quinta-feira, março 02, 2006

Em busca do Homo Œconomicus

«In Search of Homo Œconomicus: Behavioral Experiments in 15 Small-Scale Societies»
Artigo de Joseph Henrich, Robert Boyd, Samuel Bowles, Colin Camerer (*), Ernst Fehr, Herbert Gintis, Richard McElreath
American Economic Review, Vol. 91, No. 2,
Outra versão do mesmo texto está disponível aqui.



«Recentes investigações revelaram grandes e consistentes desvios nas previsões feitas com base no modelo do homo œconomicus, tal como é apresentado nos manuais de referência. Um problema parece residir na assumpção canónica dos economistas de que os indivíduos actuam sempre no interesse próprio: adicionalmente aos seus payoffs, muitos sujeitos experimentais parecem importar-se com a justiça e a reciprocidade, estão dispostos a redistribuir os ganhos materiais com sacrifício próprio, e estão dispostos a compensar aqueles que agem de modo cooperativo e a punir os que o não fazem, mesmo quando estas acções os penalizam. Estes desvios daquilo que designaremos como "modelo canónico" têm importantes consequências para uma vasta gama de fenómenos económicos, incluindo a configuração óptima de instituições e contratos, a alocação de direitos de propriedade, as condições para uma acção colectiva de sucesso, a análise de contratos incompletos e a persistência de prémios de salário não competitivos [noncompetitive wage premia].

«Continuam por responder questões fundamentais. Serão os desvios relativamente ao modelo canónico a evidência de padrões universais de comportamento, ou será que os ambientes económicos e sociais do indivíduo conformam o comportamento? Neste caso, que condições económicas e sociais estão envolvidas? Será o comportamento recíproco melhor explicado estatisticamente pelos atributos dos indivíduos, tais como a idade, sexo e riqueza relativa, ou pelos atributos do grupo a que o indivíduo pertence? Existirão culturas que se aproximem do modelo canónico de comportamento no interesse próprio?

«A investigação existente não pode responder a tais questões porque virtualmente todos os sujeitos estudados eram estudantes universitários, e embora ocorram diferenças culturais entre as populações de estudantes, estas diferenças são pequenas quando comparadas com a gama de todos os ambientes sociais e culturais. Para abordar este problema nós e os nossos colaboradores iniciámos um grande estudo trans-cultural de comportamento (...) Doze equipas de investigadores experimentados trabalharam em 12 países dos 5 continentes, recrutaram sujeitos de 15 sociedades de pequena escala com uma ampla variedade de condições económicas e culturais. A nossa amostra consiste de três sociedades forrageiras, seis que praticam uma horticultura de abate e queimada, quatro grupos nómadas de pastoreio e três sociedades sedentárias com agricultura de pequena escala.

«Podemos resumir os resultados da seguinte forma. Primeiro: o modelo canónico não é suportado em nenhuma das sociedades estudadas. Segundo: existe uma consideravelmente maior variabilidade entre grupos do que fora anteriormente observado em investigações similares, e o modelo canónico falha numa maior gama de maneiras do que fora observado em experiências anteriores. Terceiro: as diferenças ao nível do grupo, na organização económica e no grau de integração de mercado, explicam uma parte substancial da variação cultural entre as sociedades: quanto mais elevado é o grau de integração de mercado e mais elevados os payoffs da cooperação, mais elevado é o nível de cooperação nos jogos experimentais. Quarto: as variáveis económicas e demográficas individuais não explicam o comportamento no interior do grupo nem entre grupos. Quinto: o comportamento observado nas experiências é em geral consistente com os padrões económicos da vida do dia-a-dia nestas sociedades.»
(*) Colin Camerer é um dos pioneiros da Neuroeconomia.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Economia feminista

Alguns links para trabalhos de investigadoras desta corrente que anda em busca de uma teoria económica femininista.
A ler com  cuidado: o pós-modernismo é prejudicial à saúde! 

  Zdravka Todorova
  University of Missouri - Kansas City

  • "Incorporating Gender in Keynes’s Theory of Monetary Production: An Institutionalist Perspective" (doc)
  • "Theorizing about Agency, Gender and Environment in the Context of Monetary Production and Living Systems"
  • "Entrepreneurship does not Equal Development: A Note on Bulgaria's EU Candidacy and Competitiveness (2004)"

      Rebecca M. Blank
      University of Michigan

  • "It Takes A Nation: A New Agenda for Fighting Poverty"
  • "Is the Market Moral?"

