quarta-feira, março 22, 2006

Contratação e desemprego

Na blogosfera, a maior parte das entradas e comentários acerca da legislação e contestação laboral em França, parece ter-se debruçado mais sobre aspectos políticos e sociológicos, do que propriamente económicos. Existe, no entanto, uma vasta literatura económica sobre a relação entre as formalidades da contratação laboral e diversas variáveis económicas, tais como o emprego e o desemprego.

Um dos economistas que tem estudado estes assuntos na Europa é Olivier Blanchard. Por exemplo, num seu artigo de 2001, em co-autoria com Augustin Landier, "The Perverse Effects of Partial Labor Market Reform: Fixed Duration Contracts in France", [pdf] levantam-se fortes dúvidas às formas contratuais do tipo do contestado CPE:
«Em lugar procurar reduzir os custos de despedimento, um certo número de países europeus autorizou as empresas a empregar trabalhadores com contratos de duração fixa. No fim de um dado prazo, estes contratos podem ser terminados com baixo ou nenhum custo [para as empresas]. No entanto, se os contratos forem mantidos, passam a estar sujeitos aos usuais custos do despedimento.

«Argumentamos neste paper que os efeitos de uma tal reforma parcial do regime de protecção do emprego podem ser perversos. O principal efeito poderá ser uma alta rotatividade [high turnover ] dos empregos de duração fixa, conduzindo a um maior, e não menor, desemprego. E mesmo que o desemprego desça, os trabalhadores poderão ficar pior, tendo que passar por muitas situações de desemprego e contratos temporários, antes de obter um emprego regular. Olhando para os dados estatísticos da França relativos a jovens trabalhadores desde o início dos anos 1980, concluímos que as reformas aumentaram substancialmente a rotatividade, sem atingir uma redução substancial na duração do desemprego. O seu efeito no bem-estar dos jovens trabalhadores parece ter sido negativo.»
Note-se, no entanto, que os autores não são fanáticos da protecção laboral: nas primeiras linhas deste paper escrevem que «Existe agora substancial evidência de que uma elevada protecção laboral conduz a um mercado laboral esclerótico, com baixas taxas de separação laboral [separation rate](*) mas longa duração do desemprego. Embora esta esclerose possa não conduzir a um desemprego elevado — devido aos efeitos opostos de baixos fluxos e elevada duração da taxa de desemprego — é provável que conduza simultaneamente a baixa produtividade, baixa produção e baixa protecção social».

Num texto de 3 de Janeiro, "Emploi : la solution passe par le CUP (contrat unique progressif)", Olivier Blanchard defende que «é necessário regressar a um contrato único, mas a um contrato progressivo, um contrato que dê aos trabalhadores maior protecção à medida que fiquem na empresa. A palavra essencial é "progressivo". O que é necessário evitar, aquilo que aprisiona o sistema actual, é o efeito de "fronteira" [effet de seuil], que se produz no final dos contratos CDD. Num contrato progressivo, os direitos do empregado aumentam lentamente com o tempo: não existe o dia fatídico em que se tem de saltar de um contrato para o outro.»

Noutro texto ainda mais recente "De l'ignorance économique" (20 de Março) Blanchard adianta: «Será que não há solução? Teremos de aceitar um capitalismo selvagem, um sistema onde as empresas é que fazem a lei e os trabalhadores são obrigados a submeter-se? Certamente que não. Já não estamos no século XIX e a França é um país rico. Suficientemente rico para oferecer uma formação e uma protecção social generosa aos seus trabalhadores. A questão é qual a melhor forma de o fazer, aumentando os incentivos às empresas para que criem empregos. Essas são as verdadeiras questões, aí está o verdadeiro debate. Este debate tem também lugar noutros países. A julgar pelo conteúdo do comunicado [comunicado contra o CPE do CPE, subscrito pelas comissões do Attac, do PS e do PCFdo "13e arrondissement"], ainda estamos muito longe em França.»


Não sei se "separação" é uma tradução adequada. O conceito abrange as finalizações de contratos laborais por vários motivos (falecimento, afastamento voluntário do trabalhador, incapacidade) incluindo o que habitualmente se designa por despedimento (finalizações de contratos laborais por iniciativa do empregador).

sexta-feira, março 17, 2006

Movimento conservador

Vincent Glad
(fotografia de Vincente Glad)

Os órgãos de comunicação chamam "revolta" aos recentes protestos dos jovens em França. Revolta? Mas qual revolta? Uma grande diferença entre o Maio de 68 e o presente é que naquela altura os jovens estavam ao ataque, enquanto que estes jogam à defesa. Naquela altura exigia-se que a sociedade mudasse, e agora exige-se que se mantenha tal e qual os pais dos meninos a conceberam. Trata-se apenas de mais um episódio do colapso do Estado-Providência. Imaginam atitude mais conservadora do que a destes jovens?

