quarta-feira, agosto 30, 2006

Nova Sociologia Económica

"Entre Deus e o diabo: mercados e interação humana nas ciências sociais"
Artigo de Ricardo Abramovay - "Tempo Social", revista de sociologia da Universidade de S. Paulo (Nov. 2004, vol.16, no.2, p.35-64)
«A principal característica da Nova Sociologia Económica, que ganha prestígio crescente nos Estados Unidos e na Europa, é estudar os mercados não como mecanismos abstractos de equilíbrio, mas como construções sociais. Esta orientação, longe, entretanto de opor-se aos procedimentos da ciência económica é também partilhada por alguns dos seus mais importantes expoentes. É bem verdade que a economia contemporânea faz jus à reputação tão difundida de ciência cinzenta, mecânica e incapaz de incorporar preceitos éticos nos seus pressupostos. Mas parte importante e cada vez mais significativa da disciplina volta-se justamente para o estudo de formas concretas de interacção social e coloca em dúvida as motivações puramente egoístas e maximizadoras postuladas axiomaticamente pela tradição neoclássica. Entre estas correntes destaca-se a Nova Economia Institucional, cujos temas são objecto também da Nova Sociologia Económica. Apesar das suas diferenças de abordagem, ambas contribuem para evitar que os mercados sejam encarados como soluções mágicas para todos os problemas sociais ou como formas diabolizadas de interação que a emancipação humana acabará um dia por suprimir.
[...]
«Mas os mercados podem ser estudados também sob um outro ângulo, como estruturas sociais, ou seja, "formas recorrentes e padronizadas de relações entre actores, mantidas por meio de sanções" (Swedberg, 1994). Neste caso, a sua compreensão faz apelo à  subjectividade dos agentes económicos, à  diversidade e à  história das suas formas de coordenação, às representações mentais a partir das quais relacionam-se uns com os outros, à sua capacidade de obter e inspirar confiança, de negociar, fazer cumprir contratos, estabelecer e realizar direitos. Aqui os atributos serão muito mais particularizados, obtidos por métodos fundamentalmente indutivos e apoiados, sobretudo na recomposição de narrativas históricas. A racionalidade dos actores pode ser condição necessária, mas nem de longe suficiente para a acção, pois a conduta dos indiví­duos e dos grupos só se explica socialmente: a racionalidade, para usar a expressão de Victor Nee (2003) é "limitada pelo contexto" (context-bound), ou seja, influenciada por crenças partilhadas, por normas monitoradas e aplicadas por mecanismos que emergem das relações sociais. O estudo dos mercados como estruturas sociais enrai­za nos interesses dos indiví­duos, nas relações que mantêm uns com os outros e não supõe um maximizador abstracto, isolado, por um lado e a economia, por outro, como resultado mecânico da interacção social.»

quinta-feira, agosto 24, 2006

Teoria económica


«Ao longo do passado meio século os economistas responderam ao desafio que Allais [1], Ellsberg [2] e outros levantaram ao neoclassissismo, quer estabelecendo fronteiras à teoria económica, quer optando por abordagens descritivas. Embora ambas estas estratégias se tenham revelado muito frutíferas, nenhuma forneceu uma clara abordagem programática que aspire a uma completa compreensão do processo de decisão humana, tal como fez o neoclassissismo. Existe, contudo, crescente evidência de que os economistas e os neurobiólogos estão agora a revelar os mecanismos físicos pelos quais a neuro-arquitectura realiza a tomada de decisão. Embora ainda na sua infância, estes estudos sugerem quer uma moldura unificada para compreender a tomada de decisão pelos humanos, quer quer uma metodologia para contenção do âmbito e da da estrutura da teoria económica. De facto, existe já evidência de que estes estudos colocam constrangimentos matemáticos aos modelos económicos existentes. Este artigo faz a revisão de alguns desses constrangimentos e sugere o âmbito de uma teoria neuroeconómica da decisão.»

