domingo, outubro 14, 2007

Na senda da destreza das dúvidas também arrisco a minha aposta para o Nobel da Economia: William Baumol. Em coerência com o dogma, é uma escolha puramente egoista: como andei a ler alguma coisa do senhor, poupar-me-ia ao trabalho humilhante ir a correr ver quem é a nova estrela do passeio da fama. Ou de ir à sessão de esclarecimento de Económicas, embora seja sempre emocionante voltar ao Quelhas. (O laureado será conhecido no próximo dia 16 15, a sessão no dia 17).

E a propósito: aqui fica uma foto do ISCEF, in illo tempore (1963):

fotografia alojada em www.flickr.com
[ foto de Armaldo Madureira - clique para ampliar ]

sexta-feira, outubro 12, 2007


Vitor Constâncio no Congresso dos Economistas: os mercados financeiros ainda se conseguem controlar, agora os computadores é que é mais difícil (nem com uma mãozinha da Ordem...)

Do congresso retive esta frase de Hernâni Lopes: «Quando há dinheiro fácil não há desenvolvimento, há aviltamento». E também a ternura com que o economista chinês Patrick Huen se dirigiu ao seu amigo e anfitrião, tratando-o por "doctor Nabo".

No geral:
  • excelentes sessões plenárias e mesas redondas — não tanto Manuel Pinho, que comparou o nosso percurso recente às epopeias nórdicas e se proclamou o herói da reestruturação da base produtiva ("stick to the plan", prometeu ele); foi pena Vitor Constâncio não ter tido tempo para falar sobre este domínio.
  • fracas sessões "paralelas" de apresentação de comunicações, com vários oradores a faltar à chamada: será que enviam as comunicações só para os respectivos nomes constarem do programa? Se for assim, também quero.
  • ainda não foi desta que os economistas portugueses chegaram a acordo sobre a carga fiscal: a maioria é a favor da baixa (para dar impulso às empresas e cortar a "mesada" com que o Estado alimenta os vícios), mas Vitor Constâncio é que não deixa.
  • sobre o Congresso pairou o anúncio governamental da previsão para o défice deste ano. No geral as reacções foram: "Sim, mas..." Não sei se o anúncio foi programado para coincidir com o Congresso, mas o timing foi excelente. Miguel Cadilhe falou no "fantasma do antigo Pacto": o governo a tentar cumprir a outrance a meta dos 3%, penalizando desnecessariamente a economia real e desaproveitando a flexibilidade proporcionada pelo novo PEC. Tanto Miguel Cadilhe como Rui Trindade (autor de uma comunicação sobre o produto potencial) asseguraram que Portugal poderia invocar a cláusula de "recessão grave".
  • terça-feira, outubro 02, 2007

    ... nomeadamente nos EUA ...

    Economistas, alegrai-vos, pois já podeis candidatar-vos a médicos:

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    segunda-feira, agosto 06, 2007

    Teoria económica

         Debate e confrontação no contexto da ocupação da herdade Torre Bela, no concelho da Azambuja, Ribatejo, propriedade do Duque de Lafões, Dom Manuel de Bragança. A ocupação da herdade deu-se a 23 de Abril de 1975 e prolongou-se por alguns anos, tendo sido criada uma cooperativa agrícola para organizar a produção. Estas imagens são retiradas do filme-documentário do cineasta alemão Thomas Harlan.
         A discussão é de antologia, opondo duas visões do mundo: uma delas utópica e colectivista (abdicar da propriedade individual para se "aceder" ainda a mais bens) e uma outra, atávica e telúrica. Proprietário de praticamente nada, o trabalhador agrícola resiste a que lhe tirem a enxada, ainda que lhe paguem o valor dela.
         O cooperativista, por outro lado, podia pegar no dinheiro e comprar a ferramenta numa loja, mas isso não chega: ele tem de abolir a propriedade privada e por isso entende que o trabalhador deve deixar de ser possuidor do seu instrumento de trabalho.
         Depois do colapso da cooperativa (e genericamente da reforma agrária pós-25 de Abril) abundaram as explicações sobre as causas do fiasco: supostamente uma conspiração do grande capital e dos aparelhos partidários. Mas a verdadeira causa talvez possa ser encontrada neste pequeno episódio.

