quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Quando menos é mais

"Models of Ecological Rationality: The Recognition Heuristic" (pdf), artigo de Daniel Goldstein e Gerd Gigerenzer, publicado na Psychological Review de 2002 (Vol.109).
«Uma visão da heurística é a de que existem versões imperfeitas de procedimentos estatísticos óptimos, consideradas demasiadamente complicadas para as mentes comuns. Em contraste, os autores consideram a heurística como estratégias adaptativas que evoluem em "tandem" com mecanismos psicológicos fundamentais.

«A heurística do reconhecimento, alegadamente a mais frugal das heurísticas, faz inferências de padrões de conhecimentos que se desconhecem. Esta heurística explora uma adaptação fundamental em muitos organismos: a vasta, sensível e confiável capacidade para o reconhecimento. Os autores especificam as condições sob as quais a heurística do reconhecimento tem sucesso e conduz ao efeito contra-intuitivo de que "menos-é-mais", segundo o qual menos conhecimento é melhor do que mais, para se fazerem inferências precisas.»

Daniel Goldstein extrapola a coisa para os domínios do marqueting.

artigos relacionados:
  • "O papel do reconhecimento do acaso no raciocínio indutivo" (pdf)
  • "The use of recognition in group decision-making" (pdf)
  • "Simple Heuristics That Make Us Smart" (livro)
  • "Not so fast!(and not so frugal!): rethinking the recognition heuristic"
  • "On Ignorance, Intuition, and Investing: A Bear Market Test of the Recognition Heuristic"
  • "Ignorance is bliss" (pdf)
  • "How Forgetting Aids Heuristic Inference" (pdf)
  • terça-feira, fevereiro 21, 2006

    Pobre cérebro...


    Olhe bem para estas duas imagens da Gioconda. Que lhe parecem? Clique nelas para as aumentar um pouco, se quizer (mas depois feche a janela que abriu).

    Agora veja as imagens direitas, aqui.

    Afinal, o que é que se passa com o seu cérebro?
    Será que comete os mesmos erros quando faz essas suas análises tão bem elaboradas?

    Ainda chegará o dia em que diremos: "eu ainda sou do tempo em que acreditava no que via..."

    Petróleo, mercado e segurança


    Oil market power and United States national security" (pdf) - artigo de Roger Stern publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 31 de Janeiro de 2006.
    «It is widely believed that an oil weapon could impose scarcity upon the United States. Impending resource exhaustion is thought to exacerbate this threat. However, threat seems implausible when we consider strategic deficits of prospective weapon users and the improbability of impending resource exhaustion. Here, we explore a hypothesis relating oil to national security under a different assumption, abundance. We suggest that an oil cartel exerts market power to keep abundance at bay, commanding monopoly rents [or wealth transfers (wt)] that underwrite security threats. We then compare security threats attributed to the oil weapon to those that may arise from market power.

    We first reexamine whether oil is abundant or scarce by reviewing current development data, then we estimate a competitive price for oil. From this, we derive wt2004 collections by Persian Gulf states $132-178 x 109. We find that wt and the behavior of states collecting it interact to actuate security threats. Threats underwritten by wt are (i) the potential for emergence of a Persian Gulf superpower and (ii) terrorism.

    It is therefore oil market power, not oil per se, that actuates threats. We also describe a paradox in the relation of market power to the United States' defense doctrine of force projection to preempt a Gulf superpower. Because the superpower threat derives from wt, force alone cannot preempt it. A further paradox is that because foreign policy is premised on oil weapon fear, market power is appeased. Threats thereby grow unimpeded.»

    Aprendendo com os furacões

    "Making a virtue out of a necessity: Hurricanes and the resilience of community organization" - artigo de Robert D. Holt publicado nos "Proceedings of the National Academy of Sciences" de 6 de Fevereiro de 2006:
    «Most of us these days are all too aware of the disruptive impact of hurricanes in human affairs. Yet disturbances ranging from minor local disruptions to massive large-scale catastrophes are part-and-parcel of life in most natural ecosystems.