"Physiological utility theory and the neuroeconomics of choice"
artigo de Paul W. Glimcher, Michael C. Dorris e Hannah M. Bayer
Games and Economic Behavior, Agosto de 2005

[1] Allais M., "Le comportement de l’homme rationnel devant le risque, critique des postulats et axiomes de l’ecole americaine". Econometrica. 1953;21:53–526.
[2] Ellsberg D., "Risk, ambiguity, and the savage axioms". Quart J Econ. 1961;75:643–669

quarta-feira, agosto 16, 2006

Paul Krugman

 
Paul Krugman (2002)

Audio:






























































Url dos ficheiros:
http://www-cepr.stanford.edu/news/krugman.wmv
http://www-cepr.stanford.edu/news/krugman.wma

terça-feira, agosto 15, 2006

Aranhas, formigas e cérebro




«[...] As aranhas e as formigas estão longe de ser mestres da matemática ou magos das probabilidades (e eu temo que aconteça o mesmo com muitos membros da Confraria dos humanos, mas não vou agora desenvolver esse ponto.) No entanto, elas comportam-se tal como os modelos económicos da satisfação [satisficing] tipicamente predizem. Elas fazem-no na procura de comida, de acasalamento, de segurança do lugar para descansar, e por aí fora. Resumidamente, a modelação económica mostra que criaturas muito estúpidas podem fazer coisas muito espertas, não pensando nelas coisas tal como faria um teórico da decisão, mas precisamente como resultado de milhões de anos de estratégias ao acaso que levaram algumas espécies a adquirir uma boa probabilidade de ficar por cá, pelo menos durante mais uma geração - supondo que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a existência dessa geração.

«Os neurónios do cérebro também são, cada um deles, bastante estúpidos. Mas séculos de evolução conduziram-nos a respostas probabilísticas para que, em conjunto, criem estratégias para manter todo o organismo intacto durante mais uma geração (continuando a supor que o mundo se mantém mais ou menos estável durante a esse tempo). Para Glimcher, os modelos econométricos são tão precisos como qualquer coisa que se possa imaginar para mostrar que biliões de neurónios estúpidos podem agir em conjunto para aumentar a probabilidade de que o sistema - o animal - utilize avisadamente os seus recursos para garantir a sua permanência no mundo durante mais algum tempo.»

Recensão de Paul A. Wagner ao livro
"Decisions, Uncertainty, and the Brain:
The Science of Neuroeconomics
"
de Paul W. Glimcher
MIT Press, 2003.

Um dilema

"Risk Preference Instability Across Institutions: A Dilemma", de Berg, Joyce, John Dickhaut e Kevin McCabe
Proceedings of the National Academy of Sciences

Originalidades

A Sesibal é uma cooperativa de pesca que agrupa barcos de Sesimbra, Setúbal e Sines, mais especificamente traineiras que se dedicam à pesca da sardinha, carapau, e similares. O sector da pesca andas mal e tem suportado mal o acréscimo do preço dos combustíveis, apesar do mesmo ser subsidiado. Qual a solução? Bem, o responsável da Sesibal não tem falya de ideias. Pore exemplo:
«Como solução [a Sesibal] propõe um "preço mínimo estipulado por lei na ordem dos cinco por cento em cima de cada quilo de pescado". Este aumento de cinco por cento seria "diluído no intermediário e não no consumidor final". Outra solução que poderia melhorar as condições na actividade piscatória seria a "isenção do IRS, IRC e outras taxas", uma vez que a carga fiscal à pesca "é altíssima" e é descontada "directamente sobre as vendas".»
Trata-se de uma ilusão: a primeira venda do peixe é feita em leilão. Se fosse aplicado o sistema sugerido pela Sesibal, os compradores limitar-se-iam a exercer a sua licitação em valores mais baixos, de tal forma que, com a aplicação dos tais 5%, se encontrasse o preço de equilíbrio de mercado. Também não se percebe como é que esse ónus de 5% poderia ser "diluído no intermediário e não no consumidor final". Enfim: originalidades.

