Índice de Preços no Consumidor (Base 100: 2002)
Fonte: INE | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
terça-feira, novembro 15, 2005
Inflação
segunda-feira, novembro 14, 2005
Gary Becker acerca dos motins em França:«Muitos economistas têm reconhecido, desde há mais de uma década, que os generosos salários mínimos e outros factores de rigidez do mercado de trabalho francês causam taxas de desemprego que se têm mantido teimosamente altas desde o início dos anos 90. Imigrantes, jovens e outros que entram no mercado de trabalho têm sido os mais afectados, uma vez que são os que encontram mais dificuldades para arranjar empregos. A taxa global de desemprego em França é agora de quase 9 % - comparada com 5 % nos EUA - sendo superior a 20 % para os jovens. Cerca de 40% dos desempregados encontram-se sem emprego regular há mais de um ano, uma taxa que é bastante mais alta do que a taxa americana para o desemprego de longa duração. «Os franceses têm intencionalmente evitado recolher dados económicos sobre os muçulmanos, mas a sua taxa de desemprego é estimada por economistas franceses como sendo superior a 20 %, com a taxa de desemprego de jovens muçulmanos provavelmente a exceder os 30 %. O mercado de trabalho em França está doente e necessita de reformas que o tornem mais flexível, de modo a que os "insiders" com emprego não tenham mais vantagens do que os "outsiders" que procuram trabalho. [...] Talvez estes motins ajudem a proporcionar maior poder aos poucos políticos franceses que compreendem a necessidade de importantes reformas económicas para ajudar todos os jovens franceses a obter empregos, e a deixá-los progredir na hierarquia económica quando demonstrem ter o talento e ambição requeridos. A Economia não pode prever com segurança como é que essas reformas afectarão a possibilidade de futuros motins, mas tais reformas certamente melhorarão a posição dos jovens imigrantes, independentemente da sua religião ou país de origem» |
Menos emprego, menos horas trabalhadas
| "Índices de Emprego, Remunerações e Horas Trabalhadas nos Serviços" - publicação do INE, já com dados do mês de Setembro, que mostram uma diminuição de 0,9 % face ao mês homólogo do ano anterior. Face ao mês anterior, a diminuição foi de 0,2 pontos percentuais. Em horas trabalhadas, registou-se uma diminuição homóloga de 1,3 %. As remunerações aumentaram 1,6 % relativamente a Setembro de 2004. |
Robert Barro
| Entrevista de Robert Barro ao banco da Reserva Federal de Monneapolis, abordando diversos temas tais como a Segurança Social nos EUA, o "Equity Premium Puzzle" (já referido pelo Pura Economia aqui), as políticas de combate à inflação, a União Monetária Europeia, o crescimento económico, as desigualdades sociais, o Fundo Monetário Internacional, e ainda os tópicos de que traduzi os seguintes excertos: |
Macroeconomia
P - «No início dos anos 70, creio, disse a Gary Becker que você estava convencido de que a macroeconomia estava a estagnar e que pensou dedicar-se à microeconomia.
Barro - Exactamente.
P - E então as "expectativas racionais" irromperam no campo teórico e você foi um dos pioneiros dessa revolução. Tendo em consideração as suas previsões, o que pensa acerca da macroeconomia hoje? Quais pensa que são as áreas mais promissoras para investigação em macro? Ainda pensa em mudar-se para a micro?
Barro - «Eu era seguramente mau a fazer previsões, no início dos anos 70, acerca do modo como a macroeconomia iria evoluir. Creio que eu era particularmente influenciado, nessa altura, pela macroeconomia keynesiana, na qual tinha estado a trabalhar, e penso que acertei ao ver que esse campo não tinha grande potencial.
Mas, tal como acabou de sugerir, pouco depois de eu afirmar que a macroeconomia não era promissora, ocorreu uma impressionante sequência de eventos. Eu iniciei o trabalho sobre expectativas racionais - aplicada inicialmente a modelos monetários com uma versão da Curva de Phillips. E então apareceu a análise do ciclo económico real, em que Prescott foi pioneiro. Depois tivemos trabalhos muito interessantes sobre o crescimento económico, com o crescimento a ser visto, cada vez mais, como uma parte central da macroeconomia. E surgiram trabalhos empíricos muito notáveis sobre o crescimento. Portanto isto foi uma sequência, digamos, de quatro desenvolvimentos excitantes da macroeconomia, logo depois de eu ter dito que ela estava a estagnar. Mas agora parece que talvez os últimos 10 anos tenham sido menos excitantes, em comparação. Há já algum tempo que não vemos nada equivalente a esses quatro desenvolvimentos.
«Tem havido progressos, até mesmo do lado do keynesianismo. Temos agora abordagens mais sofisticadas aos modelos de preços rígidos [sticky-prices]. Alguma desta investigação relaciona-se, pelo menos em termos de explicação ex post, com o sucesso mundial da política monetária. Contudo, podemos localizar estes avanços nos anos 80, portanto isto não muda a minha perspectiva quanto aos desenvolvimentos recentes. Tem havido, contudo, a investigação, já referida, em economia política e as aplicações deste trabalho a instituições e ao crescimento.
P - Se as coisas estão a estagnar, então talvez uma nova revolução esteja a caminho.
Barro - «Bem, está na essência de uma revolução que não possa ser prevista, não é? Se a pudesse ter previsto antes, é porque já tinha acontecido.
P - Como é que a Economia avança - é evolucionista ou revolucionária?
Barro - «Penso que existem acontecimentos importantes que se parecem com mudanças discretas [1], seguidos por um período de desenvolvimentos mais evolucionistas, redifinindo e alargando.
P - E sempre se vai dedicar à microeconomia?
Barro - «Sempre tive grande interesse na microeconomia aplicada, e frequentemente escrevo para a "BusinessWeek" e para o "Wall Street Journal" artigos nessa linha, apesar dos editores me estarem sempre a pedir para escrever sobre macro, incluindo política monetária. Eu gosto de escrever artigos de opinião sobre micro, talvez porque a minha investigação não seja tanto sobre isso. Creio que duas das minhas colunas [com artigos de opinião] mais populares foram sobre "economia da beleza" e "economia da legalização de drogas", dois tópicos claramente micro. Mas nem sequer estou seguro de que eu tenha verdadeiramente mergulhado na macroeconomia, apesar de ter começado por aí. De facto, no meu primeiro curso [como docente] usava a "Teoria Geral" de Keynes como livro base. Contudo, a macroeconomia lida usualmente com temas mais amplos e mais importantes.»
[1]-"discretas" no sentido matemático; mudanças descontínuas, por "saltos".
