quinta-feira, novembro 03, 2005

A rapariga que aprendeu demais

Melanie Griffith

Ficheiro mp3 - 30:40 min.

Russ Roberts entrevista Don Cox sobre o tema: "devem os homens de negócios egoístas ser abatidos?" Realização técnica da Radio Economics de James Reese.
A entrevista começa com uma referência à peça de teatro "Born Yesterday", escrita em 1946 por Garson Kanin, e que teve duas versões cinematográficas: uma em 1950, com Judy Holliday, e outra em 1993 ("Nascida Ontem"), com Melanie Griffith no papel principal. Dois negóciantes sem escrúpulos vão a Washington tentar corromper um congressista para a realização de um negócio. Um deles leva consigo a vistosa namorada. Contudo, para que a simplória moça não o deixe ficar mal entre a socialite, decide facultar-lhe algumas aulas de cultura geral - tarefa que é atribuída a um jornalista. O problema é que a formação a leva a compreender a natureza suja dos negócios do namorado e a questionar toda a operação e o seu relacionamento.

A peça, que se encontra actualmente em cena no Arena Stage, poderia servir para uma conversa sobre a importância - e as consequências, nem todas previsíveis - de transmitir conhecimentos às pessoas. Mas a conversa dos dois economistas neste podcast centra-se numa outra temática: será que do egoísmo dos indivíduos (nomeadamente nos negócios) nascem coisas más? Ou, por outras palavras, "devem os homem de negócios egoístas ser abatidos?" - designação que Russ Roberts deu à entrevista.

É um tema sugestivo. A hipótese do egoísmo suporta grande parte da teoria económica desde que Adam Smith escreveu a metáfora da "mão invisível": "não é a bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que garante o nosso jantar, mas sim a consideração que eles têm pelo seu próprio interesse". E não são apenas os economistas que colocam esta hipótese: a neurobiologia anda a testar presentemente esta a mesma hipótese. Trata-se, portanto, de um tema interessante e actual, mas a entrevista é algo prejudicada pelo facto das "perguntas" do entrevistador serem mais longas do que as respostas do pobre entrevistado.

Billie (Melanie Griffith): Tenho estado a pensar ultimamente numa coisa que o meu pai me dizia: "sem conhecimentos, serás sempre menos do que os outros". E eu não quero ser menos. Ou seja, não quer ser melhor do que os outros nem quero meter-me em bicos de pés. Apenas não quero ser menos do que qualquer outra pessoa.

Paul (jornalista): Bem, receio que isso seja impossível... porque agora já estás acima da maioria das pessoas.

url do podcast:
http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051031-351.mp3

O futuro móvel



Podcast
da entrevista de Brian C. Russell ao jornalista Dan Smith acerca do seminário "Media opportunities and strategies for the mobile, broadband generation". Dan fala sobre o impacto dos novos media na educação.

url do podcast [5:51 min]:
http://www.audioactivism.org/audio/AA_MMCon_Smith_GamingEDU.mp3

Um resumo de algumas das apresentações neste seminário foi feito por Michel Dare: "Mobile Media Memory Dump". Tratando-se de um outsider, Michael Dare apresenta uma visão ingénua e divertida sobre as "promessas" do explosivo mercado dos conteúdos para telemóveis.

Interessante o dispositivo desenvolvido por Phillippos Mordohai: uma câmara de filmar com duas lentes - uma acima da outra - que nos tira uma fotografia olhando para a câmara e pode, a partir daí, construir uma imagem 3D a toda a nossa volta, incluindo a silhueta lateral com grande definição. Algo que pode ter aplicação em termos de segurança.

Um outro software constrói caricaturas a partir da imagem de uma pessoa, não só de grande qualidade, mas possuindo, à escolha, o estilo de qualquer artista cujo trabalho tenha sido "scaneado" para o computador.

«Imagine que vai pela rua e o telemóvel toca: é da loja Starbucks, ali ao lado, que detectou a sua passagem e envia-lhe a oferta de um desconto se não se importar de entrar na loja.» (parece mesmo o equivalente virtual daqueles restaurantes de zonas turísticas - ou das peixeiras do Norte - que agarram os clientes pelo colarinho.)

«Chateado enquanto espera no dentista? Para quê ler uma velha edição da "Caras" quando tem 30 mil jogos à disposição do seu telemóvel? Preso no trânsito? Não se irrite: blogue com o telemóvel. Descansa durante um passeio ao campo? Para quê enjoar a paisagem, quando pode entreter-se a ver um "mobisódio"?»
("mobisódios" - episódios de um minuto de programas populares da televisão, disponíveis via telemóvel)

Com tantas possibilidades, no entanto, parece que os milhões que actualmente se fazem neste mercado resultam maioritariamente da venda de toques musicais e de imagens de fundo.

Jogos educacionais


Jogos 'arcade' utilizados para aprendizagem de matérias escolares.

"Serious Games Initiative": promover a utilização da tecnologia de jogos de computador para ajudar os estudantes a aprender as matérias escolares.

Também sobre jogos educacionais, a New Media Centers vai realizar uma conferência sobre Educational Gaming, nos dias 7 e 8 de Dezembro, que decorrerá inteiramente on-line. O acesso, infelizmente, não é livre. As sessões terão 30 minutos e está assegurada a interactividade: conversas "hallway" [?], chats, possibilidade de colocar perguntas aos conferencistas, etç. Veja a:
  página da Conferência  

Tudo

Tudo o que você sempre quis saber sobre a economia portuguesa mas teve medo de perguntar: como sustentar o crescimento, como assegurar a sustentabilidade fiscal, como "tratar" do défice, etç. etç. etç., tudo isso foi respondido pela OCDE, mas... para a economia dos EUA: "Economic Survey of the United States 2005":

  • Capítulo 1: Challenges facing the US economy
  • Capítulo 2: Ensuring fiscal sustainability and budgetary discipline
  • Capítulo 3: Fiscal relations across levels of government
  • Capítulo 4: Coping with the inevitable adjustment in the current account
  • Capítulo 5: Labour market issues
  • Capítulo 6: Energy and environmental issues

    Quanto a Portugal, contentemo-nos com as concisas notas do Economic Outlook e do Economic Policy Reforms.
  • Investigação nacional

    O Banco de Portugal colocou em linha o paper "Business Cycle at a Sectoral Level: the Portuguese Case", de Hugo J. Reis, onde se faz uma análise secorial do ciclo económico portugês, com ênfase no fenómeno do co-movimento, para os anos 1953-2003, em termos de Valor Acrescentado Bruto e Emprego. «Nos últimos 50 anos observaram-se mudanças estruturais substanciais na economia portuguesa. Estas mudanças significam que alguns sectores, nomeadamente os dos Serviços, estão a crescer em termos relativos. Apesar das diferenças existentes em aspectos tais como a tendência e a volatilidade, existe evidência da presença de co-movimento entre os sectores de actividade portugueses. Analisamos as causas desse fenómeno, tais como as ligações input-output, à luz da economia portuguesa.»

    Outros papers divulgados pelo BP são:
  • "The Pricing Behaviour of Firms in the Euro Area" - Fernando Martins et al
  • "Consumption Taxes and Redistribution" de Isabel Horta Correia
  • Bons negócios

    No passado mês de Setembro verificou-se uma subida de 3,9 % no volume de negócios da indústria, uma média do crescimento no mercado interno (3,6%) e no externo (4,4%).

    A procura interna cresceu nos sectores do Investimento e na Energia, e diminuíu nos Bens de Consumo e Intermédios. Os mercados externos dinamizaram-se sobretudo nos Bens Intermédios.

    Não são más notícias mas, tratando-se de movimentos sujeitos a forte sazonalidade, há que esperar para ver o que realmente significam. Quanto à Energia, não sabemos se rir se chorar: é bom para uns mas é péssimo para os outros.

    Fonte: Índice de Volume de Negócios na Indústria, publicado pelo INE.

    quarta-feira, novembro 02, 2005

    NetPay: concorrência nos cartões


    Concorrência chega finalmente aos pagamentos com cartões

    Segundo notícia do jornal Público de hoje, o Banco Português de Negócios vai entrar no mercado da rede de pagamentos por cartões de débito e crédito, abrindo pela primeira vez concorrência à rede Unicre que, desde há 31 anos, tem garantido o monopólio em Portugal. A rede Unicre, que é detida pela totalidade dos bancos portugueses, processa os pagamentos com cartões de todos eles e tem sido acusada de usar essa posição de monopólio para impor custos ao consumidores, tais como a taxa adicional pelo pagamento de combustíveis nos postos abastecedores.

    A rede do BPN é a NetPay e encontra-se neste momento em fase de arranque. José Oliveira e Costa, em entrevista ao Diário de Notícias em 11 de Outubro (disponível aqui), revela que o sistema se apoia "numa solução tecnológica desenvolvida por uma empresa em Portugal, participada por várias entidades, que já tem a aplicação a funcionar em Moçambique e Cabo Verde e prevê avançar para outros países. O BPN queixa-se de concorrência desleal por parte da Unicre , referindo que, para desenvolvimento da NetPay, "mantivemos a operação secreta, conduzida por um número o mais restrito possível de pessoas. A certa altura, em Abril de 2004, houve uma fuga de informação. A partir daí, tudo começou a mudar em Portugal no que toca aos cartões (...) as taxas começaram a baixar. Há três anos praticavam-se taxas de 6% e elas estão a vir por aí abaixo, na casa dos 3%, o valor máximo.

    José Oliveira e Costa queixa-se de tratamento desigual: "Quando se utiliza um cartão de débito num POS (terminal de pagamento automático), a comunicação vai ao nosso centro, depois vai a Londres, de Londres volta a Portugal e vai à SIBS (Sociedade Interbancária de Serviços), desta vai ao banco que é debitado, volta à SIBS, vai a Londres, Londres faz o registo da operação, retém as verbas de comissões que credita no banco do cartão e manda para nós a operação. Se não existisse a SIBS, a operação era mais simples. O paradoxo desta situação tem a ver com o facto de haver uma entidade que autoriza que se pratiquem preços diferentes. Quando um cartão de um banco passa por um POS nosso, o banco emissor recebe 3%. Mas se passar por um POS da Unicre, esta só cobra 2%. A Unicre está autorizada por este acordo "fantasma" com a Visa Portugal, a reservar para o banco emissor uma verba muito inferior aquela que nós temos de pagar."

    Zimbabwe

    Um ministro do governo do Zimbabwe admitiu que muitos dos beneficiários com terras, no âmbito da política de redistribuição, sabem pouco sobre agricultura e que enquanto alguns estão a cultivar, outros não estão a fazer nada com os terrenos. "O maior desapontamento foi que pessoas sem a menor ideia de agricultura obtiveram terras e o resultado foi o declínio da produção". (Notícia do "Público")

    Segundo dados do Fundo Monetário Internacional, a economia do Zimbabwe teve uma queda de 10,4 % em 2003 e de 4,2 % em 2004. A produção agricola está em queda e a fome ameaça tornar-se numa catástrofe, mesmo contando com ajuda alimentar de emergênca. A inflação homóloga desceu desde um máximo de 623 % em Janeiro de 2004 para estabilizar em torno de 130 % no início de 2005, mas disparou de novo para os 254 % em Julho deste ano. Para o ano corrente a previsão do FMI é de que o PNB sofra uma queda de 7,2% e que a inflação suba para valores acima dos 400%.

    Zimbabwe: indicadores económicos, 2002-2005
       2002    2003    2004    2005  
    (prev,)
     PNB real (p.mercado; var.em %)-4,4-10,4-4,2-7,2
     Poupança Nacional Bruta0,8-1,2-2,1-4,8
     Investimento bruto1,52,05,14,9
     Inflação (IPC - média anual)133,2365,0350,0219,2
     Inflação (IPC - fim de período)198,9598,7132,7404,6
     Orçamento do governo (% do PNB):   
          Receitas 17,924,933,936,7
          Despesa e empréstimos líquidos20,725,341,051,0
          Dos quais: juros da dívida2,91,35,510,1
          Saldo Global- 2,8- 0,4- 7,1- 14,2
     Fonte: FMI

    terça-feira, novembro 01, 2005

    O Terramoto, Voltaire, Rousseau, a Ciência e os Pós-Modernos


    As ondas do maremoto de Lisboa propagaram-se também pelo mundo das ideias. (Via DivulgandoBD - clique na imagem)

    O Terramoto de Lisboa de 1755, cujos 250 anos se comemoram hoje, teve um impacto importante no mundo das ideias da sua época. Recordemos que se encontravam em confronto duas visões do mundo: dum lado a visão antiga, dogmática, conservadora, imobilista, de base religiosa. Do outro lado os filósofos do iluminismo, revolucionários e críticos da sociedade antiga.

    Do lado conservador considerava-se que, em última análise, tudo era governado por vontade divina: se ocorriam catástrofes, fomes e pestes, era por vontade de Deus, para castigar os pecadores e colocar à prova os fiéis. Qualquer Mal seria pequeno em comparação com o Bem divino.

    Do lado do iluminismo, já muito influenciado pelo embrionário movimento científico, defendia-se a existência de leis naturais, que era importante compreender. Se havia coisas que corriam mal (pestes, fomes, etç.) havia que procurar as causas e prevenir os males.

    À semelhança de um terramoto, a confrontação entre estas duas filosofias e visões do mundo foi acumulando tensões até que explodiu fragorosamente na Revolução Francesa (1789) , com numerosas réplicas nas várias revoluções liberais que ocorreram em diversos países (em Portugal, em 1820).

    A Revolução Francesa é assim considerada a fronteira entre o antigo e o novo regime, entre as idades Moderna e Contemporânea - mas a fronteira poderia também localizar-se na data do Terramoto de Lisboa.

    O Terramoto aconteceu na manhã do dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, em que era imperativo ir à missa. E foi dentro das igrejas que se encontravam grande parte das vítimas. Este facto impressionou muito as pessoas na época: se o terramoto era um castigo divino, como é que foi logo atingir os crentes que assistiam à missa, poupando muitos que não tinham lá ido?

    Os filósofos iluministas não deixaram de aproveitar os ensinamentos da catástrofe que se tinha abatido sobre uma das mais famosas cidades do mundo. Voltaire escreveu um longo poema dedicado ao Terramoto, onde começa por verberar os "filósofos enganados" que proclamam que "tudo está bem":
    «Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
    Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
    Exercício eterno que inúteis dores mantém!
    Filósofos iludidos que bradais "Tudo está bem";
    Acorrei, contemplai estas ruínas malfadadas,
    Escombros, despojos, cinzas desgraçadas,
    Estas mulheres e crianças amontoadas
    Estes membros dispersos sob mármores quebrados
    Cem mil desafortunados que a terra devora
    (...)
    Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
    "Deus vingou-se, a morte é o preço dos seus crimes" ?
    Que crime, que falta cometeram estas crianças
    Sobre o seio materno esmagadas e sangrando?
    Lisboa, que já não é, teve ela mais vícios
    Que Londres ou Paris, mergulhadas em delícias?
    Lisboa em ruínas, e dança-se em Paris.»
    (...)

    Fonte: Meu Rumo (adaptado)
    Mas Voltaire escreveu ainda uma outra obra que reflecte a catástrofe: a divertida novela filosófica "Cândido ou o Optimismo", uma farsa corrosiva, com personagens bastante caricaturais: Cândido, um ingénuo que olha o mundo com a ignorância dos simples; e o filósofo Pangloss, defensor de que tudo está bem no mundo, incluindo as catástrofes, por ser essa a vontade divina; a base dos argumentos de Pangloss são que o mundo foi feito por Deus, e como Deus é perfeito, o mundo também só pode ser perfeito; se as coisas acontecem de determinada maneira, então é porque só podia ser assim e não de outro modo. Logo à entrada da barra de Lisboa, quando Jacques, o benfeitor de Cândido, cai ao mar (ao tentar salvar um marinheiro!) e Cândido o quer socorrer, Pangloss impede-o, "provando-lhe que a enseada de Lisboa fora feita expressamente para o afogar". Segue-se a descrição do terramoto que acontece mal Cândido e Pangloss colocam o pé em terra firme.
    «Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor, sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali se acham ancorados. Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tectos sobre os alicerces; trinta mil habitantesdetodos os sexos e idades são esmagados sob as ruínas. Assobiando e praguejando, dizia consigo o marinheiro: — "Muito há que aproveitar aqui". — "Qual poderá ser a razão suficiente deste fenómeno?" — indagava Pangloss.

    "Chegou o fim do mundo!" exclamava Cândido. O marinheiro corre imediatamente para o meio dos destroços, afronta a morte em busca de dinheiro, acha-o, embriaga-se; depois de cozinhar a bebedeira, compra os favores da primeira moça de boa vontade que encontra sobre as ruínas das casas e no meio dos mortos e moribundos. Enquanto isto, Pangloss puxava-o pela manga:
    — "Meu amigo — dizia-lhe — isso não está certo, ofendes a razão universal, empregas muito mal o teu tempo."
    — "Com os diabos! — respondeu o outro — sou marinheiro e nasci em Batávia; marchei quatro vezes sobre o crucifixo, em quatro viagens que fiz ao Japão; e ainda me vens com a razão universal!" Alguns estilhaços de pedra tinham ferido Cândido, que estava estendido no meio da rua e coberto de destroços.
    — "Ai! — dizia ele a Pangloss, arranja-me um pouco de vinho e de óleo, que estou a morrer."
    — "Este terramoto não é novidade nenhuma — respondeu Pangloss. — A cidade de Lima experimentou os mesmos tremores de terra no ano passado; iguais causas, iguais efeitos: há com certeza uma corrente subterrânea de enxofre, desde Lima até Lisboa."
    — "Nada mais provável — respondeu Cândido — mas, por amor de Deus, arranja-me óleo e vinho."
    — "Como, provável? — replicou — Sustento que é a coisa mais demonstrada que existe!"
    Cândido perdeu os sentidos, e Pangloss trouxe-lhe um pouco de água de uma fonte próxima.»
    Pangloss, de quem são muito citadas as frases "vivemos no melhor dos mundos" e "tudo está bem e não podia estar melhor", ocupa-se a consolar os desgraçados lisboetas com estas filosofias; no entanto, o seu discurso, escutado por um membro da Inquisição, é interpretada de modo equívoco: se Pangloss crê que tudo está sempre bem, achará então ele que o pecado original também foi uma coisa boa? Pangloss não compreende a subtileza, mas o inquisidor regista o facto, e a imagem do lacaio a servir-lhe vinho do Porto no meio dos destroços é muito sugestiva.
    «Pangloss consolou-os, assegurando-lhes que as coisas não poderiam ser de outra maneira: "Pois tudo isto — dizia ele — é o que há de melhor. Pois, se há um vulcão em Lisboa, não poderia estar noutra parte. Pois é impossível que as coisas não estejam onde estão. Pois tudo está bem".
    Um homenzinho de preto, familiar da Inquisição, que se achava a seu lado, tomou polidamente a palavra e disse:
    — Pelos vistos, o Senhor não crê no pecado original; pois se tudo está o melhor possível, então não houve nem queda, nem castigo.
    — Peço humildemente perdão a Vossa Excelência — disse Pangloss ainda mais polidamente — pois a queda do homem e a maldição entravam necessariamente no melhor dos mundos possíveis.
    — O Senhor não crê então na liberdade? — perguntou o familiar.
    — Vossa Excelência me desculpará — disse Pangloss — a liberdade pode subsistir com a necessidade absoluta; pois era necessário que fôssemos livres, porque enfim a liberdade determinada...
    Pangloss ia ainda no meio da frase, quando o familiar fez um sinal de cabeça para o seu lacaio, que lhe servia vinho do Porto.»
    Segue-se o capítulo VI, onde se dá conta de que os sábios da Universidade de Coimbra aconselharam a realização de um auto-de-fé para evitar novo terramoto. Repare-se na ironia da prisão com "apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol". Voltaire explora a aqui a sua convicção de que, levados à letra, os preceitos religiosos condenam os seus próprios defensores. Note-se igualmente a futilidade dos crimes: ter escutado uma conversa, ter retirado a gordura da comida. Resultado: novo terramoto!
    «Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer. Tinham, pois, prendido um biscainho que estava convencido de ter casado com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe tinham retirado a gordura: vieram, depois do almoço, prender o Doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: foram ambos conduzidos separadamente para apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol; oito dias depois vestiram-lhes um sambenito e ornaram-lhes a cabeça com mitras de papel: a mitra e o sambenito de Cândido eram pintados de chamas invertidas e diabos que não tinham cauda nem garras; mas os diabos de Pangloss tinham cauda e garras, e as flamas eram verticais. Assim vestidos, marcharam em procissão, e ouviram um sermão muito patético, seguido de uma bela música em fabordão. Cândido foi açoitado em cadência, enquanto cantavam; o biscainho e os dois homens que não tinham querido comer gordura foram queimados, e Pangloss enforcado, embora não fosse esse o costume. No mesmo dia a terra tremeu de novo, com espantoso fragor."»
    Esta questão desencadearia ainda um aceso debate entre Voltaire e Rousseau. Voltaire ataca a filosofia "optimista" representada por Leibniz, Pope et Wolf ("um mundo criado por Deus, organizado pela Providência de tal modo que um Mal necessário, em proporção ínfima, é compensado por um Bem sempre maior") e adopta uma postura pessimista mas não de impotência - o homem é ignorante mas pode e deve lutar por melhorar a sua condição. Rousseau recusa esta perspectiva: recordemos que ele é o autor do "Discurso sobre as Ciências e as Artes" onde responde negativamente à questão de saber se «o restabelecimento das ciências e das artes contribuiu para melhorar os costumes".

    Em Portugal tivemos recentemente um debate entre o sociólogo pós-moderno Boaventura Sousa Santos (BSS) e o cientista António Manuel Baptista (AMB) - veiculado em conferências, entrevistas, artigos de opinião e mesmo em livros - onde foi repescada esta confrontação entre os dois vultos do iluminismo. BSS, no livro que esteve na origem da polémica, "Um discurso sobre as ciências", começa por citar Rousseau e o seu "Discurso" para depois atacar a Ciência - e prometer uma "nova ciência" pós-moderna. Uma manifestação recente deste debate ocorreu no Boletim da Sociedade Brasileira de Física, em Maio passado, com uma carta de AMB e uma resposta de BSS.

    O debate filosófico em torno do Terramoto não está assim tão afastado de nós. Por isso, ao ouvir os sinos de Lisboa a comemorar o evento, não perguntemos por quem esses sinos dobram: eles dobram (também) por nós.

    Algumas referências:
  • "Candido ou o Optimismo" (vide cap. V, VI e VII)
  • "Poème sur le désastre de Lisbonne"
  • "O Terramoto na blogosgera" (Technorati)
  • "O Terramoto de Lisboa, os judeus e a Inquisição" - Rua da Judiaria
  • "Pequeno Blogue do Grande Terramoto"
  • "Lisboa antes do terramoto" (doc. Word)
  • "Cataclismos e Catástrofes: reflexões acerca das relações entre o sistema político e o sistema mediático" (pdf)
  • segunda-feira, outubro 31, 2005

    Sexo na cidade

    tínhamos aqui referido o mistério da "existência" de mais mulheres do que homens, o qual na imaginação masculina assume proporções que vão desde "2 para 1" até "7 para 1" [1].

    Parte do mistério pode ter sido desvendado por Lena Edlund, que publicou no Scandinavian Journal of Economics o artigo "Sex and the City"


    Lena Edlund, continua que vais no bom caminho.

    «Nas áreas urbanas do mundo industrializado, as mulheres jovens são mais numerosas do que os homens jovens. Este paper propõe que esse padrão possa estar ligado a rendimentos mais elevados para os homens, nas áreas urbanas. O argumento é que as áreas urbanas oferecem melhores mercados de trabalho aos trabalhadores qualificados. Assumindo que existam mais homens qualificados do que mulheres qualificadas, isto traduzir-se-ia num excedente de homens. Contudo, a presença de homens com elevados rendimentos pode atrair, não apenas mulheres qualificadas, mas também mulheres não qualificadas. Assim, o excedente de mulheres em áreas urbanas pode resultar de uma combinação de melhores mercados de trabalho e casamento. Os dados dos municípios suecos suportam estes resultados»
    Imaginem só se fosse um homem a escrever isto... Não há dúvida de que "os mercados não dormem".

    Por outro lado, o estudo de David G. Blanchflower e Andrew J. Oswald "Money, Sex and Happiness: An Empirical Study" aborda as ligações entre o rendimento, o comportamento sexual e a felicidade admitida, numa amostra de 16 mil americanos adultos.
    «O estudo mostra que a actividade sexual participa fortemente - e positivamente - nas equações da felicidade. Rendimentos mais elevados não permitem "comprar" mais sexo ou mais parceiros sexuais. As pessoas casadas praticam mais sexo do que as solteiras, divorciadas, viúvas ou separadas. O número de parceiros sexuais que maximiza a felicidade é 1. As mulheres com elevados níveis de educação tendem a ter menos parceiros sexuais. A homossexualidade não tem um efeito estatístico significativo na felicidade.»

    Cristiana Oliveira, 40 anos, actriz, do Rio de Janeiro, e que já foi casada três vezes, acredita que "há duas mulheres para cada homem". Por isso parece-lhe lógico que "eles não queiram ficar com apenas uma". [link]

    A realidade é que no Brasil, em 2000, havia 97 homens por cada 100 mulheres, prevendo-se que em 2050 sejam 95 homens por cada 100 mulheres - muito longe das previsões de Cristiana. [link]

    [1]-Sem esquecer aquele filme de Stanley Kulbrick em que o Dr. Strangelove, como estratégia de sobrevivência a um holocausto nuclear, propõe povoar grutas com seres humanos pré-seleccionados, na proporção de 10 mulheres para cada homem".

    domingo, outubro 30, 2005

    Estatísticas do INE

  • Taxas de juro implícitas no crédito à habitação
  • Vendas no comércio a retalho
  • post no Neuroeconomia:

      A Economia segundo Damásio  

    Proximidade e detalhe

    O professor Adelino Fortunato - que suponho ser quem Luís Aguiar-Conraria refere elogiosamente neste post - escreveu em Agosto, no jornal Público, o artigo de opinião "A bolha especulativa do imobiliário", que foi reproduzido pelo blogue A mão invisível, e comentado pelos blogues Dolo Eventual e A-Sul.

    Adelino Fortunato começa o seu artigo por referir os receios de algumas instituições internacionais sobre a "bolha" especulativa no imobiliário, a qual ele compara depois com a "bolha" das dotcoms, para concluir que " quando este processo atingir os seus limites e a bolha rebentar, a queda dos preços é inevitável (...) com a agravante de se realizar num contexto de baixa inflação e exigir uma prolongada descida de muitos anos para que se atinjam os valores médios de longo prazo dos preços em termos reais."

    A seguir vem a clássica aplicação do fenómeno ao caso português (como é sabido, cada português acha que Portugal é um caso único no mundo, para o bem e para o mal) escrevendo: "O que é especificamente português é a forma irracional do ponto vista urbanístico, ambiental, cultural e social de muitos projectos dos operadores do mercado imobiliário, que se desenvolvem na base de cenários e expectativas sem fiabilidade, e cuja incongruência se combina facilmente com a falta de capacidade política, técnica e cultural das autarquias e do governo central." A previsão catastrófica de AF é que "quando o movimento de descida e contracção das margens de lucro se fizer sentir, quebrando a resistência dos grandes operadores que constroem, muitas vezes, como forma de investimento sem preocupações de venda imediata, o pânico pode invadir o mercado".

    Bem, a definição aplicar-se-ia a qualquer "bolha" especulativa em qualquer parte do mundo, mas nós sabemos onde o professor quer chegar: a crítica ao projecto urbanístico conhecido como "Mata de Sesimbra", contra o qual tem escrito vários artigos na imprensa, recorrendo a argumentos como o da ilegalidade duma assinatura do então ministro Isaltino ou o zurzir da "política do betão" das autarquias, etç.

    O que caracteriza as bolhas especulativas é que a valorização dos activos das empresas, nomeadamente em bolsa, sobe para patamares acima do seu real valor. O valor de mercado depende da oferta e da procura, mas pode acontecer que a procura se alimente a si própria sem fundamento na realidade: a procura das acções faz subir os seu preço, o que por sua vez realimenta a procura, e assim sucessivamente; é um mecanismo de feed-back que acabará por estoirar, tal como uma bolha que vai inchando até rebentar.

    Não creio que seja isso que se passa na Margem Sul do Tejo. O que acontece é que a procura de habitações é enorme e é real. Decorre certamente da macrocefalia lisboeta e da concentração na capital de importantes fluxos financeiros. Isto atrai novas actividades e novos habitantes, que procuram habitação na Margem Sul, dadas as facilidades de acesso a Lisboa, particularmente através da nova ponte. Mas tal concentração de riqueza - a mesma que colocou a região de Lisboa fora dos fundos comunitários - faz aumentar também a procura de segunda habitação. E a margem Sul apresenta condições excepcionais, de clima físico e humano, bem como de acessos, para captar essa procura. Não é portanto verdade que estejamos perante "expectativas sem fiabilidade".

    Nem sequer é evidente que, perante esta procura, a oferta esteja desqualificada. Existem empresas pouco qualificadas, mas existem igualmente empresas e grupos económicos altamente qualificados a operar no sector da construção. O problema residirá mais - e aqui concordo plenamente com AF - na capacidade do governo e das autarquias locais para lidar com esta explosão urbanística. É nítido que as grandes empresas e grupos económicos possuem hoje maior capacidade técnica de planeamento e de gestão do que as administrações públicas, o que leva a que, muitas vezes, sejam as empresas a elaborar os "planos de pormenor" em nome das autarquias, como aconteceu com o Vale da Rosa em Setúbal e a Mata em Sesimbra. Este desequilíbrio é que é preocupante, mas a culpa, se a há, não é das empresas mas sim do Estado.

    Isto não significa que esses planos não tenham qualidade. No caso da Mata de Sesimbra, existem duas zonas; numa delas, da iniciativa da empresa Pelicano, o plano teve o aval do World Wildlife Fund; na outra, da empresa "Casa Agrícola da Apostiça", o plano foi elaborado pela prestigiada arquitecta Olga Quintanilha, recentemente falecida. Eu sei que a iliteracia actual - mesmo entre os "cultivados" - conduz ao desprezo destes nomes. Mas não deveria ser assim. O que é desejável é que a implementação destes planos, de inegável qualidade, seja acompanhada de um maior controlo pelos poderes públicos e pela sociedade civil.

    Em suma: a visão das empresas como grandes especuladores, fazendo política de terra queimada, é um resíduo (ainda volumoso entre nós) do esquerdismo revolucionário que já é tempo de abandonar. A ideia de que as empresas não fazem contas e de que são os poderes públicos que têm de as fazer por elas, já se devia ter evaporado, após o julgamento histórico das nacionalizações. A procura de habitação na Margem Sul não é virtual: é real e dificilmente poderá ser travada através de um radicalismo ambientalista.

    Para curar um mal, é essencial um diagnóstico acertado. O diagnóstico de Adelino Fortunato está, no essencial, errado. Não defendo que esteja tudo bem: há problemas, grandes e muitos. Mas por isso mesmo é que devemos agir com inteligência, não aplicando à realidade modelos ultrapassados que vêm nas empresas o explorador maléfico. As empresas movem-se pela racionalidade económica e, sabendo-se que a sua actividade pode ser muito prejudicial em termos colectivos, cabe à sociedade estabelecer os incentivos/desincentivos que permitam preservar os valores ambientais e sociais, dando liberdade às empresas para se moverem dentro desse quadro.

    Não se pode impedir um rio de correr, por maior que seja a barragem que se construa; mas pode-se orientar o seu curso. Conviria, pois, apreciar estes problemas com a proximidade e o detalhe que merecem, evitando as ilusórias generalizações - em geral de base ideológica - com que se emolduram em talha dourada pinturas que não valem um chavo.

    Documentos relacionados:
  • Post do Pura Economia sobre a "bolha"
  • Mata de Sesimbra (na BioRegional)
  • Plano de Gestão Ambiental da Mata de Sesimbra
  • Artigo da Quercus sobre a Mata
  • Parecer da PGR sobre a transmissão de direitos de construção do Meco para a Mata

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  • sábado, outubro 29, 2005

    Boas intenções


    [ clique para ampliar ]

    Crédito: Comics.com via De Gustibus.

    EUA: propaganda encoberta

    Extractos de 5 documentos sobre o esforço da administração norte-americana para "plantar" notícias na imprensa, utilizando os meios de comunicação como correias de transmissão da sua propaganda:

  • Editorial do New York Times de 16.Março.2005 (reproduzido pela Truthout) - «Tal como é documentado esta semana por um artigo de David Barstow e Robin Stein no "The Times", mais de 20 agências federais, incluindo o Departamento de Estado e o Departamento da Defesa, forjaram falsos clips notíciosos. Nos seus primeiros 4 anos, a administração Bush gastou mais de 254 milhões de dólares do que a administração Clinton, em contratos com empresas de relações públicas. Muitas das gravações eram muito sofisticadas, incluindo "entrevistas" que pareciam genuínas e "repórteres" que se pareciam muito com os genuínos profissionais. Apenas espectadores sofisticados poderiam facilmente reconhecer que estes vídeos eram na realidade anúncios comerciais não pagos originados na Casa Branca ou em outras áreas do governo. Alguns dos vídeos caíam claramente no território interdito da propaganda, e o "Government Accountability Office" disse que pelo menos dois deles foram distribuídos ilegalmente. No entanto, muitas estações de televisão passaram esses videos, sem qualquer pista sobre de onde tinham realmente vindo. E enquanto que algumas delas alegam que cairam acidentalmente na armadilha, parece óbvio que, em muitos casos, estações de televisão com carência de repórteres, muito tempo de emissão para preencher e pouco dispostas a gastar dinheiro na recolha de material original, abdicam das suas responsabilidades editoriais a favor das equipas de informação do governo.»

  • Editorial do Washington Post de 16.Março.2005 (reproduzido pela Truthout) - «Esta técnica é simultaneamente ilegal e estúpida. Do ponto de vista legal as notícias pré-preparadas são abrangidas pela proibição do uso de fundos públicos para propaganda "doméstica". A interpretação da Administração de que : "não há problema em omitir a fonte desde que o spot seja 'puramente informacional'" - é inaceitável: salientar alguns "factos" e deixar outros de fora pode ser mais persuasivo do que a defesa aberta de uma causa, e é essa a razão pela qual a Administração escolheu esta técnica. Mais importante ainda: este tipo de propaganda mascarada de notícias representa um modo desleal de um governo conduzir a sua actividade: falsos jornalistas pagos pelo governo para divulgar a versão oficial das notícias é tão perturbante como a existência de verdadeiros comentadores pagos pelo governo para apoiar os seus pontos de vista.»

