quarta-feira, outubro 26, 2005

Neuroeconomia: mais um passo

A edição de Agosto da revista Games and Economic Behavior é exclusivamente dedicada à Neuroeconomia, e inclui importantes artigos sobre a tese do "marcador somático", desenvolvida por António Damásio e apresentada no seu livro "O Erro de Descartes". A importância da teoria de Damásio para a Economia já tinha sido aqui referida, num post de há um ano atrás: Neuroeconomia: o regresso do 'animal spirits'.

A revista inclui um artigo de Damásio e Bechara: "The somatic marker hypothesis: A neural theory of economic decision", e um outro sobre testes experimentais da referida teoria; "Experimental tests of the Somatic Marker hypothesis", e ainda um artigo de Bechara e outros: "Identifying individual differences: An algorithm with application to Phineas Gage".

Comentarei alguns destes artigos ao longo dos próximos dias, quer neste blogue quer num outro que iniciei recentemente sobre Neuroeconomia. Outros artigos incluidos na referida publicação são (links para os resumos):

  • Neuroeconomics: Present and future - editorial, texto integral em word.
  • Physiological utility theory and the neuroeconomics of choice
  • A brain imaging study of the choice procedure
  • Employing labor-supply theory to measure the reward value of electrical brain stimulation
  • Neurally reconstructing expected utility
  • Economics and emotion: Institutions matter
  • Deconstructing the law of effect
  • Self-referential thinking and equilibrium as states of mind in games: fMRI evidence
  • Modeling internal commitment mechanisms and self-control: A neuroeconomics approach to consumption–saving decisions

    url deste post:
    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/neuroeconomia-mais-um-passo.html
  • Parábola da vaca e do frango



    [ clique ]

    Via De Gustibus Non Est Disputandum, cujas referências, imerecidas, agradecemos.

    terça-feira, outubro 25, 2005

    Desincentivos

    «O Governo prepara-se para proibir as bonificações da indústria farmacêutica aos canais de distribuição de medicamentos comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde, anunciou hoje o secretário de Estado da Saúde no debate da comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República sobre o Orçamento de Estado de 2006. Esta proibição deverá abranger igualmente os medicamentos genéricos.» (jornal Público)


    Segundo o secretário de Estado da Saúde, uma das causas do elevado preço dos genéricos reside nas bonificações atribuídas pela indústria aos canais de distribuição, de que é exemplo a oferta de uma quantidade gratuita de determinado medicamento por cada encomenda efectuada pelas farmácias. Desta forma o custo total desses fármacos fica mais barato para as farmácias, que no entanto os vendem aos preços tabelados. Ou seja: "na prática, embora as empresas [indústria] pratiquem preços mais baixos", esta redução "é apropriada pelos canais de distribuição e não pelos utentes e pelo Serviço Nacional de Saúde".

    O governo parece determinado a enfrentar um sector que se encontra fortemente protegido da concorrências, o que é positivo, mas não estou tão certo de que esta medida sirva para aumentar a essa concorrência. O regime de preços tabelados (que o próprio governo incentiva) a forte rigidez da procura e as restrições à instalação de novos estabelecimentos (também protegida pelo governo) é que explicam as elevadas margens de lucro do sector, decorrentes de preços de quase-monopólio. Mas tentar resolver o problema do excesso de regulação com mais regulação, parece-me contraproducente.

    Admito que possa haver alguma vantagem em proibir os "descontos" sob a forma de oferta de unidades adicionais, obrigando a que quaisquer descontos se possam fazer apenas como abatimentos nas facturas, como forma de melhor controlar (contabilisticamente) o processo de venda - mas não é essa a razão adiantada pelo governo.


    Mourir pour des idées  

      Ne me quitte pas

    upload links:
  • http://membres.lycos.fr/mirabelle82/Georges%20Brassens%20-%20Mourir%20pour%20des%20%20id%e9es.MP3
  • http://users.pandora.be/morimaikar/music/Jacques%20Brel%20-%20Ne%20Me%20Quitte%20Pas.mp3
  • Desespero financeiro

    Medina Carreira publica hoje no jornal "Público" um artigo, "No fio da navalha", sobre a crise que «aí está: cada vez mais complexa, mais demorada e mais perigosa. Tenderá a agravar-se enquanto os "optimistas profissionais" não entenderem que o mal não é o pessimismo, mas o atraso; não é a desconfiança, mas os embustes; não é a descrença, mas a incompetência; não são os défices, mas a inviabilidade de viver à custa alheia; não é a falta de desenvolvimento, mas o conservadorismo que o bloqueia; não são as ideias, mas as palavras; não são os males do mundo, mas a nossa incapacidade para vencer os próprios.»

    Complementando o seu retrato financeiro de Portugal - «a queda prolongada da economia, a expansão descontrolada das despesas, o envelhecimento demográfico e a insuficiência relativa da arrecadação fiscal» - Medina Carreira apresenta alguns números que caracterizam da «situação pública financeira mais desesperada da UE/15», pois evidenciam que sendo embora Portugal um dos países mais pobres da União a 15, excedemos todos os outros na evolução de índices fundamentais relativos às finanças públicas, carga fiscal, despesa corrente - ver quadro seguinte:


    ordem
    PIB
    per capita
    2001
    Nível de
    fiscalidade
    1986-2001
    Despesa
    corrente
    1986-2002
    Despesa
    corrente
    primária
    1986-2002
    PaísesDól.ppc
    EUAx100
    Paísespp.PIBPaísespp.PIBPaísespp.PIB
    1 L50,6P8,4P4,7P10
    2IRL31,7G7,3A4,0A3,9
    3D29,9I7,1Fi3,9D3,2
    4PB29,4Fi4,3F0,6Fi0
    5Au28,2S3,4L(a)0,6G(a)1,7
    6B28,1Au3,3D-0,3I1,2
    7Fi27,2E2,2Au-1F0
    8RU27,1F1,5I-1,8L(a)-0,5
    9F27,9B0,9G(a)-2Au-0,8
    10S26,8D0,6RU-3,6E(b)-1,5
    11I26,6A0E(b)-3,8RU-1,7
    12A26,6L-0,1S(b)-5,4B-3,2
    13E21,8RU-1B-8,2S(b)-4,9
    14P17,8PB-3,6PB-9,1PB-7,1
    15G17,1Irl-5,7Irl-19,2Irl-12,4
    (a) 1990/2002; (b) 1995/2002
    Países membros da EU/15 . A-Alemanha; Au-Áustria; B-Bélgica; D-Dinamarca; E-Espanha; F-França; Fi-Finlândia; G-Grécia; I-Itália; Irl-Irlanda; PB-Países Baixos; P-Portugal; RU-Reino Unido; S-Suécia.

