quarta-feira, maio 03, 2006
Orelhas de burro
Ainda não há muito tempo Portugal era apontado como o "bom aluno" na aplicação dos fundos comunitários e, de uma forma geral, na sua integração na economia europeia.
Agora, segundo o jornal Público de hoje (pag. 33), reportando-se a um relatório da Comissão Europeia com um primeiro balanço do último alargamento, «Portugal é apontado aos novos membros da UE como o exemplo a não seguir no processo de aproximação aos níveis de rendimento médio da UE. À luz da experiência dos quatro antigos países "pobres" - Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda -, a Comissão considera que uma convergência bem sucedida pressupõe taxas de investimento elevadas, condições macro-económicas e laborais sólidas e uma boa gestão pública conjugada com um bom ambiente institucional. Enquanto a Irlanda preenche todos os requisitos com distinção, Portugal teve a evolução inversa, devido à "importante" perda de competitividade provocada pelo "crescimento "significativo" dos custos unitários do trabalho num contexto de mercado laboral rígido, a par dos desequilíbrios externos "que começaram a deteriorar-se de forma notável no fim dos anos 1990" e de uma política orçamental expansionista, que se tornou pro-cíclica durante a recessão de 2003."»
E aqui está, a Nação Valente e Imortal, com orelhas de burro, virada para a parede, apontada aos novos Estados membros como aluno cábula e exemplo a não seguir.
Sem comentários, a não ser um recadinho para o nosso bem amado líder Durão Barroso: "Também tu, grande bruto!?"
terça-feira, maio 02, 2006
Passa para cá o gás, companheiro...

Evo Morales
Evo Morales anunciou a intenção de nacionalizar rapidamente as reservas de petróleo e gás da Bolívia, o que afecta a empresa brasileira Petrobras, a qual contribui para 20 % do PIB daquele país. Não são boas notícias para o Brasil, embora Morales, já durante a campanha eleitoral, tivesse afirmado: «Vamos recuperar as refinarias que o Estado brasileiro controla. Se vamos ganhar as eleições, o companheiro Lula tem que nos devolver as refinarias que nos correspondem.» (ver notícia).
O responsável da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, já reagiu afirmando que «a Bolívia também tem muito a perder com eventuais decisões que afectem os negócios da empresa... Se para o Brasil o mercado de gás boliviano é importante como fornecedor do produto, para a Bolívia, o Brasil também é muito importante como um comprador do produto boliviano, como pagador de imposto na Bolívia, como gerador de emprego na Bolívia, como viabilizador da expansão de outros negócios». Gabrielli foi mais longe e quantificou as potenciais perdas da Bolívia: "Eles perderiam dois terços das exportações e no mínimo um terço da receita tributária do país." (notícia aqui).
Para já, existe apenas uma declaração oficial de Evo Morales, a que se seguirá um processo negocial cujas conclusões poderão ser mais ou menos favoráveis às multinacionais afectadas.
A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. Sessenta por cento dos bolívianos vivem abaixo do nível de pobreza, definido pela ONU em 2 dólares por dia. No Índice do Desenvolvimento Humano encontra-se em 113º lugar [Relatórios IDH) em inglês e Sumário em português-pdf].
Sobre os possíveis impactos deste assunto vale a pena ler o relatório escrito por Giuseppe Bacoccoli em Maio de 2005: "Bolívia: Lições a Serem Aprendidas". (ficheiro word). Bacoccoli, geólogo que se deslocava com frequência à Bolívia, relembra um incidente de há 20 anos atrás: «Num churrasco de fim de semana, fomos acusados de atitude “imperialista”. Nós éramos os brasileiros que pretendiam levar o gás boliviano, assim como havíamos levado o actual Estado do Acre. Rebatemos a acusação dizendo que o Brasil havia comprado o Acre, pagando a quantia acordada com a Bolívia. A isto os bolivianos rebateram que o Brasil pagara à elite boliviana e que o povo acabou ficando sem o dinheiro e sem o Acre. No entender deles, isto acabaria acontecendo com o gás. Menciono estes factos, aparentemente irrelevantes, porque ainda hoje, mais de vinte anos transcorridos, continuam se alegando os mesmos problemas. Dado o elevado nível de discriminação entre uma elite dominante e um povo dominado e dada ainda a corrupção reinante entre a elite, afirma-se até hoje que o Brasil compra o gás da elite sem praticamente benefícios para o povo. Obviamente esta é uma questão interna, mas que está no cerne da actual crise do petróleo boliviano.»
segunda-feira, maio 01, 2006
John Kenneth Galbraith (1908-2006)

John Kenneth Galbraith
«John Kenneth Galbraith, economista liberal(*) influente, autor de livros de sucesso e ex-consultor presidencial, faleceu no sábado, aos 97 anos.
Professor emeritus de Harvard e conselheiro dos presidentes Bill Clinton, John F. Kennedy e Lyndon Johnson, Galbraith faleceu no Mount Auburn Hospital em Cambridge, Massachusetts, onde tinha dado entrada duas semanas antes, segundo o seu biógrafo oficial: "ele tinha uma saúde física frágil desde há vários anos, mas a sua mente manteve-se incrivelmente alerta até aos últimos meses", disse Richard Parker, economista de Harvard e biógrafo, que estava com Galbraith na altura da sua morte.
«O economista nascido no Canadá, um dos maiores pensadores económicos do século, esteve muitas vezes contra a corrente principal do pensamento, mas impressionava pela sua firme defesa dos princípios.
«Democrata(*) de toda a vida, Galbraith via o crescente fosso entre os mais ricos e os mais pobres como uma ameaça para a estabilidade económica e um "crime moral", disse Parker, autor do livro "John Kenneth Galbraith : His Life, His Politics, His Economics."
«A obra mais vendida de Galbraith, "The Affluent Society", publicada em 1958, advogava grandes investimentos públicos em parques, transporte, educação e outros bens públicos para diminuir as disparidades entre ricos e pobres.
«Um dos primeiros oponentes à Guerra do Vietename e crítico aberto da "economia do lado da oferta" que dominou os anos 80, Galbraith ensinou durante mais de meio século na Harvard University onde poucos colegas - com a excepção de Henry Kissinger - tiveram tanta influência na política americana.
«Foi muito influenciado pelo economista inglês John Maynard Keynes, que advogava a despesa pública para reduzir o desemprego. Galbraith, que se descrevia a si próprio como um "keynesiano evangélico", defendeu a redução da semana de trabalho, o movimento de libertação das mulheres e um conselho internacional para ajudar as vítimas de catástrofes com origem humana.
