quarta-feira, junho 20, 2007

Wii


Anúncio da consola "Nintendo Wii": a metáfora feminina levada ao limite do bom gosto.

(menina da direita) - Olá, sou a Wii
(menina da esquerda) - E eu sou a PlayStation 3
- Eu gosto é de karts: Vrrruuuum! Vrrruuum!
- Os meus interesses são: combate da II Guerra Mundial, Karaoke e Futebol
- Eu sou gira como um botão
- Bem, eu sou educada e mundana, mas se só queres passar um bom bocado, só tens de descobrir quais dos meus botões deves carregar. E já que falo nisso: as minhas funções vibrantes foram desactivadas.
- Só tens de me tocar, para teres o melhor tempo da tua vida
- Mas eu tenho várias camadas e estou bem equipada para multiplos jogadores e pronta para regular a tua vida com as minhas multi-aplicações e multi-ambições. Sou larga e potente!
- Eu sou apenas muito animada
- As pessoas sabem porque é que continuo no negócio mesmo sendo cara: as coisas boas custam dinheiro!
- Eu sou barata e divertida
- Será que ainda não ouviram falar do Blu-Ray? É o futuro! Alta definição! Uma experiência como nunca tiveram!
- Então até breve!
As repetidas referências a "botões" devem-se ao facto da consola Wii, ao contrário da Playstation3, quase não recorrer a comandos por botões, mas sim a um contolo remoto que se movimenta no ar (ver video). Mas há também o sentido ambíguo da expressão idiomática "tocar no botão" de alguém, ou seja, sensibilizar, excitar essa pessoa.

Desemprego de longa duração

OrdemPaíses                          Percentagem
1  Eslováquia:10,2%  
2  Itália:6,5%  
3  Grécia:6,4%  
4  Polónia:6,1%  
5  Espanha:6,0%  
6  Irlanda:5,6%  
7  República Checa:4,4%  
8  Bélgica:4,0%  
9  Alemanha:3,9%  
10  França:3,8%  
11  Húngria:3,1%  
12  Finlandia:2,4%  
13  Áustralia:1,8%  
14  Portugal:1,7%  
15  Reino Unido:1,5%  
16  Suécia:1,4%  
17  Áustria:1,3%  
18  Nova Zelandia:1,2%  
19  Japão:1,2%  
20  Holanda:0,9%  
21  Dinamarca:0,9%  
22  Canadá:0,8%  
23  Luxemburgo:0,6%  
24  Suíça:0,6%  
25  Islãndia:0,2%  
26  EUA:0,2%  
27  Noruega:0,2%  

Em % da população activa (12 meses ou +) - 2000. Fonte: NationMaster

Mark Blaug [4]


     Mark Blaug

MB (...) Os debates nas revistas científicas que são expressos matematicamente são mais fáceis de avaliar, considerando que se pode ver se a pessoa escreveu realmente um modelo matemático consistente. Isto é mais fácil de avaliar sem ambiguidade do que uma peça de sabedoria económica expressa em prosa, que é de facto difícil. Duas pessoas podem facilmente discordar se um trabalho em prosa tem valia ou não. E estes artigos de revistas científicas, cujo número atinge as centenas — existem três centenas de revistas de Economia em inglês, talvez mais, publicando duas, três ou quatro edições por ano — têm de ser avaliados. A maioria deles é avaliada por voluntários que têm de emitir um parecer em pouco tempo (a partir do momento que se entra nestas listas lêm-se dúzias de artigos, por vezes numa só semana) É muito mais fácil se partilharmos uma comunidade de padrões, essencialmente padrões matemáticos. Mas isto não explica como é que tudo começou. E eu realmente não o compreendo.

P - O computador ajudou a reforçar esta tendência? Ao fim e ao cabo, as regressões agora são muito fáceis de fazer.

MB - Sim, na medida em que criou, curiosamente, um género de econometria que já não se interessa muito pela evidência empírica mas pela teoria econométrica. A Econometria tornou-se quase num espectáculo, enquanto teoria económica, e é uma teoria de natureza estatística. Sim, os economistas fazem regressões e tudo isso. Mas não é isso que enche as revistas científicas. Elas estão cheias é de elegantes análises estatísticas, um modo muito mais elegante de análise de séries cronológicas que constituem quase um fim em si mesas.

P - Você tem feito algumas afirmações categóricas de que os economistas não dão atenção às implicações ou aplicabilidade dos seus modelos. Mas existem algumas excepções evidentes?

MB - Claro que sim. Se você quiser expressar alguma crítica que tenha impacto em dez ou vinte mil praticantes espalhados pelo mundo, terá de exagerar um pouco para se fazer notado. Se modificar muito, não sobra nada.

