segunda-feira, junho 25, 2007

Países da UE perigosos para trabalhar (2003)

OrdemPaísesFatalidades por país
1    Alemanha: 465   
2    Itália: 427   
3    Espanha: 365   
4    França: 318   
5    Portugal: 285   
6    Reino Unido: 182   
7    Áustria: 145   
8    Holanda: 60   
9    Irlanda: 52   
10    Grécia: 48   
11    Bélgica: 41   
12    Finlândia: 29   
13    Suécia: 28   
14    Dinamarca: 27   
15    Luxemburgo: 6   
  Média ponderada: 165,2   

Fonte: NationMaster

domingo, junho 24, 2007

Neuroeconomia


Neuroeconomics - apresentação de Benoit Hardy-Vallée, da Universidade de Toronto, sobre neurociência e neuroeconomia. Benoit mantém o blog Natural Rationality.
 → → →  Law and Information: ← ← ←  
   um blog sobre 'Direito e Economia' e   
   'Neurojurisprudência', entre outras coisas   

sábado, junho 23, 2007

Matemática

Manuscrito de Bakhshali

Jorge Buescu escreveu um texto, para um suplemento do jornal Público, sobre 'Para que serve a Matemática?', texto que dedica "aos jovens que estão a fazer os exames" e que pode ser lido no blog De Rerum Natura. Está muito bem escrito mas resume-se a um argumento utilitarista. A Matemática não serve só para isso, mesmo na aprendizagem dos jovens. No entanto, é verdade que o argumento da "não utilidade prática" da Matemática é prevalecente entre os jovens estudantes, onde parece surgir naturalmente, sendo depois repetido até a Universidade. Ou seja, o argumento, muito oportunamente, dura enquanto se perfilam exames difíceis a Matemática. Donde se conclui que a escolha de Jorge Buescu é inteligente.

(Imagem: Manuscrito de Bakhshali)

Inovação


The Myths of Innovation
Scott Berkun


Embora o título sugira uma visão crítica de uma das buzzwords da actualidade, acaba por revelar-se um manual onde o autor apresenta um olhar sobre «a história das inovações, revelando como é que as ideias se tornam realidades inovadoras que as pessoas podem aplicar aos desafios de hoje. Recorrendo a numerosos exemplos da história da tecnologia, dos negócios e das artes, pode aprender-se a transformar os nossos conhecimentos em ideias que mudem o mundo.»

Nada mau. Linhas de força:

 
  • porque é que qualquer inovação resulta de um processo colaborativo
  • porque é que a inovação depende da persuação
  • porque é que os problemas são mais importantes do que as soluções
  • porque é que a boa inovação é inimiga da óptima
  • porque é que o principal desafio é saber quando é que já é suficientemente boa.

  • Amazon - O'Reilly - BC Books

    Surface


         «Quando vi pela primeira vez o projecto ultra-secreto da Microsoft, estava escondido debaixo de um pano escuro. Executivos da Redmond disseram-nos que o misterioso produto mudaria os computadores para sempre. Então, afastaram o tecido com uma significativa vénia e revelou-se... uma mesa?
         «O meu ignorante cepticismo inicial dissolveu-se à medida que ia vendo o que aquela peça de mobiliário conseguia fazer. Não é apenas um écrã sensitivo: é concebido para ser utilizado por várias pessoas simultaneamente, com multiplos dedos ou mesmo ambas as mãos. Consegue também identificar objectos que sejam colocados em cima e interagir com eles. Ninguém que tenha visto o filme "Relatório Minoritário" pode ignorar as semelhanças com o computador anti-crime de Tom Cruise, uma interface que lhe permitia manipular dados com um movimento da própria mão.
         «Na conferência "D | All Things Digital" do Wall Street Journal na semana passada, o CEO da Microsoft, Steve Ballmer, apresentou formalmente a mesa, agora designada como 'Microsoft Surface'. Balmer descreveu-a como "um modo inteiramente novo de interagir com uma tecnologia experimental". E ele tem razão, embora não seja seguro que se imponha. Os mais avançados computadores pessoais da actualidade ainda usam o velho conceito do rato (inventado por Douglas Engelbart nos anos 1960) e teclados QWERTY (um esquema inventado por Christopher Sholes em meados dos anos 1800). Muitas das tentativas para suplantar estes vulneráveis mecanismos fracassaram. Mesmo assim, estou convencido de que a interface através do écran pode impor-se.»

