sexta-feira, março 03, 2006

Zona euro: novas projecções

O Banco de Portugal disponibilizou as mais recentes projecções macroeconómicas para a zona euro elaboradas pelo BCE:

 200520062007
 IHPC (preços no consumidor)  2,2  1,9 - 2,5  1,6 - 2,8 
 PNB real1,41,7 - 2,51,5 - 2,5
        Consumo privado1,41,7 - 2,51,5 - 2,5
        Despesa pública1,21,4- 2,40,8 - 1,8
        Formação bruta de capital fixo2,22,4 - 5,01,8- 5,0
        Exportações (Bens e Serviços)3,84,2 - 7,23,8 - 7,0
        Importações (Bens e Serviços)4,64,2 - 7,63,4 - 6,8

Lula da Silva


       Lula realista


Entrevista do Presidente Lula à revista The Economist

«Presidente Lula - (...) Há uma canção dum cantor brasileiro onde se diz que a diferença entre um homem prático e um teórico é que o teórico vê o dia como tendo 24horas, e o realista vê como estando dividido entre manhã, tarde e noite

The Economista - Quem é o cantor?

Presidente Lula - Djavan. A canção foi escrita por Djavan. Quando se ganha umas eleiçoes e se toma posse - eu, Kirchner, Evo Morales ou qualquer um - descobrimos que a arte de governar reside em fazer o que é possível.»
(referindo-se à eleição de Evo Morales)

«Durante muitos anos o Brasil viveu num eterno dilema. Primeiro o país teria de crescer para poder depois distribuir a riqueza. Mas, tal como eu o vejo, temos de distribuir a riqueza juntamente com o crescimento, para que o fosso entre as pessoas não cresça mais.»

quinta-feira, março 02, 2006

Em busca do Homo Œconomicus

«In Search of Homo Œconomicus: Behavioral Experiments in 15 Small-Scale Societies»
Artigo de Joseph Henrich, Robert Boyd, Samuel Bowles, Colin Camerer (*), Ernst Fehr, Herbert Gintis, Richard McElreath
American Economic Review, Vol. 91, No. 2,
Outra versão do mesmo texto está disponível aqui.



«Recentes investigações revelaram grandes e consistentes desvios nas previsões feitas com base no modelo do homo œconomicus, tal como é apresentado nos manuais de referência. Um problema parece residir na assumpção canónica dos economistas de que os indivíduos actuam sempre no interesse próprio: adicionalmente aos seus payoffs, muitos sujeitos experimentais parecem importar-se com a justiça e a reciprocidade, estão dispostos a redistribuir os ganhos materiais com sacrifício próprio, e estão dispostos a compensar aqueles que agem de modo cooperativo e a punir os que o não fazem, mesmo quando estas acções os penalizam. Estes desvios daquilo que designaremos como "modelo canónico" têm importantes consequências para uma vasta gama de fenómenos económicos, incluindo a configuração óptima de instituições e contratos, a alocação de direitos de propriedade, as condições para uma acção colectiva de sucesso, a análise de contratos incompletos e a persistência de prémios de salário não competitivos [noncompetitive wage premia].

«Continuam por responder questões fundamentais. Serão os desvios relativamente ao modelo canónico a evidência de padrões universais de comportamento, ou será que os ambientes económicos e sociais do indivíduo conformam o comportamento? Neste caso, que condições económicas e sociais estão envolvidas? Será o comportamento recíproco melhor explicado estatisticamente pelos atributos dos indivíduos, tais como a idade, sexo e riqueza relativa, ou pelos atributos do grupo a que o indivíduo pertence? Existirão culturas que se aproximem do modelo canónico de comportamento no interesse próprio?

«A investigação existente não pode responder a tais questões porque virtualmente todos os sujeitos estudados eram estudantes universitários, e embora ocorram diferenças culturais entre as populações de estudantes, estas diferenças são pequenas quando comparadas com a gama de todos os ambientes sociais e culturais. Para abordar este problema nós e os nossos colaboradores iniciámos um grande estudo trans-cultural de comportamento (...) Doze equipas de investigadores experimentados trabalharam em 12 países dos 5 continentes, recrutaram sujeitos de 15 sociedades de pequena escala com uma ampla variedade de condições económicas e culturais. A nossa amostra consiste de três sociedades forrageiras, seis que praticam uma horticultura de abate e queimada, quatro grupos nómadas de pastoreio e três sociedades sedentárias com agricultura de pequena escala.

«Podemos resumir os resultados da seguinte forma. Primeiro: o modelo canónico não é suportado em nenhuma das sociedades estudadas. Segundo: existe uma consideravelmente maior variabilidade entre grupos do que fora anteriormente observado em investigações similares, e o modelo canónico falha numa maior gama de maneiras do que fora observado em experiências anteriores. Terceiro: as diferenças ao nível do grupo, na organização económica e no grau de integração de mercado, explicam uma parte substancial da variação cultural entre as sociedades: quanto mais elevado é o grau de integração de mercado e mais elevados os payoffs da cooperação, mais elevado é o nível de cooperação nos jogos experimentais. Quarto: as variáveis económicas e demográficas individuais não explicam o comportamento no interior do grupo nem entre grupos. Quinto: o comportamento observado nas experiências é em geral consistente com os padrões económicos da vida do dia-a-dia nestas sociedades.»
(*) Colin Camerer é um dos pioneiros da Neuroeconomia.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Economia feminista

Alguns links para trabalhos de investigadoras desta corrente que anda em busca de uma teoria económica femininista.
A ler com  cuidado: o pós-modernismo é prejudicial à saúde! 

  Zdravka Todorova
  University of Missouri - Kansas City

  • "Incorporating Gender in Keynes’s Theory of Monetary Production: An Institutionalist Perspective" (doc)
  • "Theorizing about Agency, Gender and Environment in the Context of Monetary Production and Living Systems"
  • "Entrepreneurship does not Equal Development: A Note on Bulgaria's EU Candidacy and Competitiveness (2004)"

      Rebecca M. Blank
      University of Michigan

  • "It Takes A Nation: A New Agenda for Fighting Poverty"
  • "Is the Market Moral?"

      Lisa Saunders
      California - Berkeley

  • "Racial Differences in Transportation Access to Employment in Chicago and Los Angeles, 1980 and 1990"
  • "Prosperity for all? The Economic Boom and African American"
  • "Political Economy and the Construction of Gender: The Example of Housework Within Same-Sex Households"
  • "If You Can't Stand the Heat..."

