terça-feira, novembro 01, 2005

O Terramoto, Voltaire, Rousseau, a Ciência e os Pós-Modernos


As ondas do maremoto de Lisboa propagaram-se também pelo mundo das ideias. (Via DivulgandoBD - clique na imagem)

O Terramoto de Lisboa de 1755, cujos 250 anos se comemoram hoje, teve um impacto importante no mundo das ideias da sua época. Recordemos que se encontravam em confronto duas visões do mundo: dum lado a visão antiga, dogmática, conservadora, imobilista, de base religiosa. Do outro lado os filósofos do iluminismo, revolucionários e críticos da sociedade antiga.

Do lado conservador considerava-se que, em última análise, tudo era governado por vontade divina: se ocorriam catástrofes, fomes e pestes, era por vontade de Deus, para castigar os pecadores e colocar à prova os fiéis. Qualquer Mal seria pequeno em comparação com o Bem divino.

Do lado do iluminismo, já muito influenciado pelo embrionário movimento científico, defendia-se a existência de leis naturais, que era importante compreender. Se havia coisas que corriam mal (pestes, fomes, etç.) havia que procurar as causas e prevenir os males.

À semelhança de um terramoto, a confrontação entre estas duas filosofias e visões do mundo foi acumulando tensões até que explodiu fragorosamente na Revolução Francesa (1789) , com numerosas réplicas nas várias revoluções liberais que ocorreram em diversos países (em Portugal, em 1820).

A Revolução Francesa é assim considerada a fronteira entre o antigo e o novo regime, entre as idades Moderna e Contemporânea - mas a fronteira poderia também localizar-se na data do Terramoto de Lisboa.

O Terramoto aconteceu na manhã do dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, em que era imperativo ir à missa. E foi dentro das igrejas que se encontravam grande parte das vítimas. Este facto impressionou muito as pessoas na época: se o terramoto era um castigo divino, como é que foi logo atingir os crentes que assistiam à missa, poupando muitos que não tinham lá ido?

Os filósofos iluministas não deixaram de aproveitar os ensinamentos da catástrofe que se tinha abatido sobre uma das mais famosas cidades do mundo. Voltaire escreveu um longo poema dedicado ao Terramoto, onde começa por verberar os "filósofos enganados" que proclamam que "tudo está bem":
«Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mantém!
Filósofos iludidos que bradais "Tudo está bem";
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,
Escombros, despojos, cinzas desgraçadas,
Estas mulheres e crianças amontoadas
Estes membros dispersos sob mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devora
(...)
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
"Deus vingou-se, a morte é o preço dos seus crimes" ?
Que crime, que falta cometeram estas crianças
Sobre o seio materno esmagadas e sangrando?
Lisboa, que já não é, teve ela mais vícios
Que Londres ou Paris, mergulhadas em delícias?
Lisboa em ruínas, e dança-se em Paris.»
(...)

Fonte: Meu Rumo (adaptado)
Mas Voltaire escreveu ainda uma outra obra que reflecte a catástrofe: a divertida novela filosófica "Cândido ou o Optimismo", uma farsa corrosiva, com personagens bastante caricaturais: Cândido, um ingénuo que olha o mundo com a ignorância dos simples; e o filósofo Pangloss, defensor de que tudo está bem no mundo, incluindo as catástrofes, por ser essa a vontade divina; a base dos argumentos de Pangloss são que o mundo foi feito por Deus, e como Deus é perfeito, o mundo também só pode ser perfeito; se as coisas acontecem de determinada maneira, então é porque só podia ser assim e não de outro modo. Logo à entrada da barra de Lisboa, quando Jacques, o benfeitor de Cândido, cai ao mar (ao tentar salvar um marinheiro!) e Cândido o quer socorrer, Pangloss impede-o, "provando-lhe que a enseada de Lisboa fora feita expressamente para o afogar". Segue-se a descrição do terramoto que acontece mal Cândido e Pangloss colocam o pé em terra firme.
«Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor, sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali se acham ancorados. Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tectos sobre os alicerces; trinta mil habitantesdetodos os sexos e idades são esmagados sob as ruínas. Assobiando e praguejando, dizia consigo o marinheiro: — "Muito há que aproveitar aqui". — "Qual poderá ser a razão suficiente deste fenómeno?" — indagava Pangloss.

"Chegou o fim do mundo!" exclamava Cândido. O marinheiro corre imediatamente para o meio dos destroços, afronta a morte em busca de dinheiro, acha-o, embriaga-se; depois de cozinhar a bebedeira, compra os favores da primeira moça de boa vontade que encontra sobre as ruínas das casas e no meio dos mortos e moribundos. Enquanto isto, Pangloss puxava-o pela manga:
— "Meu amigo — dizia-lhe — isso não está certo, ofendes a razão universal, empregas muito mal o teu tempo."
— "Com os diabos! — respondeu o outro — sou marinheiro e nasci em Batávia; marchei quatro vezes sobre o crucifixo, em quatro viagens que fiz ao Japão; e ainda me vens com a razão universal!" Alguns estilhaços de pedra tinham ferido Cândido, que estava estendido no meio da rua e coberto de destroços.
— "Ai! — dizia ele a Pangloss, arranja-me um pouco de vinho e de óleo, que estou a morrer."
— "Este terramoto não é novidade nenhuma — respondeu Pangloss. — A cidade de Lima experimentou os mesmos tremores de terra no ano passado; iguais causas, iguais efeitos: há com certeza uma corrente subterrânea de enxofre, desde Lima até Lisboa."
— "Nada mais provável — respondeu Cândido — mas, por amor de Deus, arranja-me óleo e vinho."
— "Como, provável? — replicou — Sustento que é a coisa mais demonstrada que existe!"
Cândido perdeu os sentidos, e Pangloss trouxe-lhe um pouco de água de uma fonte próxima.»
Pangloss, de quem são muito citadas as frases "vivemos no melhor dos mundos" e "tudo está bem e não podia estar melhor", ocupa-se a consolar os desgraçados lisboetas com estas filosofias; no entanto, o seu discurso, escutado por um membro da Inquisição, é interpretada de modo equívoco: se Pangloss crê que tudo está sempre bem, achará então ele que o pecado original também foi uma coisa boa? Pangloss não compreende a subtileza, mas o inquisidor regista o facto, e a imagem do lacaio a servir-lhe vinho do Porto no meio dos destroços é muito sugestiva.
«Pangloss consolou-os, assegurando-lhes que as coisas não poderiam ser de outra maneira: "Pois tudo isto — dizia ele — é o que há de melhor. Pois, se há um vulcão em Lisboa, não poderia estar noutra parte. Pois é impossível que as coisas não estejam onde estão. Pois tudo está bem".
Um homenzinho de preto, familiar da Inquisição, que se achava a seu lado, tomou polidamente a palavra e disse:
— Pelos vistos, o Senhor não crê no pecado original; pois se tudo está o melhor possível, então não houve nem queda, nem castigo.
— Peço humildemente perdão a Vossa Excelência — disse Pangloss ainda mais polidamente — pois a queda do homem e a maldição entravam necessariamente no melhor dos mundos possíveis.
— O Senhor não crê então na liberdade? — perguntou o familiar.
— Vossa Excelência me desculpará — disse Pangloss — a liberdade pode subsistir com a necessidade absoluta; pois era necessário que fôssemos livres, porque enfim a liberdade determinada...
Pangloss ia ainda no meio da frase, quando o familiar fez um sinal de cabeça para o seu lacaio, que lhe servia vinho do Porto.»
Segue-se o capítulo VI, onde se dá conta de que os sábios da Universidade de Coimbra aconselharam a realização de um auto-de-fé para evitar novo terramoto. Repare-se na ironia da prisão com "apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol". Voltaire explora a aqui a sua convicção de que, levados à letra, os preceitos religiosos condenam os seus próprios defensores. Note-se igualmente a futilidade dos crimes: ter escutado uma conversa, ter retirado a gordura da comida. Resultado: novo terramoto!
«Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer. Tinham, pois, prendido um biscainho que estava convencido de ter casado com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe tinham retirado a gordura: vieram, depois do almoço, prender o Doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: foram ambos conduzidos separadamente para apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois vestiram-lhes um sambenito e ornaram-lhes a cabeça com mitras de papel: a mitra e o sambenito de Cândido eram pintados de chamas invertidas e diabos que não tinham cauda nem garras; mas os diabos de Pangloss tinham cauda e garras, e as flamas eram verticais. Assim vestidos, marcharam em procissão, e ouviram um sermão muito patético, seguido de uma bela música em fabordão. Cândido foi açoitado em cadência, enquanto cantavam; o biscainho e os dois homens que não tinham querido comer gordura foram queimados, e Pangloss enforcado, embora não fosse esse o costume. No mesmo dia a terra tremeu de novo, com espantoso fragor."»
Esta questão desencadearia ainda um aceso debate entre Voltaire e Rousseau. Voltaire ataca a filosofia "optimista" representada por Leibniz, Pope et Wolf ("um mundo criado por Deus, organizado pela Providência de tal modo que um Mal necessário, em proporção ínfima, é compensado por um Bem sempre maior") e adopta uma postura pessimista mas não de impotência - o homem é ignorante mas pode e deve lutar por melhorar a sua condição. Rousseau recusa esta perspectiva: recordemos que ele é o autor do "Discurso sobre as Ciências e as Artes" onde responde negativamente à questão de saber se «o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para melhorar os costumes".