domingo, agosto 06, 2006

O valor de estar vivo

Robert H. Topel





























































The Economic Value of Life
[ 6m:57s - mp3 ]
Robert H. Topel [ Univ. Chicago ]


http://research.uchicago.edu/highlights/resources/media/topel_128k.mp3

Ganhos e perdas

Uma equipa de cientistas do California Institute of Technology, de Pasadena, realizou experiências com humanos em jogos simulados que mostraram que perante a avaliação de uma situação envolvendo probabilidades de ganhos e de perdas, as pessoas concentram-se primeiro, durante um curto lapso de tempo, nos ganhos, e só depois no risco de perdas. Esta descoberta foi possível devido às técnicas de imagiologia, dado que a avaliação de ganhos e de perdas se processam em diferentes zonas do cérebro.

Os resultados deverão ser publicados na edição de Agosto da revista Neuron. Notícia no MSN Health & Fitness.

segunda-feira, julho 10, 2006

Aquela máquina... publicitária

«Em termos de eficiência, a indústria da publicidade começa apenas agora a libertar-se da sua infância longa de um século, a qual pode ser designada como a "era Wanamaker". Foi John Wanamaker, um devotado comerciante Cristão de Filadélfia, quem, em 1870, não só inventou os departamentos de lojas e as etiquetas de preços (para eliminar a negociação de preços, pois todos deviam ser iguais perante Deus e o preço), mas também foi o primeiro publicitário moderno, ao comprar espaço nos jornais para promover as suas lojas. Trilhou um caminho cristão, nunca anunciando aos Domingos nem mentindo (e, desse modo, cunhando o conceito de "verdade na publicidade"). E, com a sua apurada mente negocial, expôs uma sabedoria que sempre pareceu uma lei económica: "Metade do dinheiro que gasto em publicidade é desperdiçado. O problema é que não sei qual das metades é."

«O que Wanamaker não podia ter adivinhado foi o advento da Internet. Um punhado de empresas empreendedoras, desde o Google (a mais valiosa agência mundial de publicidade disfarçada de motor de busca da web) até novatas de Silicon Valley, muitas delas apenas com meses de vida, estão a vender aos anunciantes novas ferramentas para reduzir o desperdício. Isto assume várias formas exóticas, mas há algo em comum: o desejo de substituir a antiga abordagem publicitária, na qual os anunciantes pagam pelo privilégio da "exposição" de uma audiência hipotética à sua mensagem, por uma outra na qual os anunciantes pagam apenas por acções reais e mensuráveis da parte dos consumidores, tais como clicar num web link, partilhar um video, fazer uma chamada, imprimir um impresso ou comprar alguma coisa.»

The Economist, "The ultimate marketing machine"

Não digas 'porquê', diz 'obrigado'



João César das Neves

«O ser humano actual, até no meio da prosperidade, sente uma amargura que o passado desconhecia. Para quem exige direitos, a quem impõe projectos, é difícil sentir-se grato por viver no mundo, mesmo quando chove, por ter um corpo, mesmo com dores. "A sabedoria na vida não está em fazer aquilo de que se gosta, mas em gostar daquilo que se faz", como diz o provérbio que o meu pai gosta de repetir. A verdadeira felicidade é daqueles que, perante os obstáculos e contrariedades, não perguntam "porquê?", mas conseguem dizer sinceramente "obrigado!". »

João César das Nevesin Diário de Notícias

Zero absoluto



Octávio Teixeira

«No que concerne ao reforço do poder tributário dos municípios, a proposta [de uma nova lei de finanças locais] é um zero absoluto. Não se regista qualquer aumento desse poder em relação aos actuais impostos municipais (que na prática o não são, pois quem define a base e as isenções é o Estado) nem se vislumbra a possibilidade de criação de novos tributos. Também no âmbito das receitas, Portugal continuará a ser um dos países mais centralistas da OCDE. Talvez para iludir esta realidade, o Governo atribui aos municípios a gestão de 3% do IRS. É uma rematada asneira, de duvidosa constitucionalidade. Basicamente, mas não só, porque o IRS é e vai continuar a ser no território continental um imposto estatal. Pelo que deve ser igual para todos os cidadãos, independentemente do local onde residam ou onde têm a sua residência oficial.»