    Argumentation between a defender of collectivisation of land and tools, and an agricultural worker who is refusing to give his tool away. Filmed by Thomas Harlan during the revolutionary taking-over of “Torre Bela” farm (Portugal - 23 April 1975)
    Cooperativist - What is the value of your tool?... What is the value of your tool?
    Agricultural worker - I don’t know, is costs more now...
    Cooperativist - So, you must demand that, and it will become property of the Cooperative. This all belongs to the Cooperative. It is not yours, it is not his [pointing another worker], it is not mine — it belongs to the Cooperative!
    Agricultural worker - It belongs to the Cooperative? And what about the others that don't bring any tools? Their tools stay at their home, and mine goes to the Cooperative... The others that brought nothing to work here, and don't intend to, so it don't get lost, they will finish to loose mine…
    Cooperativist - May I? [holds the tool] This has the value of 100 escudos…
    Agricultural worker - Exactly.
    Cooperativist - This goes to the Cooperative and the Cooperative gives you 100 escudos, and this is not yours anymore: it is mine, it belongs to him [points another worker], it belongs to everyone!
    Agricultural worker - It might seem all right, but I am the one who works width it. Tomorrow I'll need to use it in my plot of land, and then, must I buy another one? And then that one goes to the Cooperative too? And I buy another one and everything goes to the Cooperative? Soon, my shoes and my cloths will be property of the Cooperative... even I was the one who bought it?
    Cooperativist - That is exactly.
    Agricultural worker – And I was the one who bought it…
    Cooperativist - That is our philosophy.
    Agricultural worker - Tomorrow, you'll take my boots and it goes to the Cooperative!
    Cooperativist - That is our aim.
    Agricultural worker - It goes to the Cooperative and I will be naked!
    Cooperativist - You won't get naked! You'll even get more cloths than the ones you have now!
    Agricultural worker – [doubtful] I am not seeing that... I am not seeing that...
    Cooperativist - You, never in your life of slave...
    Agricultural worker - [ironic] ...Each time I see more and more...
    Cooperativist - Look, You are a fool.
    Agricultural worker - [ironic] The ones that do not see are the blind, and the dead, and the ones still to be born. Those didn’t saw yet. They will come to see.
    Woman - Look, now that you lost that tool...
    Agricultural worker - I did not lost it!
    Woman - ... We pay you for it! We will pay it! We only need to calm down...
    Cooperativist - What this comrade of yours is saying — in fact, she understood it. Today you seem not to understand, and I don't know why. But I will tell you once more. You said a while ago that you will finish without cloths, with nothing. But the aim of your work, the aim of my work, the aim of all this work, is that you don't get naked, and that you can even get more cloths than those you have today, so that you get everything.
    However, remember: in order to avoid problems — and this is one of thing we must get straight now — this tool that you claim to be yours today, goes to the Cooperative, and that is the only way to get ahead. If you gave 40 or 50 escudos for it, the Cooperative will give you that amount. And then, when you'll come here, it belongs to you, it will be your tool. And so, you must respect it and use it properly.
    Agricultural worker – [doubtful] It might be like that, but there are other ones that don’t... [truncated]

    terça-feira, julho 31, 2007

    Cibereconomia


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    A edição de Agosto da revista Exame dedica uma página à blogosfera "económica" portuguesa, num artigo da jornalista Joana Pereira, no qual se faz referência aos blogues Notas de Economia, Destreza das Dúvidas, Economia & Finançase também ao Pura Economia. Os nossos agradecimentos pela citação.

    quarta-feira, julho 18, 2007

    Mar

         Estratégia Azul, um blog dedicado à divulgação da Estratégia Nacional para o Mar e ao debate do Livro Verde para uma Futura Política Marítima Europeia.
         Participei na redacção de sugestões para a discussão pública deste Livro Verde por parte de uma entidade pública, mas a expectativa de que venham a ser consideradas é próxima de nula, tal como aconteceu com o contributo da mesma entidade para o Plano Estratégico Nacional para a Pesca.

    domingo, julho 15, 2007

    Na sequência de uma entrada do blog Overcoming Bias, o Gustibus propõe um plano de estudos em em Economia (com 8 semestres) que inclui duas disciplinas de Neuroeconomia - uma delas com aulas em laboratório! - sendo o último semestre ocupado com "Monografia e/ou Estágio no Laboratório".
    "A Economia em Pessoa"
    Verbetes contemporâneos e ensaios empresariais do poeta
    Gustavo H. B. Franco
    (organização, introdução e notas)
    Editora Zahar, Rio de Janeiro