P - O que é que há na tese de Arrow-Debreu, referida no seu artigo na 'Challenge', que influenciou tanto a profissão?

MB - Era extraordinariamente sofisticada em termos matemáticos, e mesmo tendo sido publicada há quarenta e quatro anos, é um artigo elegante que usa a Teoria dos Jogos, que era na altura uma novidade. Usava a Teoria dos Jogos dum modo que ninguém esperaria que pudesse provar a existência do equilíbrio geral. Era elegante, era rigorosa, e parecia ser a solução de um problema. Será que o equilíbrio geral existe realmente? Em termos um pouco mais técnicos: pode o equilíbrio multi-mercados existir realmente numa economia? Parecia ser a prova disto. Afinal, Walras tinha defendido isto oitenta anos antes mas nunca o tinha conseguido provar de modo satisfatório. Por isso parecia ser um exemplo maravilhoso de uma elegante prova quase matemática, e parecia elevar a Economia instantaneamente ao nível da Matemática, e certamente da Matemática Aplicada.

[ continua ]

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terça-feira, junho 19, 2007

Faça você mesmo... Economia

 
"Use os incentivos para se apaixonar, sobreviver à próxima reunião e motivar o seu dentista"

     A conhecida tendência de alguma teoria económica para invadir outras áreas do conhecimento como a Psicologia e a Sociologia (tendência designada como "imperialismo" da Economia) conhece agora um desenvolvimento interessante: surgem os manuais para aplicação da coisa no dia a dia de cada um, também em áreas inesperadas.
     Já no filme "Uma Mente Brilhante" havia um vislumbre das potencialidades da teoria, quando o atormentado matemático e economista John Nash explica a relação entre a teoria dos jogos e as opções de acasalamento dos humanos. Pois agora temos o manual "Descubra o Economista que há em si" ("Discover Your Inner Economist") que promete explicar como "usar o raciocínio económico para nosso proveito" e mostrar a sua utilidade para a escolha da ementa, a atracção do parceiro ideal, ou o controlo das pessoas que falam demais em reuniões, ou ainda para lidar com o dentista (nos EUA parece ser um problema difícil).
     Um dos paradoxos apontados às expectativas racionais era o pressuposto de que as pessoas se comportavam como se conhecessem a melhor teoria económica disponível. Um frisson equivalente ocorre quando se explica aos alunos que as pessoas fazem as suas compras na praça de frutas e legumes, de tal forma que igualam as utilidades marginais por unidade monetária. Na realidade, trata-se apenas de teorias que procuram explicar comportamentos que, em si mesmos, possuem uma complexidade de que nenhuma teoria alguma vez se aproximará. Os mecanismos que conduzem o comportamento não têm que ser necessariamente explícitos ou conscientes para o sujeito: veja-se o que a neurobiologia tem descoberto neste domínio.
     Mas não seriam os economistas que se iriam contentar em apenas explicar o mecanismo da tomada de decisão: se há dinheiro nisso, toca a aproveitar. E aí temos a teoria em pastilhas facilmente digeríveis para felicidade das massas. Afinal de contas, se os economistas não aproveitassem as oportunidades de negócio que eles próprios estudam, parvos seriam.
     Claro que o livro não constitui uma novidade absoluta, pois parece integrar-se na corrente dos anteriores Freakonomics ("um economista rasca esplora o lado oculto de tudo") e The Undercover Economist ("explicando porque é que os ricos são ricos e pobres os pobres"). Tudo obras com um ar muito divertido, parecendo querer contrariar a maldição da "ciência deprimente" (dismail science). Mas será que a Economia sobrevive de cara alegre? Alguns autores marxistas (Mandel) acreditavam que na sociedade comunista, ou da abundância, a teoria económica e os economistas deixavam de ser necessários. Agora, se colocam os economistas a rir e o povo a praticar a arte, prevejo sérias complicações. Dizia um autor (Henry Miller ?): não mostres que gostas da tua profissão, senão obrigam-te a pagar para a exercer. Neste caso: não metas o pessoal a rir senão pensam que já cá não fazes falta.

  • O autor, Tyler Cohen, é a alma do blog Marginal Revolution: "é o livro mais divertido dos que escrevi, e escrevi-o a pensar em si."
  • Via Gustibus.
  • Ernâni e o mercado

    «Em primeiro lugar, eu tenho a noção que um sistema estritamente liberal, no sentido neo-liberal, é mau para a sociedade. Porque tem mecanismos automáticos, entre os quais a geração de desigualdade. São automáticos, não é preciso grande teoria para [provar] isso. Em segundo lugar, tenho um sentido enorme do Estado, que me tem dado muita chatice na vida e tenciono morrer com ele, Não é chique dizer isto. Hoje é chique dizer "vamos acabar com o Estado". Acabar com o Estado que não presta, isso sim! Há muita parte morta no Estado. O mercado existe e vai aumentar - isto é a má notícia. A mercantilização da vida humana vai aumentar.»

