segunda-feira, outubro 17, 2005

Criatividade e desenvolvimento

"Criatividade é desenvolvimento" é o título da crónica de Vítor Balenciano no jornal Público de hoje. Todo o texto gira em torno das ideias do economista Richard Florida, autor do livro "The Rise of the Creative Class", de 2002. Ali se apresenta a "teoria dos três tês": tolerância - tecnologia - talento - e se defende que "a criatividade é a base do progresso social e económico", devendo ser considerada "um bem público, ao nível da liberdade e segurança".

Até aqui tudo bem: apesar da "criatividade" não ter o "T" como letra inicial, tudo isto está mais ou menos dentro do discurso dominante, propagado tanto por ecologistas fanáticos como por dinossauros políticos. O que já sai da norma é a seguinte afirmação de R. Florida, que eu até tomo a liberdade de salientar numa caixinha:
«Uma cidade ou região sem uma cena musical vibrante e sem uma comunidade 'gay' florescente está condenada ao declínio social e económico.»
Mamma mia ! Condenada ao declínio social e económico? E logo agora que as nossas cidades acabaram de recusar políticos (Carrilho em Lisboa, Soares em Sintra) que prometiam corporizar tais ideais?

Vou tentar manter a calma e raciocinar logicamente. É evidente que existem capacidades diferentes em diferentes grupos sociais (raciais ou outros). Não se pode negar a elevada concentração de inteligência racional nos judeus ashkenasi, nem capacidades superiores para as corridas de fundo em atletas de certas zonas de África. Apesar destas evidências, existe um preconceito "igualitário" que rejeita a priori qualquer tipo de diferenciações; tal preconceito é capaz de ter origem numa reacção às teses da raça superior desenvolvidas (e praticadas) pelos nazis, e também numa reacção à apologia e prática da escravatura feitas em nome da "superioridade" da raça branca. Ainda recentemente, um estudo universitário que detectou alguma superioridade dos indianos relativamente ao raciocínio matemático desencadeou uma forte reacção da academia americana. Não interessava se o estudo tinha base científica: qualquer "superioridade" era simplesmente inaceitável.

Mas não nos devemos deixar cegar por tais preconceitos. Aceitar diferenças não significa aprovar o nazismo ou a escravatura. É bom que mantenhamos as mentes abertas. Felizmente que o ser humano é suficientemente complexo para que estas possíveis superioridades em certos grupos humanos, relativamente a algumas características, não os transformam em seres humanos superiores, ou super-homens, melhor dotados paga governar ou "proteger" os restantes.

Sendo assim, voltemos à afirmação de Florida. Será a cena musical especialmente vocacionada para a tolerância, tecnologia ou talento, ou comunidade 'gay' especialmente dotada para a criatividade?

Florida, que tem sido acusado nos de "colocar em causa os valores tradicionais americanos", esclarece que não é bem isso: "uma comunidade 'gay' com capacidade de afirmação, uma cena musical excitante, políticas integracionistas ou agendas sociais criativas, são indicadores de tolerância. São sinais que indiciam estarmos num lugar apto para integrar a diferença." Ou seja: são as cidades tolerantes, abertas à diversidade, seja na música, nas artes, na tecnologia ou na economia, que atraem os indivíduos com potencial criativo, capazes de arriscarem novas ideias. Portanto, "cenas musicais vibrantes" e "comunidades 'gay' florescentes" seriam mais a consequência, e não tanto a causa.

Devo confessar que o argumento, apesar de lógico, me parece estranho. Talvez seja o mesmo preconceito da geração pós-II Grande Guerra que me apanhou nalguma curva das circunvoluções cerebrais. O que está em moda, como é sabido, é associar a criatividade e a inovação à educação e ao investimento em investigação. É também isto que me parece "mais normal". Mas, quem sabe, talvez esta seja uma agenda muito limitada. Garantidamente, é a opção mais cara: a educação e a investigação são verdadeiramente dispendiosas e qualquer dinheiro que para aí canalizemos acabará por faltar noutro lado qualquer. Seria talvez mais fácil, e mais barato, se a chave do desenvolvimento (de uma cidade, de um país) estivesse na criação de "uma cena musical vibrante e uma comunidade 'gay' florescente".

Já nos enganámos uma vez, investindo em infraestruturas de saneamento e rodoviárias e em equipamentos, para depois descobrir que a prioridade deveria ter sido dada à educação e à investigação. Agora parece que já percebemos isso. Espero bem é que daqui a algum tempo não nos venham dizer que não era bem por aí: era antes via "cenas musicais vibrantes" e "comunidades 'gay' florescentes".


No seu livro, Richard Florida diz que "A chave para o crescimento económico não reside apenas na capacidade para atrair uma classe criativa, mas em transformar essa vantagem subjacente em resultados económicos criativos sob a forma de novas ideias, novos negócios tecnologicamente avançados e crescimento regional." Para melhor detectar estas capacidades Florida criou um novo índice a que designou o "Índice de Criatividade":

Índice de Criatividade
Rankings de 49 áreas metropolitanas com população > 1 milhão (2000)
CidadeÍndice de
Criatividade
Trab.
Criativos
( % )
Rank da
Criatividade
Rank de
High-Tech
Rank de
Inovação
Rank de
Diversidade
Cidades melhor posicionadas
 1. San Francisco105734.85121
 2. Austin102836.4411316
 3. San Diego101532.1151273
 3. Boston101538.032622
 5. Seattle100832.793128
 6. Chapel Hill99638.2214428
 7. Houston98032.510161610
 8. Washington96438.4153012
 9. New York96232.312132414
 10. Dallas96030.2236179
 10. Minneapolis96033.9721529
Cidades pior posicionadas
 49. Memphis53024.847484241
 48. Norfolk, VA55528.436354947
 47. Las Vegas56118.54942475
 46. Buffalo60928.933402749
 45. Louisville62226.546463936
 44. Grand Rapids63924.348432338
 43. Oklahoma66829.429414339
 42. N. Orleans66827.542454813
 41. Greensboro69727.344333535
 40. Providence69827.641443433

domingo, outubro 16, 2005

A metáfora do frango

Há um mito segundo o qual existem mais mulheres do que homens. Ainda ontem ouvi o NIlton na televisão a perguntar a um convidado: "É verdade que há 7 mulheres para cada homem?".

Bem, o Nilton é um exagerado. Mas em tempos circulava como boa a notícia de que "há mais mulheres do que homens" ou que "há duas mulheres para cada homem". Tem todo o ar de ser um mito masculino, certamente nascido da ingnorância ou do desejo - ou de ambos.

Percebe-se que os homens sonhem com um mundo dominado pelas mulheres (mas apenas em termos estatísticos, atenção!) e com um mundo efemininado (no bom sentido, é claro!). Não será uma aspiração à poligamia, coisa que daria muito trabalho e sairia caro. Será antes, e de acordo com a lei da oferta e da procura, um desejo de ver aumentar o próprio preço, ou de ter mais por onde escolher.

A dura realidade estatística, no entanto, não confirma o mito: em Portugal haverá 94 homens por cada 100 mulheres. Ou seja: quando muito, só 6 homens é que poderiam aspirar a ter mais do que uma, por força dos números. Porém, e atendendo à prova de que as estatísticas mentem, fornecida pela famosa metáfora do frango ("os dados dizem que em média cada habitante come um frango, mas há os que comem dois e há os que não comem nenhum"), nada impede os homens de sonhar...

sábado, outubro 15, 2005

Economia dos falsos orgasmos


  Ora finges tu, ora finjo eu,
  Ora finges tu mais eu.


O ubíquo "dilema do prisioneiro" da Teoria dos Jogos não serve só para explicar conflitos entre países e concluios entre empresas. Que tal o acto de fingir o orgasmo? Esta situação foi objecto do estudo de Hugo Mialon, "The Economics of Ecstasy", que deu origem ao artigo da revista Slate, "The Economics of Faking Orgasm".

Curiosamente, este economista realizou o estudo no âmbito duma preocupação de natureza jurídica, relacionada com a seguinte questão: «como é que a Quarta Emenda [1] afecta os incentivos, tanto para a polícia como para os criminosos, e como é que estes incentivos determinam o comportamento?» [2] (ver abaixo links para alguns textos de H.Mialon).

