sábado, junho 09, 2007

Outsourcing

quinta-feira, junho 07, 2007

Crime, dizem eles

  • Becker-Posner Blog:


    Richard Posner

    «A objecção económica básica ao crime é de que o crime constitui uma transacção cara mas estéril. Redistribui a riqueza, não aumenta o tamanho do bolo social; e, por isso, os custos envolvidos no crime — o tempo e outros inputs do criminoso, bem como as medidas defensivas tomadas pelas potenciais vítimas — constituem um peso morto para a sociedade.»



  • Marginal Revolution:

    Se olharmos para uma simples correlação entre o crime per capita e polícias per capita, obtemos isto:

    A polícia provoca crime! Alguns dos inspirados por Foucault podem chegar a essa conclusão, mas não é surpresa que lugares com muitos crimes têm muitos polícias. Estimar o verdadeiro efeito da polícia no crime a partir de dados observados é difícil, porque polícia e crime são conjuntamente determinados. (...) Quando é lançado um alerta relacionado com o terrorismo, a polícia de Washington DC coloca mais agentes na rua. Descobrimos que o crime diminui significativamente durante estes períodos de alerta elevado:
    "Using Terror Alert Levels to Estimate the Effect of Police on Crime" (pdf)
  • quarta-feira, junho 06, 2007

    Regionalização


    [ James Stodder ]

    Manchas solares

         «Sunspot equilibrium é um conceito da economia, criado por David Cass e Karl Shell. Um "equilíbrio das manchas solares" é um equilíbro económico onde a produção ou alocação de recursos de mercado depende de uma variável externa aleatória, ou "mancha solar", que têm influência apenas porque as pessoas pensam que ela tem influência. Aplica-se áquelas situações em que a economia pode atingir distintos equilíbrios, obtendo-se um ou outro pela mera coordenação dos agentes.
         Numa situação típica da Teoria dos Jogos, dois ou mais equilíbrios distintos podem ser igualmente alcançados. É a acção dos agentes, que actuam simultâneamente num sentido ou noutro, que determina o equilíbrio.
         Dá-se o nome de equilíbrios das manchas solares porque é uma variável externa à economia que determina o equilíbrio. Assim, por exemplo, poderiamos imaginar dois equilíbrios, um em que nada se cultiva e todos morrem de fome, e outro onde todos plantam e a sociedade avança. Ambas as coisas podem ocorrer, dependendo da coordenação dos agentes. Se estes forem supersticiosos, podem acreditar que mudanças nas manchas solares farão com que todos os demais não cultivem e morram de fome, pelo que não haverá a quem vender a produção. Assim, toda a sociedade se coordena para alcançar o equilíbrio negativo, ainda que não haja nenhuma razão intrínseca à economia para que isso ocorra.» (Wikipedia)

    Joan Robinson

    Joan Robinson«Joan Robinson dava crédito à pretensão de Keynes de ter revolucionado a teoria económica, e não partilhava o ponto de vista de Harrod de que se tratava de uma teoria essencialmente estática. Pelo contrário, Robinson escreveu que "Keynes estilhaçou a casa de vidro da teoria estática". Ela creditava que a teoria económica tradicional pouco mais era do que uma apologia do capitalismo do laissez faire e, consequentemente, boa para se deitar fora. Para Robinson, as teorias de Kalecki e Sraffa eram muito mais prometedoras na explicação de temas tais como o valor e a distribuição. O seu maior contributo foi sobre a tradição clássica de examinar a evolução do sistema económico ao longo do tempo. Uma vez que Keynes assumiu, na sua "Teoria Geral", um stock de capital fixo, deixou de fora as questões do crescimento e acumulação de capital, às quais ela tentou responder, na senda do trabalho de Harrod. A sua estratégia era a de construir modelos simplificados e depois "avançar passo a passo das assumpções mais simples para uma maior complexidade, expremendo tudo o que pudesse ser aprendido em cada passo, antes de dar o seguinte.»