    [...]      «Pelo que já foi dito, pouco tem de acidental o interesse de Pessoa por economia em 1926, quando se associa a seu cunhado Francisco Caetano Dias na empreitada de editar e escrever uma revista dedicada ao comércio e à contabilidade. Gaspar Simões mal se refere a essa distração de Pessoa; era uma época em que "tudo o dispersava, tudo o entretinha, tudo era pretexto para se deixar ficar ali sentado, ouvindo, bebendo, fumando, conversando sem fazer nada de sólido: com sua obra em fragmentos à espera de uma mão poderosa para consolidar". Mesmo Alfredo Margarido observa que "parece existir uma espécie de contradição entre o percurso poético e o interesse consagrado, seja ao comércio, seja à teoria económica. Porém, à luz de suas amplas e variadas actividades empresariais, nada há o que estranhar. Pessoa já tivera uma experiência mal sucedida com a Tipografia Íbis, como conta Mega Ferreira: "Entre 1909 e 1912, Fernando Pessoa passara de herdeiro desafogado a poeta endividado". Mas em vez de abater-se, Pessoa prossegue com outras empreitadas, seja envolvendo-se com os aspectos económicos das publicações vanguardistas em que contribuiu como autor (Orpheu e O Portugal futurista), seja em intensa actividade como corrector de concessões de mineração em Portugal e nas colónias.
         «Em 1921 inicia o ambicioso projecto da Olisipo, que compreendia de início apenas uma editora, mas cuja ambição ia bem além, tal como estão minuciosamente relacionadas no projecto de constituição da Cosmopólis, que listava, em seu objecto social, exactas 88 actividades divididas em quatro grupos: informação comercial, ideias editoriais e literárias, prestação de serviços de "consultadoria" e organização da própria empresa. Olisipo não prosperou, mas, como informa Mega Ferreira:
    Não há números, nem balanços, nem sequer lamentações posteriores do que, presumivelmente, terá sido mais um desastre financeiro na vida de Pessoa. Aliás, não parece que o Poeta tenha sido homem de desânimos... Como já antes acontecera, Pessoa renascia de cada insucesso com a sua determinação empresarial intacta.
         «Em 1926 Pessoa estava no auge dos seus interesses empresariais, "anos de brasa", como diz Mega Ferreira, mas também uma época em que as dificuldades financeiras oriundas do fracasso da Olisipo, sua saúde frágil, em boa medida decorrente dos abusos do álcool e do tabaco, o levaram "a empregar os seus talentos e aptidões comerciais de maneira a obter uns dinheiros com que pudesse encarar confiadamente os anos que lhe restavam de vida". A necessidade parece assinalar o auge de sua actividade como publicitário, inventor, corrector de minas; é quando começa a editar a Revista de comércio e contabilidade. Caetano Dias, o cunhado, era o profissional, o especialista reconhecido em questões contábeis, e Pessoa o amador, conforme descreve Bréchon:
    Isso dá-lhe uma liberdade de atitudes de que o cunhado é incapaz, pois não tem nada de fantasista. Ainda quando finge tratar de forma rebarbativa questões entediantes, Pessoa denuncia-lhe a originalidade fundamental por meio de ditos espirituosos ou de efeitos estilísticos. Comparemos-lhe os escritossobre comércio com os de Mallarmé sobre moda: ambos têm o dom de zombar imperturbavelmente do mundo.
  • Índice e capítulo "Verbetes contemporâneos" [pdf]
  • Recensão de Fernando Dantas: aqui
    O blog Gustibus já tinha comentado: «O poeta português Fernando Pessoa era um defensor de idéias econômicas liberais, que podem ser apreciadas (ou lamentadas) por seus admiradores em A Economia em Pessoa, livro organizado e prefaciado por Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central (BC) e diretor-executivo da Rio Bravo, empresa de serviços financeiros que editou a obra. O livro contém 11 artigos originais de Pessoa sobre temas econômicos e comerciais (um deles, uma coletânea de pequenos textos) e uma entrevista fictícia elaborada pelo escritor João Alves das Neves, presidente do Centro de Estudos Fernando Pessoa.»
  • sexta-feira, julho 13, 2007

