quinta-feira, setembro 29, 2005

E vivam os telemóveis!


O livrinho vermelho da competitividade

Surpresa!
O Relatório da Competitividade elaborado pelo Fórum de Davos coloca Portugal num honroso (como se diz na gíria futebolística) 22º lugar, e a subir! - um ganho de duas posições face ao ano anterior, e à frente da Irlanda (26º),da Espanha (29º) e da França (30º). Notícia no jornal "Público" (restrita a assinantes).

É um resultado paradoxal, numa altura em que vários indicadores da saúde económica nacional se degradam, mas é preciso ter em conta os movimentos dos outros países, bem como os critérios utilizados para a elaboração do ranking (disponíveis aqui) .

Para compreender este paradoxo, também ajuda uma olhadela pelo melhor que Davos cá encontrou:
      - liberdade de imprensa (4º lugar)
      - transferência de tecnologia (3º)
      - índice geral de tecnologia (20º)

e pelo que Davos viu de pior:
      - escassez de cientistas e engenheiros (49º)
      - desperdício de dinheiros públicos (58º)
      - formação do pessoal (59º)
      - estabilidade macro (64º)
      - centralização excessiva (70º)
      - excesso de burocracia (77º)
      - qualidade ensino (mat. e ciência) (81º)
      - expectativa de uma recessão (103º)

O "Público" também salienta que houve alterações da própria metodologia, com reforço da componente tecnológica. Logo aí Portugal fica a ganhar, dada a elevada taxa de penetração de telemóveis. Resta saber é se o facto de termos um telemóvel por cada português, ou uma grande liberdade de imprensa, vai atrair mais investidores...

Ranking da competitividade
 
País
 Posição
2005 
 Pontos
2005 
 Posição
2004 
 Finlândia
1
5,94
1
 EUA
2
5,81
2
 Suécia
3
5,65
3
 Dinamarca
4
5,65
5
 Taiwan
5
5,58
4
 Singapura
6
5,48
7
 Islândia
7
5,48
10
 Suíça
8
5,46
8
 Noruega
9
5,4
6
 Austrália
10
5,21
14
 Holanda
11
5,21
12
 Japão
12
5,18
9
 Reino Unido
13
5,11
11
 Canadá
14
5,1
15
 Alemanha
15
5,1
13
 Nova Zelândia
16
5,09
18
 Coreia do Sul.
17
5,07
29
 Emirados Árabes Unidos 
18
4,99
16
 Qatar
19
4,97
n/a
 Estónia
20
4,95
20
 Áustria
21
4,95
17
 Portugal
22
4,91
24
 Chile
23
4,91
22
 Malásia
24
4,9
31
 Luxemburgo
25
4,9
26
 Irlanda
26
4,86
30
 Israel
27
4,84
19
 Hong Kong
28
4,83
21
 Espanha
29
4,8
23
 França
30
4,78
27

quarta-feira, setembro 28, 2005

Patologias da ciência

«Theodore Sturgeon, um escritor americano de ficção científica, referiu uma vez que "95 % de todas as coisas é lixo". John Ioannidis, um epidemologista grego, não iria tão longe. A sua proposta fica pelos 50 %. Esse número, segundo crê, é uma estimativa razoável da quantidade de papers científicos que, eventualmente, se vem a verificar que estavam errados.»

«O Dr. Ioannidis, que trabalha na Universidade de Ioannina, no norte da Grécia, defende esta ideia no artigo "Why Most Published Research Findings Are False". A sua tese de que muitos artigos científicos apontam para conclusões falsas, não é nova. A Ciência é um processo darwiniano que avança tanto pela refutação como pela publicação. Mas até agora nunca ninguém tinha tentado quantificar o assunto.»

