«Ignorar o trabalho doméstico distorce as estatísticas do crescimento e rouba auto-estima a quem fica em casa - na sua maior parte, mulheres
O trabalho doméstico constitui uma parcela importante do produto de todas as nações, no entanto não é reconhecido quando se faz a medição de bens e serviços para cálculo do produto nacional bruto. Isto subavalia a contribuição das mulheres., uma vez que elas são responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico.
As famílias e outros lares são, na realidade, pequenas fábricas que, mesmo nas nações mais avançadas, produzem muitos serviços e bens valiosos. Cuidam das crianças, preparam refeições e fornecem abrigo. Cuidam de doentes, dão apoio e outra assistência aos idosos, e desempenham muitas outras tarefas úteis.
As mulheres contribuem com cerca de 70% do total de tempo gasto nestas tarefas - mesmo em nações igualitárias como a Suécia. Elas fazer virtualmente todo o trabalho doméstico em nações mais pobres, como a Índia. Alguma feministas argumentam, com lógica, que a inclusão do trabalho doméstico no PNB aumentaria a "consciência" das mulheres, especialmente no mundo menos desenvolvido onde as mulheres são pior tratadas. Isso ajudaria a aumentar o seu poder negocial no casamento, uma vez que muitas mulheres "ganhariam" mais do que os seus maridos se a sua contribuição em trabalho doméstico tivesse um valor monetário. Porém, outras feministas não defendem o cálculo explícito da produção das domésticas, porque entraria em conflito com o seu programa de tirar as mulheres de casa, colocando-as na força de trabalho.
Mas é altura de reconhecer o trabalho doméstico como fazendo parte dos bens e serviços do PNB de uma nação. As longas horas passadas sugerem que a produção realizada em casa representa uma importante percentagem do produto total de todos os países. Afinal, quando uma família contrata alguém para tratar das crianças, limpar a casa e cozinhar, esse trabalho entra para as estatísticas do PNB. Quando é feito por um familiar, não é considerado.
Há várias maneiras de quantificar e medir a produção doméstica. Embora o PNB apenas inclua a produção de bens e serviços que são vendidos e comprados, incluem também um valor para as casas ocupadas pelos proprietários, usando o valor das rendas para casas que têm dimensão e equipamentos equivalentes. O valor do trabalho doméstico poderia ser medido pelo que custaria a sua aquisição no mercado para substituir as tarefas dos pais.
Estes métodos têm sido utilizados por Robert Eisner da Northwestern University no seu cuidadoso estudo "The Total Incomes System of Accounts". Eisnes calcula que o valor imputado de produção doméstica nos EUS excede mais de 20% do PNB de meados dos anos 40 até ao início dos anos 80 -o último ano que ele calculou. Cálculos menos precisos feitos pela ONU no seu último Relatório do Desenvolvimento Humano indicam que a produção doméstica vale mais do que 40 % da produção mundial.
A omissão do trabalho doméstico no cálculo do PNB distorce os indicadores do crescimento económico. O grande aumento da participação de mulheres casadas no mercado de trabalho, durante as últimas décadas, foi obtido à custa da redução do tempo que essas mulheres ocupavam em trabalho doméstico não remunerado. O rápido aumento do PNB durante estas décadas negligencia o importante declínio do tempo de trabalho em casa.
A substituição do trabalho doméstico por trabalho de mercado é claramente a razão para a rápida expansão dos sectores de cuidados infantis desde os finais dos anos 70. As mulheres reduziram o tempo que trabalhavam em casa para os seus filhos, contratando outras mulheres para o fazer.
A minha colega Sherwin Rosen (1) da Universidade de Chicago estudou uma situação na Suécia em que o sector dos serviços de cuidados infantis é invulgarmente grande, em parte porque é subsidiado pelo governo. O estudo não avalia se as crianças são afectadas quando as mães trabalham. No entanto, mostra que estes subsídios causam importantes ineficiências ao induzir artificialmente muitas mulheres a entrar no mercado de trabalho. Os subsídios baixaram os preços dos serviços de cuidados infantis abaixo do seu custo real. Eu acho estas conclusões convincentes, mas elas foram muito contestadas na Suécia porque numerosos grupos pretendem "nacionalizar" a família, fazendo com que o governo fique responsável pelos cuidados infantis. Pretendem encorajar as mães a entrar no mercado de trabalho para que tenham de contratar outras mulheres para tomar conta dos seus filhos.
A inclusão do trabalho doméstico no cálculo do PNB faria aumentar a auto-estima das mulheres e homens que ficam em casa a tomar conta das crianças e a fazer outros trabalhos domésticos. Também forneceria uma imagem mais adequada do PNB e do crescimento e poderia conduzir a diferentes interpretações das políticas públicas que se reflectem na afectação de tempo entre trabalho doméstico e trabalho no mercado.»
