sexta-feira, janeiro 27, 2006

Mozart

Mozart


"Gente, gente!" (Bodas de Figaro)







Flauta Mágica

A propósito dos 250 anos do nascimento de
Wolfgang Amadeus Mozart

http://www.luc.edu/depts/history/dennis/Music_files/Mozart%20-%20Figaro%20-%20Gente,%20gente.mp3

http://www.karin-schoepke.de/Zauberflote.mpg


Outras músicas de Mozart: aqui, aqui e aqui.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Lendas

O Correio da Manhã de ontem traça um perfil de Cavaco Silva onde, a certo passo, se relatam "factos" ocorridos no ISCEF/ISE. Trata-se de relatos anedóticos e provavelmente falsos. Por exemplo, creio que Cavaco Silva (como professor) e Ferro Rodrigues (como aluno) nunca se terão encontrado naquela escola. A contestação às suas aulas e a profecia de que um dia seria primeiro-ministro, perante a galhofa dos alunos, não fazem qualquer sentido. Tal como não faz sentido que a matéria leccionada por Cavaco Silva (modelos keynesianos, muito acarinhados pela ortodoxia marxista da escola, na linha das análises de conjuntura de Pereira de Moura) assentasse "como uma luva na ideologia do regime".

Cavaco Silva nunca foi um docente popular em Económicas, particularmente devido à rigidez do seu estilo, mas era considerado competente. As disciplinas verdadeiramente contestadas no ISCEF/ISE eram as altamente selectivas Matemáticas e as leccionadas por gente marcadamente de direita, tais como as de Direito, disciplinas às quais se fizeram greves a aulas e a exames. Nunca tal aconteceu à cadeira de Cavaco Silva. Mas, enfim, é destas patranhas que se fazem as lendas, pelo que transcrevo aqui as balelas do Correio da Manhã:
«A contestação política que a partir de 1968 agita as universidades portuguesas abate-se sobre Cavaco Silva. No Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), onde é assistente da cadeira de Finanças Públicas, o remoinho da crise estende-se ao campo científico. Cavaco Silva é contestado. Introduz na cadeira os testes à americana – a gota de água que leva à revolta dos alunos. A matéria debitada parece assentar como uma luva na ideologia do regime. Numa das aulas a turma de Ferro Rodrigues põe em dúvida a eficácia do método de avaliação e a ciência do assistente. «Cavaco fica à beira de um desmaio – e um contínuo traz-lhe um copo de água. Mais tarde, em 1975, os alunos riem-se a bandeiras despregadas com um ensinamento do professor. “Vocês vão ver. Um dia, hei-de ser primeiro-ministro”, respondeu-lhes Cavaco.»

Um mundo cor-de-rosa - e pateta!


[ clique para ampliar ]
Atente-se nesta manipulação grosseira de uma foto original de uma manifestação de mulheres iranianas, manipulação feita pela organização feminina pacifista americana (e de esquerda...) Code Pink, para fins promocionais da própria organização.

A foto original (parte de baixo da imagem supra) é de uma manifestação de mulheres iranianas, em defesa dos seus direitos e contra a discriminação sexual. A manipulação feita pela "Code Pink" (parte de cima) mostra a junção de algumas mulheres ocidentais e a modificação dos cartazes originais, que passaram a exibir a cor rosa da organização.

O cartaz ao centro, onde se exige igualdade de direitos, foi substituído por uma escrita arábica irrelevante, e a forte expressão de protesto da jovem mulher ao centro foi substituída por uma cara de pateta; o papel que ela exibe dizia : "Nós somos as filhas de Ciro, as pioneiras dos direitos humanos (*)", mas foi transformado num "join us" publicitário. Nem mesmo a mulher iraniana que aparece a segurar um cartaz rosa à direita fazia parte da fotografia original.

É evidente que a cor rosa dos cartazes manipulados visa representar o grupo pacifista. Mas creio que a cara de pateta que atribuíram à mulher no centro da imagem é igualmente representativa destas militantes "Code Pink".


Via o blogue De Gustibus Non Est Disputandum e Publius Pundit. A manifestação das mulheres iranianas teve lugar em 12 de Junho de 2005 e é noticiada aqui. A imagem original, do fotógrafo Amir Kholoosi, é esta; outras imagens da mesma manifestação, que teve lugar junto à Universidade de Teerão, encontram-se aqui e aqui. A imagem (original ?) das militantes "Pink" que foram "adicionadas" à foto de Teerão pode ser vista no topo deste blogue.

(*) - Ciro, "O Grande", é considerado o fundador do império Persa. Destacou-se por uma generosidade rara no seu tempo, ao poupar os seus inimigos vencidos - empregando-os mesmo em cargos admnistrativos de seu império. Ciro também demonstrou tolerância religiosa e procurou manter todos os povos do império sob a admnistração de líderes locais. Autorizou os judeus a regressar à Judeia, pondo fim ao período de exílio babilónico. [Wikipédia]

Podcast

Paul Wolfowitz, presidente do Banco Mundial
   Paul Wolfowitz   


Ficheiro m3u - 9:34 min. - 4,4 MB
Paul Wolfowitz, Presidente do Banco Mundial, fala sobre as prioridades do desenvolvimento.

Crédito: The Economist; url:
http://media.economist.com/media/audio/world-in-2006/Priorities_for_world_development.m3u

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Gostos não se discutem


Se viu a noite eleitoral, talvez goste desta fita...

O New York Times relata o lapso que ocorreu com o sistema de "recomendações" da Walmart.com, e que obrigou a empresa a emitir um pedido de desculpas. O sistema de recomendações é aquela rotina informática que, no momento em que procuramos por um produto na net (livro, filme, disco, etç) solicitamente nos indica produtos similares, de que talvez também gostemos, porque outros leitores com gostos "semelhantes" ao nosso também os compraram, etç.

O que levou a Walmart a pedir desculpa foi o facto dos consumidores que consultavam um conjunto de DVDs que incluiam os filmes "Martin Luther King: I Have a Dream" e "Unforgivable Blackness: The Rise and Fall of Jack Johnson", terem recebido a mensagem de que talvez gostassem também de comprar o DVD do "Planeta dos Macacos" (ou do "Ace Ventura: Pet Detective", "entre outros títulos irrelevantes"...)

Afinal, os computadores até são capazes de se parecer mais com os humanos do que acreditamos: pois se até cometem os mesmos lapsos!...

storm/stoned

Novo blogue linkado: french kissin'. Além do mais, um incondicional de Dylan. E já que se falou no assunto:




http://filebox.vt.edu/j/jcdecker/Dylan%20-%20Shelter%20From%20The%20Storm.mp3
http://kalioglou.sweb.cz/Bob%20Dylan%20-%20Everybody%20Must%20Get%20Stoned.mp3

Boca-a-boca

Uma notícia do Jornal de Negócios, já com alguns meses (Novembro de 2005), sobre o peso do "factor c" (cunha) na obtenção de empregos, continua a fazer eco na imprensa. Hoje é a revista DiaD, que refere que «28 % dos 5,1 milhões de empregos em Portugal no terceiro trimestre de 2005 foram conseguidos por cunhas, ou seja, por intermédio de pessoas conhecidas, segundo dados do INE.»

E acrescenta a revista: «Falar de desenvolvimento, de competitividade, de futuro, de suar a camisola e, se necessário, "comer" a relva torna-se difícil quando se é confrontado com um número destes. A modernidade é incompatível com a tacanhez de raciocínio que está na a nossa raíz genética.»

Este estilo "moralista" é típico de alguns comentadores de jornal e até de muita da blogosfera. Mas creio que não é caso para tanto. É evidente que o autor deste cacharolete de metáforas parte do princípio que um emprego obtido através de um conhecimento qualquer é um emprego ineficiente - e que os países mais eficientes não recorrem a este método de ajustar oferta e procura de trabalho. Contudo, não é necessariamente assim.

Mas vamos por partes. No lado oposto do emprego através de conhecimentos pessoais encontrar-se-ia o recrutamento através de um concurso público nacional (quiçá europeu...) Sem dúvida que, dessa forma, se emularia uma concorrência mais alargada. Mas, para muitos empregos, esse recrutamento seria ineficiente, dados os custos de publicidade e, sobretudo, de selecção. Para se garantir a maximização da eficiência do recrutamento ter-se-iam de avaliar os milhares de candidatos a cada posto de trabalho, através de processos morosos e onerosos, que, em geral, teriam de ser feitos por empresas especializadas.

Uma alternativa mais simplificada seria a publicidade de vizinhança, tal como o papelinho na montra a pedir "colaboradores". Mas será este processo mais eficiente que o contacto através de amigos e familiares?

Muitas empresas anunciam a necessidade de contratações no seio da própria organização: é uma forma barata de atrair candidatos, sobre os quais a empresa faz depois a sua selecção. O problema é que as nossas cabecitas maldosas supõem sempre que associada a uma cunha está sempre uma pessoa incompetente ou inadequada para aquele posto. Mas porque não há-de ser precisamente o contrário? Porque não admitir que o candidato se oferece para empregos adequados às suas habilitações e motivações? Porque não admitir que aquele que tomou conhecimento do anúncio se lembrou de um amigo ou familiar, precisamente por lhe parecer o "casamento" adequado?

Pois é... mas quando estamos determinados a mostrar como o nosso país é uma desgraça, qualquer argumento serve - e nenhuma suspeita é de desprezar...

Acresce ainda que esta forma de recrutamento por meio de contactos "pessoais", dada precisamente a sua eficiência relativa, é largamente utilizada por economias avançadas, sem que as mesmas estejam a entrar em colapso por tal facto.

Por exemplo, o artigo "Job search methods and results: tracking the unemployed, 1991", de Steven M. Bortnick and Michelle Harrison Ports, publicado na Monthly Labor Review, refere que 22,6% daqueles que tinham procurado emprego "através de amigos e familiares" tinham-no obtido ao fim de 2 meses, uma percentagem semelhante à de outros métodos de procura. E já em 1980, a mesma revista tinha publicado o artigo de M. Corcoran e outros, "Most Workers Find Jobs through Word of Mouth" (ambos os artigos são relativos aos EUA).
«Os empregadores apoiam-se largamente no boca-a-boca [word of mouth] para o recrutamento de trabalhadores e estão em geral satisfeitos com este processo. Anúncios em jornais, recrutamento através de agências e outros mecanismos são utilizados mais selectivamente ou como segunda alternativa.»

John Betancur, CEUD-University of Illinois at Chicago


Outros artigos relacionados:
  • "Job Contact Networks", de A. C. Armengol (2000).
  • "Job Matching, Social Network and Word-of-Mouth Communication", de Armengol e Zenou (2004).
  • Ikea

    «Está instalada a guerra entre os municípios do Minho pela localização da futura fábrica do grupo sueco de mobiliário Ikea - um investimento de 32 milhões de euros para a construção de uma unidade de alta tecnologia, que destinará 90% da produção à exportação [...] A concorrência pela captação da unidade fabril levou já vários municípios a disponibilizarem terreno praticamente a custo zero. Para além de Ponte de Lima, estão na corrida concelhos como Arcos de Valdevez, Valença, Ponte da Barca, Póvoa de Lanhoso e até Paços de Ferreira, entre outros. [...] A Câmara de Viana do Castelo já se manifestou indisponível para conseguir terrenos a baixo custo (nunca inferior a 75 euros o metro quadrado) e o presidente da Câmara de Ponte de Lima, Daniel Campelo, também se mostrou pouco aberto a assumir a aquisição integral – ou quase – do terreno.»

    Correio da Manhã

    sábado, janeiro 21, 2006

    BP: estatísticas interactivas

    No dia 19 o Banco de Portugal iniciou o BPstat - Estatísticas online, um serviço cujo objectivo é o de "facultar um acesso fácil e célere às séries estatísticas produzidas pelo BP e outras instituições". Destacam-se as possibilidades de exploração multi-dimensional da informação, elaboração de quadros formatados pelos utilizadores, criação de "favoritos", sistema de alerta, etç. Existe também informação metodológica. (Nota do Governador)

    Conjuntura

    "Indicadores de conjuntura" do Banco de Portugal.
    «O indicador coincidente mensal para a evolução homóloga da actividade e conómica [em Portugal], calculado pelo Banco de Portugal, apresentou uma ligeira recuperação em Dezembro, após uma relativa estabilidade nos meses mais recentes. A informação disponível aponta para um menor crescimento do consumo privado no segundo semestre do ano.
    [...]
    «No período de Janeiro a Outubro de 2005, o défice conjunto das balanças correntes e de capital aumentou €2900.3 milhões face ao mesmo período do ano anterior, situando-se em €9596.9 milhões»

    A Nova Organização

    «Há 50 anos William Whyte, editor da revista Fortune, escreveu o livro "The Organisation Man", [disponível online aqui ] que definiu a natureza da vida na empresa para uma geração. O livro descrevia o modo como a América (cujo povo, escrevia Whyte, era conduzido na "pública adoração do individualismo") se tinha tornado recentemente numa nação de empregados que "cumprem votos de vida eterna para com a organização" e que se tinham tornado nos "membros dominantes da nossa sociedade".»

    «Entre as organizações que Whyte tinha em mente, estava sobretudo a grande corporação, que ele pensava que premiava a dedicação prolongada, obediência e lealdade, quase tão fielmente como faria um mosteiro ou um batalhão. [...] Meio século depois, esta organização parece extinta [...] A empresa que mais se parecia identificar com este estilo de vida era a IBM. Durante muitos anos os seus gestores usaram apenas fatos azuis escuros, camisas brancas e gravatas escuras, símbolos da sua ligação vitalícia à "Big Blue". A medida das mudanças que tiveram lugar desde os tempos de Whyte até hoje é dada pelo facto de, actualmente, 50% dos empregados da IBM trabalharem para a empresa há menos de 5 anos; de 40% dos seus 320 mil empregados serem "móveis", significando que não se apresentam diariamente num dado local de trabalho; e de cerca de 30% serem mulheres. Uma empresa que em tempos foi dominada por empregados vitalícios que vendiam computadores, foi transformada num conglomerado de transitórios fornecedores de serviços. O "Homem da Organização" foi substituído por um grupo de gestores mais vocacionados para a rápida ascenção empreendedora do que para a lenta promoção organizacional.»

    The Economist, "The new organisation"

    Produtividade


    «A taxa de crescimento da produtividade na América desacelerou para 1,8% em 2005, abaixo dos 3% de 2004. Esta última estava bastante acima da dos "velhos" 15 estados da União Europeia, que se situava nuns meros 0,5%, quase a mesma do Japão. Apesar de muitos países desenvolvidos tenham sofrido desacelerações da produtividade no ano passado, muitos mercados emergentes, como a Europa oriental, a Índia e a China, viram-na aumentar.»

    The Economist

    sexta-feira, janeiro 20, 2006

    Fado português

    Quando José Tavares se demitiu de coordenador do Plano Tecnológico, comentámos aqui ("Este é o nosso fado") que tudo indicava que a demissão seria apenas a ponta o icebergue de problemas mais profundos: a resistência por parte da estrutura administrativa e de poder ao desenvolvimento de uma estratégia inovadora, que necessariamente teria de bulir com a relação de poderes dentro da administração pública.

    Um pouco insolitamente, o mesmo José Tavares aproveitou uma conferência do primeiro-ministro para revelar que havia um ministro que se opunha à concretização de uma das medidas sonantes daquele Plano: um acordo de cooperação com o Massachussets Institute of Technology (MIT). A iniciativa é insólita porque não é curial que alguém que participou na concepção de um projecto público, venha utilizar informação privilegiada obtida nesse contexto para incomodar politicamente quem, inicialmente, o convidou para tal cargo. Claro que José Tavares pode estar cheio de razão, mas o assunto talvez pudesse ter sido tornado público de outra forma, eventualmente mais elegante.

    O assunto, entretanto, entrou no domínio da lavagem da roupa suja. Os jornais trataram logo de descobrir quem seria a "força de bloqueio": o ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, o qual vem agora negar (obviamente) qualquer oposição à vinda do MIT (notícia do jornal Público).

    O que é triste é isto: não se discute o Plano nem se discute a natureza do projecto MIT. Tudo o que "interessa" é a fulanização.

    Alguns comentários na blogosfera portuguesa:

    «A ambígua resposta de Sócrates quer dizer apenas uma coisa - a questão avançará quando Gago já não for ministro. Resta saber se o MIT esperará até lá.»

    Grande Loja do Queijo Limiano

    «O assunto, que poderia ser importante, e revelador de muitos dos nossos problemas (e também de acidentes da sociedade internacional "globalizada"), começou, como é óbvio, com uma peça de escandaleira.»

    Contrafactos & Argumentos

    «A recente polémica da instalação em Portugal do MIT teve o mérito de pôr a nu o estado de precariedade do Ensino Superior no nosso país, profundamente enfeudado às doutas cabeças de outrora e à reverência e ao invencível estado de prostração perante o “Santo Grau”.»

    Porque

    «O ministro da Ciência e Tecnologia acusou José Tavares de proferir afirmações falsas e de ter prestado um péssimo serviço ao país. É o primeiro passo, em português, para um grande good bye ao projecto do MIT para Portugal. »

    Mais Actual

    «Nuno Melo [líder parlamentar do CDS], depois de hoje pedir explicações ao Executivo, avançou à TSF com o que corre em surdina nos corredores de S. Bento: uma das razões do “tal Ministro” (...) teria a ver com o facto de o Projecto do MIT, apresentado ao Governo, prever recrutar e trabalhar com a melhor “massa cinzenta” de todas a Universidades portuguesas, enquanto o “tal Ministro” queria contrato de exclusividade com apenas uma (um doce para quem adivinhar qual era). “Endogamia” tecnológica na versão mais ciumenta e abortiva?»

    Ubiversidade

    «Mariano Gago nega oposição à entrada do MIT em Portugal
    Desde que a parceria seja com o Técnico, claro.
    Afinal, a “tradição” ainda é o que era.»

    Blogue dos Marretas

    «PS: Senhor ministro, não se preocupe que a gente percebe. O senhor não é contra a entrada do MIT. O senhor só é contra a entrada do MIT para a Universidade Nova.»

    O Acidental

    «basicamente o senhor ministro disse que não há desencontro de opiniões e que era mesmo uma questão de independência nacional ... e disse mais ...disse que o Tavares é puto...funcionário público...professor nos começozinhus da carreira e que o doutoramentozinho foi à pala do Estado com uma bolsa da FCT ...portanto eu traduzo... "Ó Tavares... rapazola ... axandra-te pá... olha a carreira..."

    cristal clear...»

    anårca constipadö

    «Porque razão o sr. Tavares - aquando da sua demissão - não convocou um ou dois microfones e dava uma conferência de imprensa, explicando aí as verdadeiras razões das sua demissão... Não o fez, depois reagiu como um garoto a quem tiraram o xupa-xupa e o carrinho da match-bock.»

    Macroscópio

    terça-feira, janeiro 10, 2006

    Maria Filomena Mónica

    Maria Filomena MónicaA professora Maria Filomena Mónica, a quem "passaram as dores de cabeça" depois de ter publicado o seu Bilhete de Identidade, dá uma entrevista aos "pontos nos ii", a revista mensal de política educativa que é hoje distribuída com o jornal "Público".

    Nesta entrevista a professora revela que  foi «ao leccionar no [período] pós-Revolução que me senti pior. Os alunos queriam mandar nos professores e estes não foram capazes de dizer "o que quereis não faz sentido". Instalou-se o laxismo e abandonou-se o trabalho individual. Os professores, mesmo os catedráticos, cederam. Um grupo de quatro alunos tinha quatro disciplinas feitas: cada um fazia um trabalho, supostamente de grupo.»

    No seu livro "Bilhete de Identidade", Maria Filomena Mónica já tinha referido a irracionalidade do período em que os alunos tomaram conta das universidades (e dos programas, da avaliação, etç.) . Nada disto é novo, a não ser o facto de MFM assumir que também os professores se deixaram ir na onda das "facilidades revolucionárias". Hoje, há muitos desses professores que denunciam essa situação (vide o professor Cavaco Silva na sua auto-biografia política, que ridiculiza os alunos de Económicas que tinham "assento" no Concelho Científico) mas esquecem-se sempre de dizer que não tiveram a coragem de denunciar a situação na devida altura.

    A propósito, aproveito para contar um dos episódios, passado comigo neste contexto, que mais me penalizaram. Vem a propósito porque um dos participante foi o professor Afonso Barros - que foi casado com Maria Filomena Mónica e é profusamente citado no seu livro.

    O professor Afonso de Barros era da oposição ao regime muito antes do 25 de Abril. Depois da Revolução esteve ligado ao MES. Também ele apoiou a metodologia do trabalho em grupo, que era apresentada como uma alternativa aos métodos de ensino e avaliação "selectivos" que, supostamente, tinham a "marca de classe" do regime ditatorial. Mas o professor não estava preparado para o radicalismo que dominou a "classe" discente naquele ano de 1975.

    Fui um defensor da avaliação contínua e do trabalho em grupo, mas não me "aproveitei" dessa metodologia para passar sem estudar, embora no meu grupo de trabalho o desempenho dos elementos fosse desigual e existisse uma "protecção" aos menos diligentes no estudo.

    Ora, numa reunião do professor Afonso de Barros com o meu grupo, no final de uma discussão de um trabalho, ele pretendeu dar notas diferentes aos elementos do grupo, de acordo com a sua apreciação dos conhecimentos de cada um. Mas o grupo não aceitou: a nota tinha de ser igual para todos! O professor bem argumentou que era evidente que havia diferentes níveis de desempenho pelos alunos, mas o grupo foi inflexível: então ele que desse a nota mais baixa a todos os elementos.

    Como se explica esta irracionalidade, que prejudicava os alunos que poderiam ter nota mais elevada, que era o meu caso e do meu colega José Luis Lança? Muito simplesmente porque eramos os parolos daquele processo. Acreditávamos piamente que era mais justo todos terem nota igual, que a nota diferenciada era uma coisa do ensino burguês, bla, bla, bla...

    Este radicalismo é algo que hoje me envergonha - embora no ano seguinte, em 1976, eu já tenha aceitado notas diferenciadas dentro do grupo. No entanto, o mais grave daquele episódio estava para vir: como nenhuma das partes cedesse, o grupo abandonou a sala, numa bravata irresponsável. Que grandes "revolucionários"! Íamos já no jardim da escola quando Afonso de Barros veio a correr atrás de nós, e admitiu finalmente dar-nos nota idêntica a todos. Logo naquele momento, senti vergonha de termos obrigado o professor a ceder, porque ele se manifestou um cavalheiro - quem o conheceu sabe como era educado - enquanto que nós nos portámos como uns seres intolerantes. Nunca mais me esqueci deste episódio e envergonho-me dele sempre que o recordo.

    Poderia haver alguma compreensão para a ocorrência destas asneiras no período revolucionário, mas a fraude mantém-se no nosso sistema de ensino, conforme explica MFM:
    «[O ensino hoje está] mal a todos os níveis e a responsabilidade é dos partidos, em última análise, mais da direita. O pensamento progressista que irrompeu na esquerda era normal. A tradição de Rousseau e do mito do bom selvagem, tudo era normal. E a direita engoliu as balelas pedagógicas. Sendo eu de esquerda, penso que o PPD, de uma forma acrítica, aceitou todos os disparates. Nos últimos dez anos apareceram pessoas a defender a aprendizagem, o esforço e o trabalho. [Mas] ainda não se chegou aos programas, que são um disparate total, tanto na literatura como na história.»

    [Os manuais têm] «um chorrilho de asneiras, mas o mal está nos programas absurdos e nos professores formados após o 25 de Abril. [...] Dito isto, não tenho nostalgia do antigo regime, porque os elementos ideológicos eram muito fortes. Mas nos liceus havia professores bem preparados.»

    Maria Filomena Mónica
    revista "pontos nos ii" - Jan.2006
    entrevista de Margarida Maria

    Virus à solta ?

    A "informática" anda a pregar umas partidas ao jornal "Público". Há uns dias ocorreu a publicação de um texto antigo de Vasco Pulido Valente, que "saltou" do passado para a última página. Hoje é a página 18 que é, imagine-se, a mesma que foi publicada ontem. Andará algum virus à solta nos computadores do Público ?

    sábado, dezembro 31, 2005



    Boas Entradas! Feliz Ano Novo!

    quarta-feira, dezembro 28, 2005

    Preferência pela liquidez



    Isabel Figueira (clique-a para ampliar)

    Para um blogue dedicado "puramente" à Economia, não são muitas as oportunidades para praticar este exibicionismo machista das meninas. Mas, de vez em quando, lá calha.

    Eis o que pode ler no jornal Público de hoje, a propósito do casamento de IF com o futebolista César Peixoto: «Os noivos decidiram não fazer lista de casamento e disseram aos convidados que preferiam dinheiro.»

    Volta, Keynes, que estás perdoado.

    terça-feira, dezembro 27, 2005

    Forma sem conteúdo

    O candidato presidencial Cavaco Silva deu uma entrevista ao Diário de Notícias, onde propôs (ou sugeriu, é o mesmo) que o governo tivesse uma secretaria de estado para acompanhar os processos de deslocalização de empresas. Foi o suficiente para os restantes candidatos desatarem a clamar que o homem quer imiscuir-se nos assuntos do governo.

    O que me revolta nisto é a discussão que se consegue armar em torno do aspecto formal (criação de uma secretaria de estado sugerida pelo candidato), esquecendo o conteúdo da questão (necessidade de uma atenção especial ao fenómeno da deslocalização). Esta capacidade para nos matarmos a discutir sobre aspectos formais e superficiais, é bem reveladora do nosso formalismo e superficialidade. O que torna ainda mais patética esta discussão é que a necessidade do governo "vigiar" as empresas é uma ideia típica da esquerda, cabendo melhor à direita a defesa da livre concorrência, sem intromissão estatal. É evidente que Cavaco não é de direita, é francamente um social-democrata. A sua sugestão pode até ter constituído um deslize, na tentativa de criar uma imagem de presidente que não se limita a discursos. Mas o forrobodó que a restante peonagem - com a ajuda da imprensa - se dispôs a fazer, mostra bem como continuamos a possuir uma mentalidade de lordes pelintras.

    Quando o presidente Sampaio clamou que havia "mais vida para além do orçamento", ou quando Soares andou pela Área Meteropolitana de Lisboa a destapar os montes de lixo que a sociedade portuguesa tinha varrido para debaixo da alcatifa, isso não era ingerência no governo? Era seguramente muito maior ingerência do que a sugestão da criação de uma qualquer secretaria de estado.

    Império à deriva


    Ostentação e obsolescência

    "Império à Deriva" - um dos mais divertidos livros que já li, apesar de achincalhar um bocadinho os portugueses. Pode ser que haja algum exagero neste retrato da estadia da corte portuguesa no Brasil (desde 1807), escrito por um inglês, mas nem sequer os ingleses (ou franceses) escapam muito incólumes à pintura de Patrick Wilcken.