      Myra H. Strober
      School of Education - Stanford Unversity

  • "Habits of the Mind: Challenges for Multidisciplinarity"
  • ""The Application of Mainstream Economics Constructs to Education: A Feminist Analysis" (doc)
  • "Feminist Economics: Implications for Education"

      Cordelia W. Reimers
      Hunter College - City University of New York

  • Responses to Social Security by Men and Women: Myopic and Far-Sighted Behavior

      Paula England
      Stanford University

  • "Love and Distrust Among Unmarried Parents"
  • " Does Bad Pay Cause Occupations to Feminize, Does Feminization Reduce Pay, and How Can We Tell with Longitudinal Data?"
  • "Why Are Some Academic Fields Tipping Toward Female?"
  • "Toward Gender Equality: Progress and Bottlenecks"

    S. Charusheela
  • "A decade of feminist economics"
    Publicações:
  • Feminist Economics Today: Beyond Economic Man, org. Marianne A. Ferber e Julie A. Nelson. (livro)
  • Toward a Feminist Theory of Economics (Economics as Social Theory), org.:Drucilla K. Barker, Edith Kuiper (livro)
  • Feminist Economics (revista)
  • Adam Smith e a Economia Comportamental


         Nava Ashraf



    «As duas principais obras de Adam Smith - "A Riqueza das Nações" e a "Teoria dos Sentimentos Morais" - mostram-no como um brilhante economista e também um brilhante psicólogo, mas ele nunca conseguiu juntar a Economia e a Psicologia. Na "Teoria dos Sentimentos Morais" ele descreve os factores psicológicos que subjazem à tomada de decisão, motivação e interacção, por parte dos humanos, o que certamente tem fortes implicações naquilo que orienta as decisões de consumo, de poupança, na produtividade e esforço do trabalho e nas trocas mercantis. Mas, na "A Riqueza das Nações", apenas esporadicamente ele estabeleceu ligações fortes com este trabalho.»

    «O conselho de Adam Smith aos líderes de negócios seria provavelmente que eles deveriam ponderar cuidadosamente os custos de quebrar a confiança e colocar em risco a reputação. O estudo da economia comportamental [behavioral economics ] faz exactamente esta relação entre factores psicológicos e comportamento económico e, ainda mais recentemente, tem vindo a explorar as implicações para o mercado dos consumidores e empresas poderem estar sujeitos a diversos níveis de influências psicológicas. Embora a importância dos factores psicológicos possa ser algo que os líderes de negócios compreendem há muito, só num período relativamente recente é que o campo da Economia ficou equipado com ferramentas que o habilitam a estudar rigorosamente tais fenómenos e - o que é muito importante - a ser capaz de fazer previsões sobre onde é que tais factores poderão ser mais ou menos importantes, quando é que as forças do mercado podem atenuar ou exacerbar tais factores, etc.»

    Nava Ashraf, em entrevista a Ann Cullen
    in Working Knowledge - 16.Jan.2006


    Artigos e papers de Nava Ashraf
  • "Adam Smith, Behavioral Economist"
  • "Spousal Control and Intra-Household Decision Making: An Experimental Study in the Philippines"
  • "Deposit Collectors"
  • "Tying Odysseus to the Mast: Evidence from a Commitment Savings Product in the Philippines"
  • "Testing Savings Product Innovations Using an Experimental Methodology"
  • "A Review of Commitment Savings Products in Developing Countries"
  • sexta-feira, fevereiro 24, 2006

    Sinkovitz e Marc Miller
    Jason M. Sinkovitz e Marc T. Miller, autores de 'Selling is Dead'


    Podcast de uma entrevista com Marc Miller, co-autor do livro "Selling Is Dead (Moving Beyond Traditional Sales Roles and Practices To Revitalize Growth). Miller é também o fundador da empresa Sogistics Corporation, especializada no apoio às vendas em grande escala. Crédito: Podcast blog.

    Um outro podcast de Mark Miller sobre o mesmo assunto, disponível na página da Sogistics Corporation, pode ser ouvido aqui.

    quarta-feira, fevereiro 22, 2006

    Quando menos é mais

    "Models of Ecological Rationality: The Recognition Heuristic" (pdf), artigo de Daniel Goldstein e Gerd Gigerenzer, publicado na Psychological Review de 2002 (Vol.109).
    «Uma visão da heurística é a de que existem versões imperfeitas de procedimentos estatísticos óptimos, consideradas demasiadamente complicadas para as mentes comuns. Em contraste, os autores consideram a heurística como estratégias adaptativas que evoluem em "tandem" com mecanismos psicológicos fundamentais.

    «A heurística do reconhecimento, alegadamente a mais frugal das heurísticas, faz inferências de padrões de conhecimentos que se desconhecem. Esta heurística explora uma adaptação fundamental em muitos organismos: a vasta, sensível e confiável capacidade para o reconhecimento. Os autores especificam as condições sob as quais a heurística do reconhecimento tem sucesso e conduz ao efeito contra-intuitivo de que "menos-é-mais", segundo o qual menos conhecimento é melhor do que mais, para se fazerem inferências precisas.»

    Daniel Goldstein extrapola a coisa para os domínios do marqueting.

    artigos relacionados:
  • "O papel do reconhecimento do acaso no raciocínio indutivo" (pdf)
  • "The use of recognition in group decision-making" (pdf)
  • "Simple Heuristics That Make Us Smart" (livro)
  • "Not so fast!(and not so frugal!): rethinking the recognition heuristic"
  • "On Ignorance, Intuition, and Investing: A Bear Market Test of the Recognition Heuristic"
  • "Ignorance is bliss" (pdf)
  • "How Forgetting Aids Heuristic Inference" (pdf)
  • terça-feira, fevereiro 21, 2006

    Pobre cérebro...


    Olhe bem para estas duas imagens da Gioconda. Que lhe parecem? Clique nelas para as aumentar um pouco, se quizer (mas depois feche a janela que abriu).

    Agora veja as imagens direitas, aqui.

    Afinal, o que é que se passa com o seu cérebro?
    Será que comete os mesmos erros quando faz essas suas análises tão bem elaboradas?

    Ainda chegará o dia em que diremos: "eu ainda sou do tempo em que acreditava no que via..."

    Petróleo, mercado e segurança


    Oil market power and United States national security" (pdf) - artigo de Roger Stern publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 31 de Janeiro de 2006.
    «It is widely believed that an oil weapon could impose scarcity upon the United States. Impending resource exhaustion is thought to exacerbate this threat. However, threat seems implausible when we consider strategic deficits of prospective weapon users and the improbability of impending resource exhaustion. Here, we explore a hypothesis relating oil to national security under a different assumption, abundance. We suggest that an oil cartel exerts market power to keep abundance at bay, commanding monopoly rents [or wealth transfers (wt)] that underwrite security threats. We then compare security threats attributed to the oil weapon to those that may arise from market power.

    We first reexamine whether oil is abundant or scarce by reviewing current development data, then we estimate a competitive price for oil. From this, we derive wt2004 collections by Persian Gulf states $132-178 x 109. We find that wt and the behavior of states collecting it interact to actuate security threats. Threats underwritten by wt are (i) the potential for emergence of a Persian Gulf superpower and (ii) terrorism.

