| As investigações - e descobertas - da "neuroeconomia" e da "neurociência cognitiva" podem ter aplicação em muitas das actuais áreas curriculares; na realidade, em todo o campo das denominadas ciências sociais: Economia, Sociologia, Direito, Antopologia, etç. O artigo científico "The Neural Basis of Altruistic Punishment ", de Quervain e outros, descreve mais uma experiência que encontrou evidência acerca do comportamento designado como "castigo altruísta" - ou seja, de que o ser humano obtém prazer com a punição daqueles que violam as normas sociais, mesmo incorrendo ele próprio em custos. A mecânica da experiência encontra-se descrita aqui. As implicações deste tema na Economia são evidentes: já que a teoría económica dominante assenta no pressuposto do comportamento individualista egoísta. Outras correntes, como o institucionalismo, admitem que o comportamento individual se possa submeter ao interesse colectivo: o que é coerente com o castigo altruísta. Mas o Direito também beneficia destas investigações, que poderão explicar comportamentos como a vingança. Estudos de Antropologia, por outro lado, referem que a vingança é o motivo para a guerra mais frequentemente referido por guerreiros tribais (artigo). O "castigo altruísta" tem sido objecto de muita literatura científica, podendo referir-se: |
sexta-feira, setembro 23, 2005
Castigo altruísta
quinta-feira, setembro 22, 2005
Economia da família
| O culpado disto terá sido Gary Becker, que no seu "Treatise of the family" dedica um capítulo à "Poligamia e monogamia nos mercados de casamento", embora já o Engels tivesse aplicado ao casamento as "leis" da economia marxista, em "A origem da família, da propriedade privada e do Estado" (1). Agora é Theodore C. Bergstrom que se debruça sobre o assunto em "On the Economics of Polygyny" (pdf): |
«Das 1170 sociedades registadas por Murdock no seu "Ethnographic Atlas", a poliginia (alguns homens tendo mais do que uma mulher) é prevalecente em 850. Além disso, a nossa própria sociedade está longe de ser completamente monogâmica. Cerca de 1/4 de todas as crianças nascidas nos EUA em 1990 tinham mães solteiras que não coabitavam com os pais. Apesar dos casamentos simultaneos com multiplos parceiros não serem oficialmente reconhecidos, o divórcio e "re-casamento" conduz a um padrão comum de "poligamia em série", na qual os homens voltam a casar mais frequentemente do que as mulheres e, também mais frequentemente do que acontece com as mulheres, têm filhos de mais do que uma companheira.»
| Partindo da assunção básica - certamente inspirada nas teorias evolucionistas - de que os indivíduos desejam aumentar o número dos seus descendentes em face da escassez de recursos - Bergston desenvolve um modelo matemático que o leva a algumas conclusões curiosas, nomeadamente: |
«Numa sociedade que permita a poligamia e direitos de propriedade estáveis, haverá usualmente preços positivos para as noivas e alguns casamentos polígamos. Nessas sociedades, os preços das noivas não irão para as noivas, mas para os seus familiares masculinos e todas as mulheres serão alocadas com o mesmo montante de recursos pelos seus maridos. Quanto maiores forem os recursos disponíveis em média, na sociedade, por cada mulher, mais elevados serão os preços das noivas e maiores os recursos alocados a cada mulher. Todavia, nas sociedades com baixos montantes de recursos por mulher, em vez de preços positivos por noiva existirão dotes pagos directamente ao casal.»
| Textos relacionados: Outras obras de Theodore C. Bergstrom: (1) - é neste livro que se desenvolve a tese de que, nas sociedades burguesas, o homem passou a dominar as mulheres por motivos económicos, mantendo-as fechadas em casa como garantia de que a herança seria transmitida a filhos legítimos ("filhos do pai"); em compensação, e uma vez derrotadas, as mulheres coroaram os vencedores com... um belo par de cornos. |
Termos económicos equívocos
| Em "Equivocal Economic Terms or Terminology Revisited", Catherine Resche escreve sobre questões de terminologia económica. Começa pelos misnomers: palavras usadas para descrever qualquer coisa, mas que o fazem de modo errado ou inapropriado. Um exemplo: "ciclo económico" [business cycle]: a designação "sugere um padrão de altos e baixos na actividade e conómica, mais regular do que na realidade é revelado pelos dados". Outro misnomer é a palavra "curva" [curve] que pode até ser uma recta, ou uma linha quebrada unindo diversos pontos de um sistema de eixos cartesianos. Outros exemplos são "euromarket", "eurocurrency" e "eurobond", que não se reportam a moedas europeias. Seguem-se os oximoros, associações de palavras com sentidos contraditórios. Exemplos: "flat curve", "zero slope" e "voluntary export restraints". Em portugês não creio que se use "curva plana", mas já tenho encontrado "declive zero". Ora, se há um declive, como é que ele pode ser igual a zero, que significa a inexistência de declive? Também se encontram "restrições voluntárias à exportação" (embora em desuso, como medida de política económica). Tratando-se de restrições coercivas, como é que podem ser voluntárias? Faz lembrar a frase daquele pai tirano: "Meu filho! Quer queiras, quer não queiras, terás de ser Bombeiro Voluntário!" Há depois os eufemismos, nem sempre com equivalentes em português: - "delayering", significando laying off (despedir) - "unexpected" e "unanticipated", que atenuam o facto de ter havido erros de previsão; - "contabilidade criativa" [creative accounting], um eufemismo para fraudes contabilísticas. O texto fala ainda nas "reduções" ("I-word" para "inflação", "D-word" para "depressão", etç) e "metáforas" embora, neste último caso, aprofundando pouco uma ferramenta tão cara aos economistas - ainda que a maior parte das metáforas, como as famigeradas "mão invisível" e "fábrica de alfinetes" sejam, na realidade, analogias. Não vem referido no texto, mas recordo-me da "taxa natural de desemprego" como expressão bastante enganadora, já que nada há de natural em que 4 ou 5% da força de trabalho esteja no desemprego - ou "inactiva", como também se usa e que é um eufemismo incorrecto, pois só os membros da população activa é que podem estar desempregados. Igualmente enganadora é a palavra "oferta, que traduz intenções de vender, nunca de ofertar. Também se pode considerar que o termo "Economia" é bastante equívoco, pois descreve o universo do desperdício e não da economia. |
Contradições
Fátima Felgueiras está mais bonita - e mais jovem. E a Democracia portuguesa mais feia - e mais envelhecida. Muito mais. ("Portanto não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.") |
quarta-feira, setembro 21, 2005
Iowa Gambling Task
| O "Iowa Gambling Task" é o "jogo de cartas" referido por António Damásio no seu livro "O Erro de Descartes" - uma experiência laboratorial que, segundo o próprio cientista, simula a actividade dos agentes económicos, onde doentes com disfunções no sistema emocional não conseguem "adivinhar" (ou melhor, intuir) as regras do jogo, ao contrário dos que não têm esse problema - já aqui referido. O "Iowa Gambling Task" foi desenvolvido para abordar e quantificar as falhas em tomadas de decisão de doentes neurológicos, ao simular decisões da vida real em condições de gratificação e castigo e incerteza, e para desenvolver as investigações acerca da Hipótese do Marcador Somático (HMS). Como ferramenta de investigação é neutra relativamente à consciência que os participantes possam ter, seja do Marcador Somático seja dos pressupostos da situação. ![]() Os participantes recebem 4 baralhos de cartas, um empréstimo de 2 mil dólares em notas facsimiladas, e pede-se-lhes para jogar, tirando as cartas uma a uma, de forma a ganhar o máximo de dinheiro. Tirar uma carta dá direito a um ganho imediato (100 dólares nos baralhos A e B, e 50 nos baralhos C e D). Imprevisivelmente, contudo, a tiragem de algumas das cartas resulta também numa perda (que é maior em A e B e menor em C e D). Escolher mais vezes os baralhos A e B conduz a uma perda global. Escolher mais vezes os baralhos C e D conduz a um ganho global. Os jogadores, que desconhecem estas regras, não podem prever quando é que uma perda ocorre, nem calcular com precisão o ganho ou perda líquida de cada baralho. Também não sabem quantas cartas podem tirar antes do jogo terminar (o jogo termina de facto ao fim de 100 cartas).Estas regras aparecem também referidas aqui e aqui. A experiência original é descrita neste artigo: "Deciding Advantageously Before Knowing the Advantageous Strategy". Curiosamente, não é dada designação ao teste nem usada a expressão "Marcador Somático", embora o mecanismo seja claramente descrito: |
«Na base destes resultados, sugerimos que a representação sensorial de uma situação que requer uma decisão, conduz a duas cadeias de eventos, largamente paralelas mas que interagem entre si. Numa delas, a representação sensorial da situação, ou dos factos evocados por ela, activam sistemas neurais que contêm conhecimento disposicional não declarativo, relacionado com a prévia experiência emocional do indivíduo quanto a situações similares (...) Na outra cadeia de eventos, a representação da situação gera (i) a recordação aberta de factos pertinentes, por exemplo várias opções de resposta e futuras consequências decorrentes de um dado curso de acção; e (ii) a aplicação de estratégias racionais a factos e opções. A nossa investigação indica que em participantes normais, a activação das tendências [biases] ocultas precede o raciocínio aberto sobre os factos disponíveis. Subsequentemente, as tendências ocultas podem apoiar o processo de raciocínio de modo cooperativo, ou seja, as tendências não decidem por si, mas antes facilitam o processamento eficiente de conhecimento e lógica necessário às decisões conscientes.»