Gary Becker, Business Week, Outubro de 1965
(1) Sherwin Rosen faleceu em 2001.
quarta-feira, março 08, 2006
Trabalho doméstico
sexta-feira, março 03, 2006
Zona euro: novas projecções
O Banco de Portugal disponibilizou as mais recentes projecções macroeconómicas para a zona euro elaboradas pelo BCE:
| 2005 | 2006 | 2007 | |
| IHPC (preços no consumidor) | 2,2 | 1,9 - 2,5 | 1,6 - 2,8 |
| PNB real | 1,4 | 1,7 - 2,5 | 1,5 - 2,5 |
| Consumo privado | 1,4 | 1,7 - 2,5 | 1,5 - 2,5 |
| Despesa pública | 1,2 | 1,4- 2,4 | 0,8 - 1,8 |
| Formação bruta de capital fixo | 2,2 | 2,4 - 5,0 | 1,8- 5,0 |
| Exportações (Bens e Serviços) | 3,8 | 4,2 - 7,2 | 3,8 - 7,0 |
| Importações (Bens e Serviços) | 4,6 | 4,2 - 7,6 | 3,4 - 6,8 |
Lula da Silva
Entrevista do Presidente Lula à revista The Economist «Presidente Lula - (...) Há uma canção dum cantor brasileiro onde se diz que a diferença entre um homem prático e um teórico é que o teórico vê o dia como tendo 24horas, e o realista vê como estando dividido entre manhã, tarde e noite «Durante muitos anos o Brasil viveu num eterno dilema. Primeiro o país teria de crescer para poder depois distribuir a riqueza. Mas, tal como eu o vejo, temos de distribuir a riqueza juntamente com o crescimento, para que o fosso entre as pessoas não cresça mais.» |
quinta-feira, março 02, 2006
Em busca do Homo Œconomicus
«In Search of Homo Œconomicus: Behavioral Experiments in 15 Small-Scale Societies»
Artigo de Joseph Henrich, Robert Boyd, Samuel Bowles, Colin Camerer (*), Ernst Fehr, Herbert Gintis, Richard McElreath
American Economic Review, Vol. 91, No. 2,
Outra versão do mesmo texto está disponível aqui.
Artigo de Joseph Henrich, Robert Boyd, Samuel Bowles, Colin Camerer (*), Ernst Fehr, Herbert Gintis, Richard McElreath
American Economic Review, Vol. 91, No. 2,
Outra versão do mesmo texto está disponível aqui.

«Recentes investigações revelaram grandes e consistentes desvios nas previsões feitas com base no modelo do homo œconomicus, tal como é apresentado nos manuais de referência. Um problema parece residir na assumpção canónica dos economistas de que os indivíduos actuam sempre no interesse próprio: adicionalmente aos seus payoffs, muitos sujeitos experimentais parecem importar-se com a justiça e a reciprocidade, estão dispostos a redistribuir os ganhos materiais com sacrifício próprio, e estão dispostos a compensar aqueles que agem de modo cooperativo e a punir os que o não fazem, mesmo quando estas acções os penalizam. Estes desvios daquilo que designaremos como "modelo canónico" têm importantes consequências para uma vasta gama de fenómenos económicos, incluindo a configuração óptima de instituições e contratos, a alocação de direitos de propriedade, as condições para uma acção colectiva de sucesso, a análise de contratos incompletos e a persistência de prémios de salário não competitivos [noncompetitive wage premia].(*) Colin Camerer é um dos pioneiros da Neuroeconomia.
«Continuam por responder questões fundamentais. Serão os desvios relativamente ao modelo canónico a evidência de padrões universais de comportamento, ou será que os ambientes económicos e sociais do indivíduo conformam o comportamento? Neste caso, que condições económicas e sociais estão envolvidas? Será o comportamento recíproco melhor explicado estatisticamente pelos atributos dos indivíduos, tais como a idade, sexo e riqueza relativa, ou pelos atributos do grupo a que o indivíduo pertence? Existirão culturas que se aproximem do modelo canónico de comportamento no interesse próprio?
«A investigação existente não pode responder a tais questões porque virtualmente todos os sujeitos estudados eram estudantes universitários, e embora ocorram diferenças culturais entre as populações de estudantes, estas diferenças são pequenas quando comparadas com a gama de todos os ambientes sociais e culturais. Para abordar este problema nós e os nossos colaboradores iniciámos um grande estudo trans-cultural de comportamento (...) Doze equipas de investigadores experimentados trabalharam em 12 países dos 5 continentes, recrutaram sujeitos de 15 sociedades de pequena escala com uma ampla variedade de condições económicas e culturais. A nossa amostra consiste de três sociedades forrageiras, seis que praticam uma horticultura de abate e queimada, quatro grupos nómadas de pastoreio e três sociedades sedentárias com agricultura de pequena escala.
«Podemos resumir os resultados da seguinte forma. Primeiro: o modelo canónico não é suportado em nenhuma das sociedades estudadas. Segundo: existe uma consideravelmente maior variabilidade entre grupos do que fora anteriormente observado em investigações similares, e o modelo canónico falha numa maior gama de maneiras do que fora observado em experiências anteriores. Terceiro: as diferenças ao nível do grupo, na organização económica e no grau de integração de mercado, explicam uma parte substancial da variação cultural entre as sociedades: quanto mais elevado é o grau de integração de mercado e mais elevados os payoffs da cooperação, mais elevado é o nível de cooperação nos jogos experimentais. Quarto: as variáveis económicas e demográficas individuais não explicam o comportamento no interior do grupo nem entre grupos. Quinto: o comportamento observado nas experiências é em geral consistente com os padrões económicos da vida do dia-a-dia nestas sociedades.»
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Economia feminista
Alguns links para trabalhos de investigadoras desta corrente que anda em busca de uma teoria económica femininista.
A ler com cuidado: o pós-modernismo é prejudicial à saúde!
"Incorporating Gender in Keynes’s Theory of Monetary Production: An Institutionalist Perspective" (doc)
"Theorizing about Agency, Gender and Environment in the Context of Monetary Production and Living Systems"
"Entrepreneurship does not Equal Development: A Note on Bulgaria's EU Candidacy and Competitiveness (2004)"
"It Takes A Nation: A New Agenda for Fighting Poverty"
"Is the Market Moral?"
