terça-feira, outubro 03, 2006

Maravilhas da Ciência

     Em vez de andar para aí a fechar urgências, o sr. ministro talvez conseguisse melhores resultados se pusesse os olhos nesse Grande Perigo que são os animais de estimação.
     O estudo de Susan Kurrle, Robert Day and Ian Cameron, "The perils of pet ownership: a new fall-injury risk factor", publicado no Medical Journal of Austrália, não deixa margem para dúvidas: os investigadores, tendo analisado, durante 18 meses, no serviço de urgência de um hospital australiano, os doentes com mais de 75 anos com fracturas associadas aos seus animais de estimação, detectaram os 16 casos apresentados no quadro de baixo. O estudo prova inequívocamente que "ferimentos graves associados a quedas em pessoas idosas podem ser causados por animais de estimação, mais frequentemente cães e gatos".
     Como estão prestes a ser atribuídos os Prémios IgNobel, é caso para estar atento a esta descoberta australiana.

Idade (anos)SexoFracturaAnimalCircunstâncias
78 F Fémur CabraQueda quando tentava alimentar umas cabras empoleirando-se sobre uma cerca.
83 F Pélvis Gato Tropeçou no gato, caindo sobre o animal (que faleceu).
84 M Úmero Cão Enquanto passeava o cão com uma trela extensível, o cão deu várias voltas, enrolando-se as pernas e provocando a queda.
81 F Pélvis Burro Queda para trás ao ser empurrada por um burro a quem dava de beber por um balde.
79 M Pulso PássaroQueda do cimo de uma cadeira enquanto tentava apanhar o pássaro que fugira para o varão de um cortinado.
78 F Costelas Cão Escorregou numa poça de urina de um cachorro Labrador, caindo sobre uma cadeira.
88 F 3ª vértebra cervical GatoQueda para trás, ao tropeçar num gato.
76 F Ossos do nariz Cão Queda enquanto tentava impedir que um cachorro saltasse para dentro de um aquário.
81 F Anca Pássaro Tropeçou em degraus enquanto transportava uma gaiola com um canário.
75 M Costelas Cão Ao passear na rua dois galgos pela trela, os cães puxaram-no e caiu contra a vedação.
80 F Úmero Gato Ao baixar-se para apanhar a malga do gato, este enrolou-se nas pernas e a senhora caiu.
83 F Pulso Gato Queda no jardim quando tentava impedir um gato de caçar um lagarto.
82 F Fémur Gato Tropeçou num gato preto num corredor escuro e caiu.
86 F Pélvis Cão Ao transportar o cesto do lixo enquanto segurava um golden retriever pela trela, ficou presa entre o cão e o cesto e caiu.
83 F ÚmeroCãoCarregando um pequeno cão na varanda, tropeçou e caiu nas escadas.
80 F Pélvis Gato Queda ao tentar fugir pelas traseiras, enquanto o gato entrava pela outra porta com uma cobra viva.

sábado, setembro 09, 2006

Downsizing


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Houve uma época em que as agências bancárias se começaram a multiplicar, ocupando e substituindo espaços de localização privilegiada, tais como grandes cafés. Nessa altura eram frequentes as lamentações pelo facto de espaços de convívio e tertúlia estarem a desaparecer, substituídos pelos balcões do dinheiro.

O certo é que a "febre" da multiplicação dos bancos e das agências bancárias acabou por arrefecer, devido à concentração empresarial e desaparecimento dos pequenos bancos, bem como aos processos de "downsizing" e desmaterialização das oprações bancárias.

No espaço retratado pela fotografia, na Rua Alexandre herculano, em Setúbal, já funcionou uma agência bancária, mas actualmente encontra-se lá uma loja de comércio diversificado, vulgo "loja de chineses". Lá dentro as mercadorias amontoam-se sem grande cuidado e algumas das montras chegam a parecer arrecadações. Os "buracos" das antigas máquinas de atendimento automático "ATM" encontram-se muito mal disfarçados (veja-se a imagem); num dos casos apenas foi colocado tijolo sem reboco.

Haverá algum significado nestas alterações? Se dantes era a substituição do convívio pelo dinheiro fácil, agora será o quê - a "terceiro-mundialização" da nossa economia? O "downsizing" das nossas expectativas? E será que ainda vamos ter saudades do tempo em que os cafés eram substituídos por agências bancárias?

quinta-feira, setembro 07, 2006

Dopagem

«A notícia do momento no ciclismo é que Floyd Landis pode vir a perder o título do Tour de France porque testou positivamente relativamente a uma substância dopante. Deixando de lado questões como a de saber se os atletas profissionais deveriam ser autorizados a tomar drogas para aumentar o seu desempenho, ou quão perigosas são essas drogas, ou ainda o que é que caracteriza uma droga para aumentar o desempenho, gostaria de falar sobre os temas económicos e de segurança que envolvem o uso de drogas dopantes no desporto profissional.

«Fazer o teste a drogas é um tema de segurança. Várias federações desportivas no mundo fazem o possível para detectar a dopagem ilegal, e os jogadores fazem o possível para iludir os testes. É uma clássica "corrida às armas": melhorias nas tecnologias de detecção conduzem a melhorias na evasão a essa detecção, o que por sua vez conduz ao aumento das capacidades de detecção. Neste momento parece que as drogas estão a ganhar; há quem descreva estes testes como "testes de inteligência" [intelligence tests]: se não os consegues iludir, então não mereces participar no jogo.

«Porém, ao contrário de muitas "corridas às armas", nesta os detectores têm a possibilidade de olhar para o passado. No ano passado, um laboratório efectuou um teste à urina de Lance Armstrong e encontrou vestígios da substância EPO. O interessante é que a amostra de urina não era de 2005: era de 1999. Na altura ainda não existiam teste fiáveis para a EPO na urina. Hoje existem, e o laboratório pegou numa amostra congelada da urina (quem é que sabia que os laboratórios guardavam as amostras de urina dos atletas?) e testou-a. Armstrong foi mais tarde ilibado - os procedimentos do laboratório foram descuidados - mas eu não creio que as possíveis ramificações do episódio tenham sido compreendidas. Os testes podem recuar no tempo.

«Isto tem duas consequências importantes. Uma é a de que os médicos que desenvolvem novas drogas de melhoria de desempenho sabem exactamente quais os testes que os laboratórios anti-dopagem vão realizar, podendo eles próprios testar previamente a capacidade dessas substâncias para iludir os testes oficiais. Mas não podem saber que tipo de testes virão a ser realizados no futuro, e os atletas não podem assumir que lá porque uma droga não é detectada hoje, o mesmo não ocorra nos anos seguintes.

«Outra consequência é a de que os atletas acusados de dopagem com base em amostras de urina já antigas não têm possibilidade de se defender. Não podem voltar a submeter-se ao teste; já é tarde. Se eu fosse um atleta preocupado com estas acusações, eu depositaria a minha urina regularmente para criar algumas condições para contestar eventuais acusações.

«A "corrida às armas" na dopagem irá continuar por causa dos incentivos. É um clássico "dilema do prisioneiro". [...]»

Bruce Schneier
"Drugs: Sports' Prisoner's Dilemma"

The gap is closing

Slowly.


[ Crédito: Indexed. ]

quarta-feira, setembro 06, 2006

Os alpendres da Arrábida

Arrabida - Estrada da Figueirinha
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A dispendiosa - 15 milhões de € - empreitada de "consolidação" da encosta sul da Arrábida, sobre a estrada que liga a Figueirinha ao Portinho, foi finalmente concluída [ver notícia]. Há quem considere a obra notável, mas a visão da teia de redes e dos maciços "túneis" (mais parecidos com "alpendres") de betão é muito desagradável à vista. Talvez seja por isso que se pretende afastar os turistas daquelas águas: assim escusam de ver coisas tão feias...

O movimento de contestação à abertura daquela estrada, no início do século XX, acabaria por dar origem à primeira organização ecologista portuguesa: a Liga para a Protecção da Natureza. João Bénard da Costa, nos artigos que tem vindo a publicar sobre as suas férias na Arrábida, lamenta que a instabilidade daquela zona, agravada com os incêndios dos últimos anos, não tivesse sido aproveitado para o encerramento da estrada - uma ideia interessante.