    Fiona C. Maclachlan
    "Joan Robinson on Harrod’s Dynamics" [doc]

    terça-feira, junho 05, 2007

    Debate

    Jorge Gaspar
         A plateia do debate de ontem na RTP sobre a localização do futuro aeroporto de Lisboa parecia um ajuntamento de claques de futebol. As intervenções, embora um bocadinho mais sofisticadas, não sairam do mesmo truque de tentar piscar o olho ao zé pagante.
    Fatima Campos Ferreira     Os economistas de serviço, Augusto Mateus e Eduardo Catroga, safaram-se no cômputo geral. Porém, não acho que qualquer das intervenções possa orgulhar a classe. Weak argument, diria o outro. Quem não se safou foi o professor Jorge Gaspar, apesar de ser o único que mostrou ter feito o trabalho de casa. E talvez por isso mesmo. Hoje a substância não conta muito: o que pesa é a imagem, a convicção (ainda que seja ao serviço da dúvida, ou de nada), a falsa ingenuidade (Catroga) e a inocente presunção (Mateus). Jorge Gaspar tinha motivos para se irritar, irritou-se, e isso não o ajudou.
         Fátima Campos Ferreira foi competente, como é usual, tentando que a plateia de autarcas e assessores não fizesse figuras tristes, mas em vão. E ainda teve a paciência de dar a palavra a alguns excitados, certamente convencidos de que se não interviessem o mundo desabaria. 30 anos de poder autárquico para isto?

    Vernon Smith


    Vernon Smith e o autismo.
    "Risk, Return, and Economic Substance"
    Charlene Luke

    Luke_3«A "doutrina da substância económica" ["economic substance doctrine"] é utilizada pelos tribunais para lidar com as litigações feitas pelos contribuintes fiscais que desvendaram vias complicadas e não-intuitivas para obter benefícios fiscais — vias não previstas pelas autoridades governamentais mas que, todavia, satisfazem tecnicamente vários controlos estatutários e regulatórios. Embora os tribunais não tenham estabelecido uma moldura doutrinária uniforme, a doutrina converge em torno da questão de saber se o contribuinte auferiu (ou podia ter razoavelmente esperado auferir) um lucro-antes-de-impostos na transacção suspeita. Esta averiguação antes-de-impostos é controversa. Em primeiro lugar, não lida adequadamente com os impostos implícitos. Em segundo lugar, tal como tem sido aplicada por vários tribunais, tem sido analisada para saber se o contribuinte se sugeitou ou não a um risco de mercado, numa dada transacção. Como resultado, o teste ignora a possibilidade de rendimentos livres de risco e pode ser a causa de que os contribuintes corram riscos desnecessariamente. Finalmente, o montante do lucro-antes-de-impostos requerido (em termos absolutos ou relativos) nunca foi estabelecido. Isto faz aumentar a possibilidade dos contribuintes consiguirem iludir o escrutínio por tomarem um montante insignificante de risco de mercado ou por inserirem numa dada transacção um risco externo baixo ou nulo.»
    TaxProf Blog.

    Keynes vs Harrod

    J.M.Keynes
    J. M. Keynes
    Roy Harrod
    Roy Harrod

    «Parece-me a mim que a Economia é um ramo da Lógica, um modo de pensar; e que você não repele com suficiente firmeza as tentativas à la Schultz de a transformar numa pseudo-ciência-natural. Podem-se fazer progressos significativos meramente pelo uso dos seus axiomas e máximas. Mas não se pode chegar muito longe a não ser que se divisem modelos novos e melhorados. Isto requer, como você salienta, "uma observação atenta do actual funcionamento do nosso sistema". O progresso em Economia consiste quase exclusivamente num movimento progressivo de escolha de modelos. O grave defeito da escola clássica tardia, exemplificada por Pigou, foi o de insistir no uso de um modelo demasiadamente simples ou fora de prazo, e em ignorar que o progresso reside na melhoria do modelo; Marshall, por outro lado, baralhava frequentemente os seus modelos — na concepção dos quais manifestava grande génio — por querer que fossem realistas e tendo escusada vergonha de linhas simples e abstractas.»

