sábado, junho 30, 2007

Optimismo

sexta-feira, junho 29, 2007

EUA: novo mapa

O novo "Mapa económico da América": uma visão curiosa, onde se pode verificar que o México já não existe, engolido pelas ondinhas do mar. Em todo o caso o desenho é para aqui convocado a propósito do artigo "The New Economic Map of America", que reza o seguinte:

     «A geografia da economia americana está em constante mudança. Agora chegou a vez do interior se vingar das grandes urbes das costas Este e Oeste. Cidades como Sioux Falls, South Dakota e St. George (Utah) são as vencedoras. As perdedoras são cidades ‘hip’ tais como Boston e São Francisco, que parece ainda não se terem apercebido disso.
     «Se lhes perguntarem quais as cidades que são as grandes campeãs económicas, quase toda a gente que leia jornais ou assista aos noticiários televisivos nomeará sítios como Nova Iorque, São Francisco, Boston e Washington, onde os preços dos condomínios e vivendas escalaram e os ricos tiveram a "sorte grande" ao alavancarem os seus activos imobiliários.
     «Mas na realidade os verdadeiros pontos quentes encontram-se espalhados pela grande paisagem americana que os media baseados em Manhattan desconhecem. A escalada dos preços dos condomínios constitui um fenómeno menor e provavelmente transitório. Na nova geografia económica da América a maioria dos vencedores está no interior; e os perdedores encontram-se nas costas densamente povoadas.
     «Em 2005 havia menos pessoas empregadas em Nova Iorque do que em 1969. No mesmo período, nos EUA como um todo, criaram-se 61 milhões de empregos, um acréscimo de 87%. O verdadeiro crescimento desde os anos 1990 ocorreu em lugares como Sioux Falls, Reno, Boise. Estas cidades beneficiaram igualmente do aumento sem precedentes dos valores do imobiliário mas, ao contrário das cidades costeiras, também ganharam empregos numa grande variedade de sectores, desde a construção comercial até à alta tecnologia e serviços comerciais de topo.
     «Entre 1994 e 2005 a área de Phoenix expandiu o emprego em 52%, Orlando em 48%, Charlotte em 31%, Boise 44%, Reno 36%, Houston 25% e Las Vegas uns extraordinários 86%. Comparativamente, Nova Iorque e a grande Chicago expandiram-se na ordem de apenas um dígito, enquanto que as áreas de Cleveland, Baltimore, Detroit e Filadélfia perderam empregos. Não é pois de surpreender que muitas pessoas - particularmente jovens famílias - estejam a abandonar as cidades de crescimento lento.»
(...)

O artigo completo encontra-se na American.com.

Mark Blaug [7]


     Mark Blaug

P - Em que sentido específico é que andámos para trás?
MB - No sentido de que a Economia, enquanto disciplina completamente formalística, desencoraja estudantes de a prosseguir. Não sei da América, mas na Europa a Economia infelizmente atrai cada vez menos estudantes, enquanto que os estudos dos negócios e gestão de negócios atraem cada vez mais. Não é só o facto da Economia se ter tornado técnica; acontece é que a Economia preza o tecnicismo acima de tudo o resto e é a isso que chamo formalismo. Formalismo é a tendência para endeusar a forma, mais do que o conteúdo do argumento. Foi nisso que ela se transformou. Apenas nos preocupamos acerca da forma em que uma teoria ou hipótese económica é apresentada, e quase não nos importamos nada acerca do conteúdo da hipótese.
P - Quais são os principais temas em que não fizemos progressos?
MB - Os mercados e o modo como eles efectivamente funcionam; ou seja, como é que se ajustam para articular procura e oferta. Nós na Economia sabemos imenso sobre equilíbrio, mas na realidade não sabemos como é que os mercados chegam a esse equilíbrio.
P - Na sua opinião, o que é que pode salvar a Economia?
MB - Sou muito pessimista sobre a possibilidade de ainda se fazer alguma coisa. Julgo que criámos uma locomotiva. Isto é a Sociologia da profissão económica. Criámos um monstro que é muito difícil de fazer parar.
P - Poderão os factos do mundo real, ou um severo cataclismo económico, provocar mudanças?
MB - Certamente que mudariam, mas não vejo isso ao virar da esquina. Mas talvez eu seja muito pessimista, e seja muito depressivo estar por ali. Não me parece que haja qualquer saída.