Mas para onde iriam os veraneantes tomar banho? Uma solução possível seria a reconstituição das praias ribeirinhas de Setúbal, frente à cidade, no âmbito do Setubal-Polis. No entanto, o mais provável é que vença ali a tendência - já verificada no Parque das Nações - para se construirem ainda mais edifícios, "viabilizando" o financiamento de um pouco mais de espaço público betonizado.

[Originalmente publicado no blogue 'Setúbal'.]

quarta-feira, agosto 30, 2006

Nova Sociologia Económica

"Entre Deus e o diabo: mercados e interação humana nas ciências sociais"
Artigo de Ricardo Abramovay - "Tempo Social", revista de sociologia da Universidade de S. Paulo (Nov. 2004, vol.16, no.2, p.35-64)
«A principal característica da Nova Sociologia Económica, que ganha prestígio crescente nos Estados Unidos e na Europa, é estudar os mercados não como mecanismos abstractos de equilíbrio, mas como construções sociais. Esta orientação, longe, entretanto de opor-se aos procedimentos da ciência económica é também partilhada por alguns dos seus mais importantes expoentes. É bem verdade que a economia contemporânea faz jus à reputação tão difundida de ciência cinzenta, mecânica e incapaz de incorporar preceitos éticos nos seus pressupostos. Mas parte importante e cada vez mais significativa da disciplina volta-se justamente para o estudo de formas concretas de interacção social e coloca em dúvida as motivações puramente egoístas e maximizadoras postuladas axiomaticamente pela tradição neoclássica. Entre estas correntes destaca-se a Nova Economia Institucional, cujos temas são objecto também da Nova Sociologia Económica. Apesar das suas diferenças de abordagem, ambas contribuem para evitar que os mercados sejam encarados como soluções mágicas para todos os problemas sociais ou como formas diabolizadas de interação que a emancipação humana acabará um dia por suprimir.
[...]
«Mas os mercados podem ser estudados também sob um outro ângulo, como estruturas sociais, ou seja, "formas recorrentes e padronizadas de relações entre actores, mantidas por meio de sanções" (Swedberg, 1994). Neste caso, a sua compreensão faz apelo à  subjectividade dos agentes económicos, à  diversidade e à  história das suas formas de coordenação, às representações mentais a partir das quais relacionam-se uns com os outros, à sua capacidade de obter e inspirar confiança, de negociar, fazer cumprir contratos, estabelecer e realizar direitos. Aqui os atributos serão muito mais particularizados, obtidos por métodos fundamentalmente indutivos e apoiados, sobretudo na recomposição de narrativas históricas. A racionalidade dos actores pode ser condição necessária, mas nem de longe suficiente para a acção, pois a conduta dos indiví­duos e dos grupos só se explica socialmente: a racionalidade, para usar a expressão de Victor Nee (2003) é "limitada pelo contexto" (context-bound), ou seja, influenciada por crenças partilhadas, por normas monitoradas e aplicadas por mecanismos que emergem das relações sociais. O estudo dos mercados como estruturas sociais enrai­za nos interesses dos indiví­duos, nas relações que mantêm uns com os outros e não supõe um maximizador abstracto, isolado, por um lado e a economia, por outro, como resultado mecânico da interacção social.»

quinta-feira, agosto 24, 2006

Teoria económica


«Ao longo do passado meio século os economistas responderam ao desafio que Allais [1], Ellsberg [2] e outros levantaram ao neoclassissismo, quer estabelecendo fronteiras à teoria económica, quer optando por abordagens descritivas. Embora ambas estas estratégias se tenham revelado muito frutíferas, nenhuma forneceu uma clara abordagem programática que aspire a uma completa compreensão do processo de decisão humana, tal como fez o neoclassissismo. Existe, contudo, crescente evidência de que os economistas e os neurobiólogos estão agora a revelar os mecanismos físicos pelos quais a neuro-arquitectura realiza a tomada de decisão. Embora ainda na sua infância, estes estudos sugerem quer uma moldura unificada para compreender a tomada de decisão pelos humanos, quer quer uma metodologia para contenção do âmbito e da da estrutura da teoria económica. De facto, existe já evidência de que estes estudos colocam constrangimentos matemáticos aos modelos económicos existentes. Este artigo faz a revisão de alguns desses constrangimentos e sugere o âmbito de uma teoria neuroeconómica da decisão.»

"Physiological utility theory and the neuroeconomics of choice"
artigo de Paul W. Glimcher, Michael C. Dorris e Hannah M. Bayer
Games and Economic Behavior, Agosto de 2005

[1] Allais M., "Le comportement de l’homme rationnel devant le risque, critique des postulats et axiomes de l’ecole americaine". Econometrica. 1953;21:53–526.
[2] Ellsberg D., "Risk, ambiguity, and the savage axioms". Quart J Econ. 1961;75:643–669

quarta-feira, agosto 16, 2006

Paul Krugman

 
Paul Krugman (2002)

Audio:






























































Url dos ficheiros:
http://www-cepr.stanford.edu/news/krugman.wmv
http://www-cepr.stanford.edu/news/krugman.wma

terça-feira, agosto 15, 2006

Aranhas, formigas e cérebro




«[...] As aranhas e as formigas estão longe de ser mestres da matemática ou magos das probabilidades (e eu temo que aconteça o mesmo com muitos membros da Confraria dos humanos, mas não vou agora desenvolver esse ponto.) No entanto, elas comportam-se tal como os modelos económicos da satisfação [satisficing] tipicamente predizem. Elas fazem-no na procura de comida, de acasalamento, de segurança do lugar para descansar, e por aí fora. Resumidamente, a modelação económica mostra que criaturas muito estúpidas podem fazer coisas muito espertas, não pensando nelas coisas tal como faria um teórico da decisão, mas precisamente como resultado de milhões de anos de estratégias ao acaso que levaram algumas espécies a adquirir uma boa probabilidade de ficar por cá, pelo menos durante mais uma geração - supondo que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a existência dessa geração.

«Os neurónios do cérebro também são, cada um deles, bastante estúpidos. Mas séculos de evolução conduziram-nos a respostas probabilísticas para que, em conjunto, criem estratégias para manter todo o organismo intacto durante mais uma geração (continuando a supor que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a esse tempo). Para Glimcher, os modelos econométricos são tão precisos como qualquer coisa que se possa imaginar para mostrar que biliões de neurónios estúpidos podem agir em conjunto para aumentar a probabilidade de que o sistema - o animal - utilize avisadamente os seus recursos para garantir a sua permanência no mundo durante mais algum tempo.»

Recensão de Paul A. Wagner ao livro
"Decisions, Uncertainty, and the Brain:
The Science of Neuroeconomics
"
de Paul W. Glimcher
MIT Press, 2003.

Um dilema

"Risk Preference Instability Across Institutions: A Dilemma", de Berg, Joyce, John Dickhaut e Kevin McCabe
Proceedings of the National Academy of Sciences

Originalidades

A Sesibal é uma cooperativa de pesca que agrupa barcos de Sesimbra, Setúbal e Sines, mais especificamente traineiras que se dedicam à pesca da sardinha, carapau, e similares. O sector da pesca andas mal e tem suportado mal o acréscimo do preço dos combustíveis, apesar do mesmo ser subsidiado. Qual a solução? Bem, o responsável da Sesibal não tem falya de ideias. Pore exemplo:
«Como solução [a Sesibal] propõe um "preço mínimo estipulado por lei na ordem dos cinco por cento em cima de cada quilo de pescado". Este aumento de cinco por cento seria "diluído no intermediário e não no consumidor final". Outra solução que poderia melhorar as condições na actividade piscatória seria a "isenção do IRS, IRC e outras taxas", uma vez que a carga fiscal à pesca "é altíssima" e é descontada "directamente sobre as vendas".»
Trata-se de uma ilusão: a primeira venda do peixe é feita em leilão. Se fosse aplicado o sistema sugerido pela Sesibal, os compradores limitar-se-iam a exercer a sua licitação em valores mais baixos, de tal forma que, com a aplicação dos tais 5%, se encontrasse o preço de equilíbrio de mercado. Também não se percebe como é que esse ónus de 5% poderia ser "diluído no intermediário e não no consumidor final". Enfim: originalidades.

domingo, agosto 06, 2006

O valor de estar vivo

Robert H. Topel





























































The Economic Value of Life
[ 6m:57s - mp3 ]
Robert H. Topel [ Univ. Chicago ]


http://research.uchicago.edu/highlights/resources/media/topel_128k.mp3

Ganhos e perdas

Uma equipa de cientistas do California Institute of Technology, de Pasadena, realizou experiências com humanos em jogos simulados que mostraram que perante a avaliação de uma situação envolvendo probabilidades de ganhos e de perdas, as pessoas concentram-se primeiro, durante um curto lapso de tempo, nos ganhos, e só depois no risco de perdas. Esta descoberta foi possível devido às técnicas de imagiologia, dado que a avaliação de ganhos e de perdas se processam em diferentes zonas do cérebro.