Em Portugal tivemos recentemente um debate entre o sociólogo pós-moderno Boaventura Sousa Santos (BSS) e o cientista António Manuel Baptista (AMB) - veiculado em conferências, entrevistas, artigos de opinião e mesmo em livros - onde foi repescada esta confrontação entre os dois vultos do iluminismo. BSS, no livro que esteve na origem da polémica, "Um discurso sobre as ciências", começa por citar Rousseau e o seu "Discurso" para depois atacar a Ciência - e prometer uma "nova ciência" pós-moderna. Uma manifestação recente deste debate ocorreu no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em Maio passado, com uma carta de AMB e uma resposta de BSS.

O debate filosófico em torno do Terramoto não está assim tão afastado de nós. Por isso, ao ouvir os sinos de Lisboa a comemorar o evento, não perguntemos por quem esses sinos dobram: eles dobram (também) por nós.

Algumas referências:
  • "Candido ou o Optimismo" (vide cap. V, VI e VII)
  • "Poème sur le désastre de Lisbonne"
  • "O Terramoto na blogosgera" (Technorati)
  • "O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição" - Rua da Judiaria
  • "Pequeno Blogue do Grande Terramoto"
  • "Lisboa antes do terramoto" (doc. Word)
  • "Cataclismos e Catástrofes: reflexões acerca das relações entre o sistema político e o sistema mediático" (pdf)
  • segunda-feira, outubro 31, 2005

    Sexo na cidade

    tínhamos aqui referido o mistério da "existência" de mais mulheres do que homens, o qual na imaginação masculina assume proporções que vão desde "2 para 1" até "7 para 1" [1].

    Parte do mistério pode ter sido desvendado por Lena Edlund, que publicou no Scandinavian Journal of Economics o artigo "Sex and the City"


    Lena Edlund, continua que vais no bom caminho.

    «Nas áreas urbanas do mundo industrializado, as mulheres jovens são mais numerosas do que os homens jovens. Este paper propõe que esse padrão possa estar ligado a rendimentos mais elevados para os homens, nas áreas urbanas. O argumento é que as áreas urbanas oferecem melhores mercados de trabalho aos trabalhadores qualificados. Assumindo que existam mais homens qualificados do que mulheres qualificadas, isto traduzir-se-ia num excedente de homens. Contudo, a presença de homens com elevados rendimentos pode atrair, não apenas mulheres qualificadas, mas também mulheres não qualificadas. Assim, o excedente de mulheres em áreas urbanas pode resultar de uma combinação de melhores mercados de trabalho e casamento. Os dados dos municípios suecos suportam estes resultados»
    Imaginem só se fosse um homem a escrever isto... Não há dúvida de que "os mercados não dormem".

    Por outro lado, o estudo de David G. Blanchflower e Andrew J. Oswald "Money, Sex and Happiness: An Empirical Study" aborda as ligações entre o rendimento, o comportamento sexual e a felicidade admitida, numa amostra de 16 mil americanos adultos.
    «O estudo mostra que a actividade sexual participa fortemente - e positivamente - nas equações da felicidade. Rendimentos mais elevados não permitem "comprar" mais sexo ou mais parceiros sexuais. As pessoas casadas praticam mais sexo do que as solteiras, divorciadas, viúvas ou separadas. O número de parceiros sexuais que maximiza a felicidade é 1. As mulheres com elevados níveis de educação tendem a ter menos parceiros sexuais. A homossexualidade não tem um efeito estatístico significativo na felicidade.»

    Cristiana Oliveira, 40 anos, actriz, do Rio de Janeiro, e que já foi casada três vezes, acredita que "há duas mulheres para cada homem". Por isso parece-lhe lógico que "eles não queiram ficar com apenas uma". [link]

    A realidade é que no Brasil, em 2000, havia 97 homens por cada 100 mulheres, prevendo-se que em 2050 sejam 95 homens por cada 100 mulheres - muito longe das previsões de Cristiana. [link]

    [1]-Sem esquecer aquele filme de Stanley Kulbrick em que o Dr. Strangelove, como estratégia de sobrevivência a um holocausto nuclear, propõe povoar grutas com seres humanos pré-seleccionados, na proporção de 10 mulheres para cada homem".

    domingo, outubro 30, 2005

    Estatísticas do INE

  • Taxas de juro implícitas no crédito à habitação
  • Vendas no comércio a retalho
  • post no Neuroeconomia:

      A Economia segundo Damásio  

    Proximidade e detalhe

    O professor Adelino Fortunato - que suponho ser quem Luís Aguiar-Conraria refere elogiosamente neste post - escreveu em Agosto, no jornal Público, o artigo de opinião "A bolha especulativa do imobiliário", que foi reproduzido pelo blogue A mão invisível, e comentado pelos blogues Dolo Eventual e A-Sul.

    Adelino Fortunato começa o seu artigo por referir os receios de algumas instituições internacionais sobre a "bolha" especulativa no imobiliário, a qual ele compara depois com a "bolha" das dotcoms, para concluir que " quando este processo atingir os seus limites e a bolha rebentar, a queda dos preços é inevitável (...) com a agravante de se realizar num contexto de baixa inflação e exigir uma prolongada descida de muitos anos para que se atinjam os valores médios de longo prazo dos preços em termos reais."

    A seguir vem a clássica aplicação do fenómeno ao caso português (como é sabido, cada português acha que Portugal é um caso único no mundo, para o bem e para o mal) escrevendo: "O que é especificamente português é a forma irracional do ponto vista urbanístico, ambiental, cultural e social de muitos projectos dos operadores do mercado imobiliário, que se desenvolvem na base de cenários e expectativas sem fiabilidade, e cuja incongruência se combina facilmente com a falta de capacidade política, técnica e cultural das autarquias e do governo central." A previsão catastrófica de AF é que "quando o movimento de descida e contracção das margens de lucro se fizer sentir, quebrando a resistência dos grandes operadores que constroem, muitas vezes, como forma de investimento sem preocupações de venda imediata, o pânico pode invadir o mercado".

    Bem, a definição aplicar-se-ia a qualquer "bolha" especulativa em qualquer parte do mundo, mas nós sabemos onde o professor quer chegar: a crítica ao projecto urbanístico conhecido como "Mata de Sesimbra", contra o qual tem escrito vários artigos na imprensa, recorrendo a argumentos como o da ilegalidade duma assinatura do então ministro Isaltino ou o zurzir da "política do betão" das autarquias, etç.

    O que caracteriza as bolhas especulativas é que a valorização dos activos das empresas, nomeadamente em bolsa, sobe para patamares acima do seu real valor. O valor de mercado depende da oferta e da procura, mas pode acontecer que a procura se alimente a si própria sem fundamento na realidade: a procura das acções faz subir os seu preço, o que por sua vez realimenta a procura, e assim sucessivamente; é um mecanismo de feed-back que acabará por estoirar, tal como uma bolha que vai inchando até rebentar.

