John K. Galbraith - «O Professor Friedman e os seus discípulos exerceram uma certa influência sobre as administrações Nixon e Ford. Ele era o mentor de William Simon, o ministro das Finanças do presidente Ford, e de Alan Greenspan, o chefe dos seus conselheiros económicos. Juntamente com Burus, o governador da Reserva Federal, eles inspiraram largamente o arsenal de medidas monetárias para jugular, sem contudo travar, a grande inflação de 1974-1975. Resultou daqui uma séria recessão, provocada pelo abrandamento brutal da produção, e o agravamento quase tão brutal do desemprego. (...) Nem Simon nem Greenspan, nem sequer o Professor Friedman, se viram em apuros. As verdadeiras vítimas foram aquelas que perderam o seu emprego. E entre eles conto Gerald Ford, que foi o primeiro presidente, desde Herbert Hoover, em 1932, a não ser reeleito.»
Nicole Salinger - «O Professor Friedman aconselhou durante algum tempo o Governo israelita...»
John K. Galbraith - «A tradição judaica afirma de facto que os filhos de Israel estão destinados a sofrer.»[ "Tudo ou quase sobre economia", J.K.Galbraith entrevistado por Nicole Salinger, ed. Europa América, 1983, pag.117 ]
segunda-feira, novembro 07, 2005
Friedman segundo Galbraith
América
West Side Story, o espectáculo musical com música de Leonard Bernstein e texto de Stephen Sondheim, é uma versão do "Romeu e Julieta" localizada em Nova Iorque, tendo como pano de fundo as rivalidades entre dois bandos de jovens urbanos, os Jets (que integram a segunda geração de imigrantes de origem europeia) e os Sharks (imigrantes mais recentes e de origem porto-riquenha). O musical estreou em 1957 e em 1961 foi realizado o filme, com a participação de Natalie Wood.Na página oficial existem duas versões para a letra da conhecida canção "América", uma referida como sendo da versão para palco e outra do filme. Não sei qual a justificação das diferenças nem a respectiva cronologia, mas surpreende-me o tom mais violento e de maior denúncia da discriminação racial que existe na versão do filme. A canção encena uma discussão entre porto-riquenhos sobre as vantagens ou desvantagens de emigrar para os EUA. Para uns trata-se de um sonho, para outros é um pesadelo. Na versão do filme o "retrato" da América é bastante cruel: "a vida é brilhante na América... se fores branco", "olham para ti e cobram a dobrar", "liberdade para... servir à mesa e engraxar sapatos", "portas que se fecham na tua cara", "crime organizado"... |
Anita - Buying on credit is so nice.
Bernardo - One look at us and they charge twice.
Rosália - I’ll have my own washing machine.
Juan - What will you have, though, to keep clean?
(refrão)
Skyscrapers bloom in America.
Cadillacs zoom in America.
Industry boom in America.
Twelve in a room in America.
Anita - Lots of new housing with more space.
Bernardo - Lots of doors slamming in our face.
Anita - I’ll get a terrace apartment.
Bernardo - Better get rid of your accent.
(refrão)
Life can be bright in America.
If you can fight in America.
Life is all right in America.
If you’re all white in America.
Anita e Consuelo - Here you are free and you have pride.
Bernardo - Long as you stay on your own side.
Anita - Free to be anything you choose.
Rapazes - Free to wait tables and shine shoes.
(refrão)
Everywhere grime in America,
Organized crime in America,
Terrible time in America.
You forget I’m in America.
| Comparativamente, a outra versão é bastante mais "benigna" para os EUA: deixa de haver crime e discriminação na América, os problemas estão apenas em Porto Rico: população endividada, doenças tropicais, casas superlotadas e que não funcionam. Uma hipótese é que esta tenha sido a versão original em palco, e que para o filme tenha sido escrita a versão mais crítica dos EUA. Mas também pode ter sido o contrário: o texto original (para palco e cinema) era o crítico e ter-se-ia posteriormente transformado em "politicamente correcto". Creio que as mais recentes gravações apresentam a versão "soft". Alguém arrisca um palpite sobre a origem destas duas versões? West Side Story foi alvo de uma controvérsia em 1999, quando o Comité da "Amherst-Pelham Regional High School" (Massachusetts) proibiu a sua representação por "estereotipar os porto-riquenhos". Esta proibição é curiosa, dado que na peça é a Polícia e o bando rival (Jets) que são apresentados como violentos e racistas, enquanto que os porto-riquenhos fazem o papel de vítimas. No entanto, o facto do filme ter como heroína uma "gringa" (Natalie Wood) que fala um ridículo americano "espanholizado" enquanto que a actriz Rita Moreno, uma genuína porto-riquenha, é relegada para um papel secundário, e de os Jets usarem expressões depreciativas inspiradas no sotaque mexicano, parece ter contribuido para desvalorizar outros aspectos da obra eventualmente mais simpáticos para os porto-riquenhos. Em 2004 um grupo de alunos de uma escola vizinha realizou outra produção, designada "West Side Stories", reflectindo sobre a referida controvérsia (ver artigo).A "emigração" de porto-riquenhos para Nova Iorque, por outro lado, parece ter estado relacionada com a "Operação Bootstrap", uma iniciativa do governo americano, no pós-guerra, para industrializar Porto Rico, que envolveu a "deslocalização" para o continente de muitos dos habitantes daquela colónia. Disponível online:
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Cansados da globalização
O Economist diz que o mundo está cansado da globalização, apesar da liberalização do comércio e outras formas de abertura serem mais necessárias do que nunca. E os sintomas não surgem apenas dos movimentos alternativos: no próprio Senado norte-americano existem propostas para tentar limitar o acesso da China aos mercados. A mais antiga revista do mundo está pessimista quanto à próxima cimeira da OMC, em Hong Kong [1]. |
«Frederic Bastiat, que era a mais estranha das criaturas, e um economista defensor do livre mercado, escreveu para este jornal em 1846 [2] exprimindo uma esperança nobre e romântica: "Oxalá que em breve todas as nações derrubem as barreiras que as separam". Estas palavras ecoaram 125 anos mais tarde na voz de John Lenon, que não era economista mas antes um capitalista global de sucesso: "imaginem que não existem países". Tal como ele salientou na canção, não é difícil de conseguir. Mas apesar da espectacular elevação dos padrões de vida que ocorreu à medida que as barreiras entre nações iam caindo, e apesar da fuga à pobreza de centenas de milhões de pessoas naquelas zonas que se juntaram à economia global, ainda é difícil convencer o público e os políticos do mérito da abertura. E agora, uma vez mais, está-se a formar uma nova fila para denunciar a abertura - isto é, a globalização. E está a colocar em risco o próximo grande avanço na liberalização comercial e a próxima grande redução da pobreza nos países em desenvolvimento.»
