
Mark Blaug
MB - Não. De certo modo, seria mais fácil se assim acontecesse. A Economia da corrente principal presta-lhe tributo formal, ou seja, diz sempre: "Ah, sim, com certeza, a teoria económica deve ser confrontada com a evidência. Não há dúvida, se a evidência for contrária, se parecer refutar a teoria, oh, sim, certamente que prestaremos muita atenção a isso, e teremos de ajustar a teoria ou até mesmo considerar eventualmente uma nova teoria." Portanto, de modo algum discordam do princípio da falsicabilidade. Pregam-no mas, na realidade, não o praticam. Por outras palavras: quando confrontados com evidência contrária a uma qualquer adorada teoria, ajustam a teoria, ou minimizam a evidência. Por vezes ignoram mesmo a evidência. Não se esforçam muito para encontrar evidência contrária, preferindo mais confirmar do que procurar a refutação.
P - Não é aí que bate o ponto? O facto da teoria económica ser frequentemente tão maleável que pode ser aplicada a não importa que dados?
MB - Sim. Mas enganamo-nos se pensarmos que isso é exclusivo da Economia. Isso permeia todas as ciências sociais e, na realidade, é actualmente muito mais efectivo na Sociologia e na Ciência Política. Dado que aí não se produzem conclusões fortes [hard conclusions] as respectivas teorias são mais difíceis de refutar do que as da Economia. Mas até mesmo nas ciências naturais é difícil encontrar uma experiência crucial que conclusivamente confirme ou conclusivamente refute. Se as pessoas, numa dada disciplina, tomarem a evidência empírica a sério, ela abala-a e eventualmente acaba por a derrubar. Mas não é o tipo de coisa em que se acorde uma manhã e se diga: "Olha, Olha! Evidência refutadora! Lá vamos ter que deitar fora a teoria!"
Portanto, o que existe é um processo gradual, mesmo nas ciências naturais. E por vezes a evidência empírica encontra-se mais na natureza dos grandes eventos. Para lhe dar um exemplo trivial, a inflação e a estagflação dos anos 1970 fizeram mais para persuadir os economistas de que havia algo de errado na teoria keynesiana - de que eram necessárias políticas do lado da oferta e tudo isso - do que toda a evidência empírica dos estudos econométricos que contrariava o keynesianismo. Às vezes tem de se levar com um martelo na cabeça para aceitar o abandono de uma bem-adorada teoria.
P - Que outros exemplos pode citar em que a evidência é gritante e mesmo assim a Economia não abandonou a teoria?
MB - As expectativas racionais e a nova macroeconomia clássica [new classical macroeconomics]. A implicação de que nenhuma política pública pode influenciar o produto real, o rendimento real e o emprego numa economia, tem sido refutada vezes sem conta. E a evidência em contrário tem sido reconhecida em grande medida por aqueles que são os porta-vozes oficiais desta macroeconomia clássica. No entanto, a macroeconomia clássica é ainda ensinada em todos os manuais escolares, e existem ainda muitos macroeconomistas que acreditam ferverosamente que essa teoria está assente em fundações sólidas, e de que as pessoas, efectivamente, formulam expectativas racionalmente. Existe evidência até nas bolsas de valores. As bolsas são dos melhores locais para testar a ideia porque, entre todos os mercados, é dos que mais motiva os agentes a estarem informados. No entanto a bolsa de valores está pejada de anomalias, como bolhas especulativas, que são impossíveis de explicar na hipótese de todos os intervenientes formularem expectativas racionais.
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Entrevista da Challenge, May-June, 1998






«Sunspot equilibrium é um conceito da economia, criado por David Cass e Karl Shell. Um "equilíbrio das manchas solares" é um equilíbro económico onde a produção ou alocação de recursos de mercado depende de uma variável externa aleatória, ou "mancha solar", que têm influência apenas porque as pessoas pensam que ela tem influência. Aplica-se áquelas situações em que a economia pode atingir distintos equilíbrios, obtendo-se um ou outro pela mera coordenação dos agentes.
«Joan Robinson dava crédito à pretensão de Keynes de ter revolucionado a teoria económica, e não partilhava o ponto de vista de Harrod de que se tratava de uma teoria essencialmente estática. Pelo contrário, Robinson escreveu que "Keynes estilhaçou a casa de vidro da teoria estática". Ela creditava que a teoria económica tradicional pouco mais era do que uma apologia do capitalismo do laissez faire e, consequentemente, boa para se deitar fora. Para Robinson, as teorias de Kalecki e Sraffa eram muito mais prometedoras na explicação de temas tais como o valor e a distribuição. O seu maior contributo foi sobre a tradição clássica de examinar a evolução do sistema económico ao longo do tempo. Uma vez que Keynes assumiu, na sua "Teoria Geral", um stock de capital fixo, deixou de fora as questões do crescimento e acumulação de capital, às quais ela tentou responder, na senda do trabalho de Harrod. A sua estratégia era a de construir modelos simplificados e depois "avançar passo a passo das assumpções mais simples para uma maior complexidade, expremendo tudo o que pudesse ser aprendido em cada passo, antes de dar o seguinte.»
Os economistas de serviço, Augusto Mateus e Eduardo Catroga, safaram-se no cômputo geral. Porém, não acho que qualquer das intervenções possa orgulhar a classe. Weak argument, diria o outro. Quem não se safou foi o professor Jorge Gaspar, apesar de ser o único que mostrou ter feito o trabalho de casa. E talvez por isso mesmo. Hoje a substância não conta muito: o que pesa é a imagem, a convicção (ainda que seja ao serviço da dúvida, ou de nada), a falsa ingenuidade (Catroga) e a inocente presunção (Mateus). Jorge Gaspar tinha motivos para se irritar, irritou-se, e isso não o ajudou.








