terça-feira, dezembro 05, 2006

Tempo financeiro

     «Para aqueles que entram no mundo da finança vindos de disciplinas mais tangíveis, deve ser agradável encontrar um conceito familiar entre todas aquelas estranhas e aparentemente arbitrárias novidades. Esse conceito surge sob a forma de uma variável representada pela letra t (ou T) e é vulgarmente conhecido como tempo.
     «Mas pode demorar algum tempo até se descobrir que este t, o tempo financeiro, não é a mesma coisa que o mais familiar t — o tempo físico onde a maioria de nós vive e que os relógios medem. Não é que esse tempo dos relógios não conte na finança; conta, mas não tanto como se possa imaginar. O tempo absoluto, tal como a data de validade de uma opção, é (a não ser que uma transacção ou a SEC decida de outra forma) usualmente absoluto. Mas a velocidade a que o tempo financeiro passa, aí é outra história.
     «O campo da Economia descobriu há muito que não é necessário que o tempo financeiro passe de modo uniforme. Na formalização da teoria do equilíbro geral de Arrow-Debreu que está subjacente a muita da moderna finança, a noção de tempo financeiro está apenas vagamente relacionada com o tempo físico. Enquanto o tempo físico parece existir para que não aconteça tudo ao mesmo tempo, o tempo financeiro é apenas necessário como janela através da qual o risco e a incerteza possam entrar na teoria económica. No mundo de Arrow-Debreu, o tempo flui enquanto quiser, desde que exista um acordo geral sobre a ocorrência de certos pontos no tempo. Por outras palavras, o tempo financeiro flui tal como uma seta [Arrow] socialmente construída.
     «Embora fosse habitualmente considerado como garantido que o tempo nos modelos financeiros e económicos era idêntico ao tempo físico, depois surgiram dúvidas. Àluz da crescente evidência empírica de que os rendimentos de activos não derivavam de distribuições noemais independentes e idênticas, como muitos modelos financeiros populares assumem, viu-se que algo estava errado e foi no tratamento do tempo que se procuraram respostas. Se o mundo financeiro obedecesse realmente às leis físicas, faria sentido ( através do teorema do limite central) que os rendimentos de activos fossem, ou distribuidos normalmente, ou derivados de um processo normal. Ao mudar a forma do tempo financeiro, de uma trajectória linear deterministíca para algo mais exótico — não necessariamente contínuo e certamente não determinístico — talvez se consigam reunir os reinos financeiro e físico.
     «Quando um mercado sofre um dos seus ocasionais episódios de volatilidade, por exemplo, pode acontecer simplesmente que o relógio tenha começado a andar mais rápido. O que os relógios medem como um simpes hora no mundo físico pode muito bem corresponder a um dia, uma semana, um mês ou até um ano de tempo financeiro.»
[...]

Ross M. Miller
"The Shape of Financial Time"

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Santo Graal

«Crescimento e riqueza são duas versões do mesmo Santo Graaal. Este Graal económico é tão difícil de alcançar como o da gesta arturiana. A sua busca mobilizou talentos de economistas, historiadores, sociólogos, antropólogos. Mas a incandescente questão colocada por David S. Landes: «Porque somos nós tão ricos e porque são eles tão pobres?» continua sem resposta convincente. As desigualdades de riqueza no planeta continuam a ser gritantes. O economista peruano Hernando De Soto sugeriu recentemente que o verdadeiro problema não é a falta de capital nos países mais pobres, mas antes a ausência de direitos de propriedade sobre esse capital, minimamente definidos e aplicáveis. Nos países pobres o capital, qualquer que ele seja, está morto e arrefece.»