    Não creio que seja isso que se passa na Margem Sul do Tejo. O que acontece é que a procura de habitações é enorme e é real. Decorre certamente da macrocefalia lisboeta e da concentração na capital de importantes fluxos financeiros. Isto atrai novas actividades e novos habitantes, que procuram habitação na Margem Sul, dadas as facilidades de acesso a Lisboa, particularmente através da nova ponte. Mas tal concentração de riqueza - a mesma que colocou a região de Lisboa fora dos fundos comunitários - faz aumentar também a procura de segunda habitação. E a margem Sul apresenta condições excepcionais, de clima físico e humano, bem como de acessos, para captar essa procura. Não é portanto verdade que estejamos perante "expectativas sem fiabilidade".

    Nem sequer é evidente que, perante esta procura, a oferta esteja desqualificada. Existem empresas pouco qualificadas, mas existem igualmente empresas e grupos económicos altamente qualificados a operar no sector da construção. O problema residirá mais - e aqui concordo plenamente com AF - na capacidade do governo e das autarquias locais para lidar com esta explosão urbanística. É nítido que as grandes empresas e grupos económicos possuem hoje maior capacidade técnica de planeamento e de gestão do que as administrações públicas, o que leva a que, muitas vezes, sejam as empresas a elaborar os "planos de pormenor" em nome das autarquias, como aconteceu com o Vale da Rosa em Setúbal e a Mata em Sesimbra. Este desequilíbrio é que é preocupante, mas a culpa, se a há, não é das empresas mas sim do Estado.

    Isto não significa que esses planos não tenham qualidade. No caso da Mata de Sesimbra, existem duas zonas; numa delas, da iniciativa da empresa Pelicano, o plano teve o aval do World Wildlife Fund; na outra, da empresa "Casa Agrícola da Apostiça", o plano foi elaborado pela prestigiada arquitecta Olga Quintanilha, recentemente falecida. Eu sei que a iliteracia actual - mesmo entre os "cultivados" - conduz ao desprezo destes nomes. Mas não deveria ser assim. O que é desejável é que a implementação destes planos, de inegável qualidade, seja acompanhada de um maior controlo pelos poderes públicos e pela sociedade civil.

    Em suma: a visão das empresas como grandes especuladores, fazendo política de terra queimada, é um resíduo (ainda volumoso entre nós) do esquerdismo revolucionário que já é tempo de abandonar. A ideia de que as empresas não fazem contas e de que são os poderes públicos que têm de as fazer por elas, já se devia ter evaporado, após o julgamento histórico das nacionalizações. A procura de habitação na Margem Sul não é virtual: é real e dificilmente poderá ser travada através de um radicalismo ambientalista.

    Para curar um mal, é essencial um diagnóstico acertado. O diagnóstico de Adelino Fortunato está, no essencial, errado. Não defendo que esteja tudo bem: há problemas, grandes e muitos. Mas por isso mesmo é que devemos agir com inteligência, não aplicando à realidade modelos ultrapassados que vêm nas empresas o explorador maléfico. As empresas movem-se pela racionalidade económica e, sabendo-se que a sua actividade pode ser muito prejudicial em termos colectivos, cabe à sociedade estabelecer os incentivos/desincentivos que permitam preservar os valores ambientais e sociais, dando liberdade às empresas para se moverem dentro desse quadro.

    Não se pode impedir um rio de correr, por maior que seja a barragem que se construa; mas pode-se orientar o seu curso. Conviria, pois, apreciar estes problemas com a proximidade e o detalhe que merecem, evitando as ilusórias generalizações - em geral de base ideológica - com que se emolduram em talha dourada pinturas que não valem um chavo.

    Documentos relacionados:
  • Post do Pura Economia sobre a "bolha"
  • Mata de Sesimbra (na BioRegional)
  • Plano de Gestão Ambiental da Mata de Sesimbra
  • Artigo da Quercus sobre a Mata
  • Parecer da PGR sobre a transmissão de direitos de construção do Meco para a Mata

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  • sábado, outubro 29, 2005

    Boas intenções


    [ clique para ampliar ]

    Crédito: Comics.com via De Gustibus.

    EUA: propaganda encoberta

    Extractos de 5 documentos sobre o esforço da administração norte-americana para "plantar" notícias na imprensa, utilizando os meios de comunicação como correias de transmissão da sua propaganda:

  • Editorial do New York Times de 16.Março.2005 (reproduzido pela Truthout) - «Tal como é documentado esta semana por um artigo de David Barstow e Robin Stein no "The Times", mais de 20 agências federais, incluindo o Departamento de Estado e o Departamento da Defesa, forjaram falsos clips notíciosos. Nos seus primeiros 4 anos, a administração Bush gastou mais de 254 milhões de dólares do que a administração Clinton, em contratos com empresas de relações públicas. Muitas das gravações eram muito sofisticadas, incluindo "entrevistas" que pareciam genuínas e "repórteres" que se pareciam muito com os genuínos profissionais. Apenas espectadores sofisticados poderiam facilmente reconhecer que estes vídeos eram na realidade anúncios comerciais não pagos originados na Casa Branca ou em outras áreas do governo. Alguns dos vídeos caíam claramente no território interdito da propaganda, e o "Government Accountability Office" disse que pelo menos dois deles foram distribuídos ilegalmente. No entanto, muitas estações de televisão passaram esses videos, sem qualquer pista sobre de onde tinham realmente vindo. E enquanto que algumas delas alegam que cairam acidentalmente na armadilha, parece óbvio que, em muitos casos, estações de televisão com carência de repórteres, muito tempo de emissão para preencher e pouco dispostas a gastar dinheiro na recolha de material original, abdicam das suas responsabilidades editoriais a favor das equipas de informação do governo.»

  • Editorial do Washington Post de 16.Março.2005 (reproduzido pela Truthout) - «Esta técnica é simultaneamente ilegal e estúpida. Do ponto de vista legal as notícias pré-preparadas são abrangidas pela proibição do uso de fundos públicos para propaganda "doméstica". A interpretação da Administração de que : "não há problema em omitir a fonte desde que o spot seja 'puramente informacional'" - é inaceitável: salientar alguns "factos" e deixar outros de fora pode ser mais persuasivo do que a defesa aberta de uma causa, e é essa a razão pela qual a Administração escolheu esta técnica. Mais importante ainda: este tipo de propaganda mascarada de notícias representa um modo desleal de um governo conduzir a sua actividade: falsos jornalistas pagos pelo governo para divulgar a versão oficial das notícias é tão perturbante como a existência de verdadeiros comentadores pagos pelo governo para apoiar os seus pontos de vista.»

  • Despacho de Eric Boehlert no Salom.com (reproduzido pela Truthout) - «A controvérsia surgiu depois da emissão de um video a apoiar a reforma do Medicare criado pelo Centers for Medicare and Medicaid Services, uma agência que faz parte do Department of Health and Human Service. Profissionalmente produzido para se parecer com uma reportagem noticiosa para estações de televisão locais, o video era talvez demasiadamente realista. Tendo passado em quase 40 redes de televisões locais, nunca foi dito aos espectadores que o clip de 90 segundos tinha sido criado pelo governo. Pelo contrário, foi utilizado um narrador contratado, que terminou a peça com a frase: "De Washington, uma reportageem de Karen Ryan" (In Washington, I'm Karen Ryan reporting

  • Nota do U.S. Government Accountability Office(GAO) de 30.Set.2005 - «No decurso da nossa investigação [ao contrato entre o Departamento de Educação-DE e a empresa Ketchum] verificámos que o DE tinha contratado o North American Precis Syndicate para escrever um artigo de jornal intitulado "Parents want Science Classes that Make the Grade". O artigo relata um estudo que o DE conduziu acerca da opinião dos pais sobre a diminuição, nos estudantes, da literacia em ciência. O artigo, que foi publicado em numerosos jornais de pequena dimensão e circulares por todo o país, não revelava o envolvimento do DE na sua elaboração. A nossa conclusão (...) é que os materiais produzidos pelo governo, ou sob a sua direcção, e que não o identificam como a origem dos materiais, constituem propaganda encoberta.»

