terça-feira, novembro 08, 2005

Comportamento e ideologias

Num estimulante debate que se estabeleceu entre Tiago Mendes no Aforismos e afins e João Galamba no Metablog - e no qual eu participei marginalmente - abordou-se o problema dos limites do conhecimento. Tudo parece ter começado com o João Galamba a duvidar que a Neurociência - e a Neuroeconomia subsidiariamente - pudesse conduzir ao conhecimento dos processos mentais relacionados com a tomada de decisão. João Galamba exprimiu a sua convicção de que a metodologia das ciências naturais não pode servir para desvendar o comportamento humano. Depois pareceu-me que duvida até que essa metodologia sirva sequer para as ciências naturais.

Não tenho podido participar muito neste debate, no qual discordo mais de João Galamba (embora não totalmente nem radicalmente) e alinho com as ideias expressas por Tiago Mendes, mas voltei a ser arranstado para a arena por uma posição de Timshel, expressa aqui. Escreve Timshel: «Uma série de blogues mais ou menos (neo?)liberais descobriram agora que a moral é apenas um produto da biologia. Segundo eles, a manifestação mais evidente de tal descoberta é a cooperação existente em algumas espécies animais.»

Bem, onde a discussão foi parar! É verdade que "isto anda tudo ligado", mas é preciso colocar alguma ordem na mesa do debate.

As hipóteses que a neurobiologia tem colocado sobre o funcionamento da mente e sobre os processos de cooperação ou de competição, não podem ser interpretados de forma mecânica como dando razão a ideologias mais à esquerda ou mais à direita, mais "solidárias" ou mais "neo-liberais". A busca da compreensão dos sistemas mentais de tomada de decisão podem assemelhar-se, por exemplo, à investigação sobre o funcionamento dos músculos. Podemos descobrir o processo (ou melhor, parte do processo) que leva o punho a fechar-se e o braço a deslocar-se para dar um murro no vizinho - mas daí não pode decorrer nenhuma análise moral sobre se o murro foi bem ou mal dado, merecido ou inoportuno, vingador ou prepotente.

Dos processos mentais dos seres humanos decorrem comportamentos complexos e diversificados. Para nossa orientação, costumamos classificar esses comportamentos, no dia a dia, como sendo de cooperação ou de competição, de indiferença ou de envolvimento, etç. Mas até mesmo estas classificações são apenas simplificações, necessárias embora para nos orientarmos na vida colectiva.

Mesmo quando, no domínio de uma experiência científica, se define uma categoria de comportamento como "egoísmo", isso tem apenas o sentido "não moral" de que o indivíduo procurou a sua satisfação pessoal. Por exemplo: meti-me no carro e fui ao cinema. A classificação deste comportamento como "egoísta" nada tem que ver com o "egoísmo" do senso-comum, eticamente censurável, como é o caso do indivíduo rouba o chupa-chupa a uma criancinha.

Da mesma forma, a busca de compreensão de parcelas isoladas de um comportamento mais global, não implica necessariamente que se ignore o global. É possível, mas não é inelutável. Não se podem acusar cientistas como António Damásio de caírem nesse erro. Vejamos estas citações de uma entrevista concedida por Damásio ao filósofo Desidério Murcho [que também se arrepia com a Neurociência], disponível aqui.
«Aquilo a que chamamos "mente" é uma colecção de processos biológicos. E, dado que estes processos são físicos, a mente é necessariamente um processo físico. Mas é preciso pensar que a física desses processos biológicos não é necessariamente a física corrente. Ter uma mente em funcionamento não é o mesmo do que ter um pedaço de mármore. Um dos grandes problemas que as pessoas têm é que quando pensam em matéria, quando pensam em qualquer coisa de físico, a imagem a que recorrem é a do cimento, da parede, da pedra, do pedaço de metal. E é evidente que o processo mental — é um processo, note-se, um constante desenrolar de acontecimentos, e não uma coisa — não pode ser concebido como esse tipo de matéria.»
Mas Damásio vai mais longe e explica que a matéria também não é uma coisa assim tão "simples" como parece:
«Uma das coisas mais curiosas que está a acontecer é uma modificação da forma como os físicos concebem a matéria. A matéria não é apenas cimento e pedra, é também energia e fluxos. Assim, o nível de fenómeno biológico em que se desenrola a mente é de um nível físico que ainda está por definir completamente. O que lhe posso dizer é que tenho a convicção que há uma matéria do pensar, da mente consciente, matéria essa que é biológica e altamente complexa, que está ligada ao funcionamento de redes nervosas — e que permite a própria perspectiva da primeira pessoa — e que nada tem a ver com a nossa concepção da matéria e dos objectos de pedra e cal e aço que temos à nossa volta. »
As objecções levantadas por João Galamba - e que são fundamentadas - sobre a globalidade dos processos mentais (incluindo o contexto) e que, por isso, não seriam susceptíveis de análise laboratorial, seccionados nas tais "parcelas", como é caracteritico da metodologia das ciências naturais, obtêm resposta neste parágrafo:
«Não há dúvida que a nossa mente e que a consciência são fenómenos privados e internos. Isto é perfeitamente compatível com uma ligação entre esses fenómenos de primeira pessoa e os fenómenos de terceira pessoa que decorrem da nossa observação de comportamentos. O que é preciso é manter uma visão dupla dos fenómenos — aquilo que é interior e aquilo que é exterior. Mas o facto é que eles estão ligados. Tudo aquilo que você tem do ponto de vista interior e que não é revelável ou visível para mim tem uma tradução, por vezes extremamente subtil, em fenómenos visíveis na perspectiva da terceira pessoa. Alguns desses fenómenos são comportamentais, outros podem revelar-se na análise de fenómenos que podemos fazer com um scanner ou um electroencefalograma. Tudo isso são manifestações de uma outra coisa; mas não são essa coisa. Como digo várias vezes no livro [O Sentimento de Si], olhar para o electroencefalograma de uma pessoa que está a pensar um determinado pensamento é diferente de olhar para esse pensamento. Não podemos olhar para o pensamento, mas podemos olhar para uma manifestação que está correlacionada com ele. O grande desafio da ciência actual é fazer esta triangulação entre certos índices de funcionamento biológico, de certos comportamentos visíveis exteriormente, e essa outra coisa que é a primeira pessoa, que é a nossa própria experiência.»

***

Resumindo: aceito a complexidade e a natureza contextual do comportamento humano, mas não aceito que não se possa ir sempre descobrindo algo de novo - e para nós muito valioso - acerca desse comportamento, da forma como é gerado, e até das "falhas" que sofre (nomeadamente porque o "contexto" actual é muito diferente daquele em que foi gerada a sua "forma" presente).

Também aceito que nunca atingiremos o conhecimento global do comportamento humano - mas também isso ocorre com o conhecimento dos processos que designamos como "materiais". Mas tal não significa que não possamos "descobrir" muita coisa - como já fizemos, e como vamos, necessariamente, continuar a fazer.

Até porque - já o escrevi noutro local - não pode ser o João Galamba, nem nenhum outro ser humano de hoje ou de sempre, quem pode "conhecer" o limite do conhecimento humano. Para isso seria preciso que ele "soubesse" onde está essa fronteira. E como poderia ele saber?

Uma nota final sobre as ideologias: a convicção dos que pensam que podemos organizar e planificar em detalhe a vida em sociedade (a ilusão da "esquerda solidária") ou dos que julgam que podemos e devemos deixar os mecanismos automáticos - como o mercado - agir à vontade (a ilusão da "direita eficiente") partilham em comum a mesma arrogância, a convicção de que "sabem como é que é", de que são "Deus": ora um "Deus paternalista" que está sempre a gritar para dentro do campo, ora um "Deus confiante" que explicou a táctica e se senta no banco à espera dos golos e da vitória. Quantos deles não voltam depois cabisbaixos para as canines? Assim vão as ideologias.

url:
http://puraeconomia.blogspot.com/2005/11/comportamento-e-ideologias.html



Where Have All The Flowers Gone?

Marlene Dietrich

Where have all the flowers gone, long time passing?
Where have all the flowers gone, long time ago?
Where have all the flowers gone?
Young girls picked them every one.
When will they ever learn?
When will they ever learn?
http://www.kgv.edu.hk/german/music files/marlene dietrich - where have all the flowers gone.mp3
[ notação ]

ISEG: instalações renovadas


   Económicas e Bagaceiras

«O Convento das Inglesinhas, imóvel do século XVII onde está instalado o Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) desde o início do século XX, inaugura hoje [7.Nov.2005] instalações restauradas para cursos de pós-graduação, mestrados e doutoramentos. (...) À semelhança de outros conventos de ordens religiosas no bairro da Madragoa, o Convento de Santa Brígida das Inglesas, ou das Inglesinhas como ficou conhecido mais tarde, foi fundado no início do século XVII. Aliás, o próprio nome do bairro tem origem no ancestral Convento das “Madres de Goa”.

«O trabalho de restauro e modernização, entregue ao arquitecto Gonçalo Byrne, teve início há três anos para criar melhores condições para a formação de pós-graduação, mestrados e doutoramentos do ISEG. Foi feita uma ampla remodelação do interior, que disponibiliza um conjunto de salas exclusivamente destinadas a trabalhos dos cursos posteriores à licenciatura. Até chegar “às mãos” do arquitecto Gonçalo Byrne, o convento sofreu várias transformações ao longo do tempo, sendo já antiga a função académica. Em 1864, foi adquirido pelos jesuítas, que aí mantiveram o Colégio de Jesus até à instauração da República e fizeram várias ampliações, nomeadamente o acréscimo de um piso em toda a ala Nordeste, o alargamento da capela com uma ala exterior a Noroeste, sobre o actual jardim, e o acrescento no mesmo sentido do corpo destacado do refeitório. Com a chegada da República, o convento serviu para instalar o Museu da Revolução Republicana e, posteriormente, o Instituto Superior de Comércio - o actual ISEG.