    "Microsoft's Touchy-Feely Table"
    Harry McCracken, Slate

    sexta-feira, junho 22, 2007

    Mark Blaug [5]


         Mark Blaug

    P - Você defende que esses modelos requerem pressupostos altamente simplificados para poderem funcionar. E aponta que, se as assumpções forem simplificadas, as conclusões não se aguentam. Mas os economistas tentam simplificar essas assumpções e testar as suas conclusões?

    MB - Sim. Há muitos economistas que procuram simplificar as assumpções. "Vamos ver se conseguimos simplificar as assumpções - será que as conclusões se mantêm firmes?" Mas isto pode tornar-se alarmante porque, uma vez mais, tudo o que se faz é trabalhar um pouco mais o modelo matemático para que dê certo. Eu penso que esta forma de pensar a modelização económica é enganadora. Não sou contra a modelização, nem sequer estou contra a matemática. Pode ser uma ferramenta muito útil, mas não como um fim em si. Não pode ser o modo de julgar, por exemplo, se vale a pena ler um artigo ou não, se vale a pena escutar um argumento ou não. O que eu tento fazer é alterar a prioridade que os economistas atribuem a diferentes tipos de Economia. Quero dizer, eles atribuem enorme prestígio a qualquer tipo de teoria económica que seja expressa em termos matemáticos, mas quase nenhum a um argumento de natureza histórica ou a um estudo de caso. Isto é uma maneira arguta de arregimentar evidência empírica para provar uma dada teoria económica. É isso que está errado.

    P - Que exemplos lhe ocorrem de temas reais onde este modo de pensar a Economia levou a erros de políticas públicas ou a erros de avaliação?

    MB - Não temos tido muito sucesso na avaliação do problemas de transição na Europa Oriental, porque não pensamos em como as economias de mercado realmente funcionam ou sobre o que é necessário para que os mercados funcionem. Por isso os nossos conselhos aos governos da Europa Oriental têm sido muito toscos, porque temos de compreender como é que se devem criar os mercados e como devem ser estabelecidos os direitos de propriedade. Ocupamos pouco tempo a estudar as estruturas institucionais nas quas os mercados estão embebidos e sem as quais não podem funcionar. E, por isso, ou não demos conselhos, ou damos conselhos maus e enganadores aos governos da Europa Oriental. O problema de transição da Europa Oriental fez-me ficar, bem como a outros economistas, extremamente atento a quão desequilibrada tem sido a nossa abordagem ao mecanismo de mercado e ao capitalismo. Criar mercados não se resume ao modelo de equilíbrio geral de Gerard Debreu. Isso não ajuda muito. De facto, é provavelmente mais enganador do que outra coisa, para pensar estes problemas.

    P - Pode dizer-se o mesmo acerca da actual crise financeira da Ásia ou, digamos, das desigualdades de rendimento na América?

    MB - O problema dos Tigres Asiáticos é em parte o mesmo: não damos muita importância às economias em desenvolvimento. Era um assunto importante na Economia dos anos 50 e 60, mas entrou em declínio quase absoluto. Uma das causas deste declínio é de que não é uma boa área para se trabalhar, no caso de querermos produzir peças de modelização matemática elegantes e tecnicamente sofisticadas. Por isso muitos jovens economistas consideram que não é uma área excitante para trabalhar. Não se pode ser promovido a publicar artigos sobre Economia do Desenvolvimento. Eles admitem que são problemas importantes do mundo real, mas que não é um caminho que leve muito longe. Não é o modo de construir uma carreira numa área que preza a elegância técnica.

    [ continua ]

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    quinta-feira, junho 21, 2007

    Desigualdades

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    «As desigualdades de rendimentos têm vindo a crescer nos países ricos, diz a OCDE. De 1995 até 2005, o acréscimo dos rendimentos dos 10% mais bem pagos ultrapassou o dos 10% pior remunerados. A desigualdade é maior nas economias algo-saxónicas, empreendedoras. A Húngria e a Polónia são casos excepcionais, onde grandes aumentos se seguiram à liberalização depois do colapso do comunismo. Os países nórdicos, com os seus grandes estados-providência e elevadas cargas fiscais, apresentam maior igualdade. As desigualdades são frequentemente atribuídas à globalização, que, segundo alguns, ajudou a deprimir os rendimentos dos menos qualificados. Contudo, os escalões de topo também têm estado a ganhar terreno face aos escalões médios. Isto sugere que os avanços nas tecnologias da informação, que recompensa os altamente qualificados e elimina muitos empregos administrativos de nível médio, pode ser um suspeito mais plausível. A OCDE disse esta semana que o comércio apenas contribuiu modestamente para o agravamento das desigualdades.»