Octávio Teixeira in Diário de Notícias

Desinvestimento

Notícia do "Público":
«Ministério da Agricultura vai reduzir
29 % dos seus dirigentes»

Faz todo o sentido. Se a agricultura está a desaparecer, e se o ministério acha que os agricultores existentes andam a desviar os financiamentos públicos para outros fins, só não se percebe é porque é que a percentagem não é substancialmente maior.

segunda-feira, junho 26, 2006

Economia das redes


"The Economics of Networks", de Nicholas Economides, da New York University

sexta-feira, junho 16, 2006

Se não os podes vencer, junta-te a eles!



«Os americanos não estão para invejas. O fosso entre ricos e pobres é maior ali do que em qualquer outro país avançado, mas a maioria das pessoas não está preocupada com isso. Enquanto os europeus sofrem por causa do modo como o bolo económico é dividido, os americanos querem é juntar-se aos ricos, e não espremê-los. Oito em cada dez americanos - mais do que em qualquer outro lado - acreditam que, embora se possa partir de uma situação de pobreza, se se trabalhar bastante, pode-se amealhar imenso dinheiro. É um ponto central do sonho americano.»

The Economist, Inequality in America

quinta-feira, junho 15, 2006

Crise iraniana e petróleo

Entrevista com Robin Below, economista-chefe da "Economist Intelligence Unit", gabinete de estudos da revista Economist , gravada em 24 de Maio de 2006.
 
Irão e aumento das tensões

Crédito: Economist. Url dos ficheiros:
Irão e aumento das tensões:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-1.asx
Cenário mais provável:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-2.asx
Preços do petróleo:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-3.asx
Efeitos no PNB e mercados:
http://w3.cantos.com/06/eiu-603-qkiy0/video/econ-g036-nb-v-4.asx

Crise energética





Entrevista com Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia, acerca da crise energética [10 minutos].

Se não tiverem paciência para estes 10 minutos de inglês macarrónico, poderão saltar para os últimos segundos da entrevista, onde Birol apresenta a sua panaceia - a curto, médio e longo prazo - para a crise: «Investimento, investimento, investimento! Encontrar dinheiro, pessoas e infraestruturas para investimento que permita aumentar a capacidade produtiva, tanto nos paises produtores de petróleo como no sector de refinação.»

Giorgio Primiceri

Giorgio Primiceri, Professor da Northwestern University, estará na próxima segunda-feira (19 de Junho) em Lisboa, para uma conferência sobre a variabilidade temporal das flutuações macroeconómicas ("The Time Varying Volatility of Macroeconomic Fluctuations"). O evento é organizado pelo Banco de Portugal e tem lugar às 17 horas, no Edifício Portugal, na Rua Francisco Ribeiro nº 2.

A intervenção deste conferencista deverá acompanhar de perto o paper com o mesmo nome, escrito em co-autoria com Alejandro Justiniano, e que se encontra disponível aqui (pdf): "The Time Varying Volatility of Macroeconomic Fluctuations".

Outros trabalhos deste economista:
  • "Predictable Life-Cycle Shocks, Income Risk and Consumption Inequality"
  • "Inequality over the Business Cycle: Estimating Income Risk using Micro-Data on Consumption"
  • "Intertemporal Disturbances"
  • "Time Varying Structural Vector Autoregressions and Monetary Policy"
  • "Recursive 'thick' modeling of excess returns and portfolio allocation"
  • segunda-feira, junho 05, 2006

    O Tal Professor

    O professor Luís Santos Pinto começa a sua crónica na revista DiaD (Público) de hoje com uma pequena diversão: «Se pedirem a um economista sugestões para tornar os trabalhadores de uma empresa pouco produtivos, as respostas poderão ser: (1) pagar o mesmo salário aos melhores e aos piores (2) nunca despedir ninguém (3) nunca promover ninguém para uma função hierarquicamente superior.»