Eric Briys, comentando o seu texto
"Globalisation et Marchés Financiers:
Vers un nouveau et indispensable partage des risques
"
(documento Word)

Professor rende-se à evidência

     «Deixem-me dizer uma pequena palavra em favor da sociedade actual. Eu sei que não é grande coisa. [...] Os seus críticos são muitos e todos têm muita razão em muito do que dizem. Os jovens ridicularizam e odeiam a sociedade. A esquerda despreza-a por trair os ideais da revolução, a direita detesta-a por ela abandonar os princípios da tradição. Os cristãos consideram-na pagã, os ateus condenam-na como cristã, outros dizem que é coisa nenhuma. Os ecologistas chamam-lhe suja, os intelectuais tomam- -na por estúpida e os empresários apelidam--na de paralisante. O Governo sabe como reformá-la e a oposição opõem-se a tudo menos à necessidade de reforma.
     Nada é mais desprezado na sociedade actual do que o sistema económico. Vilipendiado por ministros e eleitores, professores e domésticas, empresários e sindicatos, o sistema económico é a raiz de todos os males. Todos o querem espartilhar por leis, processar nos tribunais, enlamear nos jornais, substituir por "comércio justo", "economia solidária", "de-senvolvimento sustentado". Poderosos e humildes, militantes e transeuntes, consumidores e cidadãos, todos o vemos como alvo, réu, vítima. E todos temos razão no que dizemos.
     Mas a sociedade e o sistema actuais têm uma enorme vantagem em relação a todos os nossos anseios e desejos, ideias e princípios, sonhos e projectos, planos, políticas e propostas. Eles existem. Eles são. Todas as alternativas parecem melhores que a sociedade, mas ela é tudo o que temos. Também é graças ao sistema económico que, apesar das críticas, todos comemos, sobrevivemos, e até prosperamos. É ele que nos dá todos os meios que usamos, até para o atacar. Sem o sistema económico como ele é, não haveria sequer críticas ao sistema económico. Mesmo que um dia consigamos gostar da sociedade e do sistema - o que até hoje nunca sucedeu -, não devemos esquecer que isso só será possível graças à potencialidade do que temos. Só melhoraremos porque a sociedade actual o permite. [...]»

João César das Neves
"A simples vantagem de existir"

domingo, dezembro 03, 2006

Refutação da mão invisível

Adam Smith

Onde mete você a moral, meu caro amigo,
repetiam ao professor escocês, que sob a saia
ocultava segredos que já sabia resolver.
Teólogo e natural, como o Adão,
ele cria nos homens, pobrezinho,
e tudo viria por acréscimo, derramado dos dedos do boneco,
de um boneco no mundo.
Perto do fim da vida, pelos sessenta e sete,
ficou talvez sabendo que buscar o secreto
é que demais importa, ah, muito mais
que saber resolvê-lo. E que no mundo
não há boneco, cuco de relógio
que diga a hora onde não há hora certa.

Pedro Tamen
Poema dedicado a Mário Murteira
citado no blogue "Horas Mortas"

Dilemas


     Ariel Rubinstein [site]



"Dilemmas of an Economic Theorist" [pdf]
Ariel Rubinstein

«O que é os teóricos da Economia estão a tentar provar? Este paper discute quatro dilemas que um teórico da Economia deve enfrentar:

  • Dilema das conclusões absurdas: deveremos abandonar um modelo no caso de ele produzir conclusões absurdas, ou devemos encarar um modelo como um conjunto muito limitado de pressupostos que falhará inevitavelmente em alguns contextos?
  • Dilema das evidências: devem os modelos ser julgados de acordo com os resultados experimentais?
  • Dilema da modelação de regularidades: devem os modelos fornecer hipóteses para serem testadas ou não passam de exercícios de lógica que não servem para identificar regularidades?
  • Dilema da relevância: teremos nós o direito de fornecer conselhos ou prestar depoimentos com o objectivo de influenciar o mundo real?»






  • Les Parapluies de Cherbourg
    Olga Witte (piano), J.Nehen-Hansen (bateria), Ulrik Wigh (baixo)
    Filme de 1964, com diálogos inteiramente cantados, segundo música de Michel Legrand. Primeiro filme de grande sucesso de Catherine Deneuve, que já vinha a participar em filmes desde 1954, entre eles "Les Vacances Portugaises", de 1963 (Os Sorrisos do Destino). Referência : Horas Mortas.