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Correcção

O gráfico apresentado três entradas mais abaixo refere-se ao desemprego na União Europeia e não à inflação, como estava inicialmente indicado. Agradeço a Helena Garrido a indicação do erro. Conforme ela própria referiu, até parecia uma piada à curva de Phillips.

A propósito desta "correcção", uma citação retirada do "Guia dos Indicadores Económicos" do "The Economist":

Quando o teu vizinho perde o emprego é uma desaceleração, quando você perde o emprego é uma recessão mas quando um economista perde o emprego é uma depressão.
(anónimo)

quinta-feira, junho 28, 2007

Indicador de clima económico

(Fonte: New Yorker)

quarta-feira, junho 27, 2007

Alucinações comerciais

     «Durante décadas os negócios floresceram. Ao longo dos anos operadores rivais foram descobrindo maneiras de aumentar a produção, concebendo imaginativas redes de abastecimento que chegam a toda a parte, expandindo o mercado de tal forma que abastecem os consumidores leais em praticamente todos os países. As estimativas são difíceis de confirmar, em boa medida porque as empresas são relutantes em abrir as suas contas ao escrutínio público, mas julga-se que o sector terá tido vendas anuais da ordem dos 320 mil milhões de dólares em 2005 (livres de impostos). E embora alguns dos mais conhecidos canais de comercialização (os cartéis de cocaína de Medellin e Cali, por exemplo) tenham sido obrigados a fechar a loja, essencialmente devido a uma estrita regulação estatal, o sector no seu conjunto continua de saúde.
     «Mas estarão esses dias felizes a chegar ao fim? Um relatório da ONU divulgado em 26 de Junho último sugere que as perspectivas de expansão de parte do sector são escassas. Embora se calcule que 5% dos adultos tenham consumido drogas ilícitas de qualquer tipo no ano passado, o uso de produtos mais suaves como o haxixe (canabis) e as anfetaminas aparentemente atingiu o seu máximo. Nos EUA, por exemplo, o uso de haxixe atingiu o ponto alto em 1979, quando mais de 16% da população o consumia. Em 2005 o consumo tinha caído para 10,4%.»
(...)

The Economist - "Is the narcotics industry in trouble?"

  • Relatório Anual de 2007 da UNODC - United Nations Office on Drugs and Crime
  •  Inflação  Desemprego na União (Abril 2007)

     Países                  Taxa de desemprego
    1Polónia11,2%
    2Eslováquia10,5%
    3Grécia8,6%
    4França8,6%
    5Espanha8,2%
    6Hungria8,2%
    7Portugal8,0%
    8Bélgica7,6%
    9Bulgária7,5%
    10Roménia7,2%
    11Alemanha6,7%
    12Finlândia6,6%
    13Itália6,5%
    14Malta6,4%
    15Suécia6,2%
    16República Checa6,1%
    17Letónia5,8%
    18Lituania5,4%
    19Reino Unido5,4%
    20Luxemburgo4,9%
    21Eslovénia4,8%
    22Estónia4,7%
    23Áustria4,5%
    24Chipre4,4%
    25Irlanda4,0%
    26Dinamarca3,4%
    27Holanda3,3%
     Zona Euro7,1%
     União Europeia (27)7,1%
    Fonte: Finfacts Ireland

    Marc Blaug [6]