      Lisa Saunders
      California - Berkeley

  • "Racial Differences in Transportation Access to Employment in Chicago and Los Angeles, 1980 and 1990"
  • "Prosperity for all? The Economic Boom and African American"
  • "Political Economy and the Construction of Gender: The Example of Housework Within Same-Sex Households"
  • "If You Can't Stand the Heat..."

      Myra H. Strober
      School of Education - Stanford Unversity

  • "Habits of the Mind: Challenges for Multidisciplinarity"
  • ""The Application of Mainstream Economics Constructs to Education: A Feminist Analysis" (doc)
  • "Feminist Economics: Implications for Education"

      Cordelia W. Reimers
      Hunter College - City University of New York

  • Responses to Social Security by Men and Women: Myopic and Far-Sighted Behavior

      Paula England
      Stanford University

  • "Love and Distrust Among Unmarried Parents"
  • " Does Bad Pay Cause Occupations to Feminize, Does Feminization Reduce Pay, and How Can We Tell with Longitudinal Data?"
  • "Why Are Some Academic Fields Tipping Toward Female?"
  • "Toward Gender Equality: Progress and Bottlenecks"

    S. Charusheela
  • "A decade of feminist economics"
    Publicações:
  • Feminist Economics Today: Beyond Economic Man, org. Marianne A. Ferber e Julie A. Nelson. (livro)
  • Toward a Feminist Theory of Economics (Economics as Social Theory), org.:Drucilla K. Barker, Edith Kuiper (livro)
  • Feminist Economics (revista)
  • Adam Smith e a Economia Comportamental


         Nava Ashraf



    «As duas principais obras de Adam Smith - "A Riqueza das Nações" e a "Teoria dos Sentimentos Morais" - mostram-no como um brilhante economista e também um brilhante psicólogo, mas ele nunca conseguiu juntar a Economia e a Psicologia. Na "Teoria dos Sentimentos Morais" ele descreve os factores psicológicos que subjazem à tomada de decisão, motivação e interacção, por parte dos humanos, o que certamente tem fortes implicações naquilo que orienta as decisões de consumo, de poupança, na produtividade e esforço do trabalho e nas trocas mercantis. Mas, na "A Riqueza das Nações", apenas esporadicamente ele estabeleceu ligações fortes com este trabalho.»

    «O conselho de Adam Smith aos líderes de negócios seria provavelmente que eles deveriam ponderar cuidadosamente os custos de quebrar a confiança e colocar em risco a reputação. O estudo da economia comportamental [behavioral economics ] faz exactamente esta relação entre factores psicológicos e comportamento económico e, ainda mais recentemente, tem vindo a explorar as implicações para o mercado dos consumidores e empresas poderem estar sujeitos a diversos níveis de influências psicológicas. Embora a importância dos factores psicológicos possa ser algo que os líderes de negócios compreendem há muito, só num período relativamente recente é que o campo da Economia ficou equipado com ferramentas que o habilitam a estudar rigorosamente tais fenómenos e - o que é muito importante - a ser capaz de fazer previsões sobre onde é que tais factores poderão ser mais ou menos importantes, quando é que as forças do mercado podem atenuar ou exacerbar tais factores, etc.»

    Nava Ashraf, em entrevista a Ann Cullen
    in Working Knowledge - 16.Jan.2006


    Artigos e papers de Nava Ashraf
  • "Adam Smith, Behavioral Economist"
  • "Spousal Control and Intra-Household Decision Making: An Experimental Study in the Philippines"
  • "Deposit Collectors"
  • "Tying Odysseus to the Mast: Evidence from a Commitment Savings Product in the Philippines"
  • "Testing Savings Product Innovations Using an Experimental Methodology"
  • "A Review of Commitment Savings Products in Developing Countries"
  • sexta-feira, fevereiro 24, 2006

    Sinkovitz e Marc Miller
    Jason M. Sinkovitz e Marc T. Miller, autores de 'Selling is Dead'


    Podcast de uma entrevista com Marc Miller, co-autor do livro "Selling Is Dead (Moving Beyond Traditional Sales Roles and Practices To Revitalize Growth). Miller é também o fundador da empresa Sogistics Corporation, especializada no apoio às vendas em grande escala. Crédito: Podcast blog.

    Um outro podcast de Mark Miller sobre o mesmo assunto, disponível na página da Sogistics Corporation, pode ser ouvido aqui.

    quarta-feira, fevereiro 22, 2006

    Quando menos é mais

    "Models of Ecological Rationality: The Recognition Heuristic" (pdf), artigo de Daniel Goldstein e Gerd Gigerenzer, publicado na Psychological Review de 2002 (Vol.109).
    «Uma visão da heurística é a de que existem versões imperfeitas de procedimentos estatísticos óptimos, consideradas demasiadamente complicadas para as mentes comuns. Em contraste, os autores consideram a heurística como estratégias adaptativas que evoluem em "tandem" com mecanismos psicológicos fundamentais.

    «A heurística do reconhecimento, alegadamente a mais frugal das heurísticas, faz inferências de padrões de conhecimentos que se desconhecem. Esta heurística explora uma adaptação fundamental em muitos organismos: a vasta, sensível e confiável capacidade para o reconhecimento. Os autores especificam as condições sob as quais a heurística do reconhecimento tem sucesso e conduz ao efeito contra-intuitivo de que "menos-é-mais", segundo o qual menos conhecimento é melhor do que mais, para se fazerem inferências precisas.»

    Daniel Goldstein extrapola a coisa para os domínios do marqueting.

    artigos relacionados:
  • "O papel do reconhecimento do acaso no raciocínio indutivo" (pdf)
  • "The use of recognition in group decision-making" (pdf)
  • "Simple Heuristics That Make Us Smart" (livro)
  • "Not so fast!(and not so frugal!): rethinking the recognition heuristic"
  • "On Ignorance, Intuition, and Investing: A Bear Market Test of the Recognition Heuristic"
  • "Ignorance is bliss" (pdf)
  • "How Forgetting Aids Heuristic Inference" (pdf)
  • terça-feira, fevereiro 21, 2006

    Pobre cérebro...


    Olhe bem para estas duas imagens da Gioconda. Que lhe parecem? Clique nelas para as aumentar um pouco, se quizer (mas depois feche a janela que abriu).

    Agora veja as imagens direitas, aqui.

    Afinal, o que é que se passa com o seu cérebro?
    Será que comete os mesmos erros quando faz essas suas análises tão bem elaboradas?

    Ainda chegará o dia em que diremos: "eu ainda sou do tempo em que acreditava no que via..."

    Petróleo, mercado e segurança


    Oil market power and United States national security" (pdf) - artigo de Roger Stern publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 31 de Janeiro de 2006.
    «It is widely believed that an oil weapon could impose scarcity upon the United States. Impending resource exhaustion is thought to exacerbate this threat. However, threat seems implausible when we consider strategic deficits of prospective weapon users and the improbability of impending resource exhaustion. Here, we explore a hypothesis relating oil to national security under a different assumption, abundance. We suggest that an oil cartel exerts market power to keep abundance at bay, commanding monopoly rents [or wealth transfers (wt)] that underwrite security threats. We then compare security threats attributed to the oil weapon to those that may arise from market power.

    We first reexamine whether oil is abundant or scarce by reviewing current development data, then we estimate a competitive price for oil. From this, we derive wt2004 collections by Persian Gulf states $132-178 x 109. We find that wt and the behavior of states collecting it interact to actuate security threats. Threats underwritten by wt are (i) the potential for emergence of a Persian Gulf superpower and (ii) terrorism.

    It is therefore oil market power, not oil per se, that actuates threats. We also describe a paradox in the relation of market power to the United States' defense doctrine of force projection to preempt a Gulf superpower. Because the superpower threat derives from wt, force alone cannot preempt it. A further paradox is that because foreign policy is premised on oil weapon fear, market power is appeased. Threats thereby grow unimpeded.»

    Aprendendo com os furacões

    "Making a virtue out of a necessity: Hurricanes and the resilience of community organization" - artigo de Robert D. Holt publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 6 de Fevereiro de 2006:
    «Most of us these days are all too aware of the disruptive impact of hurricanes in human affairs. Yet disturbances ranging from minor local disruptions to massive large-scale catastrophes are part-and-parcel of life in most natural ecosystems.

    These disturbances often provide scientific opportunities, because sometimes one learns the most about how a system functions by watching it recover after it has been kicked by a major disturbance. Ecologists increasingly recognize that the structure of natural communities reflects the interplay of processes acting over a wide range of temporal and spatial scales that are well beyond the scope of manipulative experiments.

    The article by Schoener and Spiller provides a deft testament to the insights that can sometimes be gleaned from "natural" experiments generated by large-scale disturbances, which permit an examination of system responses that could not be readily examined with manipulative experiments.»

    Milton Friedman


    Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969

    Entrevista de Milton Friedman ao
    New Perspectives Quarterly:
    NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?

    Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)

    NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?

    Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
       O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.
       Neste momento, claro, a Alemanha não pode sair do euro. O que tem de fazer, portanto, é tornar a economia mais flexível — para eliminar as restrições sobre preços, salários e emprego; em resumo, a regulamentação que mantém 10% da força de trabalho alemã desempregada. Isto é bastante mais urgente do que seria se a Alemanha não estivesse no euro.
       Este conjunto de políticas abriria o potencial da Alemanha. Apesar de tudo, a Alemanha possui uma força de trabalho muito capaz e produtiva. Tem produtos de alta qualidade que são valorizados em todo o mundo. Tem todas as possibilidades para ser um estado produtivo e em crescimento. Tem apenas que dar oportunidade aos empreendedores. Tem de os deixar fazer dinheiro, empregar e despedir, e agir como empreendedores.
       Em vez disso, o que temos em resultado de políticas do passado é que os empreendedores alemães vão para o exterior da Alemanha com muitas das suas actividades. Estão a investir fora porque não existe a abertura, fluidez e oportunidade que encontram fora das fronteiras.

    NPQ | O primeiro-ministro inglês Tony Blair argumenta que existe uma "terceira via" — por exemplo, mercados de trabalho flexíveis sem o estilo americano de emprega-e-despede. Ele argumenta que isto é mais ajustado ao "modelo social europeu" com a sua forte preocupação com a justiça social. Existirá um caminho intermédio, ou terá de ser tudo-ou-nada?

    Friedman | Não creio que exista uma terceira via. Mas é verdade que um mercado competitivo não representa a totalidade de uma sociedade. Uma grande parte depende das qualidades da população e da nação, no modo como organizam os aspectos não-mercantis da sociedade.

    NPQ | Talvez os países escandinavos tenham um modelo a merecer atenção. São sociedades com impostos elevados mas também níveis elevados de emprego. E libertaram mais os seus mercados de trabalho do que em Itália, na França ou na Alemanha.

    Friedman | Embora isto não seja tão verdade como já foi, devido ao influxo migratório, os países escandinavos têm pequenas populações muito homogéneas. Isso permite-lhes safar-se com um modelo que não funcionaria noutras condições.
       O que funciona para a Suécia não serve para a França, Alemanha ou Itália. Num estado pequeno pode recorrer-se ao exterior para muitas das actividades. Numa cultura homogénea estão mais dispostos a pagar impostos mais elevados para atingir objectivos comuns. Mas "objectivos comuns" são muito mais difíceis de conseguir em populações maiores e mais heterogéneas.
       A grande virtude dos mercados livres é que permitem a pessoas que se odeiam umas às outras, ou que pertencem a religiões ou grupos étnicos muito diferentes, a cooperação económica. A intervenção do governo não pode conseguir isso. As políticas exacerbam e ampliam as diferenças.
    (...)

    NPQ | Com a globalização, temos a economia mais livre que jamais se viu?

    Friedman | Oh não. Tínhamos comércio muito mais livre no século XIX. Temos agora muito menos globalização do que nessa altura.
       Caminharemos no futuro para esta liberdade do século XIX? Não sei. Temos um mundo mais livre por causa do colapso da União Soviética e das mudanças na China. Essas foram as maiores contribuições para a liberdade no nosso tempo. Os países que se ergueram e separaram como resultado do colapso da União Soviética estão, no conjunto, a seguir políticas económicas mais livres. Muitos destes estados possuem governo mais livre e menos restrições ao comércio.
       Esta base de mercado livre deverá expandir-se como exemplo para outros, não tão livres. Toda a gente, em todo o lado, compreende agora que o caminho para o sucesso dos países menos desenvolvidos é o livre mercado e a globalização.

    NPQ | No fim, as suas ideias triunfaram sobre Marx e Keynes. Será isto o fim do caminho para o pensamento económico? Haverá algo mais a dizer para além de que os mercados livres são o modo mais eficiente de organizar a sociedade? Será isto o "fim da história", como disse Francis Fukuyama?

    Friedman | Oh não. “Mercados livres” é uma expressão muito genérica. Muitas espécies de problemas hão-de emergir. Os mercados livres funcionam melhor quando a transacção entre dois indivíduos afecta apenas esses indivíduos. Mas não acontece assim. O que acontece mais frequentemente é que uma transacção entre nós os dois vá afectar uma terceira pessoa. Essa é a fonte de todos os problemas para a governação. Essa é a fonte dos problemas de poluição, de desigualdade. Existem alguns bons economistas, como Gary Becker e Bob [Robert] Lucas que estão a trabalhar nestes temas. Esta realidade assegura-nos que o fim da história nunca acontecerá.

    sexta-feira, fevereiro 17, 2006

    Pérolas a Economistas


    Miss Pearls poderia ser tomada como o nosso "paradoxo do valor" ("diamantes e água", "água e pérolas", é tudo o mesmo); deve ser por isso que calhou agora uma citação da The Theory of the Leisure Class de Thorstein Veblen.

    Qualquer citação de um economista, ainda que não-mainstream, é bem-vinda.

    quinta-feira, fevereiro 16, 2006

    Pós-modernismo morre na Amazónia

    «Num artigo publicado na revista Science (20.Janeiro.2006), cientistas que investigaram as capacidades cognitivas pré-linguisticas dum grupo de indígenas da Amazónia [Munduruku], demonstraram que os indivíduos possuem uma conceptualização nuclear da geometria euclidiana.

    Este relatório dá a estocada final no vampiro do pós-modernismo. A lógica (dedução), a aritmética e a geometria Euclidiana têm as suas conceptualizações nucleares em capacidades não-linguísticas (e pré-linguísticas) do cérebro humano. Não há motivos para pensar que estas capacidades não sejam partilhadas por todos os seres humanos (uma vez que existe tão pouca variabilidade na espécie humana). Existe uma natureza humana universal e uma racionalidade nuclear partilhada por todos os humanos.»


    "Postmodernism Dies Yet Again" - Body Parts
    artigo no Live Science
    post no Maza’ Weblog

    Consenso de Copenhaga



    No âmbito do Consenso de Copenhaga 2004 um grupo de conhecidos economistas analisou um conjunto de projectos, tendo em consideração essencialmente os custos e benefícios económicos. Mais especificamente: os especialistas foram desafiados a responder à seguinte questão, relativamente a um conjunto projectos previamente identificados pela ONU: "Qual seria a melhor maneira de aumentar o bem-estar global, e particulamente o bem-estar dos países em desenvolvimento, supondo que um financiamente adicional de 50 mil milhões de dólares (*) em recursos estaria à disposição dos governos?"

    O painel de especialistas foi constituído por:
  • Jagdish N. Bhagwati
  • Robert W. Fogel
  • Bruno S. Frey
  • Justin Yifu Lin
  • Douglass C. North
  • Thomas C. Schelling
  • Vernon L. Smith
  • Nancy L. Stokey

    As conclusões - que foram comentadas neste artigo do The Economist - encontram-se disponíveis aqui (pdf) e estão resumidas no quadro seguinte. Repare-se na má classificação do Protocolo de Quioto, ao contrário da liberalização do comércio.

    classificaçãodesafiooportunidade
    muito bom1doençascontrolo do HIV/SIDA
    2má-nutriçãofornecimento de micro-nutrientes
    3subsídios e comércioliberalização do comércio
    4doençascontrolo da malária
    bom5má-nutriçãodesenvolvimento de novas tecnologias agrícolas
    6água e saneamentotecnologia de água de pequena escala
    7água e saneamentogestão comunitária da água e saneamento
    8água e saneamentoinvestigação da produtividade da água na produção alimentar
    9governobaixar o custo de arranque de um novo negócio
    suficiente10migraçãobaixar as barreiras à migração de trabalhadores qualificados
    11má-nutriçãomelhorar a alimentação infantil
    12má-nutriçãoreduzir a prevalência de pesos baixos à nascença
    13doençasserviços básicos de saúde
    mau14migraçãoprogramas "guest worker" para imigrantes não qualificados
    15climataxa de carbono óptima
    16climaProtocolo de Quioto
    17climaTaxa de carbono "value-at-risk"


    Via Catallarchy.


    (*) - "$50 billion", no original; reina alguma confusão quanto ao significado de "billion": veja-se por exemplo o site Ciberdúvidas e a Wikipédia. No entanto, parece não haver dúvida de que, nos EUA, "billion" = 109.

  • quarta-feira, fevereiro 15, 2006

    A vida exagerada de Martín Romaña




    A mim parece-me que é preciso sofrer de uma qualquer doença rara, indiagnosticada e paradoxal, para ler - com prazer! - as 500 páginas d´"A Vida Exagerada de Martin Romaña". Será que o masoquismo decorrente da repetida ruminação dos equívocos dos anos 60 e do "Maio de 68" pode explicar tal fervor?

    Enfim: aqui fica um trecho em que a personagem Martin Romaña é visitada pelo Autor, Alfredo Bryce Echenique, supostamente para lhe roubar a mulher, a marxista Inês, a qual, depois de ter cuspido (metaforicamente) no escritor capitalista, redime-o pelo facto de ter publicado um romance em Cuba.

    A seguir: Alfredo Bryce Echenique relata um episódio pessoal, coincidente com o que aconteceu com Martín Romaña (e ainda dizem que não há coincidências...)

    Reproducción de videos con Windows Media Player












    Arquivo da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. A propósito: quando é que o Instituto Camões nos oferece uns Eças e uns Camilos video-sonoros ?
    url do podcast ~ url do video
    outros ficheiros sonoros do mesmo autor

    terça-feira, fevereiro 14, 2006

    Não blogarás em... solitário!

    O Abrupto apresenta um bem humorado exercício "legislativo": um Decálogo sobre os debates na blogosfera portuguesa. Quem será que enfia o barrete? Quanto ao Pura Economia, levanta-se apenas uma dúvida: a Sexta Lei diz que (a) «Os blogues são grupais, precisam imenso de companhia» e (b) «A blogosfera tem evoluído do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual».

    A dúvida é: a que grupo ou tribo pertence o Pura Economia? Eu sei que já fui citado por blogues liberais e libertários, links que depois esmorecem quando aqui surgem referências solidárias, intervencionistas ou keynesianas, etç, Tal como já fui citado por blogues solidários e intervencionistas, links que depois declinam quando aqui surgem referências liberais e libertárias.

    Mas talvez seja ainda cedo para entrar em pânico. Considerando que ao Decálogo do Abrupto ainda faltam quatro Leis (ainda está na versão Beta), aguardo que as Leis faltantes me esclareçam esta solitária angústia.

    segunda-feira, fevereiro 13, 2006

    Chile, segundo a BBC



    Podcast do programa "In Business", da BBC,
    sobre a economia do Chile - 9.Fev.2006 - 28:08 m

    url

    Universidades na net


    Distribuição das primeiras 200 universidades, por país.

    O Webometrics é um ranking das universidades de todo o mundo em função da sua presença na net. O processo de classificação ainda é questionável (a metodologia é apresentada aqui) mas vale a pena dar uma vista de olhos. Os indicadores utilizados são:
  • tamanho: número de páginas;
  • visibilidade: total de links externos recebidos;
  • ficheiros especiais: (pdf, ps, doc. ppt).

    Na lista das três mil universidades classificadas, encontram-se as seguintes sete portuguesas:

    Universidade ordem  ordem por indicador 
     tamanho  visibilidade  ficheiros 
    especiais
     Univ. Técnica Lisboa438438568239
     Univ. do Porto447316540689
     Univ. Coimbra461574489454
     Univ. Minho643640809442
     Univ. Lisboa682838700772
     Univ. Nova de Lisboa699832791519
     Univ. Aveiro9858491.233864

    Na lista de centros de investigação encontra-se o Instituto Superior Técnico, na posição nº 70.
  • Também tu, Blanchard!...


    O Diário de Notícias apresenta uma pequena entrevista com Olivier Blanchard, onde o economista repete algumas das ideias apresentadas na Conferência do Banco de Portugal - incluindo a descrença no poder miraculoso da aposta tecnológica. Mais uma facada no Plano socrático...

    Para aumentar a produtividade, a grande aposta do Governo é a aplicação de um plano tecnológico. Deve ser a prioridade?

    «Não deve ser a principal preocupação. É muito importante melhorar o sistema educativo e tentar ser parte do mundo da alta tecnologia. Mas Portugal não vai conseguir resultados quantitativamente significativos porque não está a partir da melhor posição. Os países asiáticos estão mais bem posicionados.»

    Devemos desistir de estar na vanguarda da alta tecnologia?

    «Não, mas uma estratégia baseada na alta tecnologia não será muito eficaz. Há outras áreas onde é possível conseguir um aumento da produtividade de uma forma muito mais realista.»

    Outra proposta que faz é a redução nominal dos salários. É realista pensar nessa possibilidade?

    «Parece muito duro, e é, mas no passado costumava ser feito através das desvalorizações da moeda e era aceite. É importante salientar e convencer as pessoas que isto é a mesma coisa. É muito difícil para as pessoas aceitarem uma descida do salário nominal, mas é importante colocar esta possibilidade em cima da mesa porque pode ser a única maneira de recuperar a competitividade de forma relativamente rápida, evitando um desemprego prolongado. É necessário perceber que para aumentar a competitividade, com uma dada produtividade, é preciso que os salários em termos reais desçam. Isso vai sempre ter de acontecer. A questão é saber se se faz com desemprego ou sem desemprego. E é muito melhor fazê-lo sem desemprego.»
    Entretanto, quem não parece estar de acordo com Blanchard é a economia portuguesa, pois os últimos dados do INE apontam para um agravamento dos custos do trabalho. O ICT cresceu 3,9 % em média, em 2005: mais 2,4 pontos percentuais do que em 2004. A evolução no último trimestre de 2005 representa, no entanto, uma desaceleração face ao trimestre imediatamente anterior. Tratam-se de dados ainda não corrigidos dos efeitos sazonais.

    domingo, fevereiro 12, 2006

    Dia da caça

    [via Julgamento Público]

    sábado, fevereiro 11, 2006

    Economia oculta


    Economia oculta [clique]

    Porque é que a economia está mais forte do que era suposto estar?
    - pergunta-se num artigo da Business Week. Resposta: «Numa economia baseada no conhecimento, os indicadores tradicionais não dizem tudo o que se passa. Os intangíveis, tais como a I&D, são fracamente apercebidos - se é que o são. Incluindo-os, tudo muda.»
    «Os mágicos estatísticos do Bureau of Economic Analysis, em Washington, podem fazer aparecer uma folha de cálculo mostrando quanto é que os caminhos de ferro gastaram em mobília. Mas não conseguem detectar os milhares de milhões que as empresas gastam em cada ano em inovação e design de produtos, criação de marcas, formação de empregados ou em quaisquer outros investimentos intangíveis, necessários para competir na economia global do presente. Isso significa que os recursos utilizados na criação de inovações de topo tais como o medicamento anti-cancerígeno Avastin, a insulina inalável, os Starbuck's (SBUX), os "exchange-traded funds"(*) ou mesmo o iPod, não aparecem nos números oficiais.»


    (*) - Também conhecidos como Trackers; transaccionados como acções, os exchange-traded funds (ETF) constituem uma alternativa aos fundos mútuos (ou colectivos), investidos em índices. Tal como as acções, estão sujeitos a uma comissão (na compra e venda), mas a partir daí custos são mínimos. As despesas de administração são extraordinariamente baixas, não estão sujeitos a comissões de entrada ou saída, frequentes nos fundos mutuos, são fáceis de compreender e oferecem vantagens no pagamento de impostos. (Portuguese Canadian Financial Newsletter)