    É claro que não fomos nós quem colocou esta pergunta ao professor LSP, pelo que ele, economista encartado, não pode ser responsabilizado pelas respostas,mas sim o "tal economista" a quem nós, eventualmente, colocaríamos a questão. E claro que ele próprio também não arrisca um centímetro na resposta, porque, cautelosamente, não nos diz que aquelas seriam as respostas, mas sim que "poderiam sr"... Capisce?

    Deve, pois, o professor LSP estar convencido de que joga pelo seguro. Mas, inadvertidamente, dá logo de seguida uns arriscados saltos epistimológicos em que se candidata a estatelar no chão da sabedoria. É que o divertido intróito serve para, logo a seguir, munido ele daquela sapiência com que o "tal economista" poderia, eventualmente, ter-nos agraciado, afirmar que são precisamente aquelas normas as que são aplicadas na gestão dos funcionários públicos portugueses. E é por isso, diz ele, que o "sistema" é tão ineficiente.

    Vamospor partes. Damos de barato que, ao falar de "bons" e "maus" trabalhadores, o professor LSP se refere a trabalhadores "mais" e "menos eficientes" -um pouco de ética religiosa aplicada à produção não faz mal a ninguém. Mas logo a seguir tropeçamos no primeiro problema epistimológico: a função pública é uma empresa? Os conselhos do "tal economista" não eram para as empresas? E aplicam-se ipsis-verbis num e noutro "sistema"? E nesse caso, porquê não ter pedido ao "tal economista" sugestões para explicar a ineficiência do sistema da função púbica?

    Ocorreu-me, por outro lado, que se o "tal economista" poderia ter dado aquelas sugestões, também poderia ter dado outras: (1) mudar as chefias, os objectivos e orientações cada vez que muda o governo; (2) não criar nos trabalhadores qualificados qualquer expectativa de promoção aos lugares superiores da administração pública fora do circuito partidário (3) sugerir publicamente que para desempenharem bem as suas funções os trabalhadores da função pública terão de sentir a ameaça do desemprego. (Eu aqui, tal como o professor Cavaco Silva no debate com Soares, tive de me controlar, porque só me ocorriam coisas disparatadas, tal como "colocar os trabalhadores numa sala, durante uma manhã por mês, a ouvir professores de economia palestrar sobre o seu desempenho profissional, etc.)

    Ou seja: havendo mais factores de desmotivação (chamemos-lhe assim) do que aqueles três que o professor LSP ouviu ao "tal economista", como pode ele assentar a sua palestra apenas naqueles? Foi o "tal economista" que lhe disse? Foi ele próprio que investigou?

    Mas o pior - muito pior- decorre de uma outra afirmação do professor LSP: a de que "a questão que hoje nos devemos colocar não é porque é que os serviços públicos são de tão baixa qualidade mas sim como é que não são piores".

    Exacto, meu caro LSP! Essa é que é a questão milionária!

    Não sei se sabe que há um pressuposto, nestas coisas do pensamento, que é a racionalidade? Bem, deve saber, porque é evidente que o seu texto tem todo o ar de procurar a racionalidade: começando logo pelo recurso ao tal sábio economista. Então, caro professor, onde é que está a racionalidade dum sistema que deveria gerar mais desperdício, mas não o faz? E isto, ao ponto do caro professor LSP se espantar com a discrepância?

    Coloquemos de novo a questão: o nosso "sistema" da função pública (1) paga o mesmo salário aos melhores e aos piores (2) nunca despede ninguém (3) nunca promove ninguém para uma função hierarquicamente superior (é isto, não é?). Porque diabo, então, não é totalmente ineficiente? Só pode haver uma resposta: há outras variáveis que o "tal economista" não levou em consideração. Claro que a culpa não é sua, mas sim dele. O "tal economista" esqueceu-se, talvez (também aqui tenho de ser cuidadoso...) de que as pessoas se realizam no trabalho de várias maneiras: desempenhando bem as suas funções, procurando responder ao esforço que lhes é solicitado (seja pelas chefias directas, seja - em termos culturais - pela sociedade). Ou simplesmente movidos pela sua própria auto-estima. Ou então, e em sentido oposto, podem ter receio de ficar mal vistos pelos seus colegas, ou de prejudicar alguém que com eles depois se zangue, ou ainda que lhe levantem um processo disciplinar.