    São inúmeras as passagens cómicas - o rei D. Joao VI, eterno indeciso, que não tomava banho e concedia audiências em salas com penicos devidamente atestados, o filho Pedro que se desfazia dos "excedentes" à vista do exército, a Carlota sempre a intrigar contra o rei, etç. A única que ainda escapa é a louca da D. Maria. Mas, para além deste ridículo folclore, é muito sedutora a tese de que foi a mania dos portugueses em ostentarem a posse do maior número de escravos que esteve na origem, involuntária, da famosa miscigenação.

    Que a posse de escravos era o sinal exibido do sucesso social, é algo que outros autores, incluindo muitos portugueses, têm confirmado. Nem mesmo pessoas bem abaixo na escala social, como os artesãos, precindiam de escravos para lhes carregarem as ferramentas quando se deslocavam na via pública. Quanto aos nobres, costumavam sair à rua, a passear, com a família, criadagem e escravos, todos em fila indiana, pai à frente, filhos por ordem inversa de nascimento a seguir, e o resto também por ordem de "importância" (é a imagem da capa do livro).

    O resultado desta proliferação de escravos (essencialmente de origem africana) foi que, ao contrário do que aconteceu noutras urbes coloniais, os escravos "dominavam" o espaço público e estabeleciam a cultura da cidade. É muito curioso que, quando se deu a revolta de Pernambuco, o assustado rei se tenha dado conta de que era materialmente impossível proibir ajuntamentos de pessoas na rua, especialmente escravos, dada a quantidade deles que cirandava por fora às ordens de todo e qualquer gato pingado - até mesmo de outros escravos, entretanto alforriados.

    Há um grande choque de usos e costumes com a chegada da comitiva da arquiduquesa Leopoldina da Áustria, que a acompanhou para o casamento com o princípe Pedro. Os austríacos, habituados a uma vida social que já tinha sido influenciada pelo nascente espírito científico e pelas "luzes", ficaram boquiabertos com uma corte que ainda "vivia" na Idade Média, com os subditos a presenciarem, de pé (ou de joelhos, nos caso dos mais débeis) às longas refeições reais.

    Os austríacos levaram para o Brasil uma missão científica que aproveitou para estudar e recolher especimenes tropicais. Compare-se com a atitude lusa: um enviado de Lisboa passou anos a recolher animais, plantas e minerais, no Amazonas; quando perguntava (para Lisboa) se já se podia ir imbora, respondiam-lhe que não, que o que enviara ainda era insuficiente... Mais tarde descobriu-se que os preciosos caixotes que mandou para Lisboa nem sequer tinham sido abertos! Alguns acabaram mesmo por ser saqueados pelos franceses numa das invasões.

    Península Ibérica


    Península e ilhas adjacentes

    O Instituto Nacional de Estatística acaba de divulgar a publicação A Península Ibérica em Números, um trabalho conjunto dos INEs de Portugal e de Espanha. O Instituto espanhol disponibiliza a publicação, por capítulos, aqui.

    A Península Ibérica como "região da Europa" é um conceito que provoca calafrios a muitos portugueses, que começam a pensar que tantos séculos de guerras afinal não valeram para nada. Porém, não parece haver motivo para alarme. Se tudo correr bem, nenhum dos países dominará ou será dominado pelo outro, antes emergirá uma nova realidade social e política, de que ambas as originalidades ibéricas srão os ilustres antepassados. Claro que nós, tendo nascido e formado a nossa personalidade a cantar o hino anti-inglês e a glorificar Aljubarrota (que para cá trouxe os ingleses...) teremos muita dificuldade em aceitar uma tal coisa. Mas quando o oceano começar a engolir as nossas magníficas cidades ribeirinhas, estas preocupações deixarão de fazer sentido.

    Porém, se as coisas correrem mal, e o projecto europeu começar a andar para trás, poderemos retomar os nossos hábitos nacionalistas e até talvez a diversidade tribal que existiu antes desta coisa tão romântica que são os países, com os seus garbosos exércitos e esforçados clubes de futebol.