«As obras de restauro foram financiadas através do plano de investimentos públicos (PIDDAC) e de receitas próprias, custando no total cerca de oito milhões de euros. O convento é hoje propriedade do ISEG, sendo o edifício mais antigo do complexo arquitectónico e núcleo histórico do instituto, com direito a referência em várias publicações nacionais e internacionais. O edifício destina-se agora prioritariamente à formação pós-graduada, de executivos e empresários portugueses, continuando a albergar os órgãos de gestão e outros serviços administrativos.»

Notícias da Manhã

Post relacionado: Económicas e Bagaceiras
1. Edifício do Quelhas (Conv. Inglesinhas)
2. Edifício do Quelhas (Ex-RDP) - serviços administrativos e auditórios
3. Edifício Bento Jesus Caraça - gabinetes de docentes, centros de investigação, informática
4. Biblioteca F. Pereira de Moura
5. Edifício Francesinhas I - salas de aulas
6. Edifício Francesinhas II - salas de aulas, informática, cantina, AEISEG e AIESEC
7. Futuro Pavilhão de Desportos
8. Assembleia da República

PNG: Produção Nacional de Grilos


Tudo começou com dois grilos trazidos de Montalegre.

Seis mil grilos numa varanda da Póvoa do Varzim. «Repartidos por cinco recipientes, com folhas de alface à disposição, fazem parte de um negócio, por ora caseiro, que terá tornado Angelina e o marido, Fernando Simões, nos primeiros fornecedores nacionais de insectos saltões a casas de animais. As iguanas, de barriga cheia, agradecem. A bolsa do casal também. Mesmo quando a grilada não deixa dormir ninguém no apartamento.

"Nunca nos passou pela cabeça que criar grilos fosse uma actividade tão salutar. Dá trabalho, é certo. É preciso ter cuidado com a limpeza, vigiá-los enquanto crescem, proporcionar-lhes luz, alimentá-los. Ganhamos pouco em termos de lucro. Mas enriquecemos muito no conhecimento".

«Sem mãos a medir, o casal recebe, agora, encomendas de estabelecimentos da Póvoa, de Espinho, de Viana do Castelo, da Maia e de Lisboa. Vende-os a preços diferentes: cada grilo em crescimento custa 70 cêntimos e os que já têm asas (adultos) e estejam pronto a grilar custam um euro. E começa a ter clientes diferentes a rondar-lhes o negócio: restaurantes orientais onde grilos fritos são pitéu para alguns gostos.»

Jornal de Notícias

segunda-feira, novembro 07, 2005

Friedman segundo Galbraith

John K. Galbraith - «O Professor Friedman e os seus discípulos exerceram uma certa influência sobre as administrações Nixon e Ford. Ele era o mentor de William Simon, o ministro das Finanças do presidente Ford, e de Alan Greenspan, o chefe dos seus conselheiros económicos. Juntamente com Burus, o governador da Reserva Federal, eles inspiraram largamente o arsenal de medidas monetárias para jugular, sem contudo travar, a grande inflação de 1974-1975. Resultou daqui uma séria recessão, provocada pelo abrandamento brutal da produção, e o agravamento quase tão brutal do desemprego. (...) Nem Simon nem Greenspan, nem sequer o Professor Friedman, se viram em apuros. As verdadeiras vítimas foram aquelas que perderam o seu emprego. E entre eles conto Gerald Ford, que foi o primeiro presidente, desde Herbert Hoover, em 1932, a não ser reeleito.»

Nicole Salinger - «O Professor Friedman aconselhou durante algum tempo o Governo israelita...»

John K. Galbraith - «A tradição judaica afirma de facto que os filhos de Israel estão destinados a sofrer.»

[ "Tudo ou quase sobre economia", J.K.Galbraith entrevistado por Nicole Salinger, ed. Europa América, 1983, pag.117 ]

América

Natalie Wood no papel de MariaWest Side Story, o espectáculo musical com música de Leonard Bernstein e texto de Stephen Sondheim, é uma versão do "Romeu e Julieta" localizada em Nova Iorque, tendo como pano de fundo as rivalidades entre dois bandos de jovens urbanos, os Jets (que integram a segunda geração de imigrantes de origem europeia) e os Sharks (imigrantes mais recentes e de origem porto-riquenha). O musical estreou em 1957 e em 1961 foi realizado o filme, com a participação de Natalie Wood.

Na página oficial existem duas versões para a letra da conhecida canção "América", uma referida como sendo da versão para palco e outra do filme. Não sei qual a justificação das diferenças nem a respectiva cronologia, mas surpreende-me o tom mais violento e de maior denúncia da discriminação racial que existe na versão do filme.

A canção encena uma discussão entre porto-riquenhos sobre as vantagens ou desvantagens de emigrar para os EUA. Para uns trata-se de um sonho, para outros é um pesadelo. Na versão do filme o "retrato" da América é bastante cruel: "a vida é brilhante na América... se fores branco", "olham para ti e cobram a dobrar", "liberdade para... servir à mesa e engraxar sapatos", "portas que se fecham na tua cara", "crime organizado"...
Anita - Buying on credit is so nice.
Bernardo - One look at us and they charge twice.
Rosália - I’ll have my own washing machine.
Juan - What will you have, though, to keep clean?

(refrão)
          Skyscrapers bloom in America.
          Cadillacs zoom in America.
          Industry boom in America.
          Twelve in a room in America.

Anita - Lots of new housing with more space.
Bernardo - Lots of doors slamming in our face.
Anita - I’ll get a terrace apartment.
Bernardo - Better get rid of your accent.

(refrão)
          Life can be bright in America.
          If you can fight in America.
          Life is all right in America.
          If you’re all white in America.

Anita e Consuelo - Here you are free and you have pride.
Bernardo - Long as you stay on your own side.
Anita - Free to be anything you choose.
Rapazes - Free to wait tables and shine shoes.

(refrão)
          Everywhere grime in America,
          Organized crime in America,
          Terrible time in America.
          You forget I’m in America.
Comparativamente, a outra versão é bastante mais "benigna" para os EUA: deixa de haver crime e discriminação na América, os problemas estão apenas em Porto Rico: população endividada, doenças tropicais, casas superlotadas e que não funcionam. Uma hipótese é que esta tenha sido a versão original em palco, e que para o filme tenha sido escrita a versão mais crítica dos EUA. Mas também pode ter sido o contrário: o texto original (para palco e cinema) era o crítico e ter-se-ia posteriormente transformado em "politicamente correcto". Creio que as mais recentes gravações apresentam a versão "soft".

Alguém arrisca um palpite sobre a origem destas duas versões?

West Side Story foi alvo de uma controvérsia em 1999, quando o Comité da "Amherst-Pelham Regional High School" (Massachusetts) proibiu a sua representação por "estereotipar os porto-riquenhos". Esta proibição é curiosa, dado que na peça é a Polícia e o bando rival (Jets) que são apresentados como violentos e racistas, enquanto que os porto-riquenhos fazem o papel de vítimas. No entanto, o facto do filme ter como heroína uma "gringa" (Natalie Wood) que fala um ridículo americano "espanholizado" enquanto que a actriz Rita Moreno, uma genuína porto-riquenha, é relegada para um papel secundário, e de os Jets usarem expressões depreciativas inspiradas no sotaque mexicano, parece ter contribuido para desvalorizar outros aspectos da obra eventualmente mais simpáticos para os porto-riquenhos. Em 2004 um grupo de alunos de uma escola vizinha realizou outra produção, designada "West Side Stories", reflectindo sobre a referida controvérsia (ver artigo).

A "emigração" de porto-riquenhos para Nova Iorque, por outro lado, parece ter estado relacionada com a "Operação Bootstrap", uma iniciativa do governo americano, no pós-guerra, para industrializar Porto Rico, que envolveu a "deslocalização" para o continente de muitos dos habitantes daquela colónia.


Disponível online:
  • Un Upbeat West Side Story: Puerto Ricans and Post War Racial Politics In Chicago (pdf) - onde se defende que "West Side Story" era largamente um mito, baseado em noções estereotipadas".
  • versão orquestral de WSS (ficheiros mp3)
  • fotografias do filme
  • lista de gravações
    Actualização


    Anita (Rita Moreno): espontânea e palavrosa

    Em "Representation of Latinas in Film", lê-se que "Em 'West Side Story' aparecem duas diferentes representações de mulheres latinas. Primeiro existe Maria, protagonizada por Natalie Wood, uma anglo-saxónica, que cria uma porto-riquenha inocente e sensual, uma Madona celestial. (...) Por outro lado, Anita, protagonizada por Rita Moreno, uma genuína porto-riquenha, cria uma uma imagem de prostituta de sangue na guelra, orgulhosa e sexy, espontânea e palavrosa. (...) Anita tem uma aparência mais étnica devido ao cabelo escuro, pele escura e pronúncia acentuada, enquanto que Maria, embora de cabelo escuro, é mais clara. É muito evidente que às "latinas" estavam destinados os papéis secundários.
    Uma versão crítica encontra-se aqui:
    "La controversia se debio principalmente por:
    1. tanto en la version teatral como cine, la puertorriquena putona era interpretada por...pues una puertorriquena (teatro fue Chita Rivera, cine...no me acuerdo)
    [=Rita Moreno]. Mientras la puertorriquena virginal y decente simpre la interpreto una americanita blanca en ambas versiones.
    2. El punto de reunion de la ganga americana(los Jets) era un restaurante/heladeria lo mas nice...los puertorriquenos se juntaban en el techo de un edifico sucio y desorganizado y lo unico que hablaban era si America era mejor que Puerto Rico.
    3. Las puertorriquenas blancas no hacian mas que esperar algun \"principe\" que las sacara del \"wealfare\", las puertorriquenas negras se acostaban con los novios italianos.