"Racial Differences in Transportation Access to Employment in Chicago and Los Angeles, 1980 and 1990"
"Prosperity for all? The Economic Boom and African American"
"Political Economy and the Construction of Gender: The Example of Housework Within Same-Sex Households"
"If You Can't Stand the Heat..."
"Habits of the Mind: Challenges for Multidisciplinarity"
""The Application of Mainstream Economics Constructs to Education: A Feminist Analysis" (doc)
"Feminist Economics: Implications for Education"
Responses to Social Security by Men and Women: Myopic and Far-Sighted Behavior
"Love and Distrust Among Unmarried Parents"
" Does Bad Pay Cause Occupations to Feminize, Does Feminization Reduce Pay, and How Can We Tell with Longitudinal Data?"
"Why Are Some Academic Fields Tipping Toward Female?"
"Toward Gender Equality: Progress and Bottlenecks"
S. Charusheela
"A decade of feminist economics"
Publicações:
Feminist Economics Today: Beyond Economic Man, org. Marianne A. Ferber e Julie A. Nelson. (livro)
Toward a Feminist Theory of Economics (Economics as Social Theory), org.:Drucilla K. Barker, Edith Kuiper (livro)
Feminist Economics (revista)
A ler com cuidado: o pós-modernismo é prejudicial à saúde!
![]() | Zdravka Todorova University of Missouri - Kansas City |
![]() | Rebecca M. Blank University of Michigan |
![]() | Lisa Saunders California - Berkeley |
![]() | Myra H. Strober School of Education - Stanford Unversity |
![]() | Cordelia W. Reimers Hunter College - City University of New York |
| Paula England Stanford University |
S. Charusheela
Publicações:
Adam Smith e a Economia Comportamental
«As duas principais obras de Adam Smith - "A Riqueza das Nações" e a "Teoria dos Sentimentos Morais" - mostram-no como um brilhante economista e também um brilhante psicólogo, mas ele nunca conseguiu juntar a Economia e a Psicologia. Na "Teoria dos Sentimentos Morais" ele descreve os factores psicológicos que subjazem à tomada de decisão, motivação e interacção, por parte dos humanos, o que certamente tem fortes implicações naquilo que orienta as decisões de consumo, de poupança, na produtividade e esforço do trabalho e nas trocas mercantis. Mas, na "A Riqueza das Nações", apenas esporadicamente ele estabeleceu ligações fortes com este trabalho.» Artigos e papers de Nava Ashraf |
sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Podcast de uma entrevista com Marc Miller, co-autor do livro "Selling Is Dead (Moving Beyond Traditional Sales Roles and Practices To Revitalize Growth). Miller é também o fundador da empresa Sogistics Corporation, especializada no apoio às vendas em grande escala. Crédito: Podcast blog.
Um outro podcast de Mark Miller sobre o mesmo assunto, disponível na página da Sogistics Corporation, pode ser ouvido aqui.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Quando menos é mais
"Models of Ecological Rationality: The Recognition Heuristic" (pdf), artigo de Daniel Goldstein e Gerd Gigerenzer, publicado na Psychological Review de 2002 (Vol.109).«Uma visão da heurística é a de que existem versões imperfeitas de procedimentos estatísticos óptimos, consideradas demasiadamente complicadas para as mentes comuns. Em contraste, os autores consideram a heurística como estratégias adaptativas que evoluem em "tandem" com mecanismos psicológicos fundamentais. Daniel Goldstein extrapola a coisa para os domínios do marqueting. artigos relacionados: |
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Pobre cérebro...
![]() Olhe bem para estas duas imagens da Gioconda. Que lhe parecem? Clique nelas para as aumentar um pouco, se quizer (mas depois feche a janela que abriu). Agora veja as imagens direitas, aqui. Afinal, o que é que se passa com o seu cérebro? Será que comete os mesmos erros quando faz essas suas análises tão bem elaboradas? Ainda chegará o dia em que diremos: "eu ainda sou do tempo em que acreditava no que via..." |
Petróleo, mercado e segurança
![]() Oil market power and United States national security" (pdf) - artigo de Roger Stern publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 31 de Janeiro de 2006. «It is widely believed that an oil weapon could impose scarcity upon the United States. Impending resource exhaustion is thought to exacerbate this threat. However, threat seems implausible when we consider strategic deficits of prospective weapon users and the improbability of impending resource exhaustion. Here, we explore a hypothesis relating oil to national security under a different assumption, abundance. We suggest that an oil cartel exerts market power to keep abundance at bay, commanding monopoly rents [or wealth transfers (wt)] that underwrite security threats. We then compare security threats attributed to the oil weapon to those that may arise from market power. |
Aprendendo com os furacões
"Making a virtue out of a necessity: Hurricanes and the resilience of community organization" - artigo de Robert D. Holt publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 6 de Fevereiro de 2006:«Most of us these days are all too aware of the disruptive impact of hurricanes in human affairs. Yet disturbances ranging from minor local disruptions to massive large-scale catastrophes are part-and-parcel of life in most natural ecosystems. |
Milton Friedman

Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969
New Perspectives Quarterly:
NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?
Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)
NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?
Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.
Neste momento, claro, a Alemanha não pode sair do euro. O que tem de fazer, portanto, é tornar a economia mais flexível — para eliminar as restrições sobre preços, salários e emprego; em resumo, a regulamentação que mantém 10% da força de trabalho alemã desempregada. Isto é bastante mais urgente do que seria se a Alemanha não estivesse no euro.