| É curioso que num artigo científico recente, também de Damásio, "Investment Behavior and the Negative Side of Emotion", se coloque a hipótese de serem doentes com disfunções no sistema emocional os que mais ganham em simulações de investimentos arriscados. As conclusões parecem contradizer-se mas, na realidade, tratam-se de experiências diferentes e talvez não comparáveis. Mais recentemente, dois outros investigadores, Tiago Maia e James McClelland, reproduziram a experiência, mas em condições algo diferentes e apenas com pessoas sem lesões cerebrais, concluindo negativamente em relação à HMS: "A reexamination of the evidence for the somatic marker hypothesis". Tiago Maia - jovem cientista português - deu esta entrevista à "Ciência Hoje" onde acusa a investigação de Damásio de sofrer de "um problema metodológico grave". Damásio e os seus colegas responderam com o artigo "The Iowa Gambling Task and the somatic marker hypotesis: some questions and answers" onde reconhecem a validade e interesse da investigação de Maia e McClelland, mas refutam que ela coloque em causa a HMS: |
«Maia e McClelland concentram-se na quantidade de conhecimento consciente da situação que os participantes do jogo têm, enquanto que a HMS tem a ver com a presença ou ausência de um sinal relacionado com a emoção, conciente ou não, independentemente do conhecimento consciente da situação. Por exemplo, nós demonstrámos que doentes cujo conhecimento de uma situação é consciente e adequado podem decidir deficientemente. Nós colocamos a hipótese de que eles o fazem devido à falta (consciente ou não) de um sinal relacionado com a emoção, o Marcador Somático »
| Reportando-se às conclusões de Maia e McClelland de que "os participantes no jogo manifestam conhecimento das estratégias mais vantajosas, mais do que se comportam de modo vantajoso", António Damásio e colegas salientam que: |
«Esta importante descoberta é coerente com as dos economistas que há muito tempo reconhecem que os decisores muitas vezes se afastam das escolhas racionais, apesar do conhecimento prévio que os poderia conduzir noutras direcções.»
Poupança, consumo & "crashes"

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No Economist, "Don’t blame the savers": «Alguns economistas defendem que os desequilíbrios da economia mundial se devem, em parte, a uma torrente de poupanças oriundas dos países em desenvolvimento directamente orientada para activos norte-americanos. Mas novos relatórios do FMI e do Banco Mundial dizem que o problema reside noutro lado. «Os conservadores americanos gostam muito de receitar a responsabilidade pessoal como cura para as doenças financeiras dos pobres. Existe por isso uma certa dose de prazer em ver as prodigalidade fiscal americana acusada de contribuir para os desequilíbrios que afectam actualmente a economia mundial. É esse precisamente o veredicto do recentemente divulgado relatório sobre poupança do World Economic Outlook do FMI. O documento salienta o perigo colocado à economia mundial pela elevada dependência dos vorazes consumidores americanos em abocanhar exportações do resto do mundo. «As economias emergentes, particularmente na Ásia, estão a registar elevados excedentes comerciais correntes, devido a uma estável corrente de exportações, particularmente para os EUA. Do outro lado do espelho, os défices correntes americanos escalaram para além dos 5% do PNB. As poupanças domésticas encolheram até níveis mínimos, enquanto os americanos recorrem ao endividamento para manter os níveis de consumo. No entanto, se os consumidores americanos abrandarem, e tal como as coisas estão agora, o resto do mundo vai sofrer também. «Para além disso, os economistas estão também muito preocupados com o facto da saúde da economia americana (e, por extensão, da economia mundial) se apoiar no mercado da habitação, que parece nitidamente empolado. Quando a bolha rebentar, teme-se que todo o conjunto se desmorone.» Documentos relacionados: Na blogosfera, sobre o artigo do "Economist:" Na blogosfera, sobre a "housing bubble": |
Economistas
P: Porque é que há tão poucos economistas eleitos para cargos políticos?
Economia: Creio que alguém que pensa que pode decidir pelos outros, então não percebe nada de Economia. Se se percebe de Economia, então é-se humilde e modesto. Isso explicaria porque é que há tão poucos economistas eleitos para cargos políticos. É preciso ter uma grande confidência em que se pode ajudar as pessoas forçando-as a fazer coisas que elas de outro modo não fariam.
terça-feira, setembro 20, 2005
Outros tempos...
| «Portugal deverá crescer 1,3% em 2006, de acordo com as previsões, a anunciar hoje pelo FMI, mas reveladas ontem, no Parlamento, pelo secretário de Estado do Orçamento, Emanuel Santos. O "FMI pode estar a ser optimista", reconhece Emanuel Santos.» (Diário de Notícias) Caro amigo, como vão distantes os tempos em que zurzíamos esse bastião da exploração capitalista. E agora, isto: palmadinhas nas costas, "olhe que não, olhe que não..." Na realidade, alguém chegou ao pé do fmicas e disse: "Aqueles tipos estão mesmo a aplicar medidas duras"; e ele: "Ai sim? Então, não tarda nada, desatam a crescer!" Um grande abraço e... oxalá! |
Centralização do Metro
| «Governo vai mesmo assumir controlo da Metro do Porto O Governo vai assumir o controlo da gestão da Empresa do Metro do Porto. Entre críticas à actual Administração, o ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino, revelou, ontem, no Parlamento, que a corrente estrutura accionista é desequilibrada e que está a estudar a melhor forma de dar ao Estado a preponderância na tomada de decisões.» |
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Vasco Costa Marques
in «Antologia da novíssima poesia portuguesa»
do livro «O mundo possível» (1961)
Cientistas impreparados
| O facto de muitos cientistas e respectivos laboratórios terem sido afectados pelo furacão Katrina - com perdas irreparáveis de dados relativos a investigações realizadas e em curso - há-de significar alguma coisa sobre o grau de imprevisibilidade (ou de impreparabilidade) aceitável, dadas circunstâncias em que a catástrofe ocorreu. Os cientistas têm sido evocados como testemunhas nos julgamentos que, na imprensa (e na blogosfera) estão a ser feitos aos políticos e ao sistema político. Mas um bom advogado não deixaria de perguntar a essas testemunhas: "porque é que não se preveniu melhor contra a catástrofe? Porque é que deixou perder dados preciosos?" (Alguns desses dados encontravam-se em computadores portáteis). Calcula-se, por exemplo, que 8 mil animais de laboratório, incluindo muitos cães e 16 macacos Rhesus, tenham perecido (ver notícia). Uma outra notícia refere a perda de amostras de sangue e urina, recolhidas e congeladas desde 1973, de uma investigação sobre os factores raciais de risco de doenças do coração. Num dos laboratórios governamentais de epidemologia, de alta segurança, cientistas e polícias eliminaram todas as "amostras vivas" com a ajuda de facas e lixívia, para evitar que "escapassem ou caíssem nas mãos erradas". Entretanto, o Barkley Lab desencadeou um programa de apoio aos cientistas afectados, procurando alojamento temporário e disponibilizando gratuitamente as suas instalações e equipamentos. |
Medicamentos: a guerra das percentagens
