sábado, fevereiro 11, 2006

Economia portuguesa: comunicações

O Banco de Portugal já disponibilizou em linha as comunicações da Conferência que teve ontem lugar na Gulbenkian (ficheiros pdf):

  • "Abertura" - Vítor Constâncio, Governador do Banco de Portugal (é apenas uma pequena parte da intervenção, nem sequer é um resumo)

  • "The Structural Transformation and Aggregate Productivity in Portugal" - Margarida Duarte, do Carnegie Mellon University, e Diego Restuccia, da University of Toronto

  • "Taxes and Labor Supply: Portugal, Europe, and the United States" - André de Castro Silva, da Universidade Nova de Lisboa

  • "Budget Setting Autonomy and Political Accountability" - Susana Peralta, da Universidade Nova de Lisboa

  • "Adjustment within the Euro. The Difficult Case of Portugal" - Olivier Blanchard, do Massachusetts Institute of Technology

  • "Equality of Opportunity and Educational Achievement in Portugal" - Pedro Carneiro, da University College of London

  • "The Internal Rate of Return to On-the-Job Training" - Rita Almeida, do Banco Mundial

  • "Will the East Follow Portugal?" - Cátia Batista, da University of Oxford

  • "Small Firms in Portugal: A Selective Survey of Stylized Facts, Economic Analysis and Policy Implications" - Luís Cabral, da New York University

  • "Asymmetric Information in the Stock Market: Economic News and Co-movement Between US and Portugal" - Rui Albuquerque, da Boston University, e Clara Vega, da University of Rochester

    Margarida DuarteDiego RestucciaOlivier Blanchard
    André de Castro SilvaPedro CarneiroRita AlmeidaSusana Peralta
    Cátia BatistaLuís CabralRui AlbuquerqueClara Vega
  • sexta-feira, fevereiro 10, 2006

    Conferência do Banco de Portugal

    Assisti à Conferência do Banco de Portugal, onde se destacaram as intervenções de Vítor Constância, bem como, e sobretudo, a de Olivier Blanchard.

    Vitor Constâncio fez uma espécie de retrato negativo das causas da divergência da economia portuguesa face à UE (não é a evolução dos preços relativos, não é a intensidade das reformas nem a qualidade das nossas instituições, não são as diferenças de fiscalidade, não é a regulação do mercado, etç.) Salientou, por outro lado, a capacidade potencial existente para absorção de tecnologia, daí a importância que o investimento estrangeiro tem para Portugal.

    Blanchard fez um diagnóstico dos nossos problemas económicos, mais "normal" do que acontece frequentemente com muitos portugueses, que gostam de salientar a "anormalidade" do caso português (no fundo, acho que ainda são resíduos da tese de António Sérgio sobre a nossa "mentalidade" retrógrada, a necessitar de "reforma", etç; se fossemos diferentes a nível dos estímulos, precisaríamos de uma teoria económica diferente só para nós, não é assim?). Blanchard encontrou até semelhanças entre a nossa evolução recente e a França de algum tempo atrás.

    Disse Blanchard que a situação que tivemos, de taxas de juro baixas e uma visão optimista quanto ao futuro, explicam o agravamento, naquela altura, do endividamento e o défice fiscal. Agora é fácil dizer que foi um erro de antevisão (das famílias, das empresas, do governo) mas durante o boom fazia sentido. Por outro lado, admitiu que alguns indicadores poderiam ter alertado para uma reacção mais a tempo.

    O economista de origem francesa foi igualmente muito franco quanto ao nosso futuro: ou ajustamos a economia com aumentos de produtividade, o que vai ser lento (10 anos, e se correr tudo bem) ou o fazemos com diminuição dos salários reais, o que pode ser mais rápido, mas também mais doloroso (ou mais... impossível!...)

    O resto da conferência teve boas comunicações, igualmente com boas intervenções dos comentadores convidados. Uma intervenção descabida e desagradável foi protagonizada por Paulo Trigo, ao comentar (como convidado) a comunicação de Susana Peralta acerca da autonomia da fiscalidade local. A análise de Susana Peralta, por aplicação da Teoria dos Jogos ao ciclo eleitoral das autarquias locais, colocou a hipótese da fraca autonomia fiscal das autarquias e correspondente pouca transparência na afectação dos recursos fiscais, criar condições para a permanência/reeleição de políticos "egoístas", que procuram rendas para si próprios, em contrapartida com políticos "altruístas". Foi uma tese original (para mim) e bem explicada.

    Paulo Trigo, que tinha feito antes uma critica cientificamente fundamentada a uma comunicação de André Castro Silva, enveredou por uma "crítica" ideológica a Susana Peralta - não só à sua comunicação, mas também à própria pessoa. Referindo ser ele mais velho e ter "conhecido" o período anterior à Revolução (mas, pela idade, até nem deve ter conhecido grande coisa...) sugeriu ignorância da jovem economista da Universidade Nova, e, até, que ela estaria a defender o salazarismo, "que não dava direito de voto às mulheres", etç. A comunicação de Susana Peralta não dizia nada disso, mas Paulo Trigo parece ter ficado incomodado com a simples sugestão de que no sistema democrático actual se geram efeitos económico-políticos perversos, como o já referido.

    Ora, creio eu que um investigador que detecte, na sua investigação, efeitos perversos, deve divulgá-los, independentemente de isso beliscar os mecanismos democráticos. A ciência não tem que se auto-limitar com a ideologia ou o "politicamente correcto". Colocar hipóteses desagradáveis, testá-las e divulgá-las, ainda que possam vir a ser mais tarde infirmadas, é algo que deve ser elogiado e não criticado . Será o sistema democrático uma vaca sagrada onde não se possa tocar? Creio que não.

    terça-feira, fevereiro 07, 2006

      «Educação e desenvolvimento económico na agenda de Jorge Sampaio»  

    (título do Público)

    É verdade que o Jorge Palma descobriu que nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Mas não será um bocadinho tarde, Sr. Presidente?...

    Ai o Estado...


        André Carraro

    André Carraro é um economista brasileiro que, entre outras coisas, lecciona na Universidade de Santa Cruz do Sul e escreve para o blogue Economia Everywhere; na revista "Contexto Económico" encontramos um seu texto sobre "Economia x Corrupção", onde lista as desvantagens e vantagens da corrupção. Vale a pena atentar nestas últimas:
    «Qual é o benefício da corrupção? Bem ou mal, os investimentos acontecem e os processos têm andamento. Quando um empresário encontra um funcionário público honesto, que segue as regras e as normas estabelecidas, o custo para a empresa é a lentidão no andamento dos processos, já que existe excesso de regulamentação. Assim, a saída para o empresário é encontrar um funcionário que demande propina

    Não existe competição dentro do serviço público, assim como não existe competição pela oferta de serviço público. Existe, sim, o chamado poder discricionário, ou seja, alguém tem o poder de decidir quem vai receber o serviço ou o bem público, através da utilização de critérios técnicos ou políticos. É desta forma que ocorre a venda do serviço público. Para a sociedade, isso tem um custo imenso, pois o resultado é a redução da rentabilidade do capital ao menor investimento.

    O que fazer? Não existe uma resposta única e definitiva, mas um procesos em discussão. Enquanto acharmos que a solução para o fenómeno da corrupção no Brasil está na denúncia e na punição de indivíduos, não haverá mudança nas regras do jogo. As regras do jogo estão equivocadas. A formação do Estado está equivocada. A solução para a corrupção está na denúncia do fracasso do Estado nacional. É preciso mudar o enfoque, pois a corrupção é um problema de instituições equivocadas.»


           Isabeli Fontana

    André Carraro é também um homem de humor corrosivo, como se pode ver nos seus posts no Economia Everywhere. Num deles coloca ao leitor o seguinte desafio mental: «Mas, o que aconteceria se a sociedade fosse aos poucos mudando a forma como ela identifica o criminoso? O que aconteceria se de ladrão um criminoso fosse chamado de operário» - isto a propósito da opinião da modelo Isabeli Fontana sobre os ladrões que a assaltaram na rua: «Eles não têm culpa, pois fazem isso para ganhar a vida. Isso é mais um exemplo de que as pessoas devem se preocupar em ajudar umas as outras.»