Este conjunto de políticas abriria o potencial da Alemanha. Apesar de tudo, a Alemanha possui uma força de trabalho muito capaz e produtiva. Tem produtos de alta qualidade que são valorizados em todo o mundo. Tem todas as possibilidades para ser um estado produtivo e em crescimento. Tem apenas que dar oportunidade aos empreendedores. Tem de os deixar fazer dinheiro, empregar e despedir, e agir como empreendedores.
Em vez disso, o que temos em resultado de políticas do passado é que os empreendedores alemães vão para o exterior da Alemanha com muitas das suas actividades. Estão a investir fora porque não existe a abertura, fluidez e oportunidade que encontram fora das fronteiras.
NPQ | O primeiro-ministro inglês Tony Blair argumenta que existe uma "terceira via" — por exemplo, mercados de trabalho flexíveis sem o estilo americano de emprega-e-despede. Ele argumenta que isto é mais ajustado ao "modelo social europeu" com a sua forte preocupação com a justiça social. Existirá um caminho intermédio, ou terá de ser tudo-ou-nada?
Friedman | Não creio que exista uma terceira via. Mas é verdade que um mercado competitivo não representa a totalidade de uma sociedade. Uma grande parte depende das qualidades da população e da nação, no modo como organizam os aspectos não-mercantis da sociedade.
NPQ | Talvez os países escandinavos tenham um modelo a merecer atenção. São sociedades com impostos elevados mas também níveis elevados de emprego. E libertaram mais os seus mercados de trabalho do que em Itália, na França ou na Alemanha.
Friedman | Embora isto não seja tão verdade como já foi, devido ao influxo migratório, os países escandinavos têm pequenas populações muito homogéneas. Isso permite-lhes safar-se com um modelo que não funcionaria noutras condições.
O que funciona para a Suécia não serve para a França, Alemanha ou Itália. Num estado pequeno pode recorrer-se ao exterior para muitas das actividades. Numa cultura homogénea estão mais dispostos a pagar impostos mais elevados para atingir objectivos comuns. Mas "objectivos comuns" são muito mais difíceis de conseguir em populações maiores e mais heterogéneas.
A grande virtude dos mercados livres é que permitem a pessoas que se odeiam umas às outras, ou que pertencem a religiões ou grupos étnicos muito diferentes, a cooperação económica. A intervenção do governo não pode conseguir isso. As políticas exacerbam e ampliam as diferenças.
(...)
NPQ | Com a globalização, temos a economia mais livre que jamais se viu?
Friedman | Oh não. Tínhamos comércio muito mais livre no século XIX. Temos agora muito menos globalização do que nessa altura.
Caminharemos no futuro para esta liberdade do século XIX? Não sei. Temos um mundo mais livre por causa do colapso da União Soviética e das mudanças na China. Essas foram as maiores contribuições para a liberdade no nosso tempo. Os países que se ergueram e separaram como resultado do colapso da União Soviética estão, no conjunto, a seguir políticas económicas mais livres. Muitos destes estados possuem governo mais livre e menos restrições ao comércio.
Esta base de mercado livre deverá expandir-se como exemplo para outros, não tão livres. Toda a gente, em todo o lado, compreende agora que o caminho para o sucesso dos países menos desenvolvidos é o livre mercado e a globalização.
NPQ | No fim, as suas ideias triunfaram sobre Marx e Keynes. Será isto o fim do caminho para o pensamento económico? Haverá algo mais a dizer para além de que os mercados livres são o modo mais eficiente de organizar a sociedade? Será isto o "fim da história", como disse Francis Fukuyama?
Friedman | Oh não. “Mercados livres” é uma expressão muito genérica. Muitas espécies de problemas hão-de emergir. Os mercados livres funcionam melhor quando a transacção entre dois indivíduos afecta apenas esses indivíduos. Mas não acontece assim. O que acontece mais frequentemente é que uma transacção entre nós os dois vá afectar uma terceira pessoa. Essa é a fonte de todos os problemas para a governação. Essa é a fonte dos problemas de poluição, de desigualdade. Existem alguns bons economistas, como Gary Becker e Bob [Robert] Lucas que estão a trabalhar nestes temas. Esta realidade assegura-nos que o fim da história nunca acontecerá.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Pérolas a Economistas
Miss Pearls poderia ser tomada como o nosso "paradoxo do valor" ("diamantes e água", "água e pérolas", é tudo o mesmo); deve ser por isso que calhou agora uma citação da The Theory of the Leisure Class de Thorstein Veblen. Qualquer citação de um economista, ainda que não-mainstream, é bem-vinda. |
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Pós-modernismo morre na Amazónia
«Num artigo publicado na revista Science (20.Janeiro.2006), cientistas que investigaram as capacidades cognitivas pré-linguisticas dum grupo de indígenas da Amazónia [Munduruku], demonstraram que os indivíduos possuem uma conceptualização nuclear da geometria euclidiana.
Este relatório dá a estocada final no vampiro do pós-modernismo. A lógica (dedução), a aritmética e a geometria Euclidiana têm as suas conceptualizações nucleares em capacidades não-linguísticas (e pré-linguísticas) do cérebro humano. Não há motivos para pensar que estas capacidades não sejam partilhadas por todos os seres humanos (uma vez que existe tão pouca variabilidade na espécie humana). Existe uma natureza humana universal e uma racionalidade nuclear partilhada por todos os humanos.»