    Carta de Keynes a Roy Harrod, comentando
    o artigo "Scope and Method of Economics"


    Nota: o teórico depreciativamente citado por Keynes é Henry Schultz (1893-1938), pioneiro na introdução de métodos quantitativos no desenvolvimento da teoria Económica. Na resposta a Keynes, Harrod escreve que "Embora eu concorde genericamente com o que diz de Schultz, penso que Tinbergen pode estar a fazer um trabalho de valor ao tentar traduzir esta parte da teoria em termos quantitativos, por.ex. no modelo em que a taxa de juro e a eficiência marginal do capital determinam conjuntamente a taxa de investimento".

    Metodologia

    "The Methodology of Economics and the Survival Principle Revisited and Revised"
    Morris Altman; Review of Social Economy, Vol. 57, 1999

    «Na sequência da publicação, em 1953, da obra clássica de Milton Friedman sobre a metodologia da Economia [*], poucos economistas desafiaram a asserção de que o realismo dos pressupostos tem fraca relevância analítica para a teoria económica e, consequentemente, para a formulação das políticas económicas. Este paper debruça-se sobre o potencial significado substantivo do realismo dos presuspostos no bem-estar económico e na justiça económica, através do seu efeito nas previsões analíticas dos modelos económicos, nas implicações destas previsões na política, bem como no efeito que pode ter na amplitude e profundidade da análise económica.»

    [*] - The Methodology of Positive Economics

    quinta-feira, maio 17, 2007

    Teologia


    Detalhe do quadro "O cambista e a sua mulher" (1514),
    do pintor flamengo Quintino de Metsys

    O quadro original, que se encontra no Louvre, é o seguinte
    (clique para ampliar):

    Ainda outro quadro com o mesmo tema, de Marinus Claeszon Van Reymerswaele,
    que se encontra no Museu do Prado, em Madrid
    (clique para ampliar):

         «O cambista e a sua mulher é uma pintura flamenga dos inícios do século XVI, a qual é muito utilizada para representar a actividade económica. Existem duas versões diferentes: uma por Quintino de Metsys, de 1514, e outra de Marinus van Reymerswaele, de 1539. Existem significativas diferenças entre as duas pinturas, diferenças que eu penso terem significado económico.
         «Muitos historiadores de arte vêem nas pinturas de Metsys e Reymerswaele um simbolismo satírico e moralista. O casal seria a representação da ganância. Outros pensam que as pinturas mostram a actividade económica como algo respeitável. Naquele tempo a Flandres era o centro de uma florescente actividade industrial e comercial, e era também o centro de uma actividade mercantil de obras de arte. Ambas as coisas levaram à representação, em pinturas, da actividade de cambistas, ourives e banqueiros, dum modo que mostrava essas profissões como sendo respeitáveis actividades.
         «Mas alguns académicos propuseram outras interpretações, mais subtis. Marjorie Grice-Hutchinson, a historiadora do pensamento económico que foi a primeira a chamar a atenção dos economistas para a corrente escolástica espanhola da "Escola de Salamanca", considera a pintura de Metsys como uma ilustração da intenção dos escolásticos em tornar compatível a actividade comercial com a doutrina da Igreja, que condenava a usura [empréstimo de dinheiro a juros]. De acordo com a sua interpretação, a pintura de Metsys representa o usurário a trabalhar e, ao mesmo tempo, a discutir com a sua mulher a bondade de um determinado negócio comercial, ajudados pelo livro religioso que a mulher folheia.
         «É importante notar que, 25 anos depois, na pintura de Reymerswaele, já não se trata de um livro religioso mas sim um livro de registos contabilísticos. Ainda assim os historiadores de arte defendem que há uma intenção satírica e moralizadora. Segundo eles, o simbolismo seria evidente para as pessoas da época, mas não para nós. Por exemplo: os dedos longos e curvados do casal de burgueses, alegadamente, representariam a avareza. Mas Reymerswaele, num outro quadro, pintou as mãos de São Jerónimo do mesmo modo, portanto a intenção deve ser estética e não simbólica.»