    These disturbances often provide scientific opportunities, because sometimes one learns the most about how a system functions by watching it recover after it has been kicked by a major disturbance. Ecologists increasingly recognize that the structure of natural communities reflects the interplay of processes acting over a wide range of temporal and spatial scales that are well beyond the scope of manipulative experiments.

    The article by Schoener and Spiller provides a deft testament to the insights that can sometimes be gleaned from "natural" experiments generated by large-scale disturbances, which permit an examination of system responses that could not be readily examined with manipulative experiments.»

    Milton Friedman


    Milton Friedman: capa da revista Time em Dezembro de 1969

    Entrevista de Milton Friedman ao
    New Perspectives Quarterly:
    NPQ | Você já viu muita coisa na sua longa vida e tem pensado sobre os grandes temas. O que é que lhe passa pela cabeça nestes dias?

    Friedman | O grande assunto é saber se os EUA terão sucesso na sua empresa de reformatar o Médio Oriente. Não é claro para mim se o uso de força militar é o modo de o fazer. Não deveríamos ter ido para o Iraque. Mas fomos. Neste momento, portanto, o que importa mais é garantir que esse esforço seja completado de modo satisfatório. (...)

    NPQ | A designada "velha Europa" da França, Alemanha e Itália, tem estagnado com elevados níveis de desemprego. A Alemanha - um dos últimos bastiões do estado social keynesiano da Guerra Fria - tem agora um líder conservador, Angela Merkel. O que deverá ser feito para colocar a Alemanha, e por extensão a velha Europa, de novo nos carris?

    Friedman | Deveriam todos imitar Margaret Thatcher e Ronald Reagan; mercados livres, em resumo. O problema da Alemanha, em parte, foi que entrou para o euro com uma taxa de câmbio errada, que sobrevalorizou o marco alemão. Temos portanto uma situação na zona euro onde a Irlanda tem inflação e rápida expansão, enquanto que a Alemanha e a França encalharam e tiveram as dificuldades do ajustamento.
       O euro vai ser uma fonte de problemas e não de ajuda. O euro não tem precedentes. Tanto quanto sei, nunca houve uma união monetária, com uma moeda comum, composta de estados independentes. Houve uniões baseadas no ouro ou na prata, mas não numa moeda corrente - moeda que tende a inflacionar - criada por entidades políticas independentes.
       Neste momento, claro, a Alemanha não pode sair do euro. O que tem de fazer, portanto, é tornar a economia mais flexível — para eliminar as restrições sobre preços, salários e emprego; em resumo, a regulamentação que mantém 10% da força de trabalho alemã desempregada. Isto é bastante mais urgente do que seria se a Alemanha não estivesse no euro.
       Este conjunto de políticas abriria o potencial da Alemanha. Apesar de tudo, a Alemanha possui uma força de trabalho muito capaz e produtiva. Tem produtos de alta qualidade que são valorizados em todo o mundo. Tem todas as possibilidades para ser um estado produtivo e em crescimento. Tem apenas que dar oportunidade aos empreendedores. Tem de os deixar fazer dinheiro, empregar e despedir, e agir como empreendedores.
       Em vez disso, o que temos em resultado de políticas do passado é que os empreendedores alemães vão para o exterior da Alemanha com muitas das suas actividades. Estão a investir fora porque não existe a abertura, fluidez e oportunidade que encontram fora das fronteiras.

    NPQ | O primeiro-ministro inglês Tony Blair argumenta que existe uma "terceira via" — por exemplo, mercados de trabalho flexíveis sem o estilo americano de emprega-e-despede. Ele argumenta que isto é mais ajustado ao "modelo social europeu" com a sua forte preocupação com a justiça social. Existirá um caminho intermédio, ou terá de ser tudo-ou-nada?

    Friedman | Não creio que exista uma terceira via. Mas é verdade que um mercado competitivo não representa a totalidade de uma sociedade. Uma grande parte depende das qualidades da população e da nação, no modo como organizam os aspectos não-mercantis da sociedade.

    NPQ | Talvez os países escandinavos tenham um modelo a merecer atenção. São sociedades com impostos elevados mas também níveis elevados de emprego. E libertaram mais os seus mercados de trabalho do que em Itália, na França ou na Alemanha.