"Postmodernism Dies Yet Again" - Body Parts
artigo no Live Science
post no Maza’ Weblog
Consenso de Copenhaga
![]() No âmbito do Consenso de Copenhaga 2004 um grupo de conhecidos economistas analisou um conjunto de projectos, tendo em consideração essencialmente os custos e benefícios económicos. Mais especificamente: os especialistas foram desafiados a responder à seguinte questão, relativamente a um conjunto projectos previamente identificados pela ONU: "Qual seria a melhor maneira de aumentar o bem-estar global, e particulamente o bem-estar dos países em desenvolvimento, supondo que um financiamente adicional de 50 mil milhões de dólares (*) em recursos estaria à disposição dos governos?" O painel de especialistas foi constituído por: As conclusões - que foram comentadas neste artigo do The Economist - encontram-se disponíveis aqui (pdf) e estão resumidas no quadro seguinte. Repare-se na má classificação do Protocolo de Quioto, ao contrário da liberalização do comércio.
(*) - "$50 billion", no original; reina alguma confusão quanto ao significado de "billion": veja-se por exemplo o site Ciberdúvidas e a Wikipédia. No entanto, parece não haver dúvida de que, nos EUA, "billion" = 109. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
quarta-feira, fevereiro 15, 2006
A vida exagerada de Martín Romaña

A mim parece-me que é preciso sofrer de uma qualquer doença rara, indiagnosticada e paradoxal, para ler - com prazer! - as 500 páginas d´"A Vida Exagerada de Martin Romaña". Será que o masoquismo decorrente da repetida ruminação dos equívocos dos anos 60 e do "Maio de 68" pode explicar tal fervor?
Enfim: aqui fica um trecho em que a personagem Martin Romaña é visitada pelo Autor, Alfredo Bryce Echenique, supostamente para lhe roubar a mulher, a marxista Inês, a qual, depois de ter cuspido (metaforicamente) no escritor capitalista, redime-o pelo facto de ter publicado um romance em Cuba.
A seguir: Alfredo Bryce Echenique relata um episódio pessoal, coincidente com o que aconteceu com Martín Romaña (e ainda dizem que não há coincidências...)
Arquivo da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. A propósito: quando é que o Instituto Camões nos oferece uns Eças e uns Camilos video-sonoros ?
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outros ficheiros sonoros do mesmo autor
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Não blogarás em... solitário!
O Abrupto apresenta um bem humorado exercício "legislativo": um Decálogo sobre os debates na blogosfera portuguesa. Quem será que enfia o barrete? Quanto ao Pura Economia, levanta-se apenas uma dúvida: a Sexta Lei diz que (a) «Os blogues são grupais, precisam imenso de companhia» e (b) «A blogosfera tem evoluído do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual».A dúvida é: a que grupo ou tribo pertence o Pura Economia? Eu sei que já fui citado por blogues liberais e libertários, links que depois esmorecem quando aqui surgem referências solidárias, intervencionistas ou keynesianas, etç, Tal como já fui citado por blogues solidários e intervencionistas, links que depois declinam quando aqui surgem referências liberais e libertárias. Mas talvez seja ainda cedo para entrar em pânico. Considerando que ao Decálogo do Abrupto ainda faltam quatro Leis (ainda está na versão Beta), aguardo que as Leis faltantes me esclareçam esta solitária angústia. |
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Chile, segundo a BBC
Podcast do programa "In Business", da BBC,
sobre a economia do Chile - 9.Fev.2006 - 28:08 m
url
Universidades na net
![]() Distribuição das primeiras 200 universidades, por país. O Webometrics é um ranking das universidades de todo o mundo em função da sua presença na net. O processo de classificação ainda é questionável (a metodologia é apresentada aqui) mas vale a pena dar uma vista de olhos. Os indicadores utilizados são: Na lista das três mil universidades classificadas, encontram-se as seguintes sete portuguesas:
Na lista de centros de investigação encontra-se o Instituto Superior Técnico, na posição nº 70. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Também tu, Blanchard!...
![]() O Diário de Notícias apresenta uma pequena entrevista com Olivier Blanchard, onde o economista repete algumas das ideias apresentadas na Conferência do Banco de Portugal - incluindo a descrença no poder miraculoso da aposta tecnológica. Mais uma facada no Plano socrático... Para aumentar a produtividade, a grande aposta do Governo é a aplicação de um plano tecnológico. Deve ser a prioridade?Entretanto, quem não parece estar de acordo com Blanchard é a economia portuguesa, pois os últimos dados do INE apontam para um agravamento dos custos do trabalho. O ICT cresceu 3,9 % em média, em 2005: mais 2,4 pontos percentuais do que em 2004. A evolução no último trimestre de 2005 representa, no entanto, uma desaceleração face ao trimestre imediatamente anterior. Tratam-se de dados ainda não corrigidos dos efeitos sazonais. |
domingo, fevereiro 12, 2006
sábado, fevereiro 11, 2006
Economia oculta
Porque é que a economia está mais forte do que era suposto estar? - pergunta-se num artigo da Business Week. Resposta: «Numa economia baseada no conhecimento, os indicadores tradicionais não dizem tudo o que se passa. Os intangíveis, tais como a I&D, são fracamente apercebidos - se é que o são. Incluindo-os, tudo muda.»«Os mágicos estatísticos do Bureau of Economic Analysis, em Washington, podem fazer aparecer uma folha de cálculo mostrando quanto é que os caminhos de ferro gastaram em mobília. Mas não conseguem detectar os milhares de milhões que as empresas gastam em cada ano em inovação e design de produtos, criação de marcas, formação de empregados ou em quaisquer outros investimentos intangíveis, necessários para competir na economia global do presente. Isso significa que os recursos utilizados na criação de inovações de topo tais como o medicamento anti-cancerígeno Avastin, a insulina inalável, os Starbuck's (SBUX), os "exchange-traded funds"(*) ou mesmo o iPod, não aparecem nos números oficiais.» (*) - Também conhecidos como Trackers; transaccionados como acções, os exchange-traded funds (ETF) constituem uma alternativa aos fundos mútuos (ou colectivos), investidos em índices. Tal como as acções, estão sujeitos a uma comissão (na compra e venda), mas a partir daí custos são mínimos. As despesas de administração são extraordinariamente baixas, não estão sujeitos a comissões de entrada ou saída, frequentes nos fundos mutuos, são fáceis de compreender e oferecem vantagens no pagamento de impostos. (Portuguese Canadian Financial Newsletter) |
Economics Round Table
![]() Economics Round Table Informações sobre os mais recentes posts publicados por blogues de Economia. Mantido pelo Professor William R. Parke, da Universidade da Carolina do Norte. Parke é também o autor do capítulo sobre modelos económicos clássicos no site EconModel. |
Economia portuguesa: comunicações
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
Conferência do Banco de Portugal
Assisti à Conferência do Banco de Portugal, onde se destacaram as intervenções de Vítor Constância, bem como, e sobretudo, a de Olivier Blanchard.