Os resultados deverão ser publicados na edição de Agosto da revista Neuron. Notícia no MSN Health & Fitness.

segunda-feira, julho 10, 2006

Aquela máquina... publicitária

«Em termos de eficiência, a indústria da publicidade começa apenas agora a libertar-se da sua infância longa de um século, a qual pode ser designada como a "era Wanamaker". Foi John Wanamaker, um devotado comerciante Cristão de Filadélfia, quem, em 1870, não só inventou os departamentos de lojas e as etiquetas de preços (para eliminar a negociação de preços, pois todos deviam ser iguais perante Deus e o preço), mas também foi o primeiro publicitário moderno, ao comprar espaço nos jornais para promover as suas lojas. Trilhou um caminho cristão, nunca anunciando aos Domingos nem mentindo (e, desse modo, cunhando o conceito de "verdade na publicidade"). E, com a sua apurada mente negocial, expôs uma sabedoria que sempre pareceu uma lei económica: "Metade do dinheiro que gasto em publicidade é desperdiçado. O problema é que não sei qual das metades é."

«O que Wanamaker não podia ter adivinhado foi o advento da Internet. Um punhado de empresas empreendedoras, desde o Google (a mais valiosa agência mundial de publicidade disfarçada de motor de busca da web) até novatas de Silicon Valley, muitas delas apenas com meses de vida, estão a vender aos anunciantes novas ferramentas para reduzir o desperdício. Isto assume várias formas exóticas, mas há algo em comum: o desejo de substituir a antiga abordagem publicitária, na qual os anunciantes pagam pelo privilégio da "exposição" de uma audiência hipotética à sua mensagem, por uma outra na qual os anunciantes pagam apenas por acções reais e mensuráveis da parte dos consumidores, tais como clicar num web link, partilhar um video, fazer uma chamada, imprimir um impresso ou comprar alguma coisa.»

The Economist, "The ultimate marketing machine"

Não digas 'porquê', diz 'obrigado'



João César das Neves

«O ser humano actual, até no meio da prosperidade, sente uma amargura que o passado desconhecia. Para quem exige direitos, a quem impõe projectos, é difícil sentir-se grato por viver no mundo, mesmo quando chove, por ter um corpo, mesmo com dores. "A sabedoria na vida não está em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz", como diz o provérbio que o meu pai gosta de repetir. A verdadeira felicidade é daqueles que, perante os obstáculos e contrariedades, não perguntam "porquê?", mas conseguem dizer sinceramente "obrigado!". »

João César das Nevesin Diário de Notícias

Zero absoluto



Octávio Teixeira

«No que concerne ao reforço do poder tributário dos municípios, a proposta [de uma nova lei de finanças locais] é um zero absoluto. Não se regista qualquer aumento desse poder em relação aos actuais impostos municipais (que na prática o não são, pois quem define a base e as isenções é o Estado) nem se vislumbra a possibilidade de criação de novos tributos. Também no âmbito das receitas, Portugal continuará a ser um dos países mais centralistas da OCDE. Talvez para iludir esta realidade, o Governo atribui aos municípios a gestão de 3% do IRS. É uma rematada asneira, de duvidosa constitucionalidade. Basicamente, mas não só, porque o IRS é e vai continuar a ser no território continental um imposto estatal. Pelo que deve ser igual para todos os cidadãos, independentemente do local onde residam ou onde têm a sua residência oficial.»

Octávio Teixeira in Diário de Notícias

Desinvestimento

Notícia do "Público":
«Ministério da Agricultura vai reduzir
29 % dos seus dirigentes»

Faz todo o sentido. Se a agricultura está a desaparecer, e se o ministério acha que os agricultores existentes andam a desviar os financiamentos públicos para outros fins, só não se percebe é porque é que a percentagem não é substancialmente maior.

segunda-feira, junho 26, 2006

Economia das redes


"The Economics of Networks", de Nicholas Economides, da New York University

sexta-feira, junho 16, 2006

Se não os podes vencer, junta-te a eles!



«Os americanos não estão para invejas. O fosso entre ricos e pobres é maior ali do que em qualquer outro país avançado, mas a maioria das pessoas não está preocupada com isso. Enquanto os europeus sofrem por causa do modo como o bolo económico é dividido, os americanos querem é juntar-se aos ricos, e não espremê-los. Oito em cada dez americanos - mais do que em qualquer outro lado - acreditam que, embora se possa partir de uma situação de pobreza, se se trabalhar bastante, pode-se amealhar imenso dinheiro. É um ponto central do sonho americano.»

The Economist, Inequality in America

quinta-feira, junho 15, 2006

Crise iraniana e petróleo

Entrevista com Robin Below, economista-chefe da "Economist Intelligence Unit", gabinete de estudos da revista Economist , gravada em 24 de Maio de 2006.
 
Irão e aumento das tensões

Crédito: Economist. Url dos ficheiros:
Irão e aumento das tensões:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-1.asx
Cenário mais provável:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-2.asx
Preços do petróleo:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-3.asx
Efeitos no PNB e mercados:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-4.asx

Crise energética





Entrevista com Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia, acerca da crise energética [10 minutos].

Se não tiverem paciência para estes 10 minutos de inglês macarrónico, poderão saltar para os últimos segundos da entrevista, onde Birol apresenta a sua panaceia - a curto, médio e longo prazo - para a crise: «Investimento, investimento, investimento! Encontrar dinheiro, pessoas e infraestruturas para investimento que permita aumentar a capacidade produtiva, tanto nos paises produtores de petróleo como no sector de refinação.»

Giorgio Primiceri

Giorgio Primiceri, Professor da Northwestern University, estará na próxima segunda-feira (19 de Junho) em Lisboa, para uma conferência sobre a variabilidade temporal das flutuações macroeconómicas ("The Time Varying Volatility of Macroeconomic Fluctuations"). O evento é organizado pelo Banco de Portugal e tem lugar às 17 horas, no Edifício Portugal, na Rua Francisco Ribeiro nº 2.

A intervenção deste conferencista deverá acompanhar de perto o paper com o mesmo nome, escrito em co-autoria com Alejandro Justiniano, e que se encontra disponível aqui (pdf): "The Time Varying Volatility of Macroeconomic Fluctuations".

Outros trabalhos deste economista:
  • "Predictable Life-Cycle Shocks, Income Risk and Consumption Inequality"
  • "Inequality over the Business Cycle: Estimating Income Risk using Micro-Data on Consumption"
  • "Intertemporal Disturbances"
  • "Time Varying Structural Vector Autoregressions and Monetary Policy"
  • "Recursive 'thick' modeling of excess returns and portfolio allocation"
  • segunda-feira, junho 05, 2006

    O Tal Professor

    O professor Luís Santos Pinto começa a sua crónica na revista DiaD (Público) de hoje com uma pequena diversão: «Se pedirem a um economista sugestões para tornar os trabalhadores de uma empresa pouco produtivos, as respostas poderão ser: (1) pagar o mesmo salário aos melhores e aos piores (2) nunca despedir ninguém (3) nunca promover ninguém para uma função hierarquicamente superior.»

    É claro que não fomos nós quem colocou esta pergunta ao professor LSP, pelo que ele, economista encartado, não pode ser responsabilizado pelas respostas,mas sim o "tal economista" a quem nós, eventualmente, colocaríamos a questão. E claro que ele próprio também não arrisca um centímetro na resposta, porque, cautelosamente, não nos diz que aquelas seriam as respostas, mas sim que "poderiam sr"... Capisce?