  • Despacho de Christian Miller no Los Angeles Times, 1.Out.2005
    - «A Administração Bush praticou "propaganda encoberta ao contratar o apresentador de televisão e conservador Armstrong Williams para promover um controverso programa educacional, revelaram investigadores do Congresso. (...) Também em pelo menos dois casos durante a Administração Clinton, Departamentos do governo utilizaram actores para representar repórteres em peças noticiosas com o objectivo de serem distribuídas para estações de televisão.»

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    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/eua-propaganda-encoberta.html
  • sexta-feira, outubro 28, 2005

    American Tune

    Migrant Mother - Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange

    American Tune

    it's all right, it's all right,
    you can't be forever blessed
    still tomorrow's gonna be another working day
    and I'm tryin' to get some rest

    A letra da canção, de Paul Simon, «foi inspirada [negativamente] pela vitória de Nixon nas eleições de 1972, no fim do sonho hippie; Nixon representava a antítese do liberalismo que tinha sido o legado de Kenedy e de Martin Luther King.» [entrevista em RealAudio 1.0]. «É uma canção sobre a desilusão. Foi escrita após a eleição de Nixon. Perturba-me que a definição do que é ser Americano não inclua toda a gente, não inclua as minorias, em igualdade.»

    A história da melodia de "American Tune" data (pelo menos) do tempo em que o compositor alemão Hans Leo Hassler (1564-1612) a incluiu na canção de amor "Mein Gmüth ist mir verwirret" ("Dos meus confusos sentimentos/uma donzela é a causa"). Foi depois adaptada para os hinos "Herzlich thut mich verlangen" e "O Haupt voll' Blut und Wunden." Johann Sebastian Bach utilizou a melodia na sua "Paixão de S. Mateus" onde pode ser ouvida em cinco diferentes momentos.

    Imagem: Migrant Mother -Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange.

    url: http://www.paul-simon.info/PHP/files/2-07.mp3

    economista à paisana



    Ficheiro mp3 - 14.9MB - 62Kbps - 32:34 min.

    Tim Harford entrevistado para a Radio Economics fala do seu próximo livro The Undecover Economist, o "economista disfarçado" (ou "à paisana") que descobre a Economia em tudo, desde o ritual de tomar café até às marcações de encontros para namoriscar. Finalmente aparece um concorrente à altura de Dick Shade, o personagem de João César das Neves que "descobre" os crimes por recurso às leis económicas. Tim Harvard também fala sobre a escrita de blogues e sobre Tom Schelling.

    Harford mantém uma coluna no Financial Times, "Dear Economist", uma espécie de consultório sentimental onde "responde às perguntas pessoais dos leitores com recurso às ferramentas de Adam Smith". Iniciou agora uma outra coluna com o mesmo título do livro: "The Undercover Economist". Entre as suas colaborações pata o FT contam-se o artigo sobre Thomas Schelling que já citámos aqui, "How an economic theory beat the atomic bomb" e outro onde diz que "os almoços grátis sabem sempre mal". Ou seja: um economista com sentido de humor - se isso não constituir uma insanável contradição de termos.

    url do podcast:
    http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051027-340.mp3

    quinta-feira, outubro 27, 2005

    Novela mexicana

    Actualizado

    "Confirmo que muito em breve vou anunciar o dia e o local onde se vai realizar a apresentação do aeroporto da Ota, disse Mário Lino ao Diário Económico. O ministro da Obras Públicas sublinhou que "este projecto tem luz verde desde o programa de candidatura do Governo". Sem avançar datas, disse ainda que esta situação também se aplica ao projecto do TGV e que nas referidas apresentações constará "o ponto da situação das actualizações ultimas que foram elaboradas e vai ser apresentado o calendário das operações que vêm a seguir".

    Recorde-se que em Agosto o mesmo ministro tinha prometido fazer em Outubro uma apresentação dos estudos que fundamentam a construção do novo aeroporto de Lisboa, na sequência de uma "microcausa" lançada pelo Abrupto e à qual o Pura Economia aderiu: "Pode o governo sff colocar em linha os estudos sobre o aeroporto da Ota para que na sociedade portuguesa se valorize mais a "busca de soluções" em detrimento da "especulação"? [1]

    O tom agora adoptado pelo governo, através das declarações de Sócrates e de Mário Lino, parece indicar uma estratégia de facto consumado, afirmando que a coisa vai avançar porque estava no programa de governo, desvalorizando quaisquer debates ou discussões em torno do assunto. Vai haver uma apresentação,uma cerimónia e pronto!

    O jornal Público, por exemplo, diz que "para a cerimónia da Ota, cujas datas definitivas estão dependentes da agenda do Primeiro-ministro, o MOP está a preparar um conjunto de documentos destinados a justificar a necessidade de construção de um novo aeroporto, o porquê da opção pela Ota e o modelo de financiamento do projecto". Não é delicioso? Andam a "preparar documentos". A decisão foi tomada (com base em quê?) e agora andam a preparar os documentos...

    Hoje de manhã ouvi na RDP o director do Público comentar este assunto e referir como exemplo que existem dois estudos, com resultados diferentes, para as previsões de evolução de tráfego na Portela. O ministro tem feito declarações com base naquele que lhe é mais favorável: o que aponta para um esgotamento mais rápido da capacidade daquele aeroporto. José Manuel Fernendes manifestou o receio de que esta manipulação dos estudos (ocultando uns, exibindo outros) torne este processo bastante opaco.

    Um dos documentos que ainda não existe é, precisamente, o estudo económico e financeiro. Mas, e ainda segundo o Público (que cita "fontes oficiais") "apesar de não ter os estudos, o Governo confia na viabilidade económico-financeira da Ota e garante que não está só, dando como exemplo o interesse já manifestado por investidores privados no projecto. Então não!? Eu se fosse um investidor privado, particularmente do tipo luso-rent-seeking, estaria a esfregar as mãos de contente por se anunciar um investimento desta dimensão sem que o "dono-da-obra" tenha feito as contas. Com um pouco de engenho, até acabarão por ser os privados a fazer os estudos, como está agora na moda. Topam? Concursos públicos em que são os concorrentes a participar na elaboração do próprio concurso podendo, por essa via, influenciar os critérios de adjudicação, montantes base, etç.

    Parece uma daquelas novelas mexicanas em que os actores não acertam os movimentos bocais com o texto: neste caso, o texto são os documentos que (ainda) não há.

    [1] Miguel Gaspar, no Diário de Notícias, classifica esta campanha como "um exemplo do exercício de cidadania".

    Défice cerebral

    «Um em cada cinco portugueses com qualificações superiores (universitárias ou técnicas) vive fora de Portugal, uma "fuga" que coloca o nosso país no topo do ranking europeu da perda de trabalhadores qualificados. E na desconfortável 21ª posição na "fuga de cérebros" entre as nações do mundo com mais de cinco milhões de habitantes. Uma perda que não consegue ser compensada pela entrada no território de cérebros estrangeiros e tende a piorar com os anos.
    [...]
    «Os destinos, como seria de esperar, estão no mundo mais desenvolvido, liderados pelo Canadá e a Austrália, seguidos dos EUA e da União Europeia. No deve e haver, Portugal acaba mesmo assim por perder. Apesar de 8,6% dos imigrantes que viviam cá em 1990 (cerca de 14.500) terem estudos graduados, a comparação com o número de portugueses instruídos que estavam no estrangeiro (mais de 78 mil) resultava num saldo negativo de 63 mil trabalhadores qualificados, um "défice de cérebros" de 1% da população activa. Dez anos depois, os imigrantes qualificados eram já 14,4% (29.800), mas a debandada portuguesa subira para 122.200 o défice de qualificação ia já nos 1,7%.» - Jornal de Notícias

    Para além do desfalque cerebral, esta notícia tem um desagradável efeito colateral, que é o de fazer sentir mais estúpidos os que não emigraram...

