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Adam Smith
Num programa recente da RTP e RTPN, Nuno Crato entrevistou dois professores de Economia acerca da natureza científica da Economia. Assunto interessante que teve ali o desenvolvimento adequado para um programa dirigido a um público genérico: tanto Nuno Crato como os convidados conduziram bem as perguntas e respostas.
No entanto, a certa altura, depois de os entrevistados terem falado do mecanismo da "mão invisível" e da escola Marginalista, Nuno Crato fez uma pergunta interessantíssima: será que essas descobertas, feitas entre os séculos XVII e XVIII, poderiam ter ocorrido antes? A isto nenhum dos economistas convidados conseguiu responder, provavelmente porque não perceberam a pergunta - e limitaram-se a repetir a explicação do que era o equilíbrio automático e da ordem espontânea, etc. Parafraseando a lapaliceana noção de que "Economia é o que os economistas fazem", poderiam ter respondido que a coisa não poderia ter sido descoberta antes, porque antes disso não havia Economistas!
Para mim teria sido a parte mais interessante do programa, dado que as outras questões não representavam grande novidade para mim. A questão de Nuno Crato é realmente curiosa, e pode colocar-se em dois planos, pelo menos:
a) Será que a própria natureza da actividade económica é mutável, e só naquela altura é que o mecanismo da mão invisível se poderia ter revelado aos olhos do observador? É verdade que já nas primeiras cidades, há uns 8 mil anos, se verificavam trocas comerciais importantes, mas é após as Descobertas e a expansão europeia que o comércio monetarizado se intensifica poderosamente. Em que altura teria sido possível então detectar a formação da "ordem espontânea", o equilíbrio entre oferta e procura, ou o egoísmo do cervejeiro a contribuir para o bem-estar comum?
b) Admitindo que já existia há muito o mecanismo da "mão invisível", haveria capacidade analítica para o detectar muito antes de Adam Smith? É certo que não se trata de um conceito muito complexo ou sofisticado, mas também é verdade que a noção de "lei natural" é algo que só surge nos alvores do método científico. E havia ainda o "pequeno problema" das "leis naturais" desvalorizarem a cotação das "leis divinas" o que era, em geral, muito mal visto pelos guardiães destas últimas.
Creio que a metáfora da "organização espontânea" surge na biologia animal, com a observação das formigas, por exemplo. Até mesmo a teoria darwiniana da evolução assenta numa ideia base de "ordem espontânea": as mutações genéticas não visam nenhum objectivo particular, o processo de selecção natural é que determina quais as que se reproduzem.
A Economia, apesar da sua capacidade de gerar metáforas (ou talvez por isso mesmo) avançou muito pela "adaptação" das metáforas de outras ciências. E as leis científicas, ao fim e ao cabo, não são elas próprias (apenas) metáforas da realidade?

Em vez de andar para aí a fechar urgências, o sr. ministro talvez conseguisse melhores resultados se pusesse os olhos nesse Grande Perigo que são os animais de estimação.
O estudo de Susan Kurrle, Robert Day and Ian Cameron, "The perils of pet ownership: a new fall-injury risk factor", publicado no Medical Journal of Austrália, não deixa margem para dúvidas: os investigadores, tendo analisado, durante 18 meses, no serviço de urgência de um hospital australiano, os doentes com mais de 75 anos com fracturas associadas aos seus animais de estimação, detectaram os 16 casos apresentados no quadro de baixo. O estudo prova inequívocamente que "ferimentos graves associados a quedas em pessoas idosas podem ser causados por animais de estimação, mais frequentemente cães e gatos".
Como estão prestes a ser atribuídos os Prémios IgNobel, é caso para estar atento a esta descoberta australiana.