Diz uma jovem universitária neste podcast: "é o meu futuro que ameaçam." Ouçam que é educativo.
Podcastloic
http://podcast.blog.lemonde.fr/podcast/files/tolbiac1.mp3
(Crédito: Mathilde Serrell e Antoine Blin

Thierry Breton

Podcastloic
Loic Le Meur entrevistou Thierry Breton, ministro francês da Economia e Finanças, sobre empreendedorismo, globalização e a França. (1:55 m)

terça-feira, março 14, 2006

Economia da religião

Chuck Zech


Entrevista com Chuck Zech - mp3 - 12.Mar.06 - 27:26 min

James Reese da Radio Economics, entrevista Chuck Zech acerca da “economia da religião”; temas abordados: aplicação de modelos económicos (oferta e procura de mercado) à religião, a Igreja Católica como monopólio ou oligopólio, situação económica da Igreja Católica dos EUA, resultados do “2005 Catholic Donor Attitude Survey [pdf].

Chuck Zech é docente de Economia no College of Commerce and Finance, Villanova University.

url: http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20060312-608.mp3

Mais podcasts da Radio Economics
textos relacionados
(ficheiros pdf, excepto quando indicado)

  • "The Market for Martyrs", Laurence Iannaccone
  • "Voodoo Economics? Reviewing the Rational Choice Approach to Religion", Laurence Iannaccone
  • "Rational Ignorance Versus Rational Irrationality" [doc], Bryan Caplan
  • "Religion and Preferences for Social Insurance", Keneth Scheve e David Stasavage
  • "Economists Are Getting Religion" (html) artigo da Business Week
  • "Implications of the Economics of Religion to the Empirical Economic Research", Esa Mangeloja
  • domingo, março 12, 2006

    A cigarra e a formiga

    «Na clássica fábula de Esopo, a formiga e a cigarra são utilizadas para ilustrar duas abordagens, familiares mas diferentes, da decisão humana intertemporal. A cigarra diverte-se durante um quente dia de Verão, desatenta do futuro. A formiga, em contraste, armazena comida para o próximo Inverno. Os decisores humanos parecem estar encurralados entre um impulso para agir como a facilitadora cigarra e a consciência de que a paciente formiga acaba por ganhar a longo prazo.

    Uma linha de investigação em curso, tanto na Psicologia como na Economia, tem explorado esta tensão. Esta investigação é unificada pela ideia de que os consumidores comportam-se impacientemente no presente mas preferem/planeiam agir pacientemente no futuro. Por exemplo, alguém a quem seja colocada a opção entre ganhar $10 hoje e $11 amanhã, pode ser tentado a escolher a opção imediata. Contudo, se lhe pedirem hoje para escolher entre $10 daqui a um ano e $11 daqui a um ano e um dia, a mesma pessoa provavelmente escolherá a quantia ligeiramente protelada mas de montante maior.

    Os economistas e os psicólogos têm teorizado acerca da causa subjacente a estas escolhas dinamicamente inconsistentes. É normalmente aceite que a racionalidade determina tratar cada momento de prototelamento de modo igual, efectuando o desconto de acordo com uma função exponencial. Acredita-se que as preferências impulsivas em contrário são indicativas de avaliações desproprocionadas dos ganhos disponíveis no futuro imediato.

    Alguns autores argumentam que uma tal inconsistência dinâmica nas preferências é provocada por um único sistema de tomada de decisão que gera insconsistências intertemporais, enquanto que outros autores argumentam que a inconsistência é originada na interacção entre dois difeferentes sistemas de tomada de decisão.

    Nós colocamos a hipótese de que a discrepância entre preferências de curto prazo e de longo prazo reflecte a activação diferenciada de sistemas neurais identificáveis. Especificamente, colocamos a hipótese de que a impaciência de curto prazo é accionada pelo sistema límbico, que responde preferencialmente a ganhos imediatos e é menos sensível ao valor de ganhos futuros, enquanto que a paciência de longo prazo é mediada pelo córtex pré-frontal (CPF) e estruturas associadas, que são capazes de avaliar trade-offs entre ganhos abstractos, incluindo ganhos num futuro mais distante.

    Uma variedade de pistas na literatura científica sugere que este deve ser o caso. Primeiro, existe a larga discrepância entre o desconto do tempo pelos humanos e pelas outras espécies. Os humanos, rotinamente, avaliam os custos/benefícios imediatos contra os custos/benefícios que são protelados por prazos que podem ser de décadas. Em contraste, mesmo nos primatas mais avançados, que diferem dramaticamente dos humanos na dimensão do CPF, não se tem observado qualquer envolvimento no protelamento não pré-programado de gratificações que envolvam mais do que alguns minutos. Apesar de algum comportamento animal parecer pesar as comparações relativamente a períodos mais longos (por exemplo: armazenamento sazonal de comida), esse comportamento revela-se sistematicamente estereotipado e indistinto, e portanto diferente da natureza generalizada do planeamento humano.

    Em segundo lugar, os estudos de casos de danos cerebrais provocados por cururgia, acidentes ou ataques, apontam consistentemente para a conclusão de que a lesão do CPF leva frequentemente a comportamentos que são mais fortemente influenciados pela disponibilidade de ganhos imediatos, bem como a falhas na capacidade para planear.

    Em terceiro lugar, a função "quase-hiperbólica" de desconto de tempo, que junta (splices) duas diferentes funções de desconto - uma que distingue rudemente entre o presente e o futuro e outra que faz o desconto exponencialmente e com menor profundidade - tem provado ajustar-se a dados experimentais e forneceu luz a uma larga gama de comportamentos, tais como a poupança de reforma, empréstimos por cartão de crédito e procrastinação.

    Contudo, apesar destas e de muitas outras pistas de que o desconto de tempo pode resultar de processos distintos, pouca investigação tem sido feita até ao presente para identificar directamente a fonte da tensão entre as preferências de curto e de longo prazo.»

    in "Separate Neural Systems Value Immediate and Delayed Monetary Rewards"
    Samuel McClure et al
    Science, vol. 306, 15 de Outubro de 2004

    Respeito e admiração

    O suplemento de Economia do jornal Expresso de sábado passado inclui um artigo do professor José Luís Cardoso, presidente do Conselho Científico do Instituto Superior de Economia, de homenagem a António Manuel Pinto Barbosa, antigo professor daquela escola recentemente faleciso (ver entrada abaixo).

    É um artigo elogioso, mas omite que Pinto Barbosa foi impedido de continuar a sua actividade profissional após a Revolução de 25 de Abril de 1974, quer no Banco de Portugal, onde desempenhava as funções de Governador, quer no ISEG, onde foi objecto daquilo que se designava então por "saneamento".

    Podemos compreender que, dada a mudança de regime e de política económica, dificilmente Pinto Barbosa poderia continuar no mais alto cargo do banco central, embora não se conheçam quais as circunstâncias que o levaram a demitir-se por considerar "não ter condições" para continuar ali. Mas o cargo de Governador do Banco Central é por natureza temporário. Ora, o mesmo não acontece com a carreira docente, que era a de Pinto Barbosa. Era ao ISEG (então ISE) que deveria ter voltado a exercer a sua actividade.

    Se José Luís Cardoso - que, como presidente do Concelho Científico do ISEG não pode ignorar as ocorrências de 1974 - se limitasse a omitir o que se passou então naquela escola, isso seria grave. Mas o caso assume ainda maior gravidade quando este docente escreve que Pinto Barbosa foi então trabalhar para o estrangeiro (para o Banco de Pagamentos Internacionais, em Basileia) "mais por razões de imperativo moral do que por motivos de incompatibilidade". Até parece que o autor está a "desculpar" uma qualquer "fuga" de Pinto Barbosa!

    Ó caríssimo Professor José Luís Cardoso! Acha que Pinto Barbosa iria para o estrangeiro se não o tivessem impedido de leccionar na escola e na profissão que eram as suas, ainda mais tendo sido ele o criador daquela escola tal como existia na altura? Acha que isto não se trata de "incompatibilidade política"? E que raio serão essas "razões de imperativo moral"?

    Eu fui aluno do Instituto Superior de Economia e admiro aquela escola. Vivi lá esses anos abrasivos do antes e do pós 25 de Abril. Julgo compreender as razões históricas que levaram ao afastamento de Pinto Barbosa. Mas isso foi um colossal erro moral e político que importa admitir e explicar. O ISEG tem que fazer uma honesta avaliação desse tempo e penitenciar-se pelos erros que foram cometidos. Creio que ninguém melhor para o fazer do que a geração que presenciou ou protagonizou os acontecimentos, se por acaso tiver distanciamento suficiente para avaliar o que então ocorreu. Acho que a escola só tem a beneficiar com isso. Há claramente um imperativo moral e ético a exigir que seja assim.

    Mas há outra razão para fazer essa dolorosa avaliação. No contexto de combate ao regime salazarista/marcelista, os estudantes desenvolveram uma crítica violenta ao modelo do ensino universitário da altura. "Iluminados" por uma grelha de leitura soixante-huitard de dupla inspiração anarquista e marxista/maoista, decretaram a morte à escola-quartel, a escola que preparava quadros para a "exploração capitalista". Ora bem: essa era a escola que Pinto Barbosa ajudara a conceber.

    Não passou pela cabeça dos teóricos estudantis da altura que aquela era também uma escola keynesiana, o que, na altura e perante a ascenção da corrente monetarista e outras, era o mais à esquerda que se podia arranjar. Também se esqueceram de que professores como Pereira de Moura e Bento Murteira tinham sido os diligentes assessores de Pinto Barbosa para as reformas feitas na escola. Os estudantes - e muitos docentes - queriam era acabar com aquele tipo de ensino e tudo aconteceu como se o génio da garrafa lhes tivesse feito a vontade: na onda da Revolução, correram com os professores que entenderam, também ajudados nisto por outros docentes, e inventaram um sistema de ensino "novo", uma patetice baseada em "seminários" e com cadeiras pseudo-marxistas e avaliação contínua, com programas votados em reuniões de alunos, sistema que nem dois anos durou!

    Ou melhor: não durou, naquela escola, na sua formulação mais radical; mas o ensino facilitista que ainda hoje perdura em muitas escolas, nomeadamente no ensino secundário, garante a sua manutenção genética. Por isso, avaliar o contexto e motivos do saneamento de Pinto Barbosa da sua escola teria também a vantagem de podermos avaliar as consequências da extensão da revolução ao nosso sistema de ensino actual.

    O professor José Luís Cardoso diz que o exemplo de Pinto Barbosa "é digno do maior respeito e admiração". Eu penso que sim. Mas desejaria também poder dizer o mesmo do Instituto Superior de Economia, o que acontecerá quando essa escola admitir que errou no modo como tratou Pinto Barbosa.

    sábado, março 11, 2006

    António Manuel Pinto Barbosa

    Faleceu, no passado dia 5, António Manuel Pinto Barbosa, grande economista português, reformador do ensino da Economia no nosso país. Para além da actividade docente, Pinto Barbosa ocupou cargos oficiais relacionados com a sua formação académica, como Ministro das Finanças entre 1955 e 1965, e Governador do Banco de Portugal. Após a Revolução de 25 de Abril de 1974 demitiu-se do Banco central e foi saneado do ISEG (então ISE).

    Em 1978 começou a leccionar na Universidade Nova, que na ocorrência do seu falecimento divulgou esta nota:
    Aos 88 anos, faleceu o Professor Doutor António Manuel Pinto Barbosa, professor jubilado da Faculdade de Economia desta Universidade, ex-ministro das Finanças e Governador do Banco de Portugal, cargo de que se demitiu após o 25 de Abril de 1974. Após um interregno em que foi Consultor do Banco de Pagamentos Internacionais, aceitou, em 1978, o convite da Faculdade de Economia para integrar o seu corpo docente, tendo sido o primeiro Presidente do Conselho Científico.

    O Professor António Manuel Pinto Barbosa é unanimemente reconhecido como o introdutor em Portugal da economia moderna, após a reforma que protagonizou do ensino desta área científica, nomeadamente no ex – Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, actual ISEG. A este ilustre Professor se devem igualmente os primeiros contributos significativos para a internacionalização da economia portuguesa, nomeadamente enquanto líder das negociações que culminaram com a adesão de Portugal às então recém-criadas instituições decorrentes do Acordo de Bretton-Woods (Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional).
    Mais informações sobre Pinto Barbosa encontram-se nestra entrada de Novembro passado no Pura Economia.

    Na blogosfera o falecimento foi referido por O Jornal da Rua e Aforismos e Afins

    quarta-feira, março 08, 2006

    Trabalho doméstico




    «Ignorar o trabalho doméstico distorce as estatísticas do crescimento e rouba auto-estima a quem fica em casa - na sua maior parte, mulheres

    O trabalho doméstico constitui uma parcela importante do produto de todas as nações, no entanto não é reconhecido quando se faz a medição de bens e serviços para cálculo do produto nacional bruto. Isto subavalia a contribuição das mulheres., uma vez que elas são responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico.

    As famílias e outros lares são, na realidade, pequenas fábricas que, mesmo nas nações mais avançadas, produzem muitos serviços e bens valiosos. Cuidam das crianças, preparam refeições e fornecem abrigo. Cuidam de doentes, dão apoio e outra assistência aos idosos, e desempenham muitas outras tarefas úteis.

    As mulheres contribuem com cerca de 70% do total de tempo gasto nestas tarefas - mesmo em nações igualitárias como a Suécia. Elas fazer virtualmente todo o trabalho doméstico em nações mais pobres, como a Índia. Alguma feministas argumentam, com lógica, que a inclusão do trabalho doméstico no PNB aumentaria a "consciência" das mulheres, especialmente no mundo menos desenvolvido onde as mulheres são pior tratadas. Isso ajudaria a aumentar o seu poder negocial no casamento, uma vez que muitas mulheres "ganhariam" mais do que os seus maridos se a sua contribuição em trabalho doméstico tivesse um valor monetário. Porém, outras feministas não defendem o cálculo explícito da produção das domésticas, porque entraria em conflito com o seu programa de tirar as mulheres de casa, colocando-as na força de trabalho.

    Mas é altura de reconhecer o trabalho doméstico como fazendo parte dos bens e serviços do PNB de uma nação. As longas horas passadas sugerem que a produção realizada em casa representa uma importante percentagem do produto total de todos os países. Afinal, quando uma família contrata alguém para tratar das crianças, limpar a casa e cozinhar, esse trabalho entra para as estatísticas do PNB. Quando é feito por um familiar, não é considerado.

    Há várias maneiras de quantificar e medir a produção doméstica. Embora o PNB apenas inclua a produção de bens e serviços que são vendidos e comprados, incluem também um valor para as casas ocupadas pelos proprietários, usando o valor das rendas para casas que têm dimensão e equipamentos equivalentes. O valor do trabalho doméstico poderia ser medido pelo que custaria a sua aquisição no mercado para substituir as tarefas dos pais.

    Estes métodos têm sido utilizados por Robert Eisner da Northwestern University no seu cuidadoso estudo "The Total Incomes System of Accounts". Eisnes calcula que o valor imputado de produção doméstica nos EUS excede mais de 20% do PNB de meados dos anos 40 até ao início dos anos 80 -o último ano que ele calculou. Cálculos menos precisos feitos pela ONU no seu último Relatório do Desenvolvimento Humano indicam que a produção doméstica vale mais do que 40 % da produção mundial.

    A omissão do trabalho doméstico no cálculo do PNB distorce os indicadores do crescimento económico. O grande aumento da participação de mulheres casadas no mercado de trabalho, durante as últimas décadas, foi obtido à custa da redução do tempo que essas mulheres ocupavam em trabalho doméstico não remunerado. O rápido aumento do PNB durante estas décadas negligencia o importante declínio do tempo de trabalho em casa.

    A substituição do trabalho doméstico por trabalho de mercado é claramente a razão para a rápida expansão dos sectores de cuidados infantis desde os finais dos anos 70. As mulheres reduziram o tempo que trabalhavam em casa para os seus filhos, contratando outras mulheres para o fazer.

    A minha colega Sherwin Rosen (1) da Universidade de Chicago estudou uma situação na Suécia em que o sector dos serviços de cuidados infantis é invulgarmente grande, em parte porque é subsidiado pelo governo. O estudo não avalia se as crianças são afectadas quando as mães trabalham. No entanto, mostra que estes subsídios causam importantes ineficiências ao induzir artificialmente muitas mulheres a entrar no mercado de trabalho. Os subsídios baixaram os preços dos serviços de cuidados infantis abaixo do seu custo real. Eu acho estas conclusões convincentes, mas elas foram muito contestadas na Suécia porque numerosos grupos pretendem "nacionalizar" a família, fazendo com que o governo fique responsável pelos cuidados infantis. Pretendem encorajar as mães a entrar no mercado de trabalho para que tenham de contratar outras mulheres para tomar conta dos seus filhos.

    A inclusão do trabalho doméstico no cálculo do PNB faria aumentar a auto-estima das mulheres e homens que ficam em casa a tomar conta das crianças e a fazer outros trabalhos domésticos. Também forneceria uma imagem mais adequada do PNB e do crescimento e poderia conduzir a diferentes interpretações das políticas públicas que se reflectem na afectação de tempo entre trabalho doméstico e trabalho no mercado.»

    Gary Becker, Business Week, Outubro de 1965



    (1) Sherwin Rosen faleceu em 2001.

    sexta-feira, março 03, 2006

    Zona euro: novas projecções

    O Banco de Portugal disponibilizou as mais recentes projecções macroeconómicas para a zona euro elaboradas pelo BCE:

     200520062007
     IHPC (preços no consumidor)  2,2  1,9 - 2,5  1,6 - 2,8 
     PNB real1,41,7 - 2,51,5 - 2,5
            Consumo privado1,41,7 - 2,51,5 - 2,5
            Despesa pública1,21,4- 2,40,8 - 1,8
            Formação bruta de capital fixo2,22,4 - 5,01,8- 5,0
            Exportações (Bens e Serviços)3,84,2 - 7,23,8 - 7,0
            Importações (Bens e Serviços)4,64,2 - 7,63,4 - 6,8

    Lula da Silva


           Lula realista


    Entrevista do Presidente Lula à revista The Economist

    «Presidente Lula - (...) Há uma canção dum cantor brasileiro onde se diz que a diferença entre um homem prático e um teórico é que o teórico vê o dia como tendo 24horas, e o realista vê como estando dividido entre manhã, tarde e noite

    The Economista - Quem é o cantor?

    Presidente Lula - Djavan. A canção foi escrita por Djavan. Quando se ganha umas eleiçoes e se toma posse - eu, Kirchner, Evo Morales ou qualquer um - descobrimos que a arte de governar reside em fazer o que é possível.»
    (referindo-se à eleição de Evo Morales)

    «Durante muitos anos o Brasil viveu num eterno dilema. Primeiro o país teria de crescer para poder depois distribuir a riqueza. Mas, tal como eu o vejo, temos de distribuir a riqueza juntamente com o crescimento, para que o fosso entre as pessoas não cresça mais.»

    quinta-feira, março 02, 2006

    Em busca do Homo Œconomicus

    «In Search of Homo Œconomicus: Behavioral Experiments in 15 Small-Scale Societies»
    Artigo de Joseph Henrich, Robert Boyd, Samuel Bowles, Colin Camerer (*), Ernst Fehr, Herbert Gintis, Richard McElreath
    American Economic Review, Vol. 91, No. 2,
    Outra versão do mesmo texto está disponível aqui.



    «Recentes investigações revelaram grandes e consistentes desvios nas previsões feitas com base no modelo do homo œconomicus, tal como é apresentado nos manuais de referência. Um problema parece residir na assumpção canónica dos economistas de que os indivíduos actuam sempre no interesse próprio: adicionalmente aos seus payoffs, muitos sujeitos experimentais parecem importar-se com a justiça e a reciprocidade, estão dispostos a redistribuir os ganhos materiais com sacrifício próprio, e estão dispostos a compensar aqueles que agem de modo cooperativo e a punir os que o não fazem, mesmo quando estas acções os penalizam. Estes desvios daquilo que designaremos como "modelo canónico" têm importantes consequências para uma vasta gama de fenómenos económicos, incluindo a configuração óptima de instituições e contratos, a alocação de direitos de propriedade, as condições para uma acção colectiva de sucesso, a análise de contratos incompletos e a persistência de prémios de salário não competitivos [noncompetitive wage premia].

    «Continuam por responder questões fundamentais. Serão os desvios relativamente ao modelo canónico a evidência de padrões universais de comportamento, ou será que os ambientes económicos e sociais do indivíduo conformam o comportamento? Neste caso, que condições económicas e sociais estão envolvidas? Será o comportamento recíproco melhor explicado estatisticamente pelos atributos dos indivíduos, tais como a idade, sexo e riqueza relativa, ou pelos atributos do grupo a que o indivíduo pertence? Existirão culturas que se aproximem do modelo canónico de comportamento no interesse próprio?

    «A investigação existente não pode responder a tais questões porque virtualmente todos os sujeitos estudados eram estudantes universitários, e embora ocorram diferenças culturais entre as populações de estudantes, estas diferenças são pequenas quando comparadas com a gama de todos os ambientes sociais e culturais. Para abordar este problema nós e os nossos colaboradores iniciámos um grande estudo trans-cultural de comportamento (...) Doze equipas de investigadores experimentados trabalharam em 12 países dos 5 continentes, recrutaram sujeitos de 15 sociedades de pequena escala com uma ampla variedade de condições económicas e culturais. A nossa amostra consiste de três sociedades forrageiras, seis que praticam uma horticultura de abate e queimada, quatro grupos nómadas de pastoreio e três sociedades sedentárias com agricultura de pequena escala.

    «Podemos resumir os resultados da seguinte forma. Primeiro: o modelo canónico não é suportado em nenhuma das sociedades estudadas. Segundo: existe uma consideravelmente maior variabilidade entre grupos do que fora anteriormente observado em investigações similares, e o modelo canónico falha numa maior gama de maneiras do que fora observado em experiências anteriores. Terceiro: as diferenças ao nível do grupo, na organização económica e no grau de integração de mercado, explicam uma parte substancial da variação cultural entre as sociedades: quanto mais elevado é o grau de integração de mercado e mais elevados os payoffs da cooperação, mais elevado é o nível de cooperação nos jogos experimentais. Quarto: as variáveis económicas e demográficas individuais não explicam o comportamento no interior do grupo nem entre grupos. Quinto: o comportamento observado nas experiências é em geral consistente com os padrões económicos da vida do dia-a-dia nestas sociedades.»
    (*) Colin Camerer é um dos pioneiros da Neuroeconomia.

    segunda-feira, fevereiro 27, 2006

    Economia feminista

    Alguns links para trabalhos de investigadoras desta corrente que anda em busca de uma teoria económica femininista.
    A ler com  cuidado: o pós-modernismo é prejudicial à saúde! 

      Zdravka Todorova
      University of Missouri - Kansas City

  • "Incorporating Gender in Keynes’s Theory of Monetary Production: An Institutionalist Perspective" (doc)
  • "Theorizing about Agency, Gender and Environment in the Context of Monetary Production and Living Systems"
  • "Entrepreneurship does not Equal Development: A Note on Bulgaria's EU Candidacy and Competitiveness (2004)"

      Rebecca M. Blank
      University of Michigan

  • "It Takes A Nation: A New Agenda for Fighting Poverty"
  • "Is the Market Moral?"

      Lisa Saunders
      California - Berkeley

  • "Racial Differences in Transportation Access to Employment in Chicago and Los Angeles, 1980 and 1990"
  • "Prosperity for all? The Economic Boom and African American"
  • "Political Economy and the Construction of Gender: The Example of Housework Within Same-Sex Households"
  • "If You Can't Stand the Heat..."

      Myra H. Strober
      School of Education - Stanford Unversity

  • "Habits of the Mind: Challenges for Multidisciplinarity"
  • ""The Application of Mainstream Economics Constructs to Education: A Feminist Analysis" (doc)
  • "Feminist Economics: Implications for Education"

      Cordelia W. Reimers
      Hunter College - City University of New York

  • Responses to Social Security by Men and Women: Myopic and Far-Sighted Behavior

      Paula England
      Stanford University

  • "Love and Distrust Among Unmarried Parents"
  • " Does Bad Pay Cause Occupations to Feminize, Does Feminization Reduce Pay, and How Can We Tell with Longitudinal Data?"
  • "Why Are Some Academic Fields Tipping Toward Female?"
  • "Toward Gender Equality: Progress and Bottlenecks"

    S. Charusheela
  • "A decade of feminist economics"
    Publicações:
  • Feminist Economics Today: Beyond Economic Man, org. Marianne A. Ferber e Julie A. Nelson. (livro)
  • Toward a Feminist Theory of Economics (Economics as Social Theory), org.:Drucilla K. Barker, Edith Kuiper (livro)
  • Feminist Economics (revista)
  • Adam Smith e a Economia Comportamental


         Nava Ashraf



    «As duas principais obras de Adam Smith - "A Riqueza das Nações" e a "Teoria dos Sentimentos Morais" - mostram-no como um brilhante economista e também um brilhante psicólogo, mas ele nunca conseguiu juntar a Economia e a Psicologia. Na "Teoria dos Sentimentos Morais" ele descreve os factores psicológicos que subjazem à tomada de decisão, motivação e interacção, por parte dos humanos, o que certamente tem fortes implicações naquilo que orienta as decisões de consumo, de poupança, na produtividade e esforço do trabalho e nas trocas mercantis. Mas, na "A Riqueza das Nações", apenas esporadicamente ele estabeleceu ligações fortes com este trabalho.»

    «O conselho de Adam Smith aos líderes de negócios seria provavelmente que eles deveriam ponderar cuidadosamente os custos de quebrar a confiança e colocar em risco a reputação. O estudo da economia comportamental [behavioral economics ] faz exactamente esta relação entre factores psicológicos e comportamento económico e, ainda mais recentemente, tem vindo a explorar as implicações para o mercado dos consumidores e empresas poderem estar sujeitos a diversos níveis de influências psicológicas. Embora a importância dos factores psicológicos possa ser algo que os líderes de negócios compreendem há muito, só num período relativamente recente é que o campo da Economia ficou equipado com ferramentas que o habilitam a estudar rigorosamente tais fenómenos e - o que é muito importante - a ser capaz de fazer previsões sobre onde é que tais factores poderão ser mais ou menos importantes, quando é que as forças do mercado podem atenuar ou exacerbar tais factores, etc.»

    Nava Ashraf, em entrevista a Ann Cullen
    in Working Knowledge - 16.Jan.2006


    Artigos e papers de Nava Ashraf
  • "Adam Smith, Behavioral Economist"
  • "Spousal Control and Intra-Household Decision Making: An Experimental Study in the Philippines"
  • "Deposit Collectors"
  • "Tying Odysseus to the Mast: Evidence from a Commitment Savings Product in the Philippines"
  • "Testing Savings Product Innovations Using an Experimental Methodology"
  • "A Review of Commitment Savings Products in Developing Countries"
  • sexta-feira, fevereiro 24, 2006

    Sinkovitz e Marc Miller
    Jason M. Sinkovitz e Marc T. Miller, autores de 'Selling is Dead'


    Podcast de uma entrevista com Marc Miller, co-autor do livro "Selling Is Dead (Moving Beyond Traditional Sales Roles and Practices To Revitalize Growth). Miller é também o fundador da empresa Sogistics Corporation, especializada no apoio às vendas em grande escala. Crédito: Podcast blog.

    Um outro podcast de Mark Miller sobre o mesmo assunto, disponível na página da Sogistics Corporation, pode ser ouvido aqui.

    quarta-feira, fevereiro 22, 2006

    Quando menos é mais

    "Models of Ecological Rationality: The Recognition Heuristic" (pdf), artigo de Daniel Goldstein e Gerd Gigerenzer, publicado na Psychological Review de 2002 (Vol.109).
    «Uma visão da heurística é a de que existem versões imperfeitas de procedimentos estatísticos óptimos, consideradas demasiadamente complicadas para as mentes comuns. Em contraste, os autores consideram a heurística como estratégias adaptativas que evoluem em "tandem" com mecanismos psicológicos fundamentais.

    «A heurística do reconhecimento, alegadamente a mais frugal das heurísticas, faz inferências de padrões de conhecimentos que se desconhecem. Esta heurística explora uma adaptação fundamental em muitos organismos: a vasta, sensível e confiável capacidade para o reconhecimento. Os autores especificam as condições sob as quais a heurística do reconhecimento tem sucesso e conduz ao efeito contra-intuitivo de que "menos-é-mais", segundo o qual menos conhecimento é melhor do que mais, para se fazerem inferências precisas.»

    Daniel Goldstein extrapola a coisa para os domínios do marqueting.

    artigos relacionados:
  • "O papel do reconhecimento do acaso no raciocínio indutivo" (pdf)
  • "The use of recognition in group decision-making" (pdf)
  • "Simple Heuristics That Make Us Smart" (livro)
  • "Not so fast!(and not so frugal!): rethinking the recognition heuristic"
  • "On Ignorance, Intuition, and Investing: A Bear Market Test of the Recognition Heuristic"
  • "Ignorance is bliss" (pdf)
  • "How Forgetting Aids Heuristic Inference" (pdf)
  • terça-feira, fevereiro 21, 2006

    Pobre cérebro...


    Olhe bem para estas duas imagens da Gioconda. Que lhe parecem? Clique nelas para as aumentar um pouco, se quizer (mas depois feche a janela que abriu).

    Agora veja as imagens direitas, aqui.

    Afinal, o que é que se passa com o seu cérebro?
    Será que comete os mesmos erros quando faz essas suas análises tão bem elaboradas?

    Ainda chegará o dia em que diremos: "eu ainda sou do tempo em que acreditava no que via..."

    Petróleo, mercado e segurança


    Oil market power and United States national security" (pdf) - artigo de Roger Stern publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 31 de Janeiro de 2006.
    «It is widely believed that an oil weapon could impose scarcity upon the United States. Impending resource exhaustion is thought to exacerbate this threat. However, threat seems implausible when we consider strategic deficits of prospective weapon users and the improbability of impending resource exhaustion. Here, we explore a hypothesis relating oil to national security under a different assumption, abundance. We suggest that an oil cartel exerts market power to keep abundance at bay, commanding monopoly rents [or wealth transfers (wt)] that underwrite security threats. We then compare security threats attributed to the oil weapon to those that may arise from market power.

    We first reexamine whether oil is abundant or scarce by reviewing current development data, then we estimate a competitive price for oil. From this, we derive wt2004 collections by Persian Gulf states $132-178 x 109. We find that wt and the behavior of states collecting it interact to actuate security threats. Threats underwritten by wt are (i) the potential for emergence of a Persian Gulf superpower and (ii) terrorism.

    It is therefore oil market power, not oil per se, that actuates threats. We also describe a paradox in the relation of market power to the United States' defense doctrine of force projection to preempt a Gulf superpower. Because the superpower threat derives from wt, force alone cannot preempt it. A further paradox is that because foreign policy is premised on oil weapon fear, market power is appeased. Threats thereby grow unimpeded.»

    Aprendendo com os furacões

    "Making a virtue out of a necessity: Hurricanes and the resilience of community organization" - artigo de Robert D. Holt publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 6 de Fevereiro de 2006:
    «Most of us these days are all too aware of the disruptive impact of hurricanes in human affairs. Yet disturbances ranging from minor local disruptions to massive large-scale catastrophes are part-and-parcel of life in most natural ecosystems.