    Small is beautiful

    quinta-feira, julho 12, 2007

    Progressistas regressistas


    Manufactura de algodão

         Portugal tem a duvidosa honra de ser expressamente citado em alguns dos clássicos livros da Economia Política, por exemplo nos "Princípios da economia política e tributação" (1817), do sr. David Ricardo: é lá que se exemplifica a teoria das vantagens comparativas no comércio internacional, explicando (com prova matemática e tudo!) porque é que a Inglaterra deveria fabricar textêis ("panos") e Portugal vinho.
         Se do estrito ponto de vista da eficiência económica isto é defensável, do ponto de vista do desenvolvimento deixa muitas dúvidas: Portugal especializar-se-ia numa produção agrícola com pouca incorporação tecnológica, e a Inglaterra num sector que contribuiria poderosamente para a industrialização e explosão da produtividade. Porém, mais de 100 anos antes, este "trato" já tinha ficado acordado no Tratado de Methuen, (de 1703, renovado em 1810), ou "Tratado de Panos e Vinhos". Adam Smith, pelo seu lado, zurziu este tratado (e Portugal) mas por outros motivos: porque ele configurava o tipo de política intervencionista e limitadora da liberdade de comércio que ele abominava.
         Quem não se iludiu com tal conversa foi o Marquês de Pombal, que instalou no país uma série de manufacturas, nalguns casos com sucesso duradouro (indústria vidreira da Marinha Grande) e noutros sem futuro (por exemplo a fábrica de chitas de Vila Nogueira de Azeitão, uma deliberação régia de 1775).
         Curiosa é a atitude dos ilustres académicos portugueses da época, cujo ideário e propostas se encontram disponíveis na excelente reedição dos 5 tomos das "Memórias Económicas da Academia Real das Ciências de Lisboa". Muito influenciados pela doutrina fisiocrata, estes académicos avaliavam quase tudo pelos efeitos, positivos ou negativos, que provocava na agricultura. A sua opinião sobre as fábricas foi frequentemente negativa, mesmo quando se apercebiam de que nas terras em que elas se instalavam tudo prosperava, incluindo a agricultura! Acham isto normal?
         Atentemos: Tomás Vila-Nova Portugal, referindo-se em 1791 ao território de Azeitão, em cuja povoação de Vila Nogueira se tinha instalado a fábrica de textêis, começa por reconhecer que há decadência de muitas propriedades agrícolas, mas que é nos "lugares mais próximos à vila, ou Aldeia Nogueira é que estão em estado mais florescente, e têm maior número de fogos e pessoas" e "também a cultura [agricultura] está em melhor estado, quando as terras estão mais próximas à Aldeia Nogueira, em que é maior a povoação [população].
         Vila-Nova Portugal manifesta depois a opinião de que o número de agricultores (304) é insuficiente, porque todos os anos contumam vir de Aveiro 118 homens para trabalhar nos campos, e conclui: "Disto se segue que a sua manufactura é em detrimento da sua cultura” ou seja, a manufactura (textêis e tinturaria) prejudica a agricultura! E acrescenta: “neste estado de cultura a terra não tem outro regresso [rendimento], que não seja o destas manufacturas de chitas, e tinturaria; ainda que os seus salários não sejam uma renda produtiva”. (*)
         Vila-Nova Portugal é hoje um ilustre desconhecido, mas o mesmo não acontece com Domingos Vandelli, autor de numerosos estudos hoje muito citados. Sobre este mesmo problema das dificuldades sentidas na agricultura, Vandelli lista uma serie de causas de abandono dos campos, que hoje conhecemos bem como caracteristicas das economias modernas: "(1) recolhendo-se para as cidades, e principalmente para a corte (2) expatriando-se muitos cada ano por várias causas, entre as quais é a falta de subsistência (3) o Algarve dá muitos marinheiros aos estrangeiros", e finalmente: "(4) as fábricas atraem a si um exorbitante número de cultivadores".
         Mas não observa Vandelli que as fábricas dinamizam a economia das regiões em que se instalam? Claro que sim, mas eis como resolve o problema:

    "Não vale relatar-se o exemplo da maior povoação [povoamento], e aumento da agricultura nas vizinhanças de algumas fábricas, estabelecidas neste reino, como nas de vidro da Marinha; e na de Azeitão de chitas; porque se nestas vizinhanças em razão da maior quantidade do dinheiro, que ali circula, há maior povoação, e consumo de comestíveis, e por isso uma agricultura mais florescente: isso sucede com prejuízo dos lugares ou circunvizinhos ou distantes; nos quais se diminui à proporção a agricultura, e a povoação.