    (Adaptado de um texto de Manuel Santos Redondo. Leia o texto integral aqui   »»».)


    Pode dizer-se que esta dualidade ainda hoje é revelada pelas palavras ganância e ganho, que possuem a mesma origem. A intenção de ganhar dinheiro tanto pode ser bem vista (ganhar, palavra que também significa ser melhor do que os outros) como pode ser criticada (ganância). Em castelhano "ganancia" é o beneficio económico obtido por um capital investido.

    Derivas e paradoxos semelhantes (e significados contraditórios para a mesma palavra em português e castelhano) ocorrem com "concorrência", "competência" e "competição".

    segunda-feira, abril 16, 2007

    Um americano em Bruxelas


    "Maastricht 2042 and the Fate of Europe: Toward Convergence and Full Employment" [pdf]
    James K. Galbraith


    «Este paper apresenta uma estratégia de convergência económica para a Europa. Os princípios e ideais europeus requerem convergência, mas a política económica pan-europeia da "reforma do mercado de trabalho" impõe divergência, na esperança de que uma menor equidade nos salários europeus leve a Europa a aproximar-se do dinamismo e da perfomance do emprego nos EUA. Nós deslindámos este paradoxo europeu mostrando que, de facto, a estrutura de salários inter-regional dos EUA é substancialmente mais igualitária do que a da Europa; a convergência para os níveis de inequidade americanos necessitarão, por isso, da sistemática redução das diferenças inter-regionais dos salários europeus. Apresentamos alvos quantitativos para uma estratéria de crescimento igualitário e convergência salarial nas regiões europeias até 2042, ano em que se comemorarão os 50 anos do tratado de Maastricht. Um capítulo teórico explica porque é que esta estratégia, na senda da experiência americana do New Deal, pode contribuir para a redução da praga do desemprego na Europa.»

    terça-feira, fevereiro 06, 2007

    Filosofia da Ciência





    "History of Twentieth-Century Philosophy of Science"
    Thomas J. Hickey

    Destaca-se o Capítulo VIII: "Herbert Simon, Paul Thagard and Others on Discovery Sistems" [pdf] [zip]

    Robert Lucas











    Upload original: EconTalk, via Gustibus.

    Ainda mexe!...

    "Phillips Curve for Advanced Economies on Period 1996-2007 - United States and Euro Area Case"
    Eduardo G. Manuel

    «We concluded that the true form of Phillips curve for short and long-run will not be verified always that exist equal evolution of their variables or for others words, always that inflation and unemployment rates growing to same direction, in both regions or in any region, the Phillips curve never will have their normal form and this just happen when inflation and unemployment rates growing for different directions (in the short-run) and when inflation rate is growing and unemployment doesn't (in the long-run).»

    O que significa isto?

    segunda-feira, fevereiro 05, 2007

    Altruísmo e Agência


    "Altruism is associated with an increased neural response to agency"
    Dharol Tankersley, C Jill Stowe e Scott A. Huettel

    Nature Neuroscience nº 10, 150-151 (2007)

    «Embora os mecanismos neurais subjacentes ao altruísmo permaneçam desconhecidos, a empatia e as suas componentes, tais como a percepção das acções e intenções de outros, têm sido propostas como contribuidores-chave. Tarefas que exigem a percepção da agência activam o cortex temporal posterior superior (pSTC), particularmente no hemisfério direito. Aqui, demonstramos que a activação diferencial do pSTC humano durante a percepção da acção versus a "perfomance" da acção, prediz o altruísmo auto-assinalado.»

    segunda-feira, janeiro 22, 2007

    Descentralização Fiscal

    'Fiscal Decentralization and the Challenge of Hard Budget Constraints '