| [1] - A 6ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio terá lugar em Honk Kong nos próximos dias 13 a 18 de Dezembro. [2] - A revista Economist foi fundada em 1843, advogando desde o seu início a liberdade de comércio e combatendo as "corn laws" - impostos sobre a importação de cereais para a Inglaterra, alegadamente para proteger a produção nacional. |
Novidades
| Do Instituto Nacional de Estatística: Do Banco de Portugal: |
Revistas em linha
| «O que são revistas em linha ? De onde derivaram e o que é que aprendemos sobre elas nos últimos 10 anos ?» ("What are Online Magazines? How have they derived from and what gave we learnt about them in the last ten years?") Um estudo de Sanjeev Salhotra - estudante de mestrado sobre "Electronic Media" na Oxford Brookes University. Sanjeev mantém o blogue Shai. |
domingo, novembro 06, 2005
The Days of Pearly Spencer
![]() O irlandês David McWilliams compôs e gravou em 1967 uma das mais emblemáticas canções pop/rock dos anos 60: "The Days of Pearly Spencer". Inspirada num sem-abrigo que David conheceu em Ballymena (onde viveu desde os 3 anos) e de quem se tornou amigo, a letra traduzia uma profunda empatia e sentido humanista perante os que vivem à margem da sociedade. A melodia assentava na repetição duma linha melódica elementar, mas apresentava várias originalidades: o tom coloquial do cantor, a inesperada batida da bateria antes do refrão, a insólita distorção da voz durante o refrão, ao mesmo tempo que um agrupamento de cordas acentua o tom dramático com um riff obcessivo. A temática da solidão humana sem esperança e o recurso a uma orquestração "clássica" apresenta semelhanças com a canção "Eleanor Rigby", que os Beatles tinham lançado no ano anterior. Inicialmente boicotada pela BBC, a canção foi sistematicamente passada na "clandestina" Radio Caroline, a estação pirata localizada fora das águas territoriais inglesas, acabando por se tornar popular em vários países da Europa continental. Embora não tenha atingido os tops de vendas na voz de David McWilliams, a canção foi gravada por muitos cantores e veio a conhecer um grande sucesso em 1992, numa versão de Marc Almond.
Video-clips de "The Days of Pearly Spencer":
O blogue Rato Records disponibiliza para download uma compilação - "Nostalgia 13" - onde se inclui um outro conhecido tema de David McWilliams, "Three o’clock flamingo street", com uma estrutura musical muito semelhante a "The Days of Pearly Spencer". |
sábado, novembro 05, 2005
Contextualização
| João, no Metablog, recusa a ideia de que existam "forças" ou "genes" que constroem o comportamento humano, como lhe parece estar a ser sugerido pela Neuroeconomia, querendo "reduzir o fenómeno da agência humana a algo que pode ser explicado através de conceitos causais, como se este se tratasse de um fenómeno natural". Mais especificamente, acha que "o modelo explicativo das ciências naturais não se aplica às ciências humanas". Tratou-se uma reacção a um post de Tiago Mendes no Mão Invisível. Tiago Mendes respondeu no aforismos e afins, num post que gerou uma sequência de comentários que vale a pena ler. Eu compreendo as reticências de João perante a deriva mecanicista e reducionista das ciências ditas "naturais", que também fez o seu caminho nas "ciências sociais". Mas o uso de analogias mecanicistas tem sido um instrumento poderoso na formação de conhecimentos, seja para explicar seja para "entender". É certo que também conduz a atitudes arrogantes, de convicção que "já se descobriu tudo", ou quase. Foi assim que se julgou estar perto de dominar a cura das doenças humanas, ou de poder construir cidades perfeitas, ou de acabar para sempre com a inflação e o desemprego, para citar só alguns exemplos de coisas típicas do século passado. Acontece que a divisão em áreas de conhecimento, mesmo na banda larga das ciências "naturais" e "sociais", é uma simples conveniência que decorre apenas das limitações do observador humano. Não há no mundo leis "naturais" dum lado e "sociais" do outro: trata-se de uma mera convenção humana. Diz-se, por exemplo, que nas ciências sociais as leis são probabilísticas, enquanto que nas ciências naturais são exactas. Mas as leis "exactas" agem sobre corpos, constituídos por partículas que, elas mesmas, possuem comportamentos probabilísticos. A pedra largada do alto da Torre de Pisa pode cair sempre na direcção do centro da terra e a uma dada velocidade, mas não acontece assim com muitas das partículas de que é constituída; neste sentido, a lei da gravidade também é probabilística. Diz o João que os fenómenos humanos são dependentes do contexto. Sim, mas também todos os outros. O "isolamento" que fazemos de componentes desses fenómenos é apenas um estratagema nosso para lidar com a complexidade. É um truque, mas um truque útil, que nos tem permitido definir relações e prever ocorrências futuras, o que muito nos tem facilitado a vida (e complicado também). Todos os fenómenos são dependentes do contexto, a única diferença para o comportamento humano é existirem questões éticas que tornam mais difícil "dividi-lo em partes" - o que, em alguns casos, significaria dividir o próprio corpo em partes. Quanto à Neuroeconomia, percebo que a figuração de neurocientistas a olharem para imagens coloridas do interior do cérebro de cobaias humanas enquanto estas desempenham tarefas patetas (olhar para fotografias, jogar cartas, etç.) convoque uma visão ingénua e reducionista, e dê a ideia de que se está, uma vez mais, a tratar o corpo humano como uma máquina. Mas não é caso para tanto. Em primeiro lugar, temos que afastar o receio de admitir que operações mecânicas simples (ou aparentemente simples) participem em processos mentais complexos, desqualificando-os. Imaginemos que um homem, para salvar o filho que ficou esmagado debaixo de um objecto