         Mark Blaug

    P - A sua solução é então mais empirismo?
    MB - Mais empirismo, mais história, sujar mais o nariz nos dados, informar os pares, pedir opiniões, monitorar o comportamento - sim, tudo isso.
    P - Em todo o caso, nos EUA parece haver algum movimento no sentido de uma maior experimentação. Reparou nisso?
    MB - Penso que o movimento na direcção da Economia experimental é muito útil. O que é surpreendente é a enorme resistência que encontra.
    P - Pode exemplificar?
    MB - Uma conversa com qualquer um dos economistas experimentais que se estão a destacar. Eles falar-lhe-ão da enorme resistência que o seu trabalho enfrenta. É muito duro desenvolver a Economia experimental porque se está a chocar com esta cristalização na modelização formal. Houve algum progresso nos anos recentes, mas espanto-me com a dificuldade em interessar os economistas nisso e em quão pequena é a participação disto na Economia dominante tal como é ensinada nas universidades.
    P - Será que aprendemos algo de fundamental no último quarto de século de Economia?
    MB - Certamente que sim. Particularmente na macroeconomia, no modo de lidar com a inflação, com o desemprego. Penso que aprendemos muito, especialmente sobre a condução da actividade económica num sentido macro. Certamente que aprendemos muito com o movimento da desregulamentação e privatização. Embora haja ainda muito a aprender, quando comparo o que sabemos agora acerca destas coisas com os dias em que era estudante nos anos 50, penso que demos vigorosos passos em frente. Mas em certo sentido também andámos para trás.

    [ continua ]

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    terça-feira, junho 26, 2007

    Cannabis



    OrdemPaíses% de pessoas que consumiu cannabis
    1  Nova Zelândia:22,23%  
    2  Austrália:17,93%  
    3  EUA:12,30%  
    4  Reino Unido:9,00%  
    5  Suiça:8,50%  
    6  Irlanda:7,91%  
    7  Espanha:7,58%  
    8  Canadá:7,41%  
    9  Holanda:5,24%  
    10  Bélgica:5,01%  
    11  França:4,70%  
    12  Itália:4,60%  
    13  Grécia:4,39%  
    14  Alemanha:4,10%  
    15  Dinamarca:4,02%  
    16  Noruega:3,82%  
    17  Portugal:3,68%  
    18  República Checa:3,58%  
    19  Polónia:3,38%  
    20  Áustria:3,01%  
    21  Finlândia:2,49%  
    22  Luxemburgo:1,94%  
    23  Hungria:1,19%  
    24  México:1,13%  
    25  Suécia:0,98%  
    26  Japão:0,05%  
    Média ponderada:5,8%  
  • Definição: Percentagem de pessoas que usou cannabis, geralmente incluindo pessoas a partir dos 15 anos
  • Diferentes países consideram diferentes grupos etários: EUA e Holanda: 12 e mais anos. Grécia: Entre 12 e 64. Austrália: 14 anos e mais. Reino Unido: 16 a 59. Germany: 18 a 59. Dinamarca e França: 18 a 69.
  • Dados dos anos 1998 ou 1999 na maioria dos casos. Alemanha, Polónia e Espanha: dados de 1997. Áustria: dados de 1996. Dinamarca, França e Irlanda: dados de 1995.
  • Fonte: NationMaster
  • 1/5

    Pessoas em fila na fronteira
         Pessoas em fila na fronteira

         «Como se justifica um muro na fronteira? Qual a justificação para condenar milhões de trabalhadores mexicanos não qualificados a vidas de pobreza desesperada? Dizem-me que se deve ao facto dos americanos deverem cuidar mais dos seus compatriotas do que de um bando de forasteiros. OK, mas quanto mais? Certamente deve haver um limite; ninguém pensa, por exemplo, que os americanos devam caçar mexicanos como desporto. Portanto, exactamente em que medida é que estão dispostos a atingir um estrangeiro para ajudar um americano? Representará o bem-estar de um mexicano 3/4 do de um americano, ou metade, ou 1/4?
    (...)
         Feitas as contas conclui-se que o ganho de 7 dólares de um imigrante vale 5 vezes a perda de 3 dólares dos americanos. Por outras palavras: para justificar a barragem do emigrante, temos de dizer que ele vale menos de 1/5 do cidadão americano.
         Por contraste, houve um tempo em que a Constituição dos EUA contava um escravo negro como 3/5 de um cidadão de corpo inteiro. O Governador do Alabama, Bob Riley, pediu recentemente desculpa pelos danos da escravatura. Quanto tempo demorará até que os políticos peçam desculpa pelos danos das nossas restritivas políticas de emigração?»

