quinta-feira, novembro 30, 2006

Defesa da Economia acéfala

"The Case for Mindless Economics" [pdf]
Faruk Gul e Wolfgang Pesendorfer
Novembro de 2005

     «A Neuroeconomia propõe alterações radicais nos métodos da Economia. Este ensaio discute as mudanças propostas na metodologia, juntamente com a crítica neuroeconómica da Economia padrão. A nossa definição de Neuroeconomia inclui investigações que não fazem referência específica à Neurociência e que é tradicionalmente referida como Psicologia e Economia. Identificamos a Neuroeconomia como a investigação que implícita ou explicitamente defende uma das seguintes duas propostas:

Asserção I - A evidência psicológica e fisiológica (tais como descrições de estados hedónicos e processos cerebrais) são directamente relevantes para as teorias económicas. Em particular, elas podem ser usadas para suportar ou rejeitar modelos económicos ou até mesmo a metodologia económica.

Asserção II - Aquilo que faz os indivíduos felizes ('utilidade verdadeira') é diferente daquilo que eles escolhem. A análise do bem-estar económico deve usar a utilidade verdadeira em vez das utilidades que orientam a escolha ('utilidade escolhida').
[...]
     «Na secção 5 deste ensaio, argumentamos que a Asserção I da crítica neuroeconómica falha a compreensão da metodologia da Economia e subestima a flexibilidade dos modelos padrão. A Economia e a Psicologia colocam questões diferentes, utilizam diferentes abstracções, e procuram um tipo diferente de evidência empírica. A evidência obtida pela Neurociência não pode refutar os modelos económicos porque estes não fazem assumpções nem tiram conclusões acerca da psicologia do cérebro. Da mesma forma, a ciência do cérebro não pode revolucionar a Economia porque não tem capacidade para abordar as preocupações da Economia. Também argumentamos que os métodos da Economia padrão são mais flexíveis do que é assumido pela crítica neuroeconómica e apresentamos exemplos de como a Economia padrão lida com as preferências inconsistentes, erros e preconceitos.
     «Os neuroeconomistas vão buscar questões e abstracções à Psicologia e reinterpretam os modelos económicos como se o seu fim fosse responder a essas questões. O modelo económico padrão da escolha é tratado como um modelo do cérebro e é considerado inadequado. A Economia, ou é tratada como ciência amadora do cérebro e rejeitada como tal, ou a evidência cerebral é tratada como evidência económica para rejeitar os modelos económicos.
     «Kahneman afirmou que os estados subjectivos e a utilidade hedónica são "tópicos de estudo legítimos. Isto pode ser verdade, mas tais estados e utilidades não servem para calibrar e testar os modelos económicos padrão. As discussões acerca de experiências hedónicas não têm lugar na análise económica padrão porque a Economia não faz previsões acerca delas e não possui dados para testar tais previsões. Os economistas também não possuem meios para integrar medições da utilidade hedónica com dados económicos padrão. Por isso, consideraram apropriado confinar-se à análise destes últimos.
     «O programa da Neuroeconomia para mudanças na Economia ignora o facto de que os economistas, mesmo quando lidam com questões relacionadas com as que se estudam em Psicologia, têm diferentes objectivos e abordam evidência empírica diferente. Estas diferenças fundamentais são obscurecidas pela tendência dos neuroeconomistas em descrever ambas as disciplinas em termos muito amplos.»

terça-feira, novembro 28, 2006


Inside the Economist's Mind:
Modern Economic Thought, as Explained by Those Who Produced It
Paul Samuelson, William Barnett
(editores)
Entrevistas com: Robert Aumann, David Cass, Jacques Drèze, Martin Feldstein, Stanley Fischer, Milton Friedman, János Kornai, Wassily Leontief, Robert E. Lucas, Jr., Franco Modigliani, Paul A. Samuelson, Robert J. Shiller, Christopher A. Sims, Paul A. Volcker, Thomas J. Sargent e James Tobin.

Referências:
  • New Economist
  • Blogue do livro
  • Índice, textos introdutórios, etc.
  • Samuelson

    «Concluo com uma vulgar hipótese acerca das direcções passada e presente da investigação em Economia. Sherlock Holmes disse: "Cherchez la femme." Quando lhe perguntaram porque é que assaltava bancos, Willie Sutton respondeu: "É onde está o dinheiro". Nos, os economistas, trabalhamos em primeiro lugar para obter a estima dos nossos pares, a qual conta para a nossa própria auto-estima. Quando o New Deal de Roosevelt, no período pós-depressão, forneceu excelentes oportunidades de emprego, logo as universidades junior, em primeiro lugar, se moveram para a esquerda. Depois, para retomar a dianteira aos seus seguidores, as universidades senior passaram-lhes à frente. À medida que o eleitorado pós-Reagan e pós-Thatcher virou à direita, o sinal de "siga o dinheiro" passou a apontar apenas numa direcção. Por assim dizer, nós comemos o nosso próprio cozinhado.