    Ernâni Lopes, respondendo a uma
    pergunta sobre se "acredita nos mercados"
    Setúbal, 17.Jun.2007


    Por aqui não há muitas efemérides registadas, mas como excepção à regra aqui estão os 400 links referidos no Technorati. Os meus gradecimentos a todos os que nos ligam.

    segunda-feira, junho 18, 2007

    Laudato vino non opus est hedera

         «Será que os políticos europeus confiam no mercado? Certamente que sim. Apesar de todo o grasnar, em algumas zonas do continente, acerca da bestialidade do capitalismo, a Europa é boa a fazer negócios, disseminando empresas globais que competem com as melhores. No entanto, se olharmos para um sector económico que constitui um orgulho especial dos europeus, como é o do vinho, duvidamos se os seus líderes acreditam verdadeiramente em conceitos tais como risco e remuneração, ou lucros e perdas.

         «Durante o próximo mês a Comissão Europeia anunciará uma modesta proposta para reformar o altamente subsidiado e detalhadamente regulamentado sector viti-vinícola. A verdade é que os experimentados funcionários de Bruxelas tiveram de recuar perante a reacção adversa dos governos nacionais. Embora cada um tenha as suas queixas, a resposta global da "cintura vinícola" da Europa foi a de cavar trincheiras e resistir perante os apelos à liberalização, em nome da tradição e alta cultura. A oposição nem sequer é acerca de dinheiro, porque a Comissão tornou claro que não cortaria um cêntimo do orçamento para o vinho. Mariann Fischer Boe, a norueguesa comissária da Agricultura, desabafou que "há mais tensão no vinho do que já vi em qualquer outro produto agrícola".
    (...)
         «Nem toda a algazarra acerca dos planos da Comissão é ideológica. Existem divergências, por exemplo, acerca da utilização de açúcar, no norte e centro da Europa, para melhorar o vinho em anos maus. Mas a maior batalha é acerca da liberalização: a arriscada ideia que é fazer vinho que os consumidores desejem efectivamente comprar.
         «A Comissão também quer arrancar 200 mil hectares de vinhas (cerca de 6% do total da UE) e pagar aos agricultores que não conseguem vender o seu vinho, para que abandonem o sector. Uma vez isso feito, prevê colocar restrições à plantação de novas vinhas em 2014, para permitir que os produtores eficientes se possam expandir. Mas existe uma grande oposição ao arranque de vinhas. O ministro alemão da agricultura, Horst Seehofer, convidou no mês passado a srª. Fischer Boel e os seus colegas ministros da agricultura para uma abadia perto de Mainz, onde os agraciou com um Riesling de 50 anos, ao mesmo tempo que classificava os planos da Comissão para arranque de vinhas como "não muito razoáveis". Os agricultores até podem ser pagos para arrancar as vinhas, mas o que é que irão fazer a seguir, perguntou ele, apoiado por Portugal e outros.»

    "In vino veritas", The Economist, 14.Jun.2007


    Laudato vino non opus est hedera: o bom vinho dispensa pregão.

    domingo, junho 17, 2007

    Mark Blaug [3]


         Mark Blaug

    P - No seu artigo, publicado neste número da Challenge, você dá grande importância à modelação formal e à evolução desde o trabalho de Kenneth Arrow e Gerard Debreu. Acredita que tal formalismo matemático se aguentou assim tão bem? E porque foi a disciplina nessa direcção?

    MB - Vou dar-lhe a resposta padrão, embora eu pense este é um tema muito difícil. Trata-se de uma questão profunda do domínio da história das ideias. Como é que chegámos a isto? Se eu pudesse responder a esta questão — se eu achasse que tinha a resposta — certamente que ia já a correr publicá-la. Não tenho a certeza de poder responder cabalmente a isto. Mas uma abordagem padrão das pessoas que têm pensado no assunto é a de que, algures depois da II Guerra Mundial, a Economia começou a modelar-se a si própria à semelhança das ciências duras. Queria ser a ciência social que se parecesse exactamente com a Física. Isto levou à matematização, à modelização matemática, à modelização formal, e ao subsequente endeusamento da técnica e da elegância formal.

    Mas esta explicação não é convincente porque se soubermos algo da Física — e eu sou um Físico amador — a Física não é assim. A Física leva a evidência muito a sério, mas muitas das suas teorias são vagas, confusas e inconclusivas. E não são nada elegantes. O assunto que nós os economistas estivemos a macaquear foi a Matemática. Transformámos a Economia numa espécie de Matemática Social que emprega palavras como "preço", "mercado", "mercadoria". Há semelhanças com a Economia, mas quando lemos um artigo que usa estas palavras, todas as relações são relações matemáticas, todas as inferências são concebidas matematicamente; e nunca se questiona se estas variáveis, conceitos e relações funcionais matemáticas apresentam alguma semelhança com observações do mundo real. Deirdre McCloskey, cujos trabalhos em geral não aprecio, disse muito acertadamente que os esconomistas parecem tipos do Departamento de Matemática, não do de Física. Isto é absolutamente verdade.

    P - Tentemos avançar um pouco mais. Porque é que estes modelos matemáticos, que, apesar de tudo, nem sequer são muito complexos segundo os padrões da Matemática, provocam tal atracção? Será que a modelização funciona como um ritual iniciático que aproxima os economistas uns dos outros?

    MB - A Matemática não é assim tão difícil, embora crie uma barreira à entrada. A maioria das pessoas pode aprender Matemática, mas tem que se estudar. É como se escrevessemos a Economia em Francês: seria uma barreira à entrada porque algumas pessoas acham difícil a aprendizagem de línguas estrangeiras. Não é preciso ser terrivelmente inteligente, mas tem que se ser paciente e gastar muito tempo com isso, portanto é uma barreira efectiva.

    As pessoas que foram iniciadas têm então um interesse corporativo em levar a barreira a sério, cuidando dela e dando-lhe prestígio. De outra forma não funcionaria como barreira à entrada. Portanto, ao fim de algum tempo, passam a justificar a barreira à entrada porque possui esta técnica, ou virtude, particular e elegante. Depois de ter sido criada, justifica-se a si própria.

    E acrescentarei outra coisa: a enorme quantidade de doutoramentos [Ph.D.s] em Economia nos EUA — quase cem por ano! Muitos deles não seguem a vida académica, mas todas as estimativas sugerem que entre 45% a 50% procuram emprego nas universidades. Eles aprenderam dos professores uma espécie particular de Economia e, obviamente, disseminam a mesma Economia nas suas lições e em publicações científicas.

    [ continua ]

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    sexta-feira, junho 15, 2007

    Feira do Livro

    A 77ª Feira do Livro de Lisboa averbou significativos aumentos de vendas em relação ao ano anterior. Há quem fale em acréscimos de 20%, com picos de 40% (Público -
    página da Feira). Como este ano a Câmara quase não interferiu na coisa, os inimigos da intervenção estatal podem aproveitar para tirar as devidas ilações [*].

    Mas há outros factores a ter em conta:

  • a Feira do Porto também cresceu (não é o Rui Rio que está a cortar nos subsídios?)
  • houve menos 20% de pavilhões
  • "o regresso do certame à zona sul do Parque Eduardo VII, junto ao Marquês, com bons acessos de transportes e melhor visibilidade pública"
  • "o facto de não terem decorrido outros grandes eventos culturais ou desportivos em paralelo"
  • "a adaptação [no Porto] do regulamento à lei do preço fixo, que permitiu que os editores pudessem vender livros com mais de 18 meses a qualquer preço"
  • os candidatos autárquicos foram lá em campanha
  • houve uma ruptura na conduta de água que inundou o piso durante horas
  • O 7 é um número sortudo (ainda para mais em capicua!)
  • os últimos anos foram de descida constante (what goes up must come down: Spinning Wheel/Blood, Sweat & Tears)

    Ou estará a Feira do Livro a antecipar o fim da crise?
    [*] J. Pacheco Pereira: "(...) aparente paradoxo de ter vendido mais livros sem os enormes programas de parafernália cultural, colóquios, debates, etc, que a pretendiam reanimar e que pelos vistos não tem um papel por aí além. A crença na animação cultural como solução para “criar novos públicos” parece afinal só animar os animadores, o que se compreende muito bem."
  • Aeroporto


    Tubarão de Alcochete engolindo uma marm'Ota

    O fórum de debate da TSF de hoje centrou-se numa questão minorca: deveriam ter sido divulgados os nomes dos empresários que financiaram o recente estudo da CIP sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa?

    Creio que a "questão" surgiu por causa da reacção do lóbi da Ota, que a enunciou insistentemente: "queremos saber quem pagou os estudos!"

    É sintomático que este lóbi não consiga apresentar argumentos positivos (no sentido de mostrar porque que é que o aeroporto deve ser construído na Ota) e só tenha recorrido a weak arguments, a saber:
  • insinuação de que por detrás do estudo da CIP estariam "interesses" obscuros
  • solene aviso ao Governo de que, ao recuar da posição "Margem Sul - jamé!", perde autoridade
  • choradinho de que, sem aeroporto, a zona definha

  • Mas tendo a TSF decidido levar a "questão" ao seu fórum, foram curiosas as insinuações de que ali devia haver "gato", pois os empresários "só querem é lucro". É a endémica síndrome do empresário-explorador, contraída pelo país na última revolução, que volta a atacar. Até o comunista Demétrio Alves, recentemente despedido da falida Setúbal-Polis, veio às hertzianas dizer que "não há almoços grátis", aproveitando para "denunciar" que grande parte das cerimónias do 10 de Junho em Setúbal fora também financiada por empresas privadas. Ora eu lembrei-me de várias possibilidades em que, mesmo aceitando que "não há almoços grátis", o financiamento dos empresários pode ter utilidade pública:
  • as empresas também podem ter um papel cívico. Eu sei que Friedman diz que pedir a uma empresa para ter uma responsabilidade social é o tão absurdo como pedi-lo a um prédio, mas as empresas são, essencialmente, pessoas, e impensável seria que a condição humana não extravazasse para a conta corrente da empresa; tanto no bom sentido (filantropia, p.ex.) como no mau (corrupção visando ganhos pessoais, etc).
  • as empresas têm a ganhar se o país for mais eficiente e competitivo em termos das grandes redes de transportes;
  • uma empresa pode ter um interesse muito particular numa dada localização do aeroporto (na Ota, Alcochete, ou alhures) e mesmo assim esse interesse coincidir com o do país; impossível seria encontrar um sítio onde esses interesses inexistissem; desse ponto de vista, Alcochete, com o peso de terrenos já públicos, é até o local que os minimiza.

  • Por tudo isto vejo a coisa mal parada para o lado da Ota. Devo confessar que a perspectiva do aeroporto no Poceirão nunca me entusiasmou, por uma razão meramente egoísta: o ruído. Mas para lá de Alcochete (como é o campo de tiro) a coisa melhora. Tenho pena que terminem as magníficas vistas das aterragens sobre o rio e a cidade de Lisboa, mas isso não chega para me transformar num Portelómano. Como nunca fui Otómano, fico-me a cantar:

    Toma lá Alcochetes d'oiro
    Toma lá meu bem!...

    quinta-feira, junho 14, 2007

    A classe ociosa

         «Em 1965, o homem médio [nos EUA] gastava 42 h por semana a trabalhar no escritório ou na fábrica; se juntarmos pausas para café, para almoço, e deslocações de e para o trabalho, atingem-se as 51 horas. Actualmente, em lugar destas 42 e 51 horas, gasta 36 e 40. E onde ocupa ele o tempo livre extra? Uma pequena parte em compras, outra pequena parte em trabalhos domésticos, e uma grande parte a ver TV, ler o jornal, ir a festas, descansar, ir a bares, jogar golfe, navegar na Net, visitar amigos e praticar sexo. No conjunto, dependendo do que se considerar, tem mais 6 a 8 horas por semana para lazer: o equivalente a nove semanas extra de férias por ano.
         «Quanto às mulheres [nos EUA], o tempo que gastavam no emprego ia de 17 a 24 horas por semana. Com pausas e deslocações, os valores sobem para 20 e 26 h, respectivamente. Mas o tempo gasto em tarefas caseiras desceu de 35 horas por semana para 22, um ganho líquido de 4 a 6 horas, ou o equivalente a 5 semanas de férias extra.
         «Uma pequena parte destas mudanças deve-se a factores demográficos: o americano médio é mais velho e tem menos filhos, actualmente, por isso não surpreende que trabalhe menos. Mas mesmo quando se comparam os modernos americanos com a mesma dimensão familiar, idade e nível educacional, os ganhos continuam a ser da ordem das 4 a 8 horas por semana, qualquer coisa como 7 semanas extra de férias por ano.
         «Mas não acontece assim com todos. Cerca de 10% continuam em 1965, em temos de tempo de lazer. No extremo oposto, outros 10% ganharam umas espantosas 14 horas por semana, ou mesmo mais. Dum modo geral, os maiores ganhos de tempo de lazer foram precisamente para aqueles com rendimentos mais estagnados — ou seja, os menos capacitados e com menor nível educacional. Simetricamente, os menores ganhos de tempo de lazer concentram-se nas pessoas com maior nível educacional — o mesmo grupo que teve os maiores ganhos de rendimento.
         «Aguiar and Hurst [autores do paper Mesuring Trends in Leisure] não conseguem explicar esta crescente desigualdade, tal como ninguém consegue explicar totalmente a crescente desigualdade nos rendimentos.»