    [ link ao YouTube ]

    uma outra versão do tema musical principal, mais longa:





    Relatório do Desenvolvimento Humano

    Human Development Report
    2006

  • Relatório [PDF 8 Mb.]
  • Portugal
  •         Posição no índice HDI 28º
            Esperança de vida à nascença 31º
            Taxa de iliteracia de adultos     48º
            PNB per capita (ppp) 33º

    quinta-feira, novembro 30, 2006


    [ clique para ampliar ]
    Milton Friedman segundo Blogzira

    Defesa da Economia acéfala

    "The Case for Mindless Economics" [pdf]
    Faruk Gul e Wolfgang Pesendorfer
    Novembro de 2005

         «A Neuroeconomia propõe alterações radicais nos métodos da Economia. Este ensaio discute as mudanças propostas na metodologia, juntamente com a crítica neuroeconómica da Economia padrão. A nossa definição de Neuroeconomia inclui investigações que não fazem referência específica à Neurociência e que é tradicionalmente referida como Psicologia e Economia. Identificamos a Neuroeconomia como a investigação que implícita ou explicitamente defende uma das seguintes duas propostas:

    Asserção I - A evidência psicológica e fisiológica (tais como descrições de estados hedónicos e processos cerebrais) são directamente relevantes para as teorias económicas. Em particular, elas podem ser usadas para suportar ou rejeitar modelos económicos ou até mesmo a metodologia económica.

    Asserção II - Aquilo que faz os indivíduos felizes ('utilidade verdadeira') é diferente daquilo que eles escolhem. A análise do bem-estar económico deve usar a utilidade verdadeira em vez das utilidades que orientam a escolha ('utilidade escolhida').
    [...]
         «Na secção 5 deste ensaio, argumentamos que a Asserção I da crítica neuroeconómica falha a compreensão da metodologia da Economia e subestima a flexibilidade dos modelos padrão. A Economia e a Psicologia colocam questões diferentes, utilizam diferentes abstracções, e procuram um tipo diferente de evidência empírica. A evidência obtida pela Neurociência não pode refutar os modelos económicos porque estes não fazem assumpções nem tiram conclusões acerca da psicologia do cérebro. Da mesma forma, a ciência do cérebro não pode revolucionar a Economia porque não tem capacidade para abordar as preocupações da Economia. Também argumentamos que os métodos da Economia padrão são mais flexíveis do que é assumido pela crítica neuroeconómica e apresentamos exemplos de como a Economia padrão lida com as preferências inconsistentes, erros e preconceitos.
         «Os neuroeconomistas vão buscar questões e abstracções à Psicologia e reinterpretam os modelos económicos como se o seu fim fosse responder a essas questões. O modelo económico padrão da escolha é tratado como um modelo do cérebro e é considerado inadequado. A Economia, ou é tratada como ciência amadora do cérebro e rejeitada como tal, ou a evidência cerebral é tratada como evidência económica para rejeitar os modelos económicos.
         «Kahneman afirmou que os estados subjectivos e a utilidade hedónica são "tópicos de estudo legítimos. Isto pode ser verdade, mas tais estados e utilidades não servem para calibrar e testar os modelos económicos padrão. As discussões acerca de experiências hedónicas não têm lugar na análise económica padrão porque a Economia não faz previsões acerca delas e não possui dados para testar tais previsões. Os economistas também não possuem meios para integrar medições da utilidade hedónica com dados económicos padrão. Por isso, consideraram apropriado confinar-se à análise destes últimos.
         «O programa da Neuroeconomia para mudanças na Economia ignora o facto de que os economistas, mesmo quando lidam com questões relacionadas com as que se estudam em Psicologia, têm diferentes objectivos e abordam evidência empírica diferente. Estas diferenças fundamentais são obscurecidas pela tendência dos neuroeconomistas em descrever ambas as disciplinas em termos muito amplos.»