    Noutro post pergunta ao leitor que prenda daria ao presidente Lula no jogo do "amigo oculto":
          a) um livro do Saramago
          b) a reeleição
          c) o jogo banco imobiliário
          d) um novo ministro da fazenda
          e) um projecto de governo

    (via De gustibus)

    Bons conselhos

    «Algumas noções de Direito para blogueiros»: texto que se reporta ao Brasil mas que tem ensinamentos generalizáveis.
    Via Economia Everywhere, onde funciona como aconselhamentos a potenciais comentadores. Eis alguns excertos:
    Alguns cuidados na redação de críticas

    A crítica deve ser objectiva. Isso significa que ela não deve ser feita à pessoa, mas a um facto, a algo que ela fez. Numa crítica literária, deve-se discutir a obra, não o autor. Numa crítica ao comportamento de alguém, deve-se criticar apenas a atitude desagradável.

    As críticas subjectivas, em regra, são possíveis tão somente quando atacam uma opinião e não uma pessoa. É lícito dizer que é estúpido o raciocínio simplista de que aumentando a pena diminui-se a criminalidade. Mas deve-se evitar dizer que a pessoa que emitiu esta opinião seja estúpida. Ainda que eventualmente os raciocínios estúpidos sejam provenientes de pessoas estúpidas, uma afirmação como essa não pode ser considerada uma ofensa, pois mesmo indivíduos brilhantes emitem opiniões infelizes.

    Deve-ser evitar criticar uma empresa sem ter algo contra ela. A reclamação pode ser feita, sim. Mas quem reclama deve fazê-lo com base em factos, não em suposições, ou porque ouviu alguém reclamar. A crítica aos serviços das empresas pode ser considerada de utilidade pública, mas deve ser dirigida ao serviço prestado, não ao dono ou à empresa como um todo, a menos que quem critique realmente tenha algo contra eles, e possa provar isso.

    Se uma empresa reclamar por e-mail do que foi escrito sobre ela, é aconselhável que o autor do blog convide-a a integrar o debate e se manifestar no espaço de comentários, dando-lhe a oportunidade de emitir sua opinião e, porventura, alterar a opinião dos demais debatedores. Não há, em princípio, a obrigação de retratação ou de retirada de comentários, a menos que os termos usados tenham sido realmente desrespeitosos e ofensivos.

    Não se deve usar o nome de uma pessoa para expô-la ao desprezo público, como nas "páginas de ódio". Isso é vedado pelo Código Civil. Evitar expor o e-mail de um desafecto também é aconselhável para não se perder o controle do debate ao estendê-lo a terceiros, nem aumentar a possibilidade de ofensas ou prejudicar o funcionamento normal do e-mail da pessoa.

    O autor do blogue tem o dever de cuidar da veracidade da informação que vai publicar, verificando sempre a origem da notícia que será divulgada. Por mais que o blogueiro tenha orgulho em ser pato do Cocadaboa, não deve divulgar boatos ou fatos não-confirmados.

    Não se pode esquecer que, mesmo usando pseudónimo, o conteúdo do blog pode facilitar a identificação de seu autor, seja por amigos ou colegas de trabalho. Assumir um pseudónimo exige cuidado redobrado nas informações disponibilizadas para não dar margem à interpretação de que o pseudónimo foi usado para fornecer informações que não seriam publicadas se fossem feitas com o próprio nome.

    A Lei de Direitos Autorais protege o direito do autor de ter seu nome associado à sua obra. Sempre que o responsável pelo blogue mencionar algo que não é da sua autoria deve indicar o nome do autor e a fonte de onde o texto foi retirado. Se a pessoa não souber quem é o autor, deve explicar que o trabalho é de autoria desconhecida. Preferencialmente, o trabalho de outrem deve ser destacado do trabalho do autor do blogue, seja por fonte diferente, recuo de margem, ou outro recurso que não deixe dúvidas quanto à autoria de cada um.

    Em hipótese alguma se pode alterar o texto de terceiros sem autorização expressa do autor, pois isso também constitui infração prevista na Lei de Direitos Autorais.

    segunda-feira, fevereiro 06, 2006

    A terra do lazer


    Variação no total de horas trabalhadas por semana, por anos de escolaridade (inclui trabalho no mercado e em tarefas domésticas).

    O gráfico da esquerda ilustra o artigo da revista The Economist, "The land of leisure", "A terra do lazer". Que terra será esta? Bem, espantemo-nos: são os EUA.

    Ainda não há muito tempo "toda a gente" (um famoso personagem criado por Gil Vicente) dizia que quem mais se baldava ao trabalho eram os "europeus" (personagem que ainda não existe, apesar das inúmeras tentativas) e que, por isso, estavam a ficar para trás, em termos de produtividade, face aos americanos.

    Mas eis que dois desses workaholics americanos - Mark Aguiar e Erik Hurst - decidem «construir 4 diferentes medidas de lazer, a mais estreita das quais inclui apenas actividades que toda a gente considera de relaxamento ou de diversão; a mais abrangente inclui tudo o que não está relacionado com um trabalho remunerado, tarefas domésticas ou simples deslocações.» Pois bem: seja qual for o indicador utilizado os americanos, ao longo dos últimos 40 anos, têm ganho mais tempo livre do que pensavam.

    A discrepância entre este estudo e os anteriores parece decorrer de questões metodológicas. Os estudos anteriores apoiaram-se exclusivamente nas estatísticas oficiais sobre "trabalho remunerado", não cuidando de saber o que é que se passava efectivamente nos períodos restantes. Os investigadores referidos analisaram o tempo gasto em compras, confecção de alimentos, deslocações e manutenção da casa. São estas ocupações que levam as pessoas a dizer que estão muito sobrecarregadas com trabalho - principallmente as mulheres trabalhadoras com filhos. O estudo mostrou que os americanos gastam agora muito menos tempo nestas tarefas do que há 40 anos atrás, devido a várias causas: aparelhagens domésticas, entregas em casa, internet, compras 24 horas e serviços domésticos a preço acessível. Tudo isto aumentou a flexibilidade e libertou tempo às pessoas.

    Aguardemos agora que alguém faça o mesmo exercício de análise aos europeus.

    O estudo de Mark Aguiar e Erik Hurst encontra-se expresso neste paper publicado pela Reserva Federal de Bonston: "Measuring Trends in Leisure: The Allocation of Time over Five Decades" (pdf).
    [Sim, o estudo abrange um período 40 anos, desde 1965 até ao presente, mas percorre 5 décadas, capice ?]

    Conferência do Banco de Portugal

    É já no próximo dia 10 de Fevereiro que terá lugar, na Gulbenkian, a III Conferência: “Desenvolvimento Económico Português no Espaço Europeu, uma iniciativa do Banco de Portugal. Do programa, que se encontra disponível aqui, destacam-se:

  • 9.30 - Vítor Constâncio , no discurso de abertura
  • 10:30 - Margarida Duarte e Diego Restuccia, "The Structural Transformation and Aggregate Productivity in Portugal
  • 11:00 - André de Castro Silva, "Taxes and Labor Supply: Portugal, Europe, and the United States"
  • 11:45 - Susana Peralta, "Budget Setting Autonomy and Political Accountability"
  • 15:30 - Pedro Carneiro, "Equality of Opportunity and Educational Achievement in Portugal"
  • 16:00 - Rita Almeida e Pedro Carneiro, "The Internal Rate of Return to On-the-Job Training"
  • 16:20 - Cátia Batista, "Will the East Follow Portugal?"
  • 17:15-Luís Cabral, "Small Firms in Portugal: A Selective Survey of Stylized Facts, Economic Analysis, and Policy Implications"
  • 18:00 - Rui Albuquerque e Clara Vega, "Asymmetric Information in the Stock Market: Economic News and Co-movement Between US and Portugal"
  • sexta-feira, fevereiro 03, 2006

    DiscoverEcon




    usando a tecnologia no ensino da Economia
    Entrevista com Gerald Nelson - 29.Jan.2006 - 27:36m (mp3)
    Crédito: RadioEconomics.com - James Reese

       Veja uma demonstração do DiscoverEcon   

    url da entrevista:
    http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20060129-509.mp3
    url da demonstração:
    http://www.discoverecon.com/decon.swf

    quarta-feira, fevereiro 01, 2006

    Tem graça

    Escreve VascoPulido Valente no seu blogue:

    «O dr. Jorge Braga de Macedo, cuja perspicácia o país já pôde apreciar, disse na televisão que "a idade de reforma devia ser indexada à esperança de vida". Parece que a Suécia, um sítio historicamente habitado por anormais, resolveu assim o problema da Segurança Social. A lógica é esta. Primeiro, uma criatura tem de durar à força de água, alface e fibras, de exercício físico e de muitos médicos. A seguir, ao fim 40 anos de sofrimento como Santo Onofre, não ganha, como Santo Onofre, o Paraíso, ganha para a bem da sua alma e do aprimoramento das contas públicas, mais trabalho. »

    Quem diria que ainda veríamos VPV a defender o Estado Providência!...