«O Dr. Ioannidis começou por olhar para estudos específicos, num paper publicado em Julho no Journal of the American Medical Association . Examinou 49 artigos de investigação publicados entre 1990 e 2003 em jornais médicos de larga divulgação. Cada um destes artigos tinha sido citado, mil vezes ou mais, por ourtros cientistas nos seus próprios papers. Contudo, 14 deles - quase um terço - foram mais tarde refutados por outros trabalhos. Alguns dos estudos refutados debruçavam-se sobre se a terapia de substituição hormonal era segura para as mulheres (primeiro era, depois já não era), se a vitamina E aumentava a saúde das coronárias (primeiro sim, e depois não) [...]»

«Tendo definido o problema, concebeu depois um modelo matemático para tentar levar em consideração e quantificar quais fontes de erro, algo igualmente já conhecido. Uma é a confiança pouco sofisticada na "significância estatística". Para ser considerado como estatisticamente significante um resultado, por convenção, tem de ter probabilidades inferiores a 1 em 20 de resultar do acaso. Mas aceitar este standard significa que ao examinarem-se 20 diferentes hipóteses ao acaso obter-se-á provavelmente um resultado estatisticamente significativo. Em campos onde milhares de possibilidades têm de ser consideradas, tais como a busca de genes que contribuem para uma determinada doença, muitos resultados aparentemente significativos acabarão por revelar-se errados.»

«Outros factores que contribuem para falsos resultados são amostras de pequenas dimensões, estudos que revelam resultados "fracos" (tais como remédios que resultam apenas num pequeno número de doentes) e estudos mal concebidos que permitem aos investigadores andar "à pesca" no meio dos dados até encontrarem qualquer tipo de relação, independentemnente do que é que estavam inicialmente a tentar provar. Preconceitos dos próprios cientistas, devidos quer à tenaz tentativa de provar uma teoria muito acarinhada, quer a interesses financeiros, podem igualmente distorcer os resultados.»

in The Economist

O artigo publicado no Journal of the American Medical Association é: "Contradicted and Initially Stronger Effects in Highly Cited Clinical Research"

Artigos relacionados:

  • "Error Types" - Douglas Allchin
  • "The Nature of Scientific Inquiry" - Lindley Darden
  • "The Epistemology of Error" - Douglas Allchin
  • "Scientific error and the ethos of belief" - Lorraine Daston
  • "Scientific Myth-Conceptions" - Douglas Allchin
  • "Normal Science, Pathologiacl Science and Psychometrics" - Joel Michell
  • "Paradigms Lost and Paradigms Found: Examples of Science Extraordinary and Science Patological: And How to Tell the Difference" - Nicholas J. Turro
  • "Pseudoscience", capítulo 11º do livro "How Are We to Know?", de Nils J. Nillson, onde se cita António Damásio: "O que poderia ser mais difícil de saber do que saber como sabemos ?" (What could be more difficult to know than to know how we know?)
  • terça-feira, setembro 27, 2005

    Brincar aos aviõezinhos

    «Não se desalojam os militares das suas bases», afirmou o coronel Carlos Barbosa, porta-voz da Força Aérea, a propósito das notícias de que o governo estaria a estudar a instalação de um aeroporto para companhias de baixo-custo num dos aeroportos aeródromos militares da Área Metropolitana de Lisboa (notícia no Jornal de Notícias). Isto apesar de, segundo o mesmo porta-voz, terem decorrido reuniões entre o governo e as autoridades militares sobre o assunto.

    É um episódio digno duma República das Bananas. Alguns destes aeroportos aeródromos (nomeadamente Sintra e Alverca) encontram-se sub-utilizados, chegando a decorrer nas suas pistas encontros regulares (semanais) de aeromodelistas. Temos pois que as pistas servem para os aviõezinhos telecomandados, mas não podem servir, segundo os militares, para aliviar o país da necessidade de mais um mega-investimento.

    O governo estuda o assunto, reune com os militares, diz aos jornais que está quase certo de que a ideia é para concretizar em breve - e depois os militares vêm dizer que recusam a ideia. Afinal que é que manda no país: os governo eleito ou os militares ?