Vitor Constâncio fez uma espécie de retrato negativo das causas da divergência da economia portuguesa face à UE (não é a evolução dos preços relativos, não é a intensidade das reformas nem a qualidade das nossas instituições, não são as diferenças de fiscalidade, não é a regulação do mercado, etç.) Salientou, por outro lado, a capacidade potencial existente para absorção de tecnologia, daí a importância que o investimento estrangeiro tem para Portugal.
Blanchard fez um diagnóstico dos nossos problemas económicos, mais "normal" do que acontece frequentemente com muitos portugueses, que gostam de salientar a "anormalidade" do caso português (no fundo, acho que ainda são resíduos da tese de António Sérgio sobre a nossa "mentalidade" retrógrada, a necessitar de "reforma", etç; se fossemos diferentes a nível dos estímulos, precisaríamos de uma teoria económica diferente só para nós, não é assim?). Blanchard encontrou até semelhanças entre a nossa evolução recente e a França de algum tempo atrás.
Disse Blanchard que a situação que tivemos, de taxas de juro baixas e uma visão optimista quanto ao futuro, explicam o agravamento, naquela altura, do endividamento e o défice fiscal. Agora é fácil dizer que foi um erro de antevisão (das famílias, das empresas, do governo) mas durante o boom fazia sentido. Por outro lado, admitiu que alguns indicadores poderiam ter alertado para uma reacção mais a tempo.
O economista de origem francesa foi igualmente muito franco quanto ao nosso futuro: ou ajustamos a economia com aumentos de produtividade, o que vai ser lento (10 anos, e se correr tudo bem) ou o fazemos com diminuição dos salários reais, o que pode ser mais rápido, mas também mais doloroso (ou mais... impossível!...)
O resto da conferência teve boas comunicações, igualmente com boas intervenções dos comentadores convidados. Uma intervenção descabida e desagradável foi protagonizada por Paulo Trigo, ao comentar (como convidado) a comunicação de Susana Peralta acerca da autonomia da fiscalidade local. A análise de Susana Peralta, por aplicação da Teoria dos Jogos ao ciclo eleitoral das autarquias locais, colocou a hipótese da fraca autonomia fiscal das autarquias e correspondente pouca transparência na afectação dos recursos fiscais, criar condições para a permanência/reeleição de políticos "egoístas", que procuram rendas para si próprios, em contrapartida com políticos "altruístas". Foi uma tese original (para mim) e bem explicada.
Paulo Trigo, que tinha feito antes uma critica cientificamente fundamentada a uma comunicação de André Castro Silva, enveredou por uma "crítica" ideológica a Susana Peralta - não só à sua comunicação, mas também à própria pessoa. Referindo ser ele mais velho e ter "conhecido" o período anterior à Revolução (mas, pela idade, até nem deve ter conhecido grande coisa...) sugeriu ignorância da jovem economista da Universidade Nova, e, até, que ela estaria a defender o salazarismo, "que não dava direito de voto às mulheres", etç. A comunicação de Susana Peralta não dizia nada disso, mas Paulo Trigo parece ter ficado incomodado com a simples sugestão de que no sistema democrático actual se geram efeitos económico-políticos perversos, como o já referido.
Ora, creio eu que um investigador que detecte, na sua investigação, efeitos perversos, deve divulgá-los, independentemente de isso beliscar os mecanismos democráticos. A ciência não tem que se auto-limitar com a ideologia ou o "politicamente correcto". Colocar hipóteses desagradáveis, testá-las e divulgá-las, ainda que possam vir a ser mais tarde infirmadas, é algo que deve ser elogiado e não criticado . Será o sistema democrático uma vaca sagrada onde não se possa tocar? Creio que não.
Vitor Constâncio fez uma espécie de retrato negativo das causas da divergência da economia portuguesa face à UE (não é a evolução dos preços relativos, não é a intensidade das reformas nem a qualidade das nossas instituições, não são as diferenças de fiscalidade, não é a regulação do mercado, etç.) Salientou, por outro lado, a capacidade potencial existente para absorção de tecnologia, daí a importância que o investimento estrangeiro tem para Portugal.
Blanchard fez um diagnóstico dos nossos problemas económicos, mais "normal" do que acontece frequentemente com muitos portugueses, que gostam de salientar a "anormalidade" do caso português (no fundo, acho que ainda são resíduos da tese de António Sérgio sobre a nossa "mentalidade" retrógrada, a necessitar de "reforma", etç; se fossemos diferentes a nível dos estímulos, precisaríamos de uma teoria económica diferente só para nós, não é assim?). Blanchard encontrou até semelhanças entre a nossa evolução recente e a França de algum tempo atrás.