    It is therefore oil market power, not oil per se, that actuates threats. We also describe a paradox in the relation of market power to the United States' defense doctrine of force projection to preempt a Gulf superpower. Because the superpower threat derives from wt, force alone cannot preempt it. A further paradox is that because foreign policy is premised on oil weapon fear, market power is appeased. Threats thereby grow unimpeded.»

    Aprendendo com os furacões

    "Making a virtue out of a necessity: Hurricanes and the resilience of community organization" - artigo de Robert D. Holt publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 6 de Fevereiro de 2006:
    «Most of us these days are all too aware of the disruptive impact of hurricanes in human affairs. Yet disturbances ranging from minor local disruptions to massive large-scale catastrophes are part-and-parcel of life in most natural ecosystems.

    These disturbances often provide scientific opportunities, because sometimes one learns the most about how a system functions by watching it recover after it has been kicked by a major disturbance. Ecologists increasingly recognize that the structure of natural communities reflects the interplay of processes acting over a wide range of temporal and spatial scales that are well beyond the scope of manipulative experiments.

    The article by Schoener and Spiller provides a deft testament to the insights that can sometimes be gleaned from "natural" experiments generated by large-scale disturbances, which permit an examination of system responses that could not be readily examined with manipulative experiments.»

    Milton Friedman


    Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969

    Entrevista de Milton Friedman ao
    New Perspectives Quarterly:
    NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?

    Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)

    NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?

    Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
       O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.
       Neste momento, claro, a Alemanha não pode sair do euro. O que tem de fazer, portanto, é tornar a economia mais flexível — para eliminar as restrições sobre preços, salários e emprego; em resumo, a regulamentação que mantém 10% da força de trabalho alemã desempregada. Isto é bastante mais urgente do que seria se a Alemanha não estivesse no euro.
       Este conjunto de políticas abriria o potencial da Alemanha. Apesar de tudo, a Alemanha possui uma força de trabalho muito capaz e produtiva. Tem produtos de alta qualidade que são valorizados em todo o mundo. Tem todas as possibilidades para ser um estado produtivo e em crescimento. Tem apenas que dar oportunidade aos empreendedores. Tem de os deixar fazer dinheiro, empregar e despedir, e agir como empreendedores.
       Em vez disso, o que temos em resultado de políticas do passado é que os empreendedores alemães vão para o exterior da Alemanha com muitas das suas actividades. Estão a investir fora porque não existe a abertura, fluidez e oportunidade que encontram fora das fronteiras.

    NPQ | O primeiro-ministro inglês Tony Blair argumenta que existe uma "terceira via" — por exemplo, mercados de trabalho flexíveis sem o estilo americano de emprega-e-despede. Ele argumenta que isto é mais ajustado ao "modelo social europeu" com a sua forte preocupação com a justiça social. Existirá um caminho intermédio, ou terá de ser tudo-ou-nada?

    Friedman | Não creio que exista uma terceira via. Mas é verdade que um mercado competitivo não representa a totalidade de uma sociedade. Uma grande parte depende das qualidades da população e da nação, no modo como organizam os aspectos não-mercantis da sociedade.

    NPQ | Talvez os países escandinavos tenham um modelo a merecer atenção. São sociedades com impostos elevados mas também níveis elevados de emprego. E libertaram mais os seus mercados de trabalho do que em Itália, na França ou na Alemanha.

    Friedman | Embora isto não seja tão verdade como já foi, devido ao influxo migratório, os países escandinavos têm pequenas populações muito homogéneas. Isso permite-lhes safar-se com um modelo que não funcionaria noutras condições.
       O que funciona para a Suécia não serve para a França, Alemanha ou Itália. Num estado pequeno pode recorrer-se ao exterior para muitas das actividades. Numa cultura homogénea estão mais dispostos a pagar impostos mais elevados para atingir objectivos comuns. Mas "objectivos comuns" são muito mais difíceis de conseguir em populações maiores e mais heterogéneas.
       A grande virtude dos mercados livres é que permitem a pessoas que se odeiam umas às outras, ou que pertencem a religiões ou grupos étnicos muito diferentes, a cooperação económica. A intervenção do governo não pode conseguir isso. As políticas exacerbam e ampliam as diferenças.
    (...)

    NPQ | Com a globalização, temos a economia mais livre que jamais se viu?

    Friedman | Oh não. Tínhamos comércio muito mais livre no século XIX. Temos agora muito menos globalização do que nessa altura.
       Caminharemos no futuro para esta liberdade do século XIX? Não sei. Temos um mundo mais livre por causa do colapso da União Soviética e das mudanças na China. Essas foram as maiores contribuições para a liberdade no nosso tempo. Os países que se ergueram e separaram como resultado do colapso da União Soviética estão, no conjunto, a seguir políticas económicas mais livres. Muitos destes estados possuem governo mais livre e menos restrições ao comércio.
       Esta base de mercado livre deverá expandir-se como exemplo para outros, não tão livres. Toda a gente, em todo o lado, compreende agora que o caminho para o sucesso dos países menos desenvolvidos é o livre mercado e a globalização.

    NPQ | No fim, as suas ideias triunfaram sobre Marx e Keynes. Será isto o fim do caminho para o pensamento económico? Haverá algo mais a dizer para além de que os mercados livres são o modo mais eficiente de organizar a sociedade? Será isto o "fim da história", como disse Francis Fukuyama?

    Friedman | Oh não. “Mercados livres” é uma expressão muito genérica. Muitas espécies de problemas hão-de emergir. Os mercados livres funcionam melhor quando a transacção entre dois indivíduos afecta apenas esses indivíduos. Mas não acontece assim. O que acontece mais frequentemente é que uma transacção entre nós os dois vá afectar uma terceira pessoa. Essa é a fonte de todos os problemas para a governação. Essa é a fonte dos problemas de poluição, de desigualdade. Existem alguns bons economistas, como Gary Becker e Bob [Robert] Lucas que estão a trabalhar nestes temas. Esta realidade assegura-nos que o fim da história nunca acontecerá.

    sexta-feira, fevereiro 17, 2006

    Pérolas a Economistas


    Miss Pearls poderia ser tomada como o nosso "paradoxo do valor" ("diamantes e água", "água e pérolas", é tudo o mesmo); deve ser por isso que calhou agora uma citação da The Theory of the Leisure Class de Thorstein Veblen.

    Qualquer citação de um economista, ainda que não-mainstream, é bem-vinda.

    quinta-feira, fevereiro 16, 2006

    Pós-modernismo morre na Amazónia

    «Num artigo publicado na revista Science (20.Janeiro.2006), cientistas que investigaram as capacidades cognitivas pré-linguisticas dum grupo de indígenas da Amazónia [Munduruku], demonstraram que os indivíduos possuem uma conceptualização nuclear da geometria euclidiana.