Desde há anos que decorre esta "guerra" entre governos diversos e o poderoso lóbi farmacêutico. Trata-se de um sector oligopolista, que investe fortemente no marketing. As suas acções de propaganda são, em geral, mais sofisticadas que as dos governos. Diversos governos, conscientes de um forte desequilíbrio entre produtor/consumidor favorável aos sector empresarial, abriram frentes de luta pela introdução dos medicamentos genéricos e pela redução de preços finais (ou das comparticipações do Estado) à custa da redução das elevadas margens de lucro do sector. As empresas encaixariam bem esta redução, mas sabem que têm vantagem em dificultar o processo desde o seu início. Por exemplo: no caso da venda de alguns medicamentos fora das farmácias (o que permitiria introduzir alguma concorrência) têm feito uma intensa propaganda da ideia de que essa venda é perigosa. No caso dos genéricos, a ideia divulgada foi semelhante, e obteve mesmo algum apoio da Ordem dos Médicos. Ora as recentes decisões governativas vieram proporcionar à indústria farmacêutica alguns trunfos adicionais, que esta não irá desperdiçar, como se vê nesta notícia do jornal Público. Dominando as contas - e seleccionando judiciosamente os exemplos - a Associação Nacional de Farmácias (ANF) "prova" que os consumidores vão ser imensamente prejudicados. Estamos agora a assistir a uma guerra das percentagens como não se via, talvez, desde o final dos anos 70, quando sindicatos e governo usavam indistintamente (conforme as conveniências) os diferentes indicadores da inflação (homóloga, média) e confundiam subidas percentuais com subidas de pontos percentuais. No caso dos medicamentos genéricos, o governo anulou uma comparticipação acrescida de 10%, que fora criada para fomentar o uso dos genéricos, divulgando que o aumento de preços será apenas de 4%. A ANF contrapõe: «o corte de 10% na majoração significa que todos os medicamentos genéricos estão hoje 10% mais caros» e «Os doentes têm o direito de saber que esta alteração lhes vai custar mais 30 %», «um utente do regime especial (doentes crónicos e pensionistas) pode chegar a desembolsar o triplo por um genérico». Também é referida pela ANF a existência de casos em que os genéricos poderão ficar mais caros do que os correspondentes de marca. Confuso? Esclareça-se que o valor de 4% adiantado pelo governo para aumento de preços, resulta de uma conta simplista: (a) os genéricos aumentam 10%; (b) os restantes diminuem 6%, a suportar pela indústria; (c) logo: 10% - 6% = 4%. Muito simples. Mas não é assim tão simples: há que contar com a diferente ponderação dos diferentes tipos de medicamentos e outras alterações legisladas, território em que a ANF manobra com destreza. Veja-se por exemplo este seu argumento: «388 medicamentos em 500 perderam as comparticipações a 100%, o que significa que milhares e milhares de doentes crónicos, que não pagavam nada, passaram agora a pagar importâncias que lhes fazem falta.» Demagogia em estado puro, mas certamente com alguma eficácia. Outro argumento (e trunfo) dos farmacêuticos é o de que as subidas de preços vigoram de imediato, enquanto que as descidas só se farão sentir após as reposições de stocks: diz a ANF que «milhares de doentes se sentiram 'ludibriados' porque pensavam que a partir da passada 5ª-feira teriam medicamentos mais baratos nas famácias.» Mais um aspecto em que o governo foi inábil, pois poderia ter feito coincidir ambos os efeitos; neste caso, o impacto da subida impressiona mais, enquanto que as descidas se farão talvez ao longo de algum tempo, sem impacto mediático. O fulgor argumentativo da ANF pode ser verificado na sua página: «O Governo anunciou um abaixamento de 6% no preço dos medicamentos comparticipados (...) O que não disse foi que os laboratórios seriam os menos penalizados (...) Se a lei fosse cumprida, os medicamentos em Portugal não seriam dos mais caros da Europa e os portugueses pagariam menos 220 milhões de euros por ano.» Na página Direcção-Geral da Saúde nada consta sobre o assunto e uma pesquisa sobre "preços dos medicamentos" não fornece nada. A opinião pública é muito sensível ao custo dos medicamentos e facilmente mobilizável contra as empresas farmacêuticas, o que tem jogado a favor das medidas governativas. Mas as pessoas são igualmente sensíveis aos aumentos dos preços, o que abre caminho às campanhas das farmácias. Com estas recentes medidas, atendendo à confusão instalada, atendendo à dificuldade do governo em se fazer explicar (agora é que tinha calhado bem um daqueles encartes que só aparecem em períodos pré-eleitorais) e atendendo à facilidade do sector farmacêutico em publicitar as suas posições, o pêndulo ameaça deslocar-se a favor deste sector. Notícias sobre o mesmo assunto em: Diário de Notícias e Correio da Manhã. Documentos relacionados: |
segunda-feira, setembro 19, 2005
Eventos raros e o "Equity Premium Puzzle"
| A expressão "Equity Premium Puzzle" traduz o "misterioso" diferencial entre a rendibilidade de títulos do Tesouro (usualmente baixa) e de acções (usualmente mais elevada) - diferencial que não parece ser suportado pela Teoria. O puzzle pode ser equacionado deste modo: "porque é que os investidores não rejeitam os títulos do Tesouro, de baixa rendibilidade, optando antes por acções, movimento que conduziria ao aumento do valor das acções e à subsequente diminuição da sua rendibilidade?" Este quebra-cabeças tem gerado alguma literatura, sendo muito citado o artigo de Mehra e Prescot "The Equity Premium: A Puzzle", de 1985. Um destes autores, Rajnidh Mehra, escreveu recentemente (2003) o artigo "The Equity Puzzle: Why Is It a Puzzle?" (pdf), onde faz uma retrospectiva da discussão havida entretanto. Uma descrição deste problema pelo mesmo autor encontra-se disponível aqui (pdf). Para além das aplicações práticas que o deslindar deste quebra-cabeças poderia proporcionar, o assunto prende-se também com a "teoria geral da decisão", colocando em causa a hipótese das escolhas racionais. Em Abril do corrente ano o assunto foi abordado pelo Professor Robert Barro, no artigo: "Rare Events and the Equity Premium Puzzle"" (pdf; também disponível aqui em pdf e aqui em Word). Partindo de uma hipótese proposta por T. A. Dietz em 1988 - "The Equity Risk Premium: A Solution" - e recorrendo ao "modelo em árvore" de Lucas, Barro desenvolve um modelo com dados históricos, mostrando que a probabilidade da ocorrência de "eventos raros" (tais como grandes depressões, grandes guerras, guerra nuclear, etç) poderia explicar o puzzle, ao fazer aumentar o risco percepcionado pelos investidores relativamente aos títulos do Tesouro - usualmente considerados "seguros" pela teoria. ..................................................... |
Resumo do artigo:
"Poderão as disfunções do sistemas neurais subjcentes às emoções, sob certas circunstâncias, conduzir a decisões mais vantajosas? Para responder a esta questão, observámos como é que participantes normais, doentes com lesões focais estáveis em zonas do cérebro relacionadas com emoções (grupo alvo) e doentes com lesões focais estáveis em zonas do cérebro não relacionadas com emoções (grupo de controlo) fizeram 20 rondas de decisões de investimento. Os doentes do grupo alvo tomaram decisões mais vantajosas e ganharam mais dinheiro com os seus investimentos do que os participantes normais ou os do grupo de controlo. Quando os participantes normais e os do grupo de controlo perdiam ou ganhavam dinheiro numa das rondas, adoptavam uma estratégia conservadora e tornavam-se mais relutantes em investir na ronda subsequente; estes resultados sugerem que eles eram mais afectados que os doentes do grupo alvo pelos resultados das decisões feitas na ronda prévia."