    O argumento segue assim: como as pessoas "não vão com certeza ocupar indefinidamente os lugares de responsabilidade e direcção, porque perderam a força, a inteligência, a capacidade de aprender e se tornaram pouco a pouco um obstáculo ou até um risco", terão de ser despromovidas. E remata: "não gostaria de o ver a ele, com 78 anos, gaguejante e trémulo, como encarregado de limpeza da Faculdade de Economia da Universidade Nova, onde iluminou tanto espírito com a luz do seu."

    Isto é o que se chama, na metodologia da ciência, um "argumento fraco": "se as pessoas não podem ser despromovidas, então mantenha-se o Estado Providência tal como está." Mas porque é que as pessoas não hão-de poder ser despromovidas? E porque é que não hão-de poder continuar a ocupar os mesmos postos durante mais tempo?

    VPV tem graça, mas não convence.

    terça-feira, janeiro 31, 2006

    Economia e imagiologia neural

    «O uso das técnicas de imageologia neural [neuroimaging] em contextos de mercado ainda se encontra na sua infância. Apesar de muito prometedor, é ainda necessária uma grande quantidade de trabalho experimental para determinar qual o conjunto de problemas que pode ser melhor tratado com esta abordagem, e como é que as técnicas de imagiologia neural podem complementar os métodos existentes. As técnicas de imagiologia neural não geram hipóteses só por si - e para formular hipóteses é necessário ter uma profunda compreensão dos temas envolvidos no contexto da investigação.

    O estudo de McLure e outros ["Neural Correlates of Behavioral Preference for Culturally Familiar Drinks"] envolvendo a Coca Cola e a Pepsi fez exactamente isso, dado existir uma literatura extensiva acerca das marcas [branding], de testes cegos e não-cegos e do papel da imagem das marcas e seu significado cultural. Também é promissor o uso da imagiologia neural para ajudar a compreender melhor o modo como a informação de mercado é consolidada na memória, ou como os padrões de activação mudam ao longo de múltiplas exposições a um dado anúncio. Além disso, pode revelar mais acerca dos componentes efectivos associados com um produto ou acerca da compensação associada à aquisição de um produto.

    Uma área de aplicação muito interessante envolve a dinâmica básica da realização de escolhas. Um estudo de imagiologia neural, potencialmente muito importante por colocar em causa uma assumpção central da Economia, revelou que as atitudes acerca de recompensas [payoffs] e as crenças acerca da probabilidade de resultados, interagem tanto comportamentalmente como neurologicamente ["Neuronal Substrates for Choice Under Ambiguity, Risk, Gains, and Losses"]. Isso pode ajudar-nos a determinar se um anúncio está a ter um impacto emocional duradouro ou se determinadas metáforas estão a ser efectivas.»

    "A behavioral window on the mind of the market:
    An application of the response time paradigm
    ",
    de Fred W. Mast e Gerald Zaltman.
    "Brain Research Bulletin", 15 de Novembro de 2005

    sexta-feira, janeiro 27, 2006

    Mozart

    Mozart


    "Gente, gente!" (Bodas de Figaro)







    Flauta Mágica

    A propósito dos 250 anos do nascimento de
    Wolfgang Amadeus Mozart

    http://www.luc.edu/depts/history/dennis/Music_files/Mozart%20-%20Figaro%20-%20Gente,%20gente.mp3

    http://www.karin-schoepke.de/Zauberflote.mpg


    Outras músicas de Mozart: aqui, aqui e aqui.

    terça-feira, janeiro 24, 2006

    Lendas

    O Correio da Manhã de ontem traça um perfil de Cavaco Silva onde, a certo passo, se relatam "factos" ocorridos no ISCEF/ISE. Trata-se de relatos anedóticos e provavelmente falsos. Por exemplo, creio que Cavaco Silva (como professor) e Ferro Rodrigues (como aluno) nunca se terão encontrado naquela escola. A contestação às suas aulas e a profecia de que um dia seria primeiro-ministro, perante a galhofa dos alunos, não fazem qualquer sentido. Tal como não faz sentido que a matéria leccionada por Cavaco Silva (modelos keynesianos, muito acarinhados pela ortodoxia marxista da escola, na linha das análises de conjuntura de Pereira de Moura) assentasse "como uma luva na ideologia do regime".

    Cavaco Silva nunca foi um docente popular em Económicas, particularmente devido à rigidez do seu estilo, mas era considerado competente. As disciplinas verdadeiramente contestadas no ISCEF/ISE eram as altamente selectivas Matemáticas e as leccionadas por gente marcadamente de direita, tais como as de Direito, disciplinas às quais se fizeram greves a aulas e a exames. Nunca tal aconteceu à cadeira de Cavaco Silva. Mas, enfim, é destas patranhas que se fazem as lendas, pelo que transcrevo aqui as balelas do Correio da Manhã:
    «A contestação política que a partir de 1968 agita as universidades portuguesas abate-se sobre Cavaco Silva. No Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), onde é assistente da cadeira de Finanças Públicas, o remoinho da crise estende-se ao campo científico. Cavaco Silva é contestado. Introduz na cadeira os testes à americana – a gota de água que leva à revolta dos alunos. A matéria debitada parece assentar como uma luva na ideologia do regime. Numa das aulas a turma de Ferro Rodrigues põe em dúvida a eficácia do método de avaliação e a ciência do assistente. «Cavaco fica à beira de um desmaio – e um contínuo traz-lhe um copo de água. Mais tarde, em 1975, os alunos riem-se a bandeiras despregadas com um ensinamento do professor. “Vocês vão ver. Um dia, hei-de ser primeiro-ministro”, respondeu-lhes Cavaco.»

    Um mundo cor-de-rosa - e pateta!


    [ clique para ampliar ]
    Atente-se nesta manipulação grosseira de uma foto original de uma manifestação de mulheres iranianas, manipulação feita pela organização feminina pacifista americana (e de esquerda...) Code Pink, para fins promocionais da própria organização.

    A foto original (parte de baixo da imagem supra) é de uma manifestação de mulheres iranianas, em defesa dos seus direitos e contra a discriminação sexual. A manipulação feita pela "Code Pink" (parte de cima) mostra a junção de algumas mulheres ocidentais e a modificação dos cartazes originais, que passaram a exibir a cor rosa da organização.

    O cartaz ao centro, onde se exige igualdade de direitos, foi substituído por uma escrita arábica irrelevante, e a forte expressão de protesto da jovem mulher ao centro foi substituída por uma cara de pateta; o papel que ela exibe dizia : "Nós somos as filhas de Ciro, as pioneiras dos direitos humanos (*)", mas foi transformado num "join us" publicitário. Nem mesmo a mulher iraniana que aparece a segurar um cartaz rosa à direita fazia parte da fotografia original.

    É evidente que a cor rosa dos cartazes manipulados visa representar o grupo pacifista. Mas creio que a cara de pateta que atribuíram à mulher no centro da imagem é igualmente representativa destas militantes "Code Pink".