    A widening gap - "Economist.com"

  • Helena Garrido também comenta estes dados no "Notas de Economia", aqui e aqui.
  • E quem é que explica as diminuições das desigualdades na Irlanda e na Espanha?
  • resumo do relatório da OCDE em Português, aqui.
  • iPhone

         «[Steve] Jobs estava a falar para [Bill] Gates, numa conferência, a semana passada. "Tu e eu partilhamos memórias mais longas do que o caminho que se estende à nossa frente" (*), disse ele. Havia olhares húmidos na assistência. E os dois devem continuar a confrontar-se nessa estrada durante mais algum tempo (The Economist, 7 de Junho).
         Jobs é o pioneiro arquétipo, concebendo material inovador há décadas, enquanto que Gates é o arquétipo do industrial. Ele faz dinheiro por ser o primeiro a descobrir como cobrar pelo software como peça separada e usando isso para dominar a indústria — a expensas da Apple.
         Actualmente parece que a vantagem pende para o lado de Jobs e da Apple. O sucesso do iPod e do iTunes tem sido notável. Jobs está confiante de que é possível vender mais de 10 milhões de iPhones até ao final de 2008. Como fenótipo, o iPhone é o vencedor em design e simplicidade. Enquanto outros estão cobertos de botões mecânicos, o iPhone tem apenas um, designado "tecnologia multi-toque".»

    Nofie Iman, "How Sexy will Apple iPhone Be?"


    (*) trata-se de uma citação da canção dos Beatles "Two of us". A conferência referida foi "D | All Things Digital" organizada pelo Wall Street Journal, e a frase está no final do video que é disponibilizado na página da conferência.

    'Ranking' dos Marialvas

    Desemprego de mulheres
    Em percentagem do desemprego de homens - 2000

    OrdemPaísesPercentagem
    1  Grécia:228%  
    2  Espanha:212%  
    3  Itália:180%  
    4  Luxemburgo:173%  
    5  Holanda:161%  
    6  Portugal:159%  
    7  Iceland:158%  
    8  Bélgica:156%  
    9  República Checa:144%  
    10  França:140%  
    11  Suiça:136%  
    12  Polónia:126%  
    13  Dinamarca:123%  
    14  México:117%  
    15  Finlândia:116%  
    16  Alemanha:113%  
    17  EUA:105%  
    18  Eslováquia:100%  
    19  Turquia:99%  
    20  Áustria:97%  
    21  Irlanda:97%  
    22  Canadá:96%  
    23  Nova Zelândia:95%  
    24  Japão:91%  
    25  Austrália:89%  
    26  Noruega:88%  
    27  Suécia:87%  
    28  Húngria:81%  
    29  Reino Unido:79%  
    30  Coreia do Sul:71%  
    Média ponderada:123,9%  

    fonte: NationMaster

    MBA


    Com o jornal Público de 6ª feira próxima, um guia interessante (passe a publicidade).

    Hosts


    O número de endereços [hosts] da Internet caiu pela primeira vez desde 1993, de acordo com o Internet Domain Survey, publicado pela Internet Systems Consortium. [Hosts] são endereços de computador separados que são contactados quando se procura aceder a uma página ou domínio. O seu número diminuiu na ordem dos 6 milhões, situando-se em 433 milhões em Janeiro de 1997, a primeira descida de sempre. Em geral, mais endereços significam mais websites, mais computadores e uma Internet em crescimento. Mas não obrigatoriamente. Também pode ser que a sua contagem de forma apurada se esteja a tornar mais difícil: por exemplo, em redes Wi-Fi e empresariais, centenas de computadores podem partilhar um endereço e contar como apenas um endereço.