Tanto o homem como a mulher podem transmitir ao seu parceiro sinais falsos de que estão a atingir o êxtase durante o acto amoroso. Julga-se que os homens não fingem o orgasmo, mas um estudo americano - 2000 Orgasm Survey - detectou que 24 % dos homens também fingem. O mesmo estudo revela que 72 % das mulheres fingiu pelo menos uma vez na sua vida amorosa recente, e 55% dos homens dizem que conseguem saber quando elas fingem.

Mialon procurou averiguar porque é que as mulheres (algumas vezes) fingem o orgasmo, e porque é que os homens (algumas vezes) duvidam delas. O estudo de Mialon prevê que o amor, formalmente definido como uma mistura de altruismo e "possessividade", aumenta a probabilidade da encenação de falsos orgasmos, embora mais para as mulheres do que para os homens. Os dados do 2000 Orgasm Survey confirmam as previsões do estudo. Também mostraram uma relação positiva entre o nível educacional e a tendência para simular o orgasmo.
«A razão mais evidente para fingir o orgasmo seria as satisfação do parceiro. Mas e no caso de uma mulher que já não gosta do seu parceiro, também fingiria? A resposta é: sim. Suponha-se que ele é muito inseguro e está sempre a suspeitar que ela o engana. Suponhamos também que aquilo que ela verdadeiramente odeia é ter um parceiro que está sempre errado. Então, como ele pensa sempre que ela mente, ela tem de fingir para que ele tenha razão. Cada fingimento dela reforça as dúvidas do parceiro, que por sua vez reforçam o fingimento dela. Temos pois aquilo a que os economistas designam como um "equilíbrio".

«Por outro lado, este equilíbrio só se mantém se ele tiver uma boa razão para ter sido inicialmente inseguro. Qual seria esse motivo? Bem, crê-se que as mulheres atingem o ponto mais alto da sua capacidade sexual por volta dos 30 anos. Portanto, se ela estiver muito afastada dos 30, em qualquer direcção, a sua idade pode ser suficiente para desencadear a insegurança do parceiro. Por isso Mialon considera que mulheres muito jovens ou muito idosas têm maior probabilidade de fingir do que mulheres nos seus "trintas".

«Mas as coisas tornam-se muito mais complicadas - e muito mais realistas - se ele e ela estiverem apaixonados, situação em que cada um deles se preocupa com a felicidade do outro e também em captar o seu interesse. Um pouco de Teoria dos Jogos elementar leva Mialon a concluir que as mulheres são mais propensas a fingir quando estão apaixonadas, e que este efeito é ampliado quando a sua idade está longe dos 30.»»
E Steven E. Landsburg, autor do artigo da Slate. conclui deste modo:
«O meu velho amigo Steve Zucker costumava dizer que o sexo e a actividade académica se complementam muito bem, uma vez que é possível praticar qualquer delas enquanto se pensa na outra. Não sei em que é que Hugo Mialon pensa quando está a fazer amor (provavelmente invocaria a Quinta Emenda - o direito a ficar calado) mas ele pensou neste tópico de um modo muito original, o que, dada a atenção que o assunto tem merecido nos passados milhares de anos, não é um pequeno feito.»
Referências no Mahalanobis e no Marginal Revolution
Página de Hugo Mialon
Textos de Hugo Mialon (em co-autoria):
  • Price Discrimination and Market Power (2005)
  • Private Antitrust Litigation: Procompetitive or Anticompetitive? (2005)
  • A Strategic Theory of Antitrust Enforcement (2005)
    [1] - «The right of the people to be secure in their persons, houses, papers, and effects, against unreasonable searches and seizures, shall not be violated, and no Warrants shall issue, but upon probable cause, supported by Oath or affirmation, and particularly describing the place to be searched, and the persons or things to be seized.»
    [2] - Muitas mulheres não acharão graça nenhuma a esta analogia entre o jogo do "gato e do rato" de polícias e ladrões, e as mulheres que fingem orgasmos e homens que os detectam (tal como os ratos não acharão à primeira analogia, nem as mulheres a esta terceira). Mas Mialon dispunha de dados preciosos relativamente a uma situação de simulação, revelados no âmbito do inquérito referido, que usou para estudar uma situação equivalente. Resta saber se essa equivalência realmente existe pois, para além da semelhança formal, tratam-se de situações aparentemente muito díspares.
  • sexta-feira, outubro 14, 2005

    Colin Camerer

    Colin Camerer é um economista que se tem dedicado ao campo da neuroeconomia, tendo já sido aqui referido o seu trabalho (em co-autoria) "Neuroeconomics: How Neuroscience Can Inform Economics".

    Camerer é também o autor do livro "Behavioral Game Theory: Experiments in Strategic Interaction", cuja introdução se encontra disponível aqui, e também (em pdf) aqui - um resumo muito interessante sobre o desenvolvimento da teoria e as suas potencialidades.

    Contar histórias

    Michael Mandel - um jornalista com um doutoramento em Economia - levanta, na Business Week, dúvidas quanto à cientificidade da Teoria dos Jogos:

    «(...) Concordo que Robert Aumann e Thomas Schelling merecem o prémio Nobel. Schelling, em particular, escreveu dois dos melhores livros de Economia de sempre: The Strategy of Conflict e Micromotives and Macrobehavior. Contudo, na minha opinião, a Teoria dos Jogos representa um beco-sem-saída evolucionista da Economia. A Teoria dos Jogos recorre ao princípio da racionalidade para explicar o conflito e a cooperação numa ampla gama de situações económicas e sociais. Por exemplo, tem sido utilizada para analisar porque é que a aparentemente insane corrida ao armamento nuclear no período do pós-guerra foi, na realidade, um método racional de impedir a guerra, e porque é que os agressivos cortes de preços das companhias aéreas acabou por constituir um meio eficaz para eliminar a concorrência.

    «A Teoria dos Jogos é certamente maravilhosa para contar histórias. Contudo, falha no principal teste de qualquer teoria científica: a capacidade para fazer previsões empíricas verificáveis. Em muitas situações da vida real, muitos possíveis resultados - desde a cooperação completa até ao conflito quase desastroso - são consistentes com a versão da racionalidade na Teoria dos Jogos.

    «Dito de outra forma: se o mundo tivesse explodido durante a crise dos Mísseis de Cuba de 1962, a Teoria dos jogos poderia [também] tê-la explicado como um infeliz resultado - mas que seria tão racional como aquele que efectivamente ocorreu. Do mesmo modo, um sector que entra em colapso devido a uma concorrência maluca, como a das companhias aéreas, pode ser tão facilmente explicado pela Teoria dos Jogos como outro onde a cooperação seja a norma.»

    Tyler Cowen , no Marginal Revolution - onde encontrei esta referência - irritou-se com o artigo e fez esta profissão de fé na Teoria, sob a forma de "possíveis respostas" às dúvidas de Michael Mandel:
    «1. As abordagens comportamentais desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam, e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta dar-lhe tempo.

    2. As abordagens computacionais desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta dar-lhe tempo.

    3. As abordagens evolucionistas desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta dar-lhe tempo.

    4. As abordagens experimentais desenvolverão o conhecimento sobre como os humanos realmente se comportam e a Teoria dos Jogos acabará por fornecer previsões claras, basta .

    5. O mundo real é,de facto, indeterminado ou quase indeterminado. A indeterminação e os múltiplos equilíbrios da Teoria dos Jogos não constituem um problema, mas antes reflectem quão efectivamente a teoria espelha a realidade. Vocês talvez prefiram previsões claras e precisas, mas não vão tê-las. A fidelidade à realidade é mais importante do que a satisfação de exigências metodológicas abstractas.»

    in Marginal Revolution

    Não sei. As "exigências metodológicas abstractas" - ou seja, a "capacidade para fazer previsões empíricas verificáveis" - constituem uma trave mestra do método científico. Tirando isso, não sei o que fica.