[...] Galbraith possuía a rara capacidade para reduzir a complexidade económica a um nível compreensível pelo homem da rua. Depois do índice industrial Dow Jones subir até atingir a marca dos 6.500 pontos, em Novembro de 1996, Galbraith comentou à agência Reuters: "É demasiado dinheiro à caça de muito pouca inteligência para o gerir. Não pode durar".
Galbraith manteve-se um defensor dos ideais Democratas(*) tradicionais, mesmo quando pareciam desajustados e fora de tempo. "Condenar os menos afortunados do nosso povo à negligência e desespero que uma sociedade puramente individualista receita... não é, creio eu, uma estratégia conservadora sólida", disse no seu livro de 1986 "A View from the Stands."
John Kenneth Galbraith nasceu em 15 de Outubro de 1908, numa quinta rural de Ontário, no Canadá. Obteve uma graduação em ciência da Universidade de Toronto em 1931 e três anos depois doutorou-se em Economia na Universidade da Califórnia.
A sua vida em Harvard começou como tutor, em 1934, mas três anos depois mudou-se para a Universidade de Cambridge, em Inglaterra, com uma bolsa. Galbraith casou com Catherine Atwater em 1937 - no mesmo ano em que adquiriu a nacionalidade americana.
Ensinou Economia na Universidade de Princeton em 1939 e 1940, e em 1941 entrou para o Gabinete de Controlo de Preços. Galbraith disse mais tarde que quando começou não havia controle de preços, mas em 1943 quase todos os preços estavam a ser controlados.
Em 1949 Galbraith foi nomeado Professor de Economia em Harvard. Era amigo próximo e apoiante do Presidente Kennedy, que o nomeou embaixador na Índia entre 1961 e 1963, os únicos anos que não esteve em Harvard.»
Algumas citações de J.K.Galbraith:
«A Economia é extremamente útil como forma de obter emprego para economistas.»
«Se tudo o resto falhar, a imortalidade pode ser assegurada por um erro espectacular.»
«É muito, muito melhor, estar ancorado no disparate do que aventurar-se no alterado mar do pensamento.»
«Não há nada mais admirável na política do que uma memória curta.»
«Em toda a vida devemos confortar os aflitos, mas também devemos afligir os confortáveis, e especialmente quando eles estão confortavelmente, alegremente, ou mesmo felicissimamente errados.» (Guardian, Londres, 28.Julho.1989)
«No que respeita ao humor, não existem padrões - ninguém pode dizer o que é bom ou o que é mau, embora possamos estar certos de que toda a gente o diz.»
«Hão-de concluir que o Estado é o tipo de organização que, embora faça mal as grandes coisas, também faz mal as pequenas.»
«As pessoas constituem o denominador comum do progresso. Portanto... nenhuma melhoria é possível com pessoas que não melhoraram, e os avanços são certos quando as pessoas são livres e educadas. Seria errado desvalorizar a importância das estradas, dos caminhos-de-ferro, das fábricas e outros equipamentos familiares do desenvolvimento económico... Mas estamos a compreender... que existe uma certa esterilidade em monumentos económicos que resistem isolados no mar da iliteracia. A conquista da literacia vem em primeiro lugar.» (The Affluent Society - 1958)
«O conservador moderno está envolvido num dos mais antigos exercícios da filosofia moral; ou seja, a busca de uma justificação moral superior para o egoismo.»
(*) Notas:
liberal, na notícia traduzida acima, está no sentido americano do termo, diferentemente do liberalismo dito clássico surgido na Europa (agradeço a nota de R.C.Drumond);
Democrata tem o significado de partidário da corrente política associada ao Partido Democrata dos EUA.
segunda-feira, abril 24, 2006
terça-feira, abril 18, 2006
Venha o Diabo e escolha...
"Entre Deus e o diabo: mercados e interação humana nas ciências sociais"Artigo de Ricardo Abramovay - Tempo Social, vol.16 nº2 (Nov. 2004) Disponível em html e pdf. «A principal característica da nova sociologia económica, que ganha prestígio crescente nos Estados Unidos e na Europa, é estudar os mercados não como mecanismos abstractos de equilíbrio, mas como construções sociais. Essa orientação, entretanto, longe de opor-se aos procedimentos da ciência económica, é também partilhada por alguns dos seus mais importantes expoentes. É bem verdade que a economia contemporânea faz jus à reputação tão difundida de ciência cinzenta, mecânica e incapaz de incorporar preceitos éticos nos seus pressupostos. Mas parte importante e cada vez mais significativa da disciplina volta-se justamente para o estudo de formas concretas de interacção social e questiona as motivações puramente egoístas e maximizadoras postuladas axiomaticamente pela tradição neoclássica. Entre essas correntes destaca-se a nova economia institucional, cujos temas são objecto também da nova sociologia económica. Apesar das suas diferenças de abordagem, ambas contribuem para evitar que mercados sejam encarados como soluções mágicas para todos os problemas sociais ou como formas diabolizadas de interacção que a emancipação humana acabará um dia por suprimir.» |
domingo, abril 16, 2006
As melhores empresas
| O jornal "Público" publica hoje (Domingo) o ranking das "25 melhores empresas para trabalhar em Portugal". O estudo, realizado pela empresa Great Place to Work® Institute Portugal, será divulgado extensivamente, amanhã, na revista DiaD, que acompanha a edição daquele jornal. Entre os elementos considerados para elaboração do ranking contam-se: |
| Nº | Empresa | Sector |
| 1 | Amgen | biofarmacêutica |
| 2 | Microsoft | tecnologia |
| 3 | Mapfre | seguros |
| 4 | Huf | automóvel |
| 5 | Real Seguros | seguros |
| 6 | Roche | farmacêutica |
| 7 | General Electric | serviços |
| 8 | Liberty | seguros |
| 9 | Martifer | metalomecânica |
| 10 | Janssen-Cilag | farmacêutica |
| 11 | Unicer | bebidas |
| 12 | Somague | construção e obras públicas |
| 13 | PriceWaterhouseCoopers | serviços às empresas |
| 14 | Auto-Sueco | comércio automóvel |
| 15 | Axa | seguros |
| 16 | Lusitânia | seguros |
| 17 | Medtronic | medicina |
| 18 | Diagero | bens de consumo |
| 19 | Unisys | consultoria de TI |
| 20 | Deloitte | serviços às empresas |
| 21 | Mahle | automóvel |
| 22 | José Júlio Jordão | sistemas de refrigeração |
| 23 | Compal | bebidas |
| 24 | Schenker | serviços |
| 25 | Man | automóvel |
MP3 e direitos de autor
artigo de Benjamin Klein, Andres V. Lerner, Kevin M. Murphy
publicado na American Economic Review, Vol. 92, (2002)
domingo, abril 09, 2006
Torturar não compensa
O estudo, com o título "Epistemic Systems", foi publicado em 2005 na revista Episteme: Journal of Social Epistemology, e encontra-se disponível em linha, em ficheiro Word, aqui. Eis o resumo: |
«Sistemas epistémicos são processos sociais que geram considerações [judgments] acerca da verdade e falsidade. Apresento uma teoria matemática dos sistemas epistémicos que tem larga aplicação. Nas áreas de aplicação incluem-se a ciência pura, a tortura, a investigação policial [forensic] a espionagem, a auditoria, os testes clínicos, os processos democráticos e a economia de mercado. Eu examino a tortura e a investigação policial com algum detalhe. Este paper é um exercício de epistémica institucional comparativa, que considera o modo como as instituições de um dado sistema epistémico influenciam o seu desempenho, medindo coisas como as taxas de erro e o volume de conclusões [judgments] geradas.»