    Este relatório dá a estocada final no vampiro do pós-modernismo. A lógica (dedução), a aritmética e a geometria Euclidiana têm as suas conceptualizações nucleares em capacidades não-linguísticas (e pré-linguísticas) do cérebro humano. Não há motivos para pensar que estas capacidades não sejam partilhadas por todos os seres humanos (uma vez que existe tão pouca variabilidade na espécie humana). Existe uma natureza humana universal e uma racionalidade nuclear partilhada por todos os humanos.»


    "Postmodernism Dies Yet Again" - Body Parts
    artigo no Live Science
    post no Maza’ Weblog

    Consenso de Copenhaga



    No âmbito do Consenso de Copenhaga 2004 um grupo de conhecidos economistas analisou um conjunto de projectos, tendo em consideração essencialmente os custos e benefícios económicos. Mais especificamente: os especialistas foram desafiados a responder à seguinte questão, relativamente a um conjunto projectos previamente identificados pela ONU: "Qual seria a melhor maneira de aumentar o bem-estar global, e particulamente o bem-estar dos países em desenvolvimento, supondo que um financiamente adicional de 50 mil milhões de dólares (*) em recursos estaria à disposição dos governos?"

    O painel de especialistas foi constituído por:
  • Jagdish N. Bhagwati
  • Robert W. Fogel
  • Bruno S. Frey
  • Justin Yifu Lin
  • Douglass C. North
  • Thomas C. Schelling
  • Vernon L. Smith
  • Nancy L. Stokey

    As conclusões - que foram comentadas neste artigo do The Economist - encontram-se disponíveis aqui (pdf) e estão resumidas no quadro seguinte. Repare-se na má classificação do Protocolo de Quioto, ao contrário da liberalização do comércio.

    classificaçãodesafiooportunidade
    muito bom1doençascontrolo do HIV/SIDA
    2má-nutriçãofornecimento de micro-nutrientes
    3subsídios e comércioliberalização do comércio
    4doençascontrolo da malária
    bom5má-nutriçãodesenvolvimento de novas tecnologias agrícolas
    6água e saneamentotecnologia de água de pequena escala
    7água e saneamentogestão comunitária da água e saneamento
    8água e saneamentoinvestigação da produtividade da água na produção alimentar
    9governobaixar o custo de arranque de um novo negócio
    suficiente10migraçãobaixar as barreiras à migração de trabalhadores qualificados
    11má-nutriçãomelhorar a alimentação infantil
    12má-nutriçãoreduzir a prevalência de pesos baixos à nascença
    13doençasserviços básicos de saúde
    mau14migraçãoprogramas "guest worker" para imigrantes não qualificados
    15climataxa de carbono óptima
    16climaProtocolo de Quioto
    17climaTaxa de carbono "value-at-risk"


    Via Catallarchy.


    (*) - "$50 billion", no original; reina alguma confusão quanto ao significado de "billion": veja-se por exemplo o site Ciberdúvidas e a Wikipédia. No entanto, parece não haver dúvida de que, nos EUA, "billion" = 109.

  • quarta-feira, fevereiro 15, 2006

    A vida exagerada de Martín Romaña




    A mim parece-me que é preciso sofrer de uma qualquer doença rara, indiagnosticada e paradoxal, para ler - com prazer! - as 500 páginas d´"A Vida Exagerada de Martin Romaña". Será que o masoquismo decorrente da repetida ruminação dos equívocos dos anos 60 e do "Maio de 68" pode explicar tal fervor?

    Enfim: aqui fica um trecho em que a personagem Martin Romaña é visitada pelo Autor, Alfredo Bryce Echenique, supostamente para lhe roubar a mulher, a marxista Inês, a qual, depois de ter cuspido (metaforicamente) no escritor capitalista, redime-o pelo facto de ter publicado um romance em Cuba.

    A seguir: Alfredo Bryce Echenique relata um episódio pessoal, coincidente com o que aconteceu com Martín Romaña (e ainda dizem que não há coincidências...)

    Reproducción de videos con Windows Media Player












    Arquivo da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. A propósito: quando é que o Instituto Camões nos oferece uns Eças e uns Camilos video-sonoros ?
    url do podcast ~ url do video
    outros ficheiros sonoros do mesmo autor

    terça-feira, fevereiro 14, 2006

    Não blogarás em... solitário!

    O Abrupto apresenta um bem humorado exercício "legislativo": um Decálogo sobre os debates na blogosfera portuguesa. Quem será que enfia o barrete? Quanto ao Pura Economia, levanta-se apenas uma dúvida: a Sexta Lei diz que (a) «Os blogues são grupais, precisam imenso de companhia» e (b) «A blogosfera tem evoluído do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual».

    A dúvida é: a que grupo ou tribo pertence o Pura Economia? Eu sei que já fui citado por blogues liberais e libertários, links que depois esmorecem quando aqui surgem referências solidárias, intervencionistas ou keynesianas, etç, Tal como já fui citado por blogues solidários e intervencionistas, links que depois declinam quando aqui surgem referências liberais e libertárias.

    Mas talvez seja ainda cedo para entrar em pânico. Considerando que ao Decálogo do Abrupto ainda faltam quatro Leis (ainda está na versão Beta), aguardo que as Leis faltantes me esclareçam esta solitária angústia.

    segunda-feira, fevereiro 13, 2006

    Chile, segundo a BBC



    Podcast do programa "In Business", da BBC,
    sobre a economia do Chile - 9.Fev.2006 - 28:08 m

    url

    Universidades na net


    Distribuição das primeiras 200 universidades, por país.

    O Webometrics é um ranking das universidades de todo o mundo em função da sua presença na net. O processo de classificação ainda é questionável (a metodologia é apresentada aqui) mas vale a pena dar uma vista de olhos. Os indicadores utilizados são:
  • tamanho: número de páginas;
  • visibilidade: total de links externos recebidos;
  • ficheiros especiais: (pdf, ps, doc. ppt).

    Na lista das três mil universidades classificadas, encontram-se as seguintes sete portuguesas:

    Universidade ordem  ordem por indicador 
     tamanho  visibilidade  ficheiros 
    especiais
     Univ. Técnica Lisboa438438568239
     Univ. do Porto447316540689
     Univ. Coimbra461574489454
     Univ. Minho643640809442
     Univ. Lisboa682838700772
     Univ. Nova de Lisboa699832791519
     Univ. Aveiro9858491.233864

    Na lista de centros de investigação encontra-se o Instituto Superior Técnico, na posição nº 70.
  • Também tu, Blanchard!...