    Steven E. Landsburg, Slate
    "The Theory of the Leisure Class"

    quarta-feira, junho 13, 2007

    Mark Blaug: entrevista [2]


           Mark Blaug

    P - Na actual prática dominante na Economia, a falsificabilidade é inteiramente ignorada?

    MB - Não. De certo modo, seria mais fácil se assim acontecesse. A Economia da corrente principal presta-lhe tributo formal, ou seja, diz sempre: "Ah, sim, com certeza, a teoria económica deve ser confrontada com a evidência. Não há dúvida, se a evidência for contrária, se parecer refutar a teoria, oh, sim, certamente que prestaremos muita atenção a isso, e teremos de ajustar a teoria ou até mesmo considerar eventualmente uma nova teoria." Portanto, de modo algum discordam do princípio da falsicabilidade. Pregam-no mas, na realidade, não o praticam. Por outras palavras: quando confrontados com evidência contrária a uma qualquer adorada teoria, ajustam a teoria, ou minimizam a evidência. Por vezes ignoram mesmo a evidência. Não se esforçam muito para encontrar evidência contrária, preferindo mais confirmar do que procurar a refutação.

    P - Não é aí que bate o ponto? O facto da teoria económica ser frequentemente tão maleável que pode ser aplicada a não importa que dados?

    MB - Sim. Mas enganamo-nos se pensarmos que isso é exclusivo da Economia. Isso permeia todas as ciências sociais e, na realidade, é actualmente muito mais efectivo na Sociologia e na Ciência Política. Dado que aí não se produzem conclusões fortes [hard conclusions] as respectivas teorias são mais difíceis de refutar do que as da Economia. Mas até mesmo nas ciências naturais é difícil encontrar uma experiência crucial que conclusivamente confirme ou conclusivamente refute. Se as pessoas, numa dada disciplina, tomarem a evidência empírica a sério, ela abala-a e eventualmente acaba por a derrubar. Mas não é o tipo de coisa em que se acorde uma manhã e se diga: "Olha, Olha! Evidência refutadora! Lá vamos ter que deitar fora a teoria!"

    Portanto, o que existe é um processo gradual, mesmo nas ciências naturais. E por vezes a evidência empírica encontra-se mais na natureza dos grandes eventos. Para lhe dar um exemplo trivial, a inflação e a estagflação dos anos 1970 fizeram mais para persuadir os economistas de que havia algo de errado na teoria keynesiana - de que eram necessárias políticas do lado da oferta e tudo isso - do que toda a evidência empírica dos estudos econométricos que contrariava o keynesianismo. Às vezes tem de se levar com um martelo na cabeça para aceitar o abandono de uma bem-adorada teoria.

    P - Que outros exemplos pode citar em que a evidência é gritante e mesmo assim a Economia não abandonou a teoria?

    MB - As expectativas racionais e a nova macroeconomia clássica [new classical macroeconomics]. A implicação de que nenhuma política pública pode influenciar o produto real, o rendimento real e o emprego numa economia, tem sido refutada vezes sem conta. E a evidência em contrário tem sido reconhecida em grande medida por aqueles que são os porta-vozes oficiais desta macroeconomia clássica. No entanto, a macroeconomia clássica é ainda ensinada em todos os manuais escolares, e existem ainda muitos macroeconomistas que acreditam ferverosamente que essa teoria está assente em fundações sólidas, e de que as pessoas, efectivamente, formulam expectativas racionalmente. Existe evidência até nas bolsas de valores. As bolsas são dos melhores locais para testar a ideia porque, entre todos os mercados, é dos que mais motiva os agentes a estarem informados. No entanto a bolsa de valores está pejada de anomalias, como bolhas especulativas, que são impossíveis de explicar na hipótese de todos os intervenientes formularem expectativas racionais.

    [ continua ] - [ texto anterior ]