    terça-feira, novembro 28, 2006


    Inside the Economist's Mind:
    Modern Economic Thought, as Explained by Those Who Produced It
    Paul Samuelson, William Barnett
    (editores)
    Entrevistas com: Robert Aumann, David Cass, Jacques Drèze, Martin Feldstein, Stanley Fischer, Milton Friedman, János Kornai, Wassily Leontief, Robert E. Lucas, Jr., Franco Modigliani, Paul A. Samuelson, Robert J. Shiller, Christopher A. Sims, Paul A. Volcker, Thomas J. Sargent e James Tobin.

    Referências:
  • New Economist
  • Blogue do livro
  • Índice, textos introdutórios, etc.
  • Samuelson

    «Concluo com uma vulgar hipótese acerca das direcções passada e presente da investigação em Economia. Sherlock Holmes disse: "Cherchez la femme." Quando lhe perguntaram porque é que assaltava bancos, Willie Sutton respondeu: "É onde está o dinheiro". Nos, os economistas, trabalhamos em primeiro lugar para obter a estima dos nossos pares, a qual conta para a nossa própria auto-estima. Quando o New Deal de Roosevelt, no período pós-depressão, forneceu excelentes oportunidades de emprego, logo as universidades junior, em primeiro lugar, se moveram para a esquerda. Depois, para retomar a dianteira aos seus seguidores, as universidades senior passaram-lhes à frente. À medida que o eleitorado pós-Reagan e pós-Thatcher virou à direita, o sinal de "siga o dinheiro" passou a apontar apenas numa direcção. Por assim dizer, nós comemos o nosso próprio cozinhado.

    «Nós os economistas gostamos muito de citar as linhas finais que Keynes colocou na sua "Teoria Geral" — por razões que alimentam bastante a nossa vaidade e auto-importância. Mas, para ser franco, os loucos em posições de autoridade podem auto-gerar os seus próprios frenezins sem necessitar de nenhum economista defunto ou avant-garde. A bebida que os economistas do establishment fermentam é frequentemente aquela que o Príncipe e o Público já estão dispostos a engolir. Cá a rapaziada não se mantém no clube mais selecto apenas à custa de repetir as ideias de algum zelota ou sumidade académica»

    Paul Samuelson, prefácio ao livro "Inside the Economist's Mind"
    (texto integral aqui)
    citado por William Barnet em "Is Macroeconomics a Science?"

    segunda-feira, novembro 27, 2006

    Mínimos

         «Um aumento no salário mínimo tem vários efeitos negativos na economia. Embora os salários de trabalhadores menos qualificados aumentem, vai reduzir as oportunidades de emprego dos adolescentes e de outros trabalhadores menos qualificados. Eles vão ser empurrados, ou para o desemprego ou para a economia paralela. Um salário mínimo mais elevado também aumenta o preço da"comida rápida" e outros bens produzidos com recurso a muito trabalho não qualificado. Os trabalhadores que recebem formação no local de trabalho devem aceitar salários mais baixos. Um maior nível salarial mínimo evita que os salários dos trabalhadores menos qualificados sejam muito reduzidos, e portanto desencoraja as empresas de dar muita formação a estes trabalhadores.
         «Um aumento no salário mínimo faz aumentar a procura de trabalhadores com maiores qualificações porque reduz a competição de trabalhadores menos qualificados. Esta é uma importante razão pela qual os sindicatos sempre foram grandes apoiantes dos salários mínimos — porque reduz a concorrência que éfeita aos trabalhadores sindicalizados pelos trabalhadores não sindicalizados, que recebem salários mais baixos.
    [...]
         «Uma recente petição de mais de 600 economistas, incluindo 5 laureados com o Nobel da Economia, pediu um aumento fseado do salário mínimo federal para 7,25 dólares/hora— um aumento considerável dos actuais 5,15 dólares/hora. Esta petição recebeu muita atenção e o número de economistas que a assinaram é impressivo (e depressivo). No entanto, a American Economic Association tem mais de 20 mil membros e eu suspeito que uma clara maioria destes membros teriam recusado assinar tal petição, se tal lhes fosse pedido. Eles acreditam, tal como eu, que os efeitos negativos do salário mínimo ultrapassariam quaisquer efeitos positivos. Esta é a razão pela qual apenas uma pequena fracção dos 35 economistas vivos laureados com o Nobel o subscreveu — e creio que todos foram convidados a assinar.»