    Portugal também "vence" no ranking das despesas de protecção social, pensões e fracção dos impostos aplicados na protecção social - ver quadro seguinte:


    ordem
    Despesa
    Protecção
    Social
    1986-2001
    Pensões
    1993-2002
    Var.peso
    Prot.social
    no NF
    1991-2002
    Paísespp.PIBPaísespp.PIBPaísespp.do NF
    1P8,2P3,7P18
    2G5,1G1,9A14
    3A4,4A1,7F4
    4Au2,4I1,3RU4
    5F2,2D1.1PB4
    6RU1,8F0,5G1
    7I0,9RU0,5A1
    8B0,8E0,3B - 2
    9L0,7Au0,3L - 2
    10D0,3Fi - 0,8D - 2
    11E - 1S(c) - 0,8Irl - 2
    12S - 1,8B - 1I - 3
    13PB - 2,7PB - 1,6S - 3
    14Fi - 3,4iRL - 2,2E - 6
    15iRL - 3,6L - 2,6Fi - 7
    (c) 1993 - 2002
    Países membros da EU/15 . A - Alemanha; Au - Áustria; B - Bélgica; D - Dinamarca; E - Espanha; F - França; Fi - Finlândia; G - Grécia; I - Itália; Irl - Irlanda; PB - Países Baixos; P - Portugal; RU - Reino Unido; S - Suécia.

    Ben Bernanke - Mr. FED

    Ben Bernanke foi designado pelo presidente dos EUA para suceder a Alan Greenspan à frente da Reserva Federal (FED), o banco central norte-americano.

    Bernanke é um "homem da casa" de Bush, pois já era presidente do Comité de Conselheiros Económicos da Casa Branca e pertenceu ao conselho de governadores do FED desde 2002 e até recentemente. É igualmente um académico respeitado prestigiado, sendo por vezes retratado na imprensa como um "outsider" nos cargos públicos que tem ocupado. Embora seja um Republicano e apoie as políticas de redução de impostos, não é um fundamentalista "do lado da oferta", possuindo um estilo mais pragmático, ao jeito de Greenspan.

    Em várias ocasiões Bernanke manifestou tolerância perante alguma inflação, pelo menos no curto prazo, embora dentro de um objectivo anti-inflacionista a longo prazo. Entre os seus argumentos encontramos a importância dos "sticky prices" - a rigidez nos preços que impede a eficiência pura dos mercados (um argumento caro aos keynesianos). Daí, talvez, as reticências de LAS no Causa Liberal, que acredita que "o movimento da civilização se nota numa baixa progressiva dos custos de produção e dos preços reais", pelo que a escolha de Bush, aparentemente, não o convence. Bernanke seria assim um dos "poderosíssimos travões a esse movimento civilizador". É muito curioso o facto de outros comentaristas apontarem o novo Mr. Fed como um fanático do combate à inflação...

    Segundo a Wikipedia, Bernanke formou-se em Harvard em 1975 e obteve o doutoramento no MIT em 1979. Foi docente na Universidade de Stanford entre 1979 e 1985, passando depois a leccionar na Universidade de Princeton, onde é reponsável pelo Departamento de Economia desde 1996. Deu aulas na London School of Economics acerca de teoria e política monetária. Foi director do "Monetary Economics Program" do National Bureau of Economic Research e editor da revista "American Economic Review".

    Ben Bernanke - Essays on the Great DepressionBernanke é conhecido pelo seu trabalho sobre os canais de transmissão da política monetária, e particularmente pelo paper de 1992, com Alan Blinder, "The Federal Funds Rate and the Channels of Monetary transmission"", onde defendem que a expansão do crédito é mais importante do que a oferta monetária.

    O seu trabalho também contempla uma abordagem às causas da Grande Depressão dos anos 30, que deu origem ao livro Essays on the Great Depression. Eis algumas citações de Ben Bernanke:
    «Eu não advogo uma política estritamente rigorosa de inflation-targeting , que tente conter sempre a inflação a um determinado nivel. Penso antes que vale a pena especificar um objectivo para uma taxa de inflação média num prazo alargado. Creio que todos compreendem que o FED não pode conter a inflação num determinado nível, mesmo que o pretendesse, por causa dos choques que afectam a economia»
    «Um dos grandes activos que temos para a reconstrução pós-Katrina é a força global da nossa economia. A resiliência da economia está em permitir que ela absorva os choques nos sectores da energia e transporte provocados pelo furacão, e a capacidade da nossa economia para crescer e criar empregos funcionarão como uma tábua de salvação para as regiões que foram mais afectadas. Portanto, a catástrofe torna ainda mais necessário que mantenhamos fortes os fundamentos da economia nacional e que continuemos a promover políticas que encoragem o crescimento. Enfrentaremos desafios significativos nos próximos meses e anos, mas estou confiante em que as comunidades da Costa do Golfo serão reconstruídas, e em que a economia do Golfo, e dos EUA como um todo, emergirão desta tragédia mais fortes do que nunca.»
    «A política monetária não consegue responder de um modo convencional quando se baixam as taxas de juro para influenciar a procura agregada. No entanto, como já referi no meu discurso de Novembro de 2002, embora existam vias alternativas pelas quais a política monetária pode ajudar a expandir a economia, temos uma experiência limitada acerca dessas vias, sendo pior compreendidas do que o habitual recurso às taxas de juro.»
    [acerca dos modelos que incorporam a regra "friedmaniana" de taxa de juro nominal=zero e alguma deflação]

    «Eu diria que esses modelos são deficientes pelo menos em dois aspectos. Um dos problemas é que se focam quase inteiramente nos denominados "custos das solas dos sapatos" ["shoe-leather costs"], ou seja, o custo de minimizar a detenção de moeda (indo mais frequentemente ao banco, por exemplo) para evitar perdas com a inflação. Mas os "custos das solas dos sapatos" não são os únicos relevantes. Mesmo numa situação de estabilidade existem muitos outros custos, tais como os que decorrem das alterações de preços e das distorções nos impostos e regras contabilísticas expressas em termos nominais - e que estes modelos não incorporam. Portanto, e mesmo abstraindo dos problemas do ciclo económico e procurando determinar apenas a taxa de inflação que maximiza o crescimento, não é evidente para mim que ela deva ser negativa. O segundo problema é que esses modelos ignoram a rigidez nos salários e preços [sticky wages and prices] e a possibilidade de desvios, no curto-prazo, relativamente ao pleno-emprego.»
    Trabalhos de Ben Bernanke:
  • "Is Growth Exogenous? Taking Mankiw, Romer and Weil Seriously"
  • "Monetary Policy in a Data-Rich Environment"
  • "Should Central Banks Respond to Movements in Asset Prices?"
  • "the transition from academic to policymaker" (comentário numa conferência)
  • "The global saving glut and the US current account deficit" (comentários)
  • "Conducting Monetary Policy at Very Low Short-Term Interest Rates"
  • "The Outlook For the Economy and for Policy"