| Idade (anos) | Sexo | Fractura | Animal | Circunstâncias |
| 78 | F | Fémur | Cabra | Queda quando tentava alimentar umas cabras empoleirando-se sobre uma cerca. |
| 83 | F | Pélvis | Gato | Tropeçou no gato, caindo sobre o animal (que faleceu). |
| 84 | M | Úmero | Cão | Enquanto passeava o cão com uma trela extensível, o cão deu várias voltas, enrolando-se as pernas e provocando a queda. |
| 81 | F | Pélvis | Burro | Queda para trás ao ser empurrada por um burro a quem dava de beber por um balde. |
| 79 | M | Pulso | Pássaro | Queda do cimo de uma cadeira enquanto tentava apanhar o pássaro que fugira para o varão de um cortinado. |
| 78 | F | Costelas | Cão | Escorregou numa poça de urina de um cachorro Labrador, caindo sobre uma cadeira. |
| 88 | F | 3ª vértebra cervical | Gato | Queda para trás, ao tropeçar num gato. |
| 76 | F | Ossos do nariz | Cão | Queda enquanto tentava impedir que um cachorro saltasse para dentro de um aquário. |
| 81 | F | Anca | Pássaro | Tropeçou em degraus enquanto transportava uma gaiola com um canário. |
| 75 | M | Costelas | Cão | Ao passear na rua dois galgos pela trela, os cães puxaram-no e caiu contra a vedação. |
| 80 | F | Úmero | Gato | Ao baixar-se para apanhar a malga do gato, este enrolou-se nas pernas e a senhora caiu. |
| 83 | F | Pulso | Gato | Queda no jardim quando tentava impedir um gato de caçar um lagarto. |
| 82 | F | Fémur | Gato | Tropeçou num gato preto num corredor escuro e caiu. |
| 86 | F | Pélvis | Cão | Ao transportar o cesto do lixo enquanto segurava um golden retriever pela trela, ficou presa entre o cão e o cesto e caiu. |
| 83 | F | Úmero | Cão | Carregando um pequeno cão na varanda, tropeçou e caiu nas escadas. |
| 80 | F | Pélvis | Gato | Queda ao tentar fugir pelas traseiras, enquanto o gato entrava pela outra porta com uma cobra viva. |

«Fazer o teste a drogas é um tema de segurança. Várias federações desportivas no mundo fazem o possível para detectar a dopagem ilegal, e os jogadores fazem o possível para iludir os testes. É uma clássica "corrida às armas": melhorias nas tecnologias de detecção conduzem a melhorias na evasão a essa detecção, o que por sua vez conduz ao aumento das capacidades de detecção. Neste momento parece que as drogas estão a ganhar; há quem descreva estes testes como "testes de inteligência" [intelligence tests]: se não os consegues iludir, então não mereces participar no jogo. «Porém, ao contrário de muitas "corridas às armas", nesta os detectores têm a possibilidade de olhar para o passado. No ano passado, um laboratório efectuou um teste à urina de Lance Armstrong e encontrou vestígios da substância EPO. O interessante é que a amostra de urina não era de 2005: era de 1999. Na altura ainda não existiam teste fiáveis para a EPO na urina. Hoje existem, e o laboratório pegou numa amostra congelada da urina (quem é que sabia que os laboratórios guardavam as amostras de urina dos atletas?) e testou-a. Armstrong foi mais tarde ilibado - os procedimentos do laboratório foram descuidados - mas eu não creio que as possíveis ramificações do episódio tenham sido compreendidas. Os testes podem recuar no tempo. «Isto tem duas consequências importantes. Uma é a de que os médicos que desenvolvem novas drogas de melhoria de desempenho sabem exactamente quais os testes que os laboratórios anti-dopagem vão realizar, podendo eles próprios testar previamente a capacidade dessas substâncias para iludir os testes oficiais. Mas não podem saber que tipo de testes virão a ser realizados no futuro, e os atletas não podem assumir que lá porque uma droga não é detectada hoje, o mesmo não ocorra nos anos seguintes. «Outra consequência é a de que os atletas acusados de dopagem com base em amostras de urina já antigas não têm possibilidade de se defender. Não podem voltar a submeter-se ao teste; já é tarde. Se eu fosse um atleta preocupado com estas acusações, eu depositaria a minha urina regularmente para criar algumas condições para contestar eventuais acusações. «A "corrida às armas" na dopagem irá continuar por causa dos incentivos. É um clássico "dilema do prisioneiro". [...]» Bruce Schneier |

| "Entre Deus e o diabo: mercados e interação humana nas ciências sociais" Artigo de Ricardo Abramovay - "Tempo Social", revista de sociologia da Universidade de S. Paulo (Nov. 2004, vol.16, no.2, p.35-64) «A principal característica da Nova Sociologia Económica, que ganha prestígio crescente nos Estados Unidos e na Europa, é estudar os mercados não como mecanismos abstractos de equilíbrio, mas como construções sociais. Esta orientação, longe, entretanto de opor-se aos procedimentos da ciência económica é também partilhada por alguns dos seus mais importantes expoentes. É bem verdade que a economia contemporânea faz jus à reputação tão difundida de ciência cinzenta, mecânica e incapaz de incorporar preceitos éticos nos seus pressupostos. Mas parte importante e cada vez mais significativa da disciplina volta-se justamente para o estudo de formas concretas de interacção social e coloca em dúvida as motivações puramente egoístas e maximizadoras postuladas axiomaticamente pela tradição neoclássica. Entre estas correntes destaca-se a Nova Economia Institucional, cujos temas são objecto também da Nova Sociologia Económica. Apesar das suas diferenças de abordagem, ambas contribuem para evitar que os mercados sejam encarados como soluções mágicas para todos os problemas sociais ou como formas diabolizadas de interação que a emancipação humana acabará um dia por suprimir. |
«Ao longo do passado meio século os economistas responderam ao desafio que Allais [1], Ellsberg [2] e outros levantaram ao neoclassissismo, quer estabelecendo fronteiras à teoria económica, quer optando por abordagens descritivas. Embora ambas estas estratégias se tenham revelado muito frutíferas, nenhuma forneceu uma clara abordagem programática que aspire a uma completa compreensão do processo de decisão humana, tal como fez o neoclassissismo. Existe, contudo, crescente evidência de que os economistas e os neurobiólogos estão agora a revelar os mecanismos físicos pelos quais a neuro-arquitectura realiza a tomada de decisão. Embora ainda na sua infância, estes estudos sugerem quer uma moldura unificada para compreender a tomada de decisão pelos humanos, quer quer uma metodologia para contenção do âmbito e da da estrutura da teoria económica. De facto, existe já evidência de que estes estudos colocam constrangimentos matemáticos aos modelos económicos existentes. Este artigo faz a revisão de alguns desses constrangimentos e sugere o âmbito de uma teoria neuroeconómica da decisão.» "Physiological utility theory and the neuroeconomics of choice" [2] Ellsberg D., "Risk, ambiguity, and the savage axioms". Quart J Econ. 1961;75:643–669 |
| Paul Krugman (2002) |
«[...] As aranhas e as formigas estão longe de ser mestres da matemática ou magos das probabilidades (e eu temo que aconteça o mesmo com muitos membros da Confraria dos humanos, mas não vou agora desenvolver esse ponto.) No entanto, elas comportam-se tal como os modelos económicos da satisfação [satisficing] tipicamente predizem. Elas fazem-no na procura de comida, de acasalamento, de segurança do lugar para descansar, e por aí fora. Resumidamente, a modelação económica mostra que criaturas muito estúpidas podem fazer coisas muito espertas, não pensando nelas coisas tal como faria um teórico da decisão, mas precisamente como resultado de milhões de anos de estratégias ao acaso que levaram algumas espécies a adquirir uma boa probabilidade de ficar por cá, pelo menos durante mais uma geração - supondo que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a existência dessa geração.