quarta-feira, abril 05, 2006
Direito e neurociência
«Avanços na biologia evolucionista, na economia experimental e na neurociência, estão a lançar uma nova luz sobre questões antigas acerca do bem e do mal, da justiça, da liberdade, da "rule of law" e da relação entre o indivíduo e o Estado. Começa a acumular-se evidência sugerindo que os humanos desenvolveram certas predisposições comportamentais fundamentais, assentes na nossa intensa natureza social, que essas predisposições se encontram codificadas no nosso cérebro como distribuição de prováveis comportamentos e que, portanto, pode haver um núcleo de direito universal humano.»Alguns dos temas abordados (primeiros 6 textos disponíveis em linha): |
Reinventando a internet

"Redesigning the internet" - entrevista com Tom Standage
10:01 min - 4,21 MB - The Economist
«“A internet tem sido um ninho de inovação porque é "estúpida". Os que a conceberam não adivinharam como ela viria a ser utilizada e isso tornou-a extremamente flexível. Mas agora caminhamos para uma montanha de problemas de escala e de segurança, e algumas pessoas perguntam: se estivessemos a concebê-la desde o início, qual seria a configuração ideal?"»Página de Tom Standage
http://economist.com/media/audio/redesigning_the_internet.mp3
Mais uma barreira "3%" que é vencida (depois do défice orçamental).
Quando é que chegará a vez do PIB ?
quinta-feira, março 30, 2006
Desempenho económico e evolução
José Borghans, Lex Borghans e Bas ter Weel
«Esta investigação desenvolve uma teoria e apresenta evidência empírica de uma ligação entre desempenho económico e a evolução genética. Importantes propriedades para a análise de tal ligação encontram-se no sistema imunitário adaptativo e, particularmente, no complexo principal de compatibilidade histológica [major histocompatibility complex - MHC], um complexo geneticamente codificado associado à defesa contra infecções.
A teoria incorpora propriedades do MHC num modelo de dependência mútua e exibe uma alternativa [trade-off] na qual qualquer agente que está melhor por possuir uma resposta imunitária diferente dos ouros, é também parte da cintura protectora dos outros numa dada população, na qual atingir respostas imunitárias semelhantes representa a situação óptima. Os dados estão baseados em grande número de amostras de sangue de 63 diferentes populações. A análise inter-regional mostra uma robusta asscociação negativa entre o desempenho económico e de saúde e a diversidade de MHC, e entre as ofertas médias em jogos de ultimato e confiança e diversidade de MHC.
A análise sugere que as sociedades que incorporam externalidades da dependência mútua atingem maior sucesso económico, e que a incorporação de externalidades é evidente ao nível genético.»
«Os soluços de Gabriella Bodas ecoavam no terminal 3 do Pearson International Airport à medida que ela via a sua "vida" atravessar a cancela de segurança. "Volta, volta, volta!", implorava a jovem de 18 anos, provocando lágrimas mesmo nos seguranças mais experimentados.
Gabriella e Rafael
Mas enquanto ela tentava aproximar-se deles, o seu namorado, Rafael Alves, de 19 anos, e a mãe, Maria Margarida de Azevedo Alves, eram levados para o voo de regresso a Portugal. Eles estavam entre a primeira vaga de famílias portuguesas que foram enviadas para o seu país de origem ontem [26 de Março]. Calcula-se que cerca de 100 outras famílias, maioritariamente trabalhando do sector da construção, deverão ser obrigadas a tomar o mesmo caminho nas próximas semanas.Depois de viver no Canadá durante 7 anos e meio, trabalhando como empregada, Maria Alves vai ter de ficar em casa de amigos, em Portugal. "Não temos outro sítio para onde ir", disse Rafael Alves, salientando que só foram autorizados a transportar duas malas no avião. Depois de Rafael tomar conhecimento, há duas semanas, de que iria ser deportado, Gabriella propôs-lhe o casamento como modo de o manter no país. Mas ele recusou. "Ele quer um casamento, um verdadeiro casamento", disse ela, "Não o quer fazer apenas no papel".
Rafael e Maria Alves
Próximo, o namorado de Maria Alves dizia que se sentia envergonhado com este governo. "Há pessoas que merecem sair", disse Steve, de 33 anos, "Mas ela não é uma dessas pessoas, são gente trabalhadora".
Pedro Barata, que faz trabalho voluntário no Portuguese-Canadian National Congress, um grupo que tem feito lobbying junto do governo nos últimos 2 anos, diz que as políticas de imigração do Canadá são "profundamente erradas". A organização propôs que as pessoas que tenham trabalhado no país pelo menos durante 2 anos devem ser autorizadas a pemanecer com uma licença de trabalho por mais dois anos. "No fim destes 2 anos, se não existir registo criminal e estando os descontos regulares, então seria aberta a porta. Não é esse o estilo canadiano?"
Rafael Alves, entretanto, afirma que não desistiu do Canadá e tentará "definitivamente" voltar a entrar no país.»'Come Back'
Lisa Lisle, Toronto Sun
Halifax, 13 de Maio de 1953 - chegada do primeiro grupo de emigrantes portugueses, a bordo do navio Satúrnia (50 anos Canadá)
Histórias canadianas
«Bhatti, um cientista agrícola com um doutoramento (PhD) em biotecnologia das plantas tirado na Universidade de Bath, em Inglaterra, diz que após uma entrevista na embaixada canadiana, se candidatou a emigrante na categoria de "profissional". Bhatti, que na altura era funcionário científico principal no Pakistan Agricultural Research Council, vendeu os seus bens para conseguir dinheiro para levar a família para o Canadá. «Reconhece agora que, quando foi para o Canadá, não fazia a mínima ideia do que o esperava. Pensava obter um emprego equivalente ao que tinha, mas, quando tentou encontrar trabalho nesse campo, disseram-lhe que as suas qualificações e experiência não preenchiam os padrões canadianos. Na embaixada não lhe tinham alertado para esta possibilidade. Na altura ficou com a ideia de que seria apenas uma questão de tempo até conseguir emprego na sua profissão, mas isso nunca aconteceu. Aceitou um lugar como guarda de segurança em Vancouver, e hoje continua na mesma empresa como supervisor. «Bhatti lamenta agora a decisão de mudar para o Canadá. "Também não estou em condições de regressar", disse, "Vendi os meus bens e cortei todos os meus laços, apenas para ouvir que não sou suficientemente qualificado para ser aceite aqui como cientista agrícola."» "Immigrants claim that Canada conned them " |
terça-feira, março 28, 2006
TV Alentejo
Videoclip da TV Alentejo com uma reportagem de "apanhados" sobre a formação para a qualidade do atendimento no comércio tradicional. Uma questão interessante: quando o cliente entra numa loja, quem é que deve dizer primeiro "Bom dia"? O cliente ou a balconista?