    Como diria o Vasco Pulido Valente, o país está a ficar perigoso.

    Não há milagres


       Paola Subacchi

    «(...) No caso da Irlanda, o facto de se ter integrado numa zona económica maior, teve certamente um impacto positivo no processo de convergência. Mas o facto de se ser membro da UE não é suficiente, por si só, para garantir a rápida diminuição das diferenças em termos de níveis de vida. As políticas económicas desempenham um papel igualmente importante na aceleração da convergência, estabilizando a economia, diminuindo os défices correntes e orçamentais e aumentando a produtividade. Como a produtividade total dos factores é substancialmente mais baixa nos novos membros da UE do que na velha União Europeia, um uso mais eficiente dos recursos já antes disponíveis, tem potencial para reduzir as diferenças de rendimentos.»

    «O objectivo último será o de criar um ambiente favorável aos negócios e aumentar a confiança dos investidores, de modo a manter e aumentar os fluxos de investimento directo estrangeiro (IDE). Em anos recentes o IDE tem sido uma força maior por detrás do crescimento dos novos membros da UE, à medida que os investidores estrangeiros aproveitam as ondas de privatizações. Contudo, tudo aponta para o declínio do IDE à medida que as ofertas públicas se extinguem e aumenta a concorrência vinda de regiões com salários mais baixos na Europa e na Ásia. Como a formação de capital interno não é suficiente para substituir o IDE, são necessárias políticas macroeconómicas para assegurar que o fluxo de IDE é mantido ou mesmo acrescido.»

    Paola Subacchi
    "What does a larger EU mean for the
    European economy: Looking at 2005 and beyond
    "

    Coligações instáveis

    "Dynamic Processes of Social and Economic Interactions: On the Persistence of Inefficiencies", de Armando Gomes e Philippe Jehiel, publicado no Journal of Political Economy (Junho, 2005). Partindo de uma economia com um número finito de agentes e de estádios, simula-se a realização de coalizões.
    «Sempre que os agentes são incapazes de se comprometer com acções a realizar num futuro estádio (estando, por outro lado, livres de constrangimentos na sua capacidade de propor contratos pontuais arbitrários e na sua capacidade para reagir conjuntamente a um contrato proposto) a eficiência de longo prazo não é garantida. Os agentes tentam constantemente melhorar a sua capacidade negocial relativamente aos outros agentes, e isto pode constituir uma fonte de instabilidade e ineficiência»
  • Página de Armando Gomes na Wharton School - University of Pennsylvania
  • "Valuations and Dynamics of Negotiations", um paper de Armando Gomes com um modelo de negociações de três agentes, com ocorrência de externalidades.
  • Dicionário de calão

    "Dicionário aberto de calão e expressões idiomáticas", de José João Almeida.

    Conforme confessa o autor, este dicionário, que já conta com 4 mil entradas, "precisa descaradamente da sua colaboração". Portanto, não seja "calão" [ = mandrião, uma das entradas que ainda não consta do dicionário... ], e envie-lhe - por e-mail - as suas sugestões, que ele bem precisa [ porque diabo é que "69" se restringe a estar "metaforicamente ligado a actos homossexuais"? ]

    A ideia original está descrita aqui.
    Acerca do autor:
  • página na Universidade do Minho
  • E-mail: jj@di.uminho.pt
  • segunda-feira, setembro 26, 2005

    Novo aeroporto: mais do mesmo

    «Lisboa deverá ter um novo aeroporto dedicado às transportadoras aéreas de baixo custo, as denominadas ‘low-cost’. A convicção é do secretário de Estado do Turismo, que, em entrevista ao DE, revela que os estudos de viabilidade e a decisão final sobre a melhor localização deverão ser divulgados até final de Novembro. "A decisão será saber qual das alternativas", afirma Bernardo Trindade, acrescentando estar "muito empenhado" nesse trabalho. Alverca, Montijo, Figo Maduro e Sintra são os locais em análise.»

    Diário Económico

    Recorde-se que a localização, muito próximo de Lisboa, de um aeroporto para os voos ‘low-cost’ tem sido uma das hipóteses colocadas pelos defensores da manutenção do aeroporto da Portela, em alternativa a um novo grande aeroporto. Mais uma vez, o governo parece estar a tomar decisões avulsas e ainda sem que os estudos estejam concluídos. O governo já sabe que vai construir um aeroporto ‘low-cost’, só não sabe onde. Ridículo.

    Choque tecnológico inverso

    «As empresas de telecomunicações, media e tecnologias de informação (TMT) reduziram, entre 2001 e 2004, mais de 10 mil trabalhadores, em Portugal. A conclusão consta no estudo da Reportium XXI Consulting, segundo o qual, em 2004, o sector empregava 65 808 pessoas, menos 10 568 mil do que em 2001, o que aponta para uma redução de mão-de-obra de 3,8%. Ainda de acordo com a análise, que teve por base os resultados de mais de 440 empresas de TMT, até 2008, a tendência será de redução de postos de trabalho no sector.»

    Jornal de Notícias

    Dia D

    O blogue Indústrias Culturais acha que a "Dia D", a nova revista do Público que substituíu os suplementos "Economia" e "Computadores":
    «faz lembrar as Selecções do Reader's Digest ou a Executive Digest (creio que era esse o nome de uma publicação do grupo de Balsemão). Traz dicas e mais dicas (a lembrar o "Kulto" de domingo) e nada de análises, de coisas cheias que nos ensinem e levem a reflectir. E parece-me tratar-se de uma publicação género outsourcing.»
    Estou de acordo. Mas esse era precisamente um dos objectivos anunciados, conforme já escrevi aqui: «adivinha-se que, paralelamente aos artigos especializados, a revista procurará abranger um público mais amplo recorrendo a um marketing "pop".»

    De facto, artigos como «Chefes, mas poucas», «Filmes que todos os gestores devem ver», «7 regras para investir melhor», «Anti-stress: segredos para manter a chama do verão» parecem mais coisas da revista "Xis" (no offense). «Orofino abre o jogo» e «Etiqueta Financeira», então esses é mesmo abaixo-de-cão. Uma entrevista interessante, com Zhibin Gu, autor do livro Made in China, que fala da explosão económica da China.

    Referência para uma flash-interview com Medina Carreira, que indica quais os sites que mais consulta na Internet: em geral tudo muito institucional, mas especial referência a dois blogues: Abrupto e Grande Loja do Queijo Limiano.

    Trabalho, carreira, família, mulheres

    (Um pouco de música[1], para acompanhar a leitura do post)

    No Becker-Posner Blog, curiosa discussão acerca das universidades de elite e das carreiras profissionais de mulheres, a propósito do artigo do New York Times "Many Women at Elite Colleges Set Career Path to Motherhood". Diz Posner:
    «Embora não seja rigorosamente empírico [ou empiricamente rigoroso ?], o artigo confirma que é muito maior a percentagem de estudantes do sexo feminino que abandona o trabalho para tomar conta dos filhos, do que de estudantes do sexo masculino. Algumas retomam o trabalho depois de os filhos crescerem; outras trabalharão apenas em part-time, e outras nunca mais trabalharão, passando a dedicar o seu tempo à familia e a actividades cívicas. Um inquérito aos antigos alunos de Yale revelou que 90 % dos homens no escalão dos 40 anos ainda trabalhavam, percentagem que descia para 56 % nas mulheres. Um inquérito aos antigos alunos da Harvard Business School revelou que 31 % das mulheres que ali se tinham formado entre há 10 e 12 anos atrás, já não trabalhavam, enquanto que outros 31 % o fazia apenas em part-time.»
    Gary Becker contrapõe:
    «Até aos anos 1960, era mais provável que a opção por trabalhar fosse maior nas mulheres com menores qualificações do que nas altamente qualificadas. Esta tendência alterou-se abruptamente durante as décadas passadas, de tal forma que agora a propensão para trabalhar e o nível de educação estão directamente relacionados nas mulheres (tal como nos homens). Isto deve-se em parte ao facto das mulheres altamente qualificadas terem menor tendência para casar (...) O artigo do Times transmite a ideia de que esta tendência educação-trabalho se inverteu de novo em anos recentes; no entanto, embora a tendência se tenha atenuado, não existe evidência da sua inversão (segundo Casey Mulligan e Kevin Murphy, dois colegas que trabalharam extensivamente nas taxas de participação das mulheres na força de trabalho.»
    [1] Pavarotti canta "La donne è mobile" ['as mulheres são volúveis'] de Verdi, da ópera Rigoletto;