    «Nós os economistas gostamos muito de citar as linhas finais que Keynes colocou na sua "Teoria Geral" — por razões que alimentam bastante a nossa vaidade e auto-importância. Mas, para ser franco, os loucos em posições de autoridade podem auto-gerar os seus próprios frenezins sem necessitar de nenhum economista defunto ou avant-garde. A bebida que os economistas do establishment fermentam é frequentemente aquela que o Príncipe e o Público já estão dispostos a engolir. Cá a rapaziada não se mantém no clube mais selecto apenas à custa de repetir as ideias de algum zelota ou sumidade académica»

    Paul Samuelson, prefácio ao livro "Inside the Economist's Mind"
    (texto integral aqui)
    citado por William Barnet em "Is Macroeconomics a Science?"

    segunda-feira, novembro 27, 2006

    Mínimos

         «Um aumento no salário mínimo tem vários efeitos negativos na economia. Embora os salários de trabalhadores menos qualificados aumentem, vai reduzir as oportunidades de emprego dos adolescentes e de outros trabalhadores menos qualificados. Eles vão ser empurrados, ou para o desemprego ou para a economia paralela. Um salário mínimo mais elevado também aumenta o preço da"comida rápida" e outros bens produzidos com recurso a muito trabalho não qualificado. Os trabalhadores que recebem formação no local de trabalho devem aceitar salários mais baixos. Um maior nível salarial mínimo evita que os salários dos trabalhadores menos qualificados sejam muito reduzidos, e portanto desencoraja as empresas de dar muita formação a estes trabalhadores.
         «Um aumento no salário mínimo faz aumentar a procura de trabalhadores com maiores qualificações porque reduz a competição de trabalhadores menos qualificados. Esta é uma importante razão pela qual os sindicatos sempre foram grandes apoiantes dos salários mínimos — porque reduz a concorrência que éfeita aos trabalhadores sindicalizados pelos trabalhadores não sindicalizados, que recebem salários mais baixos.
    [...]
         «Uma recente petição de mais de 600 economistas, incluindo 5 laureados com o Nobel da Economia, pediu um aumento fseado do salário mínimo federal para 7,25 dólares/hora— um aumento considerável dos actuais 5,15 dólares/hora. Esta petição recebeu muita atenção e o número de economistas que a assinaram é impressivo (e depressivo). No entanto, a American Economic Association tem mais de 20 mil membros e eu suspeito que uma clara maioria destes membros teriam recusado assinar tal petição, se tal lhes fosse pedido. Eles acreditam, tal como eu, que os efeitos negativos do salário mínimo ultrapassariam quaisquer efeitos positivos. Esta é a razão pela qual apenas uma pequena fracção dos 35 economistas vivos laureados com o Nobel o subscreveu — e creio que todos foram convidados a assinar.»

    Gary Becker - The Becker-Posner Blog

    ParEcon ?

    E depois da Democracia Participativa, tinha que ser: a Economia Participativa:

         «Na Economia Participativa, em lugar da propriedade privada do capital, toda a gente é proprietária dos meios de produção. Ele é partilhado por toda a população, pelo que a propriedade é igual e não gera diferenças de rendimento, de bem-estar ou de poder. Quão bem cada pessoa está, quanto rendimento e que parcela das decisões lhe é atribuída, isso é determinado pela alocação — e o modo como a alocação é conseguida na economia participativa é muito diferente do sistema de mercado com que estamos familiarizados na nossa sociedade — e pela organização do local de trabalho.
         Para a alocação participativa, as pessoas desenvolvem um cenário ou "agenda" sobre o que deve ser feito. Todos participam nesse processo. Cada um de nós calcula o que quer fazer ou consumir, quer individualmente quer em grupo, e cada um propõe o seu ponto de vista. A mistura dessas propostas é refinada, sucessivamente, num conjunto de rondas do tipo give-and-take, até se conseguir uma agenda abrangente. Todos participam neste give-and-take na proporção em que são afectados pelas decisões em causa, e por isso o sistema é simultaneamente participativo e auto-gestionário.»

    Michael Albert, entrevista ao Z Magazine
    e ainda: debate sobre a ParEcon

    sábado, novembro 25, 2006


    Revista DiaD - 24 de Novembro de 2006
    Texto disponível no blogue Neuroeconomia

    Milton Friedman (1912-2006)


    Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969

    Entrevista de Milton Friedman ao
    New Perspectives Quarterly (Primavera de 2006>:
    NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?

    Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)

    NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?

    Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
       O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.

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    quarta-feira, novembro 22, 2006

    Humidade e humildade

    Já agora conto uma história passada nos anos 80, em Bruxelas. Eu estava lá de visita a uns amigos, emigrantes portugueses, malta na casa dos trinta, e resolvemos assar sardinhas no quintal da vivenda de um dos portugas. Lá arranjámos sardinhas e tintol, demos lume ao carvão (umas bolinhas pretas calibradas) e ficámos à espera. Esperámos meia hora, e nada: o carvão ardia mas não incendiava. Mais meia hora, e nada. O tempo ia passando e nós desesperávamos, humilhados com o facto de não conseguirmos assar umas simples sardinhas.

    Explicação: a humidade do ar e aquele manto escuro de nuvens — un ciel si bas qu'il fait l'humilité. E foi com grande humilité que acabámos por almoçar, não as sardinhas, mas uma comida qualquer rápida feita pela dona-da-casa, uma bailarina profissional que se divertiu bastante à nossa conta.