    Referências na blogosfera:
    ||| Causa Liberal ||| Elba Everywhere |||
  • segunda-feira, outubro 24, 2005

    Bons hábitos

    Carole Bouquet e Angela Molina, actrizes do filme de Buñuel 'Esse obscuro objecto de desejo'. Fotografia de Allan Tannenbaum, NY-1977
    Carole Bouquet e Angela Molina

    O cérebro humano apresenta uma série de características que não encaixam bem na imagem da "implacável máquina de raciocinar", mas fazem sentido em termos de poupança de energia - ou optimização de recursos.

    Por exemplo: é sabido que não processamos as imagens do mundo exterior com todo o detalhe, pois isso seria muito dispendioso em termos de scanning e armazenamento na memória. Guiamo-nos muito pelas silhuetas e deduzimos os volumes a partir das arestas. Esta simplificação também tem o seu preço, provocando-nos algumas ilusões, como esta, esta ou esta.

    É também por isso que nunca vemos o mundo como ele realmente é, mas como estamos à espera que seja, razão pela qual as testemunhas de um acontecimento divergem tanto sobre o que observaram. E não será de estranhar que muitas pessoas tenham visto o filme "Esse obscuro objecto de desejo" sem se aperceberem de que Buñuel utilizou alternadamente as actrizes Carole Bouquet e Angela Molina para o papel da evasiva Conchita. No entanto, veja as diferenças.

    Outra estratégia de poupança de energia são os hábitos. Se fazemos todos os dias o mesmo percurso automóvel, porque havemos de estar todos os dias a processar a mesma informação? O nosso organismo coloca em funcionamento um "piloto automático" que nos conduz pelos caminhos usuais sem grande esforço, e por vezes chegamos ao destino sem perceber muito bem como é que lá fomos parar. Ou então, o piloto automático leva-nos por um caminho quando, naquele dia, até queríamos ir por outro lado.

    O "piloto automático" dos hábitos também tem os seus problemas, tanto mais que foi desenvolvido pelo processo evolutivo durante épocas em que o mundo não mudava tão rapidamente quanto hoje. E o problema é que os hábitos custam a mudar, como bem sabem os fumadores arrependidos e os obesos compulsivos.

    Numa investigação recente do MIT [detalhes aqui], conduzida por Ann Graybiel, analisou-se a actividade neural relacionada com a formação de hábitos e com a sua extinção/reaprendizagem, comprovando que a persistência dos hábitos nada tem a ver com a falta de "força de vontade" mas sim com mecanismos neurais bem estabelecidos. Além disso, se o organismo "aprendeu" algo uma vez, que depois houve vantagem em "desaprender", para "reaprender" de novo, faz sentido que não tenha que começar tudo da estaca zero.

    Nas experiência do MIT, ratos de laboratório aprenderam que havia uma recompensa - chocolate - no final de um labirinto. No início da aprendizagem, os neurónios mantinham-se activos durante toda a corrida ao longo percurso, como se tudo fosse importante. Mas à medida que os animais aprendiam o significado dos sinais (sonoros) que indicavam qual o caminho que levava ao chocolate, os neurónios do gânglio basal "aprendiam" também, e passaram a estar activos apenas no início e no fim da tarefa, "desligando" ao longo do percurso já familiar.

    Então os investigadores removeram o prémio, tornando os sinais inúteis. Esta mudança fez com que tudo no labirinto voltasse a ser relevante, e os neurónios voltaram a estar de novo activos durante toda a corrida até que, por fim, os animais deixaram de correr (perderam o hábito) e o padrão criado nas células cerebrais desapareceu. Mas quando se voltou a introduzir o prémio, o padrão antes aprendido reapareceu rapidamente: tal como se o cérebro retivesse a memória do hábito e do seu contexto, "repescando" o padrão logo que os sinais associados regressam. Esta situação é familiar para os que tentam perder peso ou controlar um qualquer hábito arreigado: basta a visão de um bolinho para "apagar" todas aquelas boas intenções...

    Documentos de Ann Graybiel:
  • Palestra sobre "Neural Mechanisms of Habit Formation": ficheiros de imagem e som aqui.
  • "The Basal Ganglia and Chunking of Action Repertoires" (1998)
  • "Cocaine and the Changing Brain"


        Ann Graybiel

    Investigadora do MIT (Cambridge, Massachusetts), Ann Graybiel e a sua equipa têm realizado estudos pioneiros acerca da anatomia e fisiologia do cérebro, nomeadamente da região conhecida como gânglio basal, demonstrando os mecanismos de controlo neuro-químico dos complexos circuitos cerebrais. Estas investigações ajudam a compreender como é que esta zona do cérebro controla a actividade motora e a aprendizagem de procedimentos. O seu trabalho tem grande relevância para o conhecimento e tratamento de doenças como as de Parkinson, Huntington, síndroma de Tourette, disfunções obsessivo-compulsivas, défice de atenção e depressões profundas. Um dos focos da investigação de Graybiel tem sido o modo como os indivíduos criam e anulam hábitos, aspecto fundamental do comportamento humano.

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/bons-hbitos.html
  • Desinvestigação

    Mais uma preocupação para a Comissão Europeia, a debater na próxima cimeira: na UE o acréscimo de despesas com I&D no sector privado, para 2004-05, foi de apenas 2%, enquanto que nos EUA e Ásia foi de 7% - de acordo como o "International R&D Scoreboard", citado pelo Financial Times.

    Em termos de empresas baseadas na Europa, a mais espectacular neste domínio foi a DaimlerChrysler. As escandinavas Nokia e Ericsson, por outro lado, cortaram nas despesas de investigação, respectivamente 4% e 25%.

    Estes dados ensombram as conclusões de um recente estudo da OCDE, o Science, Technology and Industry Scoreboard, segundo o qual, no domínio da globalização do conhecimento, a «a Europa está mais internacionalizada do que os seus concorrentes [...] um número crescente de empresas multinacionais está a localizar os seus laboratórios de I&D no estrangeiro, mas com preferência por alguns países»; entre os beneficiários desta tendência encontram-se a Hungria e a Irlanda, onde as empresas estrangeiras contribuem para mais de 70 % da I&D industrial; Portugal, Espanha, Rep. Checa e Suécia encontram-se bem colocados, com um indicador de mais de 40% - ver notícia. O mesmo estudo indica que também alguns países europeus ocupam o topo da tabela em termos de artigos científicos publicados por habitante: Suécia, Suiça e Finlândia.

    Preços da produção industrial

    O INE publicou os Índices de Preços na Produção Industrial, que revelam uma variação homóloga de 4,5% - um acréscimo de 0,1 pontos percentuais (p.p.) em relação ao mês anterior. A taxa de variação média nos últimos doze meses foi de 4,4%.

    A "Energia" foi a principal responsável por este resultado, para o qual contribuíu com 0,5 pontos percentuais. O "Consumo Total", por outro lado, teve uma contribuição negativa de 0,3 pontos percentuais.

    Nova Orleães: o dia seguinte


    «À medida que as equipas começam a analisar as casas apodrecidas e os preservacionistas iniciam esforços para as salvar, as autoridades municipais e federais calculam que entre 30 mil a 50 mil casas terão de ser demolidas.»

    «Este número, embora mais baixo do que chegou a ser previsto, ainda assim representa mais de um quarto do parque habitacional da cidade. Daqui a algumas semanas, quando as escavadoras gigantes começarem a abater as casas que em tempos abrigaram famílias, a cidade passará por um dos mais dolorosos momentos do seu calvário.»

    The New York Times

    sábado, outubro 22, 2005

    A ciência igualitária

    Também eu andei convencido de que a designação de "ciência deprimente", ou "ciência triste"[1] para a Economia deriva de, aparentemente, ela originar sempre notícias ou previsões pessimistas. A explicação corrente em muitos manuais de Economia é que a expressão foi criada por Thomas Carlyle, numa reacção às previsões pessimistas de Malthus, relativas ao crescimento da população.

    Afinal, e apesar de ter sido efectivamente Carlyle o autor da expressão, a explicação é muito diferente, como se pode ver, por exemplo, no livro de David M. Levy, "How the Dismal Science Got Its Name: Classical Economics and the Ur-Text of Racial Politics". Com a sua promessa de um mecanismo regulador - a "mão invisível" - que permitiria assegurar o bem comum, mesmo se as intenções dos indivíduos eram egoístas, a Economia Política mostrava ser desnecessário o sistema hierárquico esclavagista, onde um tipo de homens (os "brancos") julgava ter a obrigação de tomar conta de todos os outros.

    Ou seja: a Economia era profundamente optimista quanto à possibilidade de um mundo mais igualitário. Mas isso eram "más notícias" para os defensores do sistema esclavagista. Para eles, de facto, a Economia era uma "ciência deprimente". Eis algumas palavras de apresentação do livro, traduzidas do site da University of Michigan Press:
    «É vulgarmente aceite que os "sábios" da era vitoriana criticaram a Economia clássica de uma perspectiva humanística, ou igualitária, designando-a como "a ciência deprimente" [ the dismal science ] e que esta crítica é relevante para o debate actual acerca da sociedade de mercado. David M. Levy mostra no seu livro que essas asserções são simplesmente falsas: a Economia Política foi caracterizada como "deprimente" porque Carlyle, Ruskin e Dickens ficaram horrorizados perante a ideia de que o sistema esclavagista seria substituído por um sistema que permitia a todos os indivíduos escolher o seu próprio caminho na vida. Achavam que, no mínimo, "nós" os brancos deveríamos dirigir a vida "deles", os de cor. Os economistas desse tempo, por outro lado, argumentaram que as pessoas de cor deveriam era ser protegidas pela lei. E esta é que é a origem do apodo "ciência deprimente".

    «Uma surpreendente imagem de 1893, que é reproduzida na capa do livro, mostra Ruskin a matar alguém que aparenta não ser um "branco". Um olhar atento revela que a vítima está a ler "The Dismal Science" [ver nota 2]. Levy analisa esta imagem e também o texto de Carlyle "Occasional Discourse on the Negro Question" e a subsequente resposta de Mill, mostrando que se tratam de documentos centrais para a economia clássica britânica.

    «As ideias igualitárias de Adam Smith são explicadas e contrastadas com a alternativa hierárquica proposta por Carlyle. Levy também examina as representações visuais deste debate e fornece uma apresentação esclarecedora da "cataláxia" smithiana, a ciência das trocas, comparando-a com os fundamentos da moderna economia neoclássica.»

    in University of Michigan Press

    Na Internet encontra-se acessível o livro de David M. Levy em ficheiros correspondentes aos 3 capítulos: "1. Two Sciences in Collision: The Dismal and the Gay", "2. Market Order or Hierarchy?" e "3. The Katallactic Moment". Também se pode aceder ao texto de Carlyle: "Occasional Discourse on the Negro Question" e à resposta de John Stuart Mill: "The Negro Question". Análises deste debate podem ser encontradas aqui e aqui. O texto de Carlyle inclui o seguinte parágrafo, carregado de ironia, onde usa pela primeira vez a expressão "dismal science":
    «[...] Na realidade, meus filantrópicos amigos, a filantropia de Exeter Hall é maravilhosa. E a ciência social - não uma "ciência alegre", mas sim lamentável - que encontra os segredos do Universo na "oferta e procura" e reduz o papel dos governantes humanos ao de deixarem os homens sozinhos, também ela é maravilhosa. Não é uma "ciência alegre", pois, como alguns apregoam. É uma ciência aborrecida, desolada, e mesmo abjecta e perturbante: aquilo a que poderíamos designar como "ciência deprimente". Se a filantropia de Exeter Hall e a Ciência Deprimente, conduzidas por uma qualquer sagrada causa de emancipação dos negros, se apaixonassem e casassem, dariam origem a progénitos e prodígios: loucos de cor escura, abortos inomináveis, mostruosidades com cauda - tais como o mundo jamais viu!» [3].

    Thomas Carlyle
    "Occasional Discourse on the Negro Question"

    Textos relacionados:
  • "Post Ricardian British Economics, 1830-1870"
  • "Thomas Carlyle, 'The Dismal Science', and the Contemporary Political Economy of Slavery"
  • "John Stuart Mill: a Biography"

    Notas:
    [1] A tradução de "dismal science" por "ciência triste" é a única que tenho lido ou ouvido em português, mas creio que o adjectivo inglês dismal é melhor traduzido por "deprimente", e é este que eu habitualmente uso.

    [2] A capa do livro de David Levy reproduz o desenho caricatural de uma outra publicação, de 1893, com excertos de ensaios de John Ruskin, um crítico do capitalismo, editados pela empresa de tabaco "Cope Brothers". Ruskin, montado num cavalo alado, derruba uma figura grotesca que segura na mão um saco onde estão escritas as iniciais L.S.D. (libras, xelins e pence, moedas da época) e "The Wealth of Nations", título da obra de Adam Smith; caído ao pé da figura encontra-se um livro com o título: "The Dismal Science". A personagem derrubada por Ruskin está vestida de modo pomposo, com casaco de abas de grilo, de tal forma desenhado que parece ter uma cauda. A analogia é evidente: trata-se de um ser inferior (um negro?) e ganancioso, que se pretende fazer passar por "superior" e "civilizado", sob a influência da Economia Política. Ver imagem ampliada aqui.

    [3] O Exeter Hall, edifício construído para sede e local de reunião de instituições religiosas e caritativas, encontrava-se fortemente associado ao anglicanismo e às campanhas anti-esclavagistas. As duas correntes cujo "casamento" Carlyle tanto temia, opunham-se ambas à escravatura, mas por motivos diversos. Os economistas consideravam que todos os indivíduos possuíam a mesma natureza humana básica e que, para a análise económica, as questões raciais eram indiferentes. Os anglicanos consideravam todos os indivíduos como irmãos e irmãs, originários do mesmo casal primordial, Adão e Eva. Mais informações sobre o edifício encontram-se aqui.

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/cincia-igualitria.html
  • Estrelas americanas

    As Forbes apurou quais as 200 melhores pequenas empresas americanas de 2005 [ link ]. Eis as primeiras 10:

    10 melhores pequenas empresas americanas em 2005
     empresas
    [ link ]
    ramo / produto
      1 Hansen Naturalbebidas não alcoólicas e energéticas; lançou em 2002 a Monster Energy, uma bebida carregada com cafeína.
      2 Cognizant Technology Solutions serviços de outsourcing via Web, com recurso a mão-de-obra de outros países.
      3 Travelzoocaptação de viajantes via Web, encaminhamento para as agências de viagens.
      4 Remington Oil & Gasextração de petróleo e gás no Golfo do México.
      5 Usana Health Sciencesprodutos nutricionais; vitaminas e suplementos alimentares para crianças e adultos, cosmética.
      6 Forward Industriesmalas e capas para objectos portáteis: telemóveis (Motorola), computadores, equipamentos médicos, instrumentos musicais, etç.
      7 Laserscopeequipamento laser para intervenções médicas.
      8  Ceradyneprodutos cerâmicos para aplicações médicas, militares, industriais, etç.
      9 American Healthwaysmonitorização e controlo remoto da prestação de cuidados médicos.
     10 Middlebyequipamentos industriais para cozinhas.

    Mente empreendedora

    «Uma das coisas que faz com que o ensino do empreendedorismo seja tão agradável é que se trata de um "desporto full contact". Ou seja, para ensinar efectivamente o empreendedorismo é necessário encontrar modos para que os nossos estudantes coloquem em acção os conhecimentos que lhes transmitimos. Podemos fazer isso através do ensino na sala de aula e através de actividades curriculares que possibilitam aos estudantes transportar para fora o que aprenderam na sala de aula.»

    Jeff Cornwall - The Entrepreneurial Mind

    sexta-feira, outubro 21, 2005

    Princípio da precaução

    O livro "Arbitrary and Capricious: The Precautionary Principle in the European Union Courts" argumenta fortemente contra o denominado princípio da precaução":

    «Ninguém pode contrariar que é melhor prevenir do que lamentar. Mas o princípio da precaução é torpedeado na teoria e na prática, e a sua sacralização coloca a Europa num caminho que provoca estragos na economia e na saúde pública - tanto na sua e como na dos seus parceiros comerciais.»

    O livro foi editado nos EUA pelo think thank de direita "American Enterprise Institute for Public Policy Research" e uma versão em pdf por ser obtida aqui.

    O princípio da precaução é um conceito de política que tenta evitar o risco, tanto real como antecipado. Tem sido utilizado para justificar leis e regulamentos da UE, mas os seus críticos argumentam que, «como se trata de um conceito mal definido, tem conduzido a decisões arbitrárias, criando problemas para futuros casos legais e de jurisprudência.» É usado com frequência em questões relacionadas com o ambiente, tecnologia, segurança e políticas de saúde. Entre os proponentes do princípio da precaução encontram-se eurocratas, académicos, ONGs e até mesmo algumas empresas.

    Um dos autores do livro, Gary Marchant, escreveu para o WSJ o artigo "Unprincipled Precaution" onde elenca as principais críticas. Um dos exemplos referidos por Marchant é o da directiva europeia sobre "Agentes Físicos (campos electromagnéticos), que regula a exposição a campos electro-magnéticos, incluindo os de aparelhos médicos como os que usam a resonância magnética (MRI). «Os burocratas europeus defendem que, uma vez que não se sabe tudo acerca de tais tecnologias, o seu uso deve ser restringido; mas em Inglaterra 12 proeminentes cientistas apelaram ao Departamento de Comércio de Industria, salientando que tais restrições causam na realidade ainda mais problemas, porque fazem aumentar o recurso ao tradicional raio-X, mais perigoso do que o MRI.»

    Textos relacionados:
  • "O princípio da precaução: bom senso ou extremismo ambiental?"
  • "Princípio da precaução: considerações epistemológicas sobre o princípio e sua relação com o processo da análise de risco"
  • "Comunicação da Comissão Europeia relativa ao princípio da precaução"
  • "The precautionary principle in action"
  • "The precautionary principle " - UNESCO
  • "The Precautionary Principle: A Critical Appraisal of Environmental Risk Assessment", livro de Indur Goklany, o homem que definiu o ano de 2085 como a data em que "os benefícios de se ser rico e tecnologicamente mais avançado serão anulados pelos custos de um mundo mais quente e poluído" - ver aqui.

    [ Via The Commons ]


    Notas:
    (a) Uma definição do "princípio da precaução" foi formalizada na conferência do Rio em 1992: é a «garantia contra os riscos potenciais que, de acordo com o estado actual do conhecimento, não podem ser ainda identificados. Este Princípio afirma que, na ausência da certeza científica formal, a existência de um risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam prevenir esse dano.»