    La donna è mobile qual piuma al vento,
    muta d'accento e di pensiero.
    Sempre un amabile leggiadro viso,
    in pianto o in riso, è menzognero.
    È sempre misero chi a lei s'affida,
    chi le confida mal cauto il core!
    Pur mai non sentesi felice appieno
    chi su quel seno non liba amore!
    upload original:
    http://usuarios.lycos.es/elsilencioeterno/musica/pavarotti%20-%20la%20donna%20e%20mobile.mp3

    domingo, setembro 25, 2005

    Pensionistas

    «No final de 2005 a Caixa Geral de Aposentações (CGA) terá já ultrapassado o meio milhão de pensionistas. Para o ano que vem o número continuará a subir, obrigando o Estado a abrir os cordões à bolsa para que as contas da sua previdência não se desequilibrem. Assim, a contribuição do Orçamento do Estado (OE) para a CGA deverá ascender em 2006 a 3,7 mil milhões de euros, o valor que esta instituição estima ser necessário para assegurar o seu equilíbrio financeiro e, em última análise, o pagamento das pensões de aposentação e de sobrevivência aos antigos funcionários públicos e seus familiares.»

    Notícia do Semanário Económico

    Mercado ibérico

    «Dezenas de pescadores portugueses estão a optar por descarregar a faina nos portos da Galiza, onde conseguem vender o pescado a um preço superior ao da lota nacional, rentabilizando ainda a viagem com o abastecimento das embarcações com gasóleo espanhol.

    O presidente da Associação de Pescadores de Caminha, Venâncio Silva, explicou ao DN que se trata de embarcações de comprimento superior a 16 metros e que acabam por tirar partido da "melhor oferta" que conseguem obter, nomeadamente, no porto de Vigo. "Vende-se melhor o peixe, normalmente espada e tintureiras." Para além disso, quem lá vai aproveita para abastecer de gasóleo e gelo, que nesta altura está bastante mais barato do lado espanhol", explicou Venâncio Silva.»

    Notícia do Diário de Notícias

    Crescer a pulso

    «O Governo está a construir o Orçamento do Estado para 2006 com base num crescimento económico de 1%, o que deverá exigir cortes no investimento público, já que o Executivo compromete-se a apresentar um défice orçamental de 4,6% do PIB, após correcção em alta do produto de 2005. No Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), a fasquia estava nos 4,8%. No próximo ano, o défice público terá a mais esforçada redução prevista no PEC, atingindo dois mil milhões de euros. (...)

    Os economistas parecem aceitar esta previsão, mas sem grandes convicções. "Trata-se de uma previsão razoável, já que existe uma componente bastante forte de incerteza na economia internacional", afirma João Ferreira do Amaral, docente universitário. "Parece-me demasiado optimista", afirma João César das Neves, admitindo, no entanto, "que esse número" - o crescimento do PIB em 1% - "é razoável para ser usado na construção do Orçamento do Estado".»