  • Cansados da globalização

    O Economist diz que o mundo está cansado da globalização, apesar da liberalização do comércio e outras formas de abertura serem mais necessárias do que nunca. E os sintomas não surgem apenas dos movimentos alternativos: no próprio Senado norte-americano existem propostas para tentar limitar o acesso da China aos mercados. A mais antiga revista do mundo está pessimista quanto à próxima cimeira da OMC, em Hong Kong [1].
    «Frederic Bastiat, que era a mais estranha das criaturas, e um economista defensor do livre mercado, escreveu para este jornal em 1846 [2] exprimindo uma esperança nobre e romântica: "Oxalá que em breve todas as nações derrubem as barreiras que as separam". Estas palavras ecoaram 125 anos mais tarde na voz de John Lenon, que não era economista mas antes um capitalista global de sucesso: "imaginem que não existem países". Tal como ele salientou na canção, não é difícil de conseguir. Mas apesar da espectacular elevação dos padrões de vida que ocorreu à medida que as barreiras entre nações iam caindo, e apesar da fuga à pobreza de centenas de milhões de pessoas naquelas zonas que se juntaram à economia global, ainda é difícil convencer o público e os políticos do mérito da abertura. E agora, uma vez mais, está-se a formar uma nova fila para denunciar a abertura - isto é, a globalização. E está a colocar em risco o próximo grande avanço na liberalização comercial e a próxima grande redução da pobreza nos países em desenvolvimento.»
    [1] - A 6ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio terá lugar em Honk Kong nos próximos dias 13 a 18 de Dezembro.
    [2] - A revista Economist foi fundada em 1843, advogando desde o seu início a liberdade de comércio e combatendo as "corn laws" - impostos sobre a importação de cereais para a Inglaterra, alegadamente para proteger a produção nacional.

    Novidades

    Do Instituto Nacional de Estatística:
  • Índice de Novas Encomendas na Indústria, revelando uma variação homóloga de 2,2%, essencialmente devida ao mercado externo: variação homóloga de (5,2%).
  • Inquérito Anual à Produção Agro-industrial: «No período de 1998 a 2004, as Indústrias Alimentares e das Bebidas registaram um crescimento acentuado. No entanto no último triénio (2002 a 2004), observa-se um abrandamento, provocado pela descida em 2003 (-0,16%) retomando a tendência crescente em 2004 (+1,37%).»

    Do Banco de Portugal:
  • Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito (Out.2005), revelando uma menor restritividade dos critérios de concessão de crédito, devido à pressão da concorrência.
  • Revistas em linha

     «O que são revistas em linha ? De onde derivaram e o que é que aprendemos sobre elas nos últimos 10 anos ?» 
    ("What are Online Magazines? How have they derived from and what gave we learnt about them in the last ten years?")

    Um estudo de Sanjeev Salhotra - estudante de mestrado sobre "Electronic Media" na Oxford Brookes University. Sanjeev mantém o blogue Shai.

    domingo, novembro 06, 2005

    The Days of Pearly Spencer


    O irlandês David McWilliams compôs e gravou em 1967 uma das mais emblemáticas canções pop/rock dos anos 60: "The Days of Pearly Spencer". Inspirada num sem-abrigo que David conheceu em Ballymena (onde viveu desde os 3 anos) e de quem se tornou amigo, a letra traduzia uma profunda empatia e sentido humanista perante os que vivem à margem da sociedade. A melodia assentava na repetição duma linha melódica elementar, mas apresentava várias originalidades: o tom coloquial do cantor, a inesperada batida da bateria antes do refrão, a insólita distorção da voz durante o refrão, ao mesmo tempo que um agrupamento de cordas acentua o tom dramático com um riff obcessivo. A temática da solidão humana sem esperança e o recurso a uma orquestração "clássica" apresenta semelhanças com a canção "Eleanor Rigby", que os Beatles tinham lançado no ano anterior.

    Inicialmente boicotada pela BBC, a canção foi sistematicamente passada na "clandestina" Radio Caroline, a estação pirata localizada fora das águas territoriais inglesas, acabando por se tornar popular em vários países da Europa continental. Embora não tenha atingido os tops de vendas na voz de David McWilliams, a canção foi gravada por muitos cantores e veio a conhecer um grande sucesso em 1992, numa versão de Marc Almond.

    Um velho prédio, uma rua vazia
    Palmilhada e gasta por pés descalços
    Mergulhada num longo e profundo silêncio
    Vigiada por um sol vibrante

    Olhos envelhecidos numa face de criança
    Olhando as sombras em competição
    Em paredes e fendas, que não deixam rasto,
    E que a luz do sol evita.

    Os dias de Pearly Spencer
    Ahh Ahh Ahh
    A corrida chega ao fim.

    Video-clips de "The Days of Pearly Spencer":
  • versão de 1967 - a cores
  • versão de 1967 - a preto-e-branco
  • versão dos anos 80
  • Il Volto Della Vita - por Caterina Caselli
    Nota: em alguns computadores a imagem dos video-clips não abre; experimente abrir no leitor virtual a partir dos endereços:
  • http://www.davidmcwilliams.com/video%20clips/Days%20of%20Pearly%20Spencer%201967%20Full%20Colour.swf
  • http://www.davidmcwilliams.com/video%20clips/Days%20of%20Pearly%20Spencer%201967%20Black%20and%20White.swf
  • http://www.davidmcwilliams.com/video%20clips/Days%20of%20Pearly%20Spencer%208ties.swf
  • http://www.davidmcwilliams.com/video%20clips/Caterina%20Caselli%20-%20Il%20Volto%20Della%20Vita.swf

  • letra da canção
  • Página de homenagem a David McWilliams

    O blogue Rato Records disponibiliza para download uma compilação - "Nostalgia 13" - onde se inclui um outro conhecido tema de David McWilliams, "Three o’clock flamingo street", com uma estrutura musical muito semelhante a "The Days of Pearly Spencer".
  • A Grande Ilusão


    Via La Maldición de Sísifo [clique na imagem para ampliar].

    sábado, novembro 05, 2005

    Contextualização

    João, no Metablog, recusa a ideia de que existam "forças" ou "genes" que constroem o comportamento humano, como lhe parece estar a ser sugerido pela Neuroeconomia, querendo "reduzir o fenómeno da agência humana a algo que pode ser explicado através de conceitos causais, como se este se tratasse de um fenómeno natural". Mais especificamente, acha que "o modelo explicativo das ciências naturais não se aplica às ciências humanas". Tratou-se uma reacção a um post de Tiago Mendes no Mão Invisível. Tiago Mendes respondeu no aforismos e afins, num post que gerou uma sequência de comentários que vale a pena ler.

    Eu compreendo as reticências de João perante a deriva mecanicista e reducionista das ciências ditas "naturais", que também fez o seu caminho nas "ciências sociais". Mas o uso de analogias mecanicistas tem sido um instrumento poderoso na formação de conhecimentos, seja para explicar seja para "entender". É certo que também conduz a atitudes arrogantes, de convicção que "já se descobriu tudo", ou quase. Foi assim que se julgou estar perto de dominar a cura das doenças humanas, ou de poder construir cidades perfeitas, ou de acabar para sempre com a inflação e o desemprego, para citar só alguns exemplos de coisas típicas do século passado.

    Acontece que a divisão em áreas de conhecimento, mesmo na banda larga das ciências "naturais" e "sociais", é uma simples conveniência que decorre apenas das limitações do observador humano. Não há no mundo leis "naturais" dum lado e "sociais" do outro: trata-se de uma mera convenção humana. Diz-se, por exemplo, que nas ciências sociais as leis são probabilísticas, enquanto que nas ciências naturais são exactas. Mas as leis "exactas" agem sobre corpos, constituídos por partículas que, elas mesmas, possuem comportamentos probabilísticos. A pedra largada do alto da Torre de Pisa pode cair sempre na direcção do centro da terra e a uma dada velocidade, mas não acontece assim com muitas das partículas de que é constituída; neste sentido, a lei da gravidade também é probabilística.

    Diz o João que os fenómenos humanos são dependentes do contexto. Sim, mas também todos os outros. O "isolamento" que fazemos de componentes desses fenómenos é apenas um estratagema nosso para lidar com a complexidade. É um truque, mas um truque útil, que nos tem permitido definir relações e prever ocorrências futuras, o que muito nos tem facilitado a vida (e complicado também). Todos os fenómenos são dependentes do contexto, a única diferença para o comportamento humano é existirem questões éticas que tornam mais difícil "dividi-lo em partes" - o que, em alguns casos, significaria dividir o próprio corpo em partes.

    Quanto à Neuroeconomia, percebo que a figuração de neurocientistas a olharem para imagens coloridas do interior do cérebro de cobaias humanas enquanto estas desempenham tarefas patetas (olhar para fotografias, jogar cartas, etç.) convoque uma visão ingénua e reducionista, e dê a ideia de que se está, uma vez mais, a tratar o corpo humano como uma máquina. Mas não é caso para tanto.

    Em primeiro lugar, temos que afastar o receio de admitir que operações mecânicas simples (ou aparentemente simples) participem em processos mentais complexos, desqualificando-os. Imaginemos que um homem, para salvar o filho que ficou esmagado debaixo de um objecto de peso brutal, exerce uma força muscular que a biologia pensaria ser impossível. Trata-se de um acto de altruísmo, para cuja explicação poderemos recorrer à psicologia ou à mesmo à filosofia. Mas será impossível que um biólogo estude o assunto do ponto de vista do "simples" movimento muscular? Ficará o altruísmo diminuído por causa disso? Segundo o João, não poderíamos estudar o músculo, porque o comportamento humano é dependente do contexto. Mas essa restrição não faz sentido. Pode-se estudar a parte sem ignorar o todo (embora haja sempre o perigo dessa ignorância ocorrer).