    Enfim: pode haver mais variáveis para além desse Trio Odemira com que o "tal economista" o presenteou. Havendo mais variáveis, levanta-se novo problema: qual o peso de cada variável? Teria esse "tal economista" investigado o problema? Terá algum "paperzito" publicado sobre o assunto?

    Sabe qual é o nosso mal, professor LSP? É sermos muito ingénuos. Vai a gente a acreditar num economista, e depois sai-nos na rifa um superficial qualquer. Já viu o problema: o tal economista erra no diagnóstico, e depois é o caro professor LSP que, involuntariamente, erra na prescrição.

    Por exemplo: prescreve bónus aos professores pelos diferenciais de avaliação dos respectivos alunos face a alunos do mesmo extracto-social... E como é que mede o sr. professor LSP o extracto-social dos alunos? A coisa vai por classes (estatísticas, é claro)? E os alunos são informados das classes a que pertencem? E o extracto-social dos professores não conta? (sejamos sérios: tem de contar, francamente!). E a comparação "alunos-do-professor vs. alunos-do-mesmo-extracto-social" seria feita no interior da mesma universidade? Do mesmo curso? De universidades diferentes? De Portugal? Da União Europeia?

    Há uma outra coisa que me incomoda na argumentação do sr. professor LSP: é que faculta aos doentes que avaliem os médicos para efeitos de medição do desempenho destes últimos, mas já não concede essa benesse aos alunos relativamente aos professores. A que se deve tal diferença de tratamento? Acaso as curas (positivas e negativas, ou seja, não-curas) não teriam de ter em conta, também, o extracto social dos doentes, e bem assim, dos médicos?

    Nos juízes o sr, professor LSP ainda nos confunde mais, porque, depois de ter conseguido avaliar quais os juizes mais e menos competentes (saltamos por cima do método), o sr.professor resolve castigar os mais competentes atribuindo-lhes, precisamente, os processos "mais complexos" - algo muito contraditório com o sistema "pau-e-cenoura" com que pretende disciplinar as outras profissões, incluindo a sua! Provavelmente, o sr. professor LSP, sendo altamente competente, não quererá ficar com as turmas "mais complexas", será isso?

    Zack Lynch


    No suplemento de Economia do Expresso de 3 de Junho passado, um artigo de Jorge Nascimento Rodrigues chama a atenção para as oportunidades de mercado das neuro-tecnologias aplicadas à prevenção e tratamento de doenças neurológicas. O artigo baseia-se no trabalho de Zack Lynch e da sua empresa Neuroinsights.

    Aqui no 'Pura Economia' já tinhamos referido o trabalho de Zack Lynch, em Maio do ano pasado, na entrada de Nano-bio-info-cogno-tecnologias: «A neurotecnologia nascente "está a ser acelerada pelo desenvolvimento de nanobiochips e imageologia cerebral que tornarão as análises neurológicas precisas e baratas" - exactamente o que o microprocessador fez para o tratamento de dados. Entre as aplicações previsíveis estarão "a melhoria intencional da estabilidade emotiva, das actividades cognitivas e a extensão das experiências sensoriais". Poder-se-ão prever igualmente combinações com tecnologias complementares em novos sectores como a neuro-finança

    No artigo do Expresso, Lynch destaca «dois nichos com perspectivas de mercado com taxas de crescimento 2 vezes superiores à media do sector: a implantação de dispositivos internos (denominados invasivos>, em que "cada nova geração de 3 em 3 anos tem uma diensão cada vez mais micro e acarretando menos efeitos colaterais"; e a neuroestimulação externa, baseada em dispositivos não invasivos, considerada muito promissora».

    segunda-feira, maio 08, 2006

    Artigo de João Ejarque e Pedro Portugal:

    "Labor Adjustment Costs in a Panel of Establishments"
    (Fevereiro de 2006)