    Dip or Blip, The Economist

                Data                        Nº de Hosts            
      Janeiro 2007            433.193.199    
      Julho 2006 439.286.364    
      Janeiro 2006 394.991.609    
      Julho 2005 353.284.187    
      Janeiro 2005 317.646.084    
      Julho 2004 285.139.107    
      Janeiro 2004 233.101.481    
      Janeiro 2003 171.638.297    
      Julho 2002 162.128.493    
      Janeiro 2002 147.344.723    
      Julho 2001 125.888.197    
      Janeiro 2001 109.574.429    
      Julho 2000 93.047.785    
      Janeiro 2000 72.398.092    
      Julho 1999 56.218.000    
      Janeiro 1999 43.230.000    
      Julho 1998 36.739.000    
      Janeiro 1998 29.670.000    
      Julho 1997 19.540.000    
      Janeiro 1997 16.146.000     
      Julho 1996 12.881.000     
      Janeiro 1996 9.472.000     
      Julho 1995 6.642.000    
      Janeiro 1995 4.852.000    
      Julho 1994 3.212.000     
      Janeiro 1994 2.217.000     
      Julho 1993 1.776.000     
      Janeiro 1993 1.313.000     

    quarta-feira, junho 20, 2007

    Wii


    Anúncio da consola "Nintendo Wii": a metáfora feminina levada ao limite do bom gosto.

    (menina da direita) - Olá, sou a Wii
    (menina da esquerda) - E eu sou a PlayStation 3
    - Eu gosto é de karts: Vrrruuuum! Vrrruuum!
    - Os meus interesses são: combate da II Guerra Mundial, Karaoke e Futebol
    - Eu sou gira como um botão
    - Bem, eu sou educada e mundana, mas se só queres passar um bom bocado, só tens de descobrir quais dos meus botões deves carregar. E já que falo nisso: as minhas funções vibrantes foram desactivadas.
    - Só tens de me tocar, para teres o melhor tempo da tua vida
    - Mas eu tenho várias camadas e estou bem equipada para multiplos jogadores e pronta para regular a tua vida com as minhas multi-aplicações e multi-ambições. Sou larga e potente!
    - Eu sou apenas muito animada
    - As pessoas sabem porque é que continuo no negócio mesmo sendo cara: as coisas boas custam dinheiro!
    - Eu sou barata e divertida
    - Será que ainda não ouviram falar do Blu-Ray? É o futuro! Alta definição! Uma experiência como nunca tiveram!
    - Então até breve!
    As repetidas referências a "botões" devem-se ao facto da consola Wii, ao contrário da Playstation3, quase não recorrer a comandos por botões, mas sim a um contolo remoto que se movimenta no ar (ver video). Mas há também o sentido ambíguo da expressão idiomática "tocar no botão" de alguém, ou seja, sensibilizar, excitar essa pessoa.

    Desemprego de longa duração

    OrdemPaíses                          Percentagem
    1  Eslováquia:10,2%  
    2  Itália:6,5%  
    3  Grécia:6,4%  
    4  Polónia:6,1%  
    5  Espanha:6,0%  
    6  Irlanda:5,6%  
    7  República Checa:4,4%  
    8  Bélgica:4,0%  
    9  Alemanha:3,9%  
    10  França:3,8%  
    11  Húngria:3,1%  
    12  Finlandia:2,4%  
    13  Áustralia:1,8%  
    14  Portugal:1,7%  
    15  Reino Unido:1,5%  
    16  Suécia:1,4%  
    17  Áustria:1,3%  
    18  Nova Zelandia:1,2%  
    19  Japão:1,2%  
    20  Holanda:0,9%  
    21  Dinamarca:0,9%  
    22  Canadá:0,8%  
    23  Luxemburgo:0,6%  
    24  Suíça:0,6%  
    25  Islãndia:0,2%  
    26  EUA:0,2%  
    27  Noruega:0,2%  

    Em % da população activa (12 meses ou +) - 2000. Fonte: NationMaster

    Mark Blaug [4]


         Mark Blaug

    MB (...) Os debates nas revistas científicas que são expressos matematicamente são mais fáceis de avaliar, considerando que se pode ver se a pessoa escreveu realmente um modelo matemático consistente. Isto é mais fácil de avaliar sem ambiguidade do que uma peça de sabedoria económica expressa em prosa, que é de facto difícil. Duas pessoas podem facilmente discordar se um trabalho em prosa tem valia ou não. E estes artigos de revistas científicas, cujo número atinge as centenas — existem três centenas de revistas de Economia em inglês, talvez mais, publicando duas, três ou quatro edições por ano — têm de ser avaliados. A maioria deles é avaliada por voluntários que têm de emitir um parecer em pouco tempo (a partir do momento que se entra nestas listas lêm-se dúzias de artigos, por vezes numa só semana) É muito mais fácil se partilharmos uma comunidade de padrões, essencialmente padrões matemáticos. Mas isto não explica como é que tudo começou. E eu realmente não o compreendo.