    A maior parte das teorias económicas assume que do grande caos das intenções individuais nasce um equilíbrio, seja através da maximização de funções de utilidade, seja através de instituições reguladoras (contratos, empresas, agência). O problema é que o grande sistema auto-regulador da economia, tal como é definido por essas teorias, está cheio de falhas: indivíduos que não maximizam a utilidade, de bolhas que explodem, de agentes que não fazem o que supostamente deviam, etç. De acordo com o velho princípio de que "se uma teoria não bate certo com a realidade, muda-se a realidade", as explicações para as inconsistências dessas teorias costumam ser: "há Estado a mais", "há regulação a mais", "há política a mais" - como se tais coisas não fossem, elas próprias, inerentes à actividade humana.

    Ora a Neurociência - e a Neuroeconomia subsidiariamente - tem progredido muito na explicação, quer do comportamento do ser humano, quer das inconsistências das teorias existentes. Ou seja: está-se, de certa forma, a negar a possibilidade duma teoria geral do comportamento. Está-se, precisamente, a lidar com o contexto. (Isto é talvez uma grande desilusão para o desejo de "descoberta" de teorias magníficas, redutíveis a fórmulas matemáticas simples e independentes do contexto: o homem ao mesmo nível de Deus; mas parece que não será assim).

    Uma das grandes ilusões da humanidade é a de que o comportamento humano é determinado pelo raciocínio. Pura asneira: o coração e o fígado (e tanta coisa mais) passam bem sem o pensamento racional. Aí, entra o teórico diz: bem, vamos designar isso como sistema nervoso simpático, e agora, arrumado isso, tudo o resto é racional. Depois descobre-se que certos sinais de aviso (a visão de um objecto a cair, p.ex.) desencadeiam actos defensivos mesmo antes do cérebro racional ter tido tempo de pensar no assunto. Ou que decisões altruístas - como contribuir para a caridade - são influenciadas pela presença de um desenho de uma cara que nos olha, apesar do cérebro racional saber que é apenas um desenho. O modelo racional treme.

    Assim, tem-se vindo a descobrir-se que acontece com o sistema de tomada de decisão o mesmo que com outros sistemas e órgãos humanos: que a sua forma e funcionamento incorporam o processo evolutivo, fazendo coexistir sistemas mais simples (que são idênticos aos de organismos primitivos e menos complexos), com sistemas mais complexos (que são exclusivos de organismos mais complexos). Para além disso, a "atribuição de tarefas" a estes sistemas obedece a um princípio de eficiência: quando a tarefa pode ser desempenhada por um processo simples (mais rápido, menos consumidor de recursos, ainda que menos eficaz) não é realizada por recurso a processos complexos (mais lentos, mais consumistas, ainda que mais eficazes).

    A descoberta destes processos e mecanismos não diminui em nada a dignidade do comportamento humano, nem o torna menos livre em termos da capacidade de decisão, individual ou colectiva. Qualquer teoria sobre o comportamento humano nunca poderá passar de uma aproximação, uma visão grosseira da complexidade do fenómeno. O ser humano nunca poderá desenvolver uma teoria para se explicar cabalmente a si próprio. Não pode estar acima da sua própria complexidade. Um motor de explosão a dois tempos, ainda que simples no funcionamento e número de peças, nunca se poderá "explicar" a si próprio. O corpo humano é mais complexo e por isso vai mais longe do que o motor na explicação do seu próprio comportamento, mas está tão próximo de "dominar" a sua complexidade como o motor o está da sua simplicidade.

    url deste post:
    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/11/contextualizao.html

    sexta-feira, novembro 04, 2005

    Egrégia disciplina

    Vasco Pulido Valente, na sua habitual coluna da última página do jornal Público, desenha com palavras retratos caricaturais do país, os quais, à semelhança das boas caricaturas pictóricas, exageram nos traços mas acertam na âmago. É uma das colunas que gosto de ler diariamente.

    No exercício de hoje VPV atira-se aos candidatos presidenciais Soares e Cavaco, esmifrando um e outro com pinceladas rápidas. A "desconstrução" de Soares é um pouco mais elaborada, e percebe-se porquê: o retratado é do universo das humanidades, de onde VPV também descende. O desenho de Cavaco é mais difícil e a sua caricatura menos conseguida, pois VPV não penetra sequer - como a maioria dos "cultos" - nos meandros da Economia. Resta-lhe portanto o traço grosso: os economistas não lêm livros e são ignorantes. Tem graça e não ofende (a mim, não), e aqui fica:
    «Cavaco, esse, veio de um meio relativamente pobre e, presumo, apolítico; e ficou confinado, por necessidade ou falta de estímulo, à sua profissão. Além disso, achava (e não faço ideia se ainda acha) o pensamento económico mais do que suficiente para explicar o mundo, no que aliás não se distingue da generalidade dos seus colegas, uma classe particularmente pouco lida e intelectualmente limitada. Só depois, tarde na vida e já primeiro-ministro, descobriu que existia uma realidade irredutível à sua egrégia disciplina. E mesmo assim volta sempre à origem, como, por exemplo, na famosa metáfora da boa e má moeda, que ajudou a liquidar Santana.»
    A propósito: é "metáfora" ou "analogia"? Eu creio que é analogia - mas isso é talvez ignorância minha, que sou economista. Seja como for, num ou noutro caso, não passa de uma regra-de-três-simples.

    quinta-feira, novembro 03, 2005

    A rapariga que aprendeu demais

    Melanie Griffith

    Ficheiro mp3 - 30:40 min.

    Russ Roberts entrevista Don Cox sobre o tema: "devem os homens de negócios egoístas ser abatidos?" Realização técnica da Radio Economics de James Reese.
    A entrevista começa com uma referência à peça de teatro "Born Yesterday", escrita em 1946 por Garson Kanin, e que teve duas versões cinematográficas: uma em 1950, com Judy Holliday, e outra em 1993 ("Nascida Ontem"), com Melanie Griffith no papel principal. Dois negóciantes sem escrúpulos vão a Washington tentar corromper um congressista para a realização de um negócio. Um deles leva consigo a vistosa namorada. Contudo, para que a simplória moça não o deixe ficar mal entre a socialite, decide facultar-lhe algumas aulas de cultura geral - tarefa que é atribuída a um jornalista. O problema é que a formação a leva a compreender a natureza suja dos negócios do namorado e a questionar toda a operação e o seu relacionamento.

    A peça, que se encontra actualmente em cena no Arena Stage, poderia servir para uma conversa sobre a importância - e as consequências, nem todas previsíveis - de transmitir conhecimentos às pessoas. Mas a conversa dos dois economistas neste podcast centra-se numa outra temática: será que do egoísmo dos indivíduos (nomeadamente nos negócios) nascem coisas más? Ou, por outras palavras, "devem os homem de negócios egoístas ser abatidos?" - designação que Russ Roberts deu à entrevista.

    É um tema sugestivo. A hipótese do egoísmo suporta grande parte da teoria económica desde que Adam Smith escreveu a metáfora da "mão invisível": "não é a bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que garante o nosso jantar, mas sim a consideração que eles têm pelo seu próprio interesse". E não são apenas os economistas que colocam esta hipótese: a neurobiologia anda a testar presentemente esta a mesma hipótese. Trata-se, portanto, de um tema interessante e actual, mas a entrevista é algo prejudicada pelo facto das "perguntas" do entrevistador serem mais longas do que as respostas do pobre entrevistado.

    Billie (Melanie Griffith): Tenho estado a pensar ultimamente numa coisa que o meu pai me dizia: "sem conhecimentos, serás sempre menos do que os outros". E eu não quero ser menos. Ou seja, não quer ser melhor do que os outros nem quero meter-me em bicos de pés. Apenas não quero ser menos do que qualquer outra pessoa.

    Paul (jornalista): Bem, receio que isso seja impossível... porque agora já estás acima da maioria das pessoas.

    url do podcast:
    http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051031-351.mp3

    O futuro móvel



    Podcast
    da entrevista de Brian C. Russell ao jornalista Dan Smith acerca do seminário "Media opportunities and strategies for the mobile, broadband generation". Dan fala sobre o impacto dos novos media na educação.

    url do podcast [5:51 min]:
    http://www.audioactivism.org/audio/AA_MMCon_Smith_GamingEDU.mp3

    Um resumo de algumas das apresentações neste seminário foi feito por Michel Dare: "Mobile Media Memory Dump". Tratando-se de um outsider, Michael Dare apresenta uma visão ingénua e divertida sobre as "promessas" do explosivo mercado dos conteúdos para telemóveis.

    Interessante o dispositivo desenvolvido por Phillippos Mordohai: uma câmara de filmar com duas lentes - uma acima da outra - que nos tira uma fotografia olhando para a câmara e pode, a partir daí, construir uma imagem 3D a toda a nossa volta, incluindo a silhueta lateral com grande definição. Algo que pode ter aplicação em termos de segurança.

    Um outro software constrói caricaturas a partir da imagem de uma pessoa, não só de grande qualidade, mas possuindo, à escolha, o estilo de qualquer artista cujo trabalho tenha sido "scaneado" para o computador.

    «Imagine que vai pela rua e o telemóvel toca: é da loja Starbucks, ali ao lado, que detectou a sua passagem e envia-lhe a oferta de um desconto se não se importar de entrar na loja.» (parece mesmo o equivalente virtual daqueles restaurantes de zonas turísticas - ou das peixeiras do Norte - que agarram os clientes pelo colarinho.)