Equivalência ricardiana
«A "equivalência ricardiana" é, antes do mais, uma proposição de primeira ordem. Contudo, as pessoas confundem sobre o que realmente ela quer dizer... Para ilustrar a potencial confusão sobre o seu significado, podemos referir a famosa citação atribuída ao Vice-Presidente Cherney segundo a qual o Presidente Reagan provou que os défices orçamentais não importam. As palavras de Cheney são muitas vezes interpretadas como significando que o nível de despesa pública não é importante, e isso não é certamente o que a "equivalência ricardiana" diz. A proposição ricardiana é acerca das consequências de pagar por um dado montante de despesa pública de diferentes modos. Especificamente, esta é a questão: é ou não relevante que o governo financie a sua despesa com impostos correntes ou com empréstimos, que significam futuros impostos?
[...]
«Como proposição de primeira ordem, é verdade que importa pouco se se paga a despesa do governo com impostos de hoje ou impostos futuros, qué é basicamente o que o défice é. O método do financiamento público constitui uma questão importante, mas é menos importante do que a questão da dimensão do governo e a que actividades se deve dedicar.
«Lançar impostos agora ou no futuro é um tópico de finanças públicas. Esta visão desloca a análise para longe da equivalência ricardiana, para a perspectiva sobre qual deve ser a taxa óptima, o que nos conduz ao princípio da "suavização de impostos" ["tax smoothing"]. A ideia é que o financiamento público óptimo determine a existência de taxas de imposto que sejam similares de um ano para o outro, pois movimentos erráticos destas taxas são altamente distorcivos. Deste ponto de vista, não é desejável ter uma taxa de imposto muito baixa hoje, financiada por um défice fiscal, seguida por taxas de imposto muito mais elevadas no futuro.»
Estudos sobre a associação entre religião e crescimento
«Estou muito interessado neste projecto de investigação. Situa-se na articulação entre a religião e a economia política, portanto existe aqui uma articulação em dois sentidos. Um é acerca da influência que a religião tem nas crenças, valores, traços de carácter como a honestidade, ética do trabalho, frugalidade, etç. Neste contexto, estamos [Barro e a mulher, Rachel McCleary] a estudar o impacto da religião no crescimento económico e na produtividade, e também nas instituições políticas, incluindo a democracia. Estes efeitos representam uma direcção de causalidade.
«O outro efeito, que constitui uma grande componente de literatura sobre a sociologia da religião, é sobre como o desenvolvimento económico e as políticas dos governos influenciam os níveis de religiosidade numa sociedade. Por exemplo, uma ideia é a de que as nações que se tornam ricas e melhor educadas tendem a ser menos religiosas.
[pergunta do jornalista: "É a"secularização da sociedade?"]
«Trata-se da hipótese da secularização da sociedade, sim. E embora essa hipótese tenha perdido apoios, penso que a evidência empírica a suporta. Uma ideia relacionada é do impacto que os governos provocam ao ter religiões oficiais de estado ou ao regular o mercado - quer subsidiando quer suprimindo a religião. Os países comunistas foram especialmente determinados em políticas anti-religião... quer dizer, se não considerarmos o comunismo como a sua própria religião...»
"Capital religioso"
«A ideia geral é análoga ao investimento em educação para acumular capital humano. Ou, em alternativa, podemos pensar em investir em redes e amizades para formar capital social. Analogamente, pode-se investir em espiritualidade e crenças para formar uma espécie de capital de religião. A Raquel e eu pensamos nesta influência como actuando através das crenças, não tanto através de redes, ou em ir à igreja e encontrar muitas pessoas. Isso seria mais como capital social. Estas crenças importam, se elas suportarem certos traços de carácter e valores, tais como a honestidade, ética do trabalho, frugalidade e hospitalidade para com terceiros. Estes traços depois influenciam a produtividade e o trabalho, que em última análise afectam o crescimento económico.
«A outra questão que posso mencionar é que sempre que dou um seminário sobre este tópico, me perguntam se sou pessoalmente religioso. A atitude parece ser a de que o facto de eu estudar este assunto deve vir de algum conjunto de crenças individuais ou compromisso com uma dada religião. É curioso porque as pessoas que estudam outros aspectos da ciência social não costumam receber perguntas equivalentes. Gary Becker estudou a economia do crime e (tanto quanto sei) ninguém lhe perguntou se ele era um criminoso.»
domingo, novembro 13, 2005
Peter Drucker (1909-2005)
Reproduzimos as palavras escritas por Nova Spivack, seu neto, no blogue Minding the Planet: «Para mim representa um estranho sentimento ajustar-me a este falecimento, apesar de, na sua idade de 95 anos, não ser totalmente inesperado. O meu avô era o pilar central da família e era uma grande inspiração pessoal e profissional para mim, bem como para incontáveis outras pessoas em todo o mundo que estudaram com ele, leram os seus livros e com ele trabalharam ao longo dos anos. Viveu uma vida lendária, fundou o campo da ciência da administração, ajudou a definir a moderna empresa, originou o conceito de "trabalhador do conhecimento" e escreveu mais de 30 livros. «Era também um professor, historiador, economista e teórico social. No seus tempos livres, por divertimento, para além de ler enciclopédias, biografias, histórias e todo o corpus literário da civilização ocidental (várias vezes), colecionava e estudava as pinturas Zen Japonesas e Chinesas, tendo-se mesmo tornado professor de arte japonesa. Adicionalmente, também devotava muito tempo e energia a trabalhar para instituições sem fins lucrativos, governos, organizações não governamentais e religiosas. «As minhas recordações dele são de longas caminhadas, em miúdo, pelas montanhas, discutindo história, filosofia, negócios e o futuro da civilização. Foi a pessoa que me ensinou como adivinhar o futuro a partir do passado, e a analisar a natureza de sistemas de todos os tipos. Embora eu não estivesse à altura da sua memória fotográfica e vasto conhecimento, pude aprender com ele padrões e abordagens que me serviram em tudo o que tenho feito. «Também recordarei o sentimento que emanava da sua casa onde, no meio do imaginário minimalista das pinturas Japonesas e Chinesas que coleccionava, e montes sobre montes de livros, havia sempre a sensação palpável de estarmos na presença de um sábio. À medida que eu cresci e ele se tornou mais famoso, recordo que sempre que o visitava havia um constante fluxo de lideres que o vinham visitar, entrevistar ou simplesmente pedir-lhe conselhos. Era verdadeiramente um guru.» Referências na blogosfera: Outras referências: |
sábado, novembro 12, 2005
Mais esconjuros
Esconjuros alfabéticos

Da direita para a esquerda: "waw - he - het - zayin - tet"
[clique]
| Foi descoberto um antiquíssimo abecedário [ou melhor: um "waw-he-het"] inscrito numa pedra, na Palestina, colocando-se a hipótese de se tratar de uma versão antiga de caracteres hebraicos, correspondente a uma primitiva fase de transição desde o alfabeto fenício. As duas linhas desenhadas na pedra aparentam constituir 22 letras do primitivo alfabeto hebraico. Os investigadores admitem a hipótese de que «Todos os sucessivos alfabetos do mundo antigo, incluindo o Grego, derivem deste "antepassado".»
Notícia: "New York Times" |
sexta-feira, novembro 11, 2005
Portugal segundo o FMI
| Relatório elaborado por técnicos do FMI, na sequência de visitas de Julho passado. O Relatório salienta a necessidade de tratar das vulnerabilidades fiscais e de acções estruturais para aumentar a produtividade e melhorar a competitividade - embora admitindo que o equacionamento da política fiscal de Sócrates é adequado. Mas também refere criticamente que as medidas de 2005 se apoiam essencialmente no acréscimo de receitas, "sem que a consolidação da despesa tenha ainda começado". O relatório encontra-se aqui e um outro com tópicos seleccionados aqui. |
Império do Meio
| A União Europeia no Verão e os EUA agora - acordaram com a China a limitação das exportações daquele país, durante alguns anos (The Economist). Não é extraordinário? As duas maiores zonas económicas do mundo a pedir ao exército bárbaro que adie a invasão por uns tempos. A China renasce como o "Império do Meio". |
quinta-feira, novembro 10, 2005
Mundo cruel
Lá para as bandas do Bicho Carpinteiro resolveram exibir subtileza com citações de Keynes. Devem talvez desconhecer aquela em que o Lord insinua que os políticos, que se julgam originais, andam sempre a papaguear as teorias de um qualquer economista defunto. Dada a penúria actual de ideólogos, e como o antigo governador do Banco Central de Cuba (Guevara) não deixou obra económica, agarram-se a qualquer tábua de salvação no encarpelado oceano do mainstream neo-liberal. Por exemplo: Keynes. Keynes, com a sua porta aberta aos défices orçamentais, permite continuar a sonhar com novos amanhãs em que a reforma por inteiro continue assegurada até x anos depois de morto. url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/11/mundo-cruel.html |


Ficheiro mp3 - 27:35 min. - 5.Jan.2005
Entrevista com Hans Engler, sobre Data Mining
Desde a pronúncia de 'data' até uso que as empresas fazem dos nossos cartões de crédito, passando pelas diversas técnicas de marqueting e previsão de doenças, uma interessante conversa sobre a "arte" de extrair informação das montanhas de dados que ameaçam submergir-nos
Crédito: Georgetown University Podcasts. url:
http://141.161.44.24/qtmedia/MP3/DataMining.mp3
A causa das coisas
Inclui um quadro comparativo dos modelos: Continental, Nórdico (I e II), Liberal e Mediterrânico, bem como dados relativos ao desemprego, distribuição de rendimentos, despesas sociais, produtividade, e ainda um capítulo sobre os factores de crescimento, com dados sobre exportações, investimento internacional, etç. |
INE
| Documentos do Instituto Nacional de Estatística: |
Bill Goffe
![]() ![]() Ficheiro mp3 - 13:48 min. - 13.Julho.2005 James Reese entrevista Bill Goffe - editor do Resources for Economists on the Internet e secretário-tesoureiro da Society for Computational Economics. Há vários anos que Bill Goffe disponibiliza listas de links para páginas de economistas e de instituições que disponibilizam informação económica. Uma extensa lista de links pode ser consultada aqui ou em Resources for Economists on the Internet Crédito: Radio Economics. url: http://faculty.uscupstate.edu/jreese/mp3/07132005.mp3 |
quarta-feira, novembro 09, 2005
Dar música
Não me tinha ocorrido, mas na aprendizagem da música expressa-se um dos (aparentes) paradoxos do ensino/aprendizagem: a beleza etérea da obra produzida, versus a "materialidade" do respectivo domínio. Ou seja: para se chegar a poder produzir uma obra estética de grande qualidade, é necessário torturar a matéria carnal com repetições fastidiosas de gestos minimalistas. Como se a beleza espiritual da música tivesse de lutar para conseguir "passar" através da materialidade do corpo humano. Portanto, uma oposição cartesiana "mente versus corpo" - questão muito actual. Esta "oposição" não será tão evidente noutras áreas do conhecimento, mas também ocorre. A teoria económica é certamente espiritual, e o seu estudo (leituras, memorização, aulas presenciais) bastante material. Tal como na música. Mas na música a espiritualidade exibe-se com mais fulgor, e a materialidade corporal (aquelas escalas repetidas sem cessar...) manifesta-se com maior evidência. Isto é assim talvez porque a repetição e mecanização dos movimentos dos dedos nas teclas do piano, por exemplo, nos parece bastante pouco "mental" e mais "muscular". Seja como for, os artigos incluídos na revista, neste como em outros domínios - tais como a da criação da identidade dos músicos - pareceram-me muito interessantes e extensíveis a outras áreas do ensino. Eis alguns textos que me chamaram a atenção: (todo o Volume 4, nº 1 inclui uma série de artigos sobre a questão dos hábitos e da racionalidade.) |
terça-feira, novembro 08, 2005
Comportamento e ideologias
| Num estimulante debate que se estabeleceu entre Tiago Mendes no Aforismos e afins e João Galamba no Metablog - e no qual eu participei marginalmente - abordou-se o problema dos limites do conhecimento. Tudo parece ter começado com o João Galamba a duvidar que a Neurociência - e a Neuroeconomia subsidiariamente - pudesse conduzir ao conhecimento dos processos mentais relacionados com a tomada de decisão. João Galamba exprimiu a sua convicção de que a metodologia das ciências naturais não pode servir para desvendar o comportamento humano. Depois pareceu-me que duvida até que essa metodologia sirva sequer para as ciências naturais. Não tenho podido participar muito neste debate, no qual discordo mais de João Galamba (embora não totalmente nem radicalmente) e alinho com as ideias expressas por Tiago Mendes, mas voltei a ser arranstado para a arena por uma posição de Timshel, expressa aqui. Escreve Timshel: «Uma série de blogues mais ou menos (neo?)liberais descobriram agora que a moral é apenas um produto da biologia. Segundo eles, a manifestação mais evidente de tal descoberta é a cooperação existente em algumas espécies animais.» Bem, onde a discussão foi parar! É verdade que "isto anda tudo ligado", mas é preciso colocar alguma ordem na mesa do debate. As hipóteses que a neurobiologia tem colocado sobre o funcionamento da mente e sobre os processos de cooperação ou de competição, não podem ser interpretados de forma mecânica como dando razão a ideologias mais à esquerda ou mais à direita, mais "solidárias" ou mais "neo-liberais". A busca da compreensão dos sistemas mentais de tomada de decisão podem assemelhar-se, por exemplo, à investigação sobre o funcionamento dos músculos. Podemos descobrir o processo (ou melhor, parte do processo) que leva o punho a fechar-se e o braço a deslocar-se para dar um murro no vizinho - mas daí não pode decorrer nenhuma análise moral sobre se o murro foi bem ou mal dado, merecido ou inoportuno, vingador ou prepotente. Dos processos mentais dos seres humanos decorrem comportamentos complexos e diversificados. Para nossa orientação, costumamos classificar esses comportamentos, no dia a dia, como sendo de cooperação ou de competição, de indiferença ou de envolvimento, etç. Mas até mesmo estas classificações são apenas simplificações, necessárias embora para nos orientarmos na vida colectiva. Mesmo quando, no domínio de uma experiência científica, se define uma categoria de comportamento como "egoísmo", isso tem apenas o sentido "não moral" de que o indivíduo procurou a sua satisfação pessoal. Por exemplo: meti-me no carro e fui ao cinema. A classificação deste comportamento como "egoísta" nada tem que ver com o "egoísmo" do senso-comum, eticamente censurável, como é o caso do indivíduo rouba o chupa-chupa a uma criancinha. Da mesma forma, a busca de compreensão de parcelas isoladas de um comportamento mais global, não implica necessariamente que se ignore o global. É possível, mas não é inelutável. Não se podem acusar cientistas como António Damásio de caírem nesse erro. Vejamos estas citações de uma entrevista concedida por Damásio ao filósofo Desidério Murcho [que também se arrepia com a Neurociência], disponível aqui. |
«Aquilo a que chamamos "mente" é uma colecção de processos biológicos. E, dado que estes processos são físicos, a mente é necessariamente um processo físico. Mas é preciso pensar que a física desses processos biológicos não é necessariamente a física corrente. Ter uma mente em funcionamento não é o mesmo do que ter um pedaço de mármore. Um dos grandes problemas que as pessoas têm é que quando pensam em matéria, quando pensam em qualquer coisa de físico, a imagem a que recorrem é a do cimento, da parede, da pedra, do pedaço de metal. E é evidente que o processo mental — é um processo, note-se, um constante desenrolar de acontecimentos, e não uma coisa — não pode ser concebido como esse tipo de matéria.»
| Mas Damásio vai mais longe e explica que a matéria também não é uma coisa assim tão "simples" como parece: |
«Uma das coisas mais curiosas que está a acontecer é uma modificação da forma como os físicos concebem a matéria. A matéria não é apenas cimento e pedra, é também energia e fluxos. Assim, o nível de fenómeno biológico em que se desenrola a mente é de um nível físico que ainda está por definir completamente. O que lhe posso dizer é que tenho a convicção que há uma matéria do pensar, da mente consciente, matéria essa que é biológica e altamente complexa, que está ligada ao funcionamento de redes nervosas — e que permite a própria perspectiva da primeira pessoa — e que nada tem a ver com a nossa concepção da matéria e dos objectos de pedra e cal e aço que temos à nossa volta. »
| As objecções levantadas por João Galamba - e que são fundamentadas - sobre a globalidade dos processos mentais (incluindo o contexto) e que, por isso, não seriam susceptíveis de análise laboratorial, seccionados nas tais "parcelas", como é caracteritico da metodologia das ciências naturais, obtêm resposta neste parágrafo: |
«Não há dúvida que a nossa mente e que a consciência são fenómenos privados e internos. Isto é perfeitamente compatível com uma ligação entre esses fenómenos de primeira pessoa e os fenómenos de terceira pessoa que decorrem da nossa observação de comportamentos. O que é preciso é manter uma visão dupla dos fenómenos — aquilo que é interior e aquilo que é exterior. Mas o facto é que eles estão ligados. Tudo aquilo que você tem do ponto de vista interior e que não é revelável ou visível para mim tem uma tradução, por vezes extremamente subtil, em fenómenos visíveis na perspectiva da terceira pessoa. Alguns desses fenómenos são comportamentais, outros podem revelar-se na análise de fenómenos que podemos fazer com um scanner ou um electroencefalograma. Tudo isso são manifestações de uma outra coisa; mas não são essa coisa. Como digo várias vezes no livro [O Sentimento de Si], olhar para o electroencefalograma de uma pessoa que está a pensar um determinado pensamento é diferente de olhar para esse pensamento. Não podemos olhar para o pensamento, mas podemos olhar para uma manifestação que está correlacionada com ele. O grande desafio da ciência actual é fazer esta triangulação entre certos índices de funcionamento biológico, de certos comportamentos visíveis exteriormente, e essa outra coisa que é a primeira pessoa, que é a nossa própria experiência.»
*** Resumindo: aceito a complexidade e a natureza contextual do comportamento humano, mas não aceito que não se possa ir sempre descobrindo algo de novo - e para nós muito valioso - acerca desse comportamento, da forma como é gerado, e até das "falhas" que sofre (nomeadamente porque o "contexto" actual é muito diferente daquele em que foi gerada a sua "forma" presente). |
![]() ![]() Where Have All The Flowers Gone? Marlene Dietrich
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[ notação ]
ISEG: instalações renovadas
«O trabalho de restauro e modernização, entregue ao arquitecto Gonçalo Byrne, teve início há três anos para criar melhores condições para a formação de pós-graduação, mestrados e doutoramentos do ISEG. Foi feita uma ampla remodelação do interior, que disponibiliza um conjunto de salas exclusivamente destinadas a trabalhos dos cursos posteriores à licenciatura. Até chegar “às mãos” do arquitecto Gonçalo Byrne, o convento sofreu várias transformações ao longo do tempo, sendo já antiga a função académica. Em 1864, foi adquirido pelos jesuítas, que aí mantiveram o Colégio de Jesus até à instauração da República e fizeram várias ampliações, nomeadamente o acréscimo de um piso em toda a ala Nordeste, o alargamento da capela com uma ala exterior a Noroeste, sobre o actual jardim, e o acrescento no mesmo sentido do corpo destacado do refeitório. Com a chegada da República, o convento serviu para instalar o Museu da Revolução Republicana e, posteriormente, o Instituto Superior de Comércio - o actual ISEG. «As obras de restauro foram financiadas através do plano de investimentos públicos (PIDDAC) e de receitas próprias, custando no total cerca de oito milhões de euros. O convento é hoje propriedade do ISEG, sendo o edifício mais antigo do complexo arquitectónico e núcleo histórico do instituto, com direito a referência em várias publicações nacionais e internacionais. O edifício destina-se agora prioritariamente à formação pós-graduada, de executivos e empresários portugueses, continuando a albergar os órgãos de gestão e outros serviços administrativos.»Post relacionado: Económicas e Bagaceiras |
![]() | 1. Edifício do Quelhas (Conv. Inglesinhas) 2. Edifício do Quelhas (Ex-RDP) - serviços administrativos e auditórios 3. Edifício Bento Jesus Caraça - gabinetes de docentes, centros de investigação, informática 4. Biblioteca F. Pereira de Moura 5. Edifício Francesinhas I - salas de aulas 6. Edifício Francesinhas II - salas de aulas, informática, cantina, AEISEG e AIESEC 7. Futuro Pavilhão de Desportos 8. Assembleia da República |
PNG: Produção Nacional de Grilos
segunda-feira, novembro 07, 2005
Friedman segundo Galbraith
John K. Galbraith - «O Professor Friedman e os seus discípulos exerceram uma certa influência sobre as administrações Nixon e Ford. Ele era o mentor de William Simon, o ministro das Finanças do presidente Ford, e de Alan Greenspan, o chefe dos seus conselheiros económicos. Juntamente com Burus, o governador da Reserva Federal, eles inspiraram largamente o arsenal de medidas monetárias para jugular, sem contudo travar, a grande inflação de 1974-1975. Resultou daqui uma séria recessão, provocada pelo abrandamento brutal da produção, e o agravamento quase tão brutal do desemprego. (...) Nem Simon nem Greenspan, nem sequer o Professor Friedman, se viram em apuros. As verdadeiras vítimas foram aquelas que perderam o seu emprego. E entre eles conto Gerald Ford, que foi o primeiro presidente, desde Herbert Hoover, em 1932, a não ser reeleito.»
Nicole Salinger - «O Professor Friedman aconselhou durante algum tempo o Governo israelita...»
John K. Galbraith - «A tradição judaica afirma de facto que os filhos de Israel estão destinados a sofrer.»[ "Tudo ou quase sobre economia", J.K.Galbraith entrevistado por Nicole Salinger, ed. Europa América, 1983, pag.117 ]
América
West Side Story, o espectáculo musical com música de Leonard Bernstein e texto de Stephen Sondheim, é uma versão do "Romeu e Julieta" localizada em Nova Iorque, tendo como pano de fundo as rivalidades entre dois bandos de jovens urbanos, os Jets (que integram a segunda geração de imigrantes de origem europeia) e os Sharks (imigrantes mais recentes e de origem porto-riquenha). O musical estreou em 1957 e em 1961 foi realizado o filme, com a participação de Natalie Wood.Na página oficial existem duas versões para a letra da conhecida canção "América", uma referida como sendo da versão para palco e outra do filme. Não sei qual a justificação das diferenças nem a respectiva cronologia, mas surpreende-me o tom mais violento e de maior denúncia da discriminação racial que existe na versão do filme. A canção encena uma discussão entre porto-riquenhos sobre as vantagens ou desvantagens de emigrar para os EUA. Para uns trata-se de um sonho, para outros é um pesadelo. Na versão do filme o "retrato" da América é bastante cruel: "a vida é brilhante na América... se fores branco", "olham para ti e cobram a dobrar", "liberdade para... servir à mesa e engraxar sapatos", "portas que se fecham na tua cara", "crime organizado"... |
Anita - Buying on credit is so nice.
Bernardo - One look at us and they charge twice.
Rosália - I’ll have my own washing machine.
Juan - What will you have, though, to keep clean?
(refrão)
Skyscrapers bloom in America.
Cadillacs zoom in America.
Industry boom in America.
Twelve in a room in America.
Anita - Lots of new housing with more space.
Bernardo - Lots of doors slamming in our face.
Anita - I’ll get a terrace apartment.
Bernardo - Better get rid of your accent.
(refrão)
Life can be bright in America.
If you can fight in America.
Life is all right in America.
If you’re all white in America.
Anita e Consuelo - Here you are free and you have pride.
Bernardo - Long as you stay on your own side.
Anita - Free to be anything you choose.
Rapazes - Free to wait tables and shine shoes.
(refrão)
Everywhere grime in America,
Organized crime in America,
Terrible time in America.
You forget I’m in America.
| Comparativamente, a outra versão é bastante mais "benigna" para os EUA: deixa de haver crime e discriminação na América, os problemas estão apenas em Porto Rico: população endividada, doenças tropicais, casas superlotadas e que não funcionam. Uma hipótese é que esta tenha sido a versão original em palco, e que para o filme tenha sido escrita a versão mais crítica dos EUA. Mas também pode ter sido o contrário: o texto original (para palco e cinema) era o crítico e ter-se-ia posteriormente transformado em "politicamente correcto". Creio que as mais recentes gravações apresentam a versão "soft". Alguém arrisca um palpite sobre a origem destas duas versões? West Side Story foi alvo de uma controvérsia em 1999, quando o Comité da "Amherst-Pelham Regional High School" (Massachusetts) proibiu a sua representação por "estereotipar os porto-riquenhos". Esta proibição é curiosa, dado que na peça é a Polícia e o bando rival (Jets) que são apresentados como violentos e racistas, enquanto que os porto-riquenhos fazem o papel de vítimas. No entanto, o facto do filme ter como heroína uma "gringa" (Natalie Wood) que fala um ridículo americano "espanholizado" enquanto que a actriz Rita Moreno, uma genuína porto-riquenha, é relegada para um papel secundário, e de os Jets usarem expressões depreciativas inspiradas no sotaque mexicano, parece ter contribuido para desvalorizar outros aspectos da obra eventualmente mais simpáticos para os porto-riquenhos. Em 2004 um grupo de alunos de uma escola vizinha realizou outra produção, designada "West Side Stories", reflectindo sobre a referida controvérsia (ver artigo).A "emigração" de porto-riquenhos para Nova Iorque, por outro lado, parece ter estado relacionada com a "Operação Bootstrap", uma iniciativa do governo americano, no pós-guerra, para industrializar Porto Rico, que envolveu a "deslocalização" para o continente de muitos dos habitantes daquela colónia. Disponível online:
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Cansados da globalização
O Economist diz que o mundo está cansado da globalização, apesar da liberalização do comércio e outras formas de abertura serem mais necessárias do que nunca. E os sintomas não surgem apenas dos movimentos alternativos: no próprio Senado norte-americano existem propostas para tentar limitar o acesso da China aos mercados. A mais antiga revista do mundo está pessimista quanto à próxima cimeira da OMC, em Hong Kong [1]. |
«Frederic Bastiat, que era a mais estranha das criaturas, e um economista defensor do livre mercado, escreveu para este jornal em 1846 [2] exprimindo uma esperança nobre e romântica: "Oxalá que em breve todas as nações derrubem as barreiras que as separam". Estas palavras ecoaram 125 anos mais tarde na voz de John Lenon, que não era economista mas antes um capitalista global de sucesso: "imaginem que não existem países". Tal como ele salientou na canção, não é difícil de conseguir. Mas apesar da espectacular elevação dos padrões de vida que ocorreu à medida que as barreiras entre nações iam caindo, e apesar da fuga à pobreza de centenas de milhões de pessoas naquelas zonas que se juntaram à economia global, ainda é difícil convencer o público e os políticos do mérito da abertura. E agora, uma vez mais, está-se a formar uma nova fila para denunciar a abertura - isto é, a globalização. E está a colocar em risco o próximo grande avanço na liberalização comercial e a próxima grande redução da pobreza nos países em desenvolvimento.»
| [1] - A 6ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio terá lugar em Honk Kong nos próximos dias 13 a 18 de Dezembro. [2] - A revista Economist foi fundada em 1843, advogando desde o seu início a liberdade de comércio e combatendo as "corn laws" - impostos sobre a importação de cereais para a Inglaterra, alegadamente para proteger a produção nacional. |
Novidades
| Do Instituto Nacional de Estatística: Do Banco de Portugal: |
Revistas em linha
| «O que são revistas em linha ? De onde derivaram e o que é que aprendemos sobre elas nos últimos 10 anos ?» ("What are Online Magazines? How have they derived from and what gave we learnt about them in the last ten years?") Um estudo de Sanjeev Salhotra - estudante de mestrado sobre "Electronic Media" na Oxford Brookes University. Sanjeev mantém o blogue Shai. |
domingo, novembro 06, 2005
The Days of Pearly Spencer
![]() O irlandês David McWilliams compôs e gravou em 1967 uma das mais emblemáticas canções pop/rock dos anos 60: "The Days of Pearly Spencer". Inspirada num sem-abrigo que David conheceu em Ballymena (onde viveu desde os 3 anos) e de quem se tornou amigo, a letra traduzia uma profunda empatia e sentido humanista perante os que vivem à margem da sociedade. A melodia assentava na repetição duma linha melódica elementar, mas apresentava várias originalidades: o tom coloquial do cantor, a inesperada batida da bateria antes do refrão, a insólita distorção da voz durante o refrão, ao mesmo tempo que um agrupamento de cordas acentua o tom dramático com um riff obcessivo. A temática da solidão humana sem esperança e o recurso a uma orquestração "clássica" apresenta semelhanças com a canção "Eleanor Rigby", que os Beatles tinham lançado no ano anterior. Inicialmente boicotada pela BBC, a canção foi sistematicamente passada na "clandestina" Radio Caroline, a estação pirata localizada fora das águas territoriais inglesas, acabando por se tornar popular em vários países da Europa continental. Embora não tenha atingido os tops de vendas na voz de David McWilliams, a canção foi gravada por muitos cantores e veio a conhecer um grande sucesso em 1992, numa versão de Marc Almond.
Video-clips de "The Days of Pearly Spencer":
O blogue Rato Records disponibiliza para download uma compilação - "Nostalgia 13" - onde se inclui um outro conhecido tema de David McWilliams, "Three o’clock flamingo street", com uma estrutura musical muito semelhante a "The Days of Pearly Spencer". |
sábado, novembro 05, 2005
Contextualização
| João, no Metablog, recusa a ideia de que existam "forças" ou "genes" que constroem o comportamento humano, como lhe parece estar a ser sugerido pela Neuroeconomia, querendo "reduzir o fenómeno da agência humana a algo que pode ser explicado através de conceitos causais, como se este se tratasse de um fenómeno natural". Mais especificamente, acha que "o modelo explicativo das ciências naturais não se aplica às ciências humanas". Tratou-se uma reacção a um post de Tiago Mendes no Mão Invisível. Tiago Mendes respondeu no aforismos e afins, num post que gerou uma sequência de comentários que vale a pena ler. Eu compreendo as reticências de João perante a deriva mecanicista e reducionista das ciências ditas "naturais", que também fez o seu caminho nas "ciências sociais". Mas o uso de analogias mecanicistas tem sido um instrumento poderoso na formação de conhecimentos, seja para explicar seja para "entender". É certo que também conduz a atitudes arrogantes, de convicção que "já se descobriu tudo", ou quase. Foi assim que se julgou estar perto de dominar a cura das doenças humanas, ou de poder construir cidades perfeitas, ou de acabar para sempre com a inflação e o desemprego, para citar só alguns exemplos de coisas típicas do século passado. Acontece que a divisão em áreas de conhecimento, mesmo na banda larga das ciências "naturais" e "sociais", é uma simples conveniência que decorre apenas das limitações do observador humano. Não há no mundo leis "naturais" dum lado e "sociais" do outro: trata-se de uma mera convenção humana. Diz-se, por exemplo, que nas ciências sociais as leis são probabilísticas, enquanto que nas ciências naturais são exactas. Mas as leis "exactas" agem sobre corpos, constituídos por partículas que, elas mesmas, possuem comportamentos probabilísticos. A pedra largada do alto da Torre de Pisa pode cair sempre na direcção do centro da terra e a uma dada velocidade, mas não acontece assim com muitas das partículas de que é constituída; neste sentido, a lei da gravidade também é probabilística. Diz o João que os fenómenos humanos são dependentes do contexto. Sim, mas também todos os outros. O "isolamento" que fazemos de componentes desses fenómenos é apenas um estratagema nosso para lidar com a complexidade. É um truque, mas um truque útil, que nos tem permitido definir relações e prever ocorrências futuras, o que muito nos tem facilitado a vida (e complicado também). Todos os fenómenos são dependentes do contexto, a única diferença para o comportamento humano é existirem questões éticas que tornam mais difícil "dividi-lo em partes" - o que, em alguns casos, significaria dividir o próprio corpo em partes. Quanto à Neuroeconomia, percebo que a figuração de neurocientistas a olharem para imagens coloridas do interior do cérebro de cobaias humanas enquanto estas desempenham tarefas patetas (olhar para fotografias, jogar cartas, etç.) convoque uma visão ingénua e reducionista, e dê a ideia de que se está, uma vez mais, a tratar o corpo humano como uma máquina. Mas não é caso para tanto. Em primeiro lugar, temos que afastar o receio de admitir que operações mecânicas simples (ou aparentemente simples) participem em processos mentais complexos, desqualificando-os. Imaginemos que um homem, para salvar o filho que ficou esmagado debaixo de um objecto de peso brutal, exerce uma força muscular que a biologia pensaria ser impossível. Trata-se de um acto de altruísmo, para cuja explicação poderemos recorrer à psicologia ou à mesmo à filosofia. Mas será impossível que um biólogo estude o assunto do ponto de vista do "simples" movimento muscular? Ficará o altruísmo diminuído por causa disso? Segundo o João, não poderíamos estudar o músculo, porque o comportamento humano é dependente do contexto. Mas essa restrição não faz sentido. Pode-se estudar a parte sem ignorar o todo (embora haja sempre o perigo dessa ignorância ocorrer). A maior parte das teorias económicas assume que do grande caos das intenções individuais nasce um equilíbrio, seja através da maximização de funções de utilidade, seja através de instituições reguladoras (contratos, empresas, agência). O problema é que o grande sistema auto-regulador da economia, tal como é definido por essas teorias, está cheio de falhas: indivíduos que não maximizam a utilidade, de bolhas que explodem, de agentes que não fazem o que supostamente deviam, etç. De acordo com o velho princípio de que "se uma teoria não bate certo com a realidade, muda-se a realidade", as explicações para as inconsistências dessas teorias costumam ser: "há Estado a mais", "há regulação a mais", "há política a mais" - como se tais coisas não fossem, elas próprias, inerentes à actividade humana. Ora a Neurociência - e a Neuroeconomia subsidiariamente - tem progredido muito na explicação, quer do comportamento do ser humano, quer das inconsistências das teorias existentes. Ou seja: está-se, de certa forma, a negar a possibilidade duma teoria geral do comportamento. Está-se, precisamente, a lidar com o contexto. (Isto é talvez uma grande desilusão para o desejo de "descoberta" de teorias magníficas, redutíveis a fórmulas matemáticas simples e independentes do contexto: o homem ao mesmo nível de Deus; mas parece que não será assim). Uma das grandes ilusões da humanidade é a de que o comportamento humano é determinado pelo raciocínio. Pura asneira: o coração e o fígado (e tanta coisa mais) passam bem sem o pensamento racional. Aí, entra o teórico diz: bem, vamos designar isso como sistema nervoso simpático, e agora, arrumado isso, tudo o resto é racional. Depois descobre-se que certos sinais de aviso (a visão de um objecto a cair, p.ex.) desencadeiam actos defensivos mesmo antes do cérebro racional ter tido tempo de pensar no assunto. Ou que decisões altruístas - como contribuir para a caridade - são influenciadas pela presença de um desenho de uma cara que nos olha, apesar do cérebro racional saber que é apenas um desenho. O modelo racional treme. Assim, tem-se vindo a descobrir-se que acontece com o sistema de tomada de decisão o mesmo que com outros sistemas e órgãos humanos: que a sua forma e funcionamento incorporam o processo evolutivo, fazendo coexistir sistemas mais simples (que são idênticos aos de organismos primitivos e menos complexos), com sistemas mais complexos (que são exclusivos de organismos mais complexos). Para além disso, a "atribuição de tarefas" a estes sistemas obedece a um princípio de eficiência: quando a tarefa pode ser desempenhada por um processo simples (mais rápido, menos consumidor de recursos, ainda que menos eficaz) não é realizada por recurso a processos complexos (mais lentos, mais consumistas, ainda que mais eficazes). A descoberta destes processos e mecanismos não diminui em nada a dignidade do comportamento humano, nem o torna menos livre em termos da capacidade de decisão, individual ou colectiva. Qualquer teoria sobre o comportamento humano nunca poderá passar de uma aproximação, uma visão grosseira da complexidade do fenómeno. O ser humano nunca poderá desenvolver uma teoria para se explicar cabalmente a si próprio. Não pode estar acima da sua própria complexidade. Um motor de explosão a dois tempos, ainda que simples no funcionamento e número de peças, nunca se poderá "explicar" a si próprio. O corpo humano é mais complexo e por isso vai mais longe do que o motor na explicação do seu próprio comportamento, mas está tão próximo de "dominar" a sua complexidade como o motor o está da sua simplicidade. url deste post: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/11/contextualizao.html |
sexta-feira, novembro 04, 2005
Egrégia disciplina
| Vasco Pulido Valente, na sua habitual coluna da última página do jornal Público, desenha com palavras retratos caricaturais do país, os quais, à semelhança das boas caricaturas pictóricas, exageram nos traços mas acertam na âmago. É uma das colunas que gosto de ler diariamente. No exercício de hoje VPV atira-se aos candidatos presidenciais Soares e Cavaco, esmifrando um e outro com pinceladas rápidas. A "desconstrução" de Soares é um pouco mais elaborada, e percebe-se porquê: o retratado é do universo das humanidades, de onde VPV também descende. O desenho de Cavaco é mais difícil e a sua caricatura menos conseguida, pois VPV não penetra sequer - como a maioria dos "cultos" - nos meandros da Economia. Resta-lhe portanto o traço grosso: os economistas não lêm livros e são ignorantes. Tem graça e não ofende (a mim, não), e aqui fica: |
«Cavaco, esse, veio de um meio relativamente pobre e, presumo, apolítico; e ficou confinado, por necessidade ou falta de estímulo, à sua profissão. Além disso, achava (e não faço ideia se ainda acha) o pensamento económico mais do que suficiente para explicar o mundo, no que aliás não se distingue da generalidade dos seus colegas, uma classe particularmente pouco lida e intelectualmente limitada. Só depois, tarde na vida e já primeiro-ministro, descobriu que existia uma realidade irredutível à sua egrégia disciplina. E mesmo assim volta sempre à origem, como, por exemplo, na famosa metáfora da boa e má moeda, que ajudou a liquidar Santana.»
| A propósito: é "metáfora" ou "analogia"? Eu creio que é analogia - mas isso é talvez ignorância minha, que sou economista. Seja como for, num ou noutro caso, não passa de uma regra-de-três-simples. |
quinta-feira, novembro 03, 2005
A rapariga que aprendeu demais
![]() ![]() Ficheiro mp3 - 30:40 min. Russ Roberts entrevista Don Cox sobre o tema: "devem os homens de negócios egoístas ser abatidos?" Realização técnica da Radio Economics de James Reese. A entrevista começa com uma referência à peça de teatro "Born Yesterday", escrita em 1946 por Garson Kanin, e que teve duas versões cinematográficas: uma em 1950, com Judy Holliday, e outra em 1993 ("Nascida Ontem"), com Melanie Griffith no papel principal. Dois negóciantes sem escrúpulos vão a Washington tentar corromper um congressista para a realização de um negócio. Um deles leva consigo a vistosa namorada. Contudo, para que a simplória moça não o deixe ficar mal entre a socialite, decide facultar-lhe algumas aulas de cultura geral - tarefa que é atribuída a um jornalista. O problema é que a formação a leva a compreender a natureza suja dos negócios do namorado e a questionar toda a operação e o seu relacionamento. A peça, que se encontra actualmente em cena no Arena Stage, poderia servir para uma conversa sobre a importância - e as consequências, nem todas previsíveis - de transmitir conhecimentos às pessoas. Mas a conversa dos dois economistas neste podcast centra-se numa outra temática: será que do egoísmo dos indivíduos (nomeadamente nos negócios) nascem coisas más? Ou, por outras palavras, "devem os homem de negócios egoístas ser abatidos?" - designação que Russ Roberts deu à entrevista. É um tema sugestivo. A hipótese do egoísmo suporta grande parte da teoria económica desde que Adam Smith escreveu a metáfora da "mão invisível": "não é a bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que garante o nosso jantar, mas sim a consideração que eles têm pelo seu próprio interesse". E não são apenas os economistas que colocam esta hipótese: a neurobiologia anda a testar presentemente esta a mesma hipótese. Trata-se, portanto, de um tema interessante e actual, mas a entrevista é algo prejudicada pelo facto das "perguntas" do entrevistador serem mais longas do que as respostas do pobre entrevistado.