  • "Concept of Fiscal Decentralization and Worlwide Overview"
    Robert Ebel & Serdar Yilmaz [2001]

  • "Political Budget Cycles and Fiscal Decentralization"
    Paula Gonzalez, Jean Hindrinks, Bem Lockwood & Nicolas Porteiro [Jan.2006]

  • "On the Theory and Practice of Fiscal Decentralization"
    Wallace Oates [Mar. 2006]

  • "Fiscal Decentralization and Economic Growth"
    Jorge Martinez-Vasquez & Robert M. McNab [Jan.2001]

  • "Interregional protection: Implications of fiscal decentralization and trade liberalization"
    Li Jie, Larry Qiu & Sun Qunyan [2003]

  • "Descentralização fiscal e participação em experiências democráticas retardatárias"
    José R. R. Afonso & Thereza Lobo [1996]

  • "Descentralização fiscal: uma perspectiva mundial"
    Roy Bhal [1999]
  • sábado, janeiro 20, 2007


    Publicado na Revista DiaD, edição de 19 de Janeiro de 2007 do jornal Público

         O enquadramento histórico do keynesianismo é usualmente feito pela referência à depressão económica mundial dos anos 1930: a persistência da crise e do desemprego teria sido o móbil de Lord Keynes, bem como a prova, para os seus seguidores, de que a “mão invisível”, só por si, não conduziria automaticamente à recuperação da crise. Mas o keynesianismo estava bem acompanhado e foi apenas mais uma das muitas ilusões do século XX, tais como a “Revolução Verde”, ou a convicção de que mais tarde ou mais cedo se acabaria por descobrir a cura de todas as doenças, ou de que os problemas da vida urbana desapareceriam com as novas “cidades jardim”, ou ainda de que a tecnologia nuclear proporcionaria energia barata e ilimitada.

         Para a auto-estima dos economistas o keynesianismo também fazia maravilhas: quem é que se podia contentar com uma profissão cuja principal receita fosse a de aconselhar que, perante os problemas, não se fizesse nada, deixando os mercados corrigir tudo automaticamente? Pelo contrário, a possibilidade de se codificar os segredos mais profundos do universo económico em pequenas fórmulas matemáticas – como fizera Einstein na Física – prometia elevar a Economia e os economistas ao pedestal da glória.
         Não se trataram de ilusões sem fundamento: houve de facto grandes avanços na compreensão de muitos fenómenos pelas ciências naturais e humanas e a vida social progrediu com base nesses novos conhecimentos. O erro dos humanos parece ter estado na arrogância com que encararam as suas capacidades. Uma vez que a “ciência” parecia ter sido a responsável pela “morte” de Deus (que deixara de “governar” o dia-a-dia) fazia sentido que a tribo dos cientistas se encarregasse de ocupar o trono vago. A “Economia” bíblica e a “Economia Científica” pareciam estar a fundir-se numa verdadeira “síntese” ecuménica.
         No caso português esse ecumenismo estendia-se ao ensino universitário da Economia, operando um pequeno milagre: a convergência entre o paternalismo económico salazarista e a defesa do planeamento estatal marxista. Quem entrasse no Instituto Superior de Economia no final dos anos 60 estranharia que pudessem ali leccionar tantos professores reconhecidamente marxistas, tal como estranharia o zelo com ensinavam a cartilha keynesiana.
         Em 1976, recém chegado do doutoramento em Inglaterra, o professor Aníbal Cavaco Silva ingressou na escola onde se licenciara para dirigir a cadeira de Economia Pública. Para tal publicou o manual “Política Orçamental e Estabilização Económica”, um livro essencialmente keynesiano, basicamente instrumental, com desenvolvimento matemático dos diversos multiplicadores para formulação de políticas orçamentais de estabilização: a denominada “sintonia fina”.
         Cavaco Silva passou depois para a Universidade Nova e o livro, com desenvolvimentos importantes, conheceu novas edições em 1982 e em 1992, agora com o novo título de “Finanças Públicas e Política Macroeconómica” e com uma importante inovação: a adição de um novo capítulo da autoria do professor João César das Neves.
         Aqui teremos de fazer um compasso de espera para respirar fundo: o professor João César das Neves co-autor de um livro keynesiano? E o Céu não trovejou? E a Terra não tremeu?
         Na realidade, o que o capítulo cesariano faz é um pequeno milagre ecuménico, “estender a validade” do condenado keynesianismo, salvando assim a honra do convento. A solução é engenhosa e recorre a uma parábola heliocêntrica, que se pode resumir no seguinte: quando surgiu a teoria de Copérnico, apesar de ser mais avançada do que a de Ptolomeu, o certo é que em termos práticos e para cálculo da posição dos planetas dava resultados inferiores. Por isso, durante algum tempo ainda se usaram as velhas tabelas heliocêntricas. Moral da história: os keynesianos podem ter, ainda, um instrumental que para cálculo prático é mais eficaz, mas o modelo neoclássico é que acabará por prevalecer. É caso para perguntar: trata-se de dupla personalidade ou ecumenismo na Economia?