    Steven E. Landsburg - Slate
    "One-Fifth of an American"

    segunda-feira, junho 25, 2007

    Um dia...

         Apresentação flash com tecnologia Gapminder e Trendalyzer (*). O autor é Hans Rosling e o tema é o desenvolvimento da Suécia nos últimos 300 anos, mas a apresentação vale também pela exemplificação das potencialidades da tecnologia digital para a pedagogia.
         Hans Rosling é professor de saúde internacional no Karolinska Institutet de Estocolmo e fundou a Gapminder, uma companhia não-lucrativa do sector IT, e que produz software que permite transformar estatísticas chatas em animações gráficas atractivas.
         No seu blog Rosling explica que esta é a sua primeira tentativa de juntar video de manipulação cromática [chroma key video] com gráficos animados.
         O chroma key video é usado há muito tempo nos noticiários da meteorologia. De repente ocorreu-me este cenário: os professores de Economia (e das outras disciplinas também) substituídos por umas meninas simpáticas e com grande poder comunicativo.


    (*) A Trendalyzer foi adquirida no início deste ano pelo Google: notícia.
    Países da UE perigosos para trabalhar (2003)

    OrdemPaísesFatalidades por país
    1    Alemanha: 465   
    2    Itália: 427   
    3    Espanha: 365   
    4    França: 318   
    5    Portugal: 285   
    6    Reino Unido: 182   
    7    Áustria: 145   
    8    Holanda: 60   
    9    Irlanda: 52   
    10    Grécia: 48   
    11    Bélgica: 41   
    12    Finlândia: 29   
    13    Suécia: 28   
    14    Dinamarca: 27   
    15    Luxemburgo: 6   
      Média ponderada: 165,2   

    Fonte: NationMaster

    domingo, junho 24, 2007

    Neuroeconomia


    Neuroeconomics - apresentação de Benoit Hardy-Vallée, da Universidade de Toronto, sobre neurociência e neuroeconomia. Benoit mantém o blog Natural Rationality.
     → → →  Law and Information: ← ← ←  
       um blog sobre 'Direito e Economia' e   
       'Neurojurisprudência', entre outras coisas   

    sábado, junho 23, 2007

    Matemática

    Manuscrito de Bakhshali

    Jorge Buescu escreveu um texto, para um suplemento do jornal Público, sobre 'Para que serve a Matemática?', texto que dedica "aos jovens que estão a fazer os exames" e que pode ser lido no blog De Rerum Natura. Está muito bem escrito mas resume-se a um argumento utilitarista. A Matemática não serve só para isso, mesmo na aprendizagem dos jovens. No entanto, é verdade que o argumento da "não utilidade prática" da Matemática é prevalecente entre os jovens estudantes, onde parece surgir naturalmente, sendo depois repetido até a Universidade. Ou seja, o argumento, muito oportunamente, dura enquanto se perfilam exames difíceis a Matemática. Donde se conclui que a escolha de Jorge Buescu é inteligente.

    (Imagem: Manuscrito de Bakhshali)

    Inovação


    The Myths of Innovation
    Scott Berkun


    Embora o título sugira uma visão crítica de uma das buzzwords da actualidade, acaba por revelar-se um manual onde o autor apresenta um olhar sobre «a história das inovações, revelando como é que as ideias se tornam realidades inovadoras que as pessoas podem aplicar aos desafios de hoje. Recorrendo a numerosos exemplos da história da tecnologia, dos negócios e das artes, pode aprender-se a transformar os nossos conhecimentos em ideias que mudem o mundo.»

    Nada mau. Linhas de força:

     
  • porque é que qualquer inovação resulta de um processo colaborativo
  • porque é que a inovação depende da persuação
  • porque é que os problemas são mais importantes do que as soluções
  • porque é que a boa inovação é inimiga da óptima
  • porque é que o principal desafio é saber quando é que já é suficientemente boa.