    Entrevista da Challenge, May-June, 1998

    segunda-feira, junho 11, 2007

    Gary Becker

         «Durante os últimos 60 anos, em todas as nações economicamente avançadas, e também em muitos dos países em desenvolvimento, as mulheres passaram a participar muito mais na actividade económica, e atingiram também maiores níveis de escolaridade, em parte porque as taxas de nascimento também declinaram acentuadamente. Como resultado, as mulheres passaram a dispôr de mais tempo livre das responsabilidades domésticas. A economia americana, tal como outras economias avançadas, também se deslocaram das actividades de manufactura para as de serviços, onde sempre tem sido mais fácil às mulheres encontrar emprego. Também diminuiram as discriminações na admissão a escolas de Medicina, Direito, Engenharias e outras, provavelmente sob a pressão do crescente número de mulheres que pretendem entrar nesses domínios. Cerca de metade dos estudantes de Medicina e Direito, nos EUA, são mulheres, e a sua inscrição em programas de MBA e escolas de engenharia está também a aumentar rapidamente.
         «Uma fracção maior de mulheres trabalha agora a tempo inteiro, comparativamente com o que acontecia há 50 anos atrás. (...) Maiores níveis educacionais e maior participação feminina na força de trabalho contribuiram para aumentar os rendimentos anuais das mulheres, relativamente aos homens. Algumas estimativas indicam que as mulheres ganham mais do que os maridos em mais de 30% dos lares em que ambos trabalham, e a fracção das famílias em que as mulheres são o principal sustentáculo financeiro tem crescido a uma grande velocidade.
         «No entanto, as mulheres, em média, ainda ganham menos do que os homens, e estão muito menos representadas nos percentis superiores da distribuição global de rendimentos. Nas próximas duas décadas deveremos assistir à diminuição deste fosso, mas será ele eliminado? Se, como é provável, as mulheres continuarem a retirar tempo de trabalho para cuidar das crianças, e a faltar ao trabalho quando elas adoecem ou necessitam de atenção especial, isso continuará a reduzir os seus rendimentos face aos dos homens, bem como a sua representação no topo dos escalões de rendimentos.»

    Gary Becker
    Women's Role in the Economy

    Regresso a Hirschman


        Charles I. Jones

    "Intermediate Goods and Weak Links: A Theory of Economic Development" [ pdf ]

    «O rendimento per capita dos países mais ricos excede o dos mais pobres por um factor superior a 50. O que explica estas enormes diferenças? Este paper regressa a duas antigas ideias da Economia do desenvolvimento e propõe que a complementaridade e as ligações estão no cerne da explicação. Em primeiro lugar, e tal como a resistência de uma cadeia é a do seu elo mais fraco, qualquer problema em qualquer ponto na cadeia de produção pode reduzir substancialmente o output, no caso de os inputs entrarem em associações complementares. Em segundo lugar, as ligações entre empresas por via de bens intermédios fornecem um multiplicador similar ao que era associado à acumulação de capital no modelo neoclássico de crescimento. Uma vez que a fatia do rendimento dos bens intermédios é cerca de 1/2, este multiplicador é importante. O paper desenvolve um modelo com inputs complementares e ligações através dos sectores e mostra que podem facilmente gerar-se diferenças substanciais no rendimento agregado.»

    Grande embrulhada


    A culpa é do DNA...

    «Os irmãos gémeos Raymon e Richard Miller são pai e tio de uma menina de 3 anos. O problema é que não se sabe qual deles é ó quê. Ou quem é quem. Estes gémeos do Missouri (EUA) dizem ter tido sexo com a mesma mulher, com desconhecimento um do outro. E, de acordo com o testemunho da senhora, ela teve sexo com cada um deles no mesmo dia, com poucas horas de diferença.

    Quando a senhora em questão, Holly Marie Adams, ficou grávida, nomeou Raymon como sendo o pai. Porém, quando foi pedido a Raymon o pagamento de uma pensão à criança, este foi para tribunal e exigiu que ele e o irmão fizessem o teste de paternidade. O resultado foi inconclusivo e o juiz Fred Copeland determinou que, mesmo com testes de DNA idênticos e prova de relações simultâneas, Raymon teria de se manter como o pai legal. Raymon continua a litigar em instância superior.

    Richard, embora admita ter tido relações sexuais com Adams, acredita que é impossível provar que é ele o pai e afirma que o irmão apenas anda a fugir ao pagamento da pensão.» (Notícia)

    domingo, junho 10, 2007

    Mark Blaug: entrevista [1]