de peso brutal, exerce uma força muscular que a biologia pensaria ser impossível. Trata-se de um acto de altruísmo, para cuja explicação poderemos recorrer à psicologia ou à mesmo à filosofia. Mas será impossível que um biólogo estude o assunto do ponto de vista do "simples" movimento muscular? Ficará o altruísmo diminuído por causa disso? Segundo o João, não poderíamos estudar o músculo, porque o comportamento humano é dependente do contexto. Mas essa restrição não faz sentido. Pode-se estudar a parte sem ignorar o todo (embora haja sempre o perigo dessa ignorância ocorrer). A maior parte das teorias económicas assume que do grande caos das intenções individuais nasce um equilíbrio, seja através da maximização de funções de utilidade, seja através de instituições reguladoras (contratos, empresas, agência). O problema é que o grande sistema auto-regulador da economia, tal como é definido por essas teorias, está cheio de falhas: indivíduos que não maximizam a utilidade, de bolhas que explodem, de agentes que não fazem o que supostamente deviam, etç. De acordo com o velho princípio de que "se uma teoria não bate certo com a realidade, muda-se a realidade", as explicações para as inconsistências dessas teorias costumam ser: "há Estado a mais", "há regulação a mais", "há política a mais" - como se tais coisas não fossem, elas próprias, inerentes à actividade humana. Ora a Neurociência - e a Neuroeconomia subsidiariamente - tem progredido muito na explicação, quer do comportamento do ser humano, quer das inconsistências das teorias existentes. Ou seja: está-se, de certa forma, a negar a possibilidade duma teoria geral do comportamento. Está-se, precisamente, a lidar com o contexto. (Isto é talvez uma grande desilusão para o desejo de "descoberta" de teorias magníficas, redutíveis a fórmulas matemáticas simples e independentes do contexto: o homem ao mesmo nível de Deus; mas parece que não será assim). Uma das grandes ilusões da humanidade é a de que o comportamento humano é determinado pelo raciocínio. Pura asneira: o coração e o fígado (e tanta coisa mais) passam bem sem o pensamento racional. Aí, entra o teórico diz: bem, vamos designar isso como sistema nervoso simpático, e agora, arrumado isso, tudo o resto é racional. Depois descobre-se que certos sinais de aviso (a visão de um objecto a cair, p.ex.) desencadeiam actos defensivos mesmo antes do cérebro racional ter tido tempo de pensar no assunto. Ou que decisões altruístas - como contribuir para a caridade - são influenciadas pela presença de um desenho de uma cara que nos olha, apesar do cérebro racional saber que é apenas um desenho. O modelo racional treme. Assim, tem-se vindo a descobrir-se que acontece com o sistema de tomada de decisão o mesmo que com outros sistemas e órgãos humanos: que a sua forma e funcionamento incorporam o processo evolutivo, fazendo coexistir sistemas mais simples (que são idênticos aos de organismos primitivos e menos complexos), com sistemas mais complexos (que são exclusivos de organismos mais complexos). Para além disso, a "atribuição de tarefas" a estes sistemas obedece a um princípio de eficiência: quando a tarefa pode ser desempenhada por um processo simples (mais rápido, menos consumidor de recursos, ainda que menos eficaz) não é realizada por recurso a processos complexos (mais lentos, mais consumistas, ainda que mais eficazes). A descoberta destes processos e mecanismos não diminui em nada a dignidade do comportamento humano, nem o torna menos livre em termos da capacidade de decisão, individual ou colectiva. Qualquer teoria sobre o comportamento humano nunca poderá passar de uma aproximação, uma visão grosseira da complexidade do fenómeno. O ser humano nunca poderá desenvolver uma teoria para se explicar cabalmente a si próprio. Não pode estar acima da sua própria complexidade. Um motor de explosão a dois tempos, ainda que simples no funcionamento e número de peças, nunca se poderá "explicar" a si próprio. O corpo humano é mais complexo e por isso vai mais longe do que o motor na explicação do seu próprio comportamento, mas está tão próximo de "dominar" a sua complexidade como o motor o está da sua simplicidade. url deste post: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/11/contextualizao.html |
sexta-feira, novembro 04, 2005
Egrégia disciplina
| Vasco Pulido Valente, na sua habitual coluna da última página do jornal Público, desenha com palavras retratos caricaturais do país, os quais, à semelhança das boas caricaturas pictóricas, exageram nos traços mas acertam na âmago. É uma das colunas que gosto de ler diariamente. No exercício de hoje VPV atira-se aos candidatos presidenciais Soares e Cavaco, esmifrando um e outro com pinceladas rápidas. A "desconstrução" de Soares é um pouco mais elaborada, e percebe-se porquê: o retratado é do universo das humanidades, de onde VPV também descende. O desenho de Cavaco é mais difícil e a sua caricatura menos conseguida, pois VPV não penetra sequer - como a maioria dos "cultos" - nos meandros da Economia. Resta-lhe portanto o traço grosso: os economistas não lêm livros e são ignorantes. Tem graça e não ofende (a mim, não), e aqui fica: |
«Cavaco, esse, veio de um meio relativamente pobre e, presumo, apolítico; e ficou confinado, por necessidade ou falta de estímulo, à sua profissão. Além disso, achava (e não faço ideia se ainda acha) o pensamento económico mais do que suficiente para explicar o mundo, no que aliás não se distingue da generalidade dos seus colegas, uma classe particularmente pouco lida e intelectualmente limitada. Só depois, tarde na vida e já primeiro-ministro, descobriu que existia uma realidade irredutível à sua egrégia disciplina. E mesmo assim volta sempre à origem, como, por exemplo, na famosa metáfora da boa e má moeda, que ajudou a liquidar Santana.»