    Deve, pois, o professor LSP estar convencido de que joga pelo seguro. Mas, inadvertidamente, dá logo de seguida uns arriscados saltos epistimológicos em que se candidata a estatelar no chão da sabedoria. É que o divertido intróito serve para, logo a seguir, munido ele daquela sapiência com que o "tal economista" poderia, eventualmente, ter-nos agraciado, afirmar que são precisamente aquelas normas as que são aplicadas na gestão dos funcionários públicos portugueses. E é por isso, diz ele, que o "sistema" é tão ineficiente.

    Vamospor partes. Damos de barato que, ao falar de "bons" e "maus" trabalhadores, o professor LSP se refere a trabalhadores "mais" e "menos eficientes" -um pouco de ética religiosa aplicada à produção não faz mal a ninguém. Mas logo a seguir tropeçamos no primeiro problema epistimológico: a função pública é uma empresa? Os conselhos do "tal economista" não eram para as empresas? E aplicam-se ipsis-verbis num e noutro "sistema"? E nesse caso, porquê não ter pedido ao "tal economista" sugestões para explicar a ineficiência do sistema da função púbica?

    Ocorreu-me, por outro lado, que se o "tal economista" poderia ter dado aquelas sugestões, também poderia ter dado outras: (1) mudar as chefias, os objectivos e orientações cada vez que muda o governo; (2) não criar nos trabalhadores qualificados qualquer expectativa de promoção aos lugares superiores da administração pública fora do circuito partidário (3) sugerir publicamente que para desempenharem bem as suas funções os trabalhadores da função pública terão de sentir a ameaça do desemprego. (Eu aqui, tal como o professor Cavaco Silva no debate com Soares, tive de me controlar, porque só me ocorriam coisas disparatadas, tal como "colocar os trabalhadores numa sala, durante uma manhã por mês, a ouvir professores de economia palestrar sobre o seu desempenho profissional, etc.)

    Ou seja: havendo mais factores de desmotivação (chamemos-lhe assim) do que aqueles três que o professor LSP ouviu ao "tal economista", como pode ele assentar a sua palestra apenas naqueles? Foi o "tal economista" que lhe disse? Foi ele próprio que investigou?

    Mas o pior - muito pior- decorre de uma outra afirmação do professor LSP: a de que "a questão que hoje nos devemos colocar não é porque é que os serviços públicos são de tão baixa qualidade mas sim como é que não são piores".

    Exacto, meu caro LSP! Essa é que é a questão milionária!

    Não sei se sabe que há um pressuposto, nestas coisas do pensamento, que é a racionalidade? Bem, deve saber, porque é evidente que o seu texto tem todo o ar de procurar a racionalidade: começando logo pelo recurso ao tal sábio economista. Então, caro professor, onde é que está a racionalidade dum sistema que deveria gerar mais desperdício, mas não o faz? E isto, ao ponto do caro professor LSP se espantar com a discrepância?

    Coloquemos de novo a questão: o nosso "sistema" da função pública (1) paga o mesmo salário aos melhores e aos piores (2) nunca despede ninguém (3) nunca promove ninguém para uma função hierarquicamente superior (é isto, não é?). Porque diabo, então, não é totalmente ineficiente? Só pode haver uma resposta: há outras variáveis que o "tal economista" não levou em consideração. Claro que a culpa não é sua, mas sim dele. O "tal economista" esqueceu-se, talvez (também aqui tenho de ser cuidadoso...) de que as pessoas se realizam no trabalho de várias maneiras: desempenhando bem as suas funções, procurando responder ao esforço que lhes é solicitado (seja pelas chefias directas, seja - em termos culturais - pela sociedade). Ou simplesmente movidos pela sua própria auto-estima. Ou então, e em sentido oposto, podem ter receio de ficar mal vistos pelos seus colegas, ou de prejudicar alguém que com eles depois se zangue, ou ainda que lhe levantem um processo disciplinar.

    Enfim: pode haver mais variáveis para além desse Trio Odemira com que o "tal economista" o presenteou. Havendo mais variáveis, levanta-se novo problema: qual o peso de cada variável? Teria esse "tal economista" investigado o problema? Terá algum "paperzito" publicado sobre o assunto?

    Sabe qual é o nosso mal, professor LSP? É sermos muito ingénuos. Vai a gente a acreditar num economista, e depois sai-nos na rifa um superficial qualquer. Já viu o problema: o tal economista erra no diagnóstico, e depois é o caro professor LSP que, involuntariamente, erra na prescrição.

    Por exemplo: prescreve bónus aos professores pelos diferenciais de avaliação dos respectivos alunos face a alunos do mesmo extracto-social... E como é que mede o sr. professor LSP o extracto-social dos alunos? A coisa vai por classes (estatísticas, é claro)? E os alunos são informados das classes a que pertencem? E o extracto-social dos professores não conta? (sejamos sérios: tem de contar, francamente!). E a comparação "alunos-do-professor vs. alunos-do-mesmo-extracto-social" seria feita no interior da mesma universidade? Do mesmo curso? De universidades diferentes? De Portugal? Da União Europeia?

    Há uma outra coisa que me incomoda na argumentação do sr. professor LSP: é que faculta aos doentes que avaliem os médicos para efeitos de medição do desempenho destes últimos, mas já não concede essa benesse aos alunos relativamente aos professores. A que se deve tal diferença de tratamento? Acaso as curas (positivas e negativas, ou seja, não-curas) não teriam de ter em conta, também, o extracto social dos doentes, e bem assim, dos médicos?

    Nos juízes o sr, professor LSP ainda nos confunde mais, porque, depois de ter conseguido avaliar quais os juizes mais e menos competentes (saltamos por cima do método), o sr.professor resolve castigar os mais competentes atribuindo-lhes, precisamente, os processos "mais complexos" - algo muito contraditório com o sistema "pau-e-cenoura" com que pretende disciplinar as outras profissões, incluindo a sua! Provavelmente, o sr. professor LSP, sendo altamente competente, não quererá ficar com as turmas "mais complexas", será isso?

    Zack Lynch


    No suplemento de Economia do Expresso de 3 de Junho passado, um artigo de Jorge Nascimento Rodrigues chama a atenção para as oportunidades de mercado das neuro-tecnologias aplicadas à prevenção e tratamento de doenças neurológicas. O artigo baseia-se no trabalho de Zack Lynch e da sua empresa Neuroinsights.

    Aqui no 'Pura Economia' já tinhamos referido o trabalho de Zack Lynch, em Maio do ano pasado, na entrada de Nano-bio-info-cogno-tecnologias: «A neurotecnologia nascente "está a ser acelerada pelo desenvolvimento de nanobiochips e imageologia cerebral que tornarão as análises neurológicas precisas e baratas" - exactamente o que o microprocessador fez para o tratamento de dados. Entre as aplicações previsíveis estarão "a melhoria intencional da estabilidade emotiva, das actividades cognitivas e a extensão das experiências sensoriais". Poder-se-ão prever igualmente combinações com tecnologias complementares em novos sectores como a neuro-finança

    No artigo do Expresso, Lynch destaca «dois nichos com perspectivas de mercado com taxas de crescimento 2 vezes superiores à media do sector: a implantação de dispositivos internos (denominados invasivos>, em que "cada nova geração de 3 em 3 anos tem uma diensão cada vez mais micro e acarretando menos efeitos colaterais"; e a neuroestimulação externa, baseada em dispositivos não invasivos, considerada muito promissora».

    segunda-feira, maio 08, 2006

    Artigo de João Ejarque e Pedro Portugal:

    "Labor Adjustment Costs in a Panel of Establishments"
    (Fevereiro de 2006)

    quarta-feira, maio 03, 2006

    Orelhas de burro

    Não é só no universo do futebol que "o que hoje é verdade pode ser mentira amanhã", e vice versa.

    Ainda não há muito tempo Portugal era apontado como o "bom aluno" na aplicação dos fundos comunitários e, de uma forma geral, na sua integração na economia europeia.

