sexta-feira, outubro 06, 2006

IgNobel

«A probabilidade de uma pessoa estragar uma foto ao piscar os olhos é igual ao número esperado de piscadelas (x) multiplicado pelo tempo durante o qual a foto pode ficar estragada (t) - se o tempo esperado entre piscadelas for maior do que o tempo durante ao qual a foto pode ficar estragada, o que é o caso. Isto faz com que a probabilidade de uma pessoa não piscar os olhos seja 1 - xt. Para duas pessoas é (1 - xt).(1 - xt) e para um grupo é (1 - xt)n, onde n é ó número de pessoas. Isto dignifica que (1 - xt)n é também a probabilidade de uma boa foto. Portanto, o número de fotos deve ser1/(1 - xt)n.»


"Blink-free photos, guaranteed"

     O Prémio IgNobel destaca investigações e descobertas "científicas" caracterizadas pela sua patetice ou inutilidade. Ao que consta, este ano não foi atribuído o IgNobel da Economia: quererá isto dizer que os economistas estão a ficar um bocadinho menos patetas e menos inúteis? Ora aqui está um bom tema de investigação para uma candidatura para o próximo ano. Tenhamos esperança.
     Ainda assim, nenhum economista que se preze poderá ficar indiferente ao Prémio IgNobel da Matemática, atribuído a Nic Svenson e Piers Barnes, da Austrália, pelo cálculo do "número de fotografias que é necessário tirar de um grupo que para que se consiga uma foto em que ninguém fique de olhos fechados". Segundo o jornal Público, "trata-se de um modelo estatístico baseado no número médio de piscadelas de olho por minuto de algém que está a posar para uma fotografia (10), na duração de uma piscadela (250 milisegundos) e no tempo de exposição do obturador da câmara em boas condições de luz interior (8 milisegundos)."
     Parece que para um grupo de 30 pessoas o mínimo serão 15 fotos, para um grau de confiança de 99% . Pensando bem nas consequências económicas que esta descoberta pode ter (tirar mais fotografias significa custos adicionais) o prémio bem podia ter sido atribuído à Economia. Investigações subsequentes poderão determinar quanto é que uma pessoa está disposta a pagar por uma fotografia com a garantia de que não ficará de olhos fechados.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Liberdade

- «Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?»

- «Que é potencialmente livre não tenho dúvidas (já li cada uma!). Mas um mortal cidadão como eu não fica mais livre. Sente-se oprimido pelo peso da sua ignorância e pelo sentimento de incapacidade de ler blogues suficientes de modo a poder destrinçar A de B. Por isso cada vez me valho mais dos jornais para evitar um blogueio mental.»

Onésimo Almeida, respondendo a
um inqérito do Miniscente

Solidariedade ou desorçamentação?

«O Governo quer que o Orçamento do Estado deixe de financiar directamente a construção e manutenção das auto-estradas através de transferências correntes para a Estradas de Portugal (EP) e passe antes a entregar, ao longo dos anos, uma compensação à empresa rodoviária a título de pagamento de um serviço. Para financiar os novos investimentos será a empresa pública a recorrer ao crédito, não se agravando, deste modo, a dívida pública.»

Diário de Notícias, 4.Set.2006

Acho que não ouvi bem... Mas então a dívida pública (a real, não um mero indicador estatístico) não se agrava em igual montante, quer o défice seja inscrito no OE ou numa empresa pública? E não é por isso mesmo que, na proposta para uma nova Lei de Finanças Locais, o governo considera que a dívida de empresas municipais deve contar para o endividamento municipal? (*)

Dito de outro modo: os efeitos negativos do endividamento (sobrecarga das gerações futuras, etc.) não são os mesmos, independentemente de onde for inscrita a dívida? Qual é a diferença entre o OE pagar a obra ou pagar uma renda a uma empresa pública?

Há de facto uma diferença, mas que funciona em desfavor da medida proposta: a ocultação do real impacto do endividamento para investimentos aquando da discussão política do Orçamento de Estado na Assembleia da República.. Voila!