| A propósito: é "metáfora" ou "analogia"? Eu creio que é analogia - mas isso é talvez ignorância minha, que sou economista. Seja como for, num ou noutro caso, não passa de uma regra-de-três-simples. |
quinta-feira, novembro 03, 2005
A rapariga que aprendeu demais
![]() ![]() Ficheiro mp3 - 30:40 min. Russ Roberts entrevista Don Cox sobre o tema: "devem os homens de negócios egoístas ser abatidos?" Realização técnica da Radio Economics de James Reese. A entrevista começa com uma referência à peça de teatro "Born Yesterday", escrita em 1946 por Garson Kanin, e que teve duas versões cinematográficas: uma em 1950, com Judy Holliday, e outra em 1993 ("Nascida Ontem"), com Melanie Griffith no papel principal. Dois negóciantes sem escrúpulos vão a Washington tentar corromper um congressista para a realização de um negócio. Um deles leva consigo a vistosa namorada. Contudo, para que a simplória moça não o deixe ficar mal entre a socialite, decide facultar-lhe algumas aulas de cultura geral - tarefa que é atribuída a um jornalista. O problema é que a formação a leva a compreender a natureza suja dos negócios do namorado e a questionar toda a operação e o seu relacionamento. A peça, que se encontra actualmente em cena no Arena Stage, poderia servir para uma conversa sobre a importância - e as consequências, nem todas previsíveis - de transmitir conhecimentos às pessoas. Mas a conversa dos dois economistas neste podcast centra-se numa outra temática: será que do egoísmo dos indivíduos (nomeadamente nos negócios) nascem coisas más? Ou, por outras palavras, "devem os homem de negócios egoístas ser abatidos?" - designação que Russ Roberts deu à entrevista. É um tema sugestivo. A hipótese do egoísmo suporta grande parte da teoria económica desde que Adam Smith escreveu a metáfora da "mão invisível": "não é a bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que garante o nosso jantar, mas sim a consideração que eles têm pelo seu próprio interesse". E não são apenas os economistas que colocam esta hipótese: a neurobiologia anda a testar presentemente esta a mesma hipótese. Trata-se, portanto, de um tema interessante e actual, mas a entrevista é algo prejudicada pelo facto das "perguntas" do entrevistador serem mais longas do que as respostas do pobre entrevistado.
url do podcast: http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051031-351.mp3 |
O futuro móvel
![]() Podcast da entrevista de Brian C. Russell ao jornalista Dan Smith acerca do seminário "Media opportunities and strategies for the mobile, broadband generation". Dan fala sobre o impacto dos novos media na educação. url do podcast [5:51 min]: http://www.audioactivism.org/audio/AA_MMCon_Smith_GamingEDU.mp3 Um resumo de algumas das apresentações neste seminário foi feito por Michel Dare: "Mobile Media Memory Dump". Tratando-se de um outsider, Michael Dare apresenta uma visão ingénua e divertida sobre as "promessas" do explosivo mercado dos conteúdos para telemóveis. Interessante o dispositivo desenvolvido por Phillippos Mordohai: uma câmara de filmar com duas lentes - uma acima da outra - que nos tira uma fotografia olhando para a câmara e pode, a partir daí, construir uma imagem 3D a toda a nossa volta, incluindo a silhueta lateral com grande definição. Algo que pode ter aplicação em termos de segurança. Um outro software constrói caricaturas a partir da imagem de uma pessoa, não só de grande qualidade, mas possuindo, à escolha, o estilo de qualquer artista cujo trabalho tenha sido "scaneado" para o computador. «Imagine que vai pela rua e o telemóvel toca: é da loja Starbucks, ali ao lado, que detectou a sua passagem e envia-lhe a oferta de um desconto se não se importar de entrar na loja.» (parece mesmo o equivalente virtual daqueles restaurantes de zonas turísticas - ou das peixeiras do Norte - que agarram os clientes pelo colarinho.) «Chateado enquanto espera no dentista? Para quê ler uma velha edição da "Caras" quando tem 30 mil jogos à disposição do seu telemóvel? Preso no trânsito? Não se irrite: blogue com o telemóvel. Descansa durante um passeio ao campo? Para quê enjoar a paisagem, quando pode entreter-se a ver um "mobisódio"?» ("mobisódios" - episódios de um minuto de programas populares da televisão, disponíveis via telemóvel) Com tantas possibilidades, no entanto, parece que os milhões que actualmente se fazem neste mercado resultam maioritariamente da venda de toques musicais e de imagens de fundo. |
Jogos educacionais
Também sobre jogos educacionais, a New Media Centers vai realizar uma conferência sobre Educational Gaming, nos dias 7 e 8 de Dezembro, que decorrerá inteiramente on-line. O acesso, infelizmente, não é livre. As sessões terão 30 minutos e está assegurada a interactividade: conversas "hallway" [?], chats, possibilidade de colocar perguntas aos conferencistas, etç. Veja a: |
Tudo
| Tudo o que você sempre quis saber sobre a economia portuguesa mas teve medo de perguntar: como sustentar o crescimento, como assegurar a sustentabilidade fiscal, como "tratar" do défice, etç. etç. etç., tudo isso foi respondido pela OCDE, mas... para a economia dos EUA: "Economic Survey of the United States 2005": Quanto a Portugal, contentemo-nos com as concisas notas do Economic Outlook e do Economic Policy Reforms. |
Investigação nacional
| O Banco de Portugal colocou em linha o paper "Business Cycle at a Sectoral Level: the Portuguese Case", de Hugo J. Reis, onde se faz uma análise secorial do ciclo económico portugês, com ênfase no fenómeno do co-movimento, para os anos 1953-2003, em termos de Valor Acrescentado Bruto e Emprego. «Nos últimos 50 anos observaram-se mudanças estruturais substanciais na economia portuguesa. Estas mudanças significam que alguns sectores, nomeadamente os dos Serviços, estão a crescer em termos relativos. Apesar das diferenças existentes em aspectos tais como a tendência e a volatilidade, existe evidência da presença de co-movimento entre os sectores de actividade portugueses. Analisamos as causas desse fenómeno, tais como as ligações input-output, à luz da economia portuguesa.» Outros papers divulgados pelo BP são: |
Bons negócios
| No passado mês de Setembro verificou-se uma subida de 3,9 % no volume de negócios da indústria, uma média do crescimento no mercado interno (3,6%) e no externo (4,4%). A procura interna cresceu nos sectores do Investimento e na Energia, e diminuíu nos Bens de Consumo e Intermédios. Os mercados externos dinamizaram-se sobretudo nos Bens Intermédios. Não são más notícias mas, tratando-se de movimentos sujeitos a forte sazonalidade, há que esperar para ver o que realmente significam. Quanto à Energia, não sabemos se rir se chorar: é bom para uns mas é péssimo para os outros. Fonte: Índice de Volume de Negócios na Indústria, publicado pelo INE. |
quarta-feira, novembro 02, 2005
NetPay: concorrência nos cartões