    Ai, Reverendo Smith...

    A propósito de um texto do Insurgente, onde, na sequência das recentes medidas legislativas que visam a transparência do mercado bancário se escreve: "E para os patetas alegres que estão muito satisfeitos com o populismo dos governantes é muitissimo bem feito que da proxima vez que contratarem um crédito paguem bem mais do que o fariam de outra maneira.", aqui vai a resposta:
    A normalização de contratos é uma medida que contribui para um dos pilares da concorrência perfeita: a homogeneidade do produto. Eu sei que é um pouco duro exigir a um blogger que se atenha às regras da teoria, mas tanta desatenção já espanta.

    Os defensores do mercado estão normalmente preocupados com a ineficiência das intervenções estatais, mas também com os obstáculos à concorrência em mercados oligopolistas, como é o caso da banca em Portugal. A diversidade de especificações e regras é uma fonte de obstáculos à concorrência que a nossa banca explora exaustivamente, com a capacidade técnica que a sua dimensão lhe permite.

    A estratégia actual da banca contra as medidas de transparência, através do seu corifeu João Salgueiro (porque os banqueiros são gente fina, crème de la crème, não descem tão abaixo) é a da ameaça: se não pagam assim, vão pagar de outra maneira - e os coralistas da blogosfera repetem em uníssono: “ai pois é, se não pagam assim, vão pagar de outra maneira!…”

    Vejamos: há lucros de oligopólio decorrentes da pouca transparência do mercado do dinheiro a retalho e do desequilíbrio da capacidade negocial das partes. Como as recentes medidas legislativas tornam mais difícil a apropriação deste lucro oligopolista, o gigante bufa: nem outra coisa seria de esperar. Acaso não estranha o autor desta pérola bloguista o facto da banca não contrapor nada de substancial aos argumentos do governo? Acha bem a ameaça como estratégia negocial?
    E já agora, também por causa de uma Insurgência contra a medida legislativa que obriga as operadoras de televisão a divulgar os programas com alguma antecedência:
    A obrigação de divulgar a grelha de programas com alguma antecedência contribui para a transparência deste mercado oligopolista: é equivalente à obrigatoriedade de afixação dos preços em montras e nas bancas das praças, para facilitar as comparações e escolhas dos consumidores.

    Reverendo Adam Smith, perdoa-lhes que não sabem o que dizem… É que esta moda de verberar toda e qualquer iniciativa do Estado, assimilada por gente que não pensa bem no que diz (o que até se pode considerar racional, porque pensar cansa…) conduz a patetices destas.

    terça-feira, outubro 24, 2006

    segunda-feira, outubro 16, 2006

    Mistura e frescura

         No debate desta noite, na RTP1, sobre a proposta de uma nova Lei de Finanças Locais, escutaram-se algumas originalidades.
         Durante a discussão entre o ministro António Costa e alguns presidentes de Câmara sobre a "defesa do interior" (que é o grande argumento do governo em favor da proposta) a certa altura o presidente da Associação Nacional de Municípios, Fernando Ruas, referiu ironicamente as medidas que o governo tem tomado de encerramento de maternidades, de escolas, de urgências hospitalares, e que seriam reveladoras do "interesse" que o governo tem pelos municípios do interior. Nesse momento António Costa interrompeu com o à-parte: "Não misture debates! Não misture debates!". Ou seja: segundo o ministro, Fernando Ruas, num debate sobre Finanças Locais, não poderia falar de outros assuntos, os quais deveriam ficar reservados para os respectivos debates! Eis pois revelado o critério de definição da agenda política: os "debates".
         Noutro momento, em que se discutia animadamente a legitimidade política do Governo e dos autarcas, Fernando Ruas defendeu as câmaras salientando que, quando votam, os eleitores conhecem aqueles que virão a ser os autarcas eleitos, mas não conhecem os que virão a ser ministros, e além disso as eleições autárquicas teriam sido mais recentes do que as legislativas. Ou seja: segundo disse Fernando Ruas, os autarcas têm uma "legitimidade reforçada, e fresca!".
         Saldanhas Sanches, falando de cátedra sobre o tema, repisou a ideia de que as Câmaras querem é gastar o dinheiro dos impostos, mas não querem ter o odioso de os cobrar. Fernando Ruas contrapôs que sim, que o querem e o têm pedido, e até foram recentemente a Espanha estudar um caso. Resposta rápida de Saldanha Sanches: "Não era preciso viajar tanto!... Vocês viajam tanto!"

    sexta-feira, outubro 13, 2006

    Proposta de Lei de Finanças Locais

    1) Durante muito tempo, PS e PSD andaram a dizer que estavam a preparar uma nova Lei de Finanças Locais cujo principal objectivo era fazer diminuir a dependência das Câmaras relativamente à contrução de edifícios, como fonte de receitas. A nova proposta do Governo, não só "esqueceu" essa promessa, como vai provocar o efeito contrário: as Câmaras que vão perder verbas (de transferências) ficarão ainda mais dependentes de receitas da construção.