    taxa de
     selectividade 
    (1)
     saldo líquido
     da fuga de
    cérebros
    (2)
     saldo líquido 
    em % da fuga
    de cérebros
    (3)
    Média UE/15 23,1 - 15 0-0,1
    Portugal14,4 -117.662 - 1,7
    Espanha16,8 70.271 0,2
    Irlanda41,1 - 93.435 - 4,0
    Grécia22,5 - 136.085 - 1,8
    Alemanha21,0 147.586 0,2
    França16,4 302.104 0,4
    Finlândia23,8 - 54.617 -1,5
    EUA42,5 9.992.995 5,4
    Canadá58,8 2.225.619 10,7
    Dados de 2000
    (1) - proporção de imigrantes (%) com educação terciária no total do número de imigrantes (2) - diferença entre imigrantes e emigrantes com educação terciária em números absolutos (3) - diferença entre imigrantes e emigrantes com educação terciária em % da população activa
    Fonte: Banco Mundial - via jornal Público

    País% de trabalhadores
    qualificados a viver
    no estrangeiro
    Posição
    Haiti83,61
    Gana46,92
    Moçambique  45,13
    Quénia38,44
    Laos37,45
    Angola33,07
    Portugal19,521
    Reino Unido16,729
    Trabalhadores qualificados = com educação terciária
    Fonte: Banco Mundial - via jornal Público

    Mudar de empresários

    Mais uma estratégia para Portugal: mudar de empresários.

    «António Borges defendeu ontem no Congresso dos Economistas que o Governo centralize toda a sua atenção nos novos empresários audaciosos e dispostos a arriscar e inovar, assumindo um corte com os antigos, limitados à reivindicação de subsídios para as suas empresas de futuro incerto, como condição necessária para um novo modelo de desenvolvimento económico para o País.» - Correio da Manhã

    Nas nuvens


    The Ascension of Bernanke Into the Clouds [click]

    «Quão gloriosa e maravilhosa é a nomeação [para o Fed] de Ben Bernanke ? Nada, porque a sua teoria está errada. Não é possível isolar o efeito monetário nos preços individuais dos bens, portanto a ideia de que se pode medir e de qualquer forma estabilizar o nível de preços é absurda. Uma tal política corre o risco de perturbar o movimento dos preços relativos, conduzindo à instabilidade e ao enfraquecimento do processo de geração de riqueza.»

    Frank Shostak, Mises blog

    O Congresso

    Está a decorrer na cidade do Porto o "Congresso Nacional de Economistas", organizado pela respectiva Ordem. Ficamos a aguardar as comunicações e as conclusões.
    .

    Correspondência

      «Darwin e Einstein trocavam correspondência todos os dias»  

    Legenda das fotografias dos dois cientistas, no jornal Público de hoje, em artigo sobre o estudo de João Gama Oliveira (U. Minho) e Albert László Barabási acerca da prática epistolar daqueles cientistas: "Darwin and Einstein correspondence patterns", publicado pela revista Nature (ed. 437). O texto, em pdf, encontra-se aqui.

    Lá como cá

    O Financial Times diz que a Alemanha está a ponderar a subida da idade da reforma de 65 para 67 anos, para «fazer face ao rápido envelhecimento da população e à subida em espiral das despesas com pensões.» A medida tem sido objecto de consultas entre os diversos partidos e federações sindicais e poderá ser deliberada antes do fim do corrente ano.

    Economia em Agosto

    O Banco de Portugal publicou o Boletim Estatístico de Outubro (com a maioria dos dados relativos a Agosto), onde se destaca o agravamento da inflação.

    Agrava-se igualmente o saldo da Balança de Pagamentos, com aumento do saldo negativo bos bens e rendimentos, e diminuição do saldo positivo nos serviços e transferências correntes.

    A taxa de desemprego apresenta no II trimestre o valor de 7,2% - uma ligeira melhoria face ao I trimestre (7,5%). Em número absolutos o número de desempregados diminuiu entre estes dois períodos de 412,6 mil para 399,3 mil. A diminuição foi maior entre os jovens (menos 0,7%) e também mais entre as mulheres (0,5%).

    quarta-feira, outubro 26, 2005

    Neuroeconomia: mais um passo

    A edição de Agosto da revista Games and Economic Behavior é exclusivamente dedicada à Neuroeconomia, e inclui importantes artigos sobre a tese do "marcador somático", desenvolvida por António Damásio e apresentada no seu livro "O Erro de Descartes". A importância da teoria de Damásio para a Economia já tinha sido aqui referida, num post de há um ano atrás: Neuroeconomia: o regresso do 'animal spirits'.

    A revista inclui um artigo de Damásio e Bechara: "The somatic marker hypothesis: A neural theory of economic decision", e um outro sobre testes experimentais da referida teoria; "Experimental tests of the Somatic Marker hypothesis", e ainda um artigo de Bechara e outros: "Identifying individual differences: An algorithm with application to Phineas Gage".

    Comentarei alguns destes artigos ao longo dos próximos dias, quer neste blogue quer num outro que iniciei recentemente sobre Neuroeconomia. Outros artigos incluidos na referida publicação são (links para os resumos):

  • Neuroeconomics: Present and future - editorial, texto integral em word.
  • Physiological utility theory and the neuroeconomics of choice
  • A brain imaging study of the choice procedure
  • Employing labor-supply theory to measure the reward value of electrical brain stimulation
  • Neurally reconstructing expected utility
  • Economics and emotion: Institutions matter
  • Deconstructing the law of effect
  • Self-referential thinking and equilibrium as states of mind in games: fMRI evidence
  • Modeling internal commitment mechanisms and self-control: A neuroeconomics approach to consumption–saving decisions

    url deste post:
    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/neuroeconomia-mais-um-passo.html
  • Parábola da vaca e do frango



    [ clique ]

    Via De Gustibus Non Est Disputandum, cujas referências, imerecidas, agradecemos.

    terça-feira, outubro 25, 2005

    Desincentivos

    «O Governo prepara-se para proibir as bonificações da indústria farmacêutica aos canais de distribuição de medicamentos comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde, anunciou hoje o secretário de Estado da Saúde no debate da comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República sobre o Orçamento de Estado de 2006. Esta proibição deverá abranger igualmente os medicamentos genéricos.» (jornal Público)


    Segundo o secretário de Estado da Saúde, uma das causas do elevado preço dos genéricos reside nas bonificações atribuídas pela indústria aos canais de distribuição, de que é exemplo a oferta de uma quantidade gratuita de determinado medicamento por cada encomenda efectuada pelas farmácias. Desta forma o custo total desses fármacos fica mais barato para as farmácias, que no entanto os vendem aos preços tabelados. Ou seja: "na prática, embora as empresas [indústria] pratiquem preços mais baixos", esta redução "é apropriada pelos canais de distribuição e não pelos utentes e pelo Serviço Nacional de Saúde".

    O governo parece determinado a enfrentar um sector que se encontra fortemente protegido da concorrências, o que é positivo, mas não estou tão certo de que esta medida sirva para aumentar a essa concorrência. O regime de preços tabelados (que o próprio governo incentiva) a forte rigidez da procura e as restrições à instalação de novos estabelecimentos (também protegida pelo governo) é que explicam as elevadas margens de lucro do sector, decorrentes de preços de quase-monopólio. Mas tentar resolver o problema do excesso de regulação com mais regulação, parece-me contraproducente.

    Admito que possa haver alguma vantagem em proibir os "descontos" sob a forma de oferta de unidades adicionais, obrigando a que quaisquer descontos se possam fazer apenas como abatimentos nas facturas, como forma de melhor controlar (contabilisticamente) o processo de venda - mas não é essa a razão adiantada pelo governo.


    Mourir pour des idées  

      Ne me quitte pas

    upload links:
  • http://membres.lycos.fr/mirabelle82/Georges%20Brassens%20-%20Mourir%20pour%20des%20%20id%e9es.MP3
  • http://users.pandora.be/morimaikar/music/Jacques%20Brel%20-%20Ne%20Me%20Quitte%20Pas.mp3
  • Desespero financeiro

    Medina Carreira publica hoje no jornal "Público" um artigo, "No fio da navalha", sobre a crise que «aí está: cada vez mais complexa, mais demorada e mais perigosa. Tenderá a agravar-se enquanto os "optimistas profissionais" não entenderem que o mal não é o pessimismo, mas o atraso; não é a desconfiança, mas os embustes; não é a descrença, mas a incompetência; não são os défices, mas a inviabilidade de viver à custa alheia; não é a falta de desenvolvimento, mas o conservadorismo que o bloqueia; não são as ideias, mas as palavras; não são os males do mundo, mas a nossa incapacidade para vencer os próprios.»