A rede do BPN é a NetPay e encontra-se neste momento em fase de arranque. José Oliveira e Costa, em entrevista ao Diário de Notícias em 11 de Outubro (disponível aqui), revela que o sistema se apoia "numa solução tecnológica desenvolvida por uma empresa em Portugal, participada por várias entidades, que já tem a aplicação a funcionar em Moçambique e Cabo Verde e prevê avançar para outros países. O BPN queixa-se de concorrência desleal por parte da Unicre , referindo que, para desenvolvimento da NetPay, "mantivemos a operação secreta, conduzida por um número o mais restrito possível de pessoas. A certa altura, em Abril de 2004, houve uma fuga de informação. A partir daí, tudo começou a mudar em Portugal no que toca aos cartões (...) as taxas começaram a baixar. Há três anos praticavam-se taxas de 6% e elas estão a vir por aí abaixo, na casa dos 3%, o valor máximo. José Oliveira e Costa queixa-se de tratamento desigual: "Quando se utiliza um cartão de débito num POS (terminal de pagamento automático), a comunicação vai ao nosso centro, depois vai a Londres, de Londres volta a Portugal e vai à SIBS (Sociedade Interbancária de Serviços), desta vai ao banco que é debitado, volta à SIBS, vai a Londres, Londres faz o registo da operação, retém as verbas de comissões que credita no banco do cartão e manda para nós a operação. Se não existisse a SIBS, a operação era mais simples. O paradoxo desta situação tem a ver com o facto de haver uma entidade que autoriza que se pratiquem preços diferentes. Quando um cartão de um banco passa por um POS nosso, o banco emissor recebe 3%. Mas se passar por um POS da Unicre, esta só cobra 2%. A Unicre está autorizada por este acordo "fantasma" com a Visa Portugal, a reservar para o banco emissor uma verba muito inferior aquela que nós temos de pagar." |
Zimbabwe
| Um ministro do governo do Zimbabwe admitiu que muitos dos beneficiários com terras, no âmbito da política de redistribuição, sabem pouco sobre agricultura e que enquanto alguns estão a cultivar, outros não estão a fazer nada com os terrenos. "O maior desapontamento foi que pessoas sem a menor ideia de agricultura obtiveram terras e o resultado foi o declínio da produção". (Notícia do "Público") Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, a economia do Zimbabwe teve uma queda de 10,4 % em 2003 e de 4,2 % em 2004. A produção agricola está em queda e a fome ameaça tornar-se numa catástrofe, mesmo contando com ajuda alimentar de emergênca. A inflação homóloga desceu desde um máximo de 623 % em Janeiro de 2004 para estabilizar em torno de 130 % no início de 2005, mas disparou de novo para os 254 % em Julho deste ano. Para o ano corrente a previsão do FMI é de que o PNB sofra uma queda de 7,2% e que a inflação suba para valores acima dos 400%.
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terça-feira, novembro 01, 2005
O Terramoto, Voltaire, Rousseau, a Ciência e os Pós-Modernos
Do lado conservador considerava-se que, em última análise, tudo era governado por vontade divina: se ocorriam catástrofes, fomes e pestes, era por vontade de Deus, para castigar os pecadores e colocar à prova os fiéis. Qualquer Mal seria pequeno em comparação com o Bem divino. Do lado do iluminismo, já muito influenciado pelo embrionário movimento científico, defendia-se a existência de leis naturais, que era importante compreender. Se havia coisas que corriam mal (pestes, fomes, etç.) havia que procurar as causas e prevenir os males. À semelhança de um terramoto, a confrontação entre estas duas filosofias e visões do mundo foi acumulando tensões até que explodiu fragorosamente na Revolução Francesa (1789) , com numerosas réplicas nas várias revoluções liberais que ocorreram em diversos países (em Portugal, em 1820). A Revolução Francesa é assim considerada a fronteira entre o antigo e o novo regime, entre as idades Moderna e Contemporânea - mas a fronteira poderia também localizar-se na data do Terramoto de Lisboa. O Terramoto aconteceu na manhã do dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, em que era imperativo ir à missa. E foi dentro das igrejas que se encontravam grande parte das vítimas. Este facto impressionou muito as pessoas na época: se o terramoto era um castigo divino, como é que foi logo atingir os crentes que assistiam à missa, poupando muitos que não tinham lá ido? Os filósofos iluministas não deixaram de aproveitar os ensinamentos da catástrofe que se tinha abatido sobre uma das mais famosas cidades do mundo. Voltaire escreveu um longo poema dedicado ao Terramoto, onde começa por verberar os "filósofos enganados" que proclamam que "tudo está bem": |
«Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludidos que bradais "Tudo está bem";
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,
Escombros, despojos, cinzas desgraçadas,
Estas mulheres e crianças amontoadas
Estes membros dispersos sob mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora
(...)
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
"Deus vingou-se, a morte é o preço dos seus crimes" ?
Que crime, que falta cometeram estas crianças
Sobre o seio materno esmagadas e sangrando?
Lisboa, que já não é, teve ela mais vícios
Que Londres ou Paris, mergulhadas em delícias?
Lisboa em ruínas, e dança-se em Paris.»
(...)
Fonte: Meu Rumo (adaptado)
| Mas Voltaire escreveu ainda uma outra obra que reflecte a catástrofe: a divertida novela filosófica "Cândido ou o Optimismo", uma farsa corrosiva, com personagens bastante caricaturais: Cândido, um ingénuo que olha o mundo com a ignorância dos simples; e o filósofo Pangloss, defensor de que tudo está bem no mundo, incluindo as catástrofes, por ser essa a vontade divina; a base dos argumentos de Pangloss são que o mundo foi feito por Deus, e como Deus é perfeito, o mundo também só pode ser perfeito; se as coisas acontecem de determinada maneira, então é porque só podia ser assim e não de outro modo. Logo à entrada da barra de Lisboa, quando Jacques, o benfeitor de Cândido, cai ao mar (ao tentar salvar um marinheiro!) e Cândido o quer socorrer, Pangloss impede-o, "provando-lhe que a enseada de Lisboa fora feita expressamente para o afogar". Segue-se a descrição do terramoto que acontece mal Cândido e Pangloss colocam o pé em terra firme. |
«Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor, sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali se acham ancorados. Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tectos sobre os alicerces; trinta mil habitantesdetodos os sexos e idades são esmagados sob as ruínas. Assobiando e praguejando, dizia consigo o marinheiro: — "Muito há que aproveitar aqui". — "Qual poderá ser a razão suficiente deste fenómeno?" — indagava Pangloss.
"Chegou o fim do mundo!" exclamava Cândido. O marinheiro corre imediatamente para o meio dos destroços, afronta a morte em busca de dinheiro, acha-o, embriaga-se; depois de cozinhar a bebedeira, compra os favores da primeira moça de boa vontade que encontra sobre as ruínas das casas e no meio dos mortos e moribundos. Enquanto isto, Pangloss puxava-o pela manga:
— "Meu amigo — dizia-lhe — isso não está certo, ofendes a razão universal, empregas muito mal o teu tempo."