Economia e evolução

A suspeita de que a original evolução do cérebro humano se ficou a dever às pressões evolutivas é uma ideia antiga, mas só recentemente é que se começaram a descobrir provas genéticas desta relação (ver a entrada Cérebro e evolução no blogue Neuroeconomia).
Tal como acontece com as investigações da Neurociência, as hipóteses de aplicação dessas descobertas ao comportamento humano nas áreas da Psicologia e da Economia, parecem ser muito promissoras. Um recente artigo sobre esta abordagem é o "Adapting Minds and Evolutionary Psychology", do professor de Economia Herbert Gintis:
«O cérebro humano é o resultado de uma longa trajectória evolutiva. Usando este facto para compreender as peculiares capacidades e limitações do cérebro humano, a psicologia evolutiva forneceu muitas pistas para o comportamento humano. (...) uma vez que o bem estar [fitness] biológico é uma variável escalar, e uma vez que as características do cérebro são seleccionadas para maximizar o bem estar [fitness], as tomadas de decisão pelos humanos deverão, pelo menos aproximadamente, exibir transitividade nas escolhas, a qual, segundo a Teoria da Decisão, implica que os agentes podem ser modelizados como maximizando uma função de preferência sujeita a restrições. Este é o modelo do actor racional> da Economia e da Teoria da Decisão, mas uma designação mais adequada é o modelo das crenças, preferências e constrangimentos (BPC).
«Em resumo, a psicologia evolutiva sugere que a tomada de consideração da nossa história evolutiva é extremamente poderosa para gerar hipóteses plausíveis relativas à psicologia humana, as quais podem ser testadas com as ferramentas padrão da investigação experimental. Dum modo mais geral, e parafraseando o grande geneticista russo Theodore Dobzhansky, a mente humana só faz sentido à luz da evolução.»
Documentos relacionados:
sábado, março 25, 2006
Economia e neurobiologia
«A Economia é frequentemente descrita como a rainha das ciências sociais. Mais especificamente, é a econometria e a sua teoria subjacente que coloca a Economia muito acima das ciências sociais. Glimcher pretende transportar o rigor matemático da modelização económica, bem como a teoria subjacente, para a neurobiologia. «As neurociências são conhecidas por serem ricas em dados mas pobres em teoria. Glimcher esboça um caminho para desenvolver a tão longamente desejada arquitectura teórica. Evidentemente, não é ele o primeiro a propor uma tal teoria. Existem tantas já propostas que as expressões "de baixo para cima" e "de cima para baixo" se tornaram vulgares entre os pensadores das neurociências. E existem também as conhecidas recomendações de algumas abordagens ecléticas propostas por pessoas como Daniel Dennett e Paul e Patricia Churchland. (...)» Recensão do livro |
quarta-feira, março 22, 2006
Contratação e desemprego
| Na blogosfera, a maior parte das entradas e comentários acerca da legislação e contestação laboral em França, parece ter-se debruçado mais sobre aspectos políticos e sociológicos, do que propriamente económicos. Existe, no entanto, uma vasta literatura económica sobre a relação entre as formalidades da contratação laboral e diversas variáveis económicas, tais como o emprego e o desemprego. Um dos economistas que tem estudado estes assuntos na Europa é Olivier Blanchard. Por exemplo, num seu artigo de 2001, em co-autoria com Augustin Landier, "The Perverse Effects of Partial Labor Market Reform: Fixed Duration Contracts in France", [pdf] levantam-se fortes dúvidas às formas contratuais do tipo do contestado CPE: |
«Em lugar procurar reduzir os custos de despedimento, um certo número de países europeus autorizou as empresas a empregar trabalhadores com contratos de duração fixa. No fim de um dado prazo, estes contratos podem ser terminados com baixo ou nenhum custo [para as empresas]. No entanto, se os contratos forem mantidos, passam a estar sujeitos aos usuais custos do despedimento.
«Argumentamos neste paper que os efeitos de uma tal reforma parcial do regime de protecção do emprego podem ser perversos. O principal efeito poderá ser uma alta rotatividade [high turnover ] dos empregos de duração fixa, conduzindo a um maior, e não menor, desemprego. E mesmo que o desemprego desça, os trabalhadores poderão ficar pior, tendo que passar por muitas situações de desemprego e contratos temporários, antes de obter um emprego regular. Olhando para os dados estatísticos da França relativos a jovens trabalhadores desde o início dos anos 1980, concluímos que as reformas aumentaram substancialmente a rotatividade, sem atingir uma redução substancial na duração do desemprego. O seu efeito no bem-estar dos jovens trabalhadores parece ter sido negativo.»
| Note-se, no entanto, que os autores não são fanáticos da protecção laboral: nas primeiras linhas deste paper escrevem que «Existe agora substancial evidência de que uma elevada protecção laboral conduz a um mercado laboral esclerótico, com baixas taxas de separação laboral [separation rate](*) mas longa duração do desemprego. Embora esta esclerose possa não conduzir a um desemprego elevado — devido aos efeitos opostos de baixos fluxos e elevada duração da taxa de desemprego — é provável que conduza simultaneamente a baixa produtividade, baixa produção e baixa protecção social». Num texto de 3 de Janeiro, "Emploi : la solution passe par le CUP (contrat unique progressif)", Olivier Blanchard defende que «é necessário regressar a um contrato único, mas a um contrato progressivo, um contrato que dê aos trabalhadores maior protecção à medida que fiquem na empresa. A palavra essencial é "progressivo". O que é necessário evitar, aquilo que aprisiona o sistema actual, é o efeito de "fronteira" [effet de seuil], que se produz no final dos contratos CDD. Num contrato progressivo, os direitos do empregado aumentam lentamente com o tempo: não existe o dia fatídico em que se tem de saltar de um contrato para o outro.» Não sei se "separação" é uma tradução adequada. O conceito abrange as finalizações de contratos laborais por vários motivos (falecimento, afastamento voluntário do trabalhador, incapacidade) incluindo o que habitualmente se designa por despedimento (finalizações de contratos laborais por iniciativa do empregador). |
sexta-feira, março 17, 2006
Movimento conservador

(fotografia de Vincente Glad)
Os órgãos de comunicação chamam "revolta" aos recentes protestos dos jovens em França. Revolta? Mas qual revolta? Uma grande diferença entre o Maio de 68 e o presente é que naquela altura os jovens estavam ao ataque, enquanto que estes jogam à defesa. Naquela altura exigia-se que a sociedade mudasse, e agora exige-se que se mantenha tal e qual os pais dos meninos a conceberam. Trata-se apenas de mais um episódio do colapso do Estado-Providência. Imaginam atitude mais conservadora do que a destes jovens?