    P - O computador ajudou a reforçar esta tendência? Ao fim e ao cabo, as regressões agora são muito fáceis de fazer.

    MB - Sim, na medida em que criou, curiosamente, um género de econometria que já não se interessa muito pela evidência empírica mas pela teoria econométrica. A Econometria tornou-se quase num espectáculo, enquanto teoria económica, e é uma teoria de natureza estatística. Sim, os economistas fazem regressões e tudo isso. Mas não é isso que enche as revistas científicas. Elas estão cheias é de elegantes análises estatísticas, um modo muito mais elegante de análise de séries cronológicas que constituem quase um fim em si mesas.

    P - Você tem feito algumas afirmações categóricas de que os economistas não dão atenção às implicações ou aplicabilidade dos seus modelos. Mas existem algumas excepções evidentes?

    MB - Claro que sim. Se você quiser expressar alguma crítica que tenha impacto em dez ou vinte mil praticantes espalhados pelo mundo, terá de exagerar um pouco para se fazer notado. Se modificar muito, não sobra nada.

    P - O que é que há na tese de Arrow-Debreu, referida no seu artigo na 'Challenge', que influenciou tanto a profissão?

    MB - Era extraordinariamente sofisticada em termos matemáticos, e mesmo tendo sido publicada há quarenta e quatro anos, é um artigo elegante que usa a Teoria dos Jogos, que era na altura uma novidade. Usava a Teoria dos Jogos dum modo que ninguém esperaria que pudesse provar a existência do equilíbrio geral. Era elegante, era rigorosa, e parecia ser a solução de um problema. Será que o equilíbrio geral existe realmente? Em termos um pouco mais técnicos: pode o equilíbrio multi-mercados existir realmente numa economia? Parecia ser a prova disto. Afinal, Walras tinha defendido isto oitenta anos antes mas nunca o tinha conseguido provar de modo satisfatório. Por isso parecia ser um exemplo maravilhoso de uma elegante prova quase matemática, e parecia elevar a Economia instantaneamente ao nível da Matemática, e certamente da Matemática Aplicada.

    [ continua ]

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    terça-feira, junho 19, 2007

    Faça você mesmo... Economia

     
    "Use os incentivos para se apaixonar, sobreviver à próxima reunião e motivar o seu dentista"

         A conhecida tendência de alguma teoria económica para invadir outras áreas do conhecimento como a Psicologia e a Sociologia (tendência designada como "imperialismo" da Economia) conhece agora um desenvolvimento interessante: surgem os manuais para aplicação da coisa no dia a dia de cada um, também em áreas inesperadas.
         Já no filme "Uma Mente Brilhante" havia um vislumbre das potencialidades da teoria, quando o atormentado matemático e economista John Nash explica a relação entre a teoria dos jogos e as opções de acasalamento dos humanos. Pois agora temos o manual "Descubra o Economista que há em si" ("Discover Your Inner Economist") que promete explicar como "usar o raciocínio económico para nosso proveito" e mostrar a sua utilidade para a escolha da ementa, a atracção do parceiro ideal, ou o controlo das pessoas que falam demais em reuniões, ou ainda para lidar com o dentista (nos EUA parece ser um problema difícil).
         Um dos paradoxos apontados às expectativas racionais era o pressuposto de que as pessoas se comportavam como se conhecessem a melhor teoria económica disponível. Um frisson equivalente ocorre quando se explica aos alunos que as pessoas fazem as suas compras na praça de frutas e legumes, de tal forma que igualam as utilidades marginais por unidade monetária. Na realidade, trata-se apenas de teorias que procuram explicar comportamentos que, em si mesmos, possuem uma complexidade de que nenhuma teoria alguma vez se aproximará. Os mecanismos que conduzem o comportamento não têm que ser necessariamente explícitos ou conscientes para o sujeito: veja-se o que a neurobiologia tem descoberto neste domínio.
         Mas não seriam os economistas que se iriam contentar em apenas explicar o mecanismo da tomada de decisão: se há dinheiro nisso, toca a aproveitar. E aí temos a teoria em pastilhas facilmente digeríveis para felicidade das massas. Afinal de contas, se os economistas não aproveitassem as oportunidades de negócio que eles próprios estudam, parvos seriam.
         Claro que o livro não constitui uma novidade absoluta, pois parece integrar-se na corrente dos anteriores Freakonomics ("um economista rasca esplora o lado oculto de tudo") e The Undercover Economist ("explicando porque é que os ricos são ricos e pobres os pobres"). Tudo obras com um ar muito divertido, parecendo querer contrariar a maldição da "ciência deprimente" (dismail science). Mas será que a Economia sobrevive de cara alegre? Alguns autores marxistas (Mandel) acreditavam que na sociedade comunista, ou da abundância, a teoria económica e os economistas deixavam de ser necessários. Agora, se colocam os economistas a rir e o povo a praticar a arte, prevejo sérias complicações. Dizia um autor (Henry Miller ?): não mostres que gostas da tua profissão, senão obrigam-te a pagar para a exercer. Neste caso: não metas o pessoal a rir senão pensam que já cá não fazes falta.