    «Chateado enquanto espera no dentista? Para quê ler uma velha edição da "Caras" quando tem 30 mil jogos à disposição do seu telemóvel? Preso no trânsito? Não se irrite: blogue com o telemóvel. Descansa durante um passeio ao campo? Para quê enjoar a paisagem, quando pode entreter-se a ver um "mobisódio"?»
    ("mobisódios" - episódios de um minuto de programas populares da televisão, disponíveis via telemóvel)

    Com tantas possibilidades, no entanto, parece que os milhões que actualmente se fazem neste mercado resultam maioritariamente da venda de toques musicais e de imagens de fundo.

    Jogos educacionais


    Jogos 'arcade' utilizados para aprendizagem de matérias escolares.

    "Serious Games Initiative": promover a utilização da tecnologia de jogos de computador para ajudar os estudantes a aprender as matérias escolares.

    Também sobre jogos educacionais, a New Media Centers vai realizar uma conferência sobre Educational Gaming, nos dias 7 e 8 de Dezembro, que decorrerá inteiramente on-line. O acesso, infelizmente, não é livre. As sessões terão 30 minutos e está assegurada a interactividade: conversas "hallway" [?], chats, possibilidade de colocar perguntas aos conferencistas, etç. Veja a:
      página da Conferência  

    Tudo

    Tudo o que você sempre quis saber sobre a economia portuguesa mas teve medo de perguntar: como sustentar o crescimento, como assegurar a sustentabilidade fiscal, como "tratar" do défice, etç. etç. etç., tudo isso foi respondido pela OCDE, mas... para a economia dos EUA: "Economic Survey of the United States 2005":

  • Capítulo 1: Challenges facing the US economy
  • Capítulo 2: Ensuring fiscal sustainability and budgetary discipline
  • Capítulo 3: Fiscal relations across levels of government
  • Capítulo 4: Coping with the inevitable adjustment in the current account
  • Capítulo 5: Labour market issues
  • Capítulo 6: Energy and environmental issues

    Quanto a Portugal, contentemo-nos com as concisas notas do Economic Outlook e do Economic Policy Reforms.
  • Investigação nacional

    O Banco de Portugal colocou em linha o paper "Business Cycle at a Sectoral Level: the Portuguese Case", de Hugo J. Reis, onde se faz uma análise secorial do ciclo económico portugês, com ênfase no fenómeno do co-movimento, para os anos 1953-2003, em termos de Valor Acrescentado Bruto e Emprego. «Nos últimos 50 anos observaram-se mudanças estruturais substanciais na economia portuguesa. Estas mudanças significam que alguns sectores, nomeadamente os dos Serviços, estão a crescer em termos relativos. Apesar das diferenças existentes em aspectos tais como a tendência e a volatilidade, existe evidência da presença de co-movimento entre os sectores de actividade portugueses. Analisamos as causas desse fenómeno, tais como as ligações input-output, à luz da economia portuguesa.»

    Outros papers divulgados pelo BP são:
  • "The Pricing Behaviour of Firms in the Euro Area" - Fernando Martins et al
  • "Consumption Taxes and Redistribution" de Isabel Horta Correia
  • Bons negócios

    No passado mês de Setembro verificou-se uma subida de 3,9 % no volume de negócios da indústria, uma média do crescimento no mercado interno (3,6%) e no externo (4,4%).

    A procura interna cresceu nos sectores do Investimento e na Energia, e diminuíu nos Bens de Consumo e Intermédios. Os mercados externos dinamizaram-se sobretudo nos Bens Intermédios.

    Não são más notícias mas, tratando-se de movimentos sujeitos a forte sazonalidade, há que esperar para ver o que realmente significam. Quanto à Energia, não sabemos se rir se chorar: é bom para uns mas é péssimo para os outros.

    Fonte: Índice de Volume de Negócios na Indústria, publicado pelo INE.

    quarta-feira, novembro 02, 2005

    NetPay: concorrência nos cartões


    Concorrência chega finalmente aos pagamentos com cartões

    Segundo notícia do jornal Público de hoje, o Banco Português de Negócios vai entrar no mercado da rede de pagamentos por cartões de débito e crédito, abrindo pela primeira vez concorrência à rede Unicre que, desde há 31 anos, tem garantido o monopólio em Portugal. A rede Unicre, que é detida pela totalidade dos bancos portugueses, processa os pagamentos com cartões de todos eles e tem sido acusada de usar essa posição de monopólio para impor custos ao consumidores, tais como a taxa adicional pelo pagamento de combustíveis nos postos abastecedores.

    A rede do BPN é a NetPay e encontra-se neste momento em fase de arranque. José Oliveira e Costa, em entrevista ao Diário de Notícias em 11 de Outubro (disponível aqui), revela que o sistema se apoia "numa solução tecnológica desenvolvida por uma empresa em Portugal, participada por várias entidades, que já tem a aplicação a funcionar em Moçambique e Cabo Verde e prevê avançar para outros países. O BPN queixa-se de concorrência desleal por parte da Unicre , referindo que, para desenvolvimento da NetPay, "mantivemos a operação secreta, conduzida por um número o mais restrito possível de pessoas. A certa altura, em Abril de 2004, houve uma fuga de informação. A partir daí, tudo começou a mudar em Portugal no que toca aos cartões (...) as taxas começaram a baixar. Há três anos praticavam-se taxas de 6% e elas estão a vir por aí abaixo, na casa dos 3%, o valor máximo.

    José Oliveira e Costa queixa-se de tratamento desigual: "Quando se utiliza um cartão de débito num POS (terminal de pagamento automático), a comunicação vai ao nosso centro, depois vai a Londres, de Londres volta a Portugal e vai à SIBS (Sociedade Interbancária de Serviços), desta vai ao banco que é debitado, volta à SIBS, vai a Londres, Londres faz o registo da operação, retém as verbas de comissões que credita no banco do cartão e manda para nós a operação. Se não existisse a SIBS, a operação era mais simples. O paradoxo desta situação tem a ver com o facto de haver uma entidade que autoriza que se pratiquem preços diferentes. Quando um cartão de um banco passa por um POS nosso, o banco emissor recebe 3%. Mas se passar por um POS da Unicre, esta só cobra 2%. A Unicre está autorizada por este acordo "fantasma" com a Visa Portugal, a reservar para o banco emissor uma verba muito inferior aquela que nós temos de pagar."

    Zimbabwe

    Um ministro do governo do Zimbabwe admitiu que muitos dos beneficiários com terras, no âmbito da política de redistribuição, sabem pouco sobre agricultura e que enquanto alguns estão a cultivar, outros não estão a fazer nada com os terrenos. "O maior desapontamento foi que pessoas sem a menor ideia de agricultura obtiveram terras e o resultado foi o declínio da produção". (Notícia do "Público")

    Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, a economia do Zimbabwe teve uma queda de 10,4 % em 2003 e de 4,2 % em 2004. A produção agricola está em queda e a fome ameaça tornar-se numa catástrofe, mesmo contando com ajuda alimentar de emergênca. A inflação homóloga desceu desde um máximo de 623 % em Janeiro de 2004 para estabilizar em torno de 130 % no início de 2005, mas disparou de novo para os 254 % em Julho deste ano. Para o ano corrente a previsão do FMI é de que o PNB sofra uma queda de 7,2% e que a inflação suba para valores acima dos 400%.

    Zimbabwe: indicadores económicos, 2002-2005
       2002    2003    2004    2005  
    (prev,)
     PNB real (p.mercado; var.em %)-4,4-10,4-4,2-7,2
     Poupança Nacional Bruta0,8-1,2-2,1-4,8
     Investimento bruto1,52,05,14,9
     Inflação (IPC - média anual)133,2365,0350,0219,2
     Inflação (IPC - fim de período)198,9598,7132,7404,6
     Orçamento do governo (% do PNB):   
          Receitas 17,924,933,936,7
          Despesa e empréstimos líquidos20,725,341,051,0
          Dos quais: juros da dívida2,91,35,510,1
          Saldo Global- 2,8- 0,4- 7,1- 14,2
     Fonte: FMI

    terça-feira, novembro 01, 2005

    O Terramoto, Voltaire, Rousseau, a Ciência e os Pós-Modernos


    As ondas do maremoto de Lisboa propagaram-se também pelo mundo das ideias. (Via DivulgandoBD - clique na imagem)

    O Terramoto de Lisboa de 1755, cujos 250 anos se comemoram hoje, teve um impacto importante no mundo das ideias da sua época. Recordemos que se encontravam em confronto duas visões do mundo: dum lado a visão antiga, dogmática, conservadora, imobilista, de base religiosa. Do outro lado os filósofos do iluminismo, revolucionários e críticos da sociedade antiga.

    Do lado conservador considerava-se que, em última análise, tudo era governado por vontade divina: se ocorriam catástrofes, fomes e pestes, era por vontade de Deus, para castigar os pecadores e colocar à prova os fiéis. Qualquer Mal seria pequeno em comparação com o Bem divino.

    Do lado do iluminismo, já muito influenciado pelo embrionário movimento científico, defendia-se a existência de leis naturais, que era importante compreender. Se havia coisas que corriam mal (pestes, fomes, etç.) havia que procurar as causas e prevenir os males.

    À semelhança de um terramoto, a confrontação entre estas duas filosofias e visões do mundo foi acumulando tensões até que explodiu fragorosamente na Revolução Francesa (1789) , com numerosas réplicas nas várias revoluções liberais que ocorreram em diversos países (em Portugal, em 1820).

    A Revolução Francesa é assim considerada a fronteira entre o antigo e o novo regime, entre as idades Moderna e Contemporânea - mas a fronteira poderia também localizar-se na data do Terramoto de Lisboa.

