o governo a tentar cumprir a outrance a meta dos 3%, penalizando desnecessariamente a economia real e desaproveitando a flexibilidade proporcionada pelo novo PEC. Tanto Miguel Cadilhe como Rui Trindade (autor de uma comunicação sobre o produto potencial) asseguraram que Portugal poderia invocar a cláusula de "recessão grave".
  • terça-feira, outubro 02, 2007

    ... nomeadamente nos EUA ...

    Economistas, alegrai-vos, pois já podeis candidatar-vos a médicos:

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    segunda-feira, agosto 06, 2007

    Teoria económica

         Debate e confrontação no contexto da ocupação da herdade Torre Bela, no concelho da Azambuja, Ribatejo, propriedade do Duque de Lafões, Dom Manuel de Bragança. A ocupação da herdade deu-se a 23 de Abril de 1975 e prolongou-se por alguns anos, tendo sido criada uma cooperativa agrícola para organizar a produção. Estas imagens são retiradas do filme-documentário do cineasta alemão Thomas Harlan.
         A discussão é de antologia, opondo duas visões do mundo: uma delas utópica e colectivista (abdicar da propriedade individual para se "aceder" ainda a mais bens) e uma outra, atávica e telúrica. Proprietário de praticamente nada, o trabalhador agrícola resiste a que lhe tirem a enxada, ainda que lhe paguem o valor dela.
         O cooperativista, por outro lado, podia pegar no dinheiro e comprar a ferramenta numa loja, mas isso não chega: ele tem de abolir a propriedade privada e por isso entende que o trabalhador deve deixar de ser possuidor do seu instrumento de trabalho.
         Depois do colapso da cooperativa (e genericamente da reforma agrária pós-25 de Abril) abundaram as explicações sobre as causas do fiasco: supostamente uma conspiração do grande capital e dos aparelhos partidários. Mas a verdadeira causa talvez possa ser encontrada neste pequeno episódio.

    Argumentation between a defender of collectivisation of land and tools, and an agricultural worker who is refusing to give his tool away. Filmed by Thomas Harlan during the revolutionary taking-over of “Torre Bela” farm (Portugal - 23 April 1975)
    Cooperativist - What is the value of your tool?... What is the value of your tool?
    Agricultural worker - I don’t know, is costs more now...
    Cooperativist - So, you must demand that, and it will become property of the Cooperative. This all belongs to the Cooperative. It is not yours, it is not his [pointing another worker], it is not mine — it belongs to the Cooperative!
    Agricultural worker - It belongs to the Cooperative? And what about the others that don't bring any tools? Their tools stay at their home, and mine goes to the Cooperative... The others that brought nothing to work here, and don't intend to, so it don't get lost, they will finish to loose mine…
    Cooperativist - May I? [holds the tool] This has the value of 100 escudos…
    Agricultural worker - Exactly.
    Cooperativist - This goes to the Cooperative and the Cooperative gives you 100 escudos, and this is not yours anymore: it is mine, it belongs to him [points another worker], it belongs to everyone!
    Agricultural worker - It might seem all right, but I am the one who works width it. Tomorrow I'll need to use it in my plot of land, and then, must I buy another one? And then that one goes to the Cooperative too? And I buy another one and everything goes to the Cooperative? Soon, my shoes and my cloths will be property of the Cooperative... even I was the one who bought it?
    Cooperativist - That is exactly.
    Agricultural worker – And I was the one who bought it…
    Cooperativist - That is our philosophy.
    Agricultural worker - Tomorrow, you'll take my boots and it goes to the Cooperative!
    Cooperativist - That is our aim.
    Agricultural worker - It goes to the Cooperative and I will be naked!
    Cooperativist - You won't get naked! You'll even get more cloths than the ones you have now!
    Agricultural worker – [doubtful] I am not seeing that... I am not seeing that...
    Cooperativist - You, never in your life of slave...
    Agricultural worker - [ironic] ...Each time I see more and more...
    Cooperativist - Look, You are a fool.
    Agricultural worker - [ironic] The ones that do not see are the blind, and the dead, and the ones still to be born. Those didn’t saw yet. They will come to see.
    Woman - Look, now that you lost that tool...
    Agricultural worker - I did not lost it!
    Woman - ... We pay you for it! We will pay it! We only need to calm down...
    Cooperativist - What this comrade of yours is saying — in fact, she understood it. Today you seem not to understand, and I don't know why. But I will tell you once more. You said a while ago that you will finish without cloths, with nothing. But the aim of your work, the aim of my work, the aim of all this work, is that you don't get naked, and that you can even get more cloths than those you have today, so that you get everything.
    However, remember: in order to avoid problems — and this is one of thing we must get straight now — this tool that you claim to be yours today, goes to the Cooperative, and that is the only way to get ahead. If you gave 40 or 50 escudos for it, the Cooperative will give you that amount. And then, when you'll come here, it belongs to you, it will be your tool. And so, you must respect it and use it properly.
    Agricultural worker – [doubtful] It might be like that, but there are other ones that don’t... [truncated]

    terça-feira, julho 31, 2007

    Cibereconomia


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    A edição de Agosto da revista Exame dedica uma página à blogosfera "económica" portuguesa, num artigo da jornalista Joana Pereira, no qual se faz referência aos blogues Notas de Economia, Destreza das Dúvidas, Economia & Finançase também ao Pura Economia. Os nossos agradecimentos pela citação.

    quarta-feira, julho 18, 2007

    Mar

         Estratégia Azul, um blog dedicado à divulgação da Estratégia Nacional para o Mar e ao debate do Livro Verde para uma Futura Política Marítima Europeia.
         Participei na redacção de sugestões para a discussão pública deste Livro Verde por parte de uma entidade pública, mas a expectativa de que venham a ser consideradas é próxima de nula, tal como aconteceu com o contributo da mesma entidade para o Plano Estratégico Nacional para a Pesca.

    domingo, julho 15, 2007

    Na sequência de uma entrada do blog Overcoming Bias, o Gustibus propõe um plano de estudos em em Economia (com 8 semestres) que inclui duas disciplinas de Neuroeconomia - uma delas com aulas em laboratório! - sendo o último semestre ocupado com "Monografia e/ou Estágio no Laboratório".
    "A Economia em Pessoa"
    Verbetes contemporâneos e ensaios empresariais do poeta
    Gustavo H. B. Franco
    (organização, introdução e notas)
    Editora Zahar, Rio de Janeiro

    [...]      «Pelo que já foi dito, pouco tem de acidental o interesse de Pessoa por economia em 1926, quando se associa a seu cunhado Francisco Caetano Dias na empreitada de editar e escrever uma revista dedicada ao comércio e à contabilidade. Gaspar Simões mal se refere a essa distração de Pessoa; era uma época em que "tudo o dispersava, tudo o entretinha, tudo era pretexto para se deixar ficar ali sentado, ouvindo, bebendo, fumando, conversando sem fazer nada de sólido: com sua obra em fragmentos à espera de uma mão poderosa para consolidar". Mesmo Alfredo Margarido observa que "parece existir uma espécie de contradição entre o percurso poético e o interesse consagrado, seja ao comércio, seja à teoria económica. Porém, à luz de suas amplas e variadas actividades empresariais, nada há o que estranhar. Pessoa já tivera uma experiência mal sucedida com a Tipografia Íbis, como conta Mega Ferreira: "Entre 1909 e 1912, Fernando Pessoa passara de herdeiro desafogado a poeta endividado". Mas em vez de abater-se, Pessoa prossegue com outras empreitadas, seja envolvendo-se com os aspectos económicos das publicações vanguardistas em que contribuiu como autor (Orpheu e O Portugal futurista), seja em intensa actividade como corrector de concessões de mineração em Portugal e nas colónias.
         «Em 1921 inicia o ambicioso projecto da Olisipo, que compreendia de início apenas uma editora, mas cuja ambição ia bem além, tal como estão minuciosamente relacionadas no projecto de constituição da Cosmopólis, que listava, em seu objecto social, exactas 88 actividades divididas em quatro grupos: informação comercial, ideias editoriais e literárias, prestação de serviços de "consultadoria" e organização da própria empresa. Olisipo não prosperou, mas, como informa Mega Ferreira:
    Não há números, nem balanços, nem sequer lamentações posteriores do que, presumivelmente, terá sido mais um desastre financeiro na vida de Pessoa. Aliás, não parece que o Poeta tenha sido homem de desânimos... Como já antes acontecera, Pessoa renascia de cada insucesso com a sua determinação empresarial intacta.
         «Em 1926 Pessoa estava no auge dos seus interesses empresariais, "anos de brasa", como diz Mega Ferreira, mas também uma época em que as dificuldades financeiras oriundas do fracasso da Olisipo, sua saúde frágil, em boa medida decorrente dos abusos do álcool e do tabaco, o levaram "a empregar os seus talentos e aptidões comerciais de maneira a obter uns dinheiros com que pudesse encarar confiadamente os anos que lhe restavam de vida". A necessidade parece assinalar o auge de sua actividade como publicitário, inventor, corrector de minas; é quando começa a editar a Revista de comércio e contabilidade. Caetano Dias, o cunhado, era o profissional, o especialista reconhecido em questões contábeis, e Pessoa o amador, conforme descreve Bréchon:
    Isso dá-lhe uma liberdade de atitudes de que o cunhado é incapaz, pois não tem nada de fantasista. Ainda quando finge tratar de forma rebarbativa questões entediantes, Pessoa denuncia-lhe a originalidade fundamental por meio de ditos espirituosos ou de efeitos estilísticos. Comparemos-lhe os escritossobre comércio com os de Mallarmé sobre moda: ambos têm o dom de zombar imperturbavelmente do mundo.
  • Índice e capítulo "Verbetes contemporâneos" [pdf]
  • Recensão de Fernando Dantas: aqui
    O blog Gustibus já tinha comentado: «O poeta português Fernando Pessoa era um defensor de idéias econômicas liberais, que podem ser apreciadas (ou lamentadas) por seus admiradores em A Economia em Pessoa, livro organizado e prefaciado por Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central (BC) e diretor-executivo da Rio Bravo, empresa de serviços financeiros que editou a obra. O livro contém 11 artigos originais de Pessoa sobre temas econômicos e comerciais (um deles, uma coletânea de pequenos textos) e uma entrevista fictícia elaborada pelo escritor João Alves das Neves, presidente do Centro de Estudos Fernando Pessoa.»
  • sexta-feira, julho 13, 2007