    Farmacêuticas: faltam ainda peças do puzzle

    «A Autoridade da Concorrência (AdC) multou cinco grandes empresas farmacêuticas (Abbot, Bayer, Johnson & Johnson, Menarini e Roche), num total de 16 milhões de euros, por prática de cartel (combinação de preços) em 36 concursos públicos de fornecimento a 22 hospitais portugueses. A AdC estima que "as arguidas poderão ter causado danos económicos até 3,2 milhões de euros, em 2002 e 2003, no segmento hospitalar, e até 10,4 milhões de euros, anuais, desde a entrada em vigor da portaria (2003) que fixa o preço das 'tira-reagente' (o produto em causa nos concursos)".»

    [ Jornal de Notícias ]


    Só falta saber uma coisa: como é que as empresas asseguravam que todas beneficiariam do acordo de preços, ou seja, que todas ganhariam algum dos concursos em que houve cartelização, assegurando as encomendas? Isto é possível através de conluio com alguém das próprias entidades responsáveis pelos concursos, ou através da fixação de um factor secundário (como os prazos de entrega) que determina as adjudicações quando os preços são iguais. Casos como este não se deveriam limitar a ser sancionados em termos das leis da concorrência: deveriam também ser investigados como potenciais crimes de corrupção.

    Teste (pergunta para 20 valores)


    Duas raparigas - Jogadora 1 e Jogadora 2 - pretendem conquistar um tipo, e portanto fazem planos para um encontro (simultaneamente). Há três escolhas:
  • um encontro barato, mas divertido, num bar desportivo,
  • uma noite onde a rapariga usa um vestido sexy e vão à ópera,
  • a rapariga ignora-o e nem sequer lhe telefona.

    O jogo determina que o homem, em geral, prefere a Jogadora 1 à Jogadora 2, como é evidenciado pelos payoffs da matriz abaixo, prefere o vestido sexy e a ópera, não tem interesse por desporto, mas está um pouco intrigado sobre se uma ou ambas as raparigas o vão ignorar. O payoff consiste em o tipo gastar as suas ≤ 8 horas de lazer do dia seguinte dormindo passeando com elas (separadamente) e, assim, o payoff em horas é:


    Diga o que é que acontecerá, do ponto de vista da teoria dos jogos, e qual é que você pensa que será o resultado de uma análise experimental? [ Solução ]

    Crédito: Mahalanobis
  • Posters


    Teoria da Decisão
     
    Teoria dos Jogos


       Fonte: Helsinky University of Technology.

    quinta-feira, outubro 13, 2005

    Harold Pinter



    O Nobel da Literatura foi atribuído ao dramaturgo Harold Pinter. Já assisti uma peça deste autor, representada pelo Teatro Animação de Setúbal: "Mais um para o caminho", tendo como actores Duarte Vítor e a malograda Bety. Foi algo impressionante, pois não havia propriamente um enredo muito explicito, mas criava-se uma atmosfera densa e ameaçadora, veiculada pelos diálogos e pela relação de domínação/submissãos entre personagens.

    Sei que o TAS também encenou este ano outra peça de Pinter, "Paisagem e Outros Lugares", mas ainda não a fui ver. Sei também que o TAS, dirigido desde a morte de Carlos César por Duarte Vítor, passou recentemente a ser dirigido por Carlos Curto, que julgo ter sido, precisamente, o encenador de "Mais um para o caminho". Aproveito pois para desejar felicidades ao Teatro Animação de Setúbal e ao seu novo director.

    Mentes brilhantes

    Quem poderia estar melhor apetrechado para compreender a Teoria dos Jogos do que a "tribo do futebol" ? Não admira pois que o blogue Povo Leonino, aproveitando o Nobel da Economia, faça esta "aplicação" das ideias de Thomas Schelling à actual conjuntura do seu clube [sublinhados do "Pura Economia"]:
    «Diz este economista que grande parte das escolhas humanas são mais determinadas pela acção dos outros do que por outros critérios, como a racionalidade. Isto é, quando um indivíduo escolhe A em vez de B isso acontece, também, porque a escolha de alguém assim o motivou - ou seja, não basta a experiência acumulada, a razão ou mesmo a emoção para justificar as escolhas humanas. Só somando a influência das escolhas de outrém se consegue desenhar com rigor o processo que leva a uma escolha.

    «Aplicando esta teoria no caso do Sporting Clube de Portugal: hoje Dias da Cunha analisa e estuda o que vai mal no Clube, com um ano de atraso é certo. O interesse demonstrado por Dias da Cunha é não mudar muito na estrutura do Sporting, fazendo apenas alguns ajustamentos que são manifestamente pouco. Mas e se de facto o comportamento de todos os Sócios do Sporting for de demonstrar ao Presidente do Clube que o seu projecto é curto e que passa muito mais do que pela simples substituição de pessoas? Que impacto terá no processo de decisão de Dias da Cunha (e de acordo com esta teoria económica) um aviso real de um descontentamento pelo rumo traçado? Para Thomas Schelling, Dias da Cunha poderia até recuar. A responsabilidade do futuro do Sporting está portanto nas mão de todos nós e não apenas de uma pequena "familia" que insiste em governar sozinha o Clube.

    «A responsabilidade de tornar o Sporting num Clube melhor não está apenas na Direcção. Está em cada Sportinguista - porque Schelling diz que o seu comportamento tem um fortíssimo impacto nas decisões do Presidente do Sporting
    É uma curiosa abordagem à Teoria dos Jogos, mas temos que manter as mentes abertas. Apesar de tudo, vejo algum fundamento (quando aplicado à "tribo do futebol") no aforismo: "as escolhas são mais determinadas pela acção dos outros do que por outros critérios, como a racionalidade".

    Por isso, eu aconselharia os sportinguistas a aprofundar a Teoria, recorrendo, por exemplo, ao "dilema do prisioneiro", com Dias da Cunha e José Peseiro, cercados pelas claques em Alcochete, e sem poderem falar um com o outro (isto é importante) a ter de optar por confessar, ou não, que o treinador tem de ser substituído. Qualquer coisa do tipo:

     Dias da Cunha
    confessanão confessa
     P
    e
    s
    e
    i
    r
    o
     


     confessa 




    não
    confessa





                a1,b1           





               a2,b1           





    a1,b2





    a2,b2



    Deixo a definição das penalidades para as claques. Também seria importante agregar a preferência inter-temporal, já que Dias da Cunha, alegadamente, «analisa e estuda o que vai mal no Clube com um ano de atraso».

    Outra possível formulação, atendendo a que «para Thomas Schelling, Dias da Cunha poderia até recuar», seria:
  • Dias da Cunha: recua / não recua
  • Sportinguistas: avançam / não avançam

    (A propósito: que «soma da influência das escolhas de outrém» é que determina as "escolhas" das claques ?)
  • Abusos sexuais e escolhas "racionais"

    Continuam a surgir notícias sobre os abusos sexuais de menores por parte de padres, bem como sobre a "tolerância" da Igreja católica americana relativamente a este assunto, ao longo de décadas. O jornal Público de hoje refere o caso da Diocese de Los Angeles (onde se encontra o relatório "Report to the People of God: Clergy Sexual Abuse: Archdiocese of Los Angeles 1930-2003").

    Relacionado com este assunto é recente o paper "Sexual Misconduct of Roman Catholic Priests: A Rational Choice Perspective" de Christine M. Brickman, da Catholic University of America, que utiliza a teoria das escolhas racionais. Brickman analisa a evolução do número de casos observados, assumindo que a «a escolha de um comportamento desviante é regulada por respostas racionais a mudanças no custo e probabilidade relativos de castigo dos abusadores que tentam maximizar a sua utilidade esperada». O estudo confirma que as mudanças de atitude da hierarquia religiosa se encontram relacionadas com o número de casos de abuso.
    «Apesar da vasta quantidade de informação que existe sobre o assunto, poucos estudos surgiram no campo da Economia. Talvez os economistas estejam relutantes em analisar a má conduta sexual de sacerdotes numa perspectiva que dá ênfase à "racionalidade" e a escolhas "custo-benefício". Dada a natureza maléfica destes actos, esta hesitação é compreensível. Ninguém pretende defender que o abuso sexual é em si "racional", especialmente quando as vítimas são crianças e os abusadores são sacerdotes. A abordagem aparenta ser muito fria e calculista para que possa ser aplicada a crimes desta natureza.»
    De facto, no domínio da Economia positiva, o adjectivo "racional" não tem o mesmo sentido que ocorre no senso-comum, onde assume uma conotação moral e normativa. Trata-se de um equívoco equivalente ao da afirmação: "A guerra é essencialmente humana": humana no sentido que é praticada pelos humanos, e não por ter uma natureza "humana" (= bondoza, caritativa, etç).