    Notícia do Diário de Notícias

    Dívida dos países mais pobres

    «O comité do Banco Mundial deu hoje luz verde à anulação da dívida multilateral de várias dezenas de milhões de dólares dos países mais pobres do planeta (...) O FMI tinha já dado ontem o seu acordo à anulação da dívida. O projecto envolve 40 mil milhões de dólares relativos à dívida dos 18 países mais pobres do planeta ao banco Mundial, FMI e ao Banco Africano de Desenvolvimento. "Chegámos a um acordo sobre todos os elementos" relativos ao FMI, afirmou perante a imprensa o presidente do comité monetário e financeiro da instituição, Gordon Brown.»

    Notícia do Público

    Conferência de imprensa do Comité de Desenvolvimento do Banco Mundial

    Finlândia, Irlanda e Portugal

    No jornal Público de hoje, um trabalho da jornalista Cristina Ferreira sobre um estudo da economista Susana Santos, comparando os modelos de desenvolvimento da Finlândia, Irlanda e Portugal:
    «Depois de se juntar à CEE, em 1973, a Irlanda optou por medidas de captação de investimento externo e apostou na formação. A partir da sua entrada em 1986, Portugal contruíu infraestruturas. E a Finlândia, que aderiu em 1995, criou incentivos públicos à inovação e investigação.»
    No entanto, segundo o economista Medina Carreira, esses modelos seriam hoje "dificilmente repetíveis":
    «Provavelmente hoje um investidor já não vai para a Irlanda, mas sim para a Roménia ou para a Ásia, onde vigoram custos de produção imbatíveis.»

    sábado, setembro 24, 2005

    Publicações científicas

    Artigo do Economist sobre The paperless library: «o livre acesso aos resultados científicos está a mudar as práticas de investigação»:

    «(...) De acordo com um relatório de OCDE, cerca de 75 % das revistas académicas encontram-se já on-line. Novos modelos de negócios estão a emergir: três dos principais foram identificados pelos autores daquele relatório. Há o designado big deal, em que os subscritores institucionais pagam pelo acesso ao conteúdo das revistas. Existe a publicação com acesso livre, geralmente suportada pelo autor (ou pelo seu patrão) que paga para que o paper seja publicado. Finalmente, existem os arquivos de acesso livre, em que organizações tais como universidades ou laboratórios internacionais suportam os fundos documentais institucionais. Existem outros modelos que são híbridos destes três, tal como acesso livre retardado, em que durante os primeiros seis meses só os subscritores têm acesso, tornando-se depois o acesso livre.

    «Tudo isto pode mudar o tradicional processo de revisão de artigos [ peer-review process, "revisão pelos pares" ], pelo menos para a sua publicação. O processo é organizado pelas revists mas conduzido, gratuitamente, pelos académicos. As vantagens oferecidas pela Internet traduzem-se em que os dados primários estão a ser disponibilizados gratuitamente on-line. Na realidade, com frequência o artigo on-line tem um link directo para eles. Isto significa que as descobertas são mais facilmente replicadas e verificadas por outras equipas de investigação. Além disso, a publicação on-line permite que outros comentem os trabalhos. A investigação está também a tornar-se mais colaborativa de tal forma que, mesmo antes de estarem terminados, os artigos já foram revistos por vários autores.»

    O relatório referido, acabado de publicar pela OCDE, é o seguinte: "Digital broadband content: Scientific publishing" (pdf, 106 páginas, 698 Kb)

    Choque tecnológico

    O jornal Público refere que 16 escolas politécnicas perderam mais de metade dos caloiros em dois anos, havendo algumas que contam neste momento apenas com 10 a 12 % das vagas atribuídas. As áreas mais atingidas são as engenharias, as tecnologias, a gestão e a contabilidade. Em contrapartida, "houve um engarrafamento de candidatos nos cursos que não exigiam a matemática como prova de ingresso".

    Segundo o jornal, a criação de uma nota mínima de 9,5 valores em provas de ingresso pode ajudar a explicar esta tendência. O interior e as cidades pequenas de regiões pobres são as mais afectadas, e algumas escolas poderão estar em risco de fechar.