    Gary Becker - The Becker-Posner Blog

    ParEcon ?

    E depois da Democracia Participativa, tinha que ser: a Economia Participativa:

         «Na Economia Participativa, em lugar da propriedade privada do capital, toda a gente é proprietária dos meios de produção. Ele é partilhado por toda a população, pelo que a propriedade é igual e não gera diferenças de rendimento, de bem-estar ou de poder. Quão bem cada pessoa está, quanto rendimento e que parcela das decisões lhe é atribuída, isso é determinado pela alocação — e o modo como a alocação é conseguida na economia participativa é muito diferente do sistema de mercado com que estamos familiarizados na nossa sociedade — e pela organização do local de trabalho.
         Para a alocação participativa, as pessoas desenvolvem um cenário ou "agenda" sobre o que deve ser feito. Todos participam nesse processo. Cada um de nós calcula o que quer fazer ou consumir, quer individualmente quer em grupo, e cada um propõe o seu ponto de vista. A mistura dessas propostas é refinada, sucessivamente, num conjunto de rondas do tipo give-and-take, até se conseguir uma agenda abrangente. Todos participam neste give-and-take na proporção em que são afectados pelas decisões em causa, e por isso o sistema é simultaneamente participativo e auto-gestionário.»

    Michael Albert, entrevista ao Z Magazine
    e ainda: debate sobre a ParEcon

    sábado, novembro 25, 2006


    Revista DiaD - 24 de Novembro de 2006
    Texto disponível no blogue Neuroeconomia

    Milton Friedman (1912-2006)


    Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969

    Entrevista de Milton Friedman ao
    New Perspectives Quarterly (Primavera de 2006>:
    NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?

    Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)

    NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?

    Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
       O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.

    ler mais -->

    quarta-feira, novembro 22, 2006

    Humidade e humildade

    Já agora conto uma história passada nos anos 80, em Bruxelas. Eu estava lá de visita a uns amigos, emigrantes portugueses, malta na casa dos trinta, e resolvemos assar sardinhas no quintal da vivenda de um dos portugas. Lá arranjámos sardinhas e tintol, demos lume ao carvão (umas bolinhas pretas calibradas) e ficámos à espera. Esperámos meia hora, e nada: o carvão ardia mas não incendiava. Mais meia hora, e nada. O tempo ia passando e nós desesperávamos, humilhados com o facto de não conseguirmos assar umas simples sardinhas.

    Explicação: a humidade do ar e aquele manto escuro de nuvens — un ciel si bas qu'il fait l'humilité. E foi com grande humilité que acabámos por almoçar, não as sardinhas, mas uma comida qualquer rápida feita pela dona-da-casa, uma bailarina profissional que se divertiu bastante à nossa conta.

    Ai, Reverendo Smith...

    A propósito de um texto do Insurgente, onde, na sequência das recentes medidas legislativas que visam a transparência do mercado bancário se escreve: "E para os patetas alegres que estão muito satisfeitos com o populismo dos governantes é muitissimo bem feito que da proxima vez que contratarem um crédito paguem bem mais do que o fariam de outra maneira.", aqui vai a resposta:
    A normalização de contratos é uma medida que contribui para um dos pilares da concorrência perfeita: a homogeneidade do produto. Eu sei que é um pouco duro exigir a um blogger que se atenha às regras da teoria, mas tanta desatenção já espanta.