    O Diário de Notícias apresenta uma pequena entrevista com Olivier Blanchard, onde o economista repete algumas das ideias apresentadas na Conferência do Banco de Portugal - incluindo a descrença no poder miraculoso da aposta tecnológica. Mais uma facada no Plano socrático...

    Para aumentar a produtividade, a grande aposta do Governo é a aplicação de um plano tecnológico. Deve ser a prioridade?

    «Não deve ser a principal preocupação. É muito importante melhorar o sistema educativo e tentar ser parte do mundo da alta tecnologia. Mas Portugal não vai conseguir resultados quantitativamente significativos porque não está a partir da melhor posição. Os países asiáticos estão mais bem posicionados.»

    Devemos desistir de estar na vanguarda da alta tecnologia?

    «Não, mas uma estratégia baseada na alta tecnologia não será muito eficaz. Há outras áreas onde é possível conseguir um aumento da produtividade de uma forma muito mais realista.»

    Outra proposta que faz é a redução nominal dos salários. É realista pensar nessa possibilidade?

    «Parece muito duro, e é, mas no passado costumava ser feito através das desvalorizações da moeda e era aceite. É importante salientar e convencer as pessoas que isto é a mesma coisa. É muito difícil para as pessoas aceitarem uma descida do salário nominal, mas é importante colocar esta possibilidade em cima da mesa porque pode ser a única maneira de recuperar a competitividade de forma relativamente rápida, evitando um desemprego prolongado. É necessário perceber que para aumentar a competitividade, com uma dada produtividade, é preciso que os salários em termos reais desçam. Isso vai sempre ter de acontecer. A questão é saber se se faz com desemprego ou sem desemprego. E é muito melhor fazê-lo sem desemprego.»
    Entretanto, quem não parece estar de acordo com Blanchard é a economia portuguesa, pois os últimos dados do INE apontam para um agravamento dos custos do trabalho. O ICT cresceu 3,9 % em média, em 2005: mais 2,4 pontos percentuais do que em 2004. A evolução no último trimestre de 2005 representa, no entanto, uma desaceleração face ao trimestre imediatamente anterior. Tratam-se de dados ainda não corrigidos dos efeitos sazonais.

    domingo, fevereiro 12, 2006

    Dia da caça

    [via Julgamento Público]

    sábado, fevereiro 11, 2006

    Economia oculta


    Economia oculta [clique]

    Porque é que a economia está mais forte do que era suposto estar?
    - pergunta-se num artigo da Business Week. Resposta: «Numa economia baseada no conhecimento, os indicadores tradicionais não dizem tudo o que se passa. Os intangíveis, tais como a I&D, são fracamente apercebidos - se é que o são. Incluindo-os, tudo muda.»
    «Os mágicos estatísticos do Bureau of Economic Analysis, em Washington, podem fazer aparecer uma folha de cálculo mostrando quanto é que os caminhos de ferro gastaram em mobília. Mas não conseguem detectar os milhares de milhões que as empresas gastam em cada ano em inovação e design de produtos, criação de marcas, formação de empregados ou em quaisquer outros investimentos intangíveis, necessários para competir na economia global do presente. Isso significa que os recursos utilizados na criação de inovações de topo tais como o medicamento anti-cancerígeno Avastin, a insulina inalável, os Starbuck's (SBUX), os "exchange-traded funds"(*) ou mesmo o iPod, não aparecem nos números oficiais.»


    (*) - Também conhecidos como Trackers; transaccionados como acções, os exchange-traded funds (ETF) constituem uma alternativa aos fundos mútuos (ou colectivos), investidos em índices. Tal como as acções, estão sujeitos a uma comissão (na compra e venda), mas a partir daí custos são mínimos. As despesas de administração são extraordinariamente baixas, não estão sujeitos a comissões de entrada ou saída, frequentes nos fundos mutuos, são fáceis de compreender e oferecem vantagens no pagamento de impostos. (Portuguese Canadian Financial Newsletter)

    Economics Round Table


    Economics Round Table

    Informações sobre os mais recentes posts publicados por blogues de Economia.
    Mantido pelo Professor William R. Parke, da Universidade da Carolina do Norte. Parke é também o autor do capítulo sobre modelos económicos clássicos no site EconModel.

    Economia portuguesa: comunicações

    O Banco de Portugal já disponibilizou em linha as comunicações da Conferência que teve ontem lugar na Gulbenkian (ficheiros pdf):

  • "Abertura" - Vítor Constâncio, Governador do Banco de Portugal (é apenas uma pequena parte da intervenção, nem sequer é um resumo)

  • "The Structural Transformation and Aggregate Productivity in Portugal" - Margarida Duarte, do Carnegie Mellon University, e Diego Restuccia, da University of Toronto

  • "Taxes and Labor Supply: Portugal, Europe, and the United States" - André de Castro Silva, da Universidade Nova de Lisboa

  • "Budget Setting Autonomy and Political Accountability" - Susana Peralta, da Universidade Nova de Lisboa

  • "Adjustment within the Euro. The Difficult Case of Portugal" - Olivier Blanchard, do Massachusetts Institute of Technology

  • "Equality of Opportunity and Educational Achievement in Portugal" - Pedro Carneiro, da University College of London

  • "The Internal Rate of Return to On-the-Job Training" - Rita Almeida, do Banco Mundial

  • "Will the East Follow Portugal?" - Cátia Batista, da University of Oxford

  • "Small Firms in Portugal: A Selective Survey of Stylized Facts, Economic Analysis and Policy Implications" - Luís Cabral, da New York University

  • "Asymmetric Information in the Stock Market: Economic News and Co-movement Between US and Portugal" - Rui Albuquerque, da Boston University, e Clara Vega, da University of Rochester

    Margarida DuarteDiego RestucciaOlivier Blanchard
    André de Castro SilvaPedro CarneiroRita AlmeidaSusana Peralta
    Cátia BatistaLuís CabralRui AlbuquerqueClara Vega
  • sexta-feira, fevereiro 10, 2006

    Conferência do Banco de Portugal

    Assisti à Conferência do Banco de Portugal, onde se destacaram as intervenções de Vítor Constância, bem como, e sobretudo, a de Olivier Blanchard.

    Vitor Constâncio fez uma espécie de retrato negativo das causas da divergência da economia portuguesa face à UE (não é a evolução dos preços relativos, não é a intensidade das reformas nem a qualidade das nossas instituições, não são as diferenças de fiscalidade, não é a regulação do mercado, etç.) Salientou, por outro lado, a capacidade potencial existente para absorção de tecnologia, daí a importância que o investimento estrangeiro tem para Portugal.