    Complementando o seu retrato financeiro de Portugal - «a queda prolongada da economia, a expansão descontrolada das despesas, o envelhecimento demográfico e a insuficiência relativa da arrecadação fiscal» - Medina Carreira apresenta alguns números que caracterizam da «situação pública financeira mais desesperada da UE/15», pois evidenciam que sendo embora Portugal um dos países mais pobres da União a 15, excedemos todos os outros na evolução de índices fundamentais relativos às finanças públicas, carga fiscal, despesa corrente - ver quadro seguinte:


    ordem
    PIB
    per capita
    2001
    Nível de
    fiscalidade
    1986-2001
    Despesa
    corrente
    1986-2002
    Despesa
    corrente
    primária
    1986-2002
    PaísesDól.ppc
    EUAx100
    Paísespp.PIBPaísespp.PIBPaísespp.PIB
    1 L50,6P8,4P4,7P10
    2IRL31,7G7,3A4,0A3,9
    3D29,9I7,1Fi3,9D3,2
    4PB29,4Fi4,3F0,6Fi0
    5Au28,2S3,4L(a)0,6G(a)1,7
    6B28,1Au3,3D-0,3I1,2
    7Fi27,2E2,2Au-1F0
    8RU27,1F1,5I-1,8L(a)-0,5
    9F27,9B0,9G(a)-2Au-0,8
    10S26,8D0,6RU-3,6E(b)-1,5
    11I26,6A0E(b)-3,8RU-1,7
    12A26,6L-0,1S(b)-5,4B-3,2
    13E21,8RU-1B-8,2S(b)-4,9
    14P17,8PB-3,6PB-9,1PB-7,1
    15G17,1Irl-5,7Irl-19,2Irl-12,4
    (a) 1990/2002; (b) 1995/2002
    Países membros da EU/15 . A-Alemanha; Au-Áustria; B-Bélgica; D-Dinamarca; E-Espanha; F-França; Fi-Finlândia; G-Grécia; I-Itália; Irl-Irlanda; PB-Países Baixos; P-Portugal; RU-Reino Unido; S-Suécia.

    Portugal também "vence" no ranking das despesas de protecção social, pensões e fracção dos impostos aplicados na protecção social - ver quadro seguinte:


    ordem
    Despesa
    Protecção
    Social
    1986-2001
    Pensões
    1993-2002
    Var.peso
    Prot.social
    no NF
    1991-2002
    Paísespp.PIBPaísespp.PIBPaísespp.do NF
    1P8,2P3,7P18
    2G5,1G1,9A14
    3A4,4A1,7F4
    4Au2,4I1,3RU4
    5F2,2D1.1PB4
    6RU1,8F0,5G1
    7I0,9RU0,5A1
    8B0,8E0,3B - 2
    9L0,7Au0,3L - 2
    10D0,3Fi - 0,8D - 2
    11E - 1S(c) - 0,8Irl - 2
    12S - 1,8B - 1I - 3
    13PB - 2,7PB - 1,6S - 3
    14Fi - 3,4iRL - 2,2E - 6
    15iRL - 3,6L - 2,6Fi - 7
    (c) 1993 - 2002
    Países membros da EU/15 . A - Alemanha; Au - Áustria; B - Bélgica; D - Dinamarca; E - Espanha; F - França; Fi - Finlândia; G - Grécia; I - Itália; Irl - Irlanda; PB - Países Baixos; P - Portugal; RU - Reino Unido; S - Suécia.

    Ben Bernanke - Mr. FED

    Ben Bernanke foi designado pelo presidente dos EUA para suceder a Alan Greenspan à frente da Reserva Federal (FED), o banco central norte-americano.

    Bernanke é um "homem da casa" de Bush, pois já era presidente do Comité de Conselheiros Económicos da Casa Branca e pertenceu ao conselho de governadores do FED desde 2002 e até recentemente. É igualmente um académico respeitado prestigiado, sendo por vezes retratado na imprensa como um "outsider" nos cargos públicos que tem ocupado. Embora seja um Republicano e apoie as políticas de redução de impostos, não é um fundamentalista "do lado da oferta", possuindo um estilo mais pragmático, ao jeito de Greenspan.

    Em várias ocasiões Bernanke manifestou tolerância perante alguma inflação, pelo menos no curto prazo, embora dentro de um objectivo anti-inflacionista a longo prazo. Entre os seus argumentos encontramos a importância dos "sticky prices" - a rigidez nos preços que impede a eficiência pura dos mercados (um argumento caro aos keynesianos). Daí, talvez, as reticências de LAS no Causa Liberal, que acredita que "o movimento da civilização se nota numa baixa progressiva dos custos de produção e dos preços reais", pelo que a escolha de Bush, aparentemente, não o convence. Bernanke seria assim um dos "poderosíssimos travões a esse movimento civilizador". É muito curioso o facto de outros comentaristas apontarem o novo Mr. Fed como um fanático do combate à inflação...

    Segundo a Wikipedia, Bernanke formou-se em Harvard em 1975 e obteve o doutoramento no MIT em 1979. Foi docente na Universidade de Stanford entre 1979 e 1985, passando depois a leccionar na Universidade de Princeton, onde é reponsável pelo Departamento de Economia desde 1996. Deu aulas na London School of Economics acerca de teoria e política monetária. Foi director do "Monetary Economics Program" do National Bureau of Economic Research e editor da revista "American Economic Review".

    Ben Bernanke - Essays on the Great DepressionBernanke é conhecido pelo seu trabalho sobre os canais de transmissão da política monetária, e particularmente pelo paper de 1992, com Alan Blinder, "The Federal Funds Rate and the Channels of Monetary transmission"", onde defendem que a expansão do crédito é mais importante do que a oferta monetária.

    O seu trabalho também contempla uma abordagem às causas da Grande Depressão dos anos 30, que deu origem ao livro Essays on the Great Depression. Eis algumas citações de Ben Bernanke:
    «Eu não advogo uma política estritamente rigorosa de inflation-targeting , que tente conter sempre a inflação a um determinado nivel. Penso antes que vale a pena especificar um objectivo para uma taxa de inflação média num prazo alargado. Creio que todos compreendem que o FED não pode conter a inflação num determinado nível, mesmo que o pretendesse, por causa dos choques que afectam a economia»
    «Um dos grandes activos que temos para a reconstrução pós-Katrina é a força global da nossa economia. A resiliência da economia está em permitir que ela absorva os choques nos sectores da energia e transporte provocados pelo furacão, e a capacidade da nossa economia para crescer e criar empregos funcionarão como uma tábua de salvação para as regiões que foram mais afectadas. Portanto, a catástrofe torna ainda mais necessário que mantenhamos fortes os fundamentos da economia nacional e que continuemos a promover políticas que encoragem o crescimento. Enfrentaremos desafios significativos nos próximos meses e anos, mas estou confiante em que as comunidades da Costa do Golfo serão reconstruídas, e em que a economia do Golfo, e dos EUA como um todo, emergirão desta tragédia mais fortes do que nunca.»
    «A política monetária não consegue responder de um modo convencional quando se baixam as taxas de juro para influenciar a procura agregada. No entanto, como já referi no meu discurso de Novembro de 2002, embora existam vias alternativas pelas quais a política monetária pode ajudar a expandir a economia, temos uma experiência limitada acerca dessas vias, sendo pior compreendidas do que o habitual recurso às taxas de juro.»
    [acerca dos modelos que incorporam a regra "friedmaniana" de taxa de juro nominal=zero e alguma deflação]