Diz uma jovem universitária neste podcast: "é o meu futuro que ameaçam." Ouçam que é educativo.
http://podcast.blog.lemonde.fr/podcast/files/tolbiac1.mp3
(Crédito: Mathilde Serrell e Antoine Blin
Thierry Breton
terça-feira, março 14, 2006
Economia da religião
![]() Entrevista com Chuck Zech - mp3 - 12.Mar.06 - 27:26 min James Reese da Radio Economics, entrevista Chuck Zech acerca da “economia da religião”; temas abordados: aplicação de modelos económicos (oferta e procura de mercado) à religião, a Igreja Católica como monopólio ou oligopólio, situação económica da Igreja Católica dos EUA, resultados do “2005 Catholic Donor Attitude Survey [pdf]. Chuck Zech é docente de Economia no College of Commerce and Finance, Villanova University. Mais podcasts da Radio Economics |
textos relacionados
(ficheiros pdf, excepto quando indicado)"The Market for Martyrs", Laurence Iannaccone "Voodoo Economics? Reviewing the Rational Choice Approach to Religion", Laurence Iannaccone "Rational Ignorance Versus Rational Irrationality" [doc], Bryan Caplan "Religion and Preferences for Social Insurance", Keneth Scheve e David Stasavage "Economists Are Getting Religion" (html) artigo da Business Week "Implications of the Economics of Religion to the Empirical Economic Research", Esa Mangeloja
domingo, março 12, 2006
A cigarra e a formiga
«Na clássica fábula de Esopo, a formiga e a cigarra são utilizadas para ilustrar duas abordagens, familiares mas diferentes, da decisão humana intertemporal. A cigarra diverte-se durante um quente dia de Verão, desatenta do futuro. A formiga, em contraste, armazena comida para o próximo Inverno. Os decisores humanos parecem estar encurralados entre um impulso para agir como a facilitadora cigarra e a consciência de que a paciente formiga acaba por ganhar a longo prazo.
Uma linha de investigação em curso, tanto na Psicologia como na Economia, tem explorado esta tensão. Esta investigação é unificada pela ideia de que os consumidores comportam-se impacientemente no presente mas preferem/planeiam agir pacientemente no futuro. Por exemplo, alguém a quem seja colocada a opção entre ganhar $10 hoje e $11 amanhã, pode ser tentado a escolher a opção imediata. Contudo, se lhe pedirem hoje para escolher entre $10 daqui a um ano e $11 daqui a um ano e um dia, a mesma pessoa provavelmente escolherá a quantia ligeiramente protelada mas de montante maior.
Os economistas e os psicólogos têm teorizado acerca da causa subjacente a estas escolhas dinamicamente inconsistentes. É normalmente aceite que a racionalidade determina tratar cada momento de prototelamento de modo igual, efectuando o desconto de acordo com uma função exponencial. Acredita-se que as preferências impulsivas em contrário são indicativas de avaliações desproprocionadas dos ganhos disponíveis no futuro imediato.
Alguns autores argumentam que uma tal inconsistência dinâmica nas preferências é provocada por um único sistema de tomada de decisão que gera insconsistências intertemporais, enquanto que outros autores argumentam que a inconsistência é originada na interacção entre dois difeferentes sistemas de tomada de decisão.
Nós colocamos a hipótese de que a discrepância entre preferências de curto prazo e de longo prazo reflecte a activação diferenciada de sistemas neurais identificáveis. Especificamente, colocamos a hipótese de que a impaciência de curto prazo é accionada pelo sistema límbico, que responde preferencialmente a ganhos imediatos e é menos sensível ao valor de ganhos futuros, enquanto que a paciência de longo prazo é mediada pelo córtex pré-frontal (CPF) e estruturas associadas, que são capazes de avaliar trade-offs entre ganhos abstractos, incluindo ganhos num futuro mais distante.
Uma variedade de pistas na literatura científica sugere que este deve ser o caso. Primeiro, existe a larga discrepância entre o desconto do tempo pelos humanos e pelas outras espécies. Os humanos, rotinamente, avaliam os custos/benefícios imediatos contra os custos/benefícios que são protelados por prazos que podem ser de décadas. Em contraste, mesmo nos primatas mais avançados, que diferem dramaticamente dos humanos na dimensão do CPF, não se tem observado qualquer envolvimento no protelamento não pré-programado de gratificações que envolvam mais do que alguns minutos. Apesar de algum comportamento animal parecer pesar as comparações relativamente a períodos mais longos (por exemplo: armazenamento sazonal de comida), esse comportamento revela-se sistematicamente estereotipado e indistinto, e portanto diferente da natureza generalizada do planeamento humano.
Em segundo lugar, os estudos de casos de danos cerebrais provocados por cururgia, acidentes ou ataques, apontam consistentemente para a conclusão de que a lesão do CPF leva frequentemente a comportamentos que são mais fortemente influenciados pela disponibilidade de ganhos imediatos, bem como a falhas na capacidade para planear.
Em terceiro lugar, a função "quase-hiperbólica" de desconto de tempo, que junta (splices) duas diferentes funções de desconto - uma que distingue rudemente entre o presente e o futuro e outra que faz o desconto exponencialmente e com menor profundidade - tem provado ajustar-se a dados experimentais e forneceu luz a uma larga gama de comportamentos, tais como a poupança de reforma, empréstimos por cartão de crédito e procrastinação.