  • O autor, Tyler Cohen, é a alma do blog Marginal Revolution: "é o livro mais divertido dos que escrevi, e escrevi-o a pensar em si."
  • Via Gustibus.
  • Ernâni e o mercado

    «Em primeiro lugar, eu tenho a noção que um sistema estritamente liberal, no sentido neo-liberal, é mau para a sociedade. Porque tem mecanismos automáticos, entre os quais a geração de desigualdade. São automáticos, não é preciso grande teoria para [provar] isso. Em segundo lugar, tenho um sentido enorme do Estado, que me tem dado muita chatice na vida e tenciono morrer com ele, Não é chique dizer isto. Hoje é chique dizer "vamos acabar com o Estado". Acabar com o Estado que não presta, isso sim! Há muita parte morta no Estado. O mercado existe e vai aumentar - isto é a má notícia. A mercantilização da vida humana vai aumentar.»

    Ernâni Lopes, respondendo a uma
    pergunta sobre se "acredita nos mercados"
    Setúbal, 17.Jun.2007


    Por aqui não há muitas efemérides registadas, mas como excepção à regra aqui estão os 400 links referidos no Technorati. Os meus gradecimentos a todos os que nos ligam.

    segunda-feira, junho 18, 2007

    Laudato vino non opus est hedera

         «Será que os políticos europeus confiam no mercado? Certamente que sim. Apesar de todo o grasnar, em algumas zonas do continente, acerca da bestialidade do capitalismo, a Europa é boa a fazer negócios, disseminando empresas globais que competem com as melhores. No entanto, se olharmos para um sector económico que constitui um orgulho especial dos europeus, como é o do vinho, duvidamos se os seus líderes acreditam verdadeiramente em conceitos tais como risco e remuneração, ou lucros e perdas.

         «Durante o próximo mês a Comissão Europeia anunciará uma modesta proposta para reformar o altamente subsidiado e detalhadamente regulamentado sector viti-vinícola. A verdade é que os experimentados funcionários de Bruxelas tiveram de recuar perante a reacção adversa dos governos nacionais. Embora cada um tenha as suas queixas, a resposta global da "cintura vinícola" da Europa foi a de cavar trincheiras e resistir perante os apelos à liberalização, em nome da tradição e alta cultura. A oposição nem sequer é acerca de dinheiro, porque a Comissão tornou claro que não cortaria um cêntimo do orçamento para o vinho. Mariann Fischer Boe, a norueguesa comissária da Agricultura, desabafou que "há mais tensão no vinho do que já vi em qualquer outro produto agrícola".
    (...)
         «Nem toda a algazarra acerca dos planos da Comissão é ideológica. Existem divergências, por exemplo, acerca da utilização de açúcar, no norte e centro da Europa, para melhorar o vinho em anos maus. Mas a maior batalha é acerca da liberalização: a arriscada ideia que é fazer vinho que os consumidores desejem efectivamente comprar.
         «A Comissão também quer arrancar 200 mil hectares de vinhas (cerca de 6% do total da UE) e pagar aos agricultores que não conseguem vender o seu vinho, para que abandonem o sector. Uma vez isso feito, prevê colocar restrições à plantação de novas vinhas em 2014, para permitir que os produtores eficientes se possam expandir. Mas existe uma grande oposição ao arranque de vinhas. O ministro alemão da agricultura, Horst Seehofer, convidou no mês passado a srª. Fischer Boel e os seus colegas ministros da agricultura para uma abadia perto de Mainz, onde os agraciou com um Riesling de 50 anos, ao mesmo tempo que classificava os planos da Comissão para arranque de vinhas como "não muito razoáveis". Os agricultores até podem ser pagos para arrancar as vinhas, mas o que é que irão fazer a seguir, perguntou ele, apoiado por Portugal e outros.»

