sexta-feira, setembro 16, 2005

Taxas de imposto

Steven J. Davis e Magnus Henrekson realizaram o estudo:

"Tax Effects on Work Activity, Industry Mix and Shadow Economy Size: Evidence from Rich-Country Comparisons"

(de Junho de 2004), onde avaliaram as respostas de longo prazo a diferentes taxas de imposto sobre os rendimentos do trabalho e despesas de consumo, tendo concluído que taxas de imposto mais elevadas conduzem a menos horas de trabalho no mercado, mais horas de trabalho no sector doméstico, ao aumento da economia paralela e à diminuição do valor acrescentado e do emprego nas actividades que se apoiam em baixos salários e menores qualificações laborais:
«A teoria diz que taxas de imposto mais elevadas levam à redução do tempo de trabalho no mercado, aumentam a dimensão da economia paralela, alteram a estrutura do mercado e distorcem a procura de trabalho de uma forma que amplifica os efeitos negativos no trabalho assalariado, concentrando os efeitos nos menos qualificados.

As regressões que efectuámos sobre amostras de dados recolhidos nos países desenvolvidos, nos anos 90, mostram que um desvio padrão de 12,8 pontos percentuais leva a menos 122 horas de trabalho por adulto e por ano, a uma queda de 4,9 pontos percentuais no rácio emprego-população, e a um crescimento da economia oculta equivalente a 3,8 % do PNB. Também conduz a uma quebra de 10 a 30% no emprego e valor acrescentado dos sectores: (a) comércio a retalho e reparações; (b) comidas, bebidas e alojamento; (c) um sector mais amplo que engloba o comércio por grosso e o comércio automóvel.»
   (Via Talking Points)

quinta-feira, setembro 15, 2005

Dívida directa do Estado

«A dívida directa do Estado totalizava 99.634 milhões de euros no final de Agosto, informou hoje o Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP), mais 13,9 % do que no mesmo período do ano anterior. Em relação a Julho houve um aumento de 2,4 por cento, no total de 2.337 milhões de euros. Este acréscimo resultou basicamente da colocação, através de leilão, da Obrigação do Tesouro Abril 2015, no montante de 900 milhões de euros, e da emissão de bilhetes do Tesouro, no total de 1.293 milhões de euros.

A dívida directa do Estado é relativa apenas a este subsector, um dos que integra as Administrações Públicas, a par dos serviços e fundos autónomos, da administração regional e local e da segurança social. Para efeitos de cálculo da dívida pública em relação ao PIB tem de se considerar a dívida consolidada de todas as Administrações Públicas. Por exemplo, no final de 2004, a dívida directa do Estado ascendeu a 90.739,1 milhões de euros, correspondente a 67,2 por cento do PIB desse ano, enquanto a das Administrações Públicas atingiu 83.577,7 milhões de euros, equivalente a 61,9 por cento do PIB.»

Dívida pública 1998-2005
AnoMontante
milhões €
 Agosto 200599 634
 Julho 200597 297
 Junho 200595 437
 Maio 200594 234
 Abril 200593 880
 Março 200592 761
 Fevereiro 200592 767
 Janeiro 200591 993
 Dezembro 200490 739
 Dezembro 200383 377
 Dezembro 200279 475
 Dezembro 200172 450
 Dezembro 200066 176
 Dezembro 1999
62 856
 Dezembro 199858 347
Fonte: Agência Lusa

A Economia do Rock

«A música é frequentemente inspirada por emoções poderosas: amor, desejo, traição, corações desfeitos e... Economia?

Quando pensa na sua cação favorita, que conceitos económicos encontra expressos na respectiva letra?»


The Economics of Rock

Este foi o mote para um concurso organizado pelo "Federal Reserve Bank of Cleveland", sobre ensaios escolares subordinados ao tema: "A Economia do Rock"

A vencedora foi Gina Masarik, com um ensaio sobre a canção "Diamonds Are a Girl's Best Friend", de Marilyn Monroe, onde a aluna da "Wadsworth High School" encontra a equivalência das três funções básicas da moeda: meio de troca, unidade de conta, reserva de valor. «Um beijo pode ser magnífico, mas não paga a renda. Embora um beijo não seja aceite como meio de pagamento e portanto não sirva como meio de troca, um diamante pode.» (etç.)

O tema do ano anterior, 2004, tinham sido os filmes, tendo vencido Anna Dev com um ensaio sobre "Moeda e Bancos no filme Mary Poppins":«A visita das crianças ao banco dura menos de 10 minutos no filme e, no entanto, nesses 10 minutos o filme introduz os espectadores nos conceitos económicos fundamentais. O valor temporal do dinheiro e os juros compostos são introduzidos sob a forma de uma canção pelo idoso sr. Dawes, "um gigante no mundo da Finança". Acompanhado por um coro de outros banqueiros, o senhor Dawes tenta, com uma canção, convencer Michael da sabedoria em depositar numa conta bancária a sua modesta moeda, explicando a relação entre poupança e investimento, mostrando como as poupanças "prudentemente investidas pelo banco" financiarão investimentos como "caminhos de ferro em África, canais e plantações de chá. Michael recusa e pede a suamoeda de volta, entrando em luta com Dawes. Quando os outros clientes ouvem Michael a gritar "devolva-me o meu dinheiro", pensam que o banco está insolvente e o pânico que se segue desencadeia uma corrida aos depósitos e a bancarrota.»

Também ficou bem colocado um ensaio sobre "O Senhor dos Anéis - Uma Epopeia de Oferta e Procura": «a natureza única do Anel resulta da quase perfeita rigidez da oferta: mais nenhum anel, poderoso como aquele, pode ser fabricado.»

Propriedade

"A Theory of Property", de Abraham Bell e Gideon Parchomovsky
[ficheiro pdf; 443 KB]

Artigo que propõe uma teoria unificada da propriedade, baseada na perspectiva do Direito.

Distorções judiciais

Keith Sharfman avaliou algumas decisões judiciais relativas à avaliação de activos, no contexto de disputas de falências de empresas. Nestas situações, usualmente uma das partes sugere um valor elevado para esses activos, e a outra parte um valor baixo. O investigador encontrou evidência de uma distorção favorável aos devedores, por parte dos juízes responsáveis pelas decisões de valoração.

As conclusões constam do artigo "Judicial Valuation Behavior: Some Evidence From Bankruptcy": nos casos analisados, 65,2% dos valores em disputa foram alocados aos devedores, enquanto que apenas 34,8% o foram para os credores. O estudo conclui pela possibilidade de existir um preconceito pro-devedores por parte dos juízes, o que está de acordo com a teoria comportamentalista:
«A corrente teórica comportamentalista defende que os decisores judiciais tendem a valorar mais as perdas do que os ganhos, e que as aparentes anomalias na valoração legal podem ser melhor compreendidas em termos de "aversão a perdas" [loss aversion] (1) ou "preservação do status quo" [status quo preservation] (...) de acordo com esta tese, os juízes e júris tenderão, mantendo-se o resto constante, a sub-valorar os direitos legais da acusação e sobre-valorar os direitos da defesa relativamente a qualquer padrão de valoração "objectiva", tal como o valor de mercado.»
Num outro artigo, "Valuation Averaging: A New Procedure for Resolving Valuation Disputes, Sharfman propõe a utilização, pelos tribunais, de um mecanismo objectivo de valoração, baseado num algoritmo utilizado por algumas empresas privadas.


(1) - Um estudo muito citado sobre a aversão a perdas é "Loss Aversion and Riskless Choice: A Reference Dependent Model" de Tversky e Kahneman (1991), onde se defende que "perdas e desvantagens têm maior impacto nas preferências do que ganhos e vantagens". A Science Decision News define que um indivíduo tem "aversão a perdas" se lhe desagradarem apostas simétricas (probabilidade de ganhar igual à probabilidade de perder) e se, além disso, o desagrado aumentar com o valor absoluto da aposta.

Em português encontra-se uma pequena apresentação desta teoria neste texto de Carlos Albuquerque (ver na página 9, "Aversão à Realização de Perdas")

Link para este post:
http://puraeconomia.blogspot.com/2005/09/distores-judiciais.html

quarta-feira, setembro 14, 2005

Más notícias

«Portugal está a perder competitividade frente aos principais parceiros comerciais, nomeadamente com a Espanha, apesar do salário anual do empregado português ser metade do auferido pelo trabalhador por conta de outrem na UE a 15. A explicação é que, apesar de baixas, as remunerações e os custos unitários do trabalho estão a subir a um ritmo superior ao da União, encarecendo os produtos fabricados, de acordo com um estudo divulgado pelo Gabinete de Estratégia e Estudos (GEE), do Ministério da Economia. (...)»
(Diário de Notícias)

Possibilidade e plausibilidade

Na Florida State University Law Review, o artigo "Possibility and Plausibility in Law and Economics", de Russell Korobkin:
«A generalizada aceitação atingida pela abordagem comportamental do Direito e Economia (1) à análise das leis, levanta uma importante questão metodológica aos académicos do Direito e Economia. Para efeitos de formulação de recomendações de políticas, como deve o investigador determinar se deve pressupor um estrito comportamento de escolhas racionais, ou algo mais consistente com a teoria da decisão comportamental, tal como a racionalidade limitada ou susceptibilidade a distorções cognitivas?

«Embora muitos investigadores estejam agora inclinados a aceitar que a estrita racionalidade não é ubíqua nem sequer sempre a mais útil assumpção comportamental para efeitos de formulação de matéria legislativa, isso não sugere que o oposto seja verdadeiro. Ou seja, é quase seguro que em muitas situações com relevância legal, muitos actores avaliam a informação de um modo relativamