quinta-feira, outubro 20, 2005

Corrupção


[ menor corrupção percepcionada = cores + claras ]
A Transparency International divulgou o "Corruption Perceptions Index 2005", onde Portugal ocupa a 26ª posição. O índice reporta-se à percepção que os cidadãos têm do problema no seu próprio país (ver informação relativa aos países europeus).

Índice de Corrupção Apercebida - 2005
 Rank 
 País 
 Índice 
 Intervalo de confiança 
1
 Islândia
9,7
9,5 - 9,7
2
 Finlândia
9,6
9,5 - 9,7
"
 Nova Zelândia
9,6
9,5 - 9,7
4
 Dinamarca
9,5
9,3 - 9,6
5
 Singapura
9,4
9,3 - 9,5
6
 Suécia
9,2
9,0 - 9,3
7
 Suíça
9,1
8,9 - 9,2
8
 Noruega
8,9
8,5 - 9,1
9
 Austrália
8,8
8,4 - 9,1
10
 Áustria
8,7
8,4 - 9,0
11
 Holanda
8,6
8,3 - 8,9
"
 Reino Unido
8,6
8,3 - 8,8
13
 Luxemburgo
8,5
8,1 - 8,9
14
 Canadá
8,4
7,9 - 8,8
15
 Hong Kong
8,4
7,7 - 8,7
16
 Alemanha
8,2
7,9 - 8,5
17
 EUA
7,6
7,0 - 8,0
18
 França
7,5
7,0 - 7,8
19
 Bélgica
7,4
6,9 - 7,9
"
 Irlanda
7,4
6,9 - 7,9
21
 Chile
7,3
6,8 - 7,7
"
 Japão
7,3
6,7 - 7,8
23
 Espanha
7,0
6,6 - 7,4
24
 Barbados
6,9
5,7 - 7,3
25
 Malta
6,6
5,4 - 7,7
26
 Portugal
6,5
5,9 - 7,1
27
 Estónia
6,4
6,0 - 7,0
28
 Israel
6,3
5,7 - 6,9
"
 Oman
6,3
5,2 - 7,3
30
 Emiratos Á. Unidos 
6,2
5,3 - 7,1
31
 Eslovénia
6,1
5,7 - 6,8
32
 Botsuana
5,9
5,1 - 6,7
"
 Qatar
5,9
5,6 - 6,4
"
 Taiwan
5,9
5,4 - 6,3
"
 Uruguai
5,9
5,6 - 6,4
36
 Barain
5,8
5,3 - 6,3
37
 Chipre
5,7
5,3 - 6,0
"
 Jordânia
5,7
5,1 - 6,1
39
 Malásia
5,1
4,6 - 5,6
40
 Hungria
5,0
4,7 - 5,2
"
 Itália
5,0
4,6 - 5,4
"
 Coreia do Sul
5,0
4,6 - 5,3

Um outro inquérito da TI, realizado em 2003, colocou a seguinte questão relativa aos sistemas referidos no quadro apresentado abaixo: "se tivesse uma varinha mágica com que pudesse eliminar a corrupção de uma das seguintes instituições, qual escolheria primeiro ?" Em Portugal, os sectores mais votados nesta questão foram os dos partidos políticos e dos serviços médicos, ambos com 18,7% (ver relatório):

 licenciamento
comercial 
 sistema
judicial 
 alfândegas  sistema
educativo 
 partidos
políticos 
 serviços
públicos 
9,2 %14,8 %1,4 %4,2 %18,7 %4,6 %
 serviços
médicos 
 imigração
passaportes 
 polícia  sector
privado 
 receitas
fiscais 
 outros
18,7 %6,2 %6,7 %0,7%14,5 %0,2 %

url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/corrupo.html

Efeitos colaterais

Andrew Sullivan, um bloguista de direita que faz campanha contra o aborto, descobriu mais um argumento para a sua campanha:
«Se alguma vez for descoberto um gene gay, podem ter a certeza que a geração seguinte de homossexuais será abortada.»

The Dayly Dish, citado pela Slate

Também tu, irmão ?

«Pensões de reforma prometidas aos empregados estão-se a tornar num encargo incomportável para um crescente número de empresas, especialmente na Ámérica."»

"The Economist"

Afinal...

Afinal "ele" sempre há "blogues no feminino":

 |||     Sociedade Anónima     ||| 

A metáfora do sub-título ("a irmandade dos anéis") é genial.

Há quem use o símbolo para identificar blogues com música; será que ainda vamos usar e para clarificar estas coisas?...

Cabelos brancos

O INE publicou as "Estimativas de População residente em Portugal, NUTS II, NUTS III e Municípios", para 2004, cujo traço mais saliente é o do envelhecimento da população: declinio da natalidade, fraco saldo natural e maior longevidade. No final de 2004 seríamos uns 10.529.255 portugueses, mais 54.570 do que em 2003 - mas 47.240 foram imigrantes que entraram legalmente em Portugal. O "excesso" de mulheres, relativamente ao número de machões, foi de 340.577, ainda longe das "sete mulheres para cada homem" .

Entretanto, temos que nos ir habituando às novas designações territoriais, que oscilam entre marcas vinícolas (Dão Lafões), Altos sem Baixos (Trás os Montes) e Baixos sem Altos (Vouga, Mondego). Mas Grande, Grande, só mesmo Porto e Lisboa.

 Portugal  10.529.255 
 Continente 10.043.763 
 Norte 3.727.310 
     Minho Lima 251.937 
     Cávado404.681 
     Ave519.542 
     Grande Porto 1.272.176 
     Tâmega 557.762 
     Entre Douro e Vouga     283.856 
     Douro 217.067 
     Alto Trás os Montes220.289 
 Centro 2.376.609 
     Baixo Vouga 394.393 
     Baixo Mondego336.376 
     Pinhal Litoral261.665 
     Pinhal Interior Norte137.857 
     Dão Lafões290.052 
     Pinhal Interior Sul42.692 
     Serra da Estrela48.801 
     Beira Interior Norte112.766 
     Beira Interior Sul75.925 
     Cova da Beira92.460 
     Oeste353.050 
     Médio Tejo230.572 
 Lisboa2.760.697 
     Grande Lisboa2.003.584 
     Península de Setúbal757.113 
 Alentejo767.679 
     Alentejo Litoral97.632 
     Alto Alentejo 121.544 
     Alentejo Central171.239 
     Baixo Alentejo 130.415 
     Lezíria do Tejo246.849 
 Algarve411.468 
 R.A.Açores241.206 
 R.A.Madeira244.286 

url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/cabelos-brancos.html

Blogues e ensino

O blogue De Gustibus Non Est Disputandum definiu um processo de avaliação de conhecimentos com base num blogue onde cada um dos alunos deve postar pelo menos duas vezes por semana.
«Cada post será avaliado pelo português, qualidade, originalidade, capacidade analítica (i.e. análise económica positiva, não normativa) e relevância do tema tratado. [...] Os posts devem, obrigatoriamente, conter um link para alguma notícia e/ou artigo da internet.»
O nível de exigência não é para brincadeiras: «Os posts devem ser do mesmo nivel de análise de blogs como Econbrowser, The Becker-Posner Blog, Economist's View ou Macroblog

Há um curioso sistema contra as fraudes: «em cada aula, dois alunos serão aleatoriamente sorteados e terão de falar sobre os posts que fizeram. Se não convencerem o professor, a turma inteira perde, automaticamente, 5 (cinco) pontos a cada checagem.»

url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/blogues-e-ensino.html

quarta-feira, outubro 19, 2005

Biologia e Economia



Podcast de Russ Roberts com Don Cox sobre o papel da Biologia na Economia, onde se abordam temas como a expansão da Economia para áreas tradicionalmente "não-económicas" (o "Imperialismo da Economia"), o acasalamento dos humanos, poligamia, monogamia, infedilidade, o uso de cintos de segurança, etç. Uma conversa muito dominada pelos "incentivos" (embora algo mecanicista para o meu gosto) e onde se fala mais de Biologia humana do que de Economia, mas muito interessante.

Uma questão que os economistas tendem a ignorar: deverão ser tidas em conta as diferenças entre homem e mulher quando se procura compreender o comportamento dos indivíduos? Doutra forma: pode não haver "blogues no feminino", mas haverá "leis económicas no feminino"?

A tecnologia do podcast foi fornecida pelo Radio Economics, de James Reese, que tem lá mais gravações disponíveis. Trata-se de um ficheiro grande: 53 minutos e meio de conversa, mas que passa bem no MediaPlayer. O endereço do ficheiro de som, em mp3, é:

http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051014-327.mp3

  • Don Cox é docente no Boston College
  • Russ Roberts mantém (com Don Boudreaux) o blogue Cafe Hayek; é autor dos livros "The Choice: A Fable of Free Trade and Protectionism" e de "The Invisible Heart: An Economic Romance"
  • James Reese é docente na University of South Carolina Upstate

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/biologia-e-economia.html
  • Este cão é seu ?


    Daniel Dennet encontrou-o numa loja de antiquário, em Paris, e quer saber uma série de coisas sobre o dito animal. Mais detalhes aqui.

    Fia-te na Virgem (2)

    Tyler Cowen, no Marginal revolution, alerta para que não coloquemos demasiada esperança nos stocks de Tamiflu que os governos estão a armazenar (note-se que o texto é especificamente dirigido aos EUA):
    «1. O Tamiflu deve ser tomado no prazo de dois dias após sintomas. A probabilidade de se obter o Tamiflu rapidamente, numa pandemia, não será muito elevada (a não ser que se tenha comprado algum do próprio bolso).

    2. O Tamiflu, se for tomado preventivamente, pode prevenir a doença, mas serão necessários dois comprimidos por dia. Apenas o pessoal médico essencial e alguns políticos é que receberão tal tratamento.

    3. Você dirige-se ao serviço de urgência e ali alguém vai decidir qual o seu lugar na lista de prioridades. Temerá o hospital uma queixa judicial? Quanto tempo demorará isto? Necessitará de autorização federal ou regulamentar?

    4. Dado o perigo de contágio, você não terá receio de se dirigir à urgência hospitalar? Afinal, no seu caso, pode ser apenas uma gripe comum.

    5. Muito do stock de Tamiflu será utilizado em falsos alarmes, tais como constipações e gripes comuns.

    6. O stock de Tamiflu tem validade apenas para uns anos. Se a pandemia não ocorrer em breve, serão os stocks renovados? É que a gripe das aves deverá ficar por cá uns bons 10 anos, como reservatório para possíveis mutações.

    7. Há a probabilidade de o virus desenvolver imunidade ao Tamiflu, especialmente se o medicamento for aplicado indiscriminadamente na fase inicial de uma pandemia.»

    in Marginal revolution (adaptado)

    terça-feira, outubro 18, 2005

    Intelectuais de topo

    Adicionados links

    As revistas Prospect/Foreign Policy fizeram um inquérito aos seus leitores sobre quem são os "intelectuais de topo" ["Top 100 Public Intellectuals "] de todo o mundo. Os mais votados estão aqui, e a lista completa aqui. Houve quem lhe chamasse a "lista mais estúpida" (realmente, o que será um "intelectual de topo" ?), mas aqui reproduzo a lista com os primeiros 25.

    A propósito: a Prospect tem um artigo de Joel Kotkin, "Uncool cities", onde se diz que aquela ideia de Richard Florida sobre a excelência das cidades com "cenas musicais vibrantes e comunidades 'gay' florescentes" (referida aqui) não se confirma.

           Nome / link  Votação  
    1Noam Chomsky [link] 4827 
    2 Umberto Eco [link] 2464 
    3 Richard Dawkins [link] 2188 
    4 Václav Havel [link] 1990 
    5 Christopher Hitchens [link]         1844 
    6 Paul Krugman [link] 1746 
    7 Jürgen Habermas [link] 1639 
    8 Amartya Sen [link] 1590 
    9 Jared Diamond [link] 1499 
    10 Salman Rushdie [link] 1468 
    11 Naomi Klein [link] 1378 
    12 Shirin Ebadi [link] 1309 
    13 Hernando De Soto [link] 1202 
    14 Bjørn Lomborg [link] 1141 
    15 Abdolkarim Soroush [link] 1114 
    16 Thomas Friedman [link] 1049 
    17 Papa Benedict XVI [link] 1046 
    18 Eric Hobsbawm [link] 1037 
    19 Paul Wolfowitz [link] 1028 
    20 Camille Paglia [link] 1013 
    21 Francis Fukuyama [link] 883 
    22 Jean Baudrillard [link] 858 
    23 Slavoj Zizek [link] 840 
    24 Daniel Dennett [link] 832 
    25 Freeman Dyson [link] 823 

    Via Marginal Revolution.

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/intelectuais-de-topo.html

    Fia-te na Virgem...

    "Fia-te na Virgem e não corras..." é um provérbio que nasceu directamente de um facto histórico: um súbdito de D. Joao I desobedeceu às ordens do Rei, meteu-se na cama com quem não devia e depois teve de fugir para a província; quando os enviados do Rei lá foram lá buscar ele, já em desespero, entrou numa Igreja e agarrou-se a uma imagem de Nossa Senhora, mas em vão...

    A questão é esta: perante uma ameaça como a da pandemia de gripe, que se deve fazer? Uma das hipóteses - que tanto se pode colocar às empresas como a cada um de nós, individualmente - relaciona-se com o recurso aos seguros. Habitualmente, perante a dimensão das grandes catástrofes - e também perante a sua imprevisibilidade e aparente "raridade", não parece razoável fazer seguros para coisas como terramotos, aquecimento global, ataques terroristas, etç. Nem as Companhias de Seguros, normalmente, se costumam arriscar nestes territórios. Ou seja: todos se fiam na Virgem.

    No entanto, a potencial pandemia de gripe já não é assim tão indeterminada, ao ponto de haver já uma previsão de vítimas para Portugal: 11 mil mortos (não conheço detalhes desta previsão, mas só o facto de ser apresentada como um número exacto e não um intevalo com o respectivo grau de probabilidade, não abona muito em seu favor).

    A "Risk and Insurance" publicou em Abril passado um dossiê sobre os "Top 10 Risks", a saber: Furacão, Inundação, Derrame petrolífero, Terrorismo, Bklackout (energético), Grande incêndio, Acidente industrial, Cyber-attack, Tremor de terra e, claro, Pandemia.

    É um documento de leitura geral, pouco técnico. Todas as referidas situações de risco são apresentadas de forma ficcionada, uma espécie de notíciário sobre o desenrolar das catástrofes, com números para as vítimas e perdas económicas. No caso da Pandemia, o exemplo apresentado [na página 46] é já o da mutação para propagação entre os humanos do H5N1, a gripe das aves. A taxa de mortalidade acaba por ser baixa: 0,5 %, e o número de mortos (nos EUA) "fica-se" pelos 200 mil. Ou seja: algo que poderia perfeitamente justificar a cobertura de risco por seguro

    Um bom candidato


    «[...] Até agora, pelo menos, esta ramificação da gripe das aves tem-se manifestado de difícil propagação para os humanos. Mas isto pode facilmente mudar. Os cientistas acreditam que o H5N1 [virus da gripe das aves] é um bom candidato a transformar-se e provocar uma pandemia humana. Sofre rápidas mutações, tem uma propensão para incorporar genes de virús que infectam outras espécies animais e já mostrou ser capaz de provocar doenças graves e mesmo a morte de pessoas.

    «A ocorrência de pandemias de gripes humanas é esperada três ou quatro vezes em cada século, mas ainda é difícil prever quando e como se iniciará a próxima. A pior de todas na memória dos vivos, em 1918, matou talvez uns 50 milhões de indivíduos em todo o mundo. Embora não exista nenhum sinal de tão grave risco para a vida humana, a Comissão Europeia solicitou aos países membros que armazenassem remédios anti-virais e a Organização Mundial de Saúde pediu a todos os países que façam planos de contigência.

    «Mesmo que a ocorrência de um novo surto de gripe humana fosse contida, ainda assim teria consequências económicas drásticas. Em 2003, na Ásia, o sindroma respiratório agudo [SARS] afectou apenas 8 mil pessoas, tendo morto cerca de um décimo. De acordo com as estimativas mais pessimistas, terá causado perdas na produção no valor de 60 mil milhões de dólares, com os sectores relacionados com o Turismo a serem especialmente afectados.»

    The Economist
    "The spreading bird-flu menace reaches Europe"


    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/um-bom-candidato.html

    Flagrantes da vida real

    Creio que foi na sequência da revolução liberal que surgiu em Portugal o aforismo (ou provérbio ou lá o que quizerem):

    «Foge, cão, que te fazem barão!
    Mas para onde, se me fazem visconde?
    »

    Isto para retratar a prodigalidade com que então se atribuíam os novos títulos: o "job for the boys" da época. Já no século XX o Alexandre O'Neill criou um outro:

    «Tome cuidado, senão
     fazem-no Dr. do pé p'rá mão
     Mas se Dr. não diz que é
     fazem-no cão da mão p'ró pé.
    »

    O contexto de O'Neill seria diferente do actual, mas o aforismo mantém actualidade dada a ambivalência com que encaramos os actuais diplomas de cursos superiores: quem os não tem é porque "está fora da sociedade do conhecimento", etç. Quem os exibe é porque "agora já não se aprende nada na Universidade", etç.



    Adenda - nem de proposito: o blogue Da Literatura escreveu: «Um conceituado especialista em recursos humanos, Ph.D. por uma das universidades da Ivy League, com larga experiência internacional, num jantar de amigos, ali para os lados de São João da Ribeira, deixa cair: "Três quintos dos licenciados portugueses dos últimos 30 anos não tem competência própria. Metade deles nem para arrumadores." Algum desconforto na mesa, onde estão dois professores associados e uma catedrática. O atrito dilui com exemplos lá de fora. A realidade inglesa e americana (por esta ordem) não é diferente. A nossa vantagem é que os analfabetos portugueses são todos drs.»

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/flagrantes-da-vida-real.html

    Ciganagem

    Mais uma forma de rent-seeking, com provável autoria lusa, ao nível do melhor que se faz no mundo (somos palermas ou quê? - ora veja aqui):

    «(1) uma "rapariga loura, de olhos azuis, distinta no trato e na apresentação", contacta um agente imobiliário, junto de quem sinaliza contrato-promessa para aquisição de apartamento em condomínio fechado com piscina; (2) como "sinal", entrega ao referido intermediário quinze mil euros, em notas; (3) dois dias depois, a rapariga regressa, mas, desta vez, "com um bebé ao colo [...] saia comprida e lenço na cabeça"; (4) aparentemente, pretende mostrar o condomínio a outros familiares que vêm com ela; (5) as crianças, vestidas e calçadas, atiram-se "para dentro da piscina, obrigando as restantes pessoas a abandonar o local"; (6) no dia seguinte, «formou-se uma espécie de acampamento junto à piscina»; (7) chamada ao local, a GNR declara-se impotente para dirimir o "conflito de interesses"; (8) um dos cunhados da rapariga declara querer comprar um apartamento, "e pago já"; (9) a imobiliária recusa vender, e a família cigana queixa-se de discriminação; (10) o episódio termina com o pagamento (à rapariga), em dobro, do "sinal", solução que desvincula a imobiliária do contrato-promessa. O estratagema terá sido repetido com idêntico desfecho noutros condomínios.»

    Também se pode chamar a isto "a vingança do cigano": o discriminado usa a discriminação para extorquir uns cobres. A coisa até pode ser vista como um processo de clarificação, um "market clearing" social, uma indemnização por danos morais que tem a vantagem de ser mais rápida e mais barata do que a via sacra dos tribunais. Que designação dar a esta inovação: "ciganagem"?

    A notícia veio no Público, é relatada no blogue Da literatura - de onde reproduzi o texto - e cheguei lá via Ma-Chamba.

    url: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/ciganagem.html

    segunda-feira, outubro 17, 2005

    Maldita gripe

    Enquanto o presidente do Brasil anuncia que a fome no mundo é a verdadeira "arma de destruição maciça", outros avisam que o principal perigo vem da potencial manipulação genética de virus, com o objectivo de provocar doenças infecciosas mortíferas.

    Esta possibilidade ganhou novos contornos com a recente ressurreição do virus da Gripe Espanhola de 1918, bem como a sequenciação e divulgação pública do respectivo genoma, tornando mais acessível a sua replicação/modificação com objectivos terroristas.

    Há quem pense que o domínio da respectiva tecnologia é mais acessível do que a necessária para a construção de armas nucleares, sendo mesmo possível encomendar, em diferentes laboratórios, sequências parciais do referido genoma. Outra hipótese é o roubo do virus num qualquer dos laboratórios que se dedique à sua investigação. Outros cientistas, no entanto, estimam que não é fácil a replicação do virus [1].

    Com a possibilidade da mutação da actual gripe das aves e as dúvidas sobre a sua eventual perigosidade, bem como a crescente dramatização provocada pelas notícias das aves engripadas que se vão descobrindo, em cada novo dia, a caminho do mundo "desenvolvido", a ressureição da Gripe Espanhola assume a dimensão de um fantasma que regressa do passado para nos lembrar que, de Espanha, "nem bom vento nem bom casamento". [2].


    Textos relacionados:
  • "Bird Flu as Biological Weapon?"- Real Clear Politics
  • "Recipe for Destruction" - New York Times
  • "Researchers Reconstruct 1918 Flu Virus" - Washington Post
  • "Security fears as flu virus is recreated" - Guardian
  • "Don't Worry, Be Healthy" - Slate
  • "Vírus que matou milhões" - Correio da Manhã
  • "Resurrecting 1918 Flu Virus Took Many Turns" - Washington Post
  • "Gripe Espanhola" na Wikipedia

    [1] - As sequências dos genomas não estão propriamente on-line; mas parece que não é muito restrito o acesso a partir das bases de dados do "National Center for Biotechnology Information"

    [2] - na realidade não se sabe qual a origem geográfica do virus, e é quase certo que não foi a Espanha. Quanto aos exemplares regressados à vida, encontram-se nos EUA.

    Link para este post:
    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/maldita-gripe.html
  • O pesadelo H5N1

    As citações que se seguem são de Laurie Garrett, jornalista [1], em entrevista incluída na revista "Pública" (jornal "Publico" de ontem). Laurie fala acerca da potencial pandemia que pode vir a surgir da mutação do virus da gripe das aves, o H5N1. Creio que deveríamos dar mais atenção a este problema.

    De acordo com as declarações desta especialista, as possibilidades são preocupantes: os virus já existente tem uma taxa de mortalidade impressionante, chegando a 100 % em algumas espécies de aves, e 55% entre os humanos infectados. As hipóteses de mutação são elevadas, mas não se pode saber se essa mutação ocorrerá ou se, ocorrendo, será mais ou menos mortífera para os humanos. Laurie está particularmente preocupada com os dados recentemente divulgados acerca da Gripe Espanhola de 1918, que também resultou de uma gripe das aves que evoluíu para infectar directamente os humanos, e que apresenta semelhanças com o H5N1, o virus actualmente sob suspeita.
    «A ideia de que podemos ter uma estirpe com uma taxa de mortalidade de 55% é um verdadeiro pesadelo. E o mundo não está preparado para isso. É preciso lembrarmo-nos de que de que a gripe de 1918 teve um taxa de mortalidade de menos de 5% e que, ainda assim, matou mais de 50 milhões de pessoas.»
    Ou seja: tanto pode acontecer que venham a ocorrer centenas de milhões de mortes, como pode não acontecer nada. O que se deveria fazer nestas circuntâncias: prevenir o pior cenário, desencadeando já acções de âmbito médico e farmacêutico, que custarão uma fortuna colossal, podendo tais medidas não vir a ser necessárias? Segundo Laurie:
    «Isto é o tipo de coisa que não funciona bem com a política. Os políticos, independentemente das ideologias, só estão nos seus cargos por um período de tempo, e a seguir têm que estar preocupados em ser reeleitos. Ninguém quer ser conhecido como a pessoa que gastou milhões com algo que não aconteceu, mas também ninguém quer ser o rsponsável por uma crise. Por um lado, ninguém pode dizer: sim,vamos definitivamente enfrentar uma crise de gripe no próximo ano. E também ninguém pode dizer que se gastarmos 3 mil milhões de dólares podemos proteger todos os norte-americanos. Ou que com quatro mil milhões de dólares podemos proteger os europeus.»
    Acontece também - creio eu - que há aqui um efeito perverso das declarações públicas dos políticos. É importante que se evite que o pânico se instale nas populações e, para isso, os políticos emitem declarações tranquilizadoras, dizendo que não há motivo para alarme, e que (como já ouvi em Portugal) no pior dos cenários as medidas já tomadas são suficientes. Porém, tais declarações, não correspondendo à realidade, enganam os cidadãos e poderão contribuir para decisões erradas. Se os políticos convencerem os cidadãos de que a situação é potencialmente menos grave do que na realidade é, então não se justificarão medidas excepcionais, nem da parte do Estado nem dos particulares.

    Outro aspecto preocupante das declarações de Laurie Garret tem a ver com o modo como os especialistas estão a gerir a informação científica, particularmente na indústria farmacêutica:
    «Há as farmacêuticas que pensam no seu lucro, que operam em segredo e que não estão dispostas a partilhar tudo aquilo que sabem. Ainda não conseguimos obter junto da Roche toda a informação sobre o Tamiflu [antiviral capaz de tratar a gripe humana] e este é o único salva-vidas que temos neste momento. Tudo aquilo que eles nos dizem é que é muito difícil de produzir. Perguntamos porque não produzem uma maior quantidade e respondem apenas que é mesmo muito difícil. É só isso que ouvimos. Não podemos esperar o mesmo nível de cooperação que tivemos com o SARS [síndrome da insuficiência respiratória aguda, de 2003] porque o SARS não dispunha do mesmo potencial de lucro que a gripe.»
    Acerca da hipótese de propagação do virus, Laurie acha que é inutil banir a venda de aves domésticas, mas dá grande importância à prevenção da possível transmissão das aves migratórias para as aves domésticas:
    «Podemos decidir exterminar todos os pássaros migratórios, o que me parece que seria uma coisa horrível. Ou podemos dizer que temos que quebrar a cadeia de interacção entre os pássaros migratórios e as aves domésticas. É uma coisa simples que os agricultores podem fazer. No mundo rico é muito mais fácil do que se pensarmos num agricultor pobre no meio da Indonésia. Isso devia estar a ser feito por todos os agricultores da Europa. Há muitas formas simples de criar barreiras.»
    Pois é. Mas ainda há dias ouvi um responsável da Quercus minimizar este perigo, dizendo que as aves que recebemos do norte da Europa não vêm dos países onde já se detectou o virus, portanto nada de preocupações. P que vale é que estes ecologistas são especialistas em tudo... Estas declarações foram pronunciadas por um médico que eu conheço, que é uma excelente pessoa, mas que não é especialista em epidemologia nem em aves.

    Sobre o assunto, a página da D.G.Saúde apenas reproduz o artigo de opinião do seu Director[do "Público" de hoje] em estilo descontraído, cuja única conclusão é "Cada pandemia é seguida de epidemias anuais até ao aparecimento de nova pandemia. E assim por diante...", e um link para a a deliberação da Comissão Europeia tomada no passado dia 13, suspendendo a importação de produtos avícolas da Roménia.

    Dada a sua gravidade, creio que a blogosfera devia dar mais atenção a este assunto.


    Textos relacionados:

  • H5N1 - dados sobre a crise
  • The Next Pandemic? artigo de L.Garrett no Foreig Affairs
  • Preparing for a pandemic - artigo do Economist
  • H5N1 na Wikipedia
  • Avian Influenza: Economic and Social Impacts - artigo do Banco Mundial
  • Unhappy Rebirthday - artigo do Economist sobre o virus de 1918
  • Influenza 1918 - documentário

    Encontrei (via Technorati) algumas referências na blogosfera portuguesa, mas em geral não dando grande importância ao perigo: apenas as usuais alfinetadas nas autoridades.
    Adenda: entretanto o Adufe e o Tugir referiram o problema, com link para o "pura economia", que agradecemos.


    Sobre Laurie Garret:
  • Página oficial
  • The Coming Plague (livro)
  • Betrayal of Trust (livro)
  • We Are In Real Trouble entrevista ao NewsWeek Health
  • entrevista à radio Democracy Now
  • entrevista ao e-magazine.com
  • artigo do TechTalk, jornal do MIT
  • Leaders Summit on Globalk Infectious Disease- comunicação à conferência Pandemics (16.Maio.2005)

    Jornalista e escritora, Laurie Garrett já venceu os três principais prémios de jornalismo dos EUA: Polk, Peabody e Pulitzer, este último por uma reportagem acerca do virus Ébola. Laurie demitiu-se recentemente do "Newsday" [da "Tribune Corporation] após 15 anos de trabalho naquele jornal. Nota enviada aos colegas:
  • «Os responsáveis do "Times Mirror" e do "Tribune" provaram ser o espelho da tendência geral existente no mundo dos média: primeiro estão ao serviço dos accionistas, depois de Wall Street, e algures lá para o fim da lista estão os seus leitores.»
     link para este post: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/o-pesadelo-h5n1.html

    Criatividade e desenvolvimento

    "Criatividade é desenvolvimento" é o título da crónica de Vítor Balenciano no jornal Público de hoje. Todo o texto gira em torno das ideias do economista Richard Florida, autor do livro "The Rise of the Creative Class", de 2002. Ali se apresenta a "teoria dos três tês": tolerância - tecnologia - talento - e se defende que "a criatividade é a base do progresso social e económico", devendo ser considerada "um bem público, ao nível da liberdade e segurança".

    Até aqui tudo bem: apesar da "criatividade" não ter o "T" como letra inicial, tudo isto está mais ou menos dentro do discurso dominante, propagado tanto por ecologistas fanáticos como por dinossauros políticos. O que já sai da norma é a seguinte afirmação de R. Florida, que eu até tomo a liberdade de salientar numa caixinha:
    «Uma cidade ou região sem uma cena musical vibrante e sem uma comunidade 'gay' florescente está condenada ao declínio social e económico.»
    Mamma mia ! Condenada ao declínio social e económico? E logo agora que as nossas cidades acabaram de recusar políticos (Carrilho em Lisboa, Soares em Sintra) que prometiam corporizar tais ideais?

    Vou tentar manter a calma e raciocinar logicamente. É evidente que existem capacidades diferentes em diferentes grupos sociais (raciais ou outros). Não se pode negar a elevada concentração de inteligência racional nos judeus ashkenasi, nem capacidades superiores para as corridas de fundo em atletas de certas zonas de África. Apesar destas evidências, existe um preconceito "igualitário" que rejeita a priori qualquer tipo de diferenciações; tal preconceito é capaz de ter origem numa reacção às teses da raça superior desenvolvidas (e praticadas) pelos nazis, e também numa reacção à apologia e prática da escravatura feitas em nome da "superioridade" da raça branca. Ainda recentemente, um estudo universitário que detectou alguma superioridade dos indianos relativamente ao raciocínio matemático desencadeou uma forte reacção da academia americana. Não interessava se o estudo tinha base científica: qualquer "superioridade" era simplesmente inaceitável.

    Mas não nos devemos deixar cegar por tais preconceitos. Aceitar diferenças não significa aprovar o nazismo ou a escravatura. É bom que mantenhamos as mentes abertas. Felizmente que o ser humano é suficientemente complexo para que estas possíveis superioridades em certos grupos humanos, relativamente a algumas características, não os transformam em seres humanos superiores, ou super-homens, melhor dotados paga governar ou "proteger" os restantes.

    Sendo assim, voltemos à afirmação de Florida. Será a cena musical especialmente vocacionada para a tolerância, tecnologia ou talento, ou comunidade 'gay' especialmente dotada para a criatividade?

    Florida, que tem sido acusado nos de "colocar em causa os valores tradicionais americanos", esclarece que não é bem isso: "uma comunidade 'gay' com capacidade de afirmação, uma cena musical excitante, políticas integracionistas ou agendas sociais criativas, são indicadores de tolerância. São sinais que indiciam estarmos num lugar apto para integrar a diferença." Ou seja: são as cidades tolerantes, abertas à diversidade, seja na música, nas artes, na tecnologia ou na economia, que atraem os indivíduos com potencial criativo, capazes de arriscarem novas ideias. Portanto, "cenas musicais vibrantes" e "comunidades 'gay' florescentes" seriam mais a consequência, e não tanto a causa.

    Devo confessar que o argumento, apesar de lógico, me parece estranho. Talvez seja o mesmo preconceito da geração pós-II Grande Guerra que me apanhou nalguma curva das circunvoluções cerebrais. O que está em moda, como é sabido, é associar a criatividade e a inovação à educação e ao investimento em investigação. É também isto que me parece "mais normal". Mas, quem sabe, talvez esta seja uma agenda muito limitada. Garantidamente, é a opção mais cara: a educação e a investigação são verdadeiramente dispendiosas e qualquer dinheiro que para aí canalizemos acabará por faltar noutro lado qualquer. Seria talvez mais fácil, e mais barato, se a chave do desenvolvimento (de uma cidade, de um país) estivesse na criação de "uma cena musical vibrante e uma comunidade 'gay' florescente".

    Já nos enganámos uma vez, investindo em infraestruturas de saneamento e rodoviárias e em equipamentos, para depois descobrir que a prioridade deveria ter sido dada à educação e à investigação. Agora parece que já percebemos isso. Espero bem é que daqui a algum tempo não nos venham dizer que não era bem por aí: era antes via "cenas musicais vibrantes" e "comunidades 'gay' florescentes".


    No seu livro, Richard Florida diz que "A chave para o crescimento económico não reside apenas na capacidade para atrair uma classe criativa, mas em transformar essa vantagem subjacente em resultados económicos criativos sob a forma de novas ideias, novos negócios tecnologicamente avançados e crescimento regional." Para melhor detectar estas capacidades Florida criou um novo índice a que designou o "Índice de Criatividade":

    Índice de Criatividade
    Rankings de 49 áreas metropolitanas com população > 1 milhão (2000)
    CidadeÍndice de
    Criatividade
    Trab.
    Criativos
    ( % )
    Rank da
    Criatividade
    Rank de
    High-Tech
    Rank de
    Inovação
    Rank de
    Diversidade
    Cidades melhor posicionadas
     1. San Francisco105734.85121
     2. Austin102836.4411316
     3. San Diego101532.1151273
     3. Boston101538.032622
     5. Seattle100832.793128
     6. Chapel Hill99638.2214428
     7. Houston98032.510161610
     8. Washington96438.4153012
     9. New York96232.312132414
     10. Dallas96030.2236179
     10. Minneapolis96033.9721529
    Cidades pior posicionadas
     49. Memphis53024.847484241
     48. Norfolk, VA55528.436354947
     47. Las Vegas56118.54942475
     46. Buffalo60928.933402749
     45. Louisville62226.546463936
     44. Grand Rapids63924.348432338
     43. Oklahoma66829.429414339
     42. N. Orleans66827.542454813
     41. Greensboro69727.344333535
     40. Providence69827.641443433

    domingo, outubro 16, 2005

    A metáfora do frango

    Há um mito segundo o qual existem mais mulheres do que homens. Ainda ontem ouvi o NIlton na televisão a perguntar a um convidado: "É verdade que há 7 mulheres para cada homem?".

    Bem, o Nilton é um exagerado. Mas em tempos circulava como boa a notícia de que "há mais mulheres do que homens" ou que "há duas mulheres para cada homem". Tem todo o ar de ser um mito masculino, certamente nascido da ingnorância ou do desejo - ou de ambos.

    Percebe-se que os homens sonhem com um mundo dominado pelas mulheres (mas apenas em termos estatísticos, atenção!) e com um mundo efemininado (no bom sentido, é claro!). Não será uma aspiração à poligamia, coisa que daria muito trabalho e sairia caro. Será antes, e de acordo com a lei da oferta e da procura, um desejo de ver aumentar o próprio preço, ou de ter mais por onde escolher.

    A dura realidade estatística, no entanto, não confirma o mito: em Portugal haverá 94 homens por cada 100 mulheres. Ou seja: quando muito, só 6 homens é que poderiam aspirar a ter mais do que uma, por força dos números. Porém, e atendendo à prova de que as estatísticas mentem, fornecida pela famosa metáfora do frango ("os dados dizem que em média cada habitante come um frango, mas há os que comem dois e há os que não comem nenhum"), nada impede os homens de sonhar...

    sábado, outubro 15, 2005

    Economia dos falsos orgasmos


      Ora finges tu, ora finjo eu,
      Ora finges tu mais eu.


    O ubíquo "dilema do prisioneiro" da Teoria dos Jogos não serve só para explicar conflitos entre países e concluios entre empresas. Que tal o acto de fingir o orgasmo? Esta situação foi objecto do estudo de Hugo Mialon, "The Economics of Ecstasy", que deu origem ao artigo da revista Slate, "The Economics of Faking Orgasm".

    Curiosamente, este economista realizou o estudo no âmbito duma preocupação de natureza jurídica, relacionada com a seguinte questão: «como é que a Quarta Emenda [1] afecta os incentivos, tanto para a polícia como para os criminosos, e como é que estes incentivos determinam o comportamento?» [2] (ver abaixo links para alguns textos de H.Mialon).

    Tanto o homem como a mulher podem transmitir ao seu parceiro sinais falsos de que estão a atingir o êxtase durante o acto amoroso. Julga-se que os homens não fingem o orgasmo, mas um estudo americano - 2000 Orgasm Survey - detectou que 24 % dos homens também fingem. O mesmo estudo revela que 72 % das mulheres fingiu pelo menos uma vez na sua vida amorosa recente, e 55% dos homens dizem que conseguem saber quando elas fingem.

    Mialon procurou averiguar porque é que as mulheres (algumas vezes) fingem o orgasmo, e porque é que os homens (algumas vezes) duvidam delas. O estudo de Mialon prevê que o amor, formalmente definido como uma mistura de altruismo e "possessividade", aumenta a probabilidade da encenação de falsos orgasmos, embora mais para as mulheres do que para os homens. Os dados do 2000 Orgasm Survey confirmam as previsões do estudo. Também mostraram uma relação positiva entre o nível educacional e a tendência para simular o orgasmo.
    «A razão mais evidente para fingir o orgasmo seria as satisfação do parceiro. Mas e no caso de uma mulher que já não gosta do seu parceiro, também fingiria? A resposta é: sim. Suponha-se que ele é muito inseguro e está sempre a suspeitar que ela o engana. Suponhamos também que aquilo que ela verdadeiramente odeia é ter um parceiro que está sempre errado. Então, como ele pensa sempre que ela mente, ela tem de fingir para que ele tenha razão. Cada fingimento dela reforça as dúvidas do parceiro, que por sua vez reforçam o fingimento dela. Temos pois aquilo a que os economistas designam como um "equilíbrio".

    «Por outro lado, este equilíbrio só se mantém se ele tiver uma boa razão para ter sido inicialmente inseguro. Qual seria esse motivo? Bem, crê-se que as mulheres atingem o ponto mais alto da sua capacidade sexual por volta dos 30 anos. Portanto, se ela estiver muito afastada dos 30, em qualquer direcção, a sua idade pode ser suficiente para desencadear a insegurança do parceiro. Por isso Mialon considera que mulheres muito jovens ou muito idosas têm maior probabilidade de fingir do que mulheres nos seus "trintas".