    Friedman | Embora isto não seja tão verdade como já foi, devido ao influxo migratório, os países escandinavos têm pequenas populações muito homogéneas. Isso permite-lhes safar-se com um modelo que não funcionaria noutras condições.
       O que funciona para a Suécia não serve para a França, Alemanha ou Itália. Num estado pequeno pode recorrer-se ao exterior para muitas das actividades. Numa cultura homogénea estão mais dispostos a pagar impostos mais elevados para atingir objectivos comuns. Mas "objectivos comuns" são muito mais difíceis de conseguir em populações maiores e mais heterogéneas.
       A grande virtude dos mercados livres é que permitem a pessoas que se odeiam umas às outras, ou que pertencem a religiões ou grupos étnicos muito diferentes, a cooperação económica. A intervenção do governo não pode conseguir isso. As políticas exacerbam e ampliam as diferenças.
    (...)

    NPQ | Com a globalização, temos a economia mais livre que jamais se viu?

    Friedman | Oh não. Tínhamos comércio muito mais livre no século XIX. Temos agora muito menos globalização do que nessa altura.
       Caminharemos no futuro para esta liberdade do século XIX? Não sei. Temos um mundo mais livre por causa do colapso da União Soviética e das mudanças na China. Essas foram as maiores contribuições para a liberdade no nosso tempo. Os países que se ergueram e separaram como resultado do colapso da União Soviética estão, no conjunto, a seguir políticas económicas mais livres. Muitos destes estados possuem governo mais livre e menos restrições ao comércio.
       Esta base de mercado livre deverá expandir-se como exemplo para outros, não tão livres. Toda a gente, em todo o lado, compreende agora que o caminho para o sucesso dos países menos desenvolvidos é o livre mercado e a globalização.

    NPQ | No fim, as suas ideias triunfaram sobre Marx e Keynes. Será isto o fim do caminho para o pensamento económico? Haverá algo mais a dizer para além de que os mercados livres são o modo mais eficiente de organizar a sociedade? Será isto o "fim da história", como disse Francis Fukuyama?

    Friedman | Oh não. “Mercados livres” é uma expressão muito genérica. Muitas espécies de problemas hão-de emergir. Os mercados livres funcionam melhor quando a transacção entre dois indivíduos afecta apenas esses indivíduos. Mas não acontece assim. O que acontece mais frequentemente é que uma transacção entre nós os dois vá afectar uma terceira pessoa. Essa é a fonte de todos os problemas para a governação. Essa é a fonte dos problemas de poluição, de desigualdade. Existem alguns bons economistas, como Gary Becker e Bob [Robert] Lucas que estão a trabalhar nestes temas. Esta realidade assegura-nos que o fim da história nunca acontecerá.

    sexta-feira, fevereiro 17, 2006

    Pérolas a Economistas


    Miss Pearls poderia ser tomada como o nosso "paradoxo do valor" ("diamantes e água", "água e pérolas", é tudo o mesmo); deve ser por isso que calhou agora uma citação da The Theory of the Leisure Class de Thorstein Veblen.

    Qualquer citação de um economista, ainda que não-mainstream, é bem-vinda.

    quinta-feira, fevereiro 16, 2006

    Pós-modernismo morre na Amazónia

    «Num artigo publicado na revista Science (20.Janeiro.2006), cientistas que investigaram as capacidades cognitivas pré-linguisticas dum grupo de indígenas da Amazónia [Munduruku], demonstraram que os indivíduos possuem uma conceptualização nuclear da geometria euclidiana.

    Este relatório dá a estocada final no vampiro do pós-modernismo. A lógica (dedução), a aritmética e a geometria Euclidiana têm as suas conceptualizações nucleares em capacidades não-linguísticas (e pré-linguísticas) do cérebro humano. Não há motivos para pensar que estas capacidades não sejam partilhadas por todos os seres humanos (uma vez que existe tão pouca variabilidade na espécie humana). Existe uma natureza humana universal e uma racionalidade nuclear partilhada por todos os humanos.»