    Agora, segundo o jornal Público de hoje (pag. 33), reportando-se a um relatório da Comissão Europeia com um primeiro balanço do último alargamento, «Portugal é apontado aos novos membros da UE como o exemplo a não seguir no processo de aproximação aos níveis de rendimento médio da UE. À luz da experiência dos quatro antigos países "pobres" - Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda -, a Comissão considera que uma convergência bem sucedida pressupõe taxas de investimento elevadas, condições macro-económicas e laborais sólidas e uma boa gestão pública conjugada com um bom ambiente institucional. Enquanto a Irlanda preenche todos os requisitos com distinção, Portugal teve a evolução inversa, devido à "importante" perda de competitividade provocada pelo "crescimento "significativo" dos custos unitários do trabalho num contexto de mercado laboral rígido, a par dos desequilíbrios externos "que começaram a deteriorar-se de forma notável no fim dos anos 1990" e de uma política orçamental expansionista, que se tornou pro-cíclica durante a recessão de 2003."»

    E aqui está, a Nação Valente e Imortal, com orelhas de burro, virada para a parede, apontada aos novos Estados membros como aluno cábula e exemplo a não seguir.

    Sem comentários, a não ser um recadinho para o nosso bem amado líder Durão Barroso: "Também tu, grande bruto!?"

    terça-feira, maio 02, 2006

    Passa para cá o gás, companheiro...


    Evo Morales

    Referindo-se à eleição de Evo Morales, o presidente do Brasil, Lula da Silva, comentou que «Quando se ganha umas eleições e se toma posse - eu, Kirchner, Evo Morales ou qualquer um - descobrimos que a arte de governar reside em fazer o que é possível.» (entrevista ao The Economist que referimos aqui). Lula referia-se talvez ao pragmatismo que é necessário aplicar na política efectiva, diferente das promessas eleitorais. Mas talvez Morales ainda não tenha percebido a subtileza da coisa.

    Evo Morales anunciou a intenção de nacionalizar rapidamente as reservas de petróleo e gás da Bolívia, o que afecta a empresa brasileira Petrobras, a qual contribui para 20 % do PIB daquele país. Não são boas notícias para o Brasil, embora Morales, já durante a campanha eleitoral, tivesse afirmado: «Vamos recuperar as refinarias que o Estado brasileiro controla. Se vamos ganhar as eleições, o companheiro Lula tem que nos devolver as refinarias que nos correspondem.» (ver notícia).

    O responsável da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, já reagiu afirmando que «a Bolívia também tem muito a perder com eventuais decisões que afectem os negócios da empresa... Se para o Brasil o mercado de gás boliviano é importante como fornecedor do produto, para a Bolívia, o Brasil também é muito importante como um comprador do produto boliviano, como pagador de imposto na Bolívia, como gerador de emprego na Bolívia, como viabilizador da expansão de outros negócios». Gabrielli foi mais longe e quantificou as potenciais perdas da Bolívia: "Eles perderiam dois terços das exportações e no mínimo um terço da receita tributária do país." (notícia aqui).

    Para já, existe apenas uma declaração oficial de Evo Morales, a que se seguirá um processo negocial cujas conclusões poderão ser mais ou menos favoráveis às multinacionais afectadas.

    A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. Sessenta por cento dos bolívianos vivem abaixo do nível de pobreza, definido pela ONU em 2 dólares por dia. No Índice do Desenvolvimento Humano encontra-se em 113º lugar [Relatórios IDH) em inglês e Sumário em português-pdf].

    Sobre os possíveis impactos deste assunto vale a pena ler o relatório escrito por Giuseppe Bacoccoli em Maio de 2005: "Bolívia: Lições a Serem Aprendidas". (ficheiro word). Bacoccoli, geólogo que se deslocava com frequência à Bolívia, relembra um incidente de há 20 anos atrás: «Num churrasco de fim de semana, fomos acusados de atitude “imperialista”. Nós éramos os brasileiros que pretendiam levar o gás boliviano, assim como havíamos levado o actual Estado do Acre. Rebatemos a acusação dizendo que o Brasil havia comprado o Acre, pagando a quantia acordada com a Bolívia. A isto os bolivianos rebateram que o Brasil pagara à elite boliviana e que o povo acabou ficando sem o dinheiro e sem o Acre. No entender deles, isto acabaria acontecendo com o gás. Menciono estes factos, aparentemente irrelevantes, porque ainda hoje, mais de vinte anos transcorridos, continuam se alegando os mesmos problemas. Dado o elevado nível de discriminação entre uma elite dominante e um povo dominado e dada ainda a corrupção reinante entre a elite, afirma-se até hoje que o Brasil compra o gás da elite sem praticamente benefícios para o povo. Obviamente esta é uma questão interna, mas que está no cerne da actual crise do petróleo boliviano.»

    segunda-feira, maio 01, 2006

    John Kenneth Galbraith (1908-2006)


      John Kenneth Galbraith

    John Kenneth Galbraith faleceu no passado sábado. Extracto da notícia do: New York Times:

    «John Kenneth Galbraith, economista liberal(*) influente, autor de livros de sucesso e ex-consultor presidencial, faleceu no sábado, aos 97 anos.

    Professor emeritus de Harvard e conselheiro dos presidentes Bill Clinton, John F. Kennedy e Lyndon Johnson, Galbraith faleceu no Mount Auburn Hospital em Cambridge, Massachusetts, onde tinha dado entrada duas semanas antes, segundo o seu biógrafo oficial: "ele tinha uma saúde física frágil desde há vários anos, mas a sua mente manteve-se incrivelmente alerta até aos últimos meses", disse Richard Parker, economista de Harvard e biógrafo, que estava com Galbraith na altura da sua morte.

    «O economista nascido no Canadá, um dos maiores pensadores económicos do século, esteve muitas vezes contra a corrente principal do pensamento, mas impressionava pela sua firme defesa dos princípios.

    «Democrata(*) de toda a vida, Galbraith via o crescente fosso entre os mais ricos e os mais pobres como uma ameaça para a estabilidade económica e um "crime moral", disse Parker, autor do livro "John Kenneth Galbraith : His Life, His Politics, His Economics."

    «A obra mais vendida de Galbraith, "The Affluent Society", publicada em 1958, advogava grandes investimentos públicos em parques, transporte, educação e outros bens públicos para diminuir as disparidades entre ricos e pobres.

    «Um dos primeiros oponentes à Guerra do Vietename e crítico aberto da "economia do lado da oferta" que dominou os anos 80, Galbraith ensinou durante mais de meio século na Harvard University onde poucos colegas - com a excepção de Henry Kissinger - tiveram tanta influência na política americana.

    «Foi muito influenciado pelo economista inglês John Maynard Keynes, que advogava a despesa pública para reduzir o desemprego. Galbraith, que se descrevia a si próprio como um "keynesiano evangélico", defendeu a redução da semana de trabalho, o movimento de libertação das mulheres e um conselho internacional para ajudar as vítimas de catástrofes com origem humana.

    [...] Galbraith possuía a rara capacidade para reduzir a complexidade económica a um nível compreensível pelo homem da rua. Depois do índice industrial Dow Jones subir até atingir a marca dos 6.500 pontos, em Novembro de 1996, Galbraith comentou à agência Reuters: "É demasiado dinheiro à caça de muito pouca inteligência para o gerir. Não pode durar".

    Galbraith manteve-se um defensor dos ideais Democratas(*) tradicionais, mesmo quando pareciam desajustados e fora de tempo. "Condenar os menos afortunados do nosso povo à negligência e desespero que uma sociedade puramente individualista receita... não é, creio eu, uma estratégia conservadora sólida", disse no seu livro de 1986 "A View from the Stands."

    John Kenneth Galbraith nasceu em 15 de Outubro de 1908, numa quinta rural de Ontário, no Canadá. Obteve uma graduação em ciência da Universidade de Toronto em 1931 e três anos depois doutorou-se em Economia na Universidade da Califórnia.

    A sua vida em Harvard começou como tutor, em 1934, mas três anos depois mudou-se para a Universidade de Cambridge, em Inglaterra, com uma bolsa. Galbraith casou com Catherine Atwater em 1937 - no mesmo ano em que adquiriu a nacionalidade americana.

    Ensinou Economia na Universidade de Princeton em 1939 e 1940, e em 1941 entrou para o Gabinete de Controlo de Preços. Galbraith disse mais tarde que quando começou não havia controle de preços, mas em 1943 quase todos os preços estavam a ser controlados.