    «Mas as coisas tornam-se muito mais complicadas - e muito mais realistas - se ele e ela estiverem apaixonados, situação em que cada um deles se preocupa com a felicidade do outro e também em captar o seu interesse. Um pouco de Teoria dos Jogos elementar leva Mialon a concluir que as mulheres são mais propensas a fingir quando estão apaixonadas, e que este efeito é ampliado quando a sua idade está longe dos 30.»»
    E Steven E. Landsburg, autor do artigo da Slate. conclui deste modo:
    «O meu velho amigo Steve Zucker costumava dizer que o sexo e a actividade académica se complementam muito bem, uma vez que é possível praticar qualquer delas enquanto se pensa na outra. Não sei em que é que Hugo Mialon pensa quando está a fazer amor (provavelmente invocaria a Quinta Emenda - o direito a ficar calado) mas ele pensou neste tópico de um modo muito original, o que, dada a atenção que o assunto tem merecido nos passados milhares de anos, não é um pequeno feito.»
    Referências no Mahalanobis e no Marginal Revolution
    Página de Hugo Mialon
    Textos de Hugo Mialon (em co-autoria):
  • Price Discrimination and Market Power (2005)
  • Private Antitrust Litigation: Procompetitive or Anticompetitive? (2005)
  • A Strategic Theory of Antitrust Enforcement (2005)
    [1] - «The right of the people to be secure in their persons, houses, papers, and effects, against unreasonable searches and seizures, shall not be violated, and no Warrants shall issue, but upon probable cause, supported by Oath or affirmation, and particularly describing the place to be searched, and the persons or things to be seized.»
    [2] - Muitas mulheres não acharão graça nenhuma a esta analogia entre o jogo do "gato e do rato" de polícias e ladrões, e as mulheres que fingem orgasmos e homens que os detectam (tal como os ratos não acharão à primeira analogia, nem as mulheres a esta terceira). Mas Mialon dispunha de dados preciosos relativamente a uma situação de simulação, revelados no âmbito do inquérito referido, que usou para estudar uma situação equivalente. Resta saber se essa equivalência realmente existe pois, para além da semelhança formal, tratam-se de situações aparentemente muito díspares.
  • sexta-feira, outubro 14, 2005

    Colin Camerer

    Colin Camerer é um economista que se tem dedicado ao campo da neuroeconomia, tendo já sido aqui referido o seu trabalho (em co-autoria) "Neuroeconomics: How Neuroscience Can Inform Economics".

    Camerer é também o autor do livro "Behavioral Game Theory: Experiments in Strategic Interaction", cuja introdução se encontra disponível aqui, e também (em pdf) aqui - um resumo muito interessante sobre o desenvolvimento da teoria e as suas potencialidades.

    Contar histórias

    Michael Mandel - um jornalista com um doutoramento em Economia - levanta, na Business Week, dúvidas quanto à cientificidade da Teoria dos Jogos:

    «(...) Concordo que Robert Aumann e Thomas Schelling merecem o prémio Nobel. Schelling, em particular, escreveu dois dos melhores livros de Economia de sempre: The Strategy of Conflict e Micromotives and Macrobehavior. Contudo, na minha opinião, a Teoria dos Jogos representa um beco-sem-saída evolucionista da Economia. A Teoria dos Jogos recorre ao princípio da racionalidade para explicar o conflito e a cooperação numa ampla gama de situações económicas e sociais. Por exemplo, tem sido utilizada para analisar porque é que a aparentemente insane corrida ao armamento nuclear no período do pós-guerra foi, na realidade, um método racional de impedir a guerra, e porque é que os agressivos cortes de preços das companhias aéreas acabou por constituir um meio eficaz para eliminar a concorrência.

    «A Teoria dos Jogos é certamente maravilhosa para contar histórias. Contudo, falha no principal teste de qualquer teoria científica: a capacidade para fazer previsões empíricas verificáveis. Em muitas situações da vida real, muitos possíveis resultados - desde a cooperação completa até ao conflito quase desastroso - são consistentes com a versão da racionalidade na Teoria dos Jogos.

    «Dito de outra forma: se o mundo tivesse explodido durante a crise dos Mísseis de Cuba de 1962, a Teoria dos jogos poderia [também] tê-la explicado como um infeliz resultado - mas que seria tão racional como aquele que efectivamente ocorreu. Do mesmo modo, um sector que entra em colapso devido a uma concorrência maluca, como a das companhias aéreas, pode ser tão facilmente explicado pela Teoria dos Jogos como outro onde a cooperação seja a norma.»

    Tyler Cowen , no Marginal Revolution - onde encontrei esta referência - irritou-se com o artigo e fez esta profissão de fé na Teoria, sob a forma de "possíveis respostas" às dúvidas de Michael Mandel:
    «1. As abordagens comportamentais desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam, e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta dar-lhe tempo.

    2. As abordagens computacionais desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta dar-lhe tempo.

    3. As abordagens evolucionistas desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta dar-lhe tempo.

    4. As abordagens experimentais desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta .

    5. O mundo real é,de facto, indeterminado ou quase indeterminado. A indeterminação e os múltiplos equilíbrios da Teoria dos Jogos não constituem um problema, mas antes reflectem quão efectivamente a teoria espelha a realidade. Vocês talvez prefiram previsões claras e precisas, mas não vão tê-las. A fidelidade à realidade é mais importante do que a satisfação de exigências metodológicas abstractas.»

    in Marginal Revolution

    Não sei. As "exigências metodológicas abstractas" - ou seja, a "capacidade para fazer previsões empíricas verificáveis" - constituem uma trave mestra do método científico. Tirando isso, não sei o que fica.

    Farmacêuticas: faltam ainda peças do puzzle

    «A Autoridade da Concorrência (AdC) multou cinco grandes empresas farmacêuticas (Abbot, Bayer, Johnson & Johnson, Menarini e Roche), num total de 16 milhões de euros, por prática de cartel (combinação de preços) em 36 concursos públicos de fornecimento a 22 hospitais portugueses. A AdC estima que "as arguidas poderão ter causado danos económicos até 3,2 milhões de euros, em 2002 e 2003, no segmento hospitalar, e até 10,4 milhões de euros, anuais, desde a entrada em vigor da portaria (2003) que fixa o preço das 'tira-reagente' (o produto em causa nos concursos)".»

    [ Jornal de Notícias ]


    Só falta saber uma coisa: como é que as empresas asseguravam que todas beneficiariam do acordo de preços, ou seja, que todas ganhariam algum dos concursos em que houve cartelização, assegurando as encomendas? Isto é possível através de conluio com alguém das próprias entidades responsáveis pelos concursos, ou através da fixação de um factor secundário (como os prazos de entrega) que determina as adjudicações quando os preços são iguais. Casos como este não se deveriam limitar a ser sancionados em termos das leis da concorrência: deveriam também ser investigados como potenciais crimes de corrupção.

    Teste (pergunta para 20 valores)


    Duas raparigas - Jogadora 1 e Jogadora 2 - pretendem conquistar um tipo, e portanto fazem planos para um encontro (simultaneamente). Há três escolhas:
  • um encontro barato, mas divertido, num bar desportivo,
  • uma noite onde a rapariga usa um vestido sexy e vão à ópera,
  • a rapariga ignora-o e nem sequer lhe telefona.

    O jogo determina que o homem, em geral, prefere a Jogadora 1 à Jogadora 2, como é evidenciado pelos payoffs da matriz abaixo, prefere o vestido sexy e a ópera, não tem interesse por desporto, mas está um pouco intrigado sobre se uma ou ambas as raparigas o vão ignorar. O payoff consiste em o tipo gastar as suas ≤ 8 horas de lazer do dia seguinte dormindo passeando com elas (separadamente) e, assim, o payoff em horas é:


    Diga o que é que acontecerá, do ponto de vista da teoria dos jogos, e qual é que você pensa que será o resultado de uma análise experimental? [ Solução ]

    Crédito: Mahalanobis
  • Posters


    Teoria da Decisão
     
    Teoria dos Jogos


       Fonte: Helsinky University of Technology.

    quinta-feira, outubro 13, 2005

    Harold Pinter



    O Nobel da Literatura foi atribuído ao dramaturgo Harold Pinter. Já assisti uma peça deste autor, representada pelo Teatro Animação de Setúbal: "Mais um para o caminho", tendo como actores Duarte Vítor e a malograda Bety. Foi algo impressionante, pois não havia propriamente um enredo muito explicito, mas criava-se uma atmosfera densa e ameaçadora, veiculada pelos diálogos e pela relação de domínação/submissãos entre personagens.