    "Postmodernism Dies Yet Again" - Body Parts
    artigo no Live Science
    post no Maza’ Weblog

    Consenso de Copenhaga



    No âmbito do Consenso de Copenhaga 2004 um grupo de conhecidos economistas analisou um conjunto de projectos, tendo em consideração essencialmente os custos e benefícios económicos. Mais especificamente: os especialistas foram desafiados a responder à seguinte questão, relativamente a um conjunto projectos previamente identificados pela ONU: "Qual seria a melhor maneira de aumentar o bem-estar global, e particulamente o bem-estar dos países em desenvolvimento, supondo que um financiamente adicional de 50 mil milhões de dólares (*) em recursos estaria à disposição dos governos?"

    O painel de especialistas foi constituído por:
  • Jagdish N. Bhagwati
  • Robert W. Fogel
  • Bruno S. Frey
  • Justin Yifu Lin
  • Douglass C. North
  • Thomas C. Schelling
  • Vernon L. Smith
  • Nancy L. Stokey

    As conclusões - que foram comentadas neste artigo do The Economist - encontram-se disponíveis aqui (pdf) e estão resumidas no quadro seguinte. Repare-se na má classificação do Protocolo de Quioto, ao contrário da liberalização do comércio.

    classificaçãodesafiooportunidade
    muito bom1doençascontrolo do HIV/SIDA
    2má-nutriçãofornecimento de micro-nutrientes
    3subsídios e comércioliberalização do comércio
    4doençascontrolo da malária
    bom5má-nutriçãodesenvolvimento de novas tecnologias agrícolas
    6água e saneamentotecnologia de água de pequena escala
    7água e saneamentogestão comunitária da água e saneamento
    8água e saneamentoinvestigação da produtividade da água na produção alimentar
    9governobaixar o custo de arranque de um novo negócio
    suficiente10migraçãobaixar as barreiras à migração de trabalhadores qualificados
    11má-nutriçãomelhorar a alimentação infantil
    12má-nutriçãoreduzir a prevalência de pesos baixos à nascença
    13doençasserviços básicos de saúde
    mau14migraçãoprogramas "guest worker" para imigrantes não qualificados
    15climataxa de carbono óptima
    16climaProtocolo de Quioto
    17climaTaxa de carbono "value-at-risk"


    Via Catallarchy.


    (*) - "$50 billion", no original; reina alguma confusão quanto ao significado de "billion": veja-se por exemplo o site Ciberdúvidas e a Wikipédia. No entanto, parece não haver dúvida de que, nos EUA, "billion" = 109.

  • quarta-feira, fevereiro 15, 2006

    A vida exagerada de Martín Romaña




    A mim parece-me que é preciso sofrer de uma qualquer doença rara, indiagnosticada e paradoxal, para ler - com prazer! - as 500 páginas d´"A Vida Exagerada de Martin Romaña". Será que o masoquismo decorrente da repetida ruminação dos equívocos dos anos 60 e do "Maio de 68" pode explicar tal fervor?

    Enfim: aqui fica um trecho em que a personagem Martin Romaña é visitada pelo Autor, Alfredo Bryce Echenique, supostamente para lhe roubar a mulher, a marxista Inês, a qual, depois de ter cuspido (metaforicamente) no escritor capitalista, redime-o pelo facto de ter publicado um romance em Cuba.

    A seguir: Alfredo Bryce Echenique relata um episódio pessoal, coincidente com o que aconteceu com Martín Romaña (e ainda dizem que não há coincidências...)

    Reproducción de videos con Windows Media Player












    Arquivo da Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes. A propósito: quando é que o Instituto Camões nos oferece uns Eças e uns Camilos video-sonoros ?
    url do podcast ~ url do video
    outros ficheiros sonoros do mesmo autor

    terça-feira, fevereiro 14, 2006

    Não blogarás em... solitário!

    O Abrupto apresenta um bem humorado exercício "legislativo": um Decálogo sobre os debates na blogosfera portuguesa. Quem será que enfia o barrete? Quanto ao Pura Economia, levanta-se apenas uma dúvida: a Sexta Lei diz que (a) «Os blogues são grupais, precisam imenso de companhia» e (b) «A blogosfera tem evoluído do amiguismo para o grupismo e deste para o tribalismo. Permanecem, no entanto, leis de desenvolvimento desigual».