url do podcast: http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051031-351.mp3 |
O futuro móvel
![]() Podcast da entrevista de Brian C. Russell ao jornalista Dan Smith acerca do seminário "Media opportunities and strategies for the mobile, broadband generation". Dan fala sobre o impacto dos novos media na educação. url do podcast [5:51 min]: http://www.audioactivism.org/audio/AA_MMCon_Smith_GamingEDU.mp3 Um resumo de algumas das apresentações neste seminário foi feito por Michel Dare: "Mobile Media Memory Dump". Tratando-se de um outsider, Michael Dare apresenta uma visão ingénua e divertida sobre as "promessas" do explosivo mercado dos conteúdos para telemóveis. Interessante o dispositivo desenvolvido por Phillippos Mordohai: uma câmara de filmar com duas lentes - uma acima da outra - que nos tira uma fotografia olhando para a câmara e pode, a partir daí, construir uma imagem 3D a toda a nossa volta, incluindo a silhueta lateral com grande definição. Algo que pode ter aplicação em termos de segurança. Um outro software constrói caricaturas a partir da imagem de uma pessoa, não só de grande qualidade, mas possuindo, à escolha, o estilo de qualquer artista cujo trabalho tenha sido "scaneado" para o computador. «Imagine que vai pela rua e o telemóvel toca: é da loja Starbucks, ali ao lado, que detectou a sua passagem e envia-lhe a oferta de um desconto se não se importar de entrar na loja.» (parece mesmo o equivalente virtual daqueles restaurantes de zonas turísticas - ou das peixeiras do Norte - que agarram os clientes pelo colarinho.) «Chateado enquanto espera no dentista? Para quê ler uma velha edição da "Caras" quando tem 30 mil jogos à disposição do seu telemóvel? Preso no trânsito? Não se irrite: blogue com o telemóvel. Descansa durante um passeio ao campo? Para quê enjoar a paisagem, quando pode entreter-se a ver um "mobisódio"?» ("mobisódios" - episódios de um minuto de programas populares da televisão, disponíveis via telemóvel) Com tantas possibilidades, no entanto, parece que os milhões que actualmente se fazem neste mercado resultam maioritariamente da venda de toques musicais e de imagens de fundo. |
Jogos educacionais
Também sobre jogos educacionais, a New Media Centers vai realizar uma conferência sobre Educational Gaming, nos dias 7 e 8 de Dezembro, que decorrerá inteiramente on-line. O acesso, infelizmente, não é livre. As sessões terão 30 minutos e está assegurada a interactividade: conversas "hallway" [?], chats, possibilidade de colocar perguntas aos conferencistas, etç. Veja a: |
Tudo
| Tudo o que você sempre quis saber sobre a economia portuguesa mas teve medo de perguntar: como sustentar o crescimento, como assegurar a sustentabilidade fiscal, como "tratar" do défice, etç. etç. etç., tudo isso foi respondido pela OCDE, mas... para a economia dos EUA: "Economic Survey of the United States 2005": Quanto a Portugal, contentemo-nos com as concisas notas do Economic Outlook e do Economic Policy Reforms. |
Investigação nacional
| O Banco de Portugal colocou em linha o paper "Business Cycle at a Sectoral Level: the Portuguese Case", de Hugo J. Reis, onde se faz uma análise secorial do ciclo económico portugês, com ênfase no fenómeno do co-movimento, para os anos 1953-2003, em termos de Valor Acrescentado Bruto e Emprego. «Nos últimos 50 anos observaram-se mudanças estruturais substanciais na economia portuguesa. Estas mudanças significam que alguns sectores, nomeadamente os dos Serviços, estão a crescer em termos relativos. Apesar das diferenças existentes em aspectos tais como a tendência e a volatilidade, existe evidência da presença de co-movimento entre os sectores de actividade portugueses. Analisamos as causas desse fenómeno, tais como as ligações input-output, à luz da economia portuguesa.» Outros papers divulgados pelo BP são: |
Bons negócios
| No passado mês de Setembro verificou-se uma subida de 3,9 % no volume de negócios da indústria, uma média do crescimento no mercado interno (3,6%) e no externo (4,4%). A procura interna cresceu nos sectores do Investimento e na Energia, e diminuíu nos Bens de Consumo e Intermédios. Os mercados externos dinamizaram-se sobretudo nos Bens Intermédios. Não são más notícias mas, tratando-se de movimentos sujeitos a forte sazonalidade, há que esperar para ver o que realmente significam. Quanto à Energia, não sabemos se rir se chorar: é bom para uns mas é péssimo para os outros. Fonte: Índice de Volume de Negócios na Indústria, publicado pelo INE. |
Gary Becker acerca dos motins em França:

Peter Drucker foi elogiado em todo o mundo como um pensador seminal, escritor e professor acerca das modernas organizações. Em 1997 a capa da revista "Forbes" intitulava-o como sendo "Still the Youngest Mind" (ainda a mente mais jovem) e a BusinessWeek considerou-o "o mais importante pensador da gestão do nosso tempo" e é geralmente identificado como o "pai da moderna gestão".















West Side Story foi alvo de uma controvérsia em 1999, quando o Comité da "Amherst-Pelham Regional High School" (Massachusetts) proibiu a sua representação por "estereotipar os porto-riquenhos". Esta proibição é curiosa, dado que na peça é a Polícia e o bando rival (Jets) que são apresentados como violentos e racistas, enquanto que os porto-riquenhos fazem o papel de vítimas. No entanto, o facto do filme ter como heroína uma "gringa" (Natalie Wood) que fala um ridículo americano "espanholizado" enquanto que a actriz 
O Economist diz que o mundo está 