Continuando a ler a notícia do DN: «[...] um dos caminhos para garantir essa sustentabilidade [económica e financeira da construção, gestão e manutenção das auto-estradas] é alargar o prazo de pagamento das infra-estruturas para os aproximar do tempo vida das mesmas. Actualmente uma estrada é toda paga no momento da construção, quando o seu usufruto vai prolongar-se por décadas. Ao aproximar o prazo de pagamento do prazo de vida das estradas, em nome da solidariedade inter-geracional que o actual Governo defende ser mais justo, reduz-se o esforço financeiro no curto prazo e alivia-se a factura do Estado.»

Que grande confusão: uma estrada só é paga no momento da construção se não houver financiamento - ou qualquer project finance - que dilua o respectivo encargo ao longo do tempo: não tem nada a ver com o ser OE ou empresa pública. Até mesmo a empresa pública pode, se o quizer e puder, pagar no acto da construção.

Se nos dissessem que o objectivo é ocultar o défice real junto da UE, ainda se aceitava - embora agora tenham de convencer o Eurostat da bondade da manobra - mas deixem-se é de tretas (tais como transformarem o velho princípio do diferimento de encargos com investimentos na "novidade" socialista da "solidariedade inter-geracional").


A ler, de Vítor Bento: A Desorçamentação das Despesas Públicas (ficheiro Word) .
(*) - tal como considera que, para o endividamento das autarquias, devem ser contabilizadas coisas como factorings, leasings e venda de créditos - apesar de o governo (na encarnação Durão/Ferreira Leite) ter vendido créditos fiscais para aliviar cosmeticamente o défice orçamental.

Saudades de casa

No Bicho Carpinteiro a conhecida canção de Bob Dylan, "Subterranean Homesick Blues" aparece identificada como "Subterranean Blues". Será falta de espaço ou síndroma do politicamente correcto? É que "subterranean" tem um ar "underground" enquanto que "homesick" soa assim um bocadinho lamechas, quiçá fadista. Mas não quero crer: deve ser mesmo falta de espaço.


A propósito: com o aumento dos preços de estacionamento em Lisboa, digam lá se estes versos da canção não ficam mesmo a matar:
Don't follow leaders
Watch the parkin' meters
...
Este Dylan é mesmo um profeta, queira ele ou não queira.

terça-feira, outubro 03, 2006

Perguntas sem resposta


     Adam Smith

     Num programa recente da RTP e RTPN, Nuno Crato entrevistou dois professores de Economia acerca da natureza científica da Economia. Assunto interessante que teve ali o desenvolvimento adequado para um programa dirigido a um público genérico: tanto Nuno Crato como os convidados conduziram bem as perguntas e respostas.
     No entanto, a certa altura, depois de os entrevistados terem falado do mecanismo da "mão invisível" e da escola Marginalista, Nuno Crato fez uma pergunta interessantíssima: será que essas descobertas, feitas entre os séculos XVII e XVIII, poderiam ter ocorrido antes? A isto nenhum dos economistas convidados conseguiu responder, provavelmente porque não perceberam a pergunta - e limitaram-se a repetir a explicação do que era o equilíbrio automático e da ordem espontânea, etc. Parafraseando a lapaliceana noção de que "Economia é o que os economistas fazem", poderiam ter respondido que a coisa não poderia ter sido descoberta antes, porque antes disso não havia Economistas!
     Para mim teria sido a parte mais interessante do programa, dado que as outras questões não representavam grande novidade para mim. A questão de Nuno Crato é realmente curiosa, e pode colocar-se em dois planos, pelo menos:
     a) Será que a própria natureza da actividade económica é mutável, e só naquela altura é que o mecanismo da mão invisível se poderia ter revelado aos olhos do observador? É verdade que já nas primeiras cidades, há uns 8 mil anos, se verificavam trocas comerciais importantes, mas é após as Descobertas e a expansão europeia que o comércio monetarizado se intensifica poderosamente. Em que altura teria sido possível então detectar a formação da "ordem espontânea", o equilíbrio entre oferta e procura, ou o egoísmo do cervejeiro a contribuir para o bem-estar comum?
     b) Admitindo que já existia há muito o mecanismo da "mão invisível", haveria capacidade analítica para o detectar muito antes de Adam Smith? É certo que não se trata de um conceito muito complexo ou sofisticado, mas também é verdade que a noção de "lei natural" é algo que só surge nos alvores do método científico. E havia ainda o "pequeno problema" das "leis naturais" desvalorizarem a cotação das "leis divinas" o que era, em geral, muito mal visto pelos guardiães destas últimas.
     Creio que a metáfora da "organização espontânea" surge na biologia animal, com a observação das formigas, por exemplo. Até mesmo a teoria darwiniana da evolução assenta numa ideia base de "ordem espontânea": as mutações genéticas não visam nenhum objectivo particular, o processo de selecção natural é que determina quais as que se reproduzem.
     A Economia, apesar da sua capacidade de gerar metáforas (ou talvez por isso mesmo) avançou muito pela "adaptação" das metáforas de outras ciências. E as leis científicas, ao fim e ao cabo, não são elas próprias (apenas) metáforas da realidade?

"Guerras" da Ciência

"As «guerras da ciência» em Portugal: humanização e transformação da ciência ou a morte do pós-modernismo?" (ficheiro pdf)
Artigo de Vitor Tomé que faz uma descrição da polémica travada nos últimos anos entre António Manuel Baptista e Boaventura Sousa Santos.

Percentis

Alguns economistas, preocupados com a incompetência dos nossos trabalhadores e empresários, têm vindo a insistir na necessidade aperfeiçoar o sistema de incentivos e, sobretudo, os mecanismos de penalização dos incompetentes. No entanto, uma esquecida investigação de Justin Kreuger e David Dunning, "Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments", pode levar a conclusões muito diversas.

Através de 4 estudos, os autores descobriram que "os participantes com pontuações no quartil inferior em testes de humor, gramática e lógica, sobrestimaram grosseiramente as suas capacidades". De acordo com as conclusões, os incompetentes são vítimas de uma dupla deficiência: "Não só estas pessoas chegam a conclusões erradas e fazem escolhas infelizes, como a sua incompetência rouba-lhes a capacidade metacognitiva para ter consciência do facto". Topam? Eles são incompetentes, mas não sabem que são incompetentes, precisamente porque são incompetentes. Portanto, são apenas vítimas.

Abrindo seu o artigo com uma citação de outro autor (W. I. Miller, "Humiliation", 1993), dir-se-ia que já nada mais haveria a investigar: "Uma das características essenciais dessa incompetência é que a pessoa é tão limitada que é incapaz de saber que é incompetente. Se tivesse esse conhecimento já seria uma grande ajuda para curar a deficiência". Mas aqui é que está o grande lampejo, quiçá mesmo o génio, dos investigadores da Universidade de Cornell: se a ciência conseguir que estas pessoas atinjam a compreensão da sua própria incompetência, ficariam praticamente curadas, ou seja: competentes. Portanto, já não é preciso perder tempo a formar pessoas ou a castigá-las com incentivos negativos: basta pôr-lhes um espelho à frente. Porque é que não nos lembrámos disto antes? Estaremos nós no percentil inferior?

Maravilhas da Ciência

     Em vez de andar para aí a fechar urgências, o sr. ministro talvez conseguisse melhores resultados se pusesse os olhos nesse Grande Perigo que são os animais de estimação.
     O estudo de Susan Kurrle, Robert Day and Ian Cameron, "The perils of pet ownership: a new fall-injury risk factor", publicado no Medical Journal of Austrália, não deixa margem para dúvidas: os investigadores, tendo analisado, durante 18 meses, no serviço de urgência de um hospital australiano, os doentes com mais de 75 anos com fracturas associadas aos seus animais de estimação, detectaram os 16 casos apresentados no quadro de baixo. O estudo prova inequívocamente que "ferimentos graves associados a quedas em pessoas idosas podem ser causados por animais de estimação, mais frequentemente cães e gatos".
     Como estão prestes a ser atribuídos os Prémios IgNobel, é caso para estar atento a esta descoberta australiana.