    Blanchard fez um diagnóstico dos nossos problemas económicos, mais "normal" do que acontece frequentemente com muitos portugueses, que gostam de salientar a "anormalidade" do caso português (no fundo, acho que ainda são resíduos da tese de António Sérgio sobre a nossa "mentalidade" retrógrada, a necessitar de "reforma", etç; se fossemos diferentes a nível dos estímulos, precisaríamos de uma teoria económica diferente só para nós, não é assim?). Blanchard encontrou até semelhanças entre a nossa evolução recente e a França de algum tempo atrás.

    Disse Blanchard que a situação que tivemos, de taxas de juro baixas e uma visão optimista quanto ao futuro, explicam o agravamento, naquela altura, do endividamento e o défice fiscal. Agora é fácil dizer que foi um erro de antevisão (das famílias, das empresas, do governo) mas durante o boom fazia sentido. Por outro lado, admitiu que alguns indicadores poderiam ter alertado para uma reacção mais a tempo.

    O economista de origem francesa foi igualmente muito franco quanto ao nosso futuro: ou ajustamos a economia com aumentos de produtividade, o que vai ser lento (10 anos, e se correr tudo bem) ou o fazemos com diminuição dos salários reais, o que pode ser mais rápido, mas também mais doloroso (ou mais... impossível!...)

    O resto da conferência teve boas comunicações, igualmente com boas intervenções dos comentadores convidados. Uma intervenção descabida e desagradável foi protagonizada por Paulo Trigo, ao comentar (como convidado) a comunicação de Susana Peralta acerca da autonomia da fiscalidade local. A análise de Susana Peralta, por aplicação da Teoria dos Jogos ao ciclo eleitoral das autarquias locais, colocou a hipótese da fraca autonomia fiscal das autarquias e correspondente pouca transparência na afectação dos recursos fiscais, criar condições para a permanência/reeleição de políticos "egoístas", que procuram rendas para si próprios, em contrapartida com políticos "altruístas". Foi uma tese original (para mim) e bem explicada.

    Paulo Trigo, que tinha feito antes uma critica cientificamente fundamentada a uma comunicação de André Castro Silva, enveredou por uma "crítica" ideológica a Susana Peralta - não só à sua comunicação, mas também à própria pessoa. Referindo ser ele mais velho e ter "conhecido" o período anterior à Revolução (mas, pela idade, até nem deve ter conhecido grande coisa...) sugeriu ignorância da jovem economista da Universidade Nova, e, até, que ela estaria a defender o salazarismo, "que não dava direito de voto às mulheres", etç. A comunicação de Susana Peralta não dizia nada disso, mas Paulo Trigo parece ter ficado incomodado com a simples sugestão de que no sistema democrático actual se geram efeitos económico-políticos perversos, como o já referido.

    Ora, creio eu que um investigador que detecte, na sua investigação, efeitos perversos, deve divulgá-los, independentemente de isso beliscar os mecanismos democráticos. A ciência não tem que se auto-limitar com a ideologia ou o "politicamente correcto". Colocar hipóteses desagradáveis, testá-las e divulgá-las, ainda que possam vir a ser mais tarde infirmadas, é algo que deve ser elogiado e não criticado . Será o sistema democrático uma vaca sagrada onde não se possa tocar? Creio que não.

    terça-feira, fevereiro 07, 2006

      «Educação e desenvolvimento económico na agenda de Jorge Sampaio»  

    (título do Público)

    É verdade que o Jorge Palma descobriu que nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Mas não será um bocadinho tarde, Sr. Presidente?...

    Ai o Estado...


        André Carraro

    André Carraro é um economista brasileiro que, entre outras coisas, lecciona na Universidade de Santa Cruz do Sul e escreve para o blogue Economia Everywhere; na revista "Contexto Económico" encontramos um seu texto sobre "Economia x Corrupção", onde lista as desvantagens e vantagens da corrupção. Vale a pena atentar nestas últimas:
    «Qual é o benefício da corrupção? Bem ou mal, os investimentos acontecem e os processos têm andamento. Quando um empresário encontra um funcionário público honesto, que segue as regras e as normas estabelecidas, o custo para a empresa é a lentidão no andamento dos processos, já que existe excesso de regulamentação. Assim, a saída para o empresário é encontrar um funcionário que demande propina

    Não existe competição dentro do serviço público, assim como não existe competição pela oferta de serviço público. Existe, sim, o chamado poder discricionário, ou seja, alguém tem o poder de decidir quem vai receber o serviço ou o bem público, através da utilização de critérios técnicos ou políticos. É desta forma que ocorre a venda do serviço público. Para a sociedade, isso tem um custo imenso, pois o resultado é a redução da rentabilidade do capital ao menor investimento.

    O que fazer? Não existe uma resposta única e definitiva, mas um procesos em discussão. Enquanto acharmos que a solução para o fenómeno da corrupção no Brasil está na denúncia e na punição de indivíduos, não haverá mudança nas regras do jogo. As regras do jogo estão equivocadas. A formação do Estado está equivocada. A solução para a corrupção está na denúncia do fracasso do Estado nacional. É preciso mudar o enfoque, pois a corrupção é um problema de instituições equivocadas.»


           Isabeli Fontana

    André Carraro é também um homem de humor corrosivo, como se pode ver nos seus posts no Economia Everywhere. Num deles coloca ao leitor o seguinte desafio mental: «Mas, o que aconteceria se a sociedade fosse aos poucos mudando a forma como ela identifica o criminoso? O que aconteceria se de ladrão um criminoso fosse chamado de operário» - isto a propósito da opinião da modelo Isabeli Fontana sobre os ladrões que a assaltaram na rua: «Eles não têm culpa, pois fazem isso para ganhar a vida. Isso é mais um exemplo de que as pessoas devem se preocupar em ajudar umas as outras.»

    Noutro post pergunta ao leitor que prenda daria ao presidente Lula no jogo do "amigo oculto":
          a) um livro do Saramago
          b) a reeleição
          c) o jogo banco imobiliário
          d) um novo ministro da fazenda
          e) um projecto de governo

    (via De gustibus)

    Bons conselhos

    «Algumas noções de Direito para blogueiros»: texto que se reporta ao Brasil mas que tem ensinamentos generalizáveis.
    Via Economia Everywhere, onde funciona como aconselhamentos a potenciais comentadores. Eis alguns excertos:
    Alguns cuidados na redação de críticas

    A crítica deve ser objectiva. Isso significa que ela não deve ser feita à pessoa, mas a um facto, a algo que ela fez. Numa crítica literária, deve-se discutir a obra, não o autor. Numa crítica ao comportamento de alguém, deve-se criticar apenas a atitude desagradável.

    As críticas subjectivas, em regra, são possíveis tão somente quando atacam uma opinião e não uma pessoa. É lícito dizer que é estúpido o raciocínio simplista de que aumentando a pena diminui-se a criminalidade. Mas deve-se evitar dizer que a pessoa que emitiu esta opinião seja estúpida. Ainda que eventualmente os raciocínios estúpidos sejam provenientes de pessoas estúpidas, uma afirmação como essa não pode ser considerada uma ofensa, pois mesmo indivíduos brilhantes emitem opiniões infelizes.