Acerca do "Equity Premium Puzzle":
"Muitas pessoas manifestam níveis extremos de aversão ao risco relativamente a apostas que envolvam algum risco de perda, se as apostas foram apresentadas "ao-mesmo-tempo", uma condição conhecida como "aversão míope a perdas". Por exemplo, muitas pessoas não aceitarão voluntariamente uma aposta com iguais probabilidades de perder ou ganhar, com ganho de 200 e perda de 150, apesar do elevado valor esperado. A "aversão míope a perdas" tem sido indicada como uma explicação para o grande número de indivíduos que preferem investir em títulos do tesouro, apesar das acções em bolsa terem proporcionado historicamente uma maior taxa de rendibilidade - um padrão que os economistas designam como "equity premium puzzle".
| Num texto jornalístico, "Emotionally Impaired People May Make Better Money Decisions", certamente inspirado no artigo citado acima, refere-se; «Alguns neurocientistas acreditam que os bons investidores poderão ter capacidades especiais na supressão de reacções emocionais. "É possível que as pessoas que são investidores de alto risco ou bons investidores, tenham aquilo a que se chama psicopatia funcional" - diz Antoine Bechara, co-autor do estudo referido. "Eles não reagem emocionalmente às coisas. Os bons investidores podem aprender a controlar as suas emoções de modo a comportar-se como essas pessoas."» |
Sinais de fumo
| O INE divulgou hoje a "Síntese Económica de Conjuntura" relativa a Agosto, com as esperadas más notícias relativas ao andamento da economia, embora o INE considere que "os sinais não são totalmente desfavoráveis" (esperança apoiada talvez no comportamento da procura externa e no "desagravamento" do investimento): |
«O indicador de clima continuou a agravar-se em Agosto, atingindo o valor mais baixo desde Setembro de 2003 e o indicador de actividade económica abrandou em Julho. A generalidade da informação quantitativa apresentou em Julho evoluções mais desfavoráveis, indiciando que a melhoria do mês anterior teve um carácter temporário.»
| Sobre o Consumo: |
«O consumo privado desacelerou ligeiramente em Julho, determinado pelo comportamento da componente de bens duradouros, e as expectativas de consumo continuaram a agravar-se.»
| Investimento: |
«O indicador de FBCF voltou a desagravar-se em Agosto, o que resultou da recuperação da componente de material de transporte e da menor intensidade de quebra da componente de construção.»
| Comércio externo |
«Os dados do comércio internacional dão sinais favoráveis para Junho, revelando um novo abrandamento das importações e uma recuperação das exportações.»
| Emprego: |
«A informação quantitativa de Julho relativa ao mercado de trabalho aponta para um desagravamento, porém as expectativas dos agentes económicos, disponíveis até Agosto, continuaram a deteriorar-se.»
| Preços: |
«A inflação foi de 2,6% em Agosto, mais 0,4 pontos percentuais (p.p.) do que no mês anterior, induzidos pela aceleração dos preços dos bens, principalmente dos produtos alimentares, e dos serviços. Esta evolução também resultará da difusão do impacto sobre os preços do aumento do IVA de Julho.»
Meios aéreos: um fogo que se reacende
| No passado dia 7 de Setembro já aqui tinhamos escrito um post bem humorado sobre o anúncio governativo de aquisição de meios aéreos para combate a incêndios ("Viva a despesa pública!"). Poucos dias decorreram desde então, mas já foram saindo várias notícias sobre este objectivo governamental, a última das quais vem no jornal Público de hoje: |
«Dos dez helicópteros Puma da Força Aérea Portuguesa (FAP) que o Ministério da Administração Interna (MAI) pretende comprar para combater os incêndios florestais do próximo ano, apenas quatro estarão em condições de operar a partir de Junho/Julho. Os restantes só serão transaccionados quando os militares tiverem na sua posse novos aparelhos.
De acordo com o relatório final da Comissão Especial para o Estudo dos Meios Aéreos de Combate aos Incêndios Florestais, já entregue ao MAI, só a recuperação dos quatro SA330 Puma que a FAP pode disponibilizar até ao início da época dos fogos do próximo ano ascende a 10 milhões de euros. A este montante há que somar mais oito milhões de euros por cada aparelho relativos à sua reconversão.»
| Normalmente, uma decisão desta dimensão (equipar o governo com uma frota permanente de meios aéreos de combate a incêndios) só deveria ter sido tomada depois de devidamente ponderadas as questões técnicas e financeiras. Mas neste caso, aparentemente devido à pressão dos acontecimentos e à exposiçao mediática, colocou-se nitidamente "o carro à frente dos bois": tomou-se primeiro a decisão e agora, à medida que se vai caminhando para o objectivo, vai aumentando a factura decorrente de uma decisão precipitada. Tudo isto seria cómico se não andassem a brincar com o dinheiro dos contribuintes - e com a vida dos cidadãos e dos bombeiros. |
domingo, setembro 18, 2005
O triângulo do desenvolvimento
| «[Juntamente] com as empresas ou associações e as universidades, as autarquias são um dos vértices do triângulo do desenvolvimento. No conselho consultivo da Câmara do Comércio de industria do Centro temos 14 autarquias (a nossa rede de cidades médias), o que mostra bem a ligação estreita existente. As autarquias devem ser o motor e o vector agregador de vontades. Se uma autarquia considera prioritária a aposta em centros de incubação de empresas está a ir no caminho do desenvolvimento, pois criará riqueza, garantindo também riqueza para promover a qualidade de vida.» Almeida Henriques, Presidente da Câmara |
A ameaça de desemprego estrutural
| Diário de Notícias «Mas quando a retoma chegar será suficiente para absorver a mão-de-obra que agora está a ser afastada pelo choque económico?» Francisco Madelino (presidente do Iinstituto do Emprego re Gormação Profissional) - «Essa é a questão crucial. Saber se esta população com idades avançadas, em termos de mercado de trabalho, e com qualificações baixas vai ter condições de regressar à vida activa como aconteceu com a população de Setúbal nos anos 80. Esta população tem baixa empregabilidade e corre-se o risco de entrar numa situação de desemprego estrutural.» |
sábado, setembro 17, 2005
Financiamento do ensino superior
| The Financing of Higher Education in Europe (Dezembro de 2004): | |||
| Volume 1 | |||
| 1. EU policies and instruments on higher education 2. Trends in funding of higher education in the EU [Portugal = pag. 142] 3. Trends in funding of higher education in some other countries | |||
| Volume 2 | |||
| 4. Recent policy initiatives in financing higher education in the EU [Portugal = pag. 30] 5. Recent policy initiatives in financing higher education in some non-EU OECD countries 6. Innovative mechanisms in financing of higher education in the EU Member States [Portugal = não referido entre os 22 países com mecanismos inovadores] 7. Transferability of innovative funding mechanisms 8. Comparison of funding od higher education in the EU with somo non-EU OECD countries | |||
Seminários do Banco de Portugal
19 de Setembro de 2005. 21 de Setembro de 2005. Mais informações aqui. Textos relacionados: |
"Tróia Shopping"
|
Grandes previsões
Grandes previsões as da Universidade Católica, divulgadas no suplemento Economia & Internacional do Expresso de hoje:«O PIB crescerá em 2005 abaixo das últimas previsões oficiais.» «A segunda metade do ano [2005] será marcada por um significativo abrandamento da actividade.»No entanto, há uma informação interessante: o crescimento de 0,5 % do PIB (variação homóloga, no II trimestre de 2005) que tanto atarantou os analistas - e entusiamou Sócrates - ter-se-á ficado a dever à "antecipação do efeito do aumento do IVA" - um empolamento artifical e sem sustentação. Igualmente pessimistas são as previsões do Banco de Portugal, incluídas nos seus "Indicadores de Conjuntura". O Banco atribui o referido crescimento de 0,5 % do PIB ao comportamento da procura externa líquida, "que teve um contributo menos negativo em resultado de um menor decréscimo das exportações", e de uma desaceleração das importações. Este sofisticado "economês" - "contributo menos negativo", "menor decréscimo das exportações", faz lembrar a explicação que a Marinha deu para o facto de caixas com munições, afundadas propositadamente com um velho navio, terem dado à costa dias depois: o problema, segundo a Marinha, era que as caixas "não tinham flutuabilidade negativa". |
sexta-feira, setembro 16, 2005
Défices e taxas de juro
| Bruce Bartlett no Talking Points, chama a atenção para um estudo publicado pelo Federal Reserve Bank of Philadelphia , comentando: «Trata-se de um novo paper acerca de porquê os défices públicos conduzem ao aumento das taxas de juro. A diferença está em que o texto apoia a ideia actualmente promovida por alguns políticos liberais (1) de que os défices correntes não importam, apenas os défices esperados no futuro. Isto surpreende-me por ser uma ideia muito anti-Keynesiana, para principiantes. Mas como tem o apoio do Fed, provavelmente será citado pelos usuais suspeitos.» O texto referido é "Deficit-Financed Tax Cuts and Interest Rates", da autoria de Sylvain Leduc. Na apresentação do texto, diz-se: |
«As propostas para fazer baixar impostos encontram frequentemente oposição no Congresso. Um dos argumentos utilizados é o de que a diminuição dos impostos sem a equivalente descida da despesa pública pode conduzir a futuros défices orçamentais, que se traduzirão depois em mais elevadas taxas de juro de longo prazo e mais baixos níveis de rendimento. Neste artigo, Silvain Leduc examina os argumentos teóricos acerca de os défices conduzirem a taxas de juro mais elevadas. Também analisa estudos empíricos que utilizaram dados sobre a expectativa de défices orçamentais para documentar a possibilidade de que aumentos em futuros défices orçamentais estejam associados a taxas de juro de reais longo-prazo mais elevadas.»O próprio estudo conclui:
«Podem os défices orçamentais ser associados ao aumento das taxas de juro de longo prazo? Recentes estudos empíricos mostram que sim, uma vez que contamos com o impacto de futuros défices esperados nas taxas de juro de longo prazo correntes. As expectativas de défices orçamentais são importante porque, ao baixarem o nível esperado de futuras poupanças, colocam uma pressão crescente nas taxas de juro de curto prazo esperadas. De acordo com a teoria das expectativas, um aumento nas taxas de juro de curto prazo esperadas provoca o aumento das taxas de juro de longo prazo correntes, o que pode fazer afundar o investimento e conduzir a níveis mais baixos do PNB no futuro.»