    2) Aquando da "extinção" da SISA (e sua substituição pelo IVA) o Governo acalmou as dúvidas das Câmaras, garantindo que haveria até, com essa alteração, um aumento de receitas: o que se veio de facto a verificar nalguns municípios, particularmente onde a construção de edifícios é mais intensa. Agora, um outro governo, usa o argumento de que as Câmaras que perdem receitas com a sua nova proposta são aquelas que tinham sido "beneficiadas" com a extinção da SISA. Portanto, as Câmaras que se cuidem quando um governo lhes vier prometer mais dinheiro.

    3) Diz o Governo que em 2007 as Câmaras irão receber do Governo (globalmente) o mesmo montante do ano anterior, enquanto que a esmagadora maioria dos ministérios virá a sofrer cortes de verbas. Quanto a isto, duas notas: (a) essa contenção ministerial será apenas para 2007, mas o efeito da proposta do Governo sobre as finanças municipais terá efeitos duradouros; (b) se o que determina o montante a transferir para as autarquias é uma fórmula que o indexa ao desempenho económico do país, o Governo não tem que tirar lições de moral franciscana da coisa.

    4) A quebra de receitas oriundas dos fundos comunitários para as Câmaras de AML e Algarve terá um efeito multiplicador (negativo) que ninguém se preocupa em calcular e acautelar. A soma desta quebra com a que a proposta do governo iria provocar, pode ter consequências nefastas na capacidade destas Câmaras para manter os serviços e investimento públicos.

    5) A ideia de tirar verbas das Câmaras do litoral para aumentar as receitas dos municípios do interior, e dessa forma combater o desequilíbrio territorial, é peregrina mas não vai a lugar nenhum. Os mecanismos que atraiem as populações para as cidades e para o litoral não serão contrariados com mais dinheiro colocado nos cofres das autarquias locais, ainda que o abatimentos de três pontos percentuais no IRC   IRS (susceptível de ser decidido pelas próprias Câmaras, à custa das suas próprias receitas) possa ser um estímulo importante para a atracção de investimento privado pessoas.

    terça-feira, outubro 10, 2006

    Memorização

    “Neurónios musculados, precisam-se!”…
    Texto de Salvador Massano Cardoso no blogue 4R - Quarta República

     «Tenho seguido com muita atenção o trabalho e a investigação de um notável cientista português, o professor Castro Caldas. O neurocientista revela-nos, graças às novas tecnologias, como funcionam os cérebros dos analfabetos e os que aprenderam a ler em criança. As diferenças são abismais, provando que a melhor aprendizagem deverá ocorrer em momentos certos acompanhando o desenvolvimento cerebral. Agora, e a propósito de um livro sobre o "Desastre no Ensino da Matemática: como recuperar o tempo perdido", foi noticiado que o professor Castro Caldas defende que "o treino da memorização não é uma actividade menor". Depreende-se que o treino da memória é indispensável ao desenvolvimento cognitivo e que se acompanha de um aumento dos neurónios e respectivas ligações. Assim, a velha técnica de “aprender de cor” a tabuada é muito positiva. A notícia não me surpreendeu pelo facto de acompanhar a obra do colega, mas desencadeou uma velha recordação. [...]
          «As técnicas de memorização estendiam-se a muitas outras actividades. Ainda hoje, e não obstante o tempo já passado, ainda recordo muitas coisas aprendidas com esta técnica. Espero que tenha estimulado a produção de muitos neurónios e sobretudo muitas conexões neuronais, porque com a idade muitos vão à vida, e para sobrevivermos no mundo cada vez complexo e competitivo que nos cerca bem precisamos de neurónios bem musculados, caso contrário...»

    Comentário:
         A analogia do cérebro com um musculo faz sentido, mas pode igualmente ser limitativa.
         É sabido que partes do corpo humano que não são usadas tendem a degradar-se e a estiolar, de acordo com uma lógica de economia de meios: se determinado órgão não é utilizado, será um desperdício estar a canalizar energia e outros recursos para a respectiva manutenção e funcionamento optimizado.
         Mas a "ginasticação" do cérebro — com o significado de 'uso regular para fortalecimento' — tem outras consequências que a metáfora do trabalho muscular não esclarece. Por exemplo: a aprendizagem matemática, nomeadamente de funções complexas, parece ter efeitos positivos em outras funções cerebrais, tais como a resolução de problemas do dia a dia, ou de organização profissional. Isto talvez aconteça devido à utilização dos mesmos circuitos e funções cerebrais para tarefas de natureza diversa — o que não é incompatível com a funcionamento topograficamente fraccionado, em que uma dada tarefa recorre a diferentes zonas e funções cerebrais.
         É provável que as dificuldades, observadas por docentes em muitos dos seus alunos, no desenvolvimento de raciocínio crítico (usar uma ferramenta teórica para solucionar um problema diferente daquele em que foi inicialmente demonstrada, ou reconhecer uma questão que foi aprendida, quando a mesma surge sob um ponto de vista ligeiramente diferente) tenham a ver com a simplificação das exigências lectivas na matemática no percurso escolar.
         Pode existir aqui um paradoxo cruel: ao dirigir o ensino para uma aprendizagem supostamente mais "humanizada", apoiada no "aprender por si" e com desvalorização dos processos de memorização [veja-se a entrevista de Nuno Crato, abaixo] a geração soixante-huitard pode ter provocado o efeito oposto ao pretendido, degradando a produtividade da aprendizagem.