Disse Blanchard que a situação que tivemos, de taxas de juro baixas e uma visão optimista quanto ao futuro, explicam o agravamento, naquela altura, do endividamento e o défice fiscal. Agora é fácil dizer que foi um erro de antevisão (das famílias, das empresas, do governo) mas durante o boom fazia sentido. Por outro lado, admitiu que alguns indicadores poderiam ter alertado para uma reacção mais a tempo.
O economista de origem francesa foi igualmente muito franco quanto ao nosso futuro: ou ajustamos a economia com aumentos de produtividade, o que vai ser lento (10 anos, e se correr tudo bem) ou o fazemos com diminuição dos salários reais, o que pode ser mais rápido, mas também mais doloroso (ou mais... impossível!...)
O resto da conferência teve boas comunicações, igualmente com boas intervenções dos comentadores convidados. Uma intervenção descabida e desagradável foi protagonizada por Paulo Trigo, ao comentar (como convidado) a comunicação de Susana Peralta acerca da autonomia da fiscalidade local. A análise de Susana Peralta, por aplicação da Teoria dos Jogos ao ciclo eleitoral das autarquias locais, colocou a hipótese da fraca autonomia fiscal das autarquias e correspondente pouca transparência na afectação dos recursos fiscais, criar condições para a permanência/reeleição de políticos "egoístas", que procuram rendas para si próprios, em contrapartida com políticos "altruístas". Foi uma tese original (para mim) e bem explicada.
Paulo Trigo, que tinha feito antes uma critica cientificamente fundamentada a uma comunicação de André Castro Silva, enveredou por uma "crítica" ideológica a Susana Peralta - não só à sua comunicação, mas também à própria pessoa. Referindo ser ele mais velho e ter "conhecido" o período anterior à Revolução (mas, pela idade, até nem deve ter conhecido grande coisa...) sugeriu ignorância da jovem economista da Universidade Nova, e, até, que ela estaria a defender o salazarismo, "que não dava direito de voto às mulheres", etç. A comunicação de Susana Peralta não dizia nada disso, mas Paulo Trigo parece ter ficado incomodado com a simples sugestão de que no sistema democrático actual se geram efeitos económico-políticos perversos, como o já referido.
Ora, creio eu que um investigador que detecte, na sua investigação, efeitos perversos, deve divulgá-los, independentemente de isso beliscar os mecanismos democráticos. A ciência não tem que se auto-limitar com a ideologia ou o "politicamente correcto". Colocar hipóteses desagradáveis, testá-las e divulgá-las, ainda que possam vir a ser mais tarde infirmadas, é algo que deve ser elogiado e não criticado . Será o sistema democrático uma vaca sagrada onde não se possa tocar? Creio que não.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
(título do Público)
É verdade que o Jorge Palma descobriu que nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Mas não será um bocadinho tarde, Sr. Presidente?...Ai o Estado...
| André Carraro é um economista brasileiro que, entre outras coisas, lecciona na Universidade de Santa Cruz do Sul e escreve para o blogue Economia Everywhere; na revista "Contexto Económico" encontramos um seu texto sobre "Economia x Corrupção", onde lista as desvantagens e vantagens da corrupção. Vale a pena atentar nestas últimas: |
«Qual é o benefício da corrupção? Bem ou mal, os investimentos acontecem e os processos têm andamento. Quando um empresário encontra um funcionário público honesto, que segue as regras e as normas estabelecidas, o custo para a empresa é a lentidão no andamento dos processos, já que existe excesso de regulamentação. Assim, a saída para o empresário é encontrar um funcionário que demande propina
Não existe competição dentro do serviço público, assim como não existe competição pela oferta de serviço público. Existe, sim, o chamado poder discricionário, ou seja, alguém tem o poder de decidir quem vai receber o serviço ou o bem público, através da utilização de critérios técnicos ou políticos. É desta forma que ocorre a venda do serviço público. Para a sociedade, isso tem um custo imenso, pois o resultado é a redução da rentabilidade do capital ao menor investimento.
O que fazer? Não existe uma resposta única e definitiva, mas um procesos em discussão. Enquanto acharmos que a solução para o fenómeno da corrupção no Brasil está na denúncia e na punição de indivíduos, não haverá mudança nas regras do jogo. As regras do jogo estão equivocadas. A formação do Estado está equivocada. A solução para a corrupção está na denúncia do fracasso do Estado nacional. É preciso mudar o enfoque, pois a corrupção é um problema de instituições equivocadas.»