(1) - "liberais" no contexto americano - e que, na Europa, designaríamos talvez como "socialistas". Sobre este mesmo assunto, Alan Reynolds, do Cato Institute (um grupo de pressão favorável ao "estado mínimo"), escreveu em 2002 o artigo "Do Budget Deficits Raise Long-Term Interest Rates?", onde concluía em sentido oposto: «Não existe uma ligação clara entre os défices ou superavits governamentais e taxas de juro de longo prazo. Certamente que equilibrar os orçamentos constitui uma orientação politica recomendável, mas a sua defesa deve ser baseada noutros critérios que não a preocupação com as taxas de juro.» O que é interessante nesta polémica é este paradoxo (que também perturba Bruce Bartlett) de políticos mais à esquerda conjurarem a ocorrência de défices, como argumento contra a diminuição das taxas de juro, enquanto que os defensores do "estado mínimo" - tradicionais opositores dos défices - já os parecem admitir, desde que a sua origem decorra da redução das taxas de juro. Recorde-se que o reaganismo conduziu a gigantescos défices nos EUA, situação que John Keneth Galbraith identificou como um "keynesianismo de cabeça para baixo". Esta hipótese tem consequências para Portugal? Bem: apenas indirectamente. Atendendo a que a União Europeia tem um "mercado único" de capitais e dada a existência do euro como moeda comum, as taxas de juro de que cada um beneficia são influenciadas pelo agregado dos défices orçamentais dos vários países da moeda única; assim, é possível para um pequeno país como Portugal ter défices elevados e beneficiar de taxas de juros baixas, determinadas por défices baixos e controlados nos restantes países. É uma situação em que "o crime compensa". Também poderíamos dizer que, existindo essa possibilidade, o mais "racional" seria aproveitá-la"... É por isso que é necessária uma regulamentação rigorosa para controlo dos défices de cada um dos países da União Europeia, uma vez que o mercado não penaliza tão duramente os défices nacionais, como aconteceria se cada país tivesse a sua própria moeda e mercado de capitais. |
Taxas de imposto
| Steven J. Davis e Magnus Henrekson realizaram o estudo: (de Junho de 2004), onde avaliaram as respostas de longo prazo a diferentes taxas de imposto sobre os rendimentos do trabalho e despesas de consumo, tendo concluído que taxas de imposto mais elevadas conduzem a menos horas de trabalho no mercado, mais horas de trabalho no sector doméstico, ao aumento da economia paralela e à diminuição do valor acrescentado e do emprego nas actividades que se apoiam em baixos salários e menores qualificações laborais: |
«A teoria diz que taxas de imposto mais elevadas levam à redução do tempo de trabalho no mercado, aumentam a dimensão da economia paralela, alteram a estrutura do mercado e distorcem a procura de trabalho de uma forma que amplifica os efeitos negativos no trabalho assalariado, concentrando os efeitos nos menos qualificados.(Via Talking Points)
As regressões que efectuámos sobre amostras de dados recolhidos nos países desenvolvidos, nos anos 90, mostram que um desvio padrão de 12,8 pontos percentuais leva a menos 122 horas de trabalho por adulto e por ano, a uma queda de 4,9 pontos percentuais no rácio emprego-população, e a um crescimento da economia oculta equivalente a 3,8 % do PNB. Também conduz a uma quebra de 10 a 30% no emprego e valor acrescentado dos sectores: (a) comércio a retalho e reparações; (b) comidas, bebidas e alojamento; (c) um sector mais amplo que engloba o comércio por grosso e o comércio automóvel.»
quinta-feira, setembro 15, 2005
Dívida directa do Estado
| «A dívida directa do Estado totalizava 99.634 milhões de euros no final de Agosto, informou hoje o Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP), mais 13,9 % do que no mesmo período do ano anterior. Em relação a Julho houve um aumento de 2,4 por cento, no total de 2.337 milhões de euros. Este acréscimo resultou basicamente da colocação, através de leilão, da Obrigação do Tesouro Abril 2015, no montante de 900 milhões de euros, e da emissão de bilhetes do Tesouro, no total de 1.293 milhões de euros. A dívida directa do Estado é relativa apenas a este subsector, um dos que integra as Administrações Públicas, a par dos serviços e fundos autónomos, da administração regional e local e da segurança social. Para efeitos de cálculo da dívida pública em relação ao PIB tem de se considerar a dívida consolidada de todas as Administrações Públicas. Por exemplo, no final de 2004, a dívida directa do Estado ascendeu a 90.739,1 milhões de euros, correspondente a 67,2 por cento do PIB desse ano, enquanto a das Administrações Públicas atingiu 83.577,7 milhões de euros, equivalente a 61,9 por cento do PIB.»
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A Economia do Rock
«A música é frequentemente inspirada por emoções poderosas: amor, desejo, traição, corações desfeitos e... Economia?
Quando pensa na sua cação favorita, que conceitos económicos encontra expressos na respectiva letra?»
A vencedora foi Gina Masarik, com um ensaio sobre a canção "Diamonds Are a Girl's Best Friend", de Marilyn Monroe, onde a aluna da "Wadsworth High School" encontra a equivalência das três funções básicas da moeda: meio de troca, unidade de conta, reserva de valor. «Um beijo pode ser magnífico, mas não paga a renda. Embora um beijo não seja aceite como meio de pagamento e portanto não sirva como meio de troca, um diamante pode.» (etç.) O tema do ano anterior, 2004, tinham sido os filmes, tendo vencido Anna Dev com um ensaio sobre "Moeda e Bancos no filme Mary Poppins":«A visita das crianças ao banco dura menos de 10 minutos no filme e, no entanto, nesses 10 minutos o filme introduz os espectadores nos conceitos económicos fundamentais. O valor temporal do dinheiro e os juros compostos são introduzidos sob a forma de uma canção pelo idoso sr. Dawes, "um gigante no mundo da Finança". Acompanhado por um coro de outros banqueiros, o senhor Dawes tenta, com uma canção, convencer Michael da sabedoria em depositar numa conta bancária a sua modesta moeda, explicando a relação entre poupança e investimento, mostrando como as poupanças "prudentemente investidas pelo banco" financiarão investimentos como "caminhos de ferro em África, canais e plantações de chá. Michael recusa e pede a suamoeda de volta, entrando em luta com Dawes. Quando os outros clientes ouvem Michael a gritar "devolva-me o meu dinheiro", pensam que o banco está insolvente e o pânico que se segue desencadeia uma corrida aos depósitos e a bancarrota.» Também ficou bem colocado um ensaio sobre "O Senhor dos Anéis - Uma Epopeia de Oferta e Procura": «a natureza única do Anel resulta da quase perfeita rigidez da oferta: mais nenhum anel, poderoso como aquele, pode ser fabricado.» |
Propriedade
| "A Theory of Property", de Abraham Bell e Gideon Parchomovsky [ficheiro pdf; 443 KB] Artigo que propõe uma teoria unificada da propriedade, baseada na perspectiva do Direito. |
Distorções judiciais
Keith Sharfman avaliou algumas decisões judiciais relativas à avaliação de activos, no contexto de disputas de falências de empresas. Nestas situações, usualmente uma das partes sugere um valor elevado para esses activos, e a outra parte um valor baixo. O investigador encontrou evidência de uma distorção favorável aos devedores, por parte dos juízes responsáveis pelas decisões de valoração. As conclusões constam do artigo "Judicial Valuation Behavior: Some Evidence From Bankruptcy": nos casos analisados, 65,2% dos valores em disputa foram alocados aos devedores, enquanto que apenas 34,8% o foram para os credores. O estudo conclui pela possibilidade de existir um preconceito pro-devedores por parte dos juízes, o que está de acordo com a teoria comportamentalista: |
«A corrente teórica comportamentalista defende que os decisores judiciais tendem a valorar mais as perdas do que os ganhos, e que as aparentes anomalias na valoração legal podem ser melhor compreendidas em termos de "aversão a perdas" [loss aversion] (1) ou "preservação do status quo" [status quo preservation] (...) de acordo com esta tese, os juízes e júris tenderão, mantendo-se o resto constante, a sub-valorar os direitos legais da acusação e sobre-valorar os direitos da defesa relativamente a qualquer padrão de valoração "objectiva", tal como o valor de mercado.»
| Num outro artigo, "Valuation Averaging: A New Procedure for Resolving Valuation Disputes, Sharfman propõe a utilização, pelos tribunais, de um mecanismo objectivo de valoração, baseado num algoritmo utilizado por algumas empresas privadas. (1) - Um estudo muito citado sobre a aversão a perdas é "Loss Aversion and Riskless Choice: A Reference Dependent Model" de Tversky e Kahneman (1991), onde se defende que "perdas e desvantagens têm maior impacto nas preferências do que ganhos e vantagens". A Science Decision News define que um indivíduo tem "aversão a perdas" se lhe desagradarem apostas simétricas (probabilidade de ganhar igual à probabilidade de perder) e se, além disso, o desagrado aumentar com o valor absoluto da aposta. Em português encontra-se uma pequena apresentação desta teoria neste texto de Carlos Albuquerque (ver na página 9, "Aversão à Realização de Perdas") Link para este post: http://puraeconomia.blogspot.com/2005/09/distores-judiciais.html |
quarta-feira, setembro 14, 2005
Más notícias
| «Portugal está a perder competitividade frente aos principais parceiros comerciais, nomeadamente com a Espanha, apesar do salário anual do empregado português ser metade do auferido pelo trabalhador por conta de outrem na UE a 15. A explicação é que, apesar de baixas, as remunerações e os custos unitários do trabalho estão a subir a um ritmo superior ao da União, encarecendo os produtos fabricados, de acordo com um estudo divulgado pelo Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE), do Ministério da Economia. (...)» (Diário de Notícias) |
Possibilidade e plausibilidade
| Na Florida State University Law Review, o artigo "Possibility and Plausibility in Law and Economics", de Russell Korobkin: |
«A generalizada aceitação atingida pela abordagem comportamental do Direito e Economia (1) à análise das leis, levanta uma importante questão metodológica aos académicos do Direito e Economia. Para efeitos de formulação de recomendações de políticas, como deve o investigador determinar se deve pressupor um estrito comportamento de escolhas racionais, ou algo mais consistente com a teoria da decisão comportamental, tal como a racionalidade limitada ou susceptibilidade a distorções cognitivas?Se bem entendi, o que o artigo diz é que, muito embora a hipótese das escolhas racionais seja frequentemente questionada nos seus fundamentos, a feitura das leis não pode estar à espera que se confirme (ou infirme) essa possibilidade. Na falta de certezas quanto à possibilidade, avancemos com a plausibilidade. Isto é: aceitemos que as escolhas são racionais.
«Embora muitos investigadores estejam agora inclinados a aceitar que a estrita racionalidade não é ubíqua nem sequer sempre a mais útil assumpção comportamental para efeitos de formulação de matéria legislativa, isso não sugere que o oposto seja verdadeiro. Ou seja, é quase seguro que em muitas situações com relevância legal, muitos actores avaliam a informação de um modo relativamente não distorcido, tomam decisões que maximizam a sua utilidade esperada dada a informação disponível, e implicitamente medem a utilidade em termos do seu interesse egoista.»
(1) - em Portugal há quem prefira a designação de "Análise Económica do Direito" para a anglo-saxónica "Law & Economics".
Protestam os Italianos
| Segundo uma notícia do TCS, algumas associações de consumidores de Itália convocaram uma "greve à electricidade" para hoje, em protesto contra os aumentos de preços. De acordo com uma delas, a Federconsumatori, 1/3 dos italianos desligou a luz entre as 10:30 e as 11:35 h. Para este mesmo período foi convocada a "5ª Greve às Compras", segundo a qual as pessoas deveriam adiar pelo menos uma compra. Diz a mesma organização que a este "adiamento" aderiram 78 % dos italianos. Estas notícias despertam-me a curiosidade acerca de duas coisas, pelo menos: (1) Qual a vantagem - e o impacto - de apagar as luzes e adiar uma compra das 10:30 às 11:35 da manhã; (2) Como é que a Federconsumatori conseguiu apurar aquelas percentagens. Ela mesma esclarece esta última dúvida: "monitorando o acesso dos clientes aos super-mercados e através de entrevistas telefónicas aos consumidores. Está-se mesmo a ver - ouvir - a conversa telefónica: Federconsumatori - "Aqui fala da Federconsumatori; é para saber se adiou pelo menos uma compra, hoje, entre as 10:30 e as 11:35 da manhã?" Consumidor - "Ó filho, então não adiei?! Várias e a todas as horas, e desde há que meses!" |
Um sucesso de Professora

| «(...) Há 16 anos, o "Teach for America" não passava de uma ideia de uma veterana de Princeton, Wendy Kopp. Ela acreditou que o país precisava de uma organização à imagem do Peace Corps que atraísse formadores de qualidade para as salas de aula com miúdos pobres. Com esta ideia em mente, ela aventurou-se corajosamente para obter fundos, recrutar voluntários e encontrar directores de escolas que os contratassem. Koope experimentou as dificuldades e reviravoltas de tudo o que é inovador mas, um ano depois, já tinha 500 recrutas. Neste Verão, de mais uma vez uma nova classe de professores estará durante 5 semanas num instituto de formação para se preparar para as salas de aula. No Outono, apresentar-se-ão ao trabalho em algumas das mais difíceis escolas da América, classificadas pelo governo federal como "altamente necessitadas", e onde cerca de 95 % dos respectivos alunos pertencem a minorias. Cada membro do programa compromete-se com dois anos de ensino, pago pelos sistemas escolares locais com os mesmos valores dos restantes professores iniciantes; no fim deste serviço poderão qualificar-se para bolsas de estudo de 9.500 dólares. Como se pode imaginar, os cépticos abundaram ao longo desta caminhada: outros professores avisando que gente sem a formação usual para o ensino nunca poderá ter sucesso na sala de aula; cínicos que afirmam que se trata apenas de um punhado de "meninos" de elite que só pretendem arranjar um passe para estudar Direito ou Gestão e que virarão costas às reformas sociais. Bem: os descrentes simplesmente não percebem a nova geração. [Desde o seu início em 1990, o TFA providenciou mais de 10 mil docentes, cujo trabalho abrangeu mais de 1 milhão e meio de crianças] Há um ano, a organização Mathematica Policy Research (1) detectou que os alunos dos voluntários do Teach for America obtiveram melhores notas a matemática que os alunos de outros professores, incluindo docentes com muita experiência - e resultados idênticos em leitura (2). Em matemática, os alunos do TFA obtiveram um mês de avanço relativamente a outros alunos. Os resultados reflectem em parte o facto de 70 % dos voluntários do Teach for America serem oriundos das escolas com mais elevada cotação, comparativamente com menos de 3% para os outros professores. Os resultados reflectem igualmente a paixão que estes voluntários trazem para o seu trabalho.» David Gergen, "A Teacher Success Story" http://209.242.151.6/tfa/tfa_wm_small.wmv (se não arrancar, copie o endereço e abra no seu leitor Windows, se for o caso; outras opções aqui) (1) - Organização que ao longo de 35 anos tem conduzido alguns dos mais importantes estudos nos EUA sobre saúde, segurança social, educação, emprego, nutrição e políticas para a primeira infância; veja a respectiva página sobre Educação. (2) - resumo das conclusões. |
terça-feira, setembro 13, 2005
Blogosfera
| referências | visitas diárias | |
| 1.Instapundit.com | 4.819 | 171.348 |
| 2.Michelle Malkin | 3.697 | 122.362 |
| 3.Daily Kos: State of the Nation | 2.790 | 701.824 |
| 4.Captain's Quarters | 2.681 | 33.073 |
| 5.Power Line | 2.642 | 83.813 |
| 6.lgf: who blow up da owl? | 2.529 | 106.851 |
| 7.Boing Boing: A Directory of Wonderful Things | 2.447 | ? |
| 8.DRUDGE REPORT 2005® | 1.988 | ? |
| 9.Hugh Hewitt | 1.952 | 50.691 |
Fonte: TTLB Ecosfere System | ||
Preocupações dos investidores
| Já se encontra disponível o Boletim Mensal de Setembro do Banco Central Europeu, do qual citamos a seguinte passagem: |
Desde Maio de 2004, as classificações das obrigações soberanas também se alteraram, reflectindo preocupações por parte dos investidores financeiros quanto à deterioração das posições orçamentais de alguns países. O quadro mostra as classificações das obrigações soberanas por duas agências de notação de crédito: Standard & Poor's e Moody's. De acordo com a primeira, oito dos doze Estados-Membros da área do euro têm a notação AAA; enquanto a Bélgica tem a notação AA+, a Itália e Portugal têm a notação AA-, e apenas a Grécia tem a notação A. Entre Maio de 2004 e Agosto de 2005, as notações da Grécia, Itália e Portugal foram reduzidas, enquanto as classificações das obrigações soberanas para Espanha pelo Standard & Poor's foram revistas em alta. (...)