  • Despacho de Eric Boehlert no Salom.com (reproduzido pela Truthout) - «A controvérsia surgiu depois da emissão de um video a apoiar a reforma do Medicare criado pelo Centers for Medicare and Medicaid Services, uma agência que faz parte do Department of Health and Human Service. Profissionalmente produzido para se parecer com uma reportagem noticiosa para estações de televisão locais, o video era talvez demasiadamente realista. Tendo passado em quase 40 redes de televisões locais, nunca foi dito aos espectadores que o clip de 90 segundos tinha sido criado pelo governo. Pelo contrário, foi utilizado um narrador contratado, que terminou a peça com a frase: "De Washington, uma reportageem de Karen Ryan" (In Washington, I'm Karen Ryan reporting

  • Nota do U.S. Government Accountability Office(GAO) de 30.Set.2005 - «No decurso da nossa investigação [ao contrato entre o Departamento de Educação-DE e a empresa Ketchum] verificámos que o DE tinha contratado o North American Precis Syndicate para escrever um artigo de jornal intitulado "Parents want Science Classes that Make the Grade". O artigo relata um estudo que o DE conduziu acerca da opinião dos pais sobre a diminuição, nos estudantes, da literacia em ciência. O artigo, que foi publicado em numerosos jornais de pequena dimensão e circulares por todo o país, não revelava o envolvimento do DE na sua elaboração. A nossa conclusão (...) é que os materiais produzidos pelo governo, ou sob a sua direcção, e que não o identificam como a origem dos materiais, constituem propaganda encoberta.»

  • Despacho de Christian Miller no Los Angeles Times, 1.Out.2005
    - «A Administração Bush praticou "propaganda encoberta ao contratar o apresentador de televisão e conservador Armstrong Williams para promover um controverso programa educacional, revelaram investigadores do Congresso. (...) Também em pelo menos dois casos durante a Administração Clinton, Departamentos do governo utilizaram actores para representar repórteres em peças noticiosas com o objectivo de serem distribuídas para estações de televisão.»

    url:
    http://puraeconomia.blogspot.com/2005/10/eua-propaganda-encoberta.html
  • sexta-feira, outubro 28, 2005

    American Tune

    Migrant Mother - Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange

    American Tune

    it's all right, it's all right,
    you can't be forever blessed
    still tomorrow's gonna be another working day
    and I'm tryin' to get some rest

    A letra da canção, de Paul Simon, «foi inspirada [negativamente] pela vitória de Nixon nas eleições de 1972, no fim do sonho hippie; Nixon representava a antítese do liberalismo que tinha sido o legado de Kenedy e de Martin Luther King.» [entrevista em RealAudio 1.0]. «É uma canção sobre a desilusão. Foi escrita após a eleição de Nixon. Perturba-me que a definição do que é ser Americano não inclua toda a gente, não inclua as minorias, em igualdade.»

    A história da melodia de "American Tune" data (pelo menos) do tempo em que o compositor alemão Hans Leo Hassler (1564-1612) a incluiu na canção de amor "Mein Gmüth ist mir verwirret" ("Dos meus confusos sentimentos/uma donzela é a causa"). Foi depois adaptada para os hinos "Herzlich thut mich verlangen" e "O Haupt voll' Blut und Wunden." Johann Sebastian Bach utilizou a melodia na sua "Paixão de S. Mateus" onde pode ser ouvida em cinco diferentes momentos.

    Imagem: Migrant Mother -Florence Owens Thompson e filhos, 1936. Fotografia de Dorthea Lange.

    url: http://www.paul-simon.info/PHP/files/2-07.mp3

    economista à paisana



    Ficheiro mp3 - 14.9MB - 62Kbps - 32:34 min.

    Tim Harford entrevistado para a Radio Economics fala do seu próximo livro The Undecover Economist, o "economista disfarçado" (ou "à paisana") que descobre a Economia em tudo, desde o ritual de tomar café até às marcações de encontros para namoriscar. Finalmente aparece um concorrente à altura de Dick Shade, o personagem de João César das Neves que "descobre" os crimes por recurso às leis económicas. Tim Harvard também fala sobre a escrita de blogues e sobre Tom Schelling.

    Harford mantém uma coluna no Financial Times, "Dear Economist", uma espécie de consultório sentimental onde "responde às perguntas pessoais dos leitores com recurso às ferramentas de Adam Smith". Iniciou agora uma outra coluna com o mesmo título do livro: "The Undercover Economist". Entre as suas colaborações pata o FT contam-se o artigo sobre Thomas Schelling que já citámos aqui, "How an economic theory beat the atomic bomb" e outro onde diz que "os almoços grátis sabem sempre mal". Ou seja: um economista com sentido de humor - se isso não constituir uma insanável contradição de termos.

    url do podcast:
    http://www.acidplanet.com/mediaserver/casts/0003000/ap-20051027-340.mp3

    quinta-feira, outubro 27, 2005

    Novela mexicana

    Actualizado

    "Confirmo que muito em breve vou anunciar o dia e o local onde se vai realizar a apresentação do aeroporto da Ota, disse Mário Lino ao Diário Económico. O ministro da Obras Públicas sublinhou que "este projecto tem luz verde desde o programa de candidatura do Governo". Sem avançar datas, disse ainda que esta situação também se aplica ao projecto do TGV e que nas referidas apresentações constará "o ponto da situação das actualizações ultimas que foram elaboradas e vai ser apresentado o calendário das operações que vêm a seguir".

