| O "Iowa Gambling Task" é o "jogo de cartas" referido por António Damásio no seu livro "O Erro de Descartes" - uma experiência laboratorial que, segundo o próprio cientista, simula a actividade dos agentes económicos, onde doentes com disfunções no sistema emocional não conseguem "adivinhar" (ou melhor, intuir) as regras do jogo, ao contrário dos que não têm esse problema - já aqui referido. O "Iowa Gambling Task" foi desenvolvido para abordar e quantificar as falhas em tomadas de decisão de doentes neurológicos, ao simular decisões da vida real em condições de gratificação e castigo e incerteza, e para desenvolver as investigações acerca da Hipótese do Marcador Somático (HMS). Como ferramenta de investigação é neutra relativamente à consciência que os participantes possam ter, seja do Marcador Somático seja dos pressupostos da situação. ![]() Os participantes recebem 4 baralhos de cartas, um empréstimo de 2 mil dólares em notas facsimiladas, e pede-se-lhes para jogar, tirando as cartas uma a uma, de forma a ganhar o máximo de dinheiro. Tirar uma carta dá direito a um ganho imediato (100 dólares nos baralhos A e B, e 50 nos baralhos C e D). Imprevisivelmente, contudo, a tiragem de algumas das cartas resulta também numa perda (que é maior em A e B e menor em C e D). Escolher mais vezes os baralhos A e B conduz a uma perda global. Escolher mais vezes os baralhos C e D conduz a um ganho global. Os jogadores, que desconhecem estas regras, não podem prever quando é que uma perda ocorre, nem calcular com precisão o ganho ou perda líquida de cada baralho. Também não sabem quantas cartas podem tirar antes do jogo terminar (o jogo termina de facto ao fim de 100 cartas).Estas regras aparecem também referidas aqui e aqui. A experiência original é descrita neste artigo: "Deciding Advantageously Before Knowing the Advantageous Strategy". Curiosamente, não é dada designação ao teste nem usada a expressão "Marcador Somático", embora o mecanismo seja claramente descrito: |
«Na base destes resultados, sugerimos que a representação sensorial de uma situação que requer uma decisão, conduz a duas cadeias de eventos, largamente paralelas mas que interagem entre si. Numa delas, a representação sensorial da situação, ou dos factos evocados por ela, activam sistemas neurais que contêm conhecimento disposicional não declarativo, relacionado com a prévia experiência emocional do indivíduo quanto a situações similares (...) Na outra cadeia de eventos, a representação da situação gera (i) a recordação aberta de factos pertinentes, por exemplo várias opções de resposta e futuras consequências decorrentes de um dado curso de acção; e (ii) a aplicação de estratégias racionais a factos e opções. A nossa investigação indica que em participantes normais, a activação das tendências [biases] ocultas precede o raciocínio aberto sobre os factos disponíveis. Subsequentemente, as tendências ocultas podem apoiar o processo de raciocínio de modo cooperativo, ou seja, as tendências não decidem por si, mas antes facilitam o processamento eficiente de conhecimento e lógica necessário às decisões conscientes.»
| É curioso que num artigo científico recente, também de Damásio, "Investment Behavior and the Negative Side of Emotion", se coloque a hipótese de serem doentes com disfunções no sistema emocional os que mais ganham em simulações de investimentos arriscados. As conclusões parecem contradizer-se mas, na realidade, tratam-se de experiências diferentes e talvez não comparáveis. Mais recentemente, dois outros investigadores, Tiago Maia e James McClelland, reproduziram a experiência, mas em condições algo diferentes e apenas com pessoas sem lesões cerebrais, concluindo negativamente em relação à HMS: "A reexamination of the evidence for the somatic marker hypothesis". Tiago Maia - jovem cientista português - deu esta entrevista à "Ciência Hoje" onde acusa a investigação de Damásio de sofrer de "um problema metodológico grave". Damásio e os seus colegas responderam com o artigo "The Iowa Gambling Task and the somatic marker hypotesis: some questions and answers" onde reconhecem a validade e interesse da investigação de Maia e McClelland, mas refutam que ela coloque em causa a HMS: |
«Maia e McClelland concentram-se na quantidade de conhecimento consciente da situação que os participantes do jogo têm, enquanto que a HMS tem a ver com a presença ou ausência de um sinal relacionado com a emoção, conciente ou não, independentemente do conhecimento consciente da situação. Por exemplo, nós demonstrámos que doentes cujo conhecimento de uma situação é consciente e adequado podem decidir deficientemente. Nós colocamos a hipótese de que eles o fazem devido à falta (consciente ou não) de um sinal relacionado com a emoção, o Marcador Somático »
| Reportando-se às conclusões de Maia e McClelland de que "os participantes no jogo manifestam conhecimento das estratégias mais vantajosas, mais do que se comportam de modo vantajoso", António Damásio e colegas salientam que: |
«Esta importante descoberta é coerente com as dos economistas que há muito tempo reconhecem que os decisores muitas vezes se afastam das escolhas racionais, apesar do conhecimento prévio que os poderia conduzir noutras direcções.»


Calcula-se, por exemplo, que 8 mil animais de laboratório, incluindo muitos cães e 16 macacos Rhesus, tenham perecido (ver 





«Lá porque uma pessoa perde a sua casa numa inundação que destrói centenas de milhares de outras casas, em vez de um incêndio que destrói apenas essa casa, não é razão para que o contribuinte tenha de suportar essa perda. O facto de muita gente não recorrer a seguros contra inundações, tal como muitos californianos não recorrem a seguros contra terramotos, não é razão para ter de ser eu a suportar esse seguro. Excepto apenas se as pessoas não têm meios para pagar o seguro, ou se as seguradoras se recusarem a cobrir um determinado risco - nesses casos pode haver um argumento forte a favor da intervenção do Estado.»
«Eu creio que o melhor, para decidir quem merece ser compensado pela catástrofe, é aplicar às vítimas os mesmos critérios que são usados para determinar quem é elegível para os apoios sociais, assistência médica e outras transferências do governo. Por exemplo, as famílias que devido ao Katrina perderam a maior parte dos seus bens, ou ficaram desempregadas, ou ficaram doentes, qualificar-se-iam para um ou mais destes programas, independentemente das circunstâncias, antes do Katrina.
Mónica André tem em linha uma sequência de fotografias, com o título de "