         Normalmente atribui-se ao antigo regime, às forças conservadoras, a responsabilidade pelo atraso económico de Portugal. Mas estes académicos estavam (supostamente) na vanguarda do progresso, eram os iluminados, gente culta, lida e viajada, observadores ineressados no desenvolvimento do país, que continuamente escreviam textos a criticar as más técnicas dos trabalhadores, fossem elas a cortar o bacelo ou a empatar o anzol. E afinal eram contra as manufacturas... Que seita!



    (*) Em nota de rodapé o editor interpreta esta frase como querendo significar que o rendimento originário das manufacturas constituía uma "fonte precária". Julgo porém que o sentido é outro: a frase reproduz liminarmente a crença fisiocrata de que só a agricultura era "produtiva", pois só ela gerava um excedente, um produto líquido acima do valor dos recursos utilizados na produção.; na visão da fisiocracia o trabalho de manufactura, embora necessário, não era "produtivo".

    Arqueologia coasiana

    No De Gustibus non Est Disputandum:
    «Estou estudando diversas escrituras de sociedade mercantil entre o Rio de Janeiro e Lisboa na segunda metade do século XVIII. Dentre as inúmeras condições a serem seguidas pelos sócios uma se destaca, a da prestação de contas. "O farão todos amigavelmente sem contenta de justiça e quando alguns deles interessados tenha dúvida e não quiser aceitar elas se convocarão 2 homens de negócio de reconhecida capacidade."

    Acho que eles deviam pensar assim: Cara, vamos resolver isto entre nós (ou entre "gente da gente") sem esta de elevar os custos num processo caro e demorado no Conselho Ultramarino...»

    terça-feira, julho 10, 2007

    Altruismo interessado

         «Os donativos de caridade constituem um puzzle para cínicos e economistas que acreditam apenas em motivações egoístas. Porque haveriam as pessoas de dar dinheiro a estranhos sem esperar nada em retorno? Enquanto que alguns donativos são claramente altruistas — como testemunham as avalanches de generosidade depois do 11 de Novembro, do furacão Katrina e do tsunami asiático — outras ofertas já o parecem menos. Se a contribuição é motivada pela preocupação pelos outros, fica claro porque se dá para os pobres: o dólar pode comprar-lhes maior felicidade do que a quem dá. Mas o que é que pode haver de altruista em dar dinheiro a uma rica instituição de ensino superior? O capital [endowment] de Harvard atinge quase os 30 mil milhões de dólares, mas antigos alunos e outros doaram-lhe em 2006 mais 595 milhões, um terço do orçamento anual. Qual a justificação para estas ofertas?
         «Os cínicos hão-de gostar da resposta fornecida por um novo estudo da autoria de Jonathan Meer (Univ. Stanford) e Harvey S. Rosen (Univ. Princeton), o qual oferece evidência persuasiva de que alguns ex-alunos fazem donativos às suas antigas escolas na esperança de fazer aumentar as probabilidades de admissão dos seus próprios filhos.»

    "The Old College Try"
    Joel Waldfogel, Slate Magazine

    Trabalho referido acima:
    "Altruism and the Child-Cycle of Alumni Donations" [Maio 2007 - pdf]
    "Business cycle and level accounting: the case of Portugal"
    Tiago V. Cavalcanti
    Portuguese Economic Journal

    Resumo: «Este paper estuda as causas dos ciclos económicos recentes em Portugal e porque é que está deprimido relativamente aos EUA. O procedimento de contabilização considerado aqui sugere que a maioria das mudanças do produto por trabalhador em Portugal, no periodo considerado (maioritariamente 1979-1991) podem ser atribuidas a mudanças de eficiência económica. Por exemplo, a forte recuperação económica do produto por trabalhador após a adesão de Portugal à União Europeia, e até aos primeiros anos da década de 1990, podem ser essencialmente atribuídos a melhorias da eficiência económica. Entre 1970 e 2000 Portugal aproximou-se do líder industrial. O seu produto por trabalhador encontra-se actualmente deprimido em cerca de 46% do nível dos EUA (em 1979 estava 57%). Nos anos 80 todo este diferencial de produto por trabalhador relativamente aos EUAfoi devido ao factor produtividade. Em 2000 o afastamento de Portugal relativamente aos EUA era uma mistura de depressão francesa e japonesa. O factor trabalho contribuía para 24% desta depressão, e a eficiência económica para cerca de 89%.»