    Os defensores do mercado estão normalmente preocupados com a ineficiência das intervenções estatais, mas também com os obstáculos à concorrência em mercados oligopolistas, como é o caso da banca em Portugal. A diversidade de especificações e regras é uma fonte de obstáculos à concorrência que a nossa banca explora exaustivamente, com a capacidade técnica que a sua dimensão lhe permite.

    A estratégia actual da banca contra as medidas de transparência, através do seu corifeu João Salgueiro (porque os banqueiros são gente fina, crème de la crème, não descem tão abaixo) é a da ameaça: se não pagam assim, vão pagar de outra maneira - e os coralistas da blogosfera repetem em uníssono: “ai pois é, se não pagam assim, vão pagar de outra maneira!…”

    Vejamos: há lucros de oligopólio decorrentes da pouca transparência do mercado do dinheiro a retalho e do desequilíbrio da capacidade negocial das partes. Como as recentes medidas legislativas tornam mais difícil a apropriação deste lucro oligopolista, o gigante bufa: nem outra coisa seria de esperar. Acaso não estranha o autor desta pérola bloguista o facto da banca não contrapor nada de substancial aos argumentos do governo? Acha bem a ameaça como estratégia negocial?
    E já agora, também por causa de uma Insurgência contra a medida legislativa que obriga as operadoras de televisão a divulgar os programas com alguma antecedência:
    A obrigação de divulgar a grelha de programas com alguma antecedência contribui para a transparência deste mercado oligopolista: é equivalente à obrigatoriedade de afixação dos preços em montras e nas bancas das praças, para facilitar as comparações e escolhas dos consumidores.

    Reverendo Adam Smith, perdoa-lhes que não sabem o que dizem… É que esta moda de verberar toda e qualquer iniciativa do Estado, assimilada por gente que não pensa bem no que diz (o que até se pode considerar racional, porque pensar cansa…) conduz a patetices destas.

    terça-feira, outubro 24, 2006

    segunda-feira, outubro 16, 2006

    Mistura e frescura

         No debate desta noite, na RTP1, sobre a proposta de uma nova Lei de Finanças Locais, escutaram-se algumas originalidades.
         Durante a discussão entre o ministro António Costa e alguns presidentes de Câmara sobre a "defesa do interior" (que é o grande argumento do governo em favor da proposta) a certa altura o presidente da Associação Nacional de Municípios, Fernando Ruas, referiu ironicamente as medidas que o governo tem tomado de encerramento de maternidades, de escolas, de urgências hospitalares, e que seriam reveladoras do "interesse" que o governo tem pelos municípios do interior. Nesse momento António Costa interrompeu com o à-parte: "Não misture debates! Não misture debates!". Ou seja: segundo o ministro, Fernando Ruas, num debate sobre Finanças Locais, não poderia falar de outros assuntos, os quais deveriam ficar reservados para os respectivos debates! Eis pois revelado o critério de definição da agenda política: os "debates".
         Noutro momento, em que se discutia animadamente a legitimidade política do Governo e dos autarcas, Fernando Ruas defendeu as câmaras salientando que, quando votam, os eleitores conhecem aqueles que virão a ser os autarcas eleitos, mas não conhecem os que virão a ser ministros, e além disso as eleições autárquicas teriam sido mais recentes do que as legislativas. Ou seja: segundo disse Fernando Ruas, os autarcas têm uma "legitimidade reforçada, e fresca!".
         Saldanhas Sanches, falando de cátedra sobre o tema, repisou a ideia de que as Câmaras querem é gastar o dinheiro dos impostos, mas não querem ter o odioso de os cobrar. Fernando Ruas contrapôs que sim, que o querem e o têm pedido, e até foram recentemente a Espanha estudar um caso. Resposta rápida de Saldanha Sanches: "Não era preciso viajar tanto!... Vocês viajam tanto!"