    A dúvida é: a que grupo ou tribo pertence o Pura Economia? Eu sei que já fui citado por blogues liberais e libertários, links que depois esmorecem quando aqui surgem referências solidárias, intervencionistas ou keynesianas, etç, Tal como já fui citado por blogues solidários e intervencionistas, links que depois declinam quando aqui surgem referências liberais e libertárias.

    Mas talvez seja ainda cedo para entrar em pânico. Considerando que ao Decálogo do Abrupto ainda faltam quatro Leis (ainda está na versão Beta), aguardo que as Leis faltantes me esclareçam esta solitária angústia.

    segunda-feira, fevereiro 13, 2006

    Chile, segundo a BBC



    Podcast do programa "In Business", da BBC,
    sobre a economia do Chile - 9.Fev.2006 - 28:08 m

    url

    Universidades na net


    Distribuição das primeiras 200 universidades, por país.

    O Webometrics é um ranking das universidades de todo o mundo em função da sua presença na net. O processo de classificação ainda é questionável (a metodologia é apresentada aqui) mas vale a pena dar uma vista de olhos. Os indicadores utilizados são:
  • tamanho: número de páginas;
  • visibilidade: total de links externos recebidos;
  • ficheiros especiais: (pdf, ps, doc. ppt).

    Na lista das três mil universidades classificadas, encontram-se as seguintes sete portuguesas:

    Universidade ordem  ordem por indicador 
     tamanho  visibilidade  ficheiros 
    especiais
     Univ. Técnica Lisboa438438568239
     Univ. do Porto447316540689
     Univ. Coimbra461574489454
     Univ. Minho643640809442
     Univ. Lisboa682838700772
     Univ. Nova de Lisboa699832791519
     Univ. Aveiro9858491.233864

    Na lista de centros de investigação encontra-se o Instituto Superior Técnico, na posição nº 70.
  • Também tu, Blanchard!...


    O Diário de Notícias apresenta uma pequena entrevista com Olivier Blanchard, onde o economista repete algumas das ideias apresentadas na Conferência do Banco de Portugal - incluindo a descrença no poder miraculoso da aposta tecnológica. Mais uma facada no Plano socrático...

    Para aumentar a produtividade, a grande aposta do Governo é a aplicação de um plano tecnológico. Deve ser a prioridade?

    «Não deve ser a principal preocupação. É muito importante melhorar o sistema educativo e tentar ser parte do mundo da alta tecnologia. Mas Portugal não vai conseguir resultados quantitativamente significativos porque não está a partir da melhor posição. Os países asiáticos estão mais bem posicionados.»

    Devemos desistir de estar na vanguarda da alta tecnologia?

    «Não, mas uma estratégia baseada na alta tecnologia não será muito eficaz. Há outras áreas onde é possível conseguir um aumento da produtividade de uma forma muito mais realista.»

    Outra proposta que faz é a redução nominal dos salários. É realista pensar nessa possibilidade?

    «Parece muito duro, e é, mas no passado costumava ser feito através das desvalorizações da moeda e era aceite. É importante salientar e convencer as pessoas que isto é a mesma coisa. É muito difícil para as pessoas aceitarem uma descida do salário nominal, mas é importante colocar esta possibilidade em cima da mesa porque pode ser a única maneira de recuperar a competitividade de forma relativamente rápida, evitando um desemprego prolongado. É necessário perceber que para aumentar a competitividade, com uma dada produtividade, é preciso que os salários em termos reais desçam. Isso vai sempre ter de acontecer. A questão é saber se se faz com desemprego ou sem desemprego. E é muito melhor fazê-lo sem desemprego.»
    Entretanto, quem não parece estar de acordo com Blanchard é a economia portuguesa, pois os últimos dados do INE apontam para um agravamento dos custos do trabalho. O ICT cresceu 3,9 % em média, em 2005: mais 2,4 pontos percentuais do que em 2004. A evolução no último trimestre de 2005 representa, no entanto, uma desaceleração face ao trimestre imediatamente anterior. Tratam-se de dados ainda não corrigidos dos efeitos sazonais.