    quarta-feira, janeiro 17, 2007

    Golfeno Algarve"Environmental and economic tools to support sustainable golf tourism: The Algarve experience, Portugal" [pdf]

    Nuno Videira, Antónia Correia, Inês Alves, Catarina Ramires, Rui Subtil e Victor Martins
    Tourism and Hospitality Research (2006) 6, 204–217

    «A qualidade ambiental constitui uma força motriz do desenvolvimento sustentável do turismo no século XX. Contudo, as pressões crescentes exercidas sobre os stocks de capital natural exigem abordagens integradas para equlibrar os impactos das actividades turísticas. As recentes tendências de crescimento da indústria do golfe estão a reforçar o seu potencial para se tornarem um veículo para um turismo competitivo e sustentável. Por outro lado, os campos de golfe exercem indiscutíveis impactos ambientais, que requerem um efectivo controlo de gestão. Este paper apresenta um quadro de avaliação de sustentabilidade [sustainability assessment framework] e os resultados da sua aplicação aos campos de golfe do Algarve.»

    segunda-feira, janeiro 15, 2007

    Teorias do desenvolvimento

    "Reliving the 1950s: the big push, poverty traps, and takeoffs in economic development"
    William Easterly
    Journal of Economic Growth, 11 (4) Dezembro de 2006

    «A narrativa clássica do desenvolvimento económico - os países pobres encontram-se aprisionados em armadilhas da pobreza, para sair das quais necessitam de um Big Push envolvendo investimento crescente, que conduza a uma "descolagem" [ take-off] no rendimento per capita - foi muito influente nos debates da ajuda externa a partir dos anos 1950. Constituiu mesmo a justificação original para a ajuda externa. A narrativa perdeu credibilidade durante algum tempo mas retornou "em grande" no novo milénio. Uma vez mais está a ser invocada como base racional para grandes programas de ajuda externa. Este paper aplica testes muitos simples aos vários elementos da narrativa. A evidência a apoiar a narrativa é escassa. Armadilhas da pobreza, no sentido de crescimento zero para países de baixo rendimento, são refutadas pelos dados no período global de 1950-2001 e para a maioria dos sub-períodos. O quintil mais pobre também não apresenta crescimento negativo significativo do rácio do rendimento em relação aos países mais ricos no período 1950-2001, nem o crescimento relativo para o quintil mais baixo é significativamente diferente dos outros quintis. A alegação de que "as bem governadas naçõ;es pobres" são apanhadas em armadilhas da pobreza é rejeitada por simples regressões que controlam o rendimento inicial e a qualidade do governo. A ideia da "descolagem" também não recolhe muito apoio nos dados. As "descolagens" são raras nos dados, muito plausivelmente limitadas às histórias de sucesso na Ásia. Mesmo aí, as "descolagens" não estão associadas a ajudas, investimento ou despesas de educação, com defende a narrativa.»