    Matemática


    "O Desastre no Ensino da Matemática - Recuperar o Tempo Perdido"
    Nuno Crato e outros
    Editora Gradiva

    «Ano após ano a situação tem-se agravado, com o beneplácito de muitos responsáveis políticos e a cegueira ideológica de muitos teóricos da educação. Tal como uma bomba, a irresponsabilidade estoura sobre os nossos jovens e o nosso futuro. Neste livro, especialistas de formações diversas analisam a situação e apontam soluções»

    Entrevista de Nuno Crato ao Diário de Notícias:


       Nuno Crato

    P - O novo livro é mais polémico [do que o anterior, "Eduquês"]?
    R - É menos polémico e mais variado do que o "Eduquês".
    P - Este teve o impacte desejado?
    R - Fiquei muito surpreendido. Vendeu muitos milhares. Há muita gente interessada em saber o que se passa. Recebi centenas de cartas, mails e telefonemas de pais e professores.
    P - E reacções dos criticados?
    R - Houve só duas ou três críticas, mas moderadas. Há a ideia generalizada de que se foi longe de mais nos disparates da educação.
    P - O "Eduquês" não aponta caminhos mas dá ideias, algumas de "velhos" métodos, como a memorização.
    R - A pedagogia tradicional tem coisas erradas, e a crítica foi muito longe no sentido oposto. Deitou-se fora o bebé com a água do banho.
    P - Os docentes desvalorizam a memorização?
    R - Não se pôs em prática todas as ideias do romantismo/construtivismo, só o que era possível. Num dos livros de formação de professores mais vendidos diz-se que não se deve ensinar matemática às crianças porque elas descobrem-na por si. Eles não deixam de ensinar, mas desorganiza a cabeça dos professores.
    P - Critica o pouco treino na abstracção.
    R - A teoria do situated learning diz que não devo ensinar que dois mais dois são quatro, mas apenas que duas laranjas mais duas são quatro laranjas. A ideia é que se as coisas não forem dadas em contexto tornam-se abstractas e as crianças não as percebem. Isso é limitador. No Português salta-se da descodificação do texto para a compreensão aplicada, descurando a fase intermédia da compreensão literal do texto.
    P - O ensino está pouco exigente?
    R - A pouca exigência é o corolário deste romantismo.
    P - Defende mais exames...
    R - É decisivo pelo menos mais um, a meio da escolaridade obrigatória.
    P - Pela responsabilização?
    R - De alunos e professores. Os professores devem ser avaliados em função dos resultados com os alunos.
    P - Há escolas e escolas...
    R - Que valor acrescentado deu o professor? Pegou numa turma com 50% de positivas e passou a ter 60% ? É muito bom. Melhor do que pegar numa turma com 90% de positivas e passar a ter 91% .
    P - Que reacção lhe suscitaram os resultados dos exames?
    R - Grave. A culpa não é dos alunos.
    P - Sobre formação dos professores, o que traz o novo livro?
    R - É a questão central. O novo livro explica a nossa proposta, em parte já aplicada pela actual ministra, que é a de os professores fazerem um exame à entrada da profissão. Mas esse exame tem de ser substantivo, sobre as matérias que vão ensinar.

    Metáfora


    Foto do Correio da Manhã


    No dia seguinte ao assalto ao banco de Setúbal os jornalistas bivacaram frente ao Tribunal daquela cidade para "recolha" de informação. Emissões televisivas em directo, entrevistas a "populares" (os tais 15 minutos de fama, amealhados segundo a segundo) e finalmente as "imagens fortes" do arguido a ser transportado para a carrinha da PSP, com a cabeça coberta de modo a não ser identificado. Soube-se, por acaso (ou porque a rival Polícia Judiciária assim o quiz?) que não se tratava do arguido mas sim de um agente da própria PSP a encenar serviço para os jornalistas.

    E agora digam lá: acham mesmo que se trata do 4º poder? Ou mesmo de um contra-poder?

    Lamentáveis ilusões...