    domingo, fevereiro 12, 2006

    Dia da caça

    [via Julgamento Público]

    sábado, fevereiro 11, 2006

    Economia oculta


    Economia oculta [clique]

    Porque é que a economia está mais forte do que era suposto estar?
    - pergunta-se num artigo da Business Week. Resposta: «Numa economia baseada no conhecimento, os indicadores tradicionais não dizem tudo o que se passa. Os intangíveis, tais como a I&D, são fracamente apercebidos - se é que o são. Incluindo-os, tudo muda.»
    «Os mágicos estatísticos do Bureau of Economic Analysis, em Washington, podem fazer aparecer uma folha de cálculo mostrando quanto é que os caminhos de ferro gastaram em mobília. Mas não conseguem detectar os milhares de milhões que as empresas gastam em cada ano em inovação e design de produtos, criação de marcas, formação de empregados ou em quaisquer outros investimentos intangíveis, necessários para competir na economia global do presente. Isso significa que os recursos utilizados na criação de inovações de topo tais como o medicamento anti-cancerígeno Avastin, a insulina inalável, os Starbuck's (SBUX), os "exchange-traded funds"(*) ou mesmo o iPod, não aparecem nos números oficiais.»


    (*) - Também conhecidos como Trackers; transaccionados como acções, os exchange-traded funds (ETF) constituem uma alternativa aos fundos mútuos (ou colectivos), investidos em índices. Tal como as acções, estão sujeitos a uma comissão (na compra e venda), mas a partir daí custos são mínimos. As despesas de administração são extraordinariamente baixas, não estão sujeitos a comissões de entrada ou saída, frequentes nos fundos mutuos, são fáceis de compreender e oferecem vantagens no pagamento de impostos. (Portuguese Canadian Financial Newsletter)

    Economics Round Table


    Economics Round Table

    Informações sobre os mais recentes posts publicados por blogues de Economia.
    Mantido pelo Professor William R. Parke, da Universidade da Carolina do Norte. Parke é também o autor do capítulo sobre modelos económicos clássicos no site EconModel.

    Economia portuguesa: comunicações

    O Banco de Portugal já disponibilizou em linha as comunicações da Conferência que teve ontem lugar na Gulbenkian (ficheiros pdf):

  • "Abertura" - Vítor Constâncio, Governador do Banco de Portugal (é apenas uma pequena parte da intervenção, nem sequer é um resumo)

  • "The Structural Transformation and Aggregate Productivity in Portugal" - Margarida Duarte, do Carnegie Mellon University, e Diego Restuccia, da University of Toronto

  • "Taxes and Labor Supply: Portugal, Europe, and the United States" - André de Castro Silva, da Universidade Nova de Lisboa

  • "Budget Setting Autonomy and Political Accountability" - Susana Peralta, da Universidade Nova de Lisboa

  • "Adjustment within the Euro. The Difficult Case of Portugal" - Olivier Blanchard, do Massachusetts Institute of Technology

  • "Equality of Opportunity and Educational Achievement in Portugal" - Pedro Carneiro, da University College of London

  • "The Internal Rate of Return to On-the-Job Training" - Rita Almeida, do Banco Mundial

  • "Will the East Follow Portugal?" - Cátia Batista, da University of Oxford

  • "Small Firms in Portugal: A Selective Survey of Stylized Facts, Economic Analysis and Policy Implications" - Luís Cabral, da New York University

  • "Asymmetric Information in the Stock Market: Economic News and Co-movement Between US and Portugal" - Rui Albuquerque, da Boston University, e Clara Vega, da University of Rochester

    Margarida DuarteDiego RestucciaOlivier Blanchard
    André de Castro SilvaPedro CarneiroRita AlmeidaSusana Peralta
    Cátia BatistaLuís CabralRui AlbuquerqueClara Vega
  • sexta-feira, fevereiro 10, 2006

    Conferência do Banco de Portugal

    Assisti à Conferência do Banco de Portugal, onde se destacaram as intervenções de Vítor Constância, bem como, e sobretudo, a de Olivier Blanchard.