Idade (anos)SexoFracturaAnimalCircunstâncias
78 F Fémur CabraQueda quando tentava alimentar umas cabras empoleirando-se sobre uma cerca.
83 F Pélvis Gato Tropeçou no gato, caindo sobre o animal (que faleceu).
84 M Úmero Cão Enquanto passeava o cão com uma trela extensível, o cão deu várias voltas, enrolando-se as pernas e provocando a queda.
81 F Pélvis Burro Queda para trás ao ser empurrada por um burro a quem dava de beber por um balde.
79 M Pulso PássaroQueda do cimo de uma cadeira enquanto tentava apanhar o pássaro que fugira para o varão de um cortinado.
78 F Costelas Cão Escorregou numa poça de urina de um cachorro Labrador, caindo sobre uma cadeira.
88 F 3ª vértebra cervical GatoQueda para trás, ao tropeçar num gato.
76 F Ossos do nariz Cão Queda enquanto tentava impedir que um cachorro saltasse para dentro de um aquário.
81 F Anca Pássaro Tropeçou em degraus enquanto transportava uma gaiola com um canário.
75 M Costelas Cão Ao passear na rua dois galgos pela trela, os cães puxaram-no e caiu contra a vedação.
80 F Úmero Gato Ao baixar-se para apanhar a malga do gato, este enrolou-se nas pernas e a senhora caiu.
83 F Pulso Gato Queda no jardim quando tentava impedir um gato de caçar um lagarto.
82 F Fémur Gato Tropeçou num gato preto num corredor escuro e caiu.
86 F Pélvis Cão Ao transportar o cesto do lixo enquanto segurava um golden retriever pela trela, ficou presa entre o cão e o cesto e caiu.
83 F ÚmeroCãoCarregando um pequeno cão na varanda, tropeçou e caiu nas escadas.
80 F Pélvis Gato Queda ao tentar fugir pelas traseiras, enquanto o gato entrava pela outra porta com uma cobra viva.

sábado, setembro 09, 2006

Downsizing


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Houve uma época em que as agências bancárias se começaram a multiplicar, ocupando e substituindo espaços de localização privilegiada, tais como grandes cafés. Nessa altura eram frequentes as lamentações pelo facto de espaços de convívio e tertúlia estarem a desaparecer, substituídos pelos balcões do dinheiro.

O certo é que a "febre" da multiplicação dos bancos e das agências bancárias acabou por arrefecer, devido à concentração empresarial e desaparecimento dos pequenos bancos, bem como aos processos de "downsizing" e desmaterialização das oprações bancárias.

No espaço retratado pela fotografia, na Rua Alexandre herculano, em Setúbal, já funcionou uma agência bancária, mas actualmente encontra-se lá uma loja de comércio diversificado, vulgo "loja de chineses". Lá dentro as mercadorias amontoam-se sem grande cuidado e algumas das montras chegam a parecer arrecadações. Os "buracos" das antigas máquinas de atendimento automático "ATM" encontram-se muito mal disfarçados (veja-se a imagem); num dos casos apenas foi colocado tijolo sem reboco.

Haverá algum significado nestas alterações? Se dantes era a substituição do convívio pelo dinheiro fácil, agora será o quê - a "terceiro-mundialização" da nossa economia? O "downsizing" das nossas expectativas? E será que ainda vamos ter saudades do tempo em que os cafés eram substituídos por agências bancárias?

quinta-feira, setembro 07, 2006

Dopagem

«A notícia do momento no ciclismo é que Floyd Landis pode vir a perder o título do Tour de France porque testou positivamente relativamente a uma substância dopante. Deixando de lado questões como a de saber se os atletas profissionais deveriam ser autorizados a tomar drogas para aumentar o seu desempenho, ou quão perigosas são essas drogas, ou ainda o que é que caracteriza uma droga para aumentar o desempenho, gostaria de falar sobre os temas económicos e de segurança que envolvem o uso de drogas dopantes no desporto profissional.

«Fazer o teste a drogas é um tema de segurança. Várias federações desportivas no mundo fazem o possível para detectar a dopagem ilegal, e os jogadores fazem o possível para iludir os testes. É uma clássica "corrida às armas": melhorias nas tecnologias de detecção conduzem a melhorias na evasão a essa detecção, o que por sua vez conduz ao aumento das capacidades de detecção. Neste momento parece que as drogas estão a ganhar; há quem descreva estes testes como "testes de inteligência" [intelligence tests]: se não os consegues iludir, então não mereces participar no jogo.