    Em 1949 Galbraith foi nomeado Professor de Economia em Harvard. Era amigo próximo e apoiante do Presidente Kennedy, que o nomeou embaixador na Índia entre 1961 e 1963, os únicos anos que não esteve em Harvard.»


    Algumas citações de J.K.Galbraith:

    «A Economia é extremamente útil como forma de obter emprego para economistas.»

    «Se tudo o resto falhar, a imortalidade pode ser assegurada por um erro espectacular.»

    «É muito, muito melhor, estar ancorado no disparate do que aventurar-se no alterado mar do pensamento.»

    «Não há nada mais admirável na política do que uma memória curta.»

    «Em toda a vida devemos confortar os aflitos, mas também devemos afligir os confortáveis, e especialmente quando eles estão confortavelmente, alegremente, ou mesmo felicissimamente errados.» (Guardian, Londres, 28.Julho.1989)

    «No que respeita ao humor, não existem padrões - ninguém pode dizer o que é bom ou o que é mau, embora possamos estar certos de que toda a gente o diz.»

    «Hão-de concluir que o Estado é o tipo de organização que, embora faça mal as grandes coisas, também faz mal as pequenas.»

    «As pessoas constituem o denominador comum do progresso. Portanto... nenhuma melhoria é possível com pessoas que não melhoraram, e os avanços são certos quando as pessoas são livres e educadas. Seria errado desvalorizar a importância das estradas, dos caminhos-de-ferro, das fábricas e outros equipamentos familiares do desenvolvimento económico... Mas estamos a compreender... que existe uma certa esterilidade em monumentos económicos que resistem isolados no mar da iliteracia. A conquista da literacia vem em primeiro lugar.» (The Affluent Society - 1958)

    «O conservador moderno está envolvido num dos mais antigos exercícios da filosofia moral; ou seja, a busca de uma justificação moral superior para o egoismo.»


    (*) Notas:
    liberal, na notícia traduzida acima, está no sentido americano do termo, diferentemente do liberalismo dito clássico surgido na Europa (agradeço a nota de R.C.Drumond);
    Democrata tem o significado de partidário da corrente política associada ao Partido Democrata dos EUA.

    segunda-feira, abril 24, 2006

    teste

    terça-feira, abril 18, 2006

    Venha o Diabo e escolha...

    "Entre Deus e o diabo: mercados e interação humana nas ciências sociais"
    Artigo de Ricardo Abramovay - Tempo Social, vol.16 nº2 (Nov. 2004)
    Disponível em html e pdf.
    «A principal característica da nova sociologia económica, que ganha prestígio crescente nos Estados Unidos e na Europa, é estudar os mercados não como mecanismos abstractos de equilíbrio, mas como construções sociais. Essa orientação, entretanto, longe de opor-se aos procedimentos da ciência económica, é também partilhada por alguns dos seus mais importantes expoentes. É bem verdade que a economia contemporânea faz jus à reputação tão difundida de ciência cinzenta, mecânica e incapaz de incorporar preceitos éticos nos seus pressupostos. Mas parte importante e cada vez mais significativa da disciplina volta-se justamente para o estudo de formas concretas de interacção social e questiona as motivações puramente egoístas e maximizadoras postuladas axiomaticamente pela tradição neoclássica. Entre essas correntes destaca-se a nova economia institucional, cujos temas são objecto também da nova sociologia económica. Apesar das suas diferenças de abordagem, ambas contribuem para evitar que mercados sejam encarados como soluções mágicas para todos os problemas sociais ou como formas diabolizadas de interacção que a emancipação humana acabará um dia por suprimir.»

    domingo, abril 16, 2006

    As melhores empresas

    O jornal "Público" publica hoje (Domingo) o ranking das "25 melhores empresas para trabalhar em Portugal". O estudo, realizado pela empresa Great Place to Work® Institute Portugal, será divulgado extensivamente, amanhã, na revista DiaD, que acompanha a edição daquele jornal.

    Entre os elementos considerados para elaboração do ranking contam-se:
  • a credibilidade que os superiores suscitam nos trabalhadores
  • o respeito que têm pelos seus colaboradores
  • a imparcialidade e justiça promovida no ambiente de trabalho
  • o orgulho que cada trabalhador sente pelo que faz
  • a camaradagem.

  • EmpresaSector
     1    Amgenbiofarmacêutica
     2Microsofttecnologia
     3Mapfreseguros
     4Hufautomóvel
     5Real Segurosseguros
     6Rochefarmacêutica
     7General Electricserviços
     8Libertyseguros
     9Martifermetalomecânica
     10Janssen-Cilagfarmacêutica
     11Unicerbebidas
     12Somagueconstrução e obras públicas  
     13PriceWaterhouseCoopers  serviços às empresas
     14Auto-Suecocomércio automóvel
     15Axaseguros
     16Lusitâniaseguros
     17Medtronicmedicina
     18Diagerobens de consumo
     19Unisysconsultoria de TI
     20Deloitteserviços às empresas
     21Mahleautomóvel
     22José Júlio Jordãosistemas de refrigeração
     23Compalbebidas
     24Schenkerserviços
     25
    Man
    automóvel
    Sobre o mesmo assunto a Rádio Renascensa tem um podcast de uma reportagem do jornalista António José Soares, disponível aqui e que pode ser ouvido aqui:




























































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    MP3 e direitos de autor

  • "Effects of MP3 Technology on the Music Industry: An Examination of Market Structure and Apple iTunes", tese de K. Blanchette (Abril, 2004)

  • "Assessing the Economic Impacts of Copyright Reform on Internet Service Providers", Paul Chwelos - relatório elaborado para a "Industry Canada"; propõe a alteração do "Copyright Act" no sentido de incluir limitações explícitas do ISP (Internet Service Provider) quanto a transmissão, reprodução, linking e caching

  • "The Economics of Copyright "Fair Use" in a Networked World"
    artigo de Benjamin Klein, Andres V. Lerner, Kevin M. Murphy
    publicado na American Economic Review, Vol. 92, (2002)
  • domingo, abril 09, 2006

    Torturar não compensa


    Se a Inquisição soubesse...

    O jornal Público de hoje faz referência a um estudo do enconomista Roger Koppl, segundo o qual "a tortura não é um meio eficaz de obter informações de suspeitos".

    O estudo, com o título "Epistemic Systems", foi publicado em 2005 na revista Episteme: Journal of Social Epistemology, e encontra-se disponível em linha, em ficheiro Word, aqui. Eis o resumo:
    «Sistemas epistémicos são processos sociais que geram considerações [judgments] acerca da verdade e falsidade. Apresento uma teoria matemática dos sistemas epistémicos que tem larga aplicação. Nas áreas de aplicação incluem-se a ciência pura, a tortura, a investigação policial [forensic] a espionagem, a auditoria, os testes clínicos, os processos democráticos e a economia de mercado. Eu examino a tortura e a investigação policial com algum detalhe. Este paper é um exercício de epistémica institucional comparativa, que considera o modo como as instituições de um dado sistema epistémico influenciam o seu desempenho, medindo coisas como as taxas de erro e o volume de conclusões [judgments] geradas.»

    quarta-feira, abril 05, 2006

    Direito e neurociência

    A edição de Novembro de 2004 da revista "Philosophical Transactions of the Royal Society" (Vol. 359, Nº.1451) é dedicada ao tema do Direito e do cérebro, associando os recentes desenvolvimentos da Neurociência ao Direito.
    «Avanços na biologia evolucionista, na economia experimental e na neurociência, estão a lançar uma nova luz sobre questões antigas acerca do bem e do mal, da justiça, da liberdade, da "rule of law" e da relação entre o indivíduo e o Estado. Começa a acumular-se evidência sugerindo que os humanos desenvolveram certas predisposições comportamentais fundamentais, assentes na nossa intensa natureza social, que essas predisposições se encontram codificadas no nosso cérebro como distribuição de prováveis comportamentos e que, portanto, pode haver um núcleo de direito universal humano.»
    Alguns dos temas abordados (primeiros 6 textos disponíveis em linha):
  • "Law and the Brain: Introduction" - Semir Zeki e Oliver Goodenough
  • "For the law, neuroscience changes nothing and everything" - Joshua Greene e Jonathan Cohen
  • "A cognitive neuroscience framework for understanding causal reasoning and the law" - Jonathan A. Fugelsang e Kevin N. Dunbar
  • "Responsibility and punishment: whose mind? A response" - Oliver R. Goodenough
  • "The frontal cortex and the criminal justice system" - Robert M. Sapolsky
  • "The brain and the law" - Terrence Chorvat e Kevin McCabe
  • "How neuroscience might advance the law" - Erin Ann O'Hara
  • "Law and the sources of morality" - Robert A. Hinde
  • "Law, evolution and the brain: applications and open questions" - Owen D. Jones
  • "A neuroscientific approach to normative judgment in law and justice" - Oliver R. Goodenough e Kristin Prehn
  • "A cognitive neuroscience framework for understanding causal reasoning and the law" - Jonathan A. Fugelsang e Kevin N. Dunbar
  • "A cognitive neurobiological account of deception: evidence from functional neuroimaging" - Sean A. Spence, Mike D. Hunter, Tom F. D. Farrow, et al.
  • "The property 'instinct'" - Jeffrey Evans Stake
  • "The emergence of consequential thought: evidence from neuroscience" - Abigail A. Baird and Jonathan A. Fugelsang
  • Reinventando a internet