    Sei que o TAS também encenou este ano outra peça de Pinter, "Paisagem e Outros Lugares", mas ainda não a fui ver. Sei também que o TAS, dirigido desde a morte de Carlos César por Duarte Vítor, passou recentemente a ser dirigido por Carlos Curto, que julgo ter sido, precisamente, o encenador de "Mais um para o caminho". Aproveito pois para desejar felicidades ao Teatro Animação de Setúbal e ao seu novo director.

    Mentes brilhantes

    Quem poderia estar melhor apetrechado para compreender a Teoria dos Jogos do que a "tribo do futebol" ? Não admira pois que o blogue Povo Leonino, aproveitando o Nobel da Economia, faça esta "aplicação" das ideias de Thomas Schelling à actual conjuntura do seu clube [sublinhados do "Pura Economia"]:
    «Diz este economista que grande parte das escolhas humanas são mais determinadas pela acção dos outros do que por outros critérios, como a racionalidade. Isto é, quando um indivíduo escolhe A em vez de B isso acontece, também, porque a escolha de alguém assim o motivou - ou seja, não basta a experiência acumulada, a razão ou mesmo a emoção para justificar as escolhas humanas. Só somando a influência das escolhas de outrém se consegue desenhar com rigor o processo que leva a uma escolha.

    «Aplicando esta teoria no caso do Sporting Clube de Portugal: hoje Dias da Cunha analisa e estuda o que vai mal no Clube, com um ano de atraso é certo. O interesse demonstrado por Dias da Cunha é não mudar muito na estrutura do Sporting, fazendo apenas alguns ajustamentos que são manifestamente pouco. Mas e se de facto o comportamento de todos os Sócios do Sporting for de demonstrar ao Presidente do Clube que o seu projecto é curto e que passa muito mais do que pela simples substituição de pessoas? Que impacto terá no processo de decisão de Dias da Cunha (e de acordo com esta teoria económica) um aviso real de um descontentamento pelo rumo traçado? Para Thomas Schelling, Dias da Cunha poderia até recuar. A responsabilidade do futuro do Sporting está portanto nas mão de todos nós e não apenas de uma pequena "familia" que insiste em governar sozinha o Clube.

    «A responsabilidade de tornar o Sporting num Clube melhor não está apenas na Direcção. Está em cada Sportinguista - porque Schelling diz que o seu comportamento tem um fortíssimo impacto nas decisões do Presidente do Sporting
    É uma curiosa abordagem à Teoria dos Jogos, mas temos que manter as mentes abertas. Apesar de tudo, vejo algum fundamento (quando aplicado à "tribo do futebol") no aforismo: "as escolhas são mais determinadas pela acção dos outros do que por outros critérios, como a racionalidade".

    Por isso, eu aconselharia os sportinguistas a aprofundar a Teoria, recorrendo, por exemplo, ao "dilema do prisioneiro", com Dias da Cunha e José Peseiro, cercados pelas claques em Alcochete, e sem poderem falar um com o outro (isto é importante) a ter de optar por confessar, ou não, que o treinador tem de ser substituído. Qualquer coisa do tipo:

     Dias da Cunha
    confessanão confessa
     P
    e
    s
    e
    i
    r
    o
     


     confessa 




    não
    confessa





                a1,b1           





               a2,b1           





    a1,b2





    a2,b2



    Deixo a definição das penalidades para as claques. Também seria importante agregar a preferência inter-temporal, já que Dias da Cunha, alegadamente, «analisa e estuda o que vai mal no Clube com um ano de atraso».

    Outra possível formulação, atendendo a que «para Thomas Schelling, Dias da Cunha poderia até recuar», seria:
  • Dias da Cunha: recua / não recua
  • Sportinguistas: avançam / não avançam

    (A propósito: que «soma da influência das escolhas de outrém» é que determina as "escolhas" das claques ?)
  • Abusos sexuais e escolhas "racionais"

    Continuam a surgir notícias sobre os abusos sexuais de menores por parte de padres, bem como sobre a "tolerância" da Igreja católica americana relativamente a este assunto, ao longo de décadas. O jornal Público de hoje refere o caso da Diocese de Los Angeles (onde se encontra o relatório "Report to the People of God: Clergy Sexual Abuse: Archdiocese of Los Angeles 1930-2003").

    Relacionado com este assunto é recente o paper "Sexual Misconduct of Roman Catholic Priests: A Rational Choice Perspective" de Christine M. Brickman, da Catholic University of America, que utiliza a teoria das escolhas racionais. Brickman analisa a evolução do número de casos observados, assumindo que a «a escolha de um comportamento desviante é regulada por respostas racionais a mudanças no custo e probabilidade relativos de castigo dos abusadores que tentam maximizar a sua utilidade esperada». O estudo confirma que as mudanças de atitude da hierarquia religiosa se encontram relacionadas com o número de casos de abuso.
    «Apesar da vasta quantidade de informação que existe sobre o assunto, poucos estudos surgiram no campo da Economia. Talvez os economistas estejam relutantes em analisar a má conduta sexual de sacerdotes numa perspectiva que dá ênfase à "racionalidade" e a escolhas "custo-benefício". Dada a natureza maléfica destes actos, esta hesitação é compreensível. Ninguém pretende defender que o abuso sexual é em si "racional", especialmente quando as vítimas são crianças e os abusadores são sacerdotes. A abordagem aparenta ser muito fria e calculista para que possa ser aplicada a crimes desta natureza.»
    De facto, no domínio da Economia positiva, o adjectivo "racional" não tem o mesmo sentido que ocorre no senso-comum, onde assume uma conotação moral e normativa. Trata-se de um equívoco equivalente ao da afirmação: "A guerra é essencialmente humana": humana no sentido que é praticada pelos humanos, e não por ter uma natureza "humana" (= bondoza, caritativa, etç).

    Em Economia o adjectivo "racional" não tem conotação moral, refere-se ao comportamento do indivíduo na defesa do seu próprio interesse, tal como ele o define. Exemplos: (1) o fumador intensivo que gasta dinheiro com cigarros comporta-se "racionalmente" porque o "benefício" que obtém por fumar é superior ao "custo" conjunto do dinheiro que desembolsa e do perigo apercebido para a sua própria saúde; (2) o indivíduo que obtém água a baixo custo e a gasta prodigamente, também age "racionalmente".

    Do ponto de vista normativo, tal como do ponto de vista da comunidade de indivíduos, os comportamentos referidos podem ser considerados irracionais: (1) porque os fumadores comportam elevados custos para a comunidade, e (2) porque a água é um bem escasso, e também nos casos em que o custo real daquela água pode estar a ser suportado por outros indivíduos através das administrações públicas que fixam o preço abaixo do custo real, financiando-o indirectamente com receitas de impostos.
    Nota: Encontrei a referência a este documento no blogue "De Gustibus Non Est Disputandum".

    Everglades


    Interessante artigo do Economist sobre o projecto de recuperação dos Everglades: "Water, bird and man".

    Esta imensa zona natural dos EUA (Florida) foi muito modificada em meados do século XX, com drenagem de terrenos e alteração do curso do rio, em cujo leito foram construídas Miami e Fort Lauderdale. A zona a sul do Lago Okeechobee foi modificada para agricultura intensiva. Como resultado desta "humanização" o sistema natural encontra-se à beira do colapso. Desapareceram os imensos bandos de aves que chegavam a tapar o sol por alguns minutos durante a sua passagem. Espécies exóticas introduziram-se no sistema, vegetação parasita invade tudo e a alimentação natural dos peixes, à base de algas e bactérias, encontra-se também adulterada.

    Perante o problema, em 2000, já no final da era Clinton, foi aprovado o Comprehensive Everglades Restoration Plan (CERP), um plano caro e complicado: mais de 68 projectos para um horizonte de 30 anos. A ideia base é forçar uma maior quantidade de água para a zona a sul do Lago Okeechobee, em direcção ao Parque Nacional (ver imagem de cima e mais esta).

    Apesar de não terem sequer sido iniciados os projectos piloto, já existem problemas com a estrutura de financiamento, partilhada entre a Florida e o governo Federal.


  • Everglades - ecossistema (mapa)
  • Florida Everglades - capítulo do relatório de 1994 sobre "The Impact of Federal Programs on Wetlands"
  • quarta-feira, outubro 12, 2005

    Elogio das rotundas


       Foto: jornal "Cidade de Tomar"

    Actualizado com uma anedota

    Recordo-me de ter ouvido o ministro das Finanças Cavaco Silva, no primeiro Congresso dos Economistas, criticar os autarcas por andarem a construir piscinas. Mas isso foi há muito tempo: o exemplo agora em moda, para zurzir os autarcas, são as rotundas.

    Mas não percebo. Aliás, gostaria que alguém me explicasse o que é que há de mal nas rotundas. Porque o que eu acho (e verifico) é que:

  • regulam melhor o trânsito que os semáforos (excepto para grandes volumes de tráfego)
  • são mais baratas que os semáforos, particularmente se tivermos em conta o consumo de energia e as reposições (substituição de lâmpadas, pintura, reposição dos semáforos acidentados)
  • são mais amigas do ambiente (os semáforos estão sempre a gerar o lixo das lâmpadas)
  • são mais bonitas (em geral)
  • são mais seguras (em geral; os semáforos são sempre obstáculos à procura do acidente)
  • contribuem mais para a segurança: desaceleram o trânsito, mesmo quando não há cruzamentos nem entroncamentos
  • os acidentes nas rotundas não passam, geralmente, de chapa batida; mas nos semáforos ocorrem os mais mortais de todos os acidentes: choques violentos dos carros que passam no vermelho
  • atrapalham menos (em geral; os semáforos estão frequentemente atravessados nos passeios)
  • irritam menos (acho eu; podem até demorar mais, mas a angústia cíclica das passagens nos verdes irrita-me mais do que o pinga-pinga das rotundas)
  • têm plantas - bem, em geral (árvores, flores); é irrelevante para o ambiente mas é bom para a psiche (espírito; não confundir com "pechiché")

    Por isso, digam-me lá: que mal vos fizeram as rotundas ?

    Actualização
    A propósito de rotundas, lembrei-me desta história, que é anedota mas também é real: foi uma conversa entre dois "criativos", algures na década de 60 (na altura designavamo-los como "mentirosos") num Verão, numa praia da margem sul. Dois tipos gabavam-se de proezas automobilísticas, velocidades, etç. Dizia um:
    - «Eu ia tão rápido, tão rápido, que fiz uma curva de 180º sempre com duas rodas no ar!»
    - «Isso é alguma coisa?» - respondeu o outro - «O "Cebola" já deu a volta à rotunda de Almada só com a chapa no chão!»
  • Matematicae Horribilis

    Ouvi dizer - mas provavelmente é mentira - que alguns dos cursos de Contabilidade dos Institutos Superiores de Contabilidade e Administração, que colocam a matemática como prova obrigatória de acesso, estão quase sem alunos, enquanto que outros, com disciplinas de acesso mais "digeríveis", tiveram grande procura.

    Na Internet, e numa busca rápida, só encontrei o ISCA do Porto sem a obrigatoriedade da matemática - é apenas exigida uma das seguintes: Direito, Economia ou Matemática.

    Se isto for verdade, não sei o que será mais preocupante: se a sub-utilização de umas escolas ou a qualidade dos futuros licenciados das outras.

    Serviços

    O INE divulgou hoje um relatório sobre serviços prestados às empresas [pdf], abrangendo actividades tais como a Informática, Contabilidade, Auditoria/Consultoria, Estudos de Mercado e Sondagens de Opinião, Arquitectura e Engenharia. Em 2004 foi apurado um total de 28 793 empresas, empregando quase 140 mil pessoas (57 % homens, 43 % mulheres).

    O volume de negócios gerado em 2004 foi de 13 234 milhões de euros. 4/5 deste bolo coube às Informáticas (55 %) e às Contabilidades, Auditorias e Consultorias (27,3 %).

    Ética empresarial

    Segundo o jornal "Público", empresários portugueses iniciaram ontem um debate sobre problemas de ética empresarial, no âmbito do "I Forum Português da Responsabilidade Social das Organizações", de que é presidente José Roquette.

    Rui Vilar, presidente da Fundação Gulbenkian, salientou que «as empresas devem investir em actividades de responsabilidade social, pois estas representam activos fundamentais numa gestão empresarial moderna.»

    Em 1966 teve lugar o "1º Congresso Português de Ética Empresarial".

    Deverão as empresas preocupar-se com questões sociais? Ou contribuirão melhor para a vida em sociedade limitando-se ao negócio? Sobre este dilema e correspondente debate, Ian Davis escreve, no Economist, o artigo "The biggest contract":

    «Dum lado estão aqueles que argumentam (para usar a expressão de Milton Friedman) que "o negócio dos negócios é o negócio". Esta crença encontra-se mais consolidada na economias anglo-saxónicas. Segundo este ponto de vista, os temas sociais são marginais às preocupações da gestão de empresas - o seu único objectivo legítimo é o de criar valor para o accionista.

    Do lado oposto encontram-se os defensores da "Corporate Social Responsibility" (CSR), um movimento algo difuso mas em rápida expansão, que abrange tanto as empresas que já praticam o CSR como grupos de pressão que argumentam que as empresas têm de ir ainda mais longe na minimização dos impactos sociais que provocam.» O autor do artigo considera que ambas as posições obscurecem a importância do temas sociais para o sucesso dos negócios. No caso do grupo que defende a restrição das empresas aos negócios, Ian escreve que prejudica as empresas de dois modos:

    «Os temas sociais só não são tangenciais para as empresas, como são fundamentais. De um ponto de vista defensivo, as empresas que ignoram o sentimento público tornam-se vulneráveis a ataques. Mas as pressões sociais podem igualmente funcionar como indicadores precoces de factores-chave para a lucratitividade das empresas. (...) São muitos os exemplos do impacto de longo prazo dos temas sociais., e o seu número cresce rapidamente. No sector farmacêutico, uma tempestade de pressões sociais nas últimas décadas - decorrente de percepções de preços excessivos cobrados por medicamentos para a Sida nos países em desenvolvimento, por exemplo - está-se agora a transformar num estreitamento geral (e por vezes indiscriminado) do quadro regulatório. Outro exemplo ocorre no sector da restauração, onde o antigo e crescente debate sobre a obesidade está a resultar em pedidos de maior controlo sobre o mercado de comidas não saudáveis»

    Mas Ian também levanta dúvidas sobre a atitude dos defensores do CSR:

    «A sua popularidade (...) derivou em grande medida de uma série de campanhas anti-empresariais de final dos anos 90. Por outro lado, receberam um forte impulso dos movimentos anti-globalização dessa altura. Desde então as empresas passaram a dar mais atenção ao CSR, atraídas por noções sonantes, ainda que vagas, tais como a "triple bottom line": a ideia de que as empresas podem estar tanto ao serviço de objectivos sociais e ambientais como dos lucros. Esta atitude tem sido encarada pelas empresas como um modo de evitar a artilharia das ONGs e potenciais ataques sobre a reputação, bem como um modo de mitigar as arestas mais afiadas do capitalismo. (...) A CSR apresenta uma agenda limitada para a acção empresarial porque não consegue captar a importância potencial dos temas sociais para a estratégia empresarial»

    Documentos relacionados:

  • "A Ética na vida empresarial" - José H.S. Brito
  • "Ética Empresarial e Económica" (Introdução) - José Manuel Moreira
  • Código de Ética Empresarial disponível no site da Associação Portuguesa de Empresários e Gestores.
  • terça-feira, outubro 11, 2005

    A teoria económica que venceu a bomba atómica


    Thomas Schelling

    "O mais importante evento da segunda metade do século XX foi um que nunca chegou a acontecer". Com estas palavras, Thomas Schelling assinalou a "notável realização" de 50 anos sem guerra nuclear. Ninguém pode reclamar o respectivo mérito, mas Schelling não contribuiu menos do que qualquer outro para ajudar a evitá-la. Ele ajudou porque o compreendeu e o explicou brilhantemente, mudando o clima intelectual, inspirando uma geração de pensadores estratégicos e, quase incidentalmente, salvando da irrelevância a jovem disciplina da Teoria dos Jogos."

    Tim Harford, Financial Times
    "How an economic theory beat the atomic bomb"
    [ versão completa do artigo aqui ]