Noutro post pergunta ao leitor que prenda daria ao presidente Lula no jogo do "amigo oculto": a) um livro do Saramago b) a reeleição c) o jogo banco imobiliário d) um novo ministro da fazenda e) um projecto de governo (via De gustibus) |
Bons conselhos
| «Algumas noções de Direito para blogueiros»: texto que se reporta ao Brasil mas que tem ensinamentos generalizáveis. Via Economia Everywhere, onde funciona como aconselhamentos a potenciais comentadores. Eis alguns excertos: Alguns cuidados na redação de críticas |
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
A terra do lazer
Ainda não há muito tempo "toda a gente" (um famoso personagem criado por Gil Vicente) dizia que quem mais se baldava ao trabalho eram os "europeus" (personagem que ainda não existe, apesar das inúmeras tentativas) e que, por isso, estavam a ficar para trás, em termos de produtividade, face aos americanos. Mas eis que dois desses workaholics americanos - Mark Aguiar e Erik Hurst - decidem «construir 4 diferentes medidas de lazer, a mais estreita das quais inclui apenas actividades que toda a gente considera de relaxamento ou de diversão; a mais abrangente inclui tudo o que não está relacionado com um trabalho remunerado, tarefas domésticas ou simples deslocações.» Pois bem: seja qual for o indicador utilizado os americanos, ao longo dos últimos 40 anos, têm ganho mais tempo livre do que pensavam. A discrepância entre este estudo e os anteriores parece decorrer de questões metodológicas. Os estudos anteriores apoiaram-se exclusivamente nas estatísticas oficiais sobre "trabalho remunerado", não cuidando de saber o que é que se passava efectivamente nos períodos restantes. Os investigadores referidos analisaram o tempo gasto em compras, confecção de alimentos, deslocações e manutenção da casa. São estas ocupações que levam as pessoas a dizer que estão muito sobrecarregadas com trabalho - principallmente as mulheres trabalhadoras com filhos. O estudo mostrou que os americanos gastam agora muito menos tempo nestas tarefas do que há 40 anos atrás, devido a várias causas: aparelhagens domésticas, entregas em casa, internet, compras 24 horas e serviços domésticos a preço acessível. Tudo isto aumentou a flexibilidade e libertou tempo às pessoas. Aguardemos agora que alguém faça o mesmo exercício de análise aos europeus. O estudo de Mark Aguiar e Erik Hurst encontra-se expresso neste paper publicado pela Reserva Federal de Bonston: "Measuring Trends in Leisure: The Allocation of Time over Five Decades" (pdf). [Sim, o estudo abrange um período 40 anos, desde 1965 até ao presente, mas percorre 5 décadas, capice ?] |
Conferência do Banco de Portugal
| É já no próximo dia 10 de Fevereiro que terá lugar, na Gulbenkian, a III Conferência: “Desenvolvimento Económico Português no Espaço Europeu”, uma iniciativa do Banco de Portugal. Do programa, que se encontra disponível aqui, destacam-se: |
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
DiscoverEcon

usando a tecnologia no ensino da Economia
Entrevista com Gerald Nelson - 29.Jan.2006 - 27:36m (mp3)
Crédito: RadioEconomics.com - James Reese
Veja uma demonstração do DiscoverEcon
url da entrevista:
http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20060129-509.mp3
url da demonstração:
http://www.discoverecon.com/decon.swf
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Tem graça
Escreve VascoPulido Valente no seu blogue:
Quem diria que ainda veríamos VPV a defender o Estado Providência!... O argumento segue assim: como as pessoas "não vão com certeza ocupar indefinidamente os lugares de responsabilidade e direcção, porque perderam a força, a inteligência, a capacidade de aprender e se tornaram pouco a pouco um obstáculo ou até um risco", terão de ser despromovidas. E remata: "não gostaria de o ver a ele, com 78 anos, gaguejante e trémulo, como encarregado de limpeza da Faculdade de Economia da Universidade Nova, onde iluminou tanto espírito com a luz do seu." Isto é o que se chama, na metodologia da ciência, um "argumento fraco": "se as pessoas não podem ser despromovidas, então mantenha-se o Estado Providência tal como está." Mas porque é que as pessoas não hão-de poder ser despromovidas? E porque é que não hão-de poder continuar a ocupar os mesmos postos durante mais tempo? VPV tem graça, mas não convence. |
terça-feira, janeiro 31, 2006
Economia e imagiologia neural
| «O uso das técnicas de imageologia neural [neuroimaging] em contextos de mercado ainda se encontra na sua infância. Apesar de muito prometedor, é ainda necessária uma grande quantidade de trabalho experimental para determinar qual o conjunto de problemas que pode ser melhor tratado com esta abordagem, e como é que as técnicas de imagiologia neural podem complementar os métodos existentes. As técnicas de imagiologia neural não geram hipóteses só por si - e para formular hipóteses é necessário ter uma profunda compreensão dos temas envolvidos no contexto da investigação. O estudo de McLure e outros ["Neural Correlates of Behavioral Preference for Culturally Familiar Drinks"] envolvendo a Coca Cola e a Pepsi fez exactamente isso, dado existir uma literatura extensiva acerca das marcas [branding], de testes cegos e não-cegos e do papel da imagem das marcas e seu significado cultural. Também é promissor o uso da imagiologia neural para ajudar a compreender melhor o modo como a informação de mercado é consolidada na memória, ou como os padrões de activação mudam ao longo de múltiplas exposições a um dado anúncio. Além disso, pode revelar mais acerca dos componentes efectivos associados com um produto ou acerca da compensação associada à aquisição de um produto. Uma área de aplicação muito interessante envolve a dinâmica básica da realização de escolhas. Um estudo de imagiologia neural, potencialmente muito importante por colocar em causa uma assumpção central da Economia, revelou que as atitudes acerca de recompensas [payoffs] e as crenças acerca da probabilidade de resultados, interagem tanto comportamentalmente como neurologicamente ["Neuronal Substrates for Choice Under Ambiguity, Risk, Gains, and Losses"]. Isso pode ajudar-nos a determinar se um anúncio está a ter um impacto emocional duradouro ou se determinadas metáforas estão a ser efectivas.» "A behavioral window on the mind of the market: |
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«Num artigo publicado na revista Science (20.Janeiro.2006), cientistas que investigaram as capacidades cognitivas pré-linguisticas dum grupo de indígenas da Amazónia [
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