«Porém, ao contrário de muitas "corridas às armas", nesta os detectores têm a possibilidade de olhar para o passado. No ano passado, um laboratório efectuou um teste à urina de Lance Armstrong e encontrou vestígios da substância EPO. O interessante é que a amostra de urina não era de 2005: era de 1999. Na altura ainda não existiam teste fiáveis para a EPO na urina. Hoje existem, e o laboratório pegou numa amostra congelada da urina (quem é que sabia que os laboratórios guardavam as amostras de urina dos atletas?) e testou-a. Armstrong foi mais tarde ilibado - os procedimentos do laboratório foram descuidados - mas eu não creio que as possíveis ramificações do episódio tenham sido compreendidas. Os testes podem recuar no tempo.

«Isto tem duas consequências importantes. Uma é a de que os médicos que desenvolvem novas drogas de melhoria de desempenho sabem exactamente quais os testes que os laboratórios anti-dopagem vão realizar, podendo eles próprios testar previamente a capacidade dessas substâncias para iludir os testes oficiais. Mas não podem saber que tipo de testes virão a ser realizados no futuro, e os atletas não podem assumir que lá porque uma droga não é detectada hoje, o mesmo não ocorra nos anos seguintes.

«Outra consequência é a de que os atletas acusados de dopagem com base em amostras de urina já antigas não têm possibilidade de se defender. Não podem voltar a submeter-se ao teste; já é tarde. Se eu fosse um atleta preocupado com estas acusações, eu depositaria a minha urina regularmente para criar algumas condições para contestar eventuais acusações.

«A "corrida às armas" na dopagem irá continuar por causa dos incentivos. É um clássico "dilema do prisioneiro". [...]»

Bruce Schneier
"Drugs: Sports' Prisoner's Dilemma"

The gap is closing

Slowly.


[ Crédito: Indexed. ]

quarta-feira, setembro 06, 2006

Os alpendres da Arrábida

Arrabida - Estrada da Figueirinha
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A dispendiosa - 15 milhões de € - empreitada de "consolidação" da encosta sul da Arrábida, sobre a estrada que liga a Figueirinha ao Portinho, foi finalmente concluída [ver notícia]. Há quem considere a obra notável, mas a visão da teia de redes e dos maciços "túneis" (mais parecidos com "alpendres") de betão é muito desagradável à vista. Talvez seja por isso que se pretende afastar os turistas daquelas águas: assim escusam de ver coisas tão feias...

O movimento de contestação à abertura daquela estrada, no início do século XX, acabaria por dar origem à primeira organização ecologista portuguesa: a Liga para a Protecção da Natureza. João Bénard da Costa, nos artigos que tem vindo a publicar sobre as suas férias na Arrábida, lamenta que a instabilidade daquela zona, agravada com os incêndios dos últimos anos, não tivesse sido aproveitado para o encerramento da estrada - uma ideia interessante.

Mas para onde iriam os veraneantes tomar banho? Uma solução possível seria a reconstituição das praias ribeirinhas de Setúbal, frente à cidade, no âmbito do Setubal-Polis. No entanto, o mais provável é que vença ali a tendência - já verificada no Parque das Nações - para se construirem ainda mais edifícios, "viabilizando" o financiamento de um pouco mais de espaço público betonizado.