    Em Economia o adjectivo "racional" não tem conotação moral, refere-se ao comportamento do indivíduo na defesa do seu próprio interesse, tal como ele o define. Exemplos: (1) o fumador intensivo que gasta dinheiro com cigarros comporta-se "racionalmente" porque o "benefício" que obtém por fumar é superior ao "custo" conjunto do dinheiro que desembolsa e do perigo apercebido para a sua própria saúde; (2) o indivíduo que obtém água a baixo custo e a gasta prodigamente, também age "racionalmente".

    Do ponto de vista normativo, tal como do ponto de vista da comunidade de indivíduos, os comportamentos referidos podem ser considerados irracionais: (1) porque os fumadores comportam elevados custos para a comunidade, e (2) porque a água é um bem escasso, e também nos casos em que o custo real daquela água pode estar a ser suportado por outros indivíduos através das administrações públicas que fixam o preço abaixo do custo real, financiando-o indirectamente com receitas de impostos.
    Nota: Encontrei a referência a este documento no blogue "De Gustibus Non Est Disputandum".

    Everglades


    Interessante artigo do Economist sobre o projecto de recuperação dos Everglades: "Water, bird and man".

    Esta imensa zona natural dos EUA (Florida) foi muito modificada em meados do século XX, com drenagem de terrenos e alteração do curso do rio, em cujo leito foram construídas Miami e Fort Lauderdale. A zona a sul do Lago Okeechobee foi modificada para agricultura intensiva. Como resultado desta "humanização" o sistema natural encontra-se à beira do colapso. Desapareceram os imensos bandos de aves que chegavam a tapar o sol por alguns minutos durante a sua passagem. Espécies exóticas introduziram-se no sistema, vegetação parasita invade tudo e a alimentação natural dos peixes, à base de algas e bactérias, encontra-se também adulterada.

    Perante o problema, em 2000, já no final da era Clinton, foi aprovado o Comprehensive Everglades Restoration Plan (CERP), um plano caro e complicado: mais de 68 projectos para um horizonte de 30 anos. A ideia base é forçar uma maior quantidade de água para a zona a sul do Lago Okeechobee, em direcção ao Parque Nacional (ver imagem de cima e mais esta).

    Apesar de não terem sequer sido iniciados os projectos piloto, já existem problemas com a estrutura de financiamento, partilhada entre a Florida e o governo Federal.


  • Everglades - ecossistema (mapa)
  • Florida Everglades - capítulo do relatório de 1994 sobre "The Impact of Federal Programs on Wetlands"
  • quarta-feira, outubro 12, 2005

    Elogio das rotundas


       Foto: jornal "Cidade de Tomar"

    Actualizado com uma anedota

    Recordo-me de ter ouvido o ministro das Finanças Cavaco Silva, no primeiro Congresso dos Economistas, criticar os autarcas por andarem a construir piscinas. Mas isso foi há muito tempo: o exemplo agora em moda, para zurzir os autarcas, são as rotundas.

    Mas não percebo. Aliás, gostaria que alguém me explicasse o que é que há de mal nas rotundas. Porque o que eu acho (e verifico) é que:

  • regulam melhor o trânsito que os semáforos (excepto para grandes volumes de tráfego)
  • são mais baratas que os semáforos, particularmente se tivermos em conta o consumo de energia e as reposições (substituição de lâmpadas, pintura, reposição dos semáforos acidentados)
  • são mais amigas do ambiente (os semáforos estão sempre a gerar o lixo das lâmpadas)
  • são mais bonitas (em geral)
  • são mais seguras (em geral; os semáforos são sempre obstáculos à procura do acidente)
  • contribuem mais para a segurança: desaceleram o trânsito, mesmo quando não há cruzamentos nem entroncamentos
  • os acidentes nas rotundas não passam, geralmente, de chapa batida; mas nos semáforos ocorrem os mais mortais de todos os acidentes: choques violentos dos carros que passam no vermelho
  • atrapalham menos (em geral; os semáforos estão frequentemente atravessados nos passeios)
  • irritam menos (acho eu; podem até demorar mais, mas a angústia cíclica das passagens nos verdes irrita-me mais do que o pinga-pinga das rotundas)
  • têm plantas - bem, em geral (árvores, flores); é irrelevante para o ambiente mas é bom para a psiche (espírito; não confundir com "pechiché")

    Por isso, digam-me lá: que mal vos fizeram as rotundas ?

    Actualização
    A propósito de rotundas, lembrei-me desta história, que é anedota mas também é real: foi uma conversa entre dois "criativos", algures na década de 60 (na altura designavamo-los como "mentirosos") num Verão, numa praia da margem sul. Dois tipos gabavam-se de proezas automobilísticas, velocidades, etç. Dizia um:
    - «Eu ia tão rápido, tão rápido, que fiz uma curva de 180º sempre com duas rodas no ar!»
    - «Isso é alguma coisa?» - respondeu o outro - «O "Cebola" já deu a volta à rotunda de Almada só com a chapa no chão!»
  • Matematicae Horribilis

    Ouvi dizer - mas provavelmente é mentira - que alguns dos cursos de Contabilidade dos Institutos Superiores de Contabilidade e Administração, que colocam a matemática como prova obrigatória de acesso, estão quase sem alunos, enquanto que outros, com disciplinas de acesso mais "digeríveis", tiveram grande procura.

    Na Internet, e numa busca rápida, só encontrei o ISCA do Porto sem a obrigatoriedade da matemática - é apenas exigida uma das seguintes: Direito, Economia ou Matemática.

    Se isto for verdade, não sei o que será mais preocupante: se a sub-utilização de umas escolas ou a qualidade dos futuros licenciados das outras.

    Serviços

    O INE divulgou hoje um relatório sobre serviços prestados às empresas [pdf], abrangendo actividades tais como a Informática, Contabilidade, Auditoria/Consultoria, Estudos de Mercado e Sondagens de Opinião, Arquitectura e Engenharia. Em 2004 foi apurado um total de 28 793 empresas, empregando quase 140 mil pessoas (57 % homens, 43 % mulheres).

    O volume de negócios gerado em 2004 foi de 13 234 milhões de euros. 4/5 deste bolo coube às Informáticas (55 %) e às Contabilidades, Auditorias e Consultorias (27,3 %).

    Ética empresarial

    Segundo o jornal "Público", empresários portugueses iniciaram ontem um debate sobre problemas de ética empresarial, no âmbito do "I Forum Português da Responsabilidade Social das Organizações", de que é presidente José Roquette.

    Rui Vilar, presidente da Fundação Gulbenkian, salientou que «as empresas devem investir em actividades de responsabilidade social, pois estas representam activos fundamentais numa gestão empresarial moderna.»

    Em 1966 teve lugar o "1º Congresso Português de Ética Empresarial".

    Deverão as empresas preocupar-se com questões sociais? Ou contribuirão melhor para a vida em sociedade limitando-se ao negócio? Sobre este dilema e correspondente debate, Ian Davis escreve, no Economist, o artigo "The biggest contract":

    «Dum lado estão aqueles que argumentam (para usar a expressão de Milton Friedman) que "o negócio dos negócios é o negócio". Esta crença encontra-se mais consolidada na economias anglo-saxónicas. Segundo este ponto de vista, os temas sociais são marginais às preocupações da gestão de empresas - o seu único objectivo legítimo é o de criar valor para o accionista.

    Do lado oposto encontram-se os defensores da "Corporate Social Responsibility" (CSR), um movimento algo difuso mas em rápida expansão, que abrange tanto as empresas que já praticam o CSR como grupos de pressão que argumentam que as empresas têm de ir ainda mais longe na minimização dos impactos sociais que provocam.» O autor do artigo considera que ambas as posições obscurecem a importância do temas sociais para o sucesso dos negócios. No caso do grupo que defende a restrição das empresas aos negócios, Ian escreve que prejudica as empresas de dois modos:

    «Os temas sociais só não são tangenciais para as empresas, como são fundamentais. De um ponto de vista defensivo, as empresas que ignoram o sentimento público tornam-se vulneráveis a ataques. Mas as pressões sociais podem igualmente funcionar como indicadores precoces de factores-chave para a lucratitividade das empresas. (...) São muitos os exemplos do impacto de longo prazo dos temas sociais., e o seu número cresce rapidamente. No sector farmacêutico, uma tempestade de pressões sociais nas últimas décadas - decorrente de percepções de preços excessivos cobrados por medicamentos para a Sida nos países em desenvolvimento, por exemplo - está-se agora a transformar num estreitamento geral (e por vezes indiscriminado) do quadro regulatório. Outro exemplo ocorre no sector da restauração, onde o antigo e crescente debate sobre a obesidade está a resultar em pedidos de maior controlo sobre o mercado de comidas não saudáveis»

    Mas Ian também levanta dúvidas sobre a atitude dos defensores do CSR:

    «A sua popularidade (...) derivou em grande medida de uma série de campanhas anti-empresariais de final dos anos 90. Por outro lado, receberam um forte impulso dos movimentos anti-globalização dessa altura. Desde então as empresas passaram a dar mais atenção ao CSR, atraídas por noções sonantes, ainda que vagas, tais como a "triple bottom line": a ideia de que as empresas podem estar tanto ao serviço de objectivos sociais e ambientais como dos lucros. Esta atitude tem sido encarada pelas empresas como um modo de evitar a artilharia das ONGs e potenciais ataques sobre a reputação, bem como um modo de mitigar as arestas mais afiadas do capitalismo. (...) A CSR apresenta uma agenda limitada para a acção empresarial porque não consegue captar a importância potencial dos temas sociais para a estratégia empresarial»

    Documentos relacionados:

  • "A Ética na vida empresarial" - José H.S. Brito
  • "Ética Empresarial e Económica" (Introdução) - José Manuel Moreira
  • Código de Ética Empresarial disponível no site da Associação Portuguesa de Empresários e Gestores.
  • terça-feira, outubro 11, 2005

    A teoria económica que venceu a bomba atómica


    Thomas Schelling

    "O mais importante evento da segunda metade do século XX foi um que nunca chegou a acontecer". Com estas palavras, Thomas Schelling assinalou a "notável realização" de 50 anos sem guerra nuclear. Ninguém pode reclamar o respectivo mérito, mas Schelling não contribuiu menos do que qualquer outro para ajudar a evitá-la. Ele ajudou porque o compreendeu e o explicou brilhantemente, mudando o clima intelectual, inspirando uma geração de pensadores estratégicos e, quase incidentalmente, salvando da irrelevância a jovem disciplina da Teoria dos Jogos."

    Tim Harford, Financial Times
    "How an economic theory beat the atomic bomb"
    [ versão completa do artigo aqui ]

    2085

    «Se a ameaça do aquecimento global for real e se os seus efeitos forem devastadores, como muitos acreditam ser provável, um maior crescimento económico, ao aumentar as emissões dos gases que provocam o efeito de estufa, levará a danos maiores através da mudança climática. Por outro lado, ao aumentar a riqueza, desenvolvimento tecnológico e capital humano, o crescimento económico aumenta largamente o bem-estar humano, bem como a capacidade da sociedade para reduzir as mudanças climáticas através da adaptação ou da mitigação. Temos portanto aqui um quebra-cabeças: em que ponto, no futuro, é que os benefícios de se ser rico e tecnologicamente mais avançado serão anulados pelos custos de um mundo mais quente?»
    O quebra-cabeças equacionado desta forma no blogue The Commons, foi respondido por Indur Goklany no paper "Is a richer-but-warmer world better than poorer-but-cooler worlds?". O resultado é muito preciso: 2085, do ponto de vista do "bem-estar humano".

    Do ponto de vista do "bem-estar ambiental" a data pode ser prolongada, para alguns indicadores ambientais, até 2100.

    Indur Goklany, uma das mentes do "Cato Institute", é também autor do livro "The Precautionary Principle: A Critical Appraisal of Environmental Risk Assessment", onde "mostra que o absolutismo do movimento ambientalista não é a abordagem mais racional para a resolução dos problemas ambientais e manutenção da biodiversidade".

    Economia das redes

    "The Economics od Networks" - um texto de Nicholas Economides, também disponível em formato zip ou pdf.

    (Disponível no site: Economics od Networks)

    Arthur Seldon (1916-2005)

    Faleceu Arthur Seldon, fundador do Institute of Economic Affairs, um "think tank" conservador com sede em Londres. Seldon publicou 28 livros e monografias, incluindo o "Everyman's Dictionary of Economics" (com F.G. Pennance) e "Capitalism".
    Seldon estudou na London School of Economics, onde conheceu Arnold Plant e Lionel Robbins, bem como Friedrich Hayek, que o introduziu na Escola Austríaca.
    «Os indivíduos, nas famílias e nas empresas, trocam direitos de propriedade através do sistema de preços, em mercados, que coordenam biliões de transacções espontaneamente. Os indivíduos podem agir movidos pelo interesse próprio, mas a consequência é usualmente o interesse geral, porque as transacções não ocorrem normalmente a não ser que beneficiem ambas (ou todas) as partes. Nem o interesse próprio significa egoísmo: as pessoas agem por interesse próprio porque é o único que conhecem e que estão habilitadas a avaliar. Eles não podem conhecer os interesses dos outros melhor do que eles próprios - essa é a profissão dos políticos."»

    «... as quatro tarefas dos sistemas económicos em qualquer parte. Primeiro, eles devem desenvolver técnicas para avaliação de recursos escassos; segundo, devem desenvolver incentivos para concentrar nos métodos mais produtivos; terceiro, devem conceber os meios de agregar e distribuir informação sobre a eficiência relativa de usos alternativos; quarto, devem criar princípios de alocação da produção aos usos mais urgentes ou altamente avaliados. Ora, estes são precisamente os métodos e instrumentos desenvolvidos pelo mercado."»

    Capitalism (Oxford: Blackwell, 1991)

    O Nobel e os "códigos secretos" do Genesis

    O nome de Robert Aumann, um dos laureados deste ano com o Nobel da Economia, aparece ligado a uma polémica acerca dum presumível "código secreto" existente no Antigo Testamento(na Tora) e que teria sido possível descobrir através de rotinas de computador. Os segredos estariam contidos em frases constituídas por palavras posicionadas de forma equidistante (equidistant letter sequences - ELS) no livro do Genesis. O facto extraordinário contido nos "códigos secretos" seria o dessas palavras revelarem acontecimentos que só vieram a ocorrer muitos séculos depois.

    A polémica, paradoxalmente, nasceu no campo científico, com a publicação na revista "Statistic Science", em 1994, do estudo realizado por Doron Witzum e outros: "Equidistant letter sequences in the Book of Genesis", causando grande perplexidade na comunidade de cientistas. O artigo descreve uma experiência que parece mostrar uma notável proximidade entre os nomes de rabis e as suas datas de nascimento ou morte, no livro do Genesis.

    Na Internet vendem-se programas informáticos que "usam o mesmo método descoberto por cientistas da Universidade Hebraica de Jerusalém para descodificar acontecimentos e nomes do passado, do presente e do futuro, incluindo o seu próprio nome e o da sua família, os quais foram codificados na Bíblia há 3 mil anos".

    Noutra das versões que corre na Internet, por exemplo, diz-se que «a palavra Titanic aparece sete vezes na Tora, duas delas cruzada com uma palavra hebraica que significa 'afundado'. Jesus o Messias aparece codificado várias vezes. Yitzhak Rabin foi encontrado apenas uma vez, cruzado com assassino que assassinará.». O próprio Witzam é classificado como um judeu misterioso, especialista da Tora, académico ultra-ortodoxo, quase 'santo'.

    Em 1997 surgiu o inevitável livro "The Bible Code", escrito por Michael Drosnin.

    O nome do professor Aumann aparece ligado a esta controvérsia por ter apoiado a publicação do artigo de Witzum e ter-se confessado impressionado com o grau de precisão dos resultados, segundo ele muito maior do que muitas experiências científicas. Aumann propõe que se olhe para os factos sem preconceitos.

    Existe muita literatura sobre este assunto. Um caso conhecido é o da experiência em que se aplicou o mesmo método a outra obra - "Guerra e Paz", de Lev Tostoi - tendo-se obtido os mesmos resultados, e desta forma desmistificando o trabalho de Witzum: Equidistant Letter Sequences in Tolstoy's "War and Peace". Witzum respondeu aqui.

    Outro trabalho que contesta os "códigos secretos" é Solving the Bible Code Puzzle de Brendan McKay e outros. McKay mantém uma divertida página na Internet sobre a desmistificação dos "códigos" onde, por exemplo, se revela ter-se encontrado no livro "Moby Dick" previsões sobra a morte da princesa Diana e do autor do livro já referido, Michael Drosdin.

    Mesmo para aqueles que não perderiam tempo a analisar semelhante hipótese, por a considerarem disparatada, esta polémica tem uma outra relevância: se o método científico, aplicado com rigor matemático a um livro, comprova hipóteses ridículas mas que são consistentes e apresentam elevado grau de precisão, então pode ser o próprio método científico que está em causa. Dito de outra forma: quantas "descobertas" científicas, rigorosamente comprovadas, não terão a mesma consistência dos "códigos secretos"? Isso explicaria porque é que tantos cientistas se têm ocupado a contestar o rigor metodológico da experiência de Witzum. E explicaria também a perplexidade de Robert Aumann.

    segunda-feira, outubro 10, 2005

    Patentes: sim, mas...


       Petra Moser

    Petra Moser pegou nos registos de 15 mil inovações apresentadas na Feira Mundial do Palácio de Cristal (Londres, 1851) e na "Centennial Exhibition" (Filadélfia, 1876) para determinar o efeito das patentes na orientação da inovação. O argumento a testar era o seguinte: "se a actividade inovadora for motivada pelos lucros esperados, e se a efectividade das protecção por patentes varia de país para país, então a inovação em países sem leis de patentes deve convergir para sectores onde os mecanismos de protecção da propriedade intelectual são mais eficazes."

    A análise dos dados de 12 países em 1851 e 10 países em 1876 indica que os inventores em países sem regime de patentes se centraram num pequeno conjunto de sectores onde as patentes eram menos importantes (sendo a protecção assegurada por mecanismos tais como a confidencialidade das descobertas), enquanto que as inovações em países com protecção legal de patentes aparentemente diversificaram-se muito mais.

    A conclusão foi de que "as patentes ajudam a determinar a direcção das mudanças técnicas e que a adopção de um regime de protecção de patentes em países sem esse sistema pode alterar os actuais padrões de vantagem comparativa entre países." O estudo vem publicado na última edição da American Economic Review: "How Do Patent Laws Influence Innovation? Evidence from Nineteenth-Century World’s Fairs" (resumo). Uma versão anterior já tinha sido publicada em 2003 pelo NBER, podendo ser consultado integralmente aqui.

    No entanto (paradoxalmente ?) Petra Moser descobriu também que "países em desenvolvimento, como a Índia, que deverá aplicar integralmente um tratado internacional de patentes em 2005, poderão safar-se melhor sem um forte regime de potecção de patentes" - palavras de Brad DeLong, citando este artigo do NY Times.

    Diz Petra Moser: «Na Economia, ensinam-nos que as patentes criam incentivos para a inovação, mas muitas das melhores invenções naquilo que era a alta tecnologia daquela época veio de alguns dos mais pequenos países da Europa, os quais não tinham sistemas de protecção de patentes.»

    Que lições devem tirar então países como o Brasil, China, Índia e outros que estão a ser pressionados pelos países industrializados para criar fortes sistemas legais de protecção de patentes?

    «Tentamos forçar a adopção da protecção de patentes nos países em desenvolvimento, dizendo-lhes: "Isto é o melhor para vocês". Depois surpreendemo-nos quando eles dizem que não querem essas leis. Mas eles têm alguma razão: essas leis podem, na realidade, obstruir a inovação nesses países.»

    Esta investigação, e a correspondente tese de doutoramento "Determinants of Innovation: Evidence from Nineteenth-Century World Fairs", valeram a Petra Moser o prémio "Alexander Gerschenkron" da Economic History Association, em 2003.

    Nobel da Economia para a Teoria dos Jogos

    O Nobel da Economia de 2005 foi atribuído a:
  • Robert J. Aumann, da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel)
  • Thomas C. Schelling, da Universidade de Maryland (EUA)
    "por terem melhorado a nossa compreensão das situações de conflito e cooperação, através da Teoria dos Jogos".

    A Teoria dos Jogos já justificara, em 1994, a atribuição do Nobel a John C. Harsanyi, John F. Nash Jr. e Reinhard Selten.

    links: | Nobel prize.org | anteriores laureados |

    Robert J. Aumann (n. 1930) tem sido uma das figuras mais destacadas na corrente matemática que caracteriza a economia Neo-Walrasiana e a Teoria dos Jogos.

    Aumann entrou na Economia através da teoria dos jogos cooperativos. No seio da teoria Neo-Walrasiana, é talvez melhor conhecido pela sua teoria da equivalência nuclear [core equivalence] numa economia em continuum. Aumann introduziu a mensuração na análise das economias com um número infinito de agentes - formalizando o cenário "perfeitamente competitivo". No seu texto clássico de 1964, "Markets with a Continuum of Traders", Aumann provou a equivalência entre a teoria Edgewortiana e o equilíbrio Walrasiano para um incontável número de agentes - dessa forma fornecendo o caso limite para futuro desenvolvimento da convergência nuclear [core convergence] .

    De modo a garantir que este resultado era válido, Aumann teve de provar a existência de equilíbrio (1966) neste cenário "perfeitamente competitivo". Ao mesmo tempo contribuiu para a própria teoria matemática ao fornecer uma definição de "integral" de uma correspondência (1965).

    Aumann abordou a Teoria dos Jogos em 1959 ao contribuir para a clarificação da distinção entre jogos repetidos infinita e finitamente. Em 1960, com Bezalel Peleg, Aumann formalizou a noção de jogo de coalizão sem utilidade transferível (NTU) - um dos faróis-guia das suas posteriores investigações. Com Michael Maschler (1963), introduziu o conceito de "bargaining set". Em 1974 identificou o "equilíbrio correlacionado" (ou não-independente) em jogos Bayesianos. Em 1975 provou o teorema da convergência para o Valor de Shapley. Em 1976 definiu formalmente o conceito de "conhecimento partilhado" ("Common Knowledge").

    Aumann já tinha sido galardoado com o Erwin Plein Nemmers Prize in Economics em 1998.

    [ Crédito: History of Economic Thought ]



    artigos:
  • "Conditioning and the Sure-Thing Principle"
  • "Consciousness"
  • "Musings on Information and Knowledge"
  • "When All is Said and Done, How Should You Play and What Should You Expect?"
  • "Analyses of the 'Gans' Committee Report"
  • "Findings of the Committee to Investigate the Gans-Inbal Results on Equidistant Letter Sequences in Genesis"
  • "Assessing Strategic Risk"
  • "The Absent-Minded Driver"
  • "Reasoning About Knowledge in Economics" (resumo)

  • Thomas C. Schelling (n. 1921) doutorou-se em Harvard. Colaborou no Plano Marshall, entre 1948 e 1953. Leccionou na Universidade de Yale e em Harvard desde 1958. A partir de 1990 começou a leccionar na Universidade de Maryland. Foi presidente da American Economic Association em 1991.