Contudo, apesar destas e de muitas outras pistas de que o desconto de tempo pode resultar de processos distintos, pouca investigação tem sido feita até ao presente para identificar directamente a fonte da tensão entre as preferências de curto e de longo prazo.»in "Separate Neural Systems Value Immediate and Delayed Monetary Rewards"
Samuel McClure et al
Science, vol. 306, 15 de Outubro de 2004
Respeito e admiração
| O suplemento de Economia do jornal Expresso de sábado passado inclui um artigo do professor José Luís Cardoso, presidente do Conselho Científico do Instituto Superior de Economia, de homenagem a António Manuel Pinto Barbosa, antigo professor daquela escola recentemente faleciso (ver entrada abaixo). É um artigo elogioso, mas omite que Pinto Barbosa foi impedido de continuar a sua actividade profissional após a Revolução de 25 de Abril de 1974, quer no Banco de Portugal, onde desempenhava as funções de Governador, quer no ISEG, onde foi objecto daquilo que se designava então por "saneamento". Podemos compreender que, dada a mudança de regime e de política económica, dificilmente Pinto Barbosa poderia continuar no mais alto cargo do banco central, embora não se conheçam quais as circunstâncias que o levaram a demitir-se por considerar "não ter condições" para continuar ali. Mas o cargo de Governador do Banco Central é por natureza temporário. Ora, o mesmo não acontece com a carreira docente, que era a de Pinto Barbosa. Era ao ISEG (então ISE) que deveria ter voltado a exercer a sua actividade. Se José Luís Cardoso - que, como presidente do Concelho Científico do ISEG não pode ignorar as ocorrências de 1974 - se limitasse a omitir o que se passou então naquela escola, isso seria grave. Mas o caso assume ainda maior gravidade quando este docente escreve que Pinto Barbosa foi então trabalhar para o estrangeiro (para o Banco de Pagamentos Internacionais, em Basileia) "mais por razões de imperativo moral do que por motivos de incompatibilidade". Até parece que o autor está a "desculpar" uma qualquer "fuga" de Pinto Barbosa!Ó caríssimo Professor José Luís Cardoso! Acha que Pinto Barbosa iria para o estrangeiro se não o tivessem impedido de leccionar na escola e na profissão que eram as suas, ainda mais tendo sido ele o criador daquela escola tal como existia na altura? Acha que isto não se trata de "incompatibilidade política"? E que raio serão essas "razões de imperativo moral"? Eu fui aluno do Instituto Superior de Economia e admiro aquela escola. Vivi lá esses anos abrasivos do antes e do pós 25 de Abril. Julgo compreender as razões históricas que levaram ao afastamento de Pinto Barbosa. Mas isso foi um colossal erro moral e político que importa admitir e explicar. O ISEG tem que fazer uma honesta avaliação desse tempo e penitenciar-se pelos erros que foram cometidos. Creio que ninguém melhor para o fazer do que a geração que presenciou ou protagonizou os acontecimentos, se por acaso tiver distanciamento suficiente para avaliar o que então ocorreu. Acho que a escola só tem a beneficiar com isso. Há claramente um imperativo moral e ético a exigir que seja assim. Mas há outra razão para fazer essa dolorosa avaliação. No contexto de combate ao regime salazarista/marcelista, os estudantes desenvolveram uma crítica violenta ao modelo do ensino universitário da altura. "Iluminados" por uma grelha de leitura soixante-huitard de dupla inspiração anarquista e marxista/maoista, decretaram a morte à escola-quartel, a escola que preparava quadros para a "exploração capitalista". Ora bem: essa era a escola que Pinto Barbosa ajudara a conceber. Não passou pela cabeça dos teóricos estudantis da altura que aquela era também uma escola keynesiana, o que, na altura e perante a ascenção da corrente monetarista e outras, era o mais à esquerda que se podia arranjar. Também se esqueceram de que professores como Pereira de Moura e Bento Murteira tinham sido os diligentes assessores de Pinto Barbosa para as reformas feitas na escola. Os estudantes - e muitos docentes - queriam era acabar com aquele tipo de ensino e tudo aconteceu como se o génio da garrafa lhes tivesse feito a vontade: na onda da Revolução, correram com os professores que entenderam, também ajudados nisto por outros docentes, e inventaram um sistema de ensino "novo", uma patetice baseada em "seminários" e com cadeiras pseudo-marxistas e avaliação contínua, com programas votados em reuniões de alunos, sistema que nem dois anos durou! Ou melhor: não durou, naquela escola, na sua formulação mais radical; mas o ensino facilitista que ainda hoje perdura em muitas escolas, nomeadamente no ensino secundário, garante a sua manutenção genética. Por isso, avaliar o contexto e motivos do saneamento de Pinto Barbosa da sua escola teria também a vantagem de podermos avaliar as consequências da extensão da revolução ao nosso sistema de ensino actual. O professor José Luís Cardoso diz que o exemplo de Pinto Barbosa "é digno do maior respeito e admiração". Eu penso que sim. Mas desejaria também poder dizer o mesmo do Instituto Superior de Economia, o que acontecerá quando essa escola admitir que errou no modo como tratou Pinto Barbosa. |
sábado, março 11, 2006
António Manuel Pinto Barbosa
| Faleceu, no passado dia 5, António Manuel Pinto Barbosa, grande economista português, reformador do ensino da Economia no nosso país. Para além da actividade docente, Pinto Barbosa ocupou cargos oficiais relacionados com a sua formação académica, como Ministro das Finanças entre 1955 e 1965, e Governador do Banco de Portugal. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974 demitiu-se do Banco central e foi saneado do ISEG (então ISE). Em 1978 começou a leccionar na Universidade Nova, que na ocorrência do seu falecimento divulgou esta nota: Aos 88 anos, faleceu o Professor Doutor António Manuel Pinto Barbosa, professor jubilado da Faculdade de Economia desta Universidade, ex-ministro das Finanças e Governador do Banco de Portugal, cargo de que se demitiu após o 25 de Abril de 1974. Após um interregno em que foi Consultor do Banco de Pagamentos Internacionais, aceitou, em 1978, o convite da Faculdade de Economia para integrar o seu corpo docente, tendo sido o primeiro Presidente do Conselho Científico.Mais informações sobre Pinto Barbosa encontram-se nestra entrada de Novembro passado no Pura Economia. Na blogosfera o falecimento foi referido por O Jornal da Rua e Aforismos e Afins |
quarta-feira, março 08, 2006
Trabalho doméstico
«Ignorar o trabalho doméstico distorce as estatísticas do crescimento e rouba auto-estima a quem fica em casa - na sua maior parte, mulheres
O trabalho doméstico constitui uma parcela importante do produto de todas as nações, no entanto não é reconhecido quando se faz a medição de bens e serviços para cálculo do produto nacional bruto. Isto subavalia a contribuição das mulheres., uma vez que elas são responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico.
As famílias e outros lares são, na realidade, pequenas fábricas que, mesmo nas nações mais avançadas, produzem muitos serviços e bens valiosos. Cuidam das crianças, preparam refeições e fornecem abrigo. Cuidam de doentes, dão apoio e outra assistência aos idosos, e desempenham muitas outras tarefas úteis.