    quinta-feira, julho 05, 2007

    Economia e Matemática

    "The Origins of Mathematical Economics: Calculus and Price Theory" [pdf]

    Paula Tubaro

    A minha dissertação chama a atenção para o uso inicial de ferramentas matemáticas relativamente avançadas, tais como o cálculo diferencial, na Economia dos séculos XVIII e XIX. Debrucei-me especificamente sobre o papel do cálculo na configuração das representações de optimização do comportamento dos indivíduos, por parte dos economistas, bem como da sua compreensão das ligações entre a optimização individual e a formação dos preços de mercado. Lidei com questões como as amplas implicações do uso das assumpções de continuidade e diferenciabilidade, que sugerem que as mudanças económicas são suaves e não abruptas ou dramáticas; bem como as complexas ligações entre a Economia e a moderna Física, cujos desenvolvimentos iniciais estiveram proximamente relacionados com a criação do cálculo. Associei estes temas com a ajuda de alguns estudos de caso, examinando os trabalhos de D. Bernoulli (1738), A.A. Cournot (1838), J. Dupuit (1844, 1849), H.H. Gossen (1854), J.H. von Thünen (1850), e muitos outros conhecidos autores da Grã Bretanha, França e Alemanha.

    Portuguesa do coração


    Michelle Larcher de Brito
    "America is great but I'm so Portuguese at heart."

    quarta-feira, julho 04, 2007

    Plano B

    Inspirado naquela máxima: "Que desperdício chamarem Terra a uma coisa que é 70% água", deixo aqui documentação para um possível estudo de uma enésima hipótese de localização do futuro aeroporto de Lisboa.

    Um Clipper Boeing 314 amara em Lisboa - pintura de Robert Taylor
    Um Clipper Boeing 314 em Lisboa

    Outras provas da plausibilidade e versatilidade da localização:
  • Hidro biplano Curtiss NC-4 (27.Maio.1919)
  • idem
  • Fairey III-D de Coutinho e Cabral (1922)
  • Dornier Do.j Wal "Argos", navegando à vela no Tejo: energia alternativa! (1927)
  • Dornier Do-J II junto à Torre de Belém
  • Lockheed Sirius e Charles Lindbergh em Cabo Ruivo (1933).
         (Este Sirius encontra-se actualmente no museu da Smithsonian Institution.)

  • Perguntas difíceis

    Parece que as Universidades inglesas estão a fazer perguntas estranhas aos candidatos a caloiros. Segundo uma notícia do Times, em Oxford colocaram esta questão: "Perante três belas mulheres, totalmente despidas à sua frente, qual delas escolheria? Isto tem alguma relevância para a Economia?"

    Pode ser que a pergunta nada tenha a ver com o tema da Economia e seja apenas um daqueles truques dos psicólogos para avaliar características pessoais, colocando os indivíduos perante opções inesperadas. O Times sugere que pode ser um preciosismo imposto pela necessidade de escolher os melhores entre um crescente número de candidatos.

    Já o blog Stumbling and Mumbling opta por elaborar a sua própria resposta em 6 pontos (um deles reproduzido na caixa de baixo), originando uma interessante sequência de comentários, alguns deles preocupados com o facto de não se tratar de uma pergunta uni-sexo. Num desses comentários diz-se: "A vantagem de fazer perguntas estranhas é que testam a tua capacidade para respostas rápidas e para ressaltar o conhecimento que tens para pensar criativamente e responder a uma pergunta que nunca te tinha sido feita antes. Não sei até que ponto a escola pode ensinar as pessoas a fazer isso, ou talvez apenas encorajá-las nesse sentido".

    Questionário:
  • Que percentagem da água existente no mundo se encontra contida numa vaca? (Veterinária, Cambridge)
  • Explique como funciona uma permanente. (Bioquímica Molecular e Celular, Oxford)
  • Eis um pedaço de casca [bark]; fale acerca dele. (Ciências Biológicas, Oxford)
  • Porque é que tão poucos americanos acreditam na evolução? (Ciências Humanas, Oxford)
  • Você é fixe? (Filosofia, Política e Economia, Oxford)
  • Porque é que não temos apenas uma orelha no meio da cara? (Medicina, Cambridge)
  • Atribua um valor monetário a esta chávena de chá. (Filosofia, Política e Economia, Oxford)
  • Perante três belas mulheres, totalmente despidas à sua frente, qual delas escolheria? E isto tem alguma relevância para a Economia? (Filosofia, Política e Economia, Oxford)
  • De todos os políticos do século XIX, qual se parecia mais com Tony Blair? (Filosofia, Política e Economia, Oxford)
  • Porque é que não se pode acender uma vela numa nave espacial? (Física, Oxford)