    segunda-feira, outubro 09, 2006

    Evidence-Based Economics


      Edmund S. Phelps

          «Existe um movimento na Medicina nos sentido de exigir que os pedidos de autorização para venda de novos medicamentos sejam "baseados na evidência". Por contraste, economistas de formação encaram a sua disciplina como tendo já atingido este padrão científico. Afinal, eles expressam as suas ideias através da matemática e chegam a estimativas quantitativas de relações implícitas a partir de dados empíricos.
          Mas a Economia não se baseia na evidência quando selecciona os seus paradigmas teóricos. As iniciativas de política económica são frequentemente tomadas sem toda a pré-testagem que poderia ter sido realizada.
          Um exemplo notório é a política macroeconómica do pós-guerra, seguindo os radicais keynesianos. Os radicais apoiavam-se na teoria keynesiana, não testada, de que o desemprego depende da “procura efectiva” em relação com o “salário monetário”, mas essa política ignorava a parte acerca dos salários e procurava estabilizar a procura a um nível suficientemente elevado para assegurar o “pleno emprego”.
          Cecil Pigou e Franco Modigliani objectaram que se a procura fosse suficientemente aumentada, o salário monetário aumentaria e “apanharia” a procura, o que empurraria o desemprego para o seu nível anterior. O emprego não pode ser sustentado acima do seu caminho de equilíbrio inflacionando a procura efectiva.
          Apesar de tudo, os radicais prevaleceram através daquilo a que o economista Harry Johnson designou como “desprezo e desdém”. As políticas macroeconómicas do pós-guerra eram dedicadas ao “pleno” emprego, sem qualquer evidência de que os salários monetários não se atravessariam nesse caminho.
          No final dos anos 1950 os neo-keynesianos finalmente aceitaram o argumento levantado por Pigou e Modigliani. Após o trabalho de Will Phillips acerca dos salários não lhes restou outra opção. Mas continuavam a insistir em que aumentos estáveis da procura, a uma taxa suficientemente rápida, manteria a procura um degrau acima do nível do salário monetário, mantendo-se o emprego tão alto quanto se desejasse, apesar do custo da constante inflação.
          De modos diferentes, Milton Friedman e eu objectámos que uma tal política exigiria uma taxa de inflação em constante crescimento. Os salários monetários manter-se-ão atrás da procura – argumentei eu – apenas enquanto a empresa representativa for impedida de aumentar os salários pela incompreensão de que os salários das outras empresas estão já mais baixos do que os dela – um desequilíbrio que não pode durar.
          Tal como os radicais, os neo-keynesianos não responderam aos seus oponentes com testes empíricos. A eficácia da procura elevada era uma questão de fé. Mas os acontecimentos dos anos 1970 submeteram essa fé a um teste cruel. Quando os choques da oferta atingiram a economia dos EUA, a resposta dos neo-keynesianos foi acrescentar mais procura, acreditando que faria reviver o emprego. Houve pouca recuperação – apenas inflação mais acelerada.
          Na época corrente encontramos um paralelismo. Embora as políticas tenham, desde então, passado a reflectir a economia do lado da oferta e a teoria dos ciclos económicos reais, os construtores e promotores do novo paradigma reinante manifestam a mesma antipatia pela verificação dos dados, para precaver erros sérios.
          Uma anterior lição escolar fora bem fundamentada: taxas de imposto sobre o trabalho temporariamente abaixo do normal, no corrente ano, quando misturadas com a previsão de retorno às taxas normais no próximo ano, encorajarão as famílias a acumular mais trabalho no corrente ano e a trabalhar menos nos anos futuros. Esta proposição foi recentemente testada de novo na Islândia e saiu-se bem.
          Mas os crentes do lado da oferta formularam a ousada conclusão de que um corte permanente nas taxas de imposto sobre o trabalho encorajarão mais trabalho permanentemente – sem diminuição da sua eficácia. Tanto Larry Summers como eu duvidámos que isto pudesse ser genericamente verdade. Se cada acréscimo na taxa salarial após impostos desse um impulso permanente à quantidade de trabalho fornecido, pensámos nós, o aumento acentuado dos salários depois de impostos desde meados do século dezanove, teria provocado um extraordinário acréscimo na duração da semana de trabalho e na idade de reforma. Mas ambas caíram e na Europa continental o desemprego está mais alto.
          Na minha visão, este dogma central da economia do lado da oferta apoia-se num erro grosseiro. O que interessa para o acréscimo de trabalho oferecido é a taxa salarial depois de impostos relativamente aos rendimentos da riqueza [património]. Embora as taxas salariais após-impostos tenham subido durante mais de um século, a riqueza e o rendimento que proporcionaram cresceram de modo igualmente rápido.
          Na realidade, se as taxas de imposto descessem permanentemente este ano, haveria inicialmente um forte efeito positivo no trabalho oferecido. Mas haveria igualmente um efeito positivo nas poupanças e portanto na riqueza, no próximo ano e seguintes. A longo prazo, a riqueza tenderia a aumentar na mesma proporção que os salários após impostos. O efeito sobre o trabalho desvanecer-se-ia.
          Devemos agir com cautela, contudo. Nas análises padrão, os cortes de impostos levam a uma redução nas compras governamentais de bens e serviços, tais como a defesa. Mas um corte de impostos poderia igualmente fazer contrair o estado-providência – assistência social e segurança social, que constituem riqueza social. Trata-se de uma questão empírica.
          Investigações que eu e Gylfi Zoega fizemos há uma década confirmaram que cortes nos impostos sobre o trabalho impulsionam o emprego a curto prazo. Mas, e quanto ao longo prazo? Será que os efeitos de longo prazo das taxas de imposto se manifestam nas diferenças internacionais do emprego?
          Em 1998 examinámos dados da OCDE à procura de uma correlação entre as taxas de desemprego nacionais de meados dos 90 e as taxas de imposto correntes sobre salários. Não encontrámos nenhuma. Em 2004 verificámos as taxas de participação do trabalho e de novo o desemprego. De novo sem correlação. Os países de elevado desemprego incluem casos de impostos elevados tais como a Alemanha e a França, mas igualmente de impostos baixos tais como o Japão e a Espanha. Países com baixo desemprego incluem taxas baixas (Grã-Bretanha, EUA) mas também taxas altas (Dinamarca, Suécia).
          Os neo-liberais andam agora a dizer à Europa continental que cortes nas taxas sobre o trabalho podem fazer dissolver o desemprego elevado. Mas a efectividade de tais cortes de impostos seria largamente, se não totalmente, transitória – especialmente se o estado-previdência fosse poupado. No prazo de duas décadas o desemprego elevado voltaria a prevalecer. As falsas esperanças geradas pelos cortes de impostos afastaria os políticos das reformas fundamentais que são necessárias se a Europa continental quiser atingir o dinamismo de que dependem as altas taxas de inovação, abundante criação de emprego e produtividade de nível mundial.»