    Small is beautiful

    quinta-feira, julho 12, 2007

    Progressistas regressistas


    Manufactura de algodão

         Portugal tem a duvidosa honra de ser expressamente citado em alguns dos clássicos livros da Economia Política, por exemplo nos "Princípios da economia política e tributação" (1817), do sr. David Ricardo: é lá que se exemplifica a teoria das vantagens comparativas no comércio internacional, explicando (com prova matemática e tudo!) porque é que a Inglaterra deveria fabricar textêis ("panos") e Portugal vinho.
         Se do estrito ponto de vista da eficiência económica isto é defensável, do ponto de vista do desenvolvimento deixa muitas dúvidas: Portugal especializar-se-ia numa produção agrícola com pouca incorporação tecnológica, e a Inglaterra num sector que contribuiria poderosamente para a industrialização e explosão da produtividade. Porém, mais de 100 anos antes, este "trato" já tinha ficado acordado no Tratado de Methuen, (de 1703, renovado em 1810), ou "Tratado de Panos e Vinhos". Adam Smith, pelo seu lado, zurziu este tratado (e Portugal) mas por outros motivos: porque ele configurava o tipo de política intervencionista e limitadora da liberdade de comércio que ele abominava.
         Quem não se iludiu com tal conversa foi o Marquês de Pombal, que instalou no país uma série de manufacturas, nalguns casos com sucesso duradouro (indústria vidreira da Marinha Grande) e noutros sem futuro (por exemplo a fábrica de chitas de Vila Nogueira de Azeitão, uma deliberação régia de 1775).
         Curiosa é a atitude dos ilustres académicos portugueses da época, cujo ideário e propostas se encontram disponíveis na excelente reedição dos 5 tomos das "Memórias Económicas da Academia Real das Ciências de Lisboa". Muito influenciados pela doutrina fisiocrata, estes académicos avaliavam quase tudo pelos efeitos, positivos ou negativos, que provocava na agricultura. A sua opinião sobre as fábricas foi frequentemente negativa, mesmo quando se apercebiam de que nas terras em que elas se instalavam tudo prosperava, incluindo a agricultura! Acham isto normal?
         Atentemos: Tomás Vila-Nova Portugal, referindo-se em 1791 ao território de Azeitão, em cuja povoação de Vila Nogueira se tinha instalado a fábrica de textêis, começa por reconhecer que há decadência de muitas propriedades agrícolas, mas que é nos "lugares mais próximos à vila, ou Aldeia Nogueira é que estão em estado mais florescente, e têm maior número de fogos e pessoas" e "também a cultura [agricultura] está em melhor estado, quando as terras estão mais próximas à Aldeia Nogueira, em que é maior a povoação [população].
         Vila-Nova Portugal manifesta depois a opinião de que o número de agricultores (304) é insuficiente, porque todos os anos contumam vir de Aveiro 118 homens para trabalhar nos campos, e conclui: "Disto se segue que a sua manufactura é em detrimento da sua cultura” ou seja, a manufactura (textêis e tinturaria) prejudica a agricultura! E acrescenta: “neste estado de cultura a terra não tem outro regresso [rendimento], que não seja o destas manufacturas de chitas, e tinturaria; ainda que os seus salários não sejam uma renda produtiva”. (*)
         Vila-Nova Portugal é hoje um ilustre desconhecido, mas o mesmo não acontece com Domingos Vandelli, autor de numerosos estudos hoje muito citados. Sobre este mesmo problema das dificuldades sentidas na agricultura, Vandelli lista uma serie de causas de abandono dos campos, que hoje conhecemos bem como caracteristicas das economias modernas: "(1) recolhendo-se para as cidades, e principalmente para a corte (2) expatriando-se muitos cada ano por várias causas, entre as quais é a falta de subsistência (3) o Algarve dá muitos marinheiros aos estrangeiros", e finalmente: "(4) as fábricas atraem a si um exorbitante número de cultivadores".
         Mas não observa Vandelli que as fábricas dinamizam a economia das regiões em que se instalam? Claro que sim, mas eis como resolve o problema:

    "Não vale relatar-se o exemplo da maior povoação [povoamento], e aumento da agricultura nas vizinhanças de algumas fábricas, estabelecidas neste reino, como nas de vidro da Marinha; e na de Azeitão de chitas; porque se nestas vizinhanças em razão da maior quantidade do dinheiro, que ali circula, há maior povoação, e consumo de comestíveis, e por isso uma agricultura mais florescente: isso sucede com prejuízo dos lugares ou circunvizinhos ou distantes; nos quais se diminui à proporção a agricultura, e a povoação.

         Normalmente atribui-se ao antigo regime, às forças conservadoras, a responsabilidade pelo atraso económico de Portugal. Mas estes académicos estavam (supostamente) na vanguarda do progresso, eram os iluminados, gente culta, lida e viajada, observadores ineressados no desenvolvimento do país, que continuamente escreviam textos a criticar as más técnicas dos trabalhadores, fossem elas a cortar o bacelo ou a empatar o anzol. E afinal eram contra as manufacturas... Que seita!



    (*) Em nota de rodapé o editor interpreta esta frase como querendo significar que o rendimento originário das manufacturas constituía uma "fonte precária". Julgo porém que o sentido é outro: a frase reproduz liminarmente a crença fisiocrata de que só a agricultura era "produtiva", pois só ela gerava um excedente, um produto líquido acima do valor dos recursos utilizados na produção.; na visão da fisiocracia o trabalho de manufactura, embora necessário, não era "produtivo".