    Schelling é um pesquisador eclético. Abordou uma ampla gama de assuntos, tais como a estratégia militar, o controlo de armas, a economia do meio ambiente, a questão racial, os arsenais nucleares - além de outros assuntos relacionados com a ética. É um pensador de direita. Num dos seus estudos ["Who Benefits..." - ver mais abaixo] Schelling desencoraja maiores esforços para reduzir o aquecimento global, pois tais esforços ajudariam apenas os países pobres, dependentes de recursos naturais, etc...
    [ Crédito: Economistas ]


    obras principais:

  • The Strategy of Conflict", 1960. (ver recensão)
  • "Arms and Influence", 1976
  • "Micromotives and Macrobehavior", 1978
  • "Thinking Through the Energy Problem", 1979
  • "Incentives for Environmental Protection", 1983
  • "Choice and Consequence", 1985
  • "Strategy and Arms Control", 1986
  • "Bargaining, Communication and Limited War", 1993

    artigos:
  • "Experimental Games and Bargaining Theory", 1960, World Politics.
  • "Who Benefits from the Long-Term Effort to Slow Global Warming and Who Should Participate?"
  • "Some Economics of Global Warming"

    links:
  • página oficial na Universidade do Maryland

  • reacções da blogosfera:

  • No Aforismos e Afins: Tiago Mendes escreve: "É dificil descrever a emoção de ver Schelling ganhar o Nobel. Quando o "reinvidiquei" aqui, foi mesmo uma declaração a "pedir justiça", mais do que uma "aposta". Acho que só senti um arrepio assim quando, já há alguns anos (depois de acordar de propósito às 6h da manhã), vi em directo Benigni ganhar o Oscar com "A vida é bela".

    "E Robert Aumann, claro, fica muito bem ao lado de Thomas Schelling. Depois duma noite eleitoral emocionante, (mais) um (mais que merecido) Nobel para a "Teoria dos Jogos" é mais que motivo para festejar!."

    No blogue A Mão Invisível, Tiago Mendes, depois de descrever um artigo do economista agora laureado, perguntava: "Para quando o Nobel para Schelling?"

  • Em A destreza das dúvidas L. Aguiar-Conraria escreve, a propósito do Nobel, sobre... Tiago Mendes, precisamente.

  • No Crooked Timber, Kieran Healy adianta: "do ponto de vista de um outsider, e especulando um pouco politicamente, o resultado parece ser um modo equilibrado de marcar a ascensão da Teoria dos Jogos na Economia. Embora o trabalho de Schelling seja analiticamente apurado (e o próprio Schelling é famoso pela sua fina argumentação) esse trabalho não é apresentado de modo tecnicista: podemos sentar-nos calmamente e ler os seus ensaios. Aumann, por outro lado, representa uma ala muito mais matematizada, com demonstração de teoremas e desenvolvimento de novas ferramentas conceptuais com propriedades formais precisas."

  • No Roger Jacob, Roger escreveu: "No seu livro "The Strategy of Conflict" (A estratégia do conflito), Schelling ampliou a Teoria dos Jogos como método a ser utilizado para as ciências sociais. Este cientista, de 84 anos, demonstrou que na corrida armamentista nuclear a capacidade de represália é mais eficiente do que a capacidade de resistir a um ataque, e que a ameaça de uma represália incerta é mais eficaz do que uma ameaça precisa. Schelling considera que as suas conclusões, extraídas da análise da Guerra Fria, podem ser aplicadas à análise do comportamento dos agentes económicos em determinadas circunstâncias.

    "Aumann, de 75 anos, demonstrou que a cooperação se produz com maior facilidade se a relação entre indivíduos ou grupos existe a longo prazo e se se trata de um encontro único. Por isso, as análises de jogos de curta duração são muito restritas."
  • Felicidade Nacional Bruta

    Felicidade Nacional Bruta ?

    Em português a expressão não resulta muito esclarecedora, já que o adjectivo "bruto" tem uma associação negativa com algo "grosseiro", "violento"[1]. Porém, a FNB parece ter uma conotação muito mais benigna. O conceito surgiu em 1972, no reino do Butão, pela voz do rei Jigme Singye Wangchuck, que se teria inspirado na filosofia budista. Consequentemente, a política daquele país tem sido definida em função do objectivo da realização pessoal dos indivíduos e da sua felicidade, baseando-se em valores não materiais.

    O New York Times publicou agora o artigo "A New Measure of Well-Being From a Happy Little Kingdom", onde se refere que "um crescente número de economistas, cientistas sociais, lideres empresariais e administrativos, tenta criar uma medida de desenvolvimento que não se resuma aos fluxos monetários (como acontece com o PNB) mas que inclua também os cuidados de saúde, o tempo livre passado com a família, a conservação dos recursos naturais e outros factores não económicos". [2]

    A acompanhar o artigo vem o seguinte gráfico que relaciona o PNB per capita com a felicidade apercebida pelos cidadão de diferentes países - infelizmente, parece que Portugal não consta do gráfico. Apesar de não haver países "ricos e infelizes", existem "ricos e felizes", "pobres e infelizes", bem como "pobres e felizes".

    Existe uma página na Internet especificamente dedicada à Felicidade Nacional Bruta.



    [1] - Naquele contexto, o significado é apenas o de considerar uma verba na sua totalidade, antes de se realizar algum tipo de dedução. Depois de realizadas as deduções, o resultado é classificado como "líquido". Desta forma, temos o "Produto Nacional Bruto" e, depois de deduzidas as amortizações de capital, o "Produto Nacional Líquido"; temos o "ordenado bruto" e, depois de deduzidos os descontos, o "ordenado líquido".
    [2] - O conhecido Índice do Desenvolvimento Humano resultou igualmente do desejo de ultrapassar as limitações do PNB. Para além de considerar a riqueza material, o IDH inclui indicadores relativos à esperança de vida e nível educacional.

    domingo, outubro 09, 2005

    Reembolsos orçamentais

    O governo canadiano está a tentar aprovar uma nova lei (Surplus Allocation Act) segundo a qual, sempre que ocorra um excedente orçamental superior a três mil milhões de dólares canadianos, a diferença deve ser obrigatoriamente destinada, em partes iguais, a (1) redução da dívida, (2) desenvolvimento de novas políticas sociais e (3) devolução à população juntamente com os reembolsos fiscais [ notícia do jornal Público ].

    Segundo o Globe and Mail, a divisão seria feita em partes iguais entre: (1) redução de impostos, (2) redução da dívida pública e (3) realização de novas despesas.

    Esta iniciativa legislativa é uma resposta às críticas de que o governo subavalia sistematicamente os excedentes orçamentais para, depois, utilizar as receitas de acordo com a sua agenda política.

    Noticia também na CBC News.


    Investimento directo estrangeiro

    O World Investment Report de 2005 da UNCTAD, considera que o acréscimo do fluxo de investimento directo estrangeiro (IDE) para os países em desenvolvimento, verificado em 2004 e após 3 anos de tendência decrescente, revela uma inversão significativa. De facto, o acréscimo foi de 40 %. A China foi o país em desenvolvimento que recebeu a maior parcela de IDE.

    Em contrapartida, o fluxo de IDE para os países desenvolvidos sofreu uma quebra de 14 %. O resultado destas duas tendências foi que a fatia dos países em desenvolvimento no IDE mundial subiu, em 2004, para 36 % - o nível mais alto desde 1997.

    Milhares de milhões de dólares
    região/país1993-98
    média
    anual
     1999  2000  2001  2002  2003  2004 
     Economias desenvolvidas256,2849,11134,3596,3547,8442,2380,0
       Europa147,3520,4722,8393,9427,6359,4223,4
          União Europeia140,3501,5696,3382,6420,4338,7216,4
       EUA86,1283,4314,0159,571,356,895,9
       Japão1,312,78,36,29,26,37,8
          Outras21,532,589,236,739,619,652,9
     Economias em desenvolvimento138,9232,5253,2217,8155,5166,3233,2
       África7,111,99,620,013,018,018,1
       América Latina e Caraíbas47,9108,697,589,150,546,967,5
       Ásia83,4111,6145,7108,692,0101,3147,5
       Oceania0,40,40,30,10,00,10,1
     Europa oriental (sul)1,63,73,64,53,88,410,8
     CIS5,06,85,57,39,015,724,1
     Mundo401,71092,11396,5825,9716,1632,6648,1

    Relativamente aos às regiões e países de origem destes fluxos, a União Europeia mantém a posição cimeira, embora os EUA tenham registado uma subida vertiginosa (mais 92 %) enquanto que a União Europeia sofreu um decréscimo de 25 %.