    "Redesigning the internet" - entrevista com Tom Standage
    10:01 min - 4,21 MB - The Economist
    «“A internet tem sido um ninho de inovação porque é "estúpida". Os que a conceberam não adivinharam como ela viria a ser utilizada e isso tornou-a extremamente flexível. Mas agora caminhamos para uma montanha de problemas de escala e de segurança, e algumas pessoas perguntam: se estivessemos a concebê-la desde o início, qual seria a configuração ideal?"»
    Página de Tom Standage
    http://economist.com/media/audio/redesigning_the_internet.mp3
     "Juros batem recorde e passam barreira dos 3%

    Mais uma barreira "3%" que é vencida (depois do défice orçamental).

    Quando é que chegará a vez do PIB ?

    quinta-feira, março 30, 2006

    Desempenho económico e evolução

    "Is There a Link between Economic Outcomes and Genetic Evolution? "
    José Borghans, Lex Borghans e Bas ter Weel
    «Esta investigação desenvolve uma teoria e apresenta evidência empírica de uma ligação entre desempenho económico e a evolução genética. Importantes propriedades para a análise de tal ligação encontram-se no sistema imunitário adaptativo e, particularmente, no complexo principal de compatibilidade histológica [major histocompatibility complex - MHC], um complexo geneticamente codificado associado à defesa contra infecções.

    A teoria incorpora propriedades do MHC num modelo de dependência mútua e exibe uma alternativa [trade-off] na qual qualquer agente que está melhor por possuir uma resposta imunitária diferente dos ouros, é também parte da cintura protectora dos outros numa dada população, na qual atingir respostas imunitárias semelhantes representa a situação óptima. Os dados estão baseados em grande número de amostras de sangue de 63 diferentes populações. A análise inter-regional mostra uma robusta asscociação negativa entre o desempenho económico e de saúde e a diversidade de MHC, e entre as ofertas médias em jogos de ultimato e confiança e diversidade de MHC.

    A análise sugere que as sociedades que incorporam externalidades da dependência mútua atingem maior sucesso económico, e que a incorporação de externalidades é evidente ao nível genético.»


             Gabriella e Rafael

    «Os soluços de Gabriella Bodas ecoavam no terminal 3 do Pearson International Airport à medida que ela via a sua "vida" atravessar a cancela de segurança. "Volta, volta, volta!", implorava a jovem de 18 anos, provocando lágrimas mesmo nos seguranças mais experimentados.

    Mas enquanto ela tentava aproximar-se deles, o seu namorado, Rafael Alves, de 19 anos, e a mãe, Maria Margarida de Azevedo Alves, eram levados para o voo de regresso a Portugal. Eles estavam entre a primeira vaga de famílias portuguesas que foram enviadas para o seu país de origem ontem [26 de Março]. Calcula-se que cerca de 100 outras famílias, maioritariamente trabalhando do sector da construção, deverão ser obrigadas a tomar o mesmo caminho nas próximas semanas.


       Rafael e Maria Alves

    Depois de viver no Canadá durante 7 anos e meio, trabalhando como empregada, Maria Alves vai ter de ficar em casa de amigos, em Portugal. "Não temos outro sítio para onde ir", disse Rafael Alves, salientando que só foram autorizados a transportar duas malas no avião. Depois de Rafael tomar conhecimento, há duas semanas, de que iria ser deportado, Gabriella propôs-lhe o casamento como modo de o manter no país. Mas ele recusou. "Ele quer um casamento, um verdadeiro casamento", disse ela, "Não o quer fazer apenas no papel".

    Próximo, o namorado de Maria Alves dizia que se sentia envergonhado com este governo. "Há pessoas que merecem sair", disse Steve, de 33 anos, "Mas ela não é uma dessas pessoas, são gente trabalhadora".

    Pedro Barata, que faz trabalho voluntário no Portuguese-Canadian National Congress, um grupo que tem feito lobbying junto do governo nos últimos 2 anos, diz que as políticas de imigração do Canadá são "profundamente erradas". A organização propôs que as pessoas que tenham trabalhado no país pelo menos durante 2 anos devem ser autorizadas a pemanecer com uma licença de trabalho por mais dois anos. "No fim destes 2 anos, se não existir registo criminal e estando os descontos regulares, então seria aberta a porta. Não é esse o estilo canadiano?"

    Rafael Alves, entretanto, afirma que não desistiu do Canadá e tentará "definitivamente" voltar a entrar no país.»

    'Come Back'
    Lisa Lisle, Toronto Sun


    Halifax, 13 de Maio de 1953 - chegada do primeiro grupo de emigrantes portugueses, a bordo do navio Satúrnia (50 anos Canadá)

    Histórias canadianas


    Mohamed Bhatti

    «Em 1999, Mohamed Bhatti decidiu deixar a sua terra natal no Paquistão e começar uma nova vida no Canadá. Lembra-se de lhe terem dito que o Canadá era uma terra de oportunidades onde um trabalhador esforçado como ele poderia ganhar mais dinheiro do que em Islamabad.

    «Bhatti, um cientista agrícola com um doutoramento (PhD) em biotecnologia das plantas tirado na Universidade de Bath, em Inglaterra, diz que após uma entrevista na embaixada canadiana, se candidatou a emigrante na categoria de "profissional". Bhatti, que na altura era funcionário científico principal no Pakistan Agricultural Research Council, vendeu os seus bens para conseguir dinheiro para levar a família para o Canadá.

    «Reconhece agora que, quando foi para o Canadá, não fazia a mínima ideia do que o esperava. Pensava obter um emprego equivalente ao que tinha, mas, quando tentou encontrar trabalho nesse campo, disseram-lhe que as suas qualificações e experiência não preenchiam os padrões canadianos. Na embaixada não lhe tinham alertado para esta possibilidade. Na altura ficou com a ideia de que seria apenas uma questão de tempo até conseguir emprego na sua profissão, mas isso nunca aconteceu. Aceitou um lugar como guarda de segurança em Vancouver, e hoje continua na mesma empresa como supervisor.

    «Bhatti lamenta agora a decisão de mudar para o Canadá. "Também não estou em condições de regressar", disse, "Vendi os meus bens e cortei todos os meus laços, apenas para ouvir que não sou suficientemente qualificado para ser aceite aqui como cientista agrícola."»

    "Immigrants claim that Canada conned them "
    Straight.com

    terça-feira, março 28, 2006

    TV Alentejo


    Videoclip da TV Alentejo com uma reportagem de "apanhados" sobre a formação para a qualidade do atendimento no comércio tradicional. Uma questão interessante: quando o cliente entra numa loja, quem é que deve dizer primeiro "Bom dia"? O cliente ou a balconista?

    Economia e evolução


    A suspeita de que a original evolução do cérebro humano se ficou a dever às pressões evolutivas é uma ideia antiga, mas só recentemente é que se começaram a descobrir provas genéticas desta relação (ver a entrada Cérebro e evolução no blogue Neuroeconomia).