As mulheres contribuem com cerca de 70% do total de tempo gasto nestas tarefas - mesmo em nações igualitárias como a Suécia. Elas fazer virtualmente todo o trabalho doméstico em nações mais pobres, como a Índia. Alguma feministas argumentam, com lógica, que a inclusão do trabalho doméstico no PNB aumentaria a "consciência" das mulheres, especialmente no mundo menos desenvolvido onde as mulheres são pior tratadas. Isso ajudaria a aumentar o seu poder negocial no casamento, uma vez que muitas mulheres "ganhariam" mais do que os seus maridos se a sua contribuição em trabalho doméstico tivesse um valor monetário. Porém, outras feministas não defendem o cálculo explícito da produção das domésticas, porque entraria em conflito com o seu programa de tirar as mulheres de casa, colocando-as na força de trabalho.
Mas é altura de reconhecer o trabalho doméstico como fazendo parte dos bens e serviços do PNB de uma nação. As longas horas passadas sugerem que a produção realizada em casa representa uma importante percentagem do produto total de todos os países. Afinal, quando uma família contrata alguém para tratar das crianças, limpar a casa e cozinhar, esse trabalho entra para as estatísticas do PNB. Quando é feito por um familiar, não é considerado.
Há várias maneiras de quantificar e medir a produção doméstica. Embora o PNB apenas inclua a produção de bens e serviços que são vendidos e comprados, incluem também um valor para as casas ocupadas pelos proprietários, usando o valor das rendas para casas que têm dimensão e equipamentos equivalentes. O valor do trabalho doméstico poderia ser medido pelo que custaria a sua aquisição no mercado para substituir as tarefas dos pais.
Estes métodos têm sido utilizados por Robert Eisner da Northwestern University no seu cuidadoso estudo "The Total Incomes System of Accounts". Eisnes calcula que o valor imputado de produção doméstica nos EUS excede mais de 20% do PNB de meados dos anos 40 até ao início dos anos 80 -o último ano que ele calculou. Cálculos menos precisos feitos pela ONU no seu último Relatório do Desenvolvimento Humano indicam que a produção doméstica vale mais do que 40 % da produção mundial.
A omissão do trabalho doméstico no cálculo do PNB distorce os indicadores do crescimento económico. O grande aumento da participação de mulheres casadas no mercado de trabalho, durante as últimas décadas, foi obtido à custa da redução do tempo que essas mulheres ocupavam em trabalho doméstico não remunerado. O rápido aumento do PNB durante estas décadas negligencia o importante declínio do tempo de trabalho em casa.
A substituição do trabalho doméstico por trabalho de mercado é claramente a razão para a rápida expansão dos sectores de cuidados infantis desde os finais dos anos 70. As mulheres reduziram o tempo que trabalhavam em casa para os seus filhos, contratando outras mulheres para o fazer.
A minha colega Sherwin Rosen (1) da Universidade de Chicago estudou uma situação na Suécia em que o sector dos serviços de cuidados infantis é invulgarmente grande, em parte porque é subsidiado pelo governo. O estudo não avalia se as crianças são afectadas quando as mães trabalham. No entanto, mostra que estes subsídios causam importantes ineficiências ao induzir artificialmente muitas mulheres a entrar no mercado de trabalho. Os subsídios baixaram os preços dos serviços de cuidados infantis abaixo do seu custo real. Eu acho estas conclusões convincentes, mas elas foram muito contestadas na Suécia porque numerosos grupos pretendem "nacionalizar" a família, fazendo com que o governo fique responsável pelos cuidados infantis. Pretendem encorajar as mães a entrar no mercado de trabalho para que tenham de contratar outras mulheres para tomar conta dos seus filhos.
A inclusão do trabalho doméstico no cálculo do PNB faria aumentar a auto-estima das mulheres e homens que ficam em casa a tomar conta das crianças e a fazer outros trabalhos domésticos. Também forneceria uma imagem mais adequada do PNB e do crescimento e poderia conduzir a diferentes interpretações das políticas públicas que se reflectem na afectação de tempo entre trabalho doméstico e trabalho no mercado.»
Gary Becker, Business Week, Outubro de 1965
(1) Sherwin Rosen faleceu em 2001.
sexta-feira, março 03, 2006
Zona euro: novas projecções
| 2005 | 2006 | 2007 | |
| IHPC (preços no consumidor) | 2,2 | 1,9 - 2,5 | 1,6 - 2,8 |
| PNB real | 1,4 | 1,7 - 2,5 | 1,5 - 2,5 |
| Consumo privado | 1,4 | 1,7 - 2,5 | 1,5 - 2,5 |
| Despesa pública | 1,2 | 1,4- 2,4 | 0,8 - 1,8 |
| Formação bruta de capital fixo | 2,2 | 2,4 - 5,0 | 1,8- 5,0 |
| Exportações (Bens e Serviços) | 3,8 | 4,2 - 7,2 | 3,8 - 7,0 |
| Importações (Bens e Serviços) | 4,6 | 4,2 - 7,6 | 3,4 - 6,8 |
Lula da Silva
Entrevista do Presidente Lula à revista The Economist «Presidente Lula - (...) Há uma canção dum cantor brasileiro onde se diz que a diferença entre um homem prático e um teórico é que o teórico vê o dia como tendo 24horas, e o realista vê como estando dividido entre manhã, tarde e noite «Durante muitos anos o Brasil viveu num eterno dilema. Primeiro o país teria de crescer para poder depois distribuir a riqueza. Mas, tal como eu o vejo, temos de distribuir a riqueza juntamente com o crescimento, para que o fosso entre as pessoas não cresça mais.» |
quinta-feira, março 02, 2006
Em busca do Homo Œconomicus
Artigo de Joseph Henrich, Robert Boyd, Samuel Bowles, Colin Camerer (*), Ernst Fehr, Herbert Gintis, Richard McElreath
American Economic Review, Vol. 91, No. 2,
Outra versão do mesmo texto está disponível aqui.

«Recentes investigações revelaram grandes e consistentes desvios nas previsões feitas com base no modelo do homo œconomicus, tal como é apresentado nos manuais de referência. Um problema parece residir na assumpção canónica dos economistas de que os indivíduos actuam sempre no interesse próprio: adicionalmente aos seus payoffs, muitos sujeitos experimentais parecem importar-se com a justiça e a reciprocidade, estão dispostos a redistribuir os ganhos materiais com sacrifício próprio, e estão dispostos a compensar aqueles que agem de modo cooperativo e a punir os que o não fazem, mesmo quando estas acções os penalizam. Estes desvios daquilo que designaremos como "modelo canónico" têm importantes consequências para uma vasta gama de fenómenos económicos, incluindo a configuração óptima de instituições e contratos, a alocação de direitos de propriedade, as condições para uma acção colectiva de sucesso, a análise de contratos incompletos e a persistência de prémios de salário não competitivos [noncompetitive wage premia].(*) Colin Camerer é um dos pioneiros da Neuroeconomia.