| Standard & Poor's | Moody's | |||
| Maio 04 | Agosto 05 | Maio 04 | Agosto 05 | |
| Bélgica | AA+ | AA+ | Aa1 | Aa1 |
| Alemanha | AAA | AAA | Aaa | Aaa |
| Grécia | A+ | A (Nov.04) | A1 | A1 |
| Espanha | AA+ | AAA (Dez.04) | Aaa | Aaa |
| França | AAA | AAA | Aaa | Aaa |
| Irlanda | AAA | AAA | Aaa | Aaa |
| Itália | AA | AA- (Jul.04) | Aa2 | Aa2 |
| Países Baixos | AAA | AAA | Aaa | Aaa |
| Áustria | AAA | AAA | Aaa | Aaa |
| Portugal | AA | AA- (Jun.05) | Aa2 | Aa2 |
| Finlândia | AAA | AAA | Aaa | Aaa |
Fonte: Bloomberg/BCE | ||||
Dylan

All along the watchtower
"There must be some way out of here,"
said the joker to the thief,
"There's too much confusion,
I can't get no relief.
businessmen, they drink my wine,
plowmen dig my earth,
none of them along the line
know what any of it is worth."
Consumidores reagem

| «O Fuel Lobby, o mesmo grupo que em 2000 provocou o caos nas estradas e nas bombas de gasolina inglesas, avisou durante o fim-de-semana levará a cabo um protesto nas refinarias inglesas entre as 6 horas de amanhã e o final do dia de sexta-feira. Os receios de uma nova crise de petróleo aumentaram ontem quando um porta-voz do Fuel Lobby apelou ao público para participar no protesto. Rumores de que o Governo planeia um sistema de racionamento da gasolina vieram também aumentar o pânico entre os condutores.» |
Efeitos secundários
| «Os incentivos oferecidos pelos ministérios do Trabalho e da Economia em complexas negociações para tentar demover multinacionais a despedir pessoal e deslocalizar a sua produção para o estrangeiro não estão, até agora, a resultar.»Esperemos que isto não seja um efeito secundário da demonstração demolidora do primeiro-ministro... |
segunda-feira, setembro 12, 2005
Sempre a descer... para cima ?
| O BdE cita uma frase de Vasco Barreto (no Memória Inventada), escrita para a revista académica "Natural Selections": |
«Portugal é um país que se manteve em declínio constante durante os últimos oito séculos, essencialmente desde o seu nascimento»
| Lendo-se o artigo, de que já saíu uma segunda parte, ficamos na dúvida sobre o alcance da afirmação. Por um lado parece referir-se à nossa tendência para a auto flagelação. Mas frequentemente também o artigo embarca na mesma comiseração: |
«Veja-se por exemplo a Filosofia. A contribuição seminal de Portugal para este campo ocorreu no século XVII, quando os pais do ainda não nascido Espinosa foram expulsos do país, seguindo para Amsterdão. Desde dentão a única contribuição de Portugal para o mundo da ideias foi o termo 'desenrascanço'.»
| Outra "descoberta" nesta onda é a de que o vinho do Porto é essencialmente uma criação inglesa em solo português. O artigo lista depois, sem critério aparente, alguns dos nossos heróis e feitos, para concluir que «Também parece evidente que os portugueses possuem uma notável capacidade para responder a desafios pontuais», dos quais elenca a reconstrução após o terramoto de 1755 e a Expo 98. Existe de facto em Portugal uma teoria do "sempre a descer" , muito visível no senso comum desde o a revolução de Abril. Cada ano é sempre "pior" que o anterior - apesar da evidência sobre a melhoria das condições de vida. Também é possível encontrar citações de notáveis pensadores e artistas de quase todos os séculos da nossa existência que se lamentam da comparação com certos aspectos do estrangeiro próximo. Mas não deixa de ser estranho que ainda exista, e que se situe no seio dos países desenvolvidos (1), um país que esteve em permanente declínio durante oito séculos. Só se esteve a descer... para cima. (1) - 27º no Índice do Desenvolvimento Humano, ver resumo em português (ficheiro zip + pdf) |
Debate sobre as Autarquias
| Algumas notas sobre o debate de há pouco na RTP1 ("Prós e Contras") sobre as Autarquias Locais: Paulo Morais - excelente intervenção na denúncia dos mecanismos de corrupção nas Câmaras através das relações perversas geridas pelas máquinas partidárias; disse que frequentemente as forças partidárias actuam como bandos que assaltam as autarquias; salientou o mecanismo de escolha dos candidatos para as eleições locais como estando submetido ao critério prévio do subjugamento ao "facilitismo" e corrupção; não explicou tão bem a suspeita de que só agora denunciou estas situações por ter ficado de fora das listas, mas aludiu a que o teria feito no interior da máquina partidária, sendo por isso eliminado das listas (é o problema do ovo ou da galinha). Maria José Morgado - para além de Paulo Morais, a única interveniente que verdadeiramente se centrou no problema da corrupção como sistema, e na corrupção das autarquias locais como tendo natureza endémica; respondeu bem ao desafio idiota de Fernando Ruas (do tipo: "ou aponta nomes ou cala-se") frisando que não se estava em tribunal mas sim num debate público; revelou a gravidade das investigações em curso; salientou que a resolução do problema não pode estar apenas no sistema policial; foi veemente, mas talvez não muito clara em algumas questões. António Nogueira Leite - o melhor interveniente, que mais pontos esclareceu e que foi mais claro na exposição; disse muito bem que quem viaja de Norte a Sul do país e observa os atentados urbanísticos só pode optar por uma de duas explicações: ou foram eleitos idiotas para as Câmaras, ou haverá algum problema maior (subentende-se: corrupção); referiu que existe um certo facilitismo em toda a sociedade e deu como exemplo a fuga à Sisa; explicou que uma das causas porque pessoas competentes não aceitam cargos públicos é a exposição e enxovalhamento (dando como exemplo os ministros das Finanças); denunciou as empresas públicas como mecanismos de desorçamentação e de fuga a vários controlos da despesa pública; revelou que o actual sistema de financiamento não permite ao eleitor distinguir, entre os autarcas que realizam obra, aqueles que delapidam as finanças e comprometem as gerações seguintes, dos que fazem uma gestão financeira responsável e sustentável. Joaquim Ferreira do Amaral - Uma das piores intervenções; ajudou a ocultar a raíz dos problemas apontando sempre a complexidade da legislação como a principal culpada da corrupção: uma boa ajuda que deu a Fernando Ruas; desdramatizou o problema dizendo que já esteve pior (por exemplo, o financiamento dos partidos), e também que era um problema que demoraria muito tempo a solucionar (ou seja: para se ir resolvendo...). Papel semelhante desempenhou um tal Rebordão Navarro, que foi buscar exemplos caricatos (o Ministério da Defesa é que licencia os vendedores de gelados nas praias...) para desviar o foco do assunto em discussão; (tudo estratégias de minimização de danos). Ferreira do Amaral exprimiu ainda a opinião de que se devia acabar com a figura das empresas públicas - para um gestor público, não está mal. Fernando Ruas - tentou a todo o transe o branqueamento da corrupção nas autarquias; usou sistematicamente o argumento de que só se devia falar em corrupção quando se podem apontar nomes (regra que, a ser aplicada, impediria a discussão; mas ele própoprio falou de perversidades nos contratos-programa entre governo e certas autarquias sem citar nomes); salientou os escassos casos de condenação efectiva de autarcas; admitiu que os presidentes das Câmaras criam empresas municipais para aproveitar a maior "agilidade" na realização de despesas, mas disse que a culpa era de quem fizera a lei. Entrou em contradição dizendo que as próprias Câmaras pedem mais fiscalização, e, noutro ponto, que as Câmaras são os organismos mais fiscalizados. Fátima Campos Ferreira - também esteve bem, conduzindo o debate com vivacidade e frisando a perversidade do mecanismo de corrupçaõ, centrado nos partidos e no seu financiamento, impedidndo reformas e leis que o corrijam. Um comentário final: quando um organismo tem uma doença grave, isso não significa que todas as suas células e órgãos estejam doentes; pode até ser uma minoria, mas a gravidade da situação pode colocar em perigo de vida o próprio organismo; analogamente, dizer que "haverá alguns autarcas corruptos mas há muitos mais honestos e por isso é injusto generalizar", ou que "não se deve falar a não ser de casos específicos de que se podem apontar culpados", ilude a gravidade deste problema: um problema que mina um órgão central da democracia - o sistema partidário e eleitoral - pondo em causa a sua capacidade de auto-correcção e sustentabilidade. |
Palpites
| Do livro de Sir Athur Conan Doyle, "A FAce Amarela" (citado em Digital Dialogues): |
Holmes - Então o que pensa da minha teoria ?