    Tal como acontece com as investigações da Neurociência, as hipóteses de aplicação dessas descobertas ao comportamento humano nas áreas da Psicologia e da Economia, parecem ser muito promissoras. Um recente artigo sobre esta abordagem é o "Adapting Minds and Evolutionary Psychology", do professor de Economia Herbert Gintis:
    «O cérebro humano é o resultado de uma longa trajectória evolutiva. Usando este facto para compreender as peculiares capacidades e limitações do cérebro humano, a psicologia evolutiva forneceu muitas pistas para o comportamento humano. (...) uma vez que o bem estar [fitness] biológico é uma variável escalar, e uma vez que as características do cérebro são seleccionadas para maximizar o bem estar [fitness], as tomadas de decisão pelos humanos deverão, pelo menos aproximadamente, exibir transitividade nas escolhas, a qual, segundo a Teoria da Decisão, implica que os agentes podem ser modelizados como maximizando uma função de preferência sujeita a restrições. Este é o modelo do actor racional> da Economia e da Teoria da Decisão, mas uma designação mais adequada é o modelo das crenças, preferências e constrangimentos (BPC).

    «Em resumo, a psicologia evolutiva sugere que a tomada de consideração da nossa história evolutiva é extremamente poderosa para gerar hipóteses plausíveis relativas à psicologia humana, as quais podem ser testadas com as ferramentas padrão da investigação experimental. Dum modo mais geral, e parafraseando o grande geneticista russo Theodore Dobzhansky, a mente humana só faz sentido à luz da evolução.»

    Documentos relacionados:
  • "The Unification of the Behavioral Sciences" - H. Gintis, para publicação
  • "Why the Beliefs, Preferences, and Constraints Model?" - H. Gintis, Nov.2005
  • "Agent-based models and human subject experiments" - John Duffy, Março 2005
  • "The Evolution of Our Preferences: Evidence from Capuchin-Monkey Trading Behavior" - vários, Maio 2005
  • "Game theory and human evolution: A critique of some recent interpretations of experimental games" - vários, Julho 2005
  • sábado, março 25, 2006


    órbitas duma equação diferencial
    publicado por Nós-sela.

    Economia e neurobiologia

    "Decisions, Uncertainty, and the Brain: The Science of Neuroeconomics"
    de Paul W. Glimcher

    «A Economia é frequentemente descrita como a rainha das ciências sociais. Mais especificamente, é a econometria e a sua teoria subjacente que coloca a Economia muito acima das ciências sociais. Glimcher pretende transportar o rigor matemático da modelização económica, bem como a teoria subjacente, para a neurobiologia.

    «As neurociências são conhecidas por serem ricas em dados mas pobres em teoria. Glimcher esboça um caminho para desenvolver a tão longamente desejada arquitectura teórica. Evidentemente, não é ele o primeiro a propor uma tal teoria. Existem tantas já propostas que as expressões "de baixo para cima" e "de cima para baixo" se tornaram vulgares entre os pensadores das neurociências. E existem também as conhecidas recomendações de algumas abordagens ecléticas propostas por pessoas como Daniel Dennett e Paul e Patricia Churchland. (...)»

    Recensão do livro
    Human Nature Review 2003 Volume 3: 392-394

    quarta-feira, março 22, 2006

    Contratação e desemprego

    Na blogosfera, a maior parte das entradas e comentários acerca da legislação e contestação laboral em França, parece ter-se debruçado mais sobre aspectos políticos e sociológicos, do que propriamente económicos. Existe, no entanto, uma vasta literatura económica sobre a relação entre as formalidades da contratação laboral e diversas variáveis económicas, tais como o emprego e o desemprego.

    Um dos economistas que tem estudado estes assuntos na Europa é Olivier Blanchard. Por exemplo, num seu artigo de 2001, em co-autoria com Augustin Landier, "The Perverse Effects of Partial Labor Market Reform: Fixed Duration Contracts in France", [pdf] levantam-se fortes dúvidas às formas contratuais do tipo do contestado CPE:
    «Em lugar procurar reduzir os custos de despedimento, um certo número de países europeus autorizou as empresas a empregar trabalhadores com contratos de duração fixa. No fim de um dado prazo, estes contratos podem ser terminados com baixo ou nenhum custo [para as empresas]. No entanto, se os contratos forem mantidos, passam a estar sujeitos aos usuais custos do despedimento.

    «Argumentamos neste paper que os efeitos de uma tal reforma parcial do regime de protecção do emprego podem ser perversos. O principal efeito poderá ser uma alta rotatividade [high turnover ] dos empregos de duração fixa, conduzindo a um maior, e não menor, desemprego. E mesmo que o desemprego desça, os trabalhadores poderão ficar pior, tendo que passar por muitas situações de desemprego e contratos temporários, antes de obter um emprego regular. Olhando para os dados estatísticos da França relativos a jovens trabalhadores desde o início dos anos 1980, concluímos que as reformas aumentaram substancialmente a rotatividade, sem atingir uma redução substancial na duração do desemprego. O seu efeito no bem-estar dos jovens trabalhadores parece ter sido negativo.»
    Note-se, no entanto, que os autores não são fanáticos da protecção laboral: nas primeiras linhas deste paper escrevem que «Existe agora substancial evidência de que uma elevada protecção laboral conduz a um mercado laboral esclerótico, com baixas taxas de separação laboral [separation rate](*) mas longa duração do desemprego. Embora esta esclerose possa não conduzir a um desemprego elevado — devido aos efeitos opostos de baixos fluxos e elevada duração da taxa de desemprego — é provável que conduza simultaneamente a baixa produtividade, baixa produção e baixa protecção social».

    Num texto de 3 de Janeiro, "Emploi : la solution passe par le CUP (contrat unique progressif)", Olivier Blanchard defende que «é necessário regressar a um contrato único, mas a um contrato progressivo, um contrato que dê aos trabalhadores maior protecção à medida que fiquem na empresa. A palavra essencial é "progressivo". O que é necessário evitar, aquilo que aprisiona o sistema actual, é o efeito de "fronteira" [effet de seuil], que se produz no final dos contratos CDD. Num contrato progressivo, os direitos do empregado aumentam lentamente com o tempo: não existe o dia fatídico em que se tem de saltar de um contrato para o outro.»

    Noutro texto ainda mais recente "De l'ignorance économique" (20 de Março) Blanchard adianta: «Será que não há solução? Teremos de aceitar um capitalismo selvagem, um sistema onde as empresas é que fazem a lei e os trabalhadores são obrigados a submeter-se? Certamente que não. Já não estamos no século XIX e a França é um país rico. Suficientemente rico para oferecer uma formação e uma protecção social generosa aos seus trabalhadores. A questão é qual a melhor forma de o fazer, aumentando os incentivos às empresas para que criem empregos. Essas são as verdadeiras questões, aí está o verdadeiro debate. Este debate tem também lugar noutros países. A julgar pelo conteúdo do comunicado [comunicado contra o CPE do CPE, subscrito pelas comissões do Attac, do PS e do PCFdo "13e arrondissement"], ainda estamos muito longe em França.»


    Não sei se "separação" é uma tradução adequada. O conceito abrange as finalizações de contratos laborais por vários motivos (falecimento, afastamento voluntário do trabalhador, incapacidade) incluindo o que habitualmente se designa por despedimento (finalizações de contratos laborais por iniciativa do empregador).

    sexta-feira, março 17, 2006

    Movimento conservador

    Vincent Glad
    (fotografia de Vincente Glad)

    Os órgãos de comunicação chamam "revolta" aos recentes protestos dos jovens em França. Revolta? Mas qual revolta? Uma grande diferença entre o Maio de 68 e o presente é que naquela altura os jovens estavam ao ataque, enquanto que estes jogam à defesa. Naquela altura exigia-se que a sociedade mudasse, e agora exige-se que se mantenha tal e qual os pais dos meninos a conceberam. Trata-se apenas de mais um episódio do colapso do Estado-Providência. Imaginam atitude mais conservadora do que a destes jovens?

    Diz uma jovem universitária neste podcast: "é o meu futuro que ameaçam." Ouçam que é educativo.
    Podcastloic
    http://podcast.blog.lemonde.fr/podcast/files/tolbiac1.mp3
    (Crédito: Mathilde Serrell e Antoine Blin

    Thierry Breton

    Podcastloic
    Loic Le Meur entrevistou Thierry Breton, ministro francês da Economia e Finanças, sobre empreendedorismo, globalização e a França. (1:55 m)