    «Eu diria que esses modelos são deficientes pelo menos em dois aspectos. Um dos problemas é que se focam quase inteiramente nos denominados "custos das solas dos sapatos" ["shoe-leather costs"], ou seja, o custo de minimizar a detenção de moeda (indo mais frequentemente ao banco, por exemplo) para evitar perdas com a inflação. Mas os "custos das solas dos sapatos" não são os únicos relevantes. Mesmo numa situação de estabilidade existem muitos outros custos, tais como os que decorrem das alterações de preços e das distorções nos impostos e regras contabilísticas expressas em termos nominais - e que estes modelos não incorporam. Portanto, e mesmo abstraindo dos problemas do ciclo económico e procurando determinar apenas a taxa de inflação que maximiza o crescimento, não é evidente para mim que ela deva ser negativa. O segundo problema é que esses modelos ignoram a rigidez nos salários e preços [sticky wages and prices] e a possibilidade de desvios, no curto-prazo, relativamente ao pleno-emprego.»
    Trabalhos de Ben Bernanke:
  • "Is Growth Exogenous? Taking Mankiw, Romer and Weil Seriously"
  • "Monetary Policy in a Data-Rich Environment"
  • "Should Central Banks Respond to Movements in Asset Prices?"
  • "the transition from academic to policymaker" (comentário numa conferência)
  • "The global saving glut and the US current account deficit" (comentários)
  • "Conducting Monetary Policy at Very Low Short-Term Interest Rates"
  • "The Outlook For the Economy and for Policy"

    Referências na blogosfera:
    ||| Causa Liberal ||| Elba Everywhere |||
  • segunda-feira, outubro 24, 2005

    Bons hábitos

    Carole Bouquet e Angela Molina, actrizes do filme de Buñuel 'Esse obscuro objecto de desejo'. Fotografia de Allan Tannenbaum, NY-1977
    Carole Bouquet e Angela Molina

    O cérebro humano apresenta uma série de características que não encaixam bem na imagem da "implacável máquina de raciocinar", mas fazem sentido em termos de poupança de energia - ou optimização de recursos.

    Por exemplo: é sabido que não processamos as imagens do mundo exterior com todo o detalhe, pois isso seria muito dispendioso em termos de scanning e armazenamento na memória. Guiamo-nos muito pelas silhuetas e deduzimos os volumes a partir das arestas. Esta simplificação também tem o seu preço, provocando-nos algumas ilusões, como esta, esta ou esta.

    É também por isso que nunca vemos o mundo como ele realmente é, mas como estamos à espera que seja, razão pela qual as testemunhas de um acontecimento divergem tanto sobre o que observaram. E não será de estranhar que muitas pessoas tenham visto o filme "Esse obscuro objecto de desejo" sem se aperceberem de que Buñuel utilizou alternadamente as actrizes Carole Bouquet e Angela Molina para o papel da evasiva Conchita. No entanto, veja as diferenças.

    Outra estratégia de poupança de energia são os hábitos. Se fazemos todos os dias o mesmo percurso automóvel, porque havemos de estar todos os dias a processar a mesma informação? O nosso organismo coloca em funcionamento um "piloto automático" que nos conduz pelos caminhos usuais sem grande esforço, e por vezes chegamos ao destino sem perceber muito bem como é que lá fomos parar. Ou então, o piloto automático leva-nos por um caminho quando, naquele dia, até queríamos ir por outro lado.

    O "piloto automático" dos hábitos também tem os seus problemas, tanto mais que foi desenvolvido pelo processo evolutivo durante épocas em que o mundo não mudava tão rapidamente quanto hoje. E o problema é que os hábitos custam a mudar, como bem sabem os fumadores arrependidos e os obesos compulsivos.

    Numa investigação recente do MIT [detalhes aqui], conduzida por Ann Graybiel, analisou-se a actividade neural relacionada com a formação de hábitos e com a sua extinção/reaprendizagem, comprovando que a persistência dos hábitos nada tem a ver com a falta de "força de vontade" mas sim com mecanismos neurais bem estabelecidos. Além disso, se o organismo "aprendeu" algo uma vez, que depois houve vantagem em "desaprender", para "reaprender" de novo, faz sentido que não tenha que começar tudo da estaca zero.

    Nas experiência do MIT, ratos de laboratório aprenderam que havia uma recompensa - chocolate - no final de um labirinto. No início da aprendizagem, os neurónios mantinham-se activos durante toda a corrida ao longo percurso, como se tudo fosse importante. Mas à medida que os animais aprendiam o significado dos sinais (sonoros) que indicavam qual o caminho que levava ao chocolate, os neurónios do gânglio basal "aprendiam" também, e passaram a estar activos apenas no início e no fim da tarefa, "desligando" ao longo do percurso já familiar.

    Então os investigadores removeram o prémio, tornando os sinais inúteis. Esta mudança fez com que tudo no labirinto voltasse a ser relevante, e os neurónios voltaram a estar de novo activos durante toda a corrida até que, por fim, os animais deixaram de correr (perderam o hábito) e o padrão criado nas células cerebrais desapareceu. Mas quando se voltou a introduzir o prémio, o padrão antes aprendido reapareceu rapidamente: tal como se o cérebro retivesse a memória do hábito e do seu contexto, "repescando" o padrão logo que os sinais associados regressam. Esta situação é familiar para os que tentam perder peso ou controlar um qualquer hábito arreigado: basta a visão de um bolinho para "apagar" todas aquelas boas intenções...

    Documentos de Ann Graybiel:
  • Palestra sobre "Neural Mechanisms of Habit Formation": ficheiros de imagem e som aqui.
  • "The Basal Ganglia and Chunking of Action Repertoires" (1998)
  • "Cocaine and the Changing Brain"


        Ann Graybiel

    Investigadora do MIT (Cambridge, Massachusetts), Ann Graybiel e a sua equipa têm realizado estudos pioneiros acerca da anatomia e fisiologia do cérebro, nomeadamente da região conhecida como gânglio basal, demonstrando os mecanismos de controlo neuro-químico dos complexos circuitos cerebrais. Estas investigações ajudam a compreender como é que esta zona do cérebro controla a actividade motora e a aprendizagem de procedimentos. O seu trabalho tem grande relevância para o conhecimento e tratamento de doenças como as de Parkinson, Huntington, síndroma de Tourette, disfunções obsessivo-compulsivas, défice de atenção e depressões profundas. Um dos focos da investigação de Graybiel tem sido o modo como os indivíduos criam e anulam hábitos, aspecto fundamental do comportamento humano.

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/bons-hbitos.html
  • Desinvestigação

    Mais uma preocupação para a Comissão Europeia, a debater na próxima cimeira: na UE o acréscimo de despesas com I&D no sector privado, para 2004-05, foi de apenas 2%, enquanto que nos EUA e Ásia foi de 7% - de acordo como o "International R&D Scoreboard", citado pelo Financial Times.

    Em termos de empresas baseadas na Europa, a mais espectacular neste domínio foi a DaimlerChrysler. As escandinavas Nokia e Ericsson, por outro lado, cortaram nas despesas de investigação, respectivamente 4% e 25%.

    Estes dados ensombram as conclusões de um recente estudo da OCDE, o Science, Technology and Industry Scoreboard, segundo o qual, no domínio da globalização do conhecimento, a «a Europa está mais internacionalizada do que os seus concorrentes [...] um número crescente de empresas multinacionais está a localizar os seus laboratórios de I&D no estrangeiro, mas com preferência por alguns países»; entre os beneficiários desta tendência encontram-se a Hungria e a Irlanda, onde as empresas estrangeiras contribuem para mais de 70 % da I&D industrial; Portugal, Espanha, Rep. Checa e Suécia encontram-se bem colocados, com um indicador de mais de 40% - ver notícia. O mesmo estudo indica que também alguns países europeus ocupam o topo da tabela em termos de artigos científicos publicados por habitante: Suécia, Suiça e Finlândia.

    Preços da produção industrial

    O INE publicou os Índices de Preços na Produção Industrial, que revelam uma variação homóloga de 4,5% - um acréscimo de 0,1 pontos percentuais (p.p.) em relação ao mês anterior. A taxa de variação média nos últimos doze meses foi de 4,4%.

    A "Energia" foi a principal responsável por este resultado, para o qual contribuíu com 0,5 pontos percentuais. O "Consumo Total", por outro lado, teve uma contribuição negativa de 0,3 pontos percentuais.