«Os neurónios do cérebro também são, cada um deles, bastante estúpidos. Mas séculos de evolução conduziram-nos a respostas probabilísticas para que, em conjunto, criem estratégias para manter todo o organismo intacto durante mais uma geração (continuando a supor que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a esse tempo). Para Glimcher, os modelos econométricos são tão precisos como qualquer coisa que se possa imaginar para mostrar que biliões de neurónios estúpidos podem agir em conjunto para aumentar a probabilidade de que o sistema - o animal - utilize avisadamente os seus recursos para garantir a sua permanência no mundo durante mais algum tempo.»Recensão de Paul A. Wagner ao livro
"Decisions, Uncertainty, and the Brain:
The Science of Neuroeconomics"
de Paul W. Glimcher
MIT Press, 2003.
«Como solução [a Sesibal] propõe um "preço mínimo estipulado por lei na ordem dos cinco por cento em cima de cada quilo de pescado". Este aumento de cinco por cento seria "diluído no intermediário e não no consumidor final". Outra solução que poderia melhorar as condições na actividade piscatória seria a "isenção do IRS, IRC e outras taxas", uma vez que a carga fiscal à pesca "é altíssima" e é descontada "directamente sobre as vendas".»Trata-se de uma ilusão: a primeira venda do peixe é feita em leilão. Se fosse aplicado o sistema sugerido pela Sesibal, os compradores limitar-se-iam a exercer a sua licitação em valores mais baixos, de tal forma que, com a aplicação dos tais 5%, se encontrasse o preço de equilíbrio de mercado. Também não se percebe como é que esse ónus de 5% poderia ser "diluído no intermediário e não no consumidor final". Enfim: originalidades. |
![]() The Economic Value of Life [ 6m:57s - mp3 ] Robert H. Topel [ Univ. Chicago ] http://research.uchicago.edu/highlights/resources/media/topel_128k.mp3 |

| «Em termos de eficiência, a indústria da publicidade começa apenas agora a libertar-se da sua infância longa de um século, a qual pode ser designada como a "era Wanamaker". Foi John Wanamaker, um devotado comerciante Cristão de Filadélfia, quem, em 1870, não só inventou os departamentos de lojas e as etiquetas de preços (para eliminar a negociação de preços, pois todos deviam ser iguais perante Deus e o preço), mas também foi o primeiro publicitário moderno, ao comprar espaço nos jornais para promover as suas lojas. Trilhou um caminho cristão, nunca anunciando aos Domingos nem mentindo (e, desse modo, cunhando o conceito de "verdade na publicidade"). E, com a sua apurada mente negocial, expôs uma sabedoria que sempre pareceu uma lei económica: "Metade do dinheiro que gasto em publicidade é desperdiçado. O problema é que não sei qual das metades é." «O que Wanamaker não podia ter adivinhado foi o advento da Internet. Um punhado de empresas empreendedoras, desde o Google (a mais valiosa agência mundial de publicidade disfarçada de motor de busca da web) até novatas de Silicon Valley, muitas delas apenas com meses de vida, estão a vender aos anunciantes novas ferramentas para reduzir o desperdício. Isto assume várias formas exóticas, mas há algo em comum: o desejo de substituir a antiga abordagem publicitária, na qual os anunciantes pagam pelo privilégio da "exposição" de uma audiência hipotética à sua mensagem, por uma outra na qual os anunciantes pagam apenas por acções reais e mensuráveis da parte dos consumidores, tais como clicar num web link, partilhar um video, fazer uma chamada, imprimir um impresso ou comprar alguma coisa.» The Economist, "The ultimate marketing machine" |
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