  • Amazon - O'Reilly - BC Books

    Surface


         «Quando vi pela primeira vez o projecto ultra-secreto da Microsoft, estava escondido debaixo de um pano escuro. Executivos da Redmond disseram-nos que o misterioso produto mudaria os computadores para sempre. Então, afastaram o tecido com uma significativa vénia e revelou-se... uma mesa?
         «O meu ignorante cepticismo inicial dissolveu-se à medida que ia vendo o que aquela peça de mobiliário conseguia fazer. Não é apenas um écrã sensitivo: é concebido para ser utilizado por várias pessoas simultaneamente, com multiplos dedos ou mesmo ambas as mãos. Consegue também identificar objectos que sejam colocados em cima e interagir com eles. Ninguém que tenha visto o filme "Relatório Minoritário" pode ignorar as semelhanças com o computador anti-crime de Tom Cruise, uma interface que lhe permitia manipular dados com um movimento da própria mão.
         «Na conferência "D | All Things Digital" do Wall Street Journal na semana passada, o CEO da Microsoft, Steve Ballmer, apresentou formalmente a mesa, agora designada como 'Microsoft Surface'. Balmer descreveu-a como "um modo inteiramente novo de interagir com uma tecnologia experimental". E ele tem razão, embora não seja seguro que se imponha. Os mais avançados computadores pessoais da actualidade ainda usam o velho conceito do rato (inventado por Douglas Engelbart nos anos 1960) e teclados QWERTY (um esquema inventado por Christopher Sholes em meados dos anos 1800). Muitas das tentativas para suplantar estes vulneráveis mecanismos fracassaram. Mesmo assim, estou convencido de que a interface através do écran pode impor-se.»

    "Microsoft's Touchy-Feely Table"
    Harry McCracken, Slate

    sexta-feira, junho 22, 2007

    Mark Blaug [5]


         Mark Blaug

    P - Você defende que esses modelos requerem pressupostos altamente simplificados para poderem funcionar. E aponta que, se as assumpções forem simplificadas, as conclusões não se aguentam. Mas os economistas tentam simplificar essas assumpções e testar as suas conclusões?

    MB - Sim. Há muitos economistas que procuram simplificar as assumpções. "Vamos ver se conseguimos simplificar as assumpções - será que as conclusões se mantêm firmes?" Mas isto pode tornar-se alarmante porque, uma vez mais, tudo o que se faz é trabalhar um pouco mais o modelo matemático para que dê certo. Eu penso que esta forma de pensar a modelização económica é enganadora. Não sou contra a modelização, nem sequer estou contra a matemática. Pode ser uma ferramenta muito útil, mas não como um fim em si. Não pode ser o modo de julgar, por exemplo, se vale a pena ler um artigo ou não, se vale a pena escutar um argumento ou não. O que eu tento fazer é alterar a prioridade que os economistas atribuem a diferentes tipos de Economia. Quero dizer, eles atribuem enorme prestígio a qualquer tipo de teoria económica que seja expressa em termos matemáticos, mas quase nenhum a um argumento de natureza histórica ou a um estudo de caso. Isto é uma maneira arguta de arregimentar evidência empírica para provar uma dada teoria económica. É isso que está errado.

    P - Que exemplos lhe ocorrem de temas reais onde este modo de pensar a Economia levou a erros de políticas públicas ou a erros de avaliação?

    MB - Não temos tido muito sucesso na avaliação do problemas de transição na Europa Oriental, porque não pensamos em como as economias de mercado realmente funcionam ou sobre o que é necessário para que os mercados funcionem. Por isso os nossos conselhos aos governos da Europa Oriental têm sido muito toscos, porque temos de compreender como é que se devem criar os mercados e como devem ser estabelecidos os direitos de propriedade. Ocupamos pouco tempo a estudar as estruturas institucionais nas quas os mercados estão embebidos e sem as quais não podem funcionar. E, por isso, ou não demos conselhos, ou damos conselhos maus e enganadores aos governos da Europa Oriental. O problema de transição da Europa Oriental fez-me ficar, bem como a outros economistas, extremamente atento a quão desequilibrada tem sido a nossa abordagem ao mecanismo de mercado e ao capitalismo. Criar mercados não se resume ao modelo de equilíbrio geral de Gerard Debreu. Isso não ajuda muito. De facto, é provavelmente mais enganador do que outra coisa, para pensar estes problemas.