    Tradução de texto publicado no Project Syndicate

    Edmund S. Phelps (2)

    Curto prazo - Longo prazo

         «A obra de Edmund Phelps aprofundou a nossa compreensão acerca da relação entre os efeitos de curto prazo e de longo prazo das políticas económicas.
         «Desemprego e inflação baixos são objectivos centrais das políticas de estabilização económica. Durante os anos 1950 e 1960 foi estabelecida a visão de um tradeoff estável entre inflação e desemprego: a denominada Curva de Phillips. Segundo ela, o preço a pagar para ter desemprego baixo seria um acréscimo pontual da taxa de inflação. Phelps contestou esta asserção através de uma análise mais fundamental da determinação de preços e salários, levando em consideração os problemas da inflação nas economias. Os agentes individuais possuem um conhecimento incompleto acerca das acções dos outros e devem basear as suas decisões em expectativas. Phelps formulou a hipótese da curva de Phillips aumentada pelas expectativas , segundo a qual a inflação depende tanto do desemprego como das expectativas acerca da inflação.
         «Como consequência, a taxa de desemprego de longo prazo não é afectada pela inflação, mas determinada apenas pelo funcionamento do mercado de trabalho. Decorre daqui que as políticas de estabilização apenas podem provocar flutuações de curto prazo no desemprego. Phelps mostrou como as possibilidades das futuras políticas de estabilização dependem das decisões políticas do presente: baixa inflação na actualidade conduz a expectativas de baixa inflação no futuro, facilitando assim as políticas futuras.
         «Um outro tema onde os tradeoffs intertemporais têm uma importância central tem a ver com a desejável taxa de formação de capital. Ao trocar consumo por investimento em capital físico e humano (educação e investigação), a geração actual pode aumentar o bem-estar das gerações futuras. Phelps clarificou possíveis conflitos de repartição entre gerações. Ele mostrou igualmente que todas as gerações podem, sob certas condições, obter ganhos de mudanças nas taxas de poupança. Phelps foi também pioneiro na análise da importância do capital humano para a difusão de novas tecnologias e, portanto, para o crescimento.»

    Nota de imprensa do Prémio do
    Sveriges Riksbank em Ciências Económicas

    Edmund S. Phelps


      Edmund S. Phelps


    É o Nobel da Economia de 2006, "pela sua análise dos trade-offs intertemporais na política macroeconómica".

    Referências:
  •  A View of My Scientific Work, por E. S. Phelps
  •  Página na Universidade de Columbia:
  •  Edmund S. Phelps na Cepa (publicações).
  • "Edmund S. Phelps and Modern Macroeconomics" (pdf)
    paper de Philippe Aghion, Roman Frydman, Joseph Stiglitz e Michael Woodford

    «Edmund Phelps é conhecido pela introdução, no final dos anos 60, da microeconomia das expectativas na teoria da determinação do emprego e dinâmica dos salários. O trabalho de Keynes nos anos 30 deixara por explicar a razão pela qual o desemprego involuntário continua a existir mesmo nos melhores tempos, e porque é que uma quebra na procura agregada efectiva provoca aumento no desemprego - e não nos salários e preços. O desafio era explicar estas questões mantendo o postulado da racionalidade que que a Economia tradicionalmente atribuía aos trabalhadores,consumidores e empresas. Nos modelos micro-macro de Phelps, o atingir do equilíbrio nos mercados - significando que as expectativas dos participantes consistentes com as respectivas acções - não elimina geralmente o desemprego, nem mesmo o involuntário.»
    [in Página de E. S. Phelps na Universidade de Columbia]