«Continuam por responder questões fundamentais. Serão os desvios relativamente ao modelo canónico a evidência de padrões universais de comportamento, ou será que os ambientes económicos e sociais do indivíduo conformam o comportamento? Neste caso, que condições económicas e sociais estão envolvidas? Será o comportamento recíproco melhor explicado estatisticamente pelos atributos dos indivíduos, tais como a idade, sexo e riqueza relativa, ou pelos atributos do grupo a que o indivíduo pertence? Existirão culturas que se aproximem do modelo canónico de comportamento no interesse próprio?
«A investigação existente não pode responder a tais questões porque virtualmente todos os sujeitos estudados eram estudantes universitários, e embora ocorram diferenças culturais entre as populações de estudantes, estas diferenças são pequenas quando comparadas com a gama de todos os ambientes sociais e culturais. Para abordar este problema nós e os nossos colaboradores iniciámos um grande estudo trans-cultural de comportamento (...) Doze equipas de investigadores experimentados trabalharam em 12 países dos 5 continentes, recrutaram sujeitos de 15 sociedades de pequena escala com uma ampla variedade de condições económicas e culturais. A nossa amostra consiste de três sociedades forrageiras, seis que praticam uma horticultura de abate e queimada, quatro grupos nómadas de pastoreio e três sociedades sedentárias com agricultura de pequena escala.
«Podemos resumir os resultados da seguinte forma. Primeiro: o modelo canónico não é suportado em nenhuma das sociedades estudadas. Segundo: existe uma consideravelmente maior variabilidade entre grupos do que fora anteriormente observado em investigações similares, e o modelo canónico falha numa maior gama de maneiras do que fora observado em experiências anteriores. Terceiro: as diferenças ao nível do grupo, na organização económica e no grau de integração de mercado, explicam uma parte substancial da variação cultural entre as sociedades: quanto mais elevado é o grau de integração de mercado e mais elevados os payoffs da cooperação, mais elevado é o nível de cooperação nos jogos experimentais. Quarto: as variáveis económicas e demográficas individuais não explicam o comportamento no interior do grupo nem entre grupos. Quinto: o comportamento observado nas experiências é em geral consistente com os padrões económicos da vida do dia-a-dia nestas sociedades.»
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Economia feminista
A ler com cuidado: o pós-modernismo é prejudicial à saúde!
![]() | Zdravka Todorova University of Missouri - Kansas City |
![]() | Rebecca M. Blank University of Michigan |
![]() | Lisa Saunders California - Berkeley |
![]() | Myra H. Strober School of Education - Stanford Unversity |
![]() | Cordelia W. Reimers Hunter College - City University of New York |
| Paula England Stanford University |
S. Charusheela
Publicações:
Adam Smith e a Economia Comportamental
«As duas principais obras de Adam Smith - "A Riqueza das Nações" e a "Teoria dos Sentimentos Morais" - mostram-no como um brilhante economista e também um brilhante psicólogo, mas ele nunca conseguiu juntar a Economia e a Psicologia. Na "Teoria dos Sentimentos Morais" ele descreve os factores psicológicos que subjazem à tomada de decisão, motivação e interacção, por parte dos humanos, o que certamente tem fortes implicações naquilo que orienta as decisões de consumo, de poupança, na produtividade e esforço do trabalho e nas trocas mercantis. Mas, na "A Riqueza das Nações", apenas esporadicamente ele estabeleceu ligações fortes com este trabalho.» Artigos e papers de Nava Ashraf |
sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Podcast de uma entrevista com Marc Miller, co-autor do livro "Selling Is Dead (Moving Beyond Traditional Sales Roles and Practices To Revitalize Growth). Miller é também o fundador da empresa Sogistics Corporation, especializada no apoio às vendas em grande escala. Crédito: Podcast blog.
Um outro podcast de Mark Miller sobre o mesmo assunto, disponível na página da Sogistics Corporation, pode ser ouvido aqui.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Quando menos é mais
"Models of Ecological Rationality: The Recognition Heuristic" (pdf), artigo de Daniel Goldstein e Gerd Gigerenzer, publicado na Psychological Review de 2002 (Vol.109).«Uma visão da heurística é a de que existem versões imperfeitas de procedimentos estatísticos óptimos, consideradas demasiadamente complicadas para as mentes comuns. Em contraste, os autores consideram a heurística como estratégias adaptativas que evoluem em "tandem" com mecanismos psicológicos fundamentais. Daniel Goldstein extrapola a coisa para os domínios do marqueting. artigos relacionados: |
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Pobre cérebro...
![]() Olhe bem para estas duas imagens da Gioconda. Que lhe parecem? Clique nelas para as aumentar um pouco, se quizer (mas depois feche a janela que abriu). Agora veja as imagens direitas, aqui. Afinal, o que é que se passa com o seu cérebro? Será que comete os mesmos erros quando faz essas suas análises tão bem elaboradas? Ainda chegará o dia em que diremos: "eu ainda sou do tempo em que acreditava no que via..." |
Petróleo, mercado e segurança
![]() Oil market power and United States national security" (pdf) - artigo de Roger Stern publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 31 de Janeiro de 2006. «It is widely believed that an oil weapon could impose scarcity upon the United States. Impending resource exhaustion is thought to exacerbate this threat. However, threat seems implausible when we consider strategic deficits of prospective weapon users and the improbability of impending resource exhaustion. Here, we explore a hypothesis relating oil to national security under a different assumption, abundance. We suggest that an oil cartel exerts market power to keep abundance at bay, commanding monopoly rents [or wealth transfers (wt)] that underwrite security threats. We then compare security threats attributed to the oil weapon to those that may arise from market power. |











Se José Luís Cardoso - que, como presidente do Concelho Científico do ISEG não pode ignorar as ocorrências de 1974 - se limitasse a omitir o que se passou então naquela escola, isso seria grave. Mas o caso assume ainda maior gravidade quando este docente escreve que Pinto Barbosa foi então trabalhar para o estrangeiro (para o Banco de Pagamentos Internacionais, em Basileia) "mais por razões de imperativo moral do que por motivos de incompatibilidade". Até parece que o autor está a "desculpar" uma qualquer "fuga" de Pinto Barbosa!