    "In vino veritas", The Economist, 14.Jun.2007


    Laudato vino non opus est hedera: o bom vinho dispensa pregão.

    domingo, junho 17, 2007

    Mark Blaug [3]


         Mark Blaug

    P - No seu artigo, publicado neste número da Challenge, você dá grande importância à modelação formal e à evolução desde o trabalho de Kenneth Arrow e Gerard Debreu. Acredita que tal formalismo matemático se aguentou assim tão bem? E porque foi a disciplina nessa direcção?

    MB - Vou dar-lhe a resposta padrão, embora eu pense este é um tema muito difícil. Trata-se de uma questão profunda do domínio da história das ideias. Como é que chegámos a isto? Se eu pudesse responder a esta questão — se eu achasse que tinha a resposta — certamente que ia já a correr publicá-la. Não tenho a certeza de poder responder cabalmente a isto. Mas uma abordagem padrão das pessoas que têm pensado no assunto é a de que, algures depois da II Guerra Mundial, a Economia começou a modelar-se a si própria à semelhança das ciências duras. Queria ser a ciência social que se parecesse exactamente com a Física. Isto levou à matematização, à modelização matemática, à modelização formal, e ao subsequente endeusamento da técnica e da elegância formal.

    Mas esta explicação não é convincente porque se soubermos algo da Física — e eu sou um Físico amador — a Física não é assim. A Física leva a evidência muito a sério, mas muitas das suas teorias são vagas, confusas e inconclusivas. E não são nada elegantes. O assunto que nós os economistas estivemos a macaquear foi a Matemática. Transformámos a Economia numa espécie de Matemática Social que emprega palavras como "preço", "mercado", "mercadoria". Há semelhanças com a Economia, mas quando lemos um artigo que usa estas palavras, todas as relações são relações matemáticas, todas as inferências são concebidas matematicamente; e nunca se questiona se estas variáveis, conceitos e relações funcionais matemáticas apresentam alguma semelhança com observações do mundo real. Deirdre McCloskey, cujos trabalhos em geral não aprecio, disse muito acertadamente que os esconomistas parecem tipos do Departamento de Matemática, não do de Física. Isto é absolutamente verdade.

    P - Tentemos avançar um pouco mais. Porque é que estes modelos matemáticos, que, apesar de tudo, nem sequer são muito complexos segundo os padrões da Matemática, provocam tal atracção? Será que a modelização funciona como um ritual iniciático que aproxima os economistas uns dos outros?

    MB - A Matemática não é assim tão difícil, embora crie uma barreira à entrada. A maioria das pessoas pode aprender Matemática, mas tem que se estudar. É como se escrevessemos a Economia em Francês: seria uma barreira à entrada porque algumas pessoas acham difícil a aprendizagem de línguas estrangeiras. Não é preciso ser terrivelmente inteligente, mas tem que se ser paciente e gastar muito tempo com isso, portanto é uma barreira efectiva.

    As pessoas que foram iniciadas têm então um interesse corporativo em levar a barreira a sério, cuidando dela e dando-lhe prestígio. De outra forma não funcionaria como barreira à entrada. Portanto, ao fim de algum tempo, passam a justificar a barreira à entrada porque possui esta técnica, ou virtude, particular e elegante. Depois de ter sido criada, justifica-se a si própria.

    E acrescentarei outra coisa: a enorme quantidade de doutoramentos [Ph.D.s] em Economia nos EUA — quase cem por ano! Muitos deles não seguem a vida académica, mas todas as estimativas sugerem que entre 45% a 50% procuram emprego nas universidades. Eles aprenderam dos professores uma espécie particular de Economia e, obviamente, disseminam a mesma Economia nas suas lições e em publicações científicas.

    [ continua ]

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