    These disturbances often provide scientific opportunities, because sometimes one learns the most about how a system functions by watching it recover after it has been kicked by a major disturbance. Ecologists increasingly recognize that the structure of natural communities reflects the interplay of processes acting over a wide range of temporal and spatial scales that are well beyond the scope of manipulative experiments.

    The article by Schoener and Spiller provides a deft testament to the insights that can sometimes be gleaned from "natural" experiments generated by large-scale disturbances, which permit an examination of system responses that could not be readily examined with manipulative experiments.»

    Milton Friedman


    Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969

    Entrevista de Milton Friedman ao
    New Perspectives Quarterly:
    NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?

    Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)

    NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?

    Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
       O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.
       Neste momento, claro, a Alemanha não pode sair do euro. O que tem de fazer, portanto, é tornar a economia mais flexível — para eliminar as restrições sobre preços, salários e emprego; em resumo, a regulamentação que mantém 10% da força de trabalho alemã desempregada. Isto é bastante mais urgente do que seria se a Alemanha não estivesse no euro.
       Este conjunto de políticas abriria o potencial da Alemanha. Apesar de tudo, a Alemanha possui uma força de trabalho muito capaz e produtiva. Tem produtos de alta qualidade que são valorizados em todo o mundo. Tem todas as possibilidades para ser um estado produtivo e em crescimento. Tem apenas que dar oportunidade aos empreendedores. Tem de os deixar fazer dinheiro, empregar e despedir, e agir como empreendedores.
       Em vez disso, o que temos em resultado de políticas do passado é que os empreendedores alemães vão para o exterior da Alemanha com muitas das suas actividades. Estão a investir fora porque não existe a abertura, fluidez e oportunidade que encontram fora das fronteiras.

    NPQ | O primeiro-ministro inglês Tony Blair argumenta que existe uma "terceira via" — por exemplo, mercados de trabalho flexíveis sem o estilo americano de emprega-e-despede. Ele argumenta que isto é mais ajustado ao "modelo social europeu" com a sua forte preocupação com a justiça social. Existirá um caminho intermédio, ou terá de ser tudo-ou-nada?

    Friedman | Não creio que exista uma terceira via. Mas é verdade que um mercado competitivo não representa a totalidade de uma sociedade. Uma grande parte depende das qualidades da população e da nação, no modo como organizam os aspectos não-mercantis da sociedade.

    NPQ | Talvez os países escandinavos tenham um modelo a merecer atenção. São sociedades com impostos elevados mas também níveis elevados de emprego. E libertaram mais os seus mercados de trabalho do que em Itália, na França ou na Alemanha.

    Friedman | Embora isto não seja tão verdade como já foi, devido ao influxo migratório, os países escandinavos têm pequenas populações muito homogéneas. Isso permite-lhes safar-se com um modelo que não funcionaria noutras condições.
       O que funciona para a Suécia não serve para a França, Alemanha ou Itália. Num estado pequeno pode recorrer-se ao exterior para muitas das actividades. Numa cultura homogénea estão mais dispostos a pagar impostos mais elevados para atingir objectivos comuns. Mas "objectivos comuns" são muito mais difíceis de conseguir em populações maiores e mais heterogéneas.
       A grande virtude dos mercados livres é que permitem a pessoas que se odeiam umas às outras, ou que pertencem a religiões ou grupos étnicos muito diferentes, a cooperação económica. A intervenção do governo não pode conseguir isso. As políticas exacerbam e ampliam as diferenças.
    (...)

    NPQ | Com a globalização, temos a economia mais livre que jamais se viu?

    Friedman | Oh não. Tínhamos comércio muito mais livre no século XIX. Temos agora muito menos globalização do que nessa altura.
       Caminharemos no futuro para esta liberdade do século XIX? Não sei. Temos um mundo mais livre por causa do colapso da União Soviética e das mudanças na China. Essas foram as maiores contribuições para a liberdade no nosso tempo. Os países que se ergueram e separaram como resultado do colapso da União Soviética estão, no conjunto, a seguir políticas económicas mais livres. Muitos destes estados possuem governo mais livre e menos restrições ao comércio.
       Esta base de mercado livre deverá expandir-se como exemplo para outros, não tão livres. Toda a gente, em todo o lado, compreende agora que o caminho para o sucesso dos países menos desenvolvidos é o livre mercado e a globalização.

    NPQ | No fim, as suas ideias triunfaram sobre Marx e Keynes. Será isto o fim do caminho para o pensamento económico? Haverá algo mais a dizer para além de que os mercados livres são o modo mais eficiente de organizar a sociedade? Será isto o "fim da história", como disse Francis Fukuyama?

    Friedman | Oh não. “Mercados livres” é uma expressão muito genérica. Muitas espécies de problemas hão-de emergir. Os mercados livres funcionam melhor quando a transacção entre dois indivíduos afecta apenas esses indivíduos. Mas não acontece assim. O que acontece mais frequentemente é que uma transacção entre nós os dois vá afectar uma terceira pessoa. Essa é a fonte de todos os problemas para a governação. Essa é a fonte dos problemas de poluição, de desigualdade. Existem alguns bons economistas, como Gary Becker e Bob [Robert] Lucas que estão a trabalhar nestes temas. Esta realidade assegura-nos que o fim da história nunca acontecerá.