    P - Pode dizer-se o mesmo acerca da actual crise financeira da Ásia ou, digamos, das desigualdades de rendimento na América?

    MB - O problema dos Tigres Asiáticos é em parte o mesmo: não damos muita importância às economias em desenvolvimento. Era um assunto importante na Economia dos anos 50 e 60, mas entrou em declínio quase absoluto. Uma das causas deste declínio é de que não é uma boa área para se trabalhar, no caso de querermos produzir peças de modelização matemática elegantes e tecnicamente sofisticadas. Por isso muitos jovens economistas consideram que não é uma área excitante para trabalhar. Não se pode ser promovido a publicar artigos sobre Economia do Desenvolvimento. Eles admitem que são problemas importantes do mundo real, mas que não é um caminho que leve muito longe. Não é o modo de construir uma carreira numa área que preza a elegância técnica.

    [ continua ]

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    quinta-feira, junho 21, 2007

    Desigualdades

    [ clique para ampliar ]

    «As desigualdades de rendimentos têm vindo a crescer nos países ricos, diz a OCDE. De 1995 até 2005, o acréscimo dos rendimentos dos 10% mais bem pagos ultrapassou o dos 10% pior remunerados. A desigualdade é maior nas economias algo-saxónicas, empreendedoras. A Húngria e a Polónia são casos excepcionais, onde grandes aumentos se seguiram à liberalização depois do colapso do comunismo. Os países nórdicos, com os seus grandes estados-providência e elevadas cargas fiscais, apresentam maior igualdade. As desigualdades são frequentemente atribuídas à globalização, que, segundo alguns, ajudou a deprimir os rendimentos dos menos qualificados. Contudo, os escalões de topo também têm estado a ganhar terreno face aos escalões médios. Isto sugere que os avanços nas tecnologias da informação, que recompensa os altamente qualificados e elimina muitos empregos administrativos de nível médio, pode ser um suspeito mais plausível. A OCDE disse esta semana que o comércio apenas contribuiu modestamente para o agravamento das desigualdades.»

    A widening gap - "Economist.com"

  • Helena Garrido também comenta estes dados no "Notas de Economia", aqui e aqui.
  • E quem é que explica as diminuições das desigualdades na Irlanda e na Espanha?
  • resumo do relatório da OCDE em Português, aqui.
  • iPhone

         «[Steve] Jobs estava a falar para [Bill] Gates, numa conferência, a semana passada. "Tu e eu partilhamos memórias mais longas do que o caminho que se estende à nossa frente" (*), disse ele. Havia olhares húmidos na assistência. E os dois devem continuar a confrontar-se nessa estrada durante mais algum tempo (The Economist, 7 de Junho).
         Jobs é o pioneiro arquétipo, concebendo material inovador há décadas, enquanto que Gates é o arquétipo do industrial. Ele faz dinheiro por ser o primeiro a descobrir como cobrar pelo software como peça separada e usando isso para dominar a indústria — a expensas da Apple.
         Actualmente parece que a vantagem pende para o lado de Jobs e da Apple. O sucesso do iPod e do iTunes tem sido notável. Jobs está confiante de que é possível vender mais de 10 milhões de iPhones até ao final de 2008. Como fenótipo, o iPhone é o vencedor em design e simplicidade. Enquanto outros estão cobertos de botões mecânicos, o iPhone tem apenas um, designado "tecnologia multi-toque".»

    Nofie Iman, "How Sexy will Apple iPhone Be?"


    (*) trata-se de uma citação da canção dos Beatles "Two of us". A conferência referida foi "D | All Things Digital" organizada pelo Wall Street Journal, e a frase está no final do video que é disponibilizado na página da conferência.