    Deve-ser evitar criticar uma empresa sem ter algo contra ela. A reclamação pode ser feita, sim. Mas quem reclama deve fazê-lo com base em factos, não em suposições, ou porque ouviu alguém reclamar. A crítica aos serviços das empresas pode ser considerada de utilidade pública, mas deve ser dirigida ao serviço prestado, não ao dono ou à empresa como um todo, a menos que quem critique realmente tenha algo contra eles, e possa provar isso.

    Se uma empresa reclamar por e-mail do que foi escrito sobre ela, é aconselhável que o autor do blog convide-a a integrar o debate e se manifestar no espaço de comentários, dando-lhe a oportunidade de emitir sua opinião e, porventura, alterar a opinião dos demais debatedores. Não há, em princípio, a obrigação de retratação ou de retirada de comentários, a menos que os termos usados tenham sido realmente desrespeitosos e ofensivos.

    Não se deve usar o nome de uma pessoa para expô-la ao desprezo público, como nas "páginas de ódio". Isso é vedado pelo Código Civil. Evitar expor o e-mail de um desafecto também é aconselhável para não se perder o controle do debate ao estendê-lo a terceiros, nem aumentar a possibilidade de ofensas ou prejudicar o funcionamento normal do e-mail da pessoa.

    O autor do blogue tem o dever de cuidar da veracidade da informação que vai publicar, verificando sempre a origem da notícia que será divulgada. Por mais que o blogueiro tenha orgulho em ser pato do Cocadaboa, não deve divulgar boatos ou fatos não-confirmados.

    Não se pode esquecer que, mesmo usando pseudónimo, o conteúdo do blog pode facilitar a identificação de seu autor, seja por amigos ou colegas de trabalho. Assumir um pseudónimo exige cuidado redobrado nas informações disponibilizadas para não dar margem à interpretação de que o pseudónimo foi usado para fornecer informações que não seriam publicadas se fossem feitas com o próprio nome.

    A Lei de Direitos Autorais protege o direito do autor de ter seu nome associado à sua obra. Sempre que o responsável pelo blogue mencionar algo que não é da sua autoria deve indicar o nome do autor e a fonte de onde o texto foi retirado. Se a pessoa não souber quem é o autor, deve explicar que o trabalho é de autoria desconhecida. Preferencialmente, o trabalho de outrem deve ser destacado do trabalho do autor do blogue, seja por fonte diferente, recuo de margem, ou outro recurso que não deixe dúvidas quanto à autoria de cada um.

    Em hipótese alguma se pode alterar o texto de terceiros sem autorização expressa do autor, pois isso também constitui infração prevista na Lei de Direitos Autorais.

    segunda-feira, fevereiro 06, 2006

    A terra do lazer


    Variação no total de horas trabalhadas por semana, por anos de escolaridade (inclui trabalho no mercado e em tarefas domésticas).

    O gráfico da esquerda ilustra o artigo da revista The Economist, "The land of leisure", "A terra do lazer". Que terra será esta? Bem, espantemo-nos: são os EUA.

    Ainda não há muito tempo "toda a gente" (um famoso personagem criado por Gil Vicente) dizia que quem mais se baldava ao trabalho eram os "europeus" (personagem que ainda não existe, apesar das inúmeras tentativas) e que, por isso, estavam a ficar para trás, em termos de produtividade, face aos americanos.

    Mas eis que dois desses workaholics americanos - Mark Aguiar e Erik Hurst - decidem «construir 4 diferentes medidas de lazer, a mais estreita das quais inclui apenas actividades que toda a gente considera de relaxamento ou de diversão; a mais abrangente inclui tudo o que não está relacionado com um trabalho remunerado, tarefas domésticas ou simples deslocações.» Pois bem: seja qual for o indicador utilizado os americanos, ao longo dos últimos 40 anos, têm ganho mais tempo livre do que pensavam.

    A discrepância entre este estudo e os anteriores parece decorrer de questões metodológicas. Os estudos anteriores apoiaram-se exclusivamente nas estatísticas oficiais sobre "trabalho remunerado", não cuidando de saber o que é que se passava efectivamente nos períodos restantes. Os investigadores referidos analisaram o tempo gasto em compras, confecção de alimentos, deslocações e manutenção da casa. São estas ocupações que levam as pessoas a dizer que estão muito sobrecarregadas com trabalho - principallmente as mulheres trabalhadoras com filhos. O estudo mostrou que os americanos gastam agora muito menos tempo nestas tarefas do que há 40 anos atrás, devido a várias causas: aparelhagens domésticas, entregas em casa, internet, compras 24 horas e serviços domésticos a preço acessível. Tudo isto aumentou a flexibilidade e libertou tempo às pessoas.

    Aguardemos agora que alguém faça o mesmo exercício de análise aos europeus.

    O estudo de Mark Aguiar e Erik Hurst encontra-se expresso neste paper publicado pela Reserva Federal de Bonston: "Measuring Trends in Leisure: The Allocation of Time over Five Decades" (pdf).
    [Sim, o estudo abrange um período 40 anos, desde 1965 até ao presente, mas percorre 5 décadas, capice ?]

    Conferência do Banco de Portugal

    É já no próximo dia 10 de Fevereiro que terá lugar, na Gulbenkian, a III Conferência: “Desenvolvimento Económico Português no Espaço Europeu, uma iniciativa do Banco de Portugal. Do programa, que se encontra disponível aqui, destacam-se:

  • 9.30 - Vítor Constâncio , no discurso de abertura
  • 10:30 - Margarida Duarte e Diego Restuccia, "The Structural Transformation and Aggregate Productivity in Portugal
  • 11:00 - André de Castro Silva, "Taxes and Labor Supply: Portugal, Europe, and the United States"
  • 11:45 - Susana Peralta, "Budget Setting Autonomy and Political Accountability"
  • 15:30 - Pedro Carneiro, "Equality of Opportunity and Educational Achievement in Portugal"
  • 16:00 - Rita Almeida e Pedro Carneiro, "The Internal Rate of Return to On-the-Job Training"
  • 16:20 - Cátia Batista, "Will the East Follow Portugal?"
  • 17:15-Luís Cabral, "Small Firms in Portugal: A Selective Survey of Stylized Facts, Economic Analysis, and Policy Implications"
  • 18:00 - Rui Albuquerque e Clara Vega, "Asymmetric Information in the Stock Market: Economic News and Co-movement Between US and Portugal"
  • sexta-feira, fevereiro 03, 2006

    DiscoverEcon




    usando a tecnologia no ensino da Economia
    Entrevista com Gerald Nelson - 29.Jan.2006 - 27:36m (mp3)
    Crédito: RadioEconomics.com - James Reese

       Veja uma demonstração do DiscoverEcon   

    url da entrevista:
    http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20060129-509.mp3
    url da demonstração:
    http://www.discoverecon.com/decon.swf

    quarta-feira, fevereiro 01, 2006

    Tem graça

    Escreve VascoPulido Valente no seu blogue:

    «O dr. Jorge Braga de Macedo, cuja perspicácia o país já pôde apreciar, disse na televisão que "a idade de reforma devia ser indexada à esperança de vida". Parece que a Suécia, um sítio historicamente habitado por anormais, resolveu assim o problema da Segurança Social. A lógica é esta. Primeiro, uma criatura tem de durar à força de água, alface e fibras, de exercício físico e de muitos médicos. A seguir, ao fim 40 anos de sofrimento como Santo Onofre, não ganha, como Santo Onofre, o Paraíso, ganha para a bem da sua alma e do aprimoramento das contas públicas, mais trabalho. »

    Quem diria que ainda veríamos VPV a defender o Estado Providência!...

    O argumento segue assim: como as pessoas "não vão com certeza ocupar indefinidamente os lugares de responsabilidade e direcção, porque perderam a força, a inteligência, a capacidade de aprender e se tornaram pouco a pouco um obstáculo ou até um risco", terão de ser despromovidas. E remata: "não gostaria de o ver a ele, com 78 anos, gaguejante e trémulo, como encarregado de limpeza da Faculdade de Economia da Universidade Nova, onde iluminou tanto espírito com a luz do seu."

    Isto é o que se chama, na metodologia da ciência, um "argumento fraco": "se as pessoas não podem ser despromovidas, então mantenha-se o Estado Providência tal como está." Mas porque é que as pessoas não hão-de poder ser despromovidas? E porque é que não hão-de poder continuar a ocupar os mesmos postos durante mais tempo?

    VPV tem graça, mas não convence.

    terça-feira, janeiro 31, 2006

    Economia e imagiologia neural

    «O uso das técnicas de imageologia neural [neuroimaging] em contextos de mercado ainda se encontra na sua infância. Apesar de muito prometedor, é ainda necessária uma grande quantidade de trabalho experimental para determinar qual o conjunto de problemas que pode ser melhor tratado com esta abordagem, e como é que as técnicas de imagiologia neural podem complementar os métodos existentes. As técnicas de imagiologia neural não geram hipóteses só por si - e para formular hipóteses é necessário ter uma profunda compreensão dos temas envolvidos no contexto da investigação.

    O estudo de McLure e outros ["Neural Correlates of Behavioral Preference for Culturally Familiar Drinks"] envolvendo a Coca Cola e a Pepsi fez exactamente isso, dado existir uma literatura extensiva acerca das marcas [branding], de testes cegos e não-cegos e do papel da imagem das marcas e seu significado cultural. Também é promissor o uso da imagiologia neural para ajudar a compreender melhor o modo como a informação de mercado é consolidada na memória, ou como os padrões de activação mudam ao longo de múltiplas exposições a um dado anúncio. Além disso, pode revelar mais acerca dos componentes efectivos associados com um produto ou acerca da compensação associada à aquisição de um produto.

    Uma área de aplicação muito interessante envolve a dinâmica básica da realização de escolhas. Um estudo de imagiologia neural, potencialmente muito importante por colocar em causa uma assumpção central da Economia, revelou que as atitudes acerca de recompensas [payoffs] e as crenças acerca da probabilidade de resultados, interagem tanto comportamentalmente como neurologicamente ["Neuronal Substrates for Choice Under Ambiguity, Risk, Gains, and Losses"]. Isso pode ajudar-nos a determinar se um anúncio está a ter um impacto emocional duradouro ou se determinadas metáforas estão a ser efectivas.»

    "A behavioral window on the mind of the market:
    An application of the response time paradigm
    ",
    de Fred W. Mast e Gerald Zaltman.
    "Brain Research Bulletin", 15 de Novembro de 2005

    sexta-feira, janeiro 27, 2006

    Mozart

    Mozart


    "Gente, gente!" (Bodas de Figaro)







    Flauta Mágica

    A propósito dos 250 anos do nascimento de
    Wolfgang Amadeus Mozart

    http://www.luc.edu/depts/history/dennis/Music_files/Mozart%20-%20Figaro%20-%20Gente,%20gente.mp3

    http://www.karin-schoepke.de/Zauberflote.mpg


    Outras músicas de Mozart: aqui, aqui e aqui.

    terça-feira, janeiro 24, 2006

    Lendas

    O Correio da Manhã de ontem traça um perfil de Cavaco Silva onde, a certo passo, se relatam "factos" ocorridos no ISCEF/ISE. Trata-se de relatos anedóticos e provavelmente falsos. Por exemplo, creio que Cavaco Silva (como professor) e Ferro Rodrigues (como aluno) nunca se terão encontrado naquela escola. A contestação às suas aulas e a profecia de que um dia seria primeiro-ministro, perante a galhofa dos alunos, não fazem qualquer sentido. Tal como não faz sentido que a matéria leccionada por Cavaco Silva (modelos keynesianos, muito acarinhados pela ortodoxia marxista da escola, na linha das análises de conjuntura de Pereira de Moura) assentasse "como uma luva na ideologia do regime".

    Cavaco Silva nunca foi um docente popular em Económicas, particularmente devido à rigidez do seu estilo, mas era considerado competente. As disciplinas verdadeiramente contestadas no ISCEF/ISE eram as altamente selectivas Matemáticas e as leccionadas por gente marcadamente de direita, tais como as de Direito, disciplinas às quais se fizeram greves a aulas e a exames. Nunca tal aconteceu à cadeira de Cavaco Silva. Mas, enfim, é destas patranhas que se fazem as lendas, pelo que transcrevo aqui as balelas do Correio da Manhã:
    «A contestação política que a partir de 1968 agita as universidades portuguesas abate-se sobre Cavaco Silva. No Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), onde é assistente da cadeira de Finanças Públicas, o remoinho da crise estende-se ao campo científico. Cavaco Silva é contestado. Introduz na cadeira os testes à americana – a gota de água que leva à revolta dos alunos. A matéria debitada parece assentar como uma luva na ideologia do regime. Numa das aulas a turma de Ferro Rodrigues põe em dúvida a eficácia do método de avaliação e a ciência do assistente. «Cavaco fica à beira de um desmaio – e um contínuo traz-lhe um copo de água. Mais tarde, em 1975, os alunos riem-se a bandeiras despregadas com um ensinamento do professor. “Vocês vão ver. Um dia, hei-de ser primeiro-ministro”, respondeu-lhes Cavaco.»