    Via o blogue De Gustibus Non Est Disputandum e Publius Pundit. A manifestação das mulheres iranianas teve lugar em 12 de Junho de 2005 e é noticiada aqui. A imagem original, do fotógrafo Amir Kholoosi, é esta; outras imagens da mesma manifestação, que teve lugar junto à Universidade de Teerão, encontram-se aqui e aqui. A imagem (original ?) das militantes "Pink" que foram "adicionadas" à foto de Teerão pode ser vista no topo deste blogue.

    (*) - Ciro, "O Grande", é considerado o fundador do império Persa. Destacou-se por uma generosidade rara no seu tempo, ao poupar os seus inimigos vencidos - empregando-os mesmo em cargos admnistrativos de seu império. Ciro também demonstrou tolerância religiosa e procurou manter todos os povos do império sob a admnistração de líderes locais. Autorizou os judeus a regressar à Judeia, pondo fim ao período de exílio babilónico. [Wikipédia]

    Podcast

    Paul Wolfowitz, presidente do Banco Mundial
       Paul Wolfowitz   


    Ficheiro m3u - 9:34 min. - 4,4 MB
    Paul Wolfowitz, Presidente do Banco Mundial, fala sobre as prioridades do desenvolvimento.

    Crédito: The Economist; url:
    http://media.economist.com/media/audio/world-in-2006/Priorities_for_world_development.m3u

    segunda-feira, janeiro 23, 2006

    Gostos não se discutem


    Se viu a noite eleitoral, talvez goste desta fita...

    O New York Times relata o lapso que ocorreu com o sistema de "recomendações" da Walmart.com, e que obrigou a empresa a emitir um pedido de desculpas. O sistema de recomendações é aquela rotina informática que, no momento em que procuramos por um produto na net (livro, filme, disco, etç) solicitamente nos indica produtos similares, de que talvez também gostemos, porque outros leitores com gostos "semelhantes" ao nosso também os compraram, etç.

    O que levou a Walmart a pedir desculpa foi o facto dos consumidores que consultavam um conjunto de DVDs que incluiam os filmes "Martin Luther King: I Have a Dream" e "Unforgivable Blackness: The Rise and Fall of Jack Johnson", terem recebido a mensagem de que talvez gostassem também de comprar o DVD do "Planeta dos Macacos" (ou do "Ace Ventura: Pet Detective", "entre outros títulos irrelevantes"...)

    Afinal, os computadores até são capazes de se parecer mais com os humanos do que acreditamos: pois se até cometem os mesmos lapsos!...

    storm/stoned

    Novo blogue linkado: french kissin'. Além do mais, um incondicional de Dylan. E já que se falou no assunto:




    http://filebox.vt.edu/j/jcdecker/Dylan%20-%20Shelter%20From%20The%20Storm.mp3
    http://kalioglou.sweb.cz/Bob%20Dylan%20-%20Everybody%20Must%20Get%20Stoned.mp3

    Boca-a-boca

    Uma notícia do Jornal de Negócios, já com alguns meses (Novembro de 2005), sobre o peso do "factor c" (cunha) na obtenção de empregos, continua a fazer eco na imprensa. Hoje é a revista DiaD, que refere que «28 % dos 5,1 milhões de empregos em Portugal no terceiro trimestre de 2005 foram conseguidos por cunhas, ou seja, por intermédio de pessoas conhecidas, segundo dados do INE.»

    E acrescenta a revista: «Falar de desenvolvimento, de competitividade, de futuro, de suar a camisola e, se necessário, "comer" a relva torna-se difícil quando se é confrontado com um número destes. A modernidade é incompatível com a tacanhez de raciocínio que está na a nossa raíz genética.»

    Este estilo "moralista" é típico de alguns comentadores de jornal e até de muita da blogosfera. Mas creio que não é caso para tanto. É evidente que o autor deste cacharolete de metáforas parte do princípio que um emprego obtido através de um conhecimento qualquer é um emprego ineficiente - e que os países mais eficientes não recorrem a este método de ajustar oferta e procura de trabalho. Contudo, não é necessariamente assim.

    Mas vamos por partes. No lado oposto do emprego através de conhecimentos pessoais encontrar-se-ia o recrutamento através de um concurso público nacional (quiçá europeu...) Sem dúvida que, dessa forma, se emularia uma concorrência mais alargada. Mas, para muitos empregos, esse recrutamento seria ineficiente, dados os custos de publicidade e, sobretudo, de selecção. Para se garantir a maximização da eficiência do recrutamento ter-se-iam de avaliar os milhares de candidatos a cada posto de trabalho, através de processos morosos e onerosos, que, em geral, teriam de ser feitos por empresas especializadas.

    Uma alternativa mais simplificada seria a publicidade de vizinhança, tal como o papelinho na montra a pedir "colaboradores". Mas será este processo mais eficiente que o contacto através de amigos e familiares?

    Muitas empresas anunciam a necessidade de contratações no seio da própria organização: é uma forma barata de atrair candidatos, sobre os quais a empresa faz depois a sua selecção. O problema é que as nossas cabecitas maldosas supõem sempre que associada a uma cunha está sempre uma pessoa incompetente ou inadequada para aquele posto. Mas porque não há-de ser precisamente o contrário? Porque não admitir que o candidato se oferece para empregos adequados às suas habilitações e motivações? Porque não admitir que aquele que tomou conhecimento do anúncio se lembrou de um amigo ou familiar, precisamente por lhe parecer o "casamento" adequado?

    Pois é... mas quando estamos determinados a mostrar como o nosso país é uma desgraça, qualquer argumento serve - e nenhuma suspeita é de desprezar...

    Acresce ainda que esta forma de recrutamento por meio de contactos "pessoais", dada precisamente a sua eficiência relativa, é largamente utilizada por economias avançadas, sem que as mesmas estejam a entrar em colapso por tal facto.

    Por exemplo, o artigo "Job search methods and results: tracking the unemployed, 1991", de Steven M. Bortnick and Michelle Harrison Ports, publicado na Monthly Labor Review, refere que 22,6% daqueles que tinham procurado emprego "através de amigos e familiares" tinham-no obtido ao fim de 2 meses, uma percentagem semelhante à de outros métodos de procura. E já em 1980, a mesma revista tinha publicado o artigo de M. Corcoran e outros, "Most Workers Find Jobs through Word of Mouth" (ambos os artigos são relativos aos EUA).
    «Os empregadores apoiam-se largamente no boca-a-boca [word of mouth] para o recrutamento de trabalhadores e estão em geral satisfeitos com este processo. Anúncios em jornais, recrutamento através de agências e outros mecanismos são utilizados mais selectivamente ou como segunda alternativa.»

    John Betancur, CEUD-University of Illinois at Chicago


    Outros artigos relacionados:
  • "Job Contact Networks", de A. C. Armengol (2000).
  • "Job Matching, Social Network and Word-of-Mouth Communication", de Armengol e Zenou (2004).
  • Ikea

    «Está instalada a guerra entre os municípios do Minho pela localização da futura fábrica do grupo sueco de mobiliário Ikea - um investimento de 32 milhões de euros para a construção de uma unidade de alta tecnologia, que destinará 90% da produção à exportação [...] A concorrência pela captação da unidade fabril levou já vários municípios a disponibilizarem terreno praticamente a custo zero. Para além de Ponte de Lima, estão na corrida concelhos como Arcos de Valdevez, Valença, Ponte da Barca, Póvoa de Lanhoso e até Paços de Ferreira, entre outros. [...] A Câmara de Viana do Castelo já se manifestou indisponível para conseguir terrenos a baixo custo (nunca inferior a 75 euros o metro quadrado) e o presidente da Câmara de Ponte de Lima, Daniel Campelo, também se mostrou pouco aberto a assumir a aquisição integral – ou quase – do terreno.»