    Ranking das perdas
    Escolas 2005/2003 

    Var%
    Colocados
    2005

    Var%
     Ocupação 
    2004
    média
    mínima
    provas
     ingresso 
     I.S. Contab. e Adm. Lx- 84,312,993,7
     I.S. Contab. e Adm. Aveiro- 84,110,591,2
     E.S. Tecnologia Barreiro- 76,215,072,5
     E.S. Tecnologia Setúbal- 71,720,565,0
     E.S. Contabilidade Coimbra- 70,121,977,9
     E.S. Engenharia Coimbra- 67,117,988,7
     E.S. Agrária Beja- 60,222,887,4
     E.S. Gestão, Hot. Tur. Portimão- 58,839,2101,1
     E.S. Agrária P. de Lima- 58,530,092,9
     E.S.Tecn. e Gestão Bragança- 58,419,678,9
     E.S. Gestão Santarém- 56,736,380,8
     E.S.C. Empresariais Setúbal- 56,642,590,4
     E.S. Agrária - Santarém- 56,223,785,2
     E.S. Agrária Castelo Branco- 54,728,682,0
     E.S.Tecn. e Gestão Beja- 54,028,671,7
     E.S.Tecn. e Gestão V. Castelo- 53,739,180,1

    Eis, talvez, o verdadeiro "choque tecnológico".

    De touca e avental...

    O Público on-line inclui hoje a notícia Neurobiologia pode ser a ponte entre doentes incomunicáveis e o mundo, a propósito da vinda a Lisboa do neurobiólogo Niels Birbaumer, que vai estar hoje na Feira Internacional de Lisboa, no Congresso da Sociedade de Psicofisiologia. A certo passo refere-se:
    «Em 2000, o resultado do trabalho de uma equipa do Centro de Investigação Comum da Comissão Europeia, em Ispra, Itália, da qual fazia parte o português João Gonçalves, fez furor na cadeia televisiva BBC, porque provou que não era preciso usar as mãos para trabalhar com o computador. Bastava pensar.»
    Tenho estado a pensar nisto, frente ao computador, mas não aconteceu nada. Depois é que percebi que, para além de pensar, requeria-se também:
    «Uma touca com eléctrodos que lê os nossos desejos, interpretados através das ondas de um electroencefalograma, e um software materializava essa vontade no ecrã de um computador.»

    sexta-feira, setembro 23, 2005

    Castigo altruísta

    As investigações - e descobertas - da "neuroeconomia" e da "neurociência cognitiva" podem ter aplicação em muitas das actuais áreas curriculares; na realidade, em todo o campo das denominadas ciências sociais: Economia, Sociologia, Direito, Antopologia, etç.

    O artigo científico "The Neural Basis of Altruistic Punishment ", de Quervain e outros, descreve mais uma experiência que encontrou evidência acerca do comportamento designado como "castigo altruísta" - ou seja, de que o ser humano obtém prazer com a punição daqueles que violam as normas sociais, mesmo incorrendo ele próprio em custos. A mecânica da experiência encontra-se descrita aqui.

    As implicações deste tema na Economia são evidentes: já que a teoría económica dominante assenta no pressuposto do comportamento individualista egoísta. Outras correntes, como o institucionalismo, admitem que o comportamento individual se possa submeter ao interesse colectivo: o que é coerente com o castigo altruísta. Mas o Direito também beneficia destas investigações, que poderão explicar comportamentos como a vingança. Estudos de Antropologia, por outro lado, referem que a vingança é o motivo para a guerra mais frequentemente referido por guerreiros tribais (artigo).

    O "castigo altruísta" tem sido objecto de muita literatura científica, podendo referir-se:

  • "The Economics of Altruistic Punishment and the Demise of Cooperation", onde se sugere que "o castigo altruísta é importante na evolução da cooperação [mas] apenas em combinação com outros factores indutores de cooperação, tais como a reputação e a reciprocidade ou a possibilidade de desistir.