— "Com os diabos! — respondeu o outro — sou marinheiro e nasci em Batávia; marchei quatro vezes sobre o crucifixo, em quatro viagens que fiz ao Japão; e ainda me vens com a razão universal!" Alguns estilhaços de pedra tinham ferido Cândido, que estava estendido no meio da rua e coberto de destroços.
— "Ai! — dizia ele a Pangloss, arranja-me um pouco de vinho e de óleo, que estou a morrer."
— "Este terramoto não é novidade nenhuma — respondeu Pangloss. — A cidade de Lima experimentou os mesmos tremores de terra no ano passado; iguais causas, iguais efeitos: há com certeza uma corrente subterrânea de enxofre, desde Lima até Lisboa."
— "Nada mais provável — respondeu Cândido — mas, por amor de Deus, arranja-me óleo e vinho."
— "Como, provável? — replicou — Sustento que é a coisa mais demonstrada que existe!"
Cândido perdeu os sentidos, e Pangloss trouxe-lhe um pouco de água de uma fonte próxima.»
| Pangloss, de quem são muito citadas as frases "vivemos no melhor dos mundos" e "tudo está bem e não podia estar melhor", ocupa-se a consolar os desgraçados lisboetas com estas filosofias; no entanto, o seu discurso, escutado por um membro da Inquisição, é interpretada de modo equívoco: se Pangloss crê que tudo está sempre bem, achará então ele que o pecado original também foi uma coisa boa? Pangloss não compreende a subtileza, mas o inquisidor regista o facto, e a imagem do lacaio a servir-lhe vinho do Porto no meio dos destroços é muito sugestiva. |
«Pangloss consolou-os, assegurando-lhes que as coisas não poderiam ser de outra maneira: "Pois tudo isto — dizia ele — é o que há de melhor. Pois, se há um vulcão em Lisboa, não poderia estar noutra parte. Pois é impossível que as coisas não estejam onde estão. Pois tudo está bem".
Um homenzinho de preto, familiar da Inquisição, que se achava a seu lado, tomou polidamente a palavra e disse:
— Pelos vistos, o Senhor não crê no pecado original; pois se tudo está o melhor possível, então não houve nem queda, nem castigo.
— Peço humildemente perdão a Vossa Excelência — disse Pangloss ainda mais polidamente — pois a queda do homem e a maldição entravam necessariamente no melhor dos mundos possíveis.
— O Senhor não crê então na liberdade? — perguntou o familiar.
— Vossa Excelência me desculpará — disse Pangloss — a liberdade pode subsistir com a necessidade absoluta; pois era necessário que fôssemos livres, porque enfim a liberdade determinada...
Pangloss ia ainda no meio da frase, quando o familiar fez um sinal de cabeça para o seu lacaio, que lhe servia vinho do Porto.»
| Segue-se o capítulo VI, onde se dá conta de que os sábios da Universidade de Coimbra aconselharam a realização de um auto-de-fé para evitar novo terramoto. Repare-se na ironia da prisão com "apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol". Voltaire explora a aqui a sua convicção de que, levados à letra, os preceitos religiosos condenam os seus próprios defensores. Note-se igualmente a futilidade dos crimes: ter escutado uma conversa, ter retirado a gordura da comida. Resultado: novo terramoto! |
«Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer. Tinham, pois, prendido um biscainho que estava convencido de ter casado com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe tinham retirado a gordura: vieram, depois do almoço, prender o Doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: foram ambos conduzidos separadamente para apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois vestiram-lhes um sambenito e ornaram-lhes a cabeça com mitras de papel: a mitra e o sambenito de Cândido eram pintados de chamas invertidas e diabos que não tinham cauda nem garras; mas os diabos de Pangloss tinham cauda e garras, e as flamas eram verticais. Assim vestidos, marcharam em procissão, e ouviram um sermão muito patético, seguido de uma bela música em fabordão. Cândido foi açoitado em cadência, enquanto cantavam; o biscainho e os dois homens que não tinham querido comer gordura foram queimados, e Pangloss enforcado, embora não fosse esse o costume. No mesmo dia a terra tremeu de novo, com espantoso fragor."»
| Esta questão desencadearia ainda um aceso debate entre Voltaire e Rousseau. Voltaire ataca a filosofia "optimista" representada por Leibniz, Pope et Wolf ("um mundo criado por Deus, organizado pela Providência de tal modo que um Mal necessário, em proporção ínfima, é compensado por um Bem sempre maior") e adopta uma postura pessimista mas não de impotência - o homem é ignorante mas pode e deve lutar por melhorar a sua condição. Rousseau recusa esta perspectiva: recordemos que ele é o autor do "Discurso sobre as Ciências e as Artes" onde responde negativamente à questão de saber se «o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para melhorar os costumes". Em Portugal tivemos recentemente um debate entre o sociólogo pós-moderno Boaventura Sousa Santos (BSS) e o cientista António Manuel Baptista (AMB) - veiculado em conferências, entrevistas, artigos de opinião e mesmo em livros - onde foi repescada esta confrontação entre os dois vultos do iluminismo. BSS, no livro que esteve na origem da polémica, "Um discurso sobre as ciências", começa por citar Rousseau e o seu "Discurso" para depois atacar a Ciência - e prometer uma "nova ciência" pós-moderna. Uma manifestação recente deste debate ocorreu no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em Maio passado, com uma carta de AMB e uma resposta de BSS. O debate filosófico em torno do Terramoto não está assim tão afastado de nós. Por isso, ao ouvir os sinos de Lisboa a comemorar o evento, não perguntemos por quem esses sinos dobram: eles dobram (também) por nós. Algumas referências: |
segunda-feira, outubro 31, 2005
Sexo na cidade
| Já tínhamos aqui referido o mistério da "existência" de mais mulheres do que homens, o qual na imaginação masculina assume proporções que vão desde "2 para 1" até "7 para 1" [1]. Parte do mistério pode ter sido desvendado por Lena Edlund, que publicou no Scandinavian Journal of Economics o artigo "Sex and the City" |
«Nas áreas urbanas do mundo industrializado, as mulheres jovens são mais numerosas do que os homens jovens. Este paper propõe que esse padrão possa estar ligado a rendimentos mais elevados para os homens, nas áreas urbanas. O argumento é que as áreas urbanas oferecem melhores mercados de trabalho aos trabalhadores qualificados. Assumindo que existam mais homens qualificados do que mulheres qualificadas, isto traduzir-se-ia num excedente de homens. Contudo, a presença de homens com elevados rendimentos pode atrair, não apenas mulheres qualificadas, mas também mulheres não qualificadas. Assim, o excedente de mulheres em áreas urbanas pode resultar de uma combinação de melhores mercados de trabalho e casamento. Os dados dos municípios suecos suportam estes resultados»
Lena Edlund, continua que vais no bom caminho.