    O Terramoto aconteceu na manhã do dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, em que era imperativo ir à missa. E foi dentro das igrejas que se encontravam grande parte das vítimas. Este facto impressionou muito as pessoas na época: se o terramoto era um castigo divino, como é que foi logo atingir os crentes que assistiam à missa, poupando muitos que não tinham lá ido?

    Os filósofos iluministas não deixaram de aproveitar os ensinamentos da catástrofe que se tinha abatido sobre uma das mais famosas cidades do mundo. Voltaire escreveu um longo poema dedicado ao Terramoto, onde começa por verberar os "filósofos enganados" que proclamam que "tudo está bem":
    «Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
    Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
    Exercício eterno que inúteis dores mantém!
    Filósofos iludidos que bradais "Tudo está bem";
    Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,
    Escombros, despojos, cinzas desgraçadas,
    Estas mulheres e crianças amontoadas
    Estes membros dispersos sob mármores quebrados
    Cem mil desafortunados que a terra devora
    (...)
    Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
    "Deus vingou-se, a morte é o preço dos seus crimes" ?
    Que crime, que falta cometeram estas crianças
    Sobre o seio materno esmagadas e sangrando?
    Lisboa, que já não é, teve ela mais vícios
    Que Londres ou Paris, mergulhadas em delícias?
    Lisboa em ruínas, e dança-se em Paris.»
    (...)

    Fonte: Meu Rumo (adaptado)
    Mas Voltaire escreveu ainda uma outra obra que reflecte a catástrofe: a divertida novela filosófica "Cândido ou o Optimismo", uma farsa corrosiva, com personagens bastante caricaturais: Cândido, um ingénuo que olha o mundo com a ignorância dos simples; e o filósofo Pangloss, defensor de que tudo está bem no mundo, incluindo as catástrofes, por ser essa a vontade divina; a base dos argumentos de Pangloss são que o mundo foi feito por Deus, e como Deus é perfeito, o mundo também só pode ser perfeito; se as coisas acontecem de determinada maneira, então é porque só podia ser assim e não de outro modo. Logo à entrada da barra de Lisboa, quando Jacques, o benfeitor de Cândido, cai ao mar (ao tentar salvar um marinheiro!) e Cândido o quer socorrer, Pangloss impede-o, "provando-lhe que a enseada de Lisboa fora feita expressamente para o afogar". Segue-se a descrição do terramoto que acontece mal Cândido e Pangloss colocam o pé em terra firme.
    «Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor, sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali se acham ancorados. Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tectos sobre os alicerces; trinta mil habitantesdetodos os sexos e idades são esmagados sob as ruínas. Assobiando e praguejando, dizia consigo o marinheiro: — "Muito há que aproveitar aqui". — "Qual poderá ser a razão suficiente deste fenómeno?" — indagava Pangloss.

    "Chegou o fim do mundo!" exclamava Cândido. O marinheiro corre imediatamente para o meio dos destroços, afronta a morte em busca de dinheiro, acha-o, embriaga-se; depois de cozinhar a bebedeira, compra os favores da primeira moça de boa vontade que encontra sobre as ruínas das casas e no meio dos mortos e moribundos. Enquanto isto, Pangloss puxava-o pela manga:
    — "Meu amigo — dizia-lhe — isso não está certo, ofendes a razão universal, empregas muito mal o teu tempo."
    — "Com os diabos! — respondeu o outro — sou marinheiro e nasci em Batávia; marchei quatro vezes sobre o crucifixo, em quatro viagens que fiz ao Japão; e ainda me vens com a razão universal!" Alguns estilhaços de pedra tinham ferido Cândido, que estava estendido no meio da rua e coberto de destroços.
    — "Ai! — dizia ele a Pangloss, arranja-me um pouco de vinho e de óleo, que estou a morrer."
    — "Este terramoto não é novidade nenhuma — respondeu Pangloss. — A cidade de Lima experimentou os mesmos tremores de terra no ano passado; iguais causas, iguais efeitos: há com certeza uma corrente subterrânea de enxofre, desde Lima até Lisboa."
    — "Nada mais provável — respondeu Cândido — mas, por amor de Deus, arranja-me óleo e vinho."
    — "Como, provável? — replicou — Sustento que é a coisa mais demonstrada que existe!"
    Cândido perdeu os sentidos, e Pangloss trouxe-lhe um pouco de água de uma fonte próxima.»
    Pangloss, de quem são muito citadas as frases "vivemos no melhor dos mundos" e "tudo está bem e não podia estar melhor", ocupa-se a consolar os desgraçados lisboetas com estas filosofias; no entanto, o seu discurso, escutado por um membro da Inquisição, é interpretada de modo equívoco: se Pangloss crê que tudo está sempre bem, achará então ele que o pecado original também foi uma coisa boa? Pangloss não compreende a subtileza, mas o inquisidor regista o facto, e a imagem do lacaio a servir-lhe vinho do Porto no meio dos destroços é muito sugestiva.
    «Pangloss consolou-os, assegurando-lhes que as coisas não poderiam ser de outra maneira: "Pois tudo isto — dizia ele — é o que há de melhor. Pois, se há um vulcão em Lisboa, não poderia estar noutra parte. Pois é impossível que as coisas não estejam onde estão. Pois tudo está bem".
    Um homenzinho de preto, familiar da Inquisição, que se achava a seu lado, tomou polidamente a palavra e disse:
    — Pelos vistos, o Senhor não crê no pecado original; pois se tudo está o melhor possível, então não houve nem queda, nem castigo.
    — Peço humildemente perdão a Vossa Excelência — disse Pangloss ainda mais polidamente — pois a queda do homem e a maldição entravam necessariamente no melhor dos mundos possíveis.
    — O Senhor não crê então na liberdade? — perguntou o familiar.
    — Vossa Excelência me desculpará — disse Pangloss — a liberdade pode subsistir com a necessidade absoluta; pois era necessário que fôssemos livres, porque enfim a liberdade determinada...
    Pangloss ia ainda no meio da frase, quando o familiar fez um sinal de cabeça para o seu lacaio, que lhe servia vinho do Porto.»
    Segue-se o capítulo VI, onde se dá conta de que os sábios da Universidade de Coimbra aconselharam a realização de um auto-de-fé para evitar novo terramoto. Repare-se na ironia da prisão com "apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol". Voltaire explora a aqui a sua convicção de que, levados à letra, os preceitos religiosos condenam os seus próprios defensores. Note-se igualmente a futilidade dos crimes: ter escutado uma conversa, ter retirado a gordura da comida. Resultado: novo terramoto!
    «Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer. Tinham, pois, prendido um biscainho que estava convencido de ter casado com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe tinham retirado a gordura: vieram, depois do almoço, prender o Doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: foram ambos conduzidos separadamente para apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois vestiram-lhes um sambenito e ornaram-lhes a cabeça com mitras de papel: a mitra e o sambenito de Cândido eram pintados de chamas invertidas e diabos que não tinham cauda nem garras; mas os diabos de Pangloss tinham cauda e garras, e as flamas eram verticais. Assim vestidos, marcharam em procissão, e ouviram um sermão muito patético, seguido de uma bela música em fabordão. Cândido foi açoitado em cadência, enquanto cantavam; o biscainho e os dois homens que não tinham querido comer gordura foram queimados, e Pangloss enforcado, embora não fosse esse o costume. No mesmo dia a terra tremeu de novo, com espantoso fragor."»
    Esta questão desencadearia ainda um aceso debate entre Voltaire e Rousseau. Voltaire ataca a filosofia "optimista" representada por Leibniz, Pope et Wolf ("um mundo criado por Deus, organizado pela Providência de tal modo que um Mal necessário, em proporção ínfima, é compensado por um Bem sempre maior") e adopta uma postura pessimista mas não de impotência - o homem é ignorante mas pode e deve lutar por melhorar a sua condição. Rousseau recusa esta perspectiva: recordemos que ele é o autor do "Discurso sobre as Ciências e as Artes" onde responde negativamente à questão de saber se «o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para melhorar os costumes".

    Em Portugal tivemos recentemente um debate entre o sociólogo pós-moderno Boaventura Sousa Santos (BSS) e o cientista António Manuel Baptista (AMB) - veiculado em conferências, entrevistas, artigos de opinião e mesmo em livros - onde foi repescada esta confrontação entre os dois vultos do iluminismo. BSS, no livro que esteve na origem da polémica, "Um discurso sobre as ciências", começa por citar Rousseau e o seu "Discurso" para depois atacar a Ciência - e prometer uma "nova ciência" pós-moderna. Uma manifestação recente deste debate ocorreu no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em Maio passado, com uma carta de AMB e uma resposta de BSS.

    O debate filosófico em torno do Terramoto não está assim tão afastado de nós. Por isso, ao ouvir os sinos de Lisboa a comemorar o evento, não perguntemos por quem esses sinos dobram: eles dobram (também) por nós.

    Algumas referências:
  • "Candido ou o Optimismo" (vide cap. V, VI e VII)
  • "Poème sur le désastre de Lisbonne"
  • "O Terramoto na blogosgera" (Technorati)
  • "O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição" - Rua da Judiaria
  • "Pequeno Blogue do Grande Terramoto"
  • "Lisboa antes do terramoto" (doc. Word)
  • "Cataclismos e Catástrofes: reflexões acerca das relações entre o sistema político e o sistema mediático" (pdf)
  • segunda-feira, outubro 31, 2005

    Sexo na cidade

    tínhamos aqui referido o mistério da "existência" de mais mulheres do que homens, o qual na imaginação masculina assume proporções que vão desde "2 para 1" até "7 para 1" [1].

    Parte do mistério pode ter sido desvendado por Lena Edlund, que publicou no Scandinavian Journal of Economics o artigo "Sex and the City"


    Lena Edlund, continua que vais no bom caminho.