  • "The evolution of altruistic punishment": "em experiências laboratoriais as pessoas castigam os não-cooperadores à custa deles próprios, mesmo em interacções pontuais, e os dados etnográficos sugerem que este castigo altruísta ajuda a manter a cooperação nas sociedades humanas."

  • "Altruistic Punishment and the Origin of Cooperation"

  • "The Economics of Altruistic Punishment and the Demise of Cooperation", onde se refere que a "decisão de punir decorre de uma amálgama de respostas emocionais e análise cognitiva custo-benefício", e que "a economia do castigo altruísta conduz ao fim da cooperação quando o castigo é relativamente caro e/ou tem fraco impacto".

  • "Altruistic Punishment in Humans"
  • quinta-feira, setembro 22, 2005

    Economia da família

    O culpado disto terá sido Gary Becker, que no seu "Treatise of the family" dedica um capítulo à "Poligamia e monogamia nos mercados de casamento", embora já o Engels tivesse aplicado ao casamento as "leis" da economia marxista, em "A origem da família, da propriedade privada e do Estado" (1).

    Agora é Theodore C. Bergstrom que se debruça sobre o assunto em "On the Economics of Polygyny" (pdf):
    «Das 1170 sociedades registadas por Murdock no seu "Ethnographic Atlas", a poliginia (alguns homens tendo mais do que uma mulher) é prevalecente em 850. Além disso, a nossa própria sociedade está longe de ser completamente monogâmica. Cerca de 1/4 de todas as crianças nascidas nos EUA em 1990 tinham mães solteiras que não coabitavam com os pais. Apesar dos casamentos simultaneos com multiplos parceiros não serem oficialmente reconhecidos, o divórcio e "re-casamento" conduz a um padrão comum de "poligamia em série", na qual os homens voltam a casar mais frequentemente do que as mulheres e, também mais frequentemente do que acontece com as mulheres, têm filhos de mais do que uma companheira.»
    Partindo da assunção básica - certamente inspirada nas teorias evolucionistas - de que os indivíduos desejam aumentar o número dos seus descendentes em face da escassez de recursos - Bergston desenvolve um modelo matemático que o leva a algumas conclusões curiosas, nomeadamente:
    «Numa sociedade que permita a poligamia e direitos de propriedade estáveis, haverá usualmente preços positivos para as noivas e alguns casamentos polígamos. Nessas sociedades, os preços das noivas não irão para as noivas, mas para os seus familiares masculinos e todas as mulheres serão alocadas com o mesmo montante de recursos pelos seus maridos. Quanto maiores forem os recursos disponíveis em média, na sociedade, por cada mulher, mais elevados serão os preços das noivas e maiores os recursos alocados a cada mulher. Todavia, nas sociedades com baixos montantes de recursos por mulher, em vez de preços positivos por noiva existirão dotes pagos directamente ao casal.»
    Textos relacionados:
  • "Education and Hypergamy in Marriage Markets"
  • "The Economics of Love and Marriage"
  • "The Role of Domestic Abuse in Labor and Marriage Markets: Observing the Unobservables"

    Outras obras de Theodore C. Bergstrom:
  • "An Evolutionary View of Family Conflict and Cooperation"
  • "Does mother nature punish rotten kids?" (1999)
  • "Marriage Markets and Bargaining Between Spouses"
  • "Primogeniture, Monogamy, and Reproductive Success in a Stratified Society"
  • "Demographics and the Political Sustainability of Pay-as-you-go Social Security"
  • "Benefit-Cost in a Benevolent Society"
  • "Extracting Valuable Data from Classroom Trading Pits"


    (1) - é neste livro que se desenvolve a tese de que, nas sociedades burguesas, o homem passou a dominar as mulheres por motivos económicos, mantendo-as fechadas em casa como garantia de que a herança seria transmitida a filhos legítimos ("filhos do pai"); em compensação, e uma vez derrotadas, as mulheres coroaram os vencedores com... um belo par de cornos.
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