| Imaginem só se fosse um homem a escrever isto... Não há dúvida de que "os mercados não dormem". Por outro lado, o estudo de David G. Blanchflower e Andrew J. Oswald "Money, Sex and Happiness: An Empirical Study" aborda as ligações entre o rendimento, o comportamento sexual e a felicidade admitida, numa amostra de 16 mil americanos adultos. |
«O estudo mostra que a actividade sexual participa fortemente - e positivamente - nas equações da felicidade. Rendimentos mais elevados não permitem "comprar" mais sexo ou mais parceiros sexuais. As pessoas casadas praticam mais sexo do que as solteiras, divorciadas, viúvas ou separadas. O número de parceiros sexuais que maximiza a felicidade é 1. As mulheres com elevados níveis de educação tendem a ter menos parceiros sexuais. A homossexualidade não tem um efeito estatístico significativo na felicidade.»
[1]-Sem esquecer aquele filme de Stanley Kulbrick em que o Dr. Strangelove, como estratégia de sobrevivência a um holocausto nuclear, propõe povoar grutas com seres humanos pré-seleccionados, na proporção de 10 mulheres para cada homem". |
domingo, outubro 30, 2005
Proximidade e detalhe
O professor Adelino Fortunato - que suponho ser quem Luís Aguiar-Conraria refere elogiosamente neste post - escreveu em Agosto, no jornal Público, o artigo de opinião "A bolha especulativa do imobiliário", que foi reproduzido pelo blogue A mão invisível, e comentado pelos blogues Dolo Eventual e A-Sul. O que caracteriza as bolhas especulativas é que a valorização dos activos das empresas, nomeadamente em bolsa, sobe para patamares acima do seu real valor. O valor de mercado depende da oferta e da procura, mas pode acontecer que a procura se alimente a si própria sem fundamento na realidade: a procura das acções faz subir os seu preço, o que por sua vez realimenta a procura, e assim sucessivamente; é um mecanismo de feed-back que acabará por estoirar, tal como uma bolha que vai inchando até rebentar. Documentos relacionados: url deste post: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/proximidade-e-detalhe.html |
sábado, outubro 29, 2005
EUA: propaganda encoberta
| Extractos de 5 documentos sobre o esforço da administração norte-americana para "plantar" notícias na imprensa, utilizando os meios de comunicação como correias de transmissão da sua propaganda: - «A Administração Bush praticou "propaganda encoberta ao contratar o apresentador de televisão e conservador Armstrong Williams para promover um controverso programa educacional, revelaram investigadores do Congresso. (...) Também em pelo menos dois casos durante a Administração Clinton, Departamentos do governo utilizaram actores para representar repórteres em peças noticiosas com o objectivo de serem distribuídas para estações de televisão.» url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/eua-propaganda-encoberta.html |
sexta-feira, outubro 28, 2005
American Tune
![]() American Tune
A história da melodia de "American Tune" data (pelo menos) do tempo em que o compositor alemão Hans Leo Hassler (1564-1612) a incluiu na canção de amor "Mein Gmüth ist mir verwirret" ("Dos meus confusos sentimentos/uma donzela é a causa"). Foi depois adaptada para os hinos "Herzlich thut mich verlangen" e "O Haupt voll' Blut und Wunden." Johann Sebastian Bach utilizou a melodia na sua "Paixão de S. Mateus" onde pode ser ouvida em cinco diferentes momentos. Imagem: Migrant Mother -Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange. url: http://www.paul-simon.info/PHP/files/2-07.mp3 |
economista à paisana
![]() Ficheiro mp3 - 14.9MB - 62Kbps - 32:34 min. Tim Harford entrevistado para a Radio Economics fala do seu próximo livro The Undecover Economist, o "economista disfarçado" (ou "à paisana") que descobre a Economia em tudo, desde o ritual de tomar café até às marcações de encontros para namoriscar. Finalmente aparece um concorrente à altura de Dick Shade, o personagem de João César das Neves que "descobre" os crimes por recurso às leis económicas. Tim Harvard também fala sobre a escrita de blogues e sobre Tom Schelling. Harford mantém uma coluna no Financial Times, "Dear Economist", uma espécie de consultório sentimental onde "responde às perguntas pessoais dos leitores com recurso às ferramentas de Adam Smith". Iniciou agora uma outra coluna com o mesmo título do livro: "The Undercover Economist". Entre as suas colaborações pata o FT contam-se o artigo sobre Thomas Schelling que já citámos aqui, "How an economic theory beat the atomic bomb" e outro onde diz que "os almoços grátis sabem sempre mal". Ou seja: um economista com sentido de humor - se isso não constituir uma insanável contradição de termos. url do podcast: http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051027-340.mp3 |
quinta-feira, outubro 27, 2005
Novela mexicana
| Actualizado "Confirmo que muito em breve vou anunciar o dia e o local onde se vai realizar a apresentação do aeroporto da Ota, disse Mário Lino ao Diário Económico. O ministro da Obras Públicas sublinhou que "este projecto tem luz verde desde o programa de candidatura do Governo". Sem avançar datas, disse ainda que esta situação também se aplica ao projecto do TGV e que nas referidas apresentações constará "o ponto da situação das actualizações ultimas que foram elaboradas e vai ser apresentado o calendário das operações que vêm a seguir". Recorde-se que em Agosto o mesmo ministro tinha prometido fazer em Outubro uma apresentação dos estudos que fundamentam a construção do novo aeroporto de Lisboa, na sequência de uma "microcausa" lançada pelo Abrupto e à qual o Pura Economia aderiu: "Pode o governo sff colocar em linha os estudos sobre o aeroporto da Ota para que na sociedade portuguesa se valorize mais a "busca de soluções" em detrimento da "especulação"? [1] O tom agora adoptado pelo governo, através das declarações de Sócrates e de Mário Lino, parece indicar uma estratégia de facto consumado, afirmando que a coisa vai avançar porque estava no programa de governo, desvalorizando quaisquer debates ou discussões em torno do assunto. Vai haver uma apresentação,uma cerimónia e