    Recorde-se que em Agosto o mesmo ministro tinha prometido fazer em Outubro uma apresentação dos estudos que fundamentam a construção do novo aeroporto de Lisboa, na sequência de uma "microcausa" lançada pelo Abrupto e à qual o Pura Economia aderiu: "Pode o governo sff colocar em linha os estudos sobre o aeroporto da Ota para que na sociedade portuguesa se valorize mais a "busca de soluções" em detrimento da "especulação"? [1]

    O tom agora adoptado pelo governo, através das declarações de Sócrates e de Mário Lino, parece indicar uma estratégia de facto consumado, afirmando que a coisa vai avançar porque estava no programa de governo, desvalorizando quaisquer debates ou discussões em torno do assunto. Vai haver uma apresentação,uma cerimónia e pronto!

    O jornal Público, por exemplo, diz que "para a cerimónia da Ota, cujas datas definitivas estão dependentes da agenda do Primeiro-ministro, o MOP está a preparar um conjunto de documentos destinados a justificar a necessidade de construção de um novo aeroporto, o porquê da opção pela Ota e o modelo de financiamento do projecto". Não é delicioso? Andam a "preparar documentos". A decisão foi tomada (com base em quê?) e agora andam a preparar os documentos...

    Hoje de manhã ouvi na RDP o director do Público comentar este assunto e referir como exemplo que existem dois estudos, com resultados diferentes, para as previsões de evolução de tráfego na Portela. O ministro tem feito declarações com base naquele que lhe é mais favorável: o que aponta para um esgotamento mais rápido da capacidade daquele aeroporto. José Manuel Fernendes manifestou o receio de que esta manipulação dos estudos (ocultando uns, exibindo outros) torne este processo bastante opaco.

    Um dos documentos que ainda não existe é, precisamente, o estudo económico e financeiro. Mas, e ainda segundo o Público (que cita "fontes oficiais") "apesar de não ter os estudos, o Governo confia na viabilidade económico-financeira da Ota e garante que não está só, dando como exemplo o interesse já manifestado por investidores privados no projecto. Então não!? Eu se fosse um investidor privado, particularmente do tipo luso-rent-seeking, estaria a esfregar as mãos de contente por se anunciar um investimento desta dimensão sem que o "dono-da-obra" tenha feito as contas. Com um pouco de engenho, até acabarão por ser os privados a fazer os estudos, como está agora na moda. Topam? Concursos públicos em que são os concorrentes a participar na elaboração do próprio concurso podendo, por essa via, influenciar os critérios de adjudicação, montantes base, etç.

    Parece uma daquelas novelas mexicanas em que os actores não acertam os movimentos bocais com o texto: neste caso, o texto são os documentos que (ainda) não há.

    [1] Miguel Gaspar, no Diário de Notícias, classifica esta campanha como "um exemplo do exercício de cidadania".

    Défice cerebral

    «Um em cada cinco portugueses com qualificações superiores (universitárias ou técnicas) vive fora de Portugal, uma "fuga" que coloca o nosso país no topo do ranking europeu da perda de trabalhadores qualificados. E na desconfortável 21ª posição na "fuga de cérebros" entre as nações do mundo com mais de cinco milhões de habitantes. Uma perda que não consegue ser compensada pela entrada no território de cérebros estrangeiros e tende a piorar com os anos.
    [...]
    «Os destinos, como seria de esperar, estão no mundo mais desenvolvido, liderados pelo Canadá e a Austrália, seguidos dos EUA e da União Europeia. No deve e haver, Portugal acaba mesmo assim por perder. Apesar de 8,6% dos imigrantes que viviam cá em 1990 (cerca de 14.500) terem estudos graduados, a comparação com o número de portugueses instruídos que estavam no estrangeiro (mais de 78 mil) resultava num saldo negativo de 63 mil trabalhadores qualificados, um "défice de cérebros" de 1% da população activa. Dez anos depois, os imigrantes qualificados eram já 14,4% (29.800), mas a debandada portuguesa subira para 122.200 o défice de qualificação ia já nos 1,7%.» - Jornal de Notícias

    Para além do desfalque cerebral, esta notícia tem um desagradável efeito colateral, que é o de fazer sentir mais estúpidos os que não emigraram...

    taxa de
     selectividade 
    (1)
     saldo líquido
     da fuga de
    cérebros
    (2)
     saldo líquido 
    em % da fuga
    de cérebros
    (3)
    Média UE/15 23,1 - 15 0-0,1
    Portugal14,4 -117.662 - 1,7
    Espanha16,8 70.271 0,2
    Irlanda41,1 - 93.435 - 4,0
    Grécia22,5 - 136.085 - 1,8
    Alemanha21,0 147.586 0,2
    França16,4 302.104 0,4
    Finlândia23,8 - 54.617 -1,5
    EUA42,5 9.992.995 5,4
    Canadá58,8 2.225.619 10,7
    Dados de 2000
    (1) - proporção de imigrantes (%) com educação terciária no total do número de imigrantes (2) - diferença entre imigrantes e emigrantes com educação terciária em números absolutos (3) - diferença entre imigrantes e emigrantes com educação terciária em % da população activa
    Fonte: Banco Mundial - via jornal Público

    País% de trabalhadores
    qualificados a viver
    no estrangeiro
    Posição
    Haiti83,61
    Gana46,92
    Moçambique  45,13
    Quénia38,44
    Laos37,45
    Angola33,07
    Portugal19,521
    Reino Unido16,729
    Trabalhadores qualificados = com educação terciária
    Fonte: Banco Mundial - via jornal Público

    Mudar de empresários

    Mais uma estratégia para Portugal: mudar de empresários.

    «António Borges defendeu ontem no Congresso dos Economistas que o Governo centralize toda a sua atenção nos novos empresários audaciosos e dispostos a arriscar e inovar, assumindo um corte com os antigos, limitados à reivindicação de subsídios para as suas empresas de futuro incerto, como condição necessária para um novo modelo de desenvolvimento económico para o País.» - Correio da Manhã