    Correio da Manhã

    sábado, janeiro 21, 2006

    BP: estatísticas interactivas

    No dia 19 o Banco de Portugal iniciou o BPstat - Estatísticas online, um serviço cujo objectivo é o de "facultar um acesso fácil e célere às séries estatísticas produzidas pelo BP e outras instituições". Destacam-se as possibilidades de exploração multi-dimensional da informação, elaboração de quadros formatados pelos utilizadores, criação de "favoritos", sistema de alerta, etç. Existe também informação metodológica. (Nota do Governador)

    Conjuntura

    "Indicadores de conjuntura" do Banco de Portugal.
    «O indicador coincidente mensal para a evolução homóloga da actividade e conómica [em Portugal], calculado pelo Banco de Portugal, apresentou uma ligeira recuperação em Dezembro, após uma relativa estabilidade nos meses mais recentes. A informação disponível aponta para um menor crescimento do consumo privado no segundo semestre do ano.
    [...]
    «No período de Janeiro a Outubro de 2005, o défice conjunto das balanças correntes e de capital aumentou €2900.3 milhões face ao mesmo período do ano anterior, situando-se em €9596.9 milhões»

    A Nova Organização

    «Há 50 anos William Whyte, editor da revista Fortune, escreveu o livro "The Organisation Man", [disponível online aqui ] que definiu a natureza da vida na empresa para uma geração. O livro descrevia o modo como a América (cujo povo, escrevia Whyte, era conduzido na "pública adoração do individualismo") se tinha tornado recentemente numa nação de empregados que "cumprem votos de vida eterna para com a organização" e que se tinham tornado nos "membros dominantes da nossa sociedade".»

    «Entre as organizações que Whyte tinha em mente, estava sobretudo a grande corporação, que ele pensava que premiava a dedicação prolongada, obediência e lealdade, quase tão fielmente como faria um mosteiro ou um batalhão. [...] Meio século depois, esta organização parece extinta [...] A empresa que mais se parecia identificar com este estilo de vida era a IBM. Durante muitos anos os seus gestores usaram apenas fatos azuis escuros, camisas brancas e gravatas escuras, símbolos da sua ligação vitalícia à "Big Blue". A medida das mudanças que tiveram lugar desde os tempos de Whyte até hoje é dada pelo facto de, actualmente, 50% dos empregados da IBM trabalharem para a empresa há menos de 5 anos; de 40% dos seus 320 mil empregados serem "móveis", significando que não se apresentam diariamente num dado local de trabalho; e de cerca de 30% serem mulheres. Uma empresa que em tempos foi dominada por empregados vitalícios que vendiam computadores, foi transformada num conglomerado de transitórios fornecedores de serviços. O "Homem da Organização" foi substituído por um grupo de gestores mais vocacionados para a rápida ascenção empreendedora do que para a lenta promoção organizacional.»

    The Economist, "The new organisation"

    Produtividade


    «A taxa de crescimento da produtividade na América desacelerou para 1,8% em 2005, abaixo dos 3% de 2004. Esta última estava bastante acima da dos "velhos" 15 estados da União Europeia, que se situava nuns meros 0,5%, quase a mesma do Japão. Apesar de muitos países desenvolvidos tenham sofrido desacelerações da produtividade no ano passado, muitos mercados emergentes, como a Europa oriental, a Índia e a China, viram-na aumentar.»

    The Economist

    sexta-feira, janeiro 20, 2006

    Fado português

    Quando José Tavares se demitiu de coordenador do Plano Tecnológico, comentámos aqui ("Este é o nosso fado") que tudo indicava que a demissão seria apenas a ponta o icebergue de problemas mais profundos: a resistência por parte da estrutura administrativa e de poder ao desenvolvimento de uma estratégia inovadora, que necessariamente teria de bulir com a relação de poderes dentro da administração pública.

    Um pouco insolitamente, o mesmo José Tavares aproveitou uma conferência do primeiro-ministro para revelar que havia um ministro que se opunha à concretização de uma das medidas sonantes daquele Plano: um acordo de cooperação com o Massachussets Institute of Technology (MIT). A iniciativa é insólita porque não é curial que alguém que participou na concepção de um projecto público, venha utilizar informação privilegiada obtida nesse contexto para incomodar politicamente quem, inicialmente, o convidou para tal cargo. Claro que José Tavares pode estar cheio de razão, mas o assunto talvez pudesse ter sido tornado público de outra forma, eventualmente mais elegante.

    O assunto, entretanto, entrou no domínio da lavagem da roupa suja. Os jornais trataram logo de descobrir quem seria a "força de bloqueio": o ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, o qual vem agora negar (obviamente) qualquer oposição à vinda do MIT (notícia do jornal Público).

    O que é triste é isto: não se discute o Plano nem se discute a natureza do projecto MIT. Tudo o que "interessa" é a fulanização.

    Alguns comentários na blogosfera portuguesa:

    «A ambígua resposta de Sócrates quer dizer apenas uma coisa - a questão avançará quando Gago já não for ministro. Resta saber se o MIT esperará até lá.»

    Grande Loja do Queijo Limiano

    «O assunto, que poderia ser importante, e revelador de muitos dos nossos problemas (e também de acidentes da sociedade internacional "globalizada"), começou, como é óbvio, com uma peça de escandaleira.»

    Contrafactos & Argumentos

    «A recente polémica da instalação em Portugal do MIT teve o mérito de pôr a nu o estado de precariedade do Ensino Superior no nosso país, profundamente enfeudado às doutas cabeças de outrora e à reverência e ao invencível estado de prostração perante o “Santo Grau”.»

    Porque

    «O ministro da Ciência e Tecnologia acusou José Tavares de proferir afirmações falsas e de ter prestado um péssimo serviço ao país. É o primeiro passo, em português, para um grande good bye ao projecto do MIT para Portugal. »

    Mais Actual

    «Nuno Melo [líder parlamentar do CDS], depois de hoje pedir explicações ao Executivo, avançou à TSF com o que corre em surdina nos corredores de S. Bento: uma das razões do “tal Ministro” (...) teria a ver com o facto de o Projecto do MIT, apresentado ao Governo, prever recrutar e trabalhar com a melhor “massa cinzenta” de todas a Universidades portuguesas, enquanto o “tal Ministro” queria contrato de exclusividade com apenas uma (um doce para quem adivinhar qual era). “Endogamia” tecnológica na versão mais ciumenta e abortiva?»

    Ubiversidade

    «Mariano Gago nega oposição à entrada do MIT em Portugal
    Desde que a parceria seja com o Técnico, claro.
    Afinal, a “tradição” ainda é o que era.»

    Blogue dos Marretas

    «PS: Senhor ministro, não se preocupe que a gente percebe. O senhor não é contra a entrada do MIT. O senhor só é contra a entrada do MIT para a Universidade Nova.»

    O Acidental

    «basicamente o senhor ministro disse que não há desencontro de opiniões e que era mesmo uma questão de independência nacional ... e disse mais ...disse que o Tavares é puto...funcionário público...professor nos começozinhus da carreira e que o doutoramentozinho foi à pala do Estado com uma bolsa da FCT ...portanto eu traduzo... "Ó Tavares... rapazola ... axandra-te pá... olha a carreira..."

    cristal clear...»

    anårca constipadö

    «Porque razão o sr. Tavares - aquando da sua demissão - não convocou um ou dois microfones e dava uma conferência de imprensa, explicando aí as verdadeiras razões das sua demissão... Não o fez, depois reagiu como um garoto a quem tiraram o xupa-xupa e o carrinho da match-bock.»

    Macroscópio

    terça-feira, janeiro 10, 2006

    Maria Filomena Mónica

    Maria Filomena MónicaA professora Maria Filomena Mónica, a quem "passaram as dores de cabeça" depois de ter publicado o seu Bilhete de Identidade, dá uma entrevista aos "pontos nos ii", a revista mensal de política educativa que é hoje distribuída com o jornal "Público".

    Nesta entrevista a professora revela que  foi «ao leccionar no [período] pós-Revolução que me senti pior. Os alunos queriam mandar nos professores e estes não foram capazes de dizer "o que quereis não faz sentido". Instalou-se o laxismo e abandonou-se o trabalho individual. Os professores, mesmo os catedráticos, cederam. Um grupo de quatro alunos tinha quatro disciplinas feitas: cada um fazia um trabalho, supostamente de grupo.»