    Este é o retrato estatístico do problema que estamos a assistir em Portugal: a diminuição do investimento estrangeiro e a deslocalização das empresas para os países em desenvolvimento.

    Milhares de milhões de dólares
    região/país1993-98
    média
    anual
     1999  2000  2001  2002  2003  2004 
     União Europeia200,8724,6813,4433,9384,5372,4279,8
     EUA92,3209,4142,6124,9134,9119,4229,3
     Japão21,422,731,638,332,328,831,0
     Outros países
    desenvolvidos
    21,518,552,547,735,839,167,6

    Documentos (formato pdf):
  • relatório completo
  • resumo
  • Portugal
  • Blogue do Banco Mundial

    O Banco Mundial e a sua associada International Finance Corporation já têm um blogue: o "Private Sector Development Blog" .

    Inclui notícias sobre programas do Banco Mundial e de países em desenvolvimento, bem como documentos do BM e de outras instituições. Há um link para o World Investment Report de 2005 da UNCTAD (relatório completo, em pdf e resumo), em pdf.

    "Socialismo" americano ameaçado

    Um dos países que mais financia, com subsídios públicos directos, o seu sector agrícola, são os EUA - uma grande contradição que os extremistas defensores da total liberdade económica se "esquecem" frequentemente de mencionar - em geral é à Política Agrícola Comum da UE que esses fanáticos gostam de rosnar.

    Mas talvez tenha chegado a altura de os EUA provarem do remédio que tanto gostam de prescrever aos outros. O Financial Times dá conta de que a administração americana admitiu que o país precisa de «pensar para além dos limites da actual política agrícola». Segundo o FT isto é um sinal de que o governo americano está prestes a reconsiderar décadas de uma política de subsídios directos aos seus agricultores (Artigo completo aqui).

    O governo americano reconhece que é o seu posicionamento face à Organização Mundial do Comércio que o obriga a enfrentar este problema: o responsável governamental pela Agricultura, Mike Johanns, admitiu que «Em breve, teremos de decidir entre acolher uma nova era na agricultura ou continuar a confiar numa política agrícola que foi concebida há 75 anos, quando a face da agricultura era muito diferente. Se formos para a Organização Mundial do Comércio, timidamente, com um programa agrícola do passado, podemos antever um futuro a jogar à defesa para poteger a nossa fatia no comércio mundial, estando sempre à espera de qual será o nosso programa agrícola a ser contestado a seguir.»


    sábado, outubro 08, 2005

    Salmão voador


    O que acham deste salmão? Se observarem com atenção, verão que se trata de um avião da "Alaska Airlines", pintado para celebrar e promover o valor da comida de origem marinha do Alaska - veja aqui outra foto . Parece que a pintura vai custar uns 500 mil dólares aos contribuintes americanos, já que vai ser suportado pela "Alaska Fisheries Marketing Board", uma instituição financiada pelo governo.

    Este é um dos casos "denunciados" pelo Club for Growth, uma "rede nacional de mais de 30 mil homens e mulheres que acreditam que a prosperidade e oportunidades nascem da liberdade económica". Entre os objectivos específicos deste grupo contam-se: "fazer com que os cortes de impostos de Bush sejam permanentes" e " cortar e limitar os gastos publicos".

    [ via Coyote Blog ]

    Palpites para o Nobel

       Apostas no "Trade sports.com"

    Economistasíndice
     Paul Romer 23,1
     Peter A. Diamond 16,7
     Paul Krugman 14,3
     Elhanan Helpman 12,5
     Paul Milgrom 11,1
     Edmund S. Phelps 10,0
     Ernst Fehr 10,0
     Edward P. Lazear 7,7
     Lars Svensson 6,7
     Thomas J. Sargent 6,0


    Outros palpites:

  • "Guardian" (Robert Barro, Jagdish Bhagwati, Eugene Fama, Paul Krugman ou Paul Romer)
  • "New Economist" (Barro, Romer, ou Fama)
  • voluntaryXchange (Bhagwati, Avinash K. Dixit, Helpman, Gene M. Grossman, Krugman)
  • O Insurgente (Israel Kirzner)
  • A Mão Invisível (Barro)
  • Cenas laborais edificantes

    Num escritório trabalhavam: uma morena, uma ruiva e uma loira, tendo como patroa e chefe uma senhora que, todos os dias, saía sempre mais cedo e já não regressava ao trabalho. Um belo dia decidiram aproveitar a situação e passar a sair também mais cedo, pois a chefe dificilmente o descobriria.

    A morena voltou para casa, fez jardinagem, brincou com o filho e deitou-se cedo. A ruiva aproveitou para ir a um spa antes dum encontro para jantar. A ruiva ia toda contente para casa, na expectativa de fazer uma surpresa ao marido, mas quando lá chegou, ouvindo um barulho no quarto, aproximou-se, abriu lentamente a porta e espantou-se quando o viu deitado com a chefe dela - nem mais!. Calmamente, fechou a porta e saiu de casa para só regressar à hora habitual.

    No dia seguinte, quando a morena e a ruiva se preparavam outra vez para sair mais cedo, perguntaram à loira: "Então, não aproveitas hoje?"

    "Eu?" - disse a loira - "Nem pensar! Então ontem ia sendo apanhada!"

    Via "The Conspiracy..."

    "Economic blogs"

    Blogues com o tag "economics", classificados pelo Technorati de acordo com o número de links:

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      1. Wizbang 10.888 2.011
      2. Marginal Revolution 5.809 1.519
      3. Part Time Pundit 4.823 710
      4. ProfessorBainbridge.com 4.790 1.293
      5. Eric's Grumbles Before The Grave 2.234 219
      6. The Conspiracy to Keep You Poor and Stupid  1.122 324
      7. Coyote Blog 906 266
      8. Uncle Jack's 899 235
      9. Economist's View 694 119
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      11. Environmental Economics 420 124
      12. Right Side of the Rainbow 394 320
      13. Division of Labour 380 132
      14. Ideological Quagmires 312 163
      15. Abstract Dynamics 292 125
      16. Back Seat Drivers 288 107
      17. Capital Region People 257 84
      18. Progressive U 233 62
      19. The J Spot 214 73
      20. mnot’s Web log 209 96
      21. The Liberal Order 178 44
      22. theWatt: Energy News and Discussion 143 61
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      28. Magic Statistics 81 50
      29. Within / Without 48 37
      30. The Liberal Order 44 32
    Na realidade trata-se, em quase todos os casos, de blogues "políticos". O primeiro classificado que pode verdadeiramente ser considerado como "económico" é o "The Conspiracy to Keep You Poor and Stupid"

    sexta-feira, outubro 07, 2005

    Vinho novo


    Enquanto nos entretemos a dizer mal e a despromover o nosso próprio país, outros não se importam de o qualificar. Segundo Eric Asimov, crítico do New York Times, «Portugal vai ser "a próxima grande onda" no mercado internacional de vinhos.» Asimov classifica os vinhos portugueses como "honestos, distintos e de uma enorme qualidade". (Diário de Notícias)
    «Durante muitos anos, quando se falava de vinhos portugueses, pensava-se em Mateus e Lancer's, rosês baratos conhecidos por provocar monumentais ressacas, que constituíam um rito de passagem para um certo grupo etário, equivalente a comprar aquele primeiro disco de Jimi Hendrix ou assegurar que se tinha estado em Woodstock. Durante a maior parte do século XX os portugueses limitaram-se a fazer e a beber vinhos que não se destacavam. Poucos deles eram exportados, o que podemos agradecer, já que não eram lá grande coisa.

    «Mas depois de Portugal ter entrado na União Europeia, em 1986, aquele sector reinventou-se a si próprio, substituindo equipamento desactualizado, modernizando os métodos vinícolas e melhorando as técnicas vitícolas. Hoje, Portugal é uma fonte de vinhos distintos, que podem constituir excelentes valores, e alguns dos melhores tintos portugueses vêm do Porto, a zona mais conhecida como a casa do vinho do Porto.»

    | Eric Asimov | artigo |