Watson - Não passam de palpites.
Holmes - Mas pelo menos cobre todos os factos. Quando surgirem factos novos que não sejam cobertos por ela, nessa altura poderemos reconsiderá-la.
Perguntar não custa
| Porque é que há tão poucos economistas eleitos? - pergunta o Environmental and Urban Economics. Refere-se aos EUA, bem entendido: |
«Gostaria de acreditar que seriam aprovadas "melhores" políticas se 44,6% dos membros do Congresso fossem economistas (1), mas pode esta hipótese ser testada? Podem os economistas melhorar as políticas públicas se apenas se limitam a ser conselheiros dos políticos? Poucos de nós acreditam que os políticos sejam benevolentes planeadores paretianos, mas os economistas mais proeminentes continuam a ir a Washington para "aconselhar". Não faz confusão?»
| Aqui está mais um que acredita no Pai Natal (1) - 44,6 % é a percentagem de advogados eleitos para o Congresso |
Nobelizáveis
«Kirzner merece ter em Outubro esse reconhecimento que até agora lhe escapou. Se tiver de o partilhar com William Baumol, que seja, mas se o prémio for atribuído a Baumol ignorando-se Kirzner, será uma injustiça intetelectual travestida.»
| Trata-se de gente do campo do empreendedorismo. Mas, se não puderem ser estes, Boettke adianta Jagdish Bhagwatti e Gordon Tullock. Já o Guardian adianta os seguintes favoritos: Robert Barro [economia internacional e crescimento], Jagdish Bhagwati [economia e comércio internacionais], Eugene Fama [mercados financeiros, bolsas], Paul Krugman [economia e comércio internacionais] ou Paul Romer [modelos de crescimento endógeno]. O Thompson Scientific Laureates - uma espécie de "short list" para os Nobel - seleccionou para 2005: |
Eugene F. Fama e Kenneth R. French - "pelas suas contribuições seminais para a compreensão entre os rendimentos das bolsas e as flutuações da actividade económica."
Robert J. Barro - "pelas suas contribuições pioneiras na macroeconomia empírica, em muitos campos, mas especialmente pelo trabalho sobre a dívida pública nos anos 70."
Paul Michael Romer - "pelo seu desenvolvimento de uma 'nova teoria do crescimento' que aborda uma questão fundamental em Economia: o que é que sustenta o crescimento económico num mundo caracterizado por rendimentos decrescentes e escassez."
| A Bolsa de Nobelizáveis, no entanto, não parece estar a ser actualizada. Entretanto os prémios IgNobel também se agitam - já há bilhetes à venda para a cerimónia, em Harvard, que inclui uma mini-ópera! |
Altos e baixos
| Turismo em alta: «Em Julho, as dormidas na hotelaria aumentaram 7,3%, em comparação com igual período de 2004. Este acréscimo resulta do aumento de 3,4% das dormidas dos residentes e do aumento de 9,3% registado nas dormidas dos não residentes. Os proveitos totais e de aposento apresentaram variações homólogas negativas, de -1,3% e -2,4%, respectivamente.» - INE, "Actividade turística". Construção em baixa: «No segundo trimestre de 2005, atenuou-se a tendência decrescente do número de edifícios concluídos e do número de edifícios concluídos de construções novas para habitação familiar.» - INE, "Obras concluídas". |
Katrina - a questão das compensações
| No Becker-Posner Blog discute-se a ajuda às vítimas do furacão Katrina. |
«Lá porque uma pessoa perde a sua casa numa inundação que destrói centenas de milhares de outras casas, em vez de um incêndio que destrói apenas essa casa, não é razão para que o contribuinte tenha de suportar essa perda. O facto de muita gente não recorrer a seguros contra inundações, tal como muitos californianos não recorrem a seguros contra terramotos, não é razão para ter de ser eu a suportar esse seguro. Excepto apenas se as pessoas não têm meios para pagar o seguro, ou se as seguradoras se recusarem a cobrir um determinado risco - nesses casos pode haver um argumento forte a favor da intervenção do Estado.»
(...)
«Não tenho qualquer objecção a que o governo compense as perdas dos muito pobres ou de qualquer forma incapazes de adquirir seguro, incluindo seguro de vida para as pessoas mortas nas inundações de Nova Orleães. A Segurança Social é um serviço utilitário legítimo. Mas a forma e limites dessas compensações devem ser similares às que são aplicadas pelo sector dos seguros. As pessoas não fazem seguros dos problemas emocionais causados pelo facto das suas casas e bens serem destruídos por um fogo, e nem o governo, portanto, o deve fazer através de programas de apoio em catástrofes.»
Richard Posner
«Eu creio que o melhor, para decidir quem merece ser compensado pela catástrofe, é aplicar às vítimas os mesmos critérios que são usados para determinar quem é elegível para os apoios sociais, assistência médica e outras transferências do governo. Por exemplo, as famílias que devido ao Katrina perderam a maior parte dos seus bens, ou ficaram desempregadas, ou ficaram doentes, qualificar-se-iam para um ou mais destes programas, independentemente das circunstâncias, antes do Katrina.
(...)
A vantagem do uso dos critérios habituais para programas públicos de auxílio é a de evitar algumas das questões com que se confronta Posner: poderiam as vítimas ter suportado os seguros?, estavam os seguros disponíveis?, e por aí fora. Uma vez que não fazemos estas ou similares perguntas a pessoas candidatas aos apoios da segurança social ou apoios médicos (e talvez devessem ser feitas), não vejo porque razão deverão ser colocadas apenas às vítimas das maiores catástrofes, como o Katrina. Além disso, a aplicação desses critérios usuais irá ao encontro das legítimas necessidades das pessoas profundamente atingidas pelo Katrina, e excluirá automaticamente os indivíduos que ficarão suficientemente bem sem a assistência federal»
Gary Becker
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Calcula-se, por exemplo, que 8 mil animais de laboratório, incluindo muitos cães e 16 macacos Rhesus, tenham perecido (ver 


«Lá porque uma pessoa perde a sua casa numa inundação que destrói centenas de milhares de outras casas, em vez de um incêndio que destrói apenas essa casa, não é razão para que o contribuinte tenha de suportar essa perda. O facto de muita gente não recorrer a seguros contra inundações, tal como muitos californianos não recorrem a seguros contra terramotos, não é razão para ter de ser eu a suportar esse seguro. Excepto apenas se as pessoas não têm meios para pagar o seguro, ou se as seguradoras se recusarem a cobrir um determinado risco - nesses casos pode haver um argumento forte a favor da intervenção do Estado.»
«Eu creio que o melhor, para decidir quem merece ser compensado pela catástrofe, é aplicar às vítimas os mesmos critérios que são usados para determinar quem é elegível para os apoios sociais, assistência médica e outras transferências do governo. Por exemplo, as famílias que devido ao Katrina perderam a maior parte dos seus bens, ou ficaram desempregadas, ou ficaram doentes, qualificar-se-iam para um ou mais destes programas, independentemente das circunstâncias, antes do Katrina.