    No seu livro "Bilhete de Identidade", Maria Filomena Mónica já tinha referido a irracionalidade do período em que os alunos tomaram conta das universidades (e dos programas, da avaliação, etç.) . Nada disto é novo, a não ser o facto de MFM assumir que também os professores se deixaram ir na onda das "facilidades revolucionárias". Hoje, há muitos desses professores que denunciam essa situação (vide o professor Cavaco Silva na sua auto-biografia política, que ridiculiza os alunos de Económicas que tinham "assento" no Concelho Científico) mas esquecem-se sempre de dizer que não tiveram a coragem de denunciar a situação na devida altura.

    A propósito, aproveito para contar um dos episódios, passado comigo neste contexto, que mais me penalizaram. Vem a propósito porque um dos participante foi o professor Afonso Barros - que foi casado com Maria Filomena Mónica e é profusamente citado no seu livro.

    O professor Afonso de Barros era da oposição ao regime muito antes do 25 de Abril. Depois da Revolução esteve ligado ao MES. Também ele apoiou a metodologia do trabalho em grupo, que era apresentada como uma alternativa aos métodos de ensino e avaliação "selectivos" que, supostamente, tinham a "marca de classe" do regime ditatorial. Mas o professor não estava preparado para o radicalismo que dominou a "classe" discente naquele ano de 1975.

    Fui um defensor da avaliação contínua e do trabalho em grupo, mas não me "aproveitei" dessa metodologia para passar sem estudar, embora no meu grupo de trabalho o desempenho dos elementos fosse desigual e existisse uma "protecção" aos menos diligentes no estudo.

    Ora, numa reunião do professor Afonso de Barros com o meu grupo, no final de uma discussão de um trabalho, ele pretendeu dar notas diferentes aos elementos do grupo, de acordo com a sua apreciação dos conhecimentos de cada um. Mas o grupo não aceitou: a nota tinha de ser igual para todos! O professor bem argumentou que era evidente que havia diferentes níveis de desempenho pelos alunos, mas o grupo foi inflexível: então ele que desse a nota mais baixa a todos os elementos.

    Como se explica esta irracionalidade, que prejudicava os alunos que poderiam ter nota mais elevada, que era o meu caso e do meu colega José Luis Lança? Muito simplesmente porque eramos os parolos daquele processo. Acreditávamos piamente que era mais justo todos terem nota igual, que a nota diferenciada era uma coisa do ensino burguês, bla, bla, bla...

    Este radicalismo é algo que hoje me envergonha - embora no ano seguinte, em 1976, eu já tenha aceitado notas diferenciadas dentro do grupo. No entanto, o mais grave daquele episódio estava para vir: como nenhuma das partes cedesse, o grupo abandonou a sala, numa bravata irresponsável. Que grandes "revolucionários"! Íamos já no jardim da escola quando Afonso de Barros veio a correr atrás de nós, e admitiu finalmente dar-nos nota idêntica a todos. Logo naquele momento, senti vergonha de termos obrigado o professor a ceder, porque ele se manifestou um cavalheiro - quem o conheceu sabe como era educado - enquanto que nós nos portámos como uns seres intolerantes. Nunca mais me esqueci deste episódio e envergonho-me dele sempre que o recordo.

    Poderia haver alguma compreensão para a ocorrência destas asneiras no período revolucionário, mas a fraude mantém-se no nosso sistema de ensino, conforme explica MFM:
    «[O ensino hoje está] mal a todos os níveis e a responsabilidade é dos partidos, em última análise, mais da direita. O pensamento progressista que irrompeu na esquerda era normal. A tradição de Rousseau e do mito do bom selvagem, tudo era normal. E a direita engoliu as balelas pedagógicas. Sendo eu de esquerda, penso que o PPD, de uma forma acrítica, aceitou todos os disparates. Nos últimos dez anos apareceram pessoas a defender a aprendizagem, o esforço e o trabalho. [Mas] ainda não se chegou aos programas, que são um disparate total, tanto na literatura como na história.»

    [Os manuais têm] «um chorrilho de asneiras, mas o mal está nos programas absurdos e nos professores formados após o 25 de Abril. [...] Dito isto, não tenho nostalgia do antigo regime, porque os elementos ideológicos eram muito fortes. Mas nos liceus havia professores bem preparados.»

    Maria Filomena Mónica
    revista "pontos nos ii" - Jan.2006
    entrevista de Margarida Maria

    Virus à solta ?

    A "informática" anda a pregar umas partidas ao jornal "Público". Há uns dias ocorreu a publicação de um texto antigo de Vasco Pulido Valente, que "saltou" do passado para a última página. Hoje é a página 18 que é, imagine-se, a mesma que foi publicada ontem. Andará algum virus à solta nos computadores do Público ?

    sábado, dezembro 31, 2005



    Boas Entradas! Feliz Ano Novo!

    quarta-feira, dezembro 28, 2005

    Preferência pela liquidez



    Isabel Figueira (clique-a para ampliar)

    Para um blogue dedicado "puramente" à Economia, não são muitas as oportunidades para praticar este exibicionismo machista das meninas. Mas, de vez em quando, lá calha.

    Eis o que pode ler no jornal Público de hoje, a propósito do casamento de IF com o futebolista César Peixoto: «Os noivos decidiram não fazer lista de casamento e disseram aos convidados que preferiam dinheiro.»

    Volta, Keynes, que estás perdoado.

    terça-feira, dezembro 27, 2005

    Forma sem conteúdo

    O candidato presidencial Cavaco Silva deu uma entrevista ao Diário de Notícias, onde propôs (ou sugeriu, é o mesmo) que o governo tivesse uma secretaria de estado para acompanhar os processos de deslocalização de empresas. Foi o suficiente para os restantes candidatos desatarem a clamar que o homem quer imiscuir-se nos assuntos do governo.

    O que me revolta nisto é a discussão que se consegue armar em torno do aspecto formal (criação de uma secretaria de estado sugerida pelo candidato), esquecendo o conteúdo da questão (necessidade de uma atenção especial ao fenómeno da deslocalização). Esta capacidade para nos matarmos a discutir sobre aspectos formais e superficiais, é bem reveladora do nosso formalismo e superficialidade. O que torna ainda mais patética esta discussão é que a necessidade do governo "vigiar" as empresas é uma ideia típica da esquerda, cabendo melhor à direita a defesa da livre concorrência, sem intromissão estatal. É evidente que Cavaco não é de direita, é francamente um social-democrata. A sua sugestão pode até ter constituído um deslize, na tentativa de criar uma imagem de presidente que não se limita a discursos. Mas o forrobodó que a restante peonagem - com a ajuda da imprensa - se dispôs a fazer, mostra bem como continuamos a possuir uma mentalidade de lordes pelintras.

    Quando o presidente Sampaio clamou que havia "mais vida para além do orçamento", ou quando Soares andou pela Área Meteropolitana de Lisboa a destapar os montes de lixo que a sociedade portuguesa tinha varrido para debaixo da alcatifa, isso não era ingerência no governo? Era seguramente muito maior ingerência do que a sugestão da criação de uma qualquer secretaria de estado.

    Império à deriva


    Ostentação e obsolescência

    "Império à Deriva" - um dos mais divertidos livros que já li, apesar de achincalhar um bocadinho os portugueses. Pode ser que haja algum exagero neste retrato da estadia da corte portuguesa no Brasil (desde 1807), escrito por um inglês, mas nem sequer os ingleses (ou franceses) escapam muito incólumes à pintura de Patrick Wilcken.

    São inúmeras as passagens cómicas - o rei D. Joao VI, eterno indeciso, que não tomava banho e concedia audiências em salas com penicos devidamente atestados, o filho Pedro que se desfazia dos "excedentes" à vista do exército, a Carlota sempre a intrigar contra o rei, etç. A única que ainda escapa é a louca da D. Maria. Mas, para além deste ridículo folclore, é muito sedutora a tese de que foi a mania dos portugueses em ostentarem a posse do maior número de escravos que esteve na origem, involuntária, da famosa miscigenação.