    Vitor Constâncio fez uma espécie de retrato negativo das causas da divergência da economia portuguesa face à UE (não é a evolução dos preços relativos, não é a intensidade das reformas nem a qualidade das nossas instituições, não são as diferenças de fiscalidade, não é a regulação do mercado, etç.) Salientou, por outro lado, a capacidade potencial existente para absorção de tecnologia, daí a importância que o investimento estrangeiro tem para Portugal.

    Blanchard fez um diagnóstico dos nossos problemas económicos, mais "normal" do que acontece frequentemente com muitos portugueses, que gostam de salientar a "anormalidade" do caso português (no fundo, acho que ainda são resíduos da tese de António Sérgio sobre a nossa "mentalidade" retrógrada, a necessitar de "reforma", etç; se fossemos diferentes a nível dos estímulos, precisaríamos de uma teoria económica diferente só para nós, não é assim?). Blanchard encontrou até semelhanças entre a nossa evolução recente e a França de algum tempo atrás.

    Disse Blanchard que a situação que tivemos, de taxas de juro baixas e uma visão optimista quanto ao futuro, explicam o agravamento, naquela altura, do endividamento e o défice fiscal. Agora é fácil dizer que foi um erro de antevisão (das famílias, das empresas, do governo) mas durante o boom fazia sentido. Por outro lado, admitiu que alguns indicadores poderiam ter alertado para uma reacção mais a tempo.

    O economista de origem francesa foi igualmente muito franco quanto ao nosso futuro: ou ajustamos a economia com aumentos de produtividade, o que vai ser lento (10 anos, e se correr tudo bem) ou o fazemos com diminuição dos salários reais, o que pode ser mais rápido, mas também mais doloroso (ou mais... impossível!...)

    O resto da conferência teve boas comunicações, igualmente com boas intervenções dos comentadores convidados. Uma intervenção descabida e desagradável foi protagonizada por Paulo Trigo, ao comentar (como convidado) a comunicação de Susana Peralta acerca da autonomia da fiscalidade local. A análise de Susana Peralta, por aplicação da Teoria dos Jogos ao ciclo eleitoral das autarquias locais, colocou a hipótese da fraca autonomia fiscal das autarquias e correspondente pouca transparência na afectação dos recursos fiscais, criar condições para a permanência/reeleição de políticos "egoístas", que procuram rendas para si próprios, em contrapartida com políticos "altruístas". Foi uma tese original (para mim) e bem explicada.

    Paulo Trigo, que tinha feito antes uma critica cientificamente fundamentada a uma comunicação de André Castro Silva, enveredou por uma "crítica" ideológica a Susana Peralta - não só à sua comunicação, mas também à própria pessoa. Referindo ser ele mais velho e ter "conhecido" o período anterior à Revolução (mas, pela idade, até nem deve ter conhecido grande coisa...) sugeriu ignorância da jovem economista da Universidade Nova, e, até, que ela estaria a defender o salazarismo, "que não dava direito de voto às mulheres", etç. A comunicação de Susana Peralta não dizia nada disso, mas Paulo Trigo parece ter ficado incomodado com a simples sugestão de que no sistema democrático actual se geram efeitos económico-políticos perversos, como o já referido.

    Ora, creio eu que um investigador que detecte, na sua investigação, efeitos perversos, deve divulgá-los, independentemente de isso beliscar os mecanismos democráticos. A ciência não tem que se auto-limitar com a ideologia ou o "politicamente correcto". Colocar hipóteses desagradáveis, testá-las e divulgá-las, ainda que possam vir a ser mais tarde infirmadas, é algo que deve ser elogiado e não criticado . Será o sistema democrático uma vaca sagrada onde não se possa tocar? Creio que não.

    terça-feira, fevereiro 07, 2006

      «Educação e desenvolvimento económico na agenda de Jorge Sampaio»  

    (título do Público)

    É verdade que o Jorge Palma descobriu que nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Mas não será um bocadinho tarde, Sr. Presidente?...