           Mark Blaug

    P - Penso que é justo dizer-se que você é o líder dos que defendem que a fraqueza da Economia reside em grande parte da teoria não ser falsificável. Se não se pode refutar algo, como se pode demonstrar que pode ser verdadeiro? Qual é a sua definição de falsificabilidade?
    MB - Ao confrontar uma teoria, deve ser possível pensar em evidência que, se encontrada, possa refutar a teoria ou leve ao seu abandono. Compreender-se-ia que estava errada. Seria refutada por alguma evidência. Se, por exemplo, alguém diz: "Acredito em tal e tal, e não há evidência que me faça alguma vez abandonar esta teoria", então, seja qual for o grau de crença, não é ciência, porque as crenças, ou teorias, ou hipóteses científicas, ou o que lhes queira chamar, devem ser refutáveis, pelo menos em princípio. Aqui é que começam os problemas.
    P - Foi Karl Popper, o filósofo, quem originou esta crítica da Economia?
    MB - Não, ele disse isso acerca de outras áreas. Disse muito pouco sobre Economia, e o que disse foi mais adulatório do que crítico. Não, ele nunca criticou a Economia. Popper era um filósofo da Ciência. Muitas das aplicações das suas ideias ocorreram na Física, e ele estava particularmente interessado na Teoria da Relatividade, na Mecânica Quântica, e por aí. Tanto quanto lhe interessaram as ciências sociais, era o género da "grande" ciência social. Ele escreveu "The Open Society", que tinha três grandes inimigos: Platão, Hegel e Marx. Mas ele não se interessou particularmente pela Economia e disse muito pouco acerca dela, e algumas das coisas que disse geraram mais perguntas do que respostas.
    P - Quem foi então a primeira pessoa a levantar o problema da falsificabilidade na Economia?
    MB - Terrence Hutchison, que ainda muito jovem escreveu "The Fundamental Postulates of Economic Theory". Neste livro ele criticou a assumpção do conhecimento perfeito em muita da teoria ecnomica e introduziu o pensamento de Popper. Hutchison, que está agora no início dos seus 90 anos, manteve-se sempre um grande discípulo de Popper e da aplicação das suas ideias à Economia. Eu segui-lhe os passos. Foi uma espécie de mentor para mim.
    P - Estudou com ele?
    MB - Foi um dos meus supervisores de doutoramento na Universidade de Columbia, que visitou. Eu tive dois supervisores: George Stigler e Terrence Hutchison. Faziam um contraste maravilhoso. Mas agora há muito de Popper em Stigler. Por isso, na realidade, devo bastante a ambos.

    [ continua ]

    Entrevista da Challenge, May-June, 1998

    Notas:
  • Sobre o falsificacionismo, leia-se esta entrada de David Papineau em A Arte de Pensar.
  • Falsificabilidade: propriedade que um enunciado ou uma teoria têm de ser refutados pela experiência.
  • sábado, junho 09, 2007

    Outsourcing

    quinta-feira, junho 07, 2007

    Crime, dizem eles

  • Becker-Posner Blog:


    Richard Posner

    «A objecção económica básica ao crime é de que o crime constitui uma transacção cara mas estéril. Redistribui a riqueza, não aumenta o tamanho do bolo social; e, por isso, os custos envolvidos no crime — o tempo e outros inputs do criminoso, bem como as medidas defensivas tomadas pelas potenciais vítimas — constituem um peso morto para a sociedade.»



  • Marginal Revolution:

    Se olharmos para uma simples correlação entre o crime per capita e polícias per capita, obtemos isto:

    A polícia provoca crime! Alguns dos inspirados por Foucault podem chegar a essa conclusão, mas não é surpresa que lugares com muitos crimes têm muitos polícias. Estimar o verdadeiro efeito da polícia no crime a partir de dados observados é difícil, porque polícia e crime são conjuntamente determinados. (...) Quando é lançado um alerta relacionado com o terrorismo, a polícia de Washington DC coloca mais agentes na rua. Descobrimos que o crime diminui significativamente durante estes períodos de alerta elevado:
    "Using Terror Alert Levels to Estimate the Effect of Police on Crime" (pdf)
  • quarta-feira, junho 06, 2007

    Regionalização


    [ James Stodder ]

    Manchas solares

         «Sunspot equilibrium é um conceito da economia, criado por David Cass e Karl Shell. Um "equilíbrio das manchas solares" é um equilíbro económico onde a produção ou alocação de recursos de mercado depende de uma variável externa aleatória, ou "mancha solar", que têm influência apenas porque as pessoas pensam que ela tem influência. Aplica-se áquelas situações em que a economia pode atingir distintos equilíbrios, obtendo-se um ou outro pela mera coordenação dos agentes.
         Numa situação típica da Teoria dos Jogos, dois ou mais equilíbrios distintos podem ser igualmente alcançados. É a acção dos agentes, que actuam simultâneamente num sentido ou noutro, que determina o equilíbrio.
         Dá-se o nome de equilíbrios das manchas solares porque é uma variável externa à economia que determina o equilíbrio. Assim, por exemplo, poderiamos imaginar dois equilíbrios, um em que nada se cultiva e todos morrem de fome, e outro onde todos plantam e a sociedade avança. Ambas as coisas podem ocorrer, dependendo da coordenação dos agentes. Se estes forem supersticiosos, podem acreditar que mudanças nas manchas solares farão com que todos os demais não cultivem e morram de fome, pelo que não haverá a quem vender a produção. Assim, toda a sociedade se coordena para alcançar o equilíbrio negativo, ainda que não haja nenhuma razão intrínseca à economia para que isso ocorra.» (Wikipedia)