    Que a posse de escravos era o sinal exibido do sucesso social, é algo que outros autores, incluindo muitos portugueses, têm confirmado. Nem mesmo pessoas bem abaixo na escala social, como os artesãos, precindiam de escravos para lhes carregarem as ferramentas quando se deslocavam na via pública. Quanto aos nobres, costumavam sair à rua, a passear, com a família, criadagem e escravos, todos em fila indiana, pai à frente, filhos por ordem inversa de nascimento a seguir, e o resto também por ordem de "importância" (é a imagem da capa do livro).

    O resultado desta proliferação de escravos (essencialmente de origem africana) foi que, ao contrário do que aconteceu noutras urbes coloniais, os escravos "dominavam" o espaço público e estabeleciam a cultura da cidade. É muito curioso que, quando se deu a revolta de Pernambuco, o assustado rei se tenha dado conta de que era materialmente impossível proibir ajuntamentos de pessoas na rua, especialmente escravos, dada a quantidade deles que cirandava por fora às ordens de todo e qualquer gato pingado - até mesmo de outros escravos, entretanto alforriados.

    Há um grande choque de usos e costumes com a chegada da comitiva da arquiduquesa Leopoldina da Áustria, que a acompanhou para o casamento com o princípe Pedro. Os austríacos, habituados a uma vida social que já tinha sido influenciada pelo nascente espírito científico e pelas "luzes", ficaram boquiabertos com uma corte que ainda "vivia" na Idade Média, com os subditos a presenciarem, de pé (ou de joelhos, nos caso dos mais débeis) às longas refeições reais.

    Os austríacos levaram para o Brasil uma missão científica que aproveitou para estudar e recolher especimenes tropicais. Compare-se com a atitude lusa: um enviado de Lisboa passou anos a recolher animais, plantas e minerais, no Amazonas; quando perguntava (para Lisboa) se já se podia ir imbora, respondiam-lhe que não, que o que enviara ainda era insuficiente... Mais tarde descobriu-se que os preciosos caixotes que mandou para Lisboa nem sequer tinham sido abertos! Alguns acabaram mesmo por ser saqueados pelos franceses numa das invasões.

    Península Ibérica


    Península e ilhas adjacentes

    O Instituto Nacional de Estatística acaba de divulgar a publicação A Península Ibérica em Números, um trabalho conjunto dos INEs de Portugal e de Espanha. O Instituto espanhol disponibiliza a publicação, por capítulos, aqui.

    A Península Ibérica como "região da Europa" é um conceito que provoca calafrios a muitos portugueses, que começam a pensar que tantos séculos de guerras afinal não valeram para nada. Porém, não parece haver motivo para alarme. Se tudo correr bem, nenhum dos países dominará ou será dominado pelo outro, antes emergirá uma nova realidade social e política, de que ambas as originalidades ibéricas srão os ilustres antepassados. Claro que nós, tendo nascido e formado a nossa personalidade a cantar o hino anti-inglês e a glorificar Aljubarrota (que para cá trouxe os ingleses...) teremos muita dificuldade em aceitar uma tal coisa. Mas quando o oceano começar a engolir as nossas magníficas cidades ribeirinhas, estas preocupações deixarão de fazer sentido.

    Porém, se as coisas correrem mal, e o projecto europeu começar a andar para trás, poderemos retomar os nossos hábitos nacionalistas e até talvez a diversidade tribal que existiu antes desta coisa tão romântica que são os países, com os seus garbosos exércitos e esforçados clubes de futebol.

    segunda-feira, dezembro 26, 2005

    Mónica e o Desejo

    Estou a acabar de ler o livro "Bilhete de Identidade", a autobiografia de Maria Filomena Mónica. É muito interessante e bem escrito, e não me parece que vá provocar nenhuma crise social.

    É curioso como uma pessoa tão fortemente ligada aos estratos superiores da sociedade do Estado Novo tenha "passado ao lado" (como ela própria reconhece) de importantes factos da vida política e social do Portugal daquela época. Única e significativa excepção: a presença chocante da pobreza/miséria e a apatia com que todos (ricos e pobres) a encaravam - uma descoberta feita pela autora sem a ajuda de ninguém, nem de nenhuma ideologia. A parte dos relacionamentos amorosos não me pareceu muito interessante, ao contrário da deriva intelectual da bela Mena, nomeadamente a sua aproximação aos autores marxistas, capítulo em que o livro se mostra muito revelador dos mecanismos que levavam a juventude mais culta a aproximar-se dum marxismo extremista.

    Entre a coisas mais divertidas do livro está a descrição de um patético meeting de intelectuais oposicionistas portugueses, em 1973, em Paris (página 304). Entretanto aqui ficam algumas citações, bastante justas, sobre a escola de Economia da época: o ISCEF.
    «Na Páscoa de 1960, decidi ir até ao ISCEF, onde descobri que a licenciatura em Economia - à qual a área disciplinar por mim escolhida dava acesso - possuía cadeiras com nomes tão horrendos quanto Contabilidade, Estatística e Finanças. O casarão da Rua do Quelhas, o antigo convento das Inglesinhas, ainda parecia habitado pelos fantasmas das freiras que ali tinham vivido. Na secretaria, onde me dirigi para obter as informações sobre o curriculum, vegetavam três múmias. Não vi um único aluno. O local era tão execrável que, pensei, jamais um ser humano poderia, de sua livre vontade, frequentá-lo. O meu pai, que por lá se licenciara, confirmou a impressão. Fiquei sem saber o que fazer. Não me apetecendo um interlúdio doméstico, o ensino superior era a minha única hipótese. Mas, sabia-o agora, o ISCEF não me servia.» [pag. 126]
    «Em 1973, por a instituição ter passado a ser dominada por um grupo de esquerdistas, o Ministro da Educação desistira de reformar o ISCEF - Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras -, tendo criado o ISCTE - Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa -, onde, além de uma licenciatura em Economia, inaugurara outra, em "Ciências do Trabalho e da Empresa" (eufemismo utilizado para designar a Sociologia). O subdirector da nova escola, o Prof. Sedas Nunes, que soubera da minha existência através do Vasco [Pulido Valente], convidou-me para sua assistente. [...] A cadeira que me foi atribuída chamava-se "Demografia, Povoamento e Recursos Hmanos", outro eufemismo para significar, desta vez, Introdução à Sociologia» [pag. 311/2]
    Não compreendo porque é que este livro despertou tanta animosidade na blogosfera. O Grande Loja diz que "É uma obra amoral e egocêntrica que retrata um percurso errático, desde um berço dourado, até à idade adulta, de uma menina 'bem', que estava 'predestinada' a estar no topo, 'à sua maneira'."

    Estou mais de acordo com o Desesperada Esperança: "Há, no livro, um aspecto histórico que, embora secundário, embora servindo apenas como pano de fundo, não deixa de ser interessante. Há, no relato da sua infância e da adolescência, uma caracterização do catolicismo do período, bem como [...] da vida familiar das classes altas lisboetas dos meados do século XX. [...] E em último lugar, está, em Bilhete de Identidade, um retrato da intelectualidade esquerdista de finais dos anos 60/princípios de anos 70, fruto do convívio com gente como António Pedro Vasconcelos, João César Monteiro e Vasco Pulido Valente."

  • Página de M. F. Mónica no ICS - Instituto de Ciências Sociais
  • quarta-feira, dezembro 21, 2005

    "Tolerância" ?

    O Público chama a atenção para o facto de o PIB per capita português ter acentuado a divergência com a média europeia e o Insurgente diz que sentiu "alguma vergonha" com a leitura da notícia. Tratam-se dos últimos dados divulgados pelo Eurostat.

    Nós por cá, como seria de esperar, continuamos com generosas "pontes" a propósito das festas de fim de ano, tanto nos privados como na administração pública: sexta-sábado-domingo-e-segunda sem trabalhar, em dois fim-de-semana consecutivos. Não há dúvida de que estamos na época da "tolerância".