pronto! O jornal Público, por exemplo, diz que "para a cerimónia da Ota, cujas datas definitivas estão dependentes da agenda do Primeiro-ministro, o MOP está a preparar um conjunto de documentos destinados a justificar a necessidade de construção de um novo aeroporto, o porquê da opção pela Ota e o modelo de financiamento do projecto". Não é delicioso? Andam a "preparar documentos". A decisão foi tomada (com base em quê?) e agora andam a preparar os documentos... Hoje de manhã ouvi na RDP o director do Público comentar este assunto e referir como exemplo que existem dois estudos, com resultados diferentes, para as previsões de evolução de tráfego na Portela. O ministro tem feito declarações com base naquele que lhe é mais favorável: o que aponta para um esgotamento mais rápido da capacidade daquele aeroporto. José Manuel Fernendes manifestou o receio de que esta manipulação dos estudos (ocultando uns, exibindo outros) torne este processo bastante opaco. Um dos documentos que ainda não existe é, precisamente, o estudo económico e financeiro. Mas, e ainda segundo o Público (que cita "fontes oficiais") "apesar de não ter os estudos, o Governo confia na viabilidade económico-financeira da Ota e garante que não está só, dando como exemplo o interesse já manifestado por investidores privados no projecto. Então não!? Eu se fosse um investidor privado, particularmente do tipo luso-rent-seeking, estaria a esfregar as mãos de contente por se anunciar um investimento desta dimensão sem que o "dono-da-obra" tenha feito as contas. Com um pouco de engenho, até acabarão por ser os privados a fazer os estudos, como está agora na moda. Topam? Concursos públicos em que são os concorrentes a participar na elaboração do próprio concurso podendo, por essa via, influenciar os critérios de adjudicação, montantes base, etç. Parece uma daquelas novelas mexicanas em que os actores não acertam os movimentos bocais com o texto: neste caso, o texto são os documentos que (ainda) não há. [1] Miguel Gaspar, no Diário de Notícias, classifica esta campanha como "um exemplo do exercício de cidadania". |
Défice cerebral
| «Um em cada cinco portugueses com qualificações superiores (universitárias ou técnicas) vive fora de Portugal, uma "fuga" que coloca o nosso país no topo do ranking europeu da perda de trabalhadores qualificados. E na desconfortável 21ª posição na "fuga de cérebros" entre as nações do mundo com mais de cinco milhões de habitantes. Uma perda que não consegue ser compensada pela entrada no território de cérebros estrangeiros e tende a piorar com os anos. [...] «Os destinos, como seria de esperar, estão no mundo mais desenvolvido, liderados pelo Canadá e a Austrália, seguidos dos EUA e da União Europeia. No deve e haver, Portugal acaba mesmo assim por perder. Apesar de 8,6% dos imigrantes que viviam cá em 1990 (cerca de 14.500) terem estudos graduados, a comparação com o número de portugueses instruídos que estavam no estrangeiro (mais de 78 mil) resultava num saldo negativo de 63 mil trabalhadores qualificados, um "défice de cérebros" de 1% da população activa. Dez anos depois, os imigrantes qualificados eram já 14,4% (29.800), mas a debandada portuguesa subira para 122.200 o défice de qualificação ia já nos 1,7%.» - Jornal de Notícias Para além do desfalque cerebral, esta notícia tem um desagradável efeito colateral, que é o de fazer sentir mais estúpidos os que não emigraram...
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Mudar de empresários
| Mais uma estratégia para Portugal: mudar de empresários. «António Borges defendeu ontem no Congresso dos Economistas que o Governo centralize toda a sua atenção nos novos empresários audaciosos e dispostos a arriscar e inovar, assumindo um corte com os antigos, limitados à reivindicação de subsídios para as suas empresas de futuro incerto, como condição necessária para um novo modelo de desenvolvimento económico para o País.» - Correio da Manhã |
Nas nuvens
Frank Shostak, Mises blog |
O Congresso
| Está a decorrer na cidade do Porto o "Congresso Nacional de Economistas", organizado pela respectiva Ordem. Ficamos a aguardar as comunicações e as conclusões. |
Correspondência
Legenda das fotografias dos dois cientistas, no jornal Público de hoje, em artigo sobre o estudo de João Gama Oliveira (U. Minho) e Albert László Barabási acerca da prática epistolar daqueles cientistas: "Darwin and Einstein correspondence patterns", publicado pela revista Nature (ed. 437). O texto, em pdf, encontra-se aqui. |
Lá como cá
| O Financial Times diz que a Alemanha está a ponderar a subida da idade da reforma de 65 para 67 anos, para «fazer face ao rápido envelhecimento da população e à subida em espiral das despesas com pensões.» A medida tem sido objecto de consultas entre os diversos partidos e federações sindicais e poderá ser deliberada antes do fim do corrente ano. |
Economia em Agosto
| O Banco de Portugal publicou o Boletim Estatístico de Outubro (com a maioria dos dados relativos a Agosto), onde se destaca o agravamento da inflação. Agrava-se igualmente o saldo da Balança de Pagamentos, com aumento do saldo negativo bos bens e rendimentos, e diminuição do saldo positivo nos serviços e transferências correntes. A taxa de desemprego apresenta no II trimestre o valor de 7,2% - uma ligeira melhoria face ao I trimestre (7,5%). Em número absolutos o número de desempregados diminuiu entre estes dois períodos de 412,6 mil para 399,3 mil. A diminuição foi maior entre os jovens (menos 0,7%) e também mais entre as mulheres (0,5%). |

West Side Story foi alvo de uma controvérsia em 1999, quando o Comité da "Amherst-Pelham Regional High School" (Massachusetts) proibiu a sua representação por "estereotipar os porto-riquenhos". Esta proibição é curiosa, dado que na peça é a Polícia e o bando rival (Jets) que são apresentados como violentos e racistas, enquanto que os porto-riquenhos fazem o papel de vítimas. No entanto, o facto do filme ter como heroína uma "gringa" (Natalie Wood) que fala um ridículo americano "espanholizado" enquanto que a actriz 
O Economist diz que o mundo está 