    «Nas áreas urbanas do mundo industrializado, as mulheres jovens são mais numerosas do que os homens jovens. Este paper propõe que esse padrão possa estar ligado a rendimentos mais elevados para os homens, nas áreas urbanas. O argumento é que as áreas urbanas oferecem melhores mercados de trabalho aos trabalhadores qualificados. Assumindo que existam mais homens qualificados do que mulheres qualificadas, isto traduzir-se-ia num excedente de homens. Contudo, a presença de homens com elevados rendimentos pode atrair, não apenas mulheres qualificadas, mas também mulheres não qualificadas. Assim, o excedente de mulheres em áreas urbanas pode resultar de uma combinação de melhores mercados de trabalho e casamento. Os dados dos municípios suecos suportam estes resultados»
    Imaginem só se fosse um homem a escrever isto... Não há dúvida de que "os mercados não dormem".

    Por outro lado, o estudo de David G. Blanchflower e Andrew J. Oswald "Money, Sex and Happiness: An Empirical Study" aborda as ligações entre o rendimento, o comportamento sexual e a felicidade admitida, numa amostra de 16 mil americanos adultos.
    «O estudo mostra que a actividade sexual participa fortemente - e positivamente - nas equações da felicidade. Rendimentos mais elevados não permitem "comprar" mais sexo ou mais parceiros sexuais. As pessoas casadas praticam mais sexo do que as solteiras, divorciadas, viúvas ou separadas. O número de parceiros sexuais que maximiza a felicidade é 1. As mulheres com elevados níveis de educação tendem a ter menos parceiros sexuais. A homossexualidade não tem um efeito estatístico significativo na felicidade.»

    Cristiana Oliveira, 40 anos, actriz, do Rio de Janeiro, e que já foi casada três vezes, acredita que "há duas mulheres para cada homem". Por isso parece-lhe lógico que "eles não queiram ficar com apenas uma". [link]

    A realidade é que no Brasil, em 2000, havia 97 homens por cada 100 mulheres, prevendo-se que em 2050 sejam 95 homens por cada 100 mulheres - muito longe das previsões de Cristiana. [link]

    [1]-Sem esquecer aquele filme de Stanley Kulbrick em que o Dr. Strangelove, como estratégia de sobrevivência a um holocausto nuclear, propõe povoar grutas com seres humanos pré-seleccionados, na proporção de 10 mulheres para cada homem".

    domingo, outubro 30, 2005

    Estatísticas do INE

  • Taxas de juro implícitas no crédito à habitação
  • Vendas no comércio a retalho
  • post no Neuroeconomia:

      A Economia segundo Damásio  

    Proximidade e detalhe

    O professor Adelino Fortunato - que suponho ser quem Luís Aguiar-Conraria refere elogiosamente neste post - escreveu em Agosto, no jornal Público, o artigo de opinião "A bolha especulativa do imobiliário", que foi reproduzido pelo blogue A mão invisível, e comentado pelos blogues Dolo Eventual e A-Sul.

    Adelino Fortunato começa o seu artigo por referir os receios de algumas instituições internacionais sobre a "bolha" especulativa no imobiliário, a qual ele compara depois com a "bolha" das dotcoms, para concluir que " quando este processo atingir os seus limites e a bolha rebentar, a queda dos preços é inevitável (...) com a agravante de se realizar num contexto de baixa inflação e exigir uma prolongada descida de muitos anos para que se atinjam os valores médios de longo prazo dos preços em termos reais."

    A seguir vem a clássica aplicação do fenómeno ao caso português (como é sabido, cada português acha que Portugal é um caso único no mundo, para o bem e para o mal) escrevendo: "O que é especificamente português é a forma irracional do ponto vista urbanístico, ambiental, cultural e social de muitos projectos dos operadores do mercado imobiliário, que se desenvolvem na base de cenários e expectativas sem fiabilidade, e cuja incongruência se combina facilmente com a falta de capacidade política, técnica e cultural das autarquias e do governo central." A previsão catastrófica de AF é que "quando o movimento de descida e contracção das margens de lucro se fizer sentir, quebrando a resistência dos grandes operadores que constroem, muitas vezes, como forma de investimento sem preocupações de venda imediata, o pânico pode invadir o mercado".

    Bem, a definição aplicar-se-ia a qualquer "bolha" especulativa em qualquer parte do mundo, mas nós sabemos onde o professor quer chegar: a crítica ao projecto urbanístico conhecido como "Mata de Sesimbra", contra o qual tem escrito vários artigos na imprensa, recorrendo a argumentos como o da ilegalidade duma assinatura do então ministro Isaltino ou o zurzir da "política do betão" das autarquias, etç.

    O que caracteriza as bolhas especulativas é que a valorização dos activos das empresas, nomeadamente em bolsa, sobe para patamares acima do seu real valor. O valor de mercado depende da oferta e da procura, mas pode acontecer que a procura se alimente a si própria sem fundamento na realidade: a procura das acções faz subir os seu preço, o que por sua vez realimenta a procura, e assim sucessivamente; é um mecanismo de feed-back que acabará por estoirar, tal como uma bolha que vai inchando até rebentar.

    Não creio que seja isso que se passa na Margem Sul do Tejo. O que acontece é que a procura de habitações é enorme e é real. Decorre certamente da macrocefalia lisboeta e da concentração na capital de importantes fluxos financeiros. Isto atrai novas actividades e novos habitantes, que procuram habitação na Margem Sul, dadas as facilidades de acesso a Lisboa, particularmente através da nova ponte. Mas tal concentração de riqueza - a mesma que colocou a região de Lisboa fora dos fundos comunitários - faz aumentar também a procura de segunda habitação. E a margem Sul apresenta condições excepcionais, de clima físico e humano, bem como de acessos, para captar essa procura. Não é portanto verdade que estejamos perante "expectativas sem fiabilidade".

    Nem sequer é evidente que, perante esta procura, a oferta esteja desqualificada. Existem empresas pouco qualificadas, mas existem igualmente empresas e grupos económicos altamente qualificados a operar no sector da construção. O problema residirá mais - e aqui concordo plenamente com AF - na capacidade do governo e das autarquias locais para lidar com esta explosão urbanística. É nítido que as grandes empresas e grupos económicos possuem hoje maior capacidade técnica de planeamento e de gestão do que as administrações públicas, o que leva a que, muitas vezes, sejam as empresas a elaborar os "planos de pormenor" em nome das autarquias, como aconteceu com o Vale da Rosa em Setúbal e a Mata em Sesimbra. Este desequilíbrio é que é preocupante, mas a culpa, se a há, não é das empresas mas sim do Estado.

    Isto não significa que esses planos não tenham qualidade. No caso da Mata de Sesimbra, existem duas zonas; numa delas, da iniciativa da empresa Pelicano, o plano teve o aval do World Wildlife Fund; na outra, da empresa "Casa Agrícola da Apostiça", o plano foi elaborado pela prestigiada arquitecta Olga Quintanilha, recentemente falecida. Eu sei que a iliteracia actual - mesmo entre os "cultivados" - conduz ao desprezo destes nomes. Mas não deveria ser assim. O que é desejável é que a implementação destes planos, de inegável qualidade, seja acompanhada de um maior controlo pelos poderes públicos e pela sociedade civil.

    Em suma: a visão das empresas como grandes especuladores, fazendo política de terra queimada, é um resíduo (ainda volumoso entre nós) do esquerdismo revolucionário que já é tempo de abandonar. A ideia de que as empresas não fazem contas e de que são os poderes públicos que têm de as fazer por elas, já se devia ter evaporado, após o julgamento histórico das nacionalizações. A procura de habitação na Margem Sul não é virtual: é real e dificilmente poderá ser travada através de um radicalismo ambientalista.

    Para curar um mal, é essencial um diagnóstico acertado. O diagnóstico de Adelino Fortunato está, no essencial, errado. Não defendo que esteja tudo bem: há problemas, grandes e muitos. Mas por isso mesmo é que devemos agir com inteligência, não aplicando à realidade modelos ultrapassados que vêm nas empresas o explorador maléfico. As empresas movem-se pela racionalidade económica e, sabendo-se que a sua actividade pode ser muito prejudicial em termos colectivos, cabe à sociedade estabelecer os incentivos/desincentivos que permitam preservar os valores ambientais e sociais, dando liberdade às empresas para se moverem dentro desse quadro.

    Não se pode impedir um rio de correr, por maior que seja a barragem que se construa; mas pode-se orientar o seu curso. Conviria, pois, apreciar estes problemas com a proximidade e o detalhe que merecem, evitando as ilusórias generalizações - em geral de base ideológica - com que se emolduram em talha dourada pinturas que não valem um chavo.

    Documentos relacionados:
  • Post do Pura Economia sobre a "bolha"
  • Mata de Sesimbra (na BioRegional)
  • Plano de Gestão Ambiental da Mata de Sesimbra
  • Artigo da Quercus sobre a Mata
  • Parecer da PGR sobre a transmissão de direitos de construção do Meco para a Mata

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  • sábado, outubro 29, 2005

    Boas intenções


    [ clique para ampliar ]

    Crédito: Comics.com via De Gustibus.