    Na Autoeuropa, entretanto, os trabalhadores resolveram dar uma lição aos alemães. Espero que saibam o que estão a fazer: segundo um dos trabalhadores citado pelo Público, "Estão a fazer chantagem connosco, ameaçando fechar a empresa, mas estamos convictos de que o investimento aqui feito não é para dois dias".

    quinta-feira, dezembro 15, 2005

    "I want my money back"

    "I want my money back", disse ela, a senhora Margaret Thatcher, em 1984, dando origem ao famigerado cheque britânico, uma isenção fiscal concedida aos britânicos, (mal) disfarçada sob a forma de uma reposição de verbas pagas.

    Blair volta a gritar pelo mesmo, mas lá teremos de citar de novo o velho Marx: se da primeira vez sabia a tragédia, agora sabe a farsa. Os britânicos, no entanto, possuem um argumento importante: o "cheque" da PAC entrou em descrédito e está sob o fogo das críticas da OMC, e por isso dizem os "bifes": se a França quer um cheque, nós também queremos. Durão Barroso, que gostaria de ser o Delors da nova Europa, tem motivos para estar aborrecido (Delors conseguiu a certa altura duplicar os fundos estruturais).

    "I want my money back", disse a senhora Thatcher. "Quero o meu dinheiro de volta", cantou o Jorge Palma. Uma vez ouvi o Jorge Palma, num concerto na Aula Magna, responder a um tipo da plateia que gritava o nome daquela canção: "Tens que ir para a bicha". É isso mesmo que deveria ser dito aos ingleses: "Querem o cheque? Vão para a bicha!"

    terça-feira, dezembro 13, 2005

    Pensamentos correntes

    foto da TSFOuvi hoje de manhã, na rádio, o ministro Mário Lino fazer umas contas sobre as SCUTs que me deixaram um pouco baralhado. Falava o ministro sobre os valores apurados pelo Tribunal de Contas sobre os custos das SCUTs para o Estado [17 mil milhões de euros] e disse mais ou menos o seguinte: isso são valores correntes, porque se forem actualizados a 2005 o valor será metade.

    Metade? Mas não se trata de valores acumulados ao longo dos últimos anos? Nesse caso, e dada a ocorrência de inflação, o valor actualizado a 2005 terá de ser necessariamente maior.

    A fazer contas desta maneira, não é de espantar a irracionalidade que transpira das decisões governamentais relativas aos grandes investimentos públicos.

    segunda-feira, dezembro 12, 2005

    Não desespere (ainda)

    Enquanto considera que ainda pode haver alguma esperança quanto a um acordo relativo ao aquecimento global - optimismo que aparece espelhado na sua capa ("Dont't dispair") - a Economist está bem menos esperançada quanto à cimeira da Organização Mundial do Comércio:
    «Muito antes de qualquer ministro colocar os pés em Hong Kong, já se tornou claro que o encontro da OMC falhará depressivamente os seus objectivos. Oficialmente a reunião pretende obter um consenso sobre os contornos gerais de um acordo para liberalizar o comércio de produtos agrícolas, tarifas industriais e serviços. Mas particularmente devido à intransigência da Europa em baixar as tarífas agrícolas, tal não acontecerá. Os ministros poderão anunciar modestos progressos (tais como uma vaga promessa de acelerar a eliminação de subsídios ao algodão) mas os objectivos de um acordo Doha serão adiados mais uma vez.»

    The Economist, "Do despair"

    Também na Economist: "Europe's farm follies"

    sexta-feira, dezembro 09, 2005

    Letra por letra

    Pelli, Farell, and Moore--The remarkable inefficiency of word recognition--P10234A--denis.pelli@nyu.edu

    Reconhecemos visualmente as coisas - caras ou palavras - no seu conjunto ou pelas partes? Denis Pelli da New York University e Bart Farell da Syracuse University responderam a esta questão num artigo publicado na revista Nature, "The Remarkable Inefficiency of Word Recognition". Usando o exemplo de letras e palavras, os investigadores mostraram que lemos através da detecção de coisas simples, letra a letra e não palavra a palavra. Isto torna o reconhecimento das palavras muito ineficiente.

    Veja-se a imagem de cima: ambas as citações apresentam o mesmo contraste total de energia. Na primeira, a energia é dividida igualmente em todas as palavras, tornando todas as letras identificáveis igual e independentemente. Na segunda citação a energia é dividida igualmente por todas as palavras, independentemente do seu comprimento. Em princípio, para um dado nível de ruído, a detectabilidade de um padrão conhecido depende apenas da sua energia, portanto palavras de igual energia deveriam ser igualmente visíveis, mas na realidade as palavras mais pequenas sobressaiem e as mais longas desaparecem. Isto mostra que os leitores humanos não podem integrar eficientemente a energia ao longo de toda uma palavra. Em vez disso, a palavra é identificável apenas quando as suas letras forem independentemente identificáveis.

    As frases citadas são: "In the beginning was the Word" … "And the light shineth in darkness". Artigo da NYU Press Releases.

    Relatório do Desenvolvimento Humano - 2005


    Resumo em português do "Relatório do Desenvolvimento Humano" de 2005 (pdf).
    Randy Bass


       Randy Bass   
    Ficheiro mp3 - 23:34 min. - 5.Maio.2005
    Randy Bass, professor da Universidade de Georgetown, fala sobre novos modelos de aprendizagem.

    Covering the Chaos - página de Randy Bass

    url
    http://141.161.44.24/qtmedia/MP3/NewDesignsinLearning.mp3

    terça-feira, dezembro 06, 2005

    Cançó de bressol

    Joan Manuel Serrat - Cançó de bressol - 1967


    Ets filla del vent sec i d'una eixuta terra.
    D'una terra que mai no has pogut oblidar
    malgrat el llarg camí que et van fer caminar
    els teus germans de sang,
                     els teus germans de llengua,
    i encara vols morir escoltant mallerengues
    coberta per la pols d'aquella pobra terra.
    «Quis apenas fazer uma homenagem a minha mãe, à tragédia de uma mulher que vive toda a sua vida a caminhar, e que passa toda a sua vida a olhar para trás... nasce numa vila de Aragão, em Belchite; o noivo morre-lhe antes da boda; sai da terra para trabalhar em Barcelona; rebenta a guerra; fuzilam o seu pai e a sua mãe; trinta familiares são executados, assassinados na vila; durante a guerra dedica-se a recolher crianças e a viajar com elas por toda a Espanha, duma ponta à outra; regressa a Barcelona, casa-se com o meu pai, vive a tragédia dos anos do pós-guerra, a escassez, o medo, a perseguição... o meu pai tinha saído de um campo de concentração, e tem enfim um filho, no qual coloca absolutamente todas as suas esperanças, esperando superar com ele toda uma vida de tragédias e de decepções... Para ela, acontece que o filho é um bom estudante, mas que procura complicações com o franquismo... Com essa canção, Cançó de bressol, dei um beijo a essa mulher que, apesar de tudo o que tinha acontecido, continuava a sonhar com a sua terra natal. Acaso não fazemos outra coisa senão sonhar com a infância, que deve ser o único tempo feliz da nossa vida?...»

    Joan Manuel Serrat

    «O olhar de Serrat remonta à sua infância, aos primeiros meses de vida, com a sua mãe alimentando-o ao peito e cantando-lhe uma canção de embalar ["Por la mañana rocío, al mediodía calor."] Serrat articula imagens de grande força visual, captando a geografia materna. A boca presa ao peito da mãe, o avô morto no fundo de um barranco, o cemitério, a ermida, a Virgem no alto, toda aquela paisagem percorrida pela recordação amarga da guerra civil surge de golpe nesta exemplar canção.»
    http://docencia.mat.utfsm.cl/~evalenzu/MAT-263/(1967)%20-%20Ara%20Que%20Tinc%20Vint%20Anys/06-Canco%20De%20Bressol.mp3

    [ "Canção de embalar" - 1967 - letra ]

    Efeitos do aumento da despesa pública

    Documento disponibilizado pelo Banco de Portugal: "The Effects of a Government Expenditure Schock", da autoria de Bernardino Adão e José Brandão de Brito