    (b) A União Europeia refere num glossário: «O conceito de princípio da precaução provém de uma comunicação da Comissão, adoptada em Fevereiro de 2000, sobre o "recurso ao princípio da precaução" na qual define o conceito e explica como prevê aplicá-lo. (...) Aplica-se em:
    - Casos em que os dados científicos sejam insuficientes, pouco conclusivos ou incertos.
    - Casos em que um exame científico preliminar revele que se pode razoavelmente recear efeitos potencialmente perigosos para o ambiente e para a saúde das pessoas e dos animais bem como para a sanidade vegetal.»

    (c) A Confederação Nacional de Agricultura, numa exposição de Maio passado ao Presidente da República, invoca o "principio da precaução" (entre outros argumentos) para que o PR não promulgue a legislação sobre a coexistência entre milhos trangénicos e milhos tradicionais.

    (d) No site da Rede Ferroviária de Alta Velocidade (RAVE) encontra-se este compromisso: «Adoptar o princípio da precaução em todas as questões relativas ao ambiente onde seja patente a incerteza científica quanto à extensão ou magnitude do impacte ambiental do Projecto RAVE.»

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/princpio-da-precauo.html
  • Olha quem fala...

    Paul Krugman, o economista que em 1976 veio a Portugal aprender «o poder de ideias económicas muito simples e, simultaneamente, a inutilidade das teorias a que não se pode dar conteúdo operacional» (*), revelou numa palestra para estudantes que «o estudo da Economia é um trabalho de "adivinhação" sobre coisas de que não sabemos nada.» [ link ].

    E disse ainda mais isto: que «as despesas com cuidados de saúde nos EUA são das mais elevadas do mundo e, no entanto, a esperança de vida é apenas ligeiramente superior à da Costa Rica.»

    As coisas que podem ser ensinadas por uma pessoa que fala sobre algo de que nada se sabe...

    Via "The Conspiracy..."


    (*) Um grupo de alunos de doutoramento do MIT, de que faziam parte Krugman, Luís Miguel Beleza e outros, sob a orientção de Dornbush, Eckaus, Solow e outros, elaborou para o Banco de Portugal o relatório "A economia portuguesa: evolução recente e situação actual", de 6 de Agosto de 1976. Apesar de não se depreender do título, o relatório sugere algumas medidas de política económica "destinadas a reduzir o défice [externo] em 1977".

    actualização

    Foi actualizado o post relativo ao Índice de percepção da corrupção da "Transparency International".

    Código de ética empresarial

    Os empresários que têm andado a debater as questões da ética empresarial e a preparar a redacção de um Código de Ética, chegaram finalmente a um consenso, tendo assinado ontem, a título individual, o designado "Código de Ética dos Empresários e Gestores" - segundo noticia do jornal Público. O texto final, em pdf, encontra-se aqui. O "Pura Economia" já tinha referido este debate aqui.

    A face mais visível deste movimento é o empresário José Roquette, através da Associação Cristã dos Empresários e Gestores. Roquette fala sobre o assunto nesta entrevista.
    «Temos de lutar contra a actual situação, em que os padrões de exigência deste país que são muito baixos e onde há uma grande resistência à mudança. Acredito contudo que o caminho pode ser percorrido e que, mais tarde ou mais cedo, as empresas que têm preocupações e exigências éticas acabarão por ser premiadas. Não só internamente mas ao concorrerem num mercado global que se vai tornando mais exigente e mais informado.»

    José Roquette

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/cdigo-de-tica-empresarial.html

    Regresso ao passado

    Tal como gatos escaldados, os economistas (e não só) estão sempre a olhar para o presente à procura de sinais do passado, particularmente de sinais que possam anunciar a repetição de catástrofes ainda frescas na memória das gerações, como a "grande depressão" dos anos 30 e o "choque petrolífero" dos anos 70. No primeiro caso, é a bolha especulativa do imobiliário americano que mantém estas mentes alerta. Agora são os números da inflação que, segundo o "Economist", estão a fazer com que as sumidades andem a consultar os velhos manuais de economia.

    Ilusões


    «Só há duas semanas para cá é que começou a revolução em Portugal. Na minha opinião, até agora, desde o 25 de Abril, havia certos movimentos populares e coisas até extremamente importantes, mas basicamente a política era conduzida por elites. [...] Finalmente, há duas ou três semanas, o povo pôde abrir suficientemente os olhos e está a tomar o poder.[...] Pela primeira vez [deu-se a ligação] entre os operários das fábricas de adubos e de máquinas agrícolas com os assalariados e pequenos proprietários e rendeiros alentejanos. [...] Também o que se tem passado com as comissões de moradores, a intervenção nos arrendamentos de casas e em determinados aspectos da organização de bairros, até nos conselhos municipais, são aspectos extremamente positivos no avanço da revolução portuguesa. Isto é, pois, tomar o poder nas mãos.»

    Francisco Pereira de Moura
    Diário de Notícias, 21.Out.1975
    (citado pelo Público)

    F.P. de Moura, professor de Economia do ISE, fora Ministro dos Assuntos Sociais no V governo provisório até 2 de Setembro de 1975, data da substituição do executivo de Vasco Gonçalves pelo VI governo provisório, de Pinheiro de Azevedo.

    quinta-feira, outubro 20, 2005

    Economia indecisa

    A Síntese Económica de Conjuntura de Setembro, divulgada pelo INE, revela indicadores contraditórios para a evolução recente da economia portuguesa, com o indicador de actividade económica a deteriorar-se em Agosto, atingindo o menor valor desde Fevereiro de 2004, e o indicador de clima a interromper o movimento descendente dos meses anteriores, em resultado de dois movimentos opostos: recuperação na indústria e a deterioração nos serviços e na construção.

    «O investimento apresentou sinais positivos principalmente em resultado das evoluções, quer do material de transporte, quer da construção. Os dados até Julho do comércio internacional apresentaram um cenário menos favorável, com as importações a crescerem e as exportações em quebra. No mercado de trabalho há indicações favoráveis, quer pelo lado dos inquéritos de curto prazo, quer pela informação do IEFP que parece revelar uma redução do desemprego e um pequeno reforço no emprego. Em Setembro a inflação situou-se em 2,8%, em resultado da evolução da classe Transportes, por influência do preço dos combustíveis.»

    Ainda o Nobel

    Tiago Mendes - dos blogues aforismos & afins e Mão Invisível - que antecipou (e desejou) a entrega do Nobel a Thomas Schelling, tem no Diário Económico um bom artigo sobre aquele prémio:
    «[...] Implicações [da Teoria dos Jogos]? Duas. Por um lado, em qualquer situação de negociação onde haja alguma necessidade de consenso uma "boa" previsão tem que atender a factores históricos, culturais, e sociais – numa palavra, atender à "tradição". Por outro lado, a necessidade de coordenação ajuda a compreender a estabilidade de determinadas convenções sociais, como as regras de etiqueta, o sentido do trânsito, ou até a linguagem – onde todos esperam que todos tenham a expecativa que todos observem determinadas regras, sob pena de serem penalizados. No seu livro ‘The Strategy of Conflict’, o ex-professor de Harvard apresenta outros exemplos curiosos, como o da audiência que aplaude o pianista e que tem de "decidir", a determinado momento, entre "puxar" pelo ‘encore’ ou parar de bater palmas – o que geralmente acontece de forma súbita e coordenada, evidenciando o "entendimento comum" que as pessoas têm quando partilham certos hábitos e tradições. Tida como uma das mais influentes publicações do séc. XX, é uma obra que vale a pena conhecer.»


    Que fazer com a gripe ?

    Documento informativo do médico Dr.Castro Correia, da SAGIES, sobre medidas pessoais a tomar relativamente ao problema da gripe das aves:

       Gripe das aves   

    [ ficheiro pdf - 4 páginas - 92,7 KB ]

    Democratas 8 - Republicanos 1

    O estudo de David Horowitz e Joseph Light "Representation of Political Perspectives in Law and Journalism Faculties", sobre a orientação partidária de professores em escolas de Direito e de Jornalismo dos EUA, mostra que os Democratas esmagam os Republicanos (8 para 1) em 10 importantes escolas de Direito, bem como em 9 escolas de Jornalismo.

     Orientação partidária em Faculdades de Direito dos EUA 
    FaculdadeDemocratasRepublicanosRácio D/R
     Berkeley5569/1
     Chicago5687/1
     Columbia46223/1
     Harvard4577/1
     Nova Iorque68514/1
     Northwestern2974/1
     Penn2783/1
     Stanford28128/1
     South.California3048/1
     Yale4659/1
     Totais430538/1

    «Os estudantes têm poucas oportunidades de encontrar diversidade ideológica nas salas de aula destas escolas. Apenas uma escola, a "University of Kansas Journalism School", mostrou genuína diversidade intelectual.»

    Adeus Lenine


    «Verificámos que os alemães "orientais" acreditam significativamente mais do que os alemães "ocidentais" que o Estado se deve responsabilizar pela segurança financeira de diferentes grupos vulneráveis na sociedade, nomeadamente os desempregados, os doentes, as famílias, os idosos e pessoas necessitadas de cuidados. De acordo com os nossos resultados, serão necessárias uma ou duas gerações (20 a 40 anos) para que um alemão "ocidental" médio tenha os mesmos pontos de vista acerca do papel do governo na sociedade que um alemão "oriental".

    «A diferença de preferências [...] deve-se em larga medida ao efeito directo do comunismo [...] devido a doutrinação, nomeadamente em escolas públicas, ou simplesmente devido a terem-se habituado a um sector público intrusivo". Um segundo efeito, indirecto, é o de ter feito os antigos alemães "orientais" mais pobres, tornando-os mais dependentes das políticas de redistribuição e, por isso, levando-os a favorecê-las.»

    "Good bye Lenin (or not?):
    The Effect of Communism on People's Preferences
    "
    Alberto Alesina e Nichola Fuchs Schuendeln (Julho 2005)

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/adeus-lenine.html

    Ensino secundário

    A Fundação Manuel Leão realizou, ao longo de cinco anos, um estudo de "Avaliação de Escolas com Ensino Secundário" (AVES), que conclui que os estudantes têm uma opinião positiva acerca das respectivas escolas - apesar de essa positividade diminuir à medida que os alunos avançam nos escalões de ensino (os miúdos vão ficando mais sabidos, não é verdade?).

    Pode aceder-se ao estudo, mediante registo prévio, aqui.

    Outro documento interessante da Fundação é sobre o "Rendimento escolar nos cursos das Escolas Secundárias e Profissionais".

    (Via jornal "Público")

    Sinais dos tempos

    «O acordo da General Motors com o sindicato United Auto Workers para um corte de 3 mil milhões de dólares/ano de regalias de saúde e redução dos apoios às despesas de saúde dos reformados em 25 %, parece muito mais dramático do que na realidade é. Por maiores que pareçam, é pouco provável que os cortes contribuam para salvar a empresa da sua lenta espiral de morte. O negócio da GM atingirá os trabalhadores marginalmente. Em contraste, na falida Delphy - em tempos uma unidade da General Motors para fornecimento de peças - o CEO Steve Miller fala em reduzir os salários e regalias salariais dos trabalhadores sindicalizados em 70 %!
    [...]
    Por isso não surpreende que as acções da General Motors tenham caído desde o anúncio do acordo, na segunda-feira. Os investidores não acham que ele vá muito longe na resolução dos problemas financeiros de longo prazo da GM. E eles têm razão.»

    "GM's suicide pact with the United Auto Workers"

    Corrupção


    [ menor corrupção percepcionada = cores + claras ]
    A Transparency International divulgou o "Corruption Perceptions Index 2005", onde Portugal ocupa a 26ª posição. O índice reporta-se à percepção que os cidadãos têm do problema no seu próprio país (ver informação relativa aos países europeus).