    «Talvez a "preferência colectiva" não exista. Por exemplo, perante a escolha entre Kate Moss, Kathy Sykes e Kelly Brook, a minha opção é: 1 = Kathy, 2 = Kelly, 3 = Kate. A escolha de um dos meus colegas é: 1 = Kate, 2 = Kathy, 3 = Kelly. E um outro colega: 1 = Kelly, 2 = Kate, 3 = Kathy.

    Portanto, quem é que preferimos, colectivamente? É impossível dizer com segurança, a menos que possamos medir as nossas preferências interpessoais, de modo a avaliar se a minha preferência por Kathy relativamente a Kelly é mais forte do que a preferência do meu colega por Kelly relativamente a Kathy. Se não pudermos fazer isto — ou seja, se o utilitarismo cru não se aplicar — então estamos no mundo do teorema da impossibilidade de Arrow. Isto mostra que a escolha social não é essa coisa simples que os políticos por vezes apregoam.»

  • terça-feira, julho 03, 2007

    História

    Fazer a "History of Recent Economics", não será um bocadinho prematuro? Bem, mas lá fizeram a sua 1ª conferência anual e as comunicações estão disponíveis em linha. Entre elas "Economic drama: Leonard S. Silk at Business Week", de Tiago Mata, do ISEG, sobre o interessante tema da popularização da Economia enquanto ciência, abordando o caso da revista Business Week. De todas as ciências a Economia (em sentido lato, englobando as diversas 'Gestões') é a que parece ter mais suplementos ou secções dedicadas em jornais. Aplica-se aqui a pergunta de uma canção de Caetano Veloso: "O sol nas bancas de revista / Me enche de alegria e preguiça / Quem lê tanta notícia?"

    Outras comunicações sobre temas interessantes:
  • "Why is the public sector so large in market societies?"
  • "The suspicious consistency of Milton Friedman’s science and politics"
  • "Tobin's Keynesianism"
  • "Early development of experimental economics at the interdisciplinary crossroads"
  • "Turn in and return of orthodoxy in recent economics"
  • segunda-feira, julho 02, 2007

         Deve-se tomar a decisão de entrar (ou sair) de uma guerra em função de uma análise económica de custo-benefício? Ou pode-se sequer avaliar a validade de uma guerra na base dessa contabilidade?
         No seu blog dialogal, Becker e Posner escrevem sobre o trade off entre os custos e benefícios da guerra, ou, mais especificamente, do sucesso diplomático versus o custo em mortes. Becker inicia a sua análise com a descrição de uma teoria de Francis M. Bator, um professor de Harvard que entre 1965 e 1967 foi conselheiro de segurança na Casa Branca. Recentemente foi divulgada uma sua short monograph, "No Good Choices: LBJ and the Vietnam/Great Society Connection", que defende a teoria de que ao enviar mais e mais tropas para o Vietame, o presidente L.B. Jonhson não foi vítima de inexperiência, nem foi mal avisado pelos militares, nem estava convencido de que essa era a via para ganhar a guerra, nem sequer esperava derrotar os comunistas. O que o precupava eram os seus programas públicos, designados como "Great Society" (Medicare, "Guerra à Pobreza", "Voting Rights Act", etc), e temia que fossem bloqueados pelo Congresso caso se criasse a ideia de que ele estava a "perder a guerra". Ou seja: fazia-se uma guerra lá longe mas apenas para obter determinados efeitos de política interna. Becker aborda depois a questão de como traduzir em valor monetário as mortes e feridos de guerra, bem como o tal prestígio diplomático (suponho que seja tanto "pela positiva" como "pela negativa", ou seja, que envolva tanto a admiração como o receio que o guerreiro inspira).
         Becker não garante que Bator tem razão, e Posner garante que não tem. Mas se é verdade que ostes posts falam da guerra do Vietname e de L.B.Johnson, também é verdade que podem ter sido escritos a pensar na guerra e ocupação do Iraque. Nesse caso, qual seria a política interna dos EUA que justificaria a guerra?

    O texto de Bator está disponível aqui: "No Good Choices: LBJ and the Vietnam/Great Society Connection". [pdf]