    Nova Orleães: o dia seguinte


    «À medida que as equipas começam a analisar as casas apodrecidas e os preservacionistas iniciam esforços para as salvar, as autoridades municipais e federais calculam que entre 30 mil a 50 mil casas terão de ser demolidas.»

    «Este número, embora mais baixo do que chegou a ser previsto, ainda assim representa mais de um quarto do parque habitacional da cidade. Daqui a algumas semanas, quando as escavadoras gigantes começarem a abater as casas que em tempos abrigaram famílias, a cidade passará por um dos mais dolorosos momentos do seu calvário.»

    The New York Times

    sábado, outubro 22, 2005

    A ciência igualitária

    Também eu andei convencido de que a designação de "ciência deprimente", ou "ciência triste"[1] para a Economia deriva de, aparentemente, ela originar sempre notícias ou previsões pessimistas. A explicação corrente em muitos manuais de Economia é que a expressão foi criada por Thomas Carlyle, numa reacção às previsões pessimistas de Malthus, relativas ao crescimento da população.

    Afinal, e apesar de ter sido efectivamente Carlyle o autor da expressão, a explicação é muito diferente, como se pode ver, por exemplo, no livro de David M. Levy, "How the Dismal Science Got Its Name: Classical Economics and the Ur-Text of Racial Politics". Com a sua promessa de um mecanismo regulador - a "mão invisível" - que permitiria assegurar o bem comum, mesmo se as intenções dos indivíduos eram egoístas, a Economia Política mostrava ser desnecessário o sistema hierárquico esclavagista, onde um tipo de homens (os "brancos") julgava ter a obrigação de tomar conta de todos os outros.

    Ou seja: a Economia era profundamente optimista quanto à possibilidade de um mundo mais igualitário. Mas isso eram "más notícias" para os defensores do sistema esclavagista. Para eles, de facto, a Economia era uma "ciência deprimente". Eis algumas palavras de apresentação do livro, traduzidas do site da University of Michigan Press:
    «É vulgarmente aceite que os "sábios" da era vitoriana criticaram a Economia clássica de uma perspectiva humanística, ou igualitária, designando-a como "a ciência deprimente" [ the dismal science ] e que esta crítica é relevante para o debate actual acerca da sociedade de mercado. David M. Levy mostra no seu livro que essas asserções são simplesmente falsas: a Economia Política foi caracterizada como "deprimente" porque Carlyle, Ruskin e Dickens ficaram horrorizados perante a ideia de que o sistema esclavagista seria substituído por um sistema que permitia a todos os indivíduos escolher o seu próprio caminho na vida. Achavam que, no mínimo, "nós" os brancos deveríamos dirigir a vida "deles", os de cor. Os economistas desse tempo, por outro lado, argumentaram que as pessoas de cor deveriam era ser protegidas pela lei. E esta é que é a origem do apodo "ciência deprimente".

    «Uma surpreendente imagem de 1893, que é reproduzida na capa do livro, mostra Ruskin a matar alguém que aparenta não ser um "branco". Um olhar atento revela que a vítima está a ler "The Dismal Science" [ver nota 2]. Levy analisa esta imagem e também o texto de Carlyle "Occasional Discourse on the Negro Question" e a subsequente resposta de Mill, mostrando que se tratam de documentos centrais para a economia clássica britânica.

    «As ideias igualitárias de Adam Smith são explicadas e contrastadas com a alternativa hierárquica proposta por Carlyle. Levy também examina as representações visuais deste debate e fornece uma apresentação esclarecedora da "cataláxia" smithiana, a ciência das trocas, comparando-a com os fundamentos da moderna economia neoclássica.»

    in University of Michigan Press

    Na Internet encontra-se acessível o livro de David M. Levy em ficheiros correspondentes aos 3 capítulos: "1. Two Sciences in Collision: The Dismal and the Gay", "2. Market Order or Hierarchy?" e "3. The Katallactic Moment". Também se pode aceder ao texto de Carlyle: "Occasional Discourse on the Negro Question" e à resposta de John Stuart Mill: "The Negro Question". Análises deste debate podem ser encontradas aqui e aqui. O texto de Carlyle inclui o seguinte parágrafo, carregado de ironia, onde usa pela primeira vez a expressão "dismal science":
    «[...] Na realidade, meus filantrópicos amigos, a filantropia de Exeter Hall é maravilhosa. E a ciência social - não uma "ciência alegre", mas sim lamentável - que encontra os segredos do Universo na "oferta e procura" e reduz o papel dos governantes humanos ao de deixarem os homens sozinhos, também ela é maravilhosa. Não é uma "ciência alegre", pois, como alguns apregoam. É uma ciência aborrecida, desolada, e mesmo abjecta e perturbante: aquilo a que poderíamos designar como "ciência deprimente". Se a filantropia de Exeter Hall e a Ciência Deprimente, conduzidas por uma qualquer sagrada causa de emancipação dos negros, se apaixonassem e casassem, dariam origem a progénitos e prodígios: loucos de cor escura, abortos inomináveis, mostruosidades com cauda - tais como o mundo jamais viu!» [3].

    Thomas Carlyle
    "Occasional Discourse on the Negro Question"

    Textos relacionados:
  • "Post Ricardian British Economics, 1830-1870"
  • "Thomas Carlyle, 'The Dismal Science', and the Contemporary Political Economy of Slavery"
  • "John Stuart Mill: a Biography"

    Notas:
    [1] A tradução de "dismal science" por "ciência triste" é a única que tenho lido ou ouvido em português, mas creio que o adjectivo inglês dismal é melhor traduzido por "deprimente", e é este que eu habitualmente uso.

    [2] A capa do livro de David Levy reproduz o desenho caricatural de uma outra publicação, de 1893, com excertos de ensaios de John Ruskin, um crítico do capitalismo, editados pela empresa de tabaco "Cope Brothers". Ruskin, montado num cavalo alado, derruba uma figura grotesca que segura na mão um saco onde estão escritas as iniciais L.S.D. (libras, xelins e pence, moedas da época) e "The Wealth of Nations", título da obra de Adam Smith; caído ao pé da figura encontra-se um livro com o título: "The Dismal Science". A personagem derrubada por Ruskin está vestida de modo pomposo, com casaco de abas de grilo, de tal forma desenhado que parece ter uma cauda. A analogia é evidente: trata-se de um ser inferior (um negro?) e ganancioso, que se pretende fazer passar por "superior" e "civilizado", sob a influência da Economia Política. Ver imagem ampliada aqui.

    [3] O Exeter Hall, edifício construído para sede e local de reunião de instituições religiosas e caritativas, encontrava-se fortemente associado ao anglicanismo e às campanhas anti-esclavagistas. As duas correntes cujo "casamento" Carlyle tanto temia, opunham-se ambas à escravatura, mas por motivos diversos. Os economistas consideravam que todos os indivíduos possuíam a mesma natureza humana básica e que, para a análise económica, as questões raciais eram indiferentes. Os anglicanos consideravam todos os indivíduos como irmãos e irmãs, originários do mesmo casal primordial, Adão e Eva. Mais informações sobre o edifício encontram-se aqui.

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/cincia-igualitria.html
  • Estrelas americanas

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    10 melhores pequenas empresas americanas em 2005
     empresas
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      2 Cognizant Technology Solutions serviços de outsourcing via Web, com recurso a mão-de-obra de outros países.
      3 Travelzoocaptação de viajantes via Web, encaminhamento para as agências de viagens.
      4 Remington Oil & Gasextração de petróleo e gás no Golfo do México.
      5 Usana Health Sciencesprodutos nutricionais; vitaminas e suplementos alimentares para crianças e adultos, cosmética.
      6 Forward Industriesmalas e capas para objectos portáteis: telemóveis (Motorola), computadores, equipamentos médicos, instrumentos musicais, etç.
      7 Laserscopeequipamento laser para intervenções médicas.
      8  Ceradyneprodutos cerâmicos para aplicações médicas, militares, industriais, etç.
      9 American Healthwaysmonitorização e controlo remoto da prestação de cuidados médicos.
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