    Índice de Corrupção Apercebida - 2005
     Rank 
     País 
     Índice 
     Intervalo de confiança 
    1
     Islândia
    9,7
    9,5 - 9,7
    2
     Finlândia
    9,6
    9,5 - 9,7
    "
     Nova Zelândia
    9,6
    9,5 - 9,7
    4
     Dinamarca
    9,5
    9,3 - 9,6
    5
     Singapura
    9,4
    9,3 - 9,5
    6
     Suécia
    9,2
    9,0 - 9,3
    7
     Suíça
    9,1
    8,9 - 9,2
    8
     Noruega
    8,9
    8,5 - 9,1
    9
     Austrália
    8,8
    8,4 - 9,1
    10
     Áustria
    8,7
    8,4 - 9,0
    11
     Holanda
    8,6
    8,3 - 8,9
    "
     Reino Unido
    8,6
    8,3 - 8,8
    13
     Luxemburgo
    8,5
    8,1 - 8,9
    14
     Canadá
    8,4
    7,9 - 8,8
    15
     Hong Kong
    8,4
    7,7 - 8,7
    16
     Alemanha
    8,2
    7,9 - 8,5
    17
     EUA
    7,6
    7,0 - 8,0
    18
     França
    7,5
    7,0 - 7,8
    19
     Bélgica
    7,4
    6,9 - 7,9
    "
     Irlanda
    7,4
    6,9 - 7,9
    21
     Chile
    7,3
    6,8 - 7,7
    "
     Japão
    7,3
    6,7 - 7,8
    23
     Espanha
    7,0
    6,6 - 7,4
    24
     Barbados
    6,9
    5,7 - 7,3
    25
     Malta
    6,6
    5,4 - 7,7
    26
     Portugal
    6,5
    5,9 - 7,1
    27
     Estónia
    6,4
    6,0 - 7,0
    28
     Israel
    6,3
    5,7 - 6,9
    "
     Oman
    6,3
    5,2 - 7,3
    30
     Emiratos Á. Unidos 
    6,2
    5,3 - 7,1
    31
     Eslovénia
    6,1
    5,7 - 6,8
    32
     Botsuana
    5,9
    5,1 - 6,7
    "
     Qatar
    5,9
    5,6 - 6,4
    "
     Taiwan
    5,9
    5,4 - 6,3
    "
     Uruguai
    5,9
    5,6 - 6,4
    36
     Barain
    5,8
    5,3 - 6,3
    37
     Chipre
    5,7
    5,3 - 6,0
    "
     Jordânia
    5,7
    5,1 - 6,1
    39
     Malásia
    5,1
    4,6 - 5,6
    40
     Hungria
    5,0
    4,7 - 5,2
    "
     Itália
    5,0
    4,6 - 5,4
    "
     Coreia do Sul
    5,0
    4,6 - 5,3

    Um outro inquérito da TI, realizado em 2003, colocou a seguinte questão relativa aos sistemas referidos no quadro apresentado abaixo: "se tivesse uma varinha mágica com que pudesse eliminar a corrupção de uma das seguintes instituições, qual escolheria primeiro ?" Em Portugal, os sectores mais votados nesta questão foram os dos partidos políticos e dos serviços médicos, ambos com 18,7% (ver relatório):

     licenciamento
    comercial 
     sistema
    judicial 
     alfândegas  sistema
    educativo 
     partidos
    políticos 
     serviços
    públicos 
    9,2 %14,8 %1,4 %4,2 %18,7 %4,6 %
     serviços
    médicos 
     imigração
    passaportes 
     polícia  sector
    privado 
     receitas
    fiscais 
     outros
    18,7 %6,2 %6,7 %0,7%14,5 %0,2 %

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/corrupo.html

    Efeitos colaterais

    Andrew Sullivan, um bloguista de direita que faz campanha contra o aborto, descobriu mais um argumento para a sua campanha:
    «Se alguma vez for descoberto um gene gay, podem ter a certeza que a geração seguinte de homossexuais será abortada.»

    The Dayly Dish, citado pela Slate

    Também tu, irmão ?

    «Pensões de reforma prometidas aos empregados estão-se a tornar num encargo incomportável para um crescente número de empresas, especialmente na Ámérica."»

    "The Economist"

    Afinal...

    Afinal "ele" sempre há "blogues no feminino":

     |||     Sociedade Anónima     ||| 

    A metáfora do sub-título ("a irmandade dos anéis") é genial.

    Há quem use o símbolo para identificar blogues com música; será que ainda vamos usar e para clarificar estas coisas?...

    Cabelos brancos

    O INE publicou as "Estimativas de População residente em Portugal, NUTS II, NUTS III e Municípios", para 2004, cujo traço mais saliente é o do envelhecimento da população: declinio da natalidade, fraco saldo natural e maior longevidade. No final de 2004 seríamos uns 10.529.255 portugueses, mais 54.570 do que em 2003 - mas 47.240 foram imigrantes que entraram legalmente em Portugal. O "excesso" de mulheres, relativamente ao número de machões, foi de 340.577, ainda longe das "sete mulheres para cada homem" .

    Entretanto, temos que nos ir habituando às novas designações territoriais, que oscilam entre marcas vinícolas (Dão Lafões), Altos sem Baixos (Trás os Montes) e Baixos sem Altos (Vouga, Mondego). Mas Grande, Grande, só mesmo Porto e Lisboa.

     Portugal  10.529.255 
     Continente 10.043.763 
     Norte 3.727.310 
         Minho Lima 251.937 
         Cávado404.681 
         Ave519.542 
         Grande Porto 1.272.176 
         Tâmega 557.762 
         Entre Douro e Vouga     283.856 
         Douro 217.067 
         Alto Trás os Montes220.289 
     Centro 2.376.609 
         Baixo Vouga 394.393 
         Baixo Mondego336.376 
         Pinhal Litoral261.665 
         Pinhal Interior Norte137.857 
         Dão Lafões290.052 
         Pinhal Interior Sul42.692 
         Serra da Estrela48.801 
         Beira Interior Norte112.766 
         Beira Interior Sul75.925 
         Cova da Beira92.460 
         Oeste353.050 
         Médio Tejo230.572 
     Lisboa2.760.697 
         Grande Lisboa2.003.584 
         Península de Setúbal757.113 
     Alentejo767.679 
         Alentejo Litoral97.632 
         Alto Alentejo 121.544 
         Alentejo Central171.239 
         Baixo Alentejo 130.415 
         Lezíria do Tejo246.849 
     Algarve411.468 
     R.A.Açores241.206 
     R.A.Madeira244.286 

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/cabelos-brancos.html

    Blogues e ensino

    O blogue De Gustibus Non Est Disputandum definiu um processo de avaliação de conhecimentos com base num blogue onde cada um dos alunos deve postar pelo menos duas vezes por semana.
    «Cada post será avaliado pelo português, qualidade, originalidade, capacidade analítica (i.e. análise económica positiva, não normativa) e relevância do tema tratado. [...] Os posts devem, obrigatoriamente, conter um link para alguma notícia e/ou artigo da internet.»
    O nível de exigência não é para brincadeiras: «Os posts devem ser do mesmo nivel de análise de blogs como Econbrowser, The Becker-Posner Blog, Economist's View ou Macroblog

    Há um curioso sistema contra as fraudes: «em cada aula, dois alunos serão aleatoriamente sorteados e terão de falar sobre os posts que fizeram. Se não convencerem o professor, a turma inteira perde, automaticamente, 5 (cinco) pontos a cada checagem.»

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/blogues-e-ensino.html