    «A preocupação de Phelps, durante os anos 1990, com os reais determinantes do desemprego de equilíbrio, foi partilhado activamente por muitos outros académicos, e foi obtido um considerável progresso na análise, tanto teórica como empírica, desta questão. Trabalhos muito recentes sobre o desemprego fazem uso de modelos de procura de trabalho e acertos aleatórios [random match] dos trabalhadores com vagas para empregos, que desenvolvem a visão básica do mercado de trabalho enfatizada pelos trabalhos de Phelps no final dos anos 1960 e nos artigos da publicação "Phelps volume" (1970). Um exemplo do trabalho actual com uma grande conexão com as preocupações dessa conferência é a contribuição de Mortensen naquele livro. Nas suas contribuições para a publicação de 1970, tanto Phelps como Mortensen descrevem mercados de trabalho nos quais os empregadores individuais possuem o poder para determinar as suas próprias políticas de salários, mesmo que existam numerosas empresas, devido á informação imperfeita acerca dos salários disponíveis noutras empresas. As fricções resultantes tornam possível a diferentes empresas pagar diferentes salários, ainda que as firmas de mais baixos salários estejam sujeitas a uma taxa de retorno mais elevada.»
    [in "Edmund S. Phelps and Modern Macroeconomics"]

    «Phelps estabeleceu as suas credenciais na acessível micro e macro de Hicks-Dantzig-Debreu: domínios do Pai Natal de funções convexas e cálculo diferencial das variações. Mas avançaria ele para as promissoras terras das taxas de retorno crescentes, da informação assimétrica, da rigidez [lumpinesses] e de todas essas outras imperfeições nunca sonhadas pelas filosofias dos arautos do equilíbrio? A resposta é um sonoro Sim. Para resumir o meu panegírico hagiográfico, recorro a umas palavras de Philippe Aghion, que vê a "contribuição de Phelps [para a Economia] como basicamente um projecto: introduzir a informação e conhecimento imperfeitos, a concorrência imperfeita e as fricções de mercado na macroeconomia" e, acrescentaria eu, também na microeconomia. Parafraseando Max Planck: A Ciência progride de funeral em funeral, à medida que o Coro dos Phelpses e Stiglitzes explicam os muitos modos pelos quais a paralisia pode atormentar a mão invisível de Smith, Say e Lucas.»
    [Paul A. Samuelson in "Knowledge, Information, and Expectations in Modern Macroeconomics"]

    Structural Slumps: The Modern Equilibrium Theory of Unemployment, Interest, and Assets Rewarding Work  Equity, Efficiency and Growth: The Future of the Welfare State
    Economía política. Un texto introductorio Knowledge, Information, and Expectations in Modern Macroeconomics: In Honor of Edmund S. Phelps Institutions and Economic Organization in the Advanced Economies: The Governance Perspective
    Enterprise and Inclusion in Italy Finance, Research, Education and Growth Seven Schools of Macroeconomic Thought: The Arne Ryde Lectures International Differences in Growth Rates: Market Globalization and Economic Areas

  • sábado, outubro 07, 2006

    Planeamento

         «Ora é ponto assente, hoje em dia, que apenas uma política de desenvolvimento económico fundamentada num plano terá possibilidades de êxito, vencendo as múltiplas dificuldades que se deparam aos países atrasados.
         «Efectivamente a Inglaterra não necessitou de planeamento para realizar a sua industrialização e para atingir uma estrutura e um nível económico que depois sustentaram a continuação do progresso - mas demorou muito mais de duzentos anos a conseguir isso, se pensarmos que as profundas reformas da agricultura, a acumulação de meios financeiros no alto comércio, a criação de uma classe média empreendedora, tudo isso se desencadeou bem antes da "invenção" da máquina a vapor, em 1708, por Newcomen. E os Estados Unidos também se desenvolveram sem plano, mas beneficiarm da grandeza e riqueza dos territórios e do afluxo, em escala espantosa, de milhões e milhões de pessoas com iniciativa e com aptidões para trabalhar, bem como de abundantes capitais - e nem assim conseguiram um ritmo de crescimento rápido, tal como as exigências sociais e políticas impõem aos países atrasados de agora. Mais ainda: ambas essas experiências se desenrolaram sem as economias em causa defrontarem concorrência externa, pois eram as pioneiras; e não é semelhante a situação actual dos países subdesenvolvidos.
         «No entanto, deve notar-se que plano e planeamento não são sinónimos de socialização económica, nem da introdução de processos comunistas... Trata-se apenas de definir e explicitar objectivos, inventariar recursos e canalizá-los para as aplicações adequadas, e, mais do que tudo, de exercer uma acção simultânea e concertada sobre os múltiplos aspectos da vida económica onde se situam os entraves ao progresso.
         «É o Estado que executa os empreendimentos e se apropria dos meios de produção ou limita-se ele a delinear sistemas de incentivos e orientações à iniciativa privada? Provoca-se uma transformação social e política violenta ou conseguem-se as alterações estruturais indispensáveis mediante progressos em que comparticipam livremente todos os grupos sociais? Aparece um grupo detentor da totalidade do poder a impor objectivos e a definir os instrumentos de actuação ou desenvolve-se a programação segundo fórmulas mais "democráticas"? Todas essas são já modalidades diversas de organização social e sistema económico sem dúvida importantes e significando situações humanas e posições doutrinárias absolutamente divergentes; mas todas são também compatíveis com o planeamento, no sentido em que acima ficou definido, não se identificando este, portanto, com uma ou outra fórmula mais ou menos à "esquerda", como, por vezes, poderia acreditar-se.»

    Francisco Pereira de Moura
    "Problemas Fundamentais da Economia"
    Clássica Editora (2ª edição, 1963, pp. 219/220)