    EUA: propaganda encoberta

    Extractos de 5 documentos sobre o esforço da administração norte-americana para "plantar" notícias na imprensa, utilizando os meios de comunicação como correias de transmissão da sua propaganda:

  • Editorial do New York Times de 16.Março.2005 (reproduzido pela Truthout) - «Tal como é documentado esta semana por um artigo de David Barstow e Robin Stein no "The Times", mais de 20 agências federais, incluindo o Departamento de Estado e o Departamento da Defesa, forjaram falsos clips notíciosos. Nos seus primeiros 4 anos, a administração Bush gastou mais de 254 milhões de dólares do que a administração Clinton, em contratos com empresas de relações públicas. Muitas das gravações eram muito sofisticadas, incluindo "entrevistas" que pareciam genuínas e "repórteres" que se pareciam muito com os genuínos profissionais. Apenas espectadores sofisticados poderiam facilmente reconhecer que estes vídeos eram na realidade anúncios comerciais não pagos originados na Casa Branca ou em outras áreas do governo. Alguns dos vídeos caíam claramente no território interdito da propaganda, e o "Government Accountability Office" disse que pelo menos dois deles foram distribuídos ilegalmente. No entanto, muitas estações de televisão passaram esses videos, sem qualquer pista sobre de onde tinham realmente vindo. E enquanto que algumas delas alegam que cairam acidentalmente na armadilha, parece óbvio que, em muitos casos, estações de televisão com carência de repórteres, muito tempo de emissão para preencher e pouco dispostas a gastar dinheiro na recolha de material original, abdicam das suas responsabilidades editoriais a favor das equipas de informação do governo.»

  • Editorial do Washington Post de 16.Março.2005 (reproduzido pela Truthout) - «Esta técnica é simultaneamente ilegal e estúpida. Do ponto de vista legal as notícias pré-preparadas são abrangidas pela proibição do uso de fundos públicos para propaganda "doméstica". A interpretação da Administração de que : "não há problema em omitir a fonte desde que o spot seja 'puramente informacional'" - é inaceitável: salientar alguns "factos" e deixar outros de fora pode ser mais persuasivo do que a defesa aberta de uma causa, e é essa a razão pela qual a Administração escolheu esta técnica. Mais importante ainda: este tipo de propaganda mascarada de notícias representa um modo desleal de um governo conduzir a sua actividade: falsos jornalistas pagos pelo governo para divulgar a versão oficial das notícias é tão perturbante como a existência de verdadeiros comentadores pagos pelo governo para apoiar os seus pontos de vista.»

  • Despacho de Eric Boehlert no Salom.com (reproduzido pela Truthout) - «A controvérsia surgiu depois da emissão de um video a apoiar a reforma do Medicare criado pelo Centers for Medicare and Medicaid Services, uma agência que faz parte do Department of Health and Human Service. Profissionalmente produzido para se parecer com uma reportagem noticiosa para estações de televisão locais, o video era talvez demasiadamente realista. Tendo passado em quase 40 redes de televisões locais, nunca foi dito aos espectadores que o clip de 90 segundos tinha sido criado pelo governo. Pelo contrário, foi utilizado um narrador contratado, que terminou a peça com a frase: "De Washington, uma reportageem de Karen Ryan" (In Washington, I'm Karen Ryan reporting

  • Nota do U.S. Government Accountability Office(GAO) de 30.Set.2005 - «No decurso da nossa investigação [ao contrato entre o Departamento de Educação-DE e a empresa Ketchum] verificámos que o DE tinha contratado o North American Precis Syndicate para escrever um artigo de jornal intitulado "Parents want Science Classes that Make the Grade". O artigo relata um estudo que o DE conduziu acerca da opinião dos pais sobre a diminuição, nos estudantes, da literacia em ciência. O artigo, que foi publicado em numerosos jornais de pequena dimensão e circulares por todo o país, não revelava o envolvimento do DE na sua elaboração. A nossa conclusão (...) é que os materiais produzidos pelo governo, ou sob a sua direcção, e que não o identificam como a origem dos materiais, constituem propaganda encoberta.»

  • Despacho de Christian Miller no Los Angeles Times, 1.Out.2005
    - «A Administração Bush praticou "propaganda encoberta ao contratar o apresentador de televisão e conservador Armstrong Williams para promover um controverso programa educacional, revelaram investigadores do Congresso. (...) Também em pelo menos dois casos durante a Administração Clinton, Departamentos do governo utilizaram actores para representar repórteres em peças noticiosas com o objectivo de serem distribuídas para estações de televisão.»

    url:
    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/eua-propaganda-encoberta.html
  • sexta-feira, outubro 28, 2005

    American Tune

    Migrant Mother - Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange

    American Tune

    it's all right, it's all right,
    you can't be forever blessed
    still tomorrow's gonna be another working day
    and I'm tryin' to get some rest

    A letra da canção, de Paul Simon, «foi inspirada [negativamente] pela vitória de Nixon nas eleições de 1972, no fim do sonho hippie; Nixon representava a antítese do liberalismo que tinha sido o legado de Kenedy e de Martin Luther King.» [entrevista em RealAudio 1.0]. «É uma canção sobre a desilusão. Foi escrita após a eleição de Nixon. Perturba-me que a definição do que é ser Americano não inclua toda a gente, não inclua as minorias, em igualdade.»

    A história da melodia de "American Tune" data (pelo menos) do tempo em que o compositor alemão Hans Leo Hassler (1564-1612) a incluiu na canção de amor "Mein Gmüth ist mir verwirret" ("Dos meus confusos sentimentos/uma donzela é a causa"). Foi depois adaptada para os hinos "Herzlich thut mich verlangen" e "O Haupt voll' Blut und Wunden." Johann Sebastian Bach utilizou a melodia na sua "Paixão de S. Mateus" onde pode ser ouvida em cinco diferentes momentos.

    Imagem: Migrant Mother -Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange.

    url: http://www.paul-simon.info/PHP/files/2-07.mp3

    economista à paisana



    Ficheiro mp3 - 14.9MB - 62Kbps - 32:34 min.

    Tim Harford entrevistado para a Radio Economics fala do seu próximo livro The Undecover Economist, o "economista disfarçado" (ou "à paisana") que descobre a Economia em tudo, desde o ritual de tomar café até às marcações de encontros para namoriscar. Finalmente aparece um concorrente à altura de Dick Shade, o personagem de João César das Neves que "descobre" os crimes por recurso às leis económicas. Tim Harvard também fala sobre a escrita de blogues e sobre Tom Schelling.

    Harford mantém uma coluna no Financial Times, "Dear Economist", uma espécie de consultório sentimental onde "responde às perguntas pessoais dos leitores com recurso às ferramentas de Adam Smith". Iniciou agora uma outra coluna com o mesmo título do livro: "The Undercover Economist". Entre as suas colaborações pata o FT contam-se o artigo sobre Thomas Schelling que já citámos aqui, "How an economic theory beat the atomic bomb" e outro onde diz que "os almoços grátis sabem sempre mal". Ou seja: um economista com sentido de humor - se isso não constituir uma insanável contradição de termos.

    url do podcast:
    http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051027-340.mp3

    quinta-feira, outubro 27, 2005

    Novela mexicana

    Actualizado

    "Confirmo que muito em breve vou anunciar o dia e o local onde se vai realizar a apresentação do aeroporto da Ota, disse Mário Lino ao Diário Económico. O ministro da Obras Públicas sublinhou que "este projecto tem luz verde desde o programa de candidatura do Governo". Sem avançar datas, disse ainda que esta situação também se aplica ao projecto do TGV e que nas referidas apresentações constará "o ponto da situação das actualizações ultimas que foram elaboradas e vai ser apresentado o calendário das operações que vêm a seguir".

    Recorde-se que em Agosto o mesmo ministro tinha prometido fazer em Outubro uma apresentação dos estudos que fundamentam a construção do novo aeroporto de Lisboa, na sequência de uma "microcausa" lançada pelo Abrupto e à qual o Pura Economia aderiu: "Pode o governo sff colocar em linha os estudos sobre o aeroporto da Ota para que na sociedade portuguesa se valorize mais a "busca de soluções" em detrimento da "especulação"? [1]

    O tom agora adoptado pelo governo, através das declarações de Sócrates e de Mário Lino, parece indicar uma estratégia de facto consumado, afirmando que a coisa vai avançar porque estava no programa de governo, desvalorizando quaisquer debates ou discussões em torno do assunto. Vai haver uma apresentação,uma cerimónia e pronto!

    O jornal Público, por exemplo, diz que "para a cerimónia da Ota, cujas datas definitivas estão dependentes da agenda do Primeiro-ministro, o MOP está a preparar um conjunto de documentos destinados a justificar a necessidade de construção de um novo aeroporto, o porquê da opção pela Ota e o modelo de financiamento do projecto". Não é delicioso? Andam a "preparar documentos". A decisão foi tomada (com base em quê?) e agora andam a preparar os documentos...

    Hoje de manhã ouvi na RDP o director do Público comentar este assunto e referir como exemplo que existem dois estudos, com resultados diferentes, para as previsões de evolução de tráfego na Portela. O ministro tem feito declarações com base naquele que lhe é mais favorável: o que aponta para um esgotamento mais rápido da capacidade daquele aeroporto. José Manuel Fernendes manifestou o receio de que esta manipulação dos estudos (ocultando uns, exibindo outros) torne este processo bastante opaco.

    Um dos documentos que ainda não existe é, precisamente, o estudo económico e financeiro. Mas, e ainda segundo o Público (que cita "fontes oficiais") "apesar de não ter os estudos, o Governo confia na viabilidade económico-financeira da Ota e garante que não está só, dando como exemplo o interesse já manifestado por investidores privados no projecto. Então não!? Eu se fosse um investidor privado, particularmente do tipo luso-rent-seeking, estaria a esfregar as mãos de contente por se anunciar um investimento desta dimensão sem que o "dono-da-obra" tenha feito as contas. Com um pouco de engenho, até acabarão por ser os privados a fazer os estudos, como está agora na moda. Topam? Concursos públicos em que são os concorrentes a participar na elaboração do próprio concurso podendo, por essa via, influenciar os critérios de adjudicação, montantes base, etç.

    Parece uma daquelas novelas mexicanas em que os actores não acertam os movimentos bocais com o texto: neste caso, o texto são os documentos que (ainda) não há.

    [1] Miguel Gaspar, no Diário de Notícias, classifica esta campanha como "um exemplo do exercício de cidadania".