[Originalmente publicado no blogue 'Setúbal'.]

quarta-feira, agosto 30, 2006

Nova Sociologia Económica

"Entre Deus e o diabo: mercados e interação humana nas ciências sociais"
Artigo de Ricardo Abramovay - "Tempo Social", revista de sociologia da Universidade de S. Paulo (Nov. 2004, vol.16, no.2, p.35-64)
«A principal característica da Nova Sociologia Económica, que ganha prestígio crescente nos Estados Unidos e na Europa, é estudar os mercados não como mecanismos abstractos de equilíbrio, mas como construções sociais. Esta orientação, longe, entretanto de opor-se aos procedimentos da ciência económica é também partilhada por alguns dos seus mais importantes expoentes. É bem verdade que a economia contemporânea faz jus à reputação tão difundida de ciência cinzenta, mecânica e incapaz de incorporar preceitos éticos nos seus pressupostos. Mas parte importante e cada vez mais significativa da disciplina volta-se justamente para o estudo de formas concretas de interacção social e coloca em dúvida as motivações puramente egoístas e maximizadoras postuladas axiomaticamente pela tradição neoclássica. Entre estas correntes destaca-se a Nova Economia Institucional, cujos temas são objecto também da Nova Sociologia Económica. Apesar das suas diferenças de abordagem, ambas contribuem para evitar que os mercados sejam encarados como soluções mágicas para todos os problemas sociais ou como formas diabolizadas de interação que a emancipação humana acabará um dia por suprimir.
[...]
«Mas os mercados podem ser estudados também sob um outro ângulo, como estruturas sociais, ou seja, "formas recorrentes e padronizadas de relações entre actores, mantidas por meio de sanções" (Swedberg, 1994). Neste caso, a sua compreensão faz apelo à  subjectividade dos agentes económicos, à  diversidade e à  história das suas formas de coordenação, às representações mentais a partir das quais relacionam-se uns com os outros, à sua capacidade de obter e inspirar confiança, de negociar, fazer cumprir contratos, estabelecer e realizar direitos. Aqui os atributos serão muito mais particularizados, obtidos por métodos fundamentalmente indutivos e apoiados, sobretudo na recomposição de narrativas históricas. A racionalidade dos actores pode ser condição necessária, mas nem de longe suficiente para a acção, pois a conduta dos indiví­duos e dos grupos só se explica socialmente: a racionalidade, para usar a expressão de Victor Nee (2003) é "limitada pelo contexto" (context-bound), ou seja, influenciada por crenças partilhadas, por normas monitoradas e aplicadas por mecanismos que emergem das relações sociais. O estudo dos mercados como estruturas sociais enrai­za nos interesses dos indiví­duos, nas relações que mantêm uns com os outros e não supõe um maximizador abstracto, isolado, por um lado e a economia, por outro, como resultado mecânico da interacção social.»

quinta-feira, agosto 24, 2006

Teoria económica


«Ao longo do passado meio século os economistas responderam ao desafio que Allais [1], Ellsberg [2] e outros levantaram ao neoclassissismo, quer estabelecendo fronteiras à teoria económica, quer optando por abordagens descritivas. Embora ambas estas estratégias se tenham revelado muito frutíferas, nenhuma forneceu uma clara abordagem programática que aspire a uma completa compreensão do processo de decisão humana, tal como fez o neoclassissismo. Existe, contudo, crescente evidência de que os economistas e os neurobiólogos estão agora a revelar os mecanismos físicos pelos quais a neuro-arquitectura realiza a tomada de decisão. Embora ainda na sua infância, estes estudos sugerem quer uma moldura unificada para compreender a tomada de decisão pelos humanos, quer quer uma metodologia para contenção do âmbito e da da estrutura da teoria económica. De facto, existe já evidência de que estes estudos colocam constrangimentos matemáticos aos modelos económicos existentes. Este artigo faz a revisão de alguns desses constrangimentos e sugere o âmbito de uma teoria neuroeconómica da decisão.»

"Physiological utility theory and the neuroeconomics of choice"
artigo de Paul W. Glimcher, Michael C. Dorris e Hannah M. Bayer
Games and Economic Behavior, Agosto de 2005

[1] Allais M., "Le comportement de l’homme rationnel devant le risque, critique des postulats et axiomes de l’ecole americaine". Econometrica. 1953;21:53–526.
[2] Ellsberg D., "Risk, ambiguity, and the savage axioms". Quart J Econ. 1961;75:643–669

quarta-feira, agosto 16, 2006

Paul Krugman

 
Paul Krugman (2002)

Audio:






























































Url dos ficheiros:
http://www-cepr.stanford.edu/news/krugman.wmv
http://www-cepr.stanford.edu/news/krugman.wma

terça-feira, agosto 15, 2006

Aranhas, formigas e cérebro




«[...] As aranhas e as formigas estão longe de ser mestres da matemática ou magos das probabilidades (e eu temo que aconteça o mesmo com muitos membros da Confraria dos humanos, mas não vou agora desenvolver esse ponto.) No entanto, elas comportam-se tal como os modelos económicos da satisfação [satisficing] tipicamente predizem. Elas fazem-no na procura de comida, de acasalamento, de segurança do lugar para descansar, e por aí fora. Resumidamente, a modelação económica mostra que criaturas muito estúpidas podem fazer coisas muito espertas, não pensando nelas coisas tal como faria um teórico da decisão, mas precisamente como resultado de milhões de anos de estratégias ao acaso que levaram algumas espécies a adquirir uma boa probabilidade de ficar por cá, pelo menos durante mais uma geração - supondo que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a existência dessa geração.

«Os neurónios do cérebro também são, cada um deles, bastante estúpidos. Mas séculos de evolução conduziram-nos a respostas probabilísticas para que, em conjunto, criem estratégias para manter todo o organismo intacto durante mais uma geração (continuando a supor que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a esse tempo). Para Glimcher, os modelos econométricos são tão precisos como qualquer coisa que se possa imaginar para mostrar que biliões de neurónios estúpidos podem agir em conjunto para aumentar a probabilidade de que o sistema - o animal - utilize avisadamente os seus recursos para garantir a sua permanência no mundo durante mais algum tempo.»

Recensão de Paul A. Wagner ao livro
"Decisions, Uncertainty, and the Brain:
The Science of Neuroeconomics
"
de Paul W. Glimcher
MIT Press, 2003.

Um dilema

"Risk Preference Instability Across Institutions: A Dilemma", de Berg, Joyce, John Dickhaut e Kevin McCabe
Proceedings of the National Academy of Sciences

Originalidades

A Sesibal é uma cooperativa de pesca que agrupa barcos de Sesimbra, Setúbal e Sines, mais especificamente traineiras que se dedicam à pesca da sardinha, carapau, e similares. O sector da pesca andas mal e tem suportado mal o acréscimo do preço dos combustíveis, apesar do mesmo ser subsidiado. Qual a solução? Bem, o responsável da Sesibal não tem falya de ideias. Pore exemplo:
«Como solução [a Sesibal] propõe um "preço mínimo estipulado por lei na ordem dos cinco por cento em cima de cada quilo de pescado". Este aumento de cinco por cento seria "diluído no intermediário e não no consumidor final". Outra solução que poderia melhorar as condições na actividade piscatória seria a "isenção do IRS, IRC e outras taxas", uma vez que a carga fiscal à pesca "é altíssima" e é descontada "directamente sobre as vendas".»
Trata-se de uma ilusão: a primeira venda do peixe é feita em leilão. Se fosse aplicado o sistema sugerido pela Sesibal, os compradores limitar-se-iam a exercer a sua licitação em valores mais baixos, de tal forma que, com a aplicação dos tais 5%, se encontrasse o preço de equilíbrio de mercado. Também não se percebe como é que esse ónus de 5% poderia ser "diluído no intermediário e não no consumidor final". Enfim: originalidades.

domingo, agosto 06, 2006

O valor de estar vivo

Robert H. Topel





























































The Economic Value of Life
[ 6m:57s - mp3 ]
Robert H. Topel [ Univ. Chicago ]


http://research.uchicago.edu/highlights/resources/media/topel_128k.mp3

Ganhos e perdas

Uma equipa de cientistas do California Institute of Technology, de Pasadena, realizou experiências com humanos em jogos simulados que mostraram que perante a avaliação de uma situação envolvendo probabilidades de ganhos e de perdas, as pessoas concentram-se primeiro, durante um curto lapso de tempo, nos ganhos, e só depois no risco de perdas. Esta descoberta foi possível devido às técnicas de imagiologia, dado que a avaliação de ganhos e de perdas se processam em diferentes zonas do cérebro.

Os resultados deverão ser publicados na edição de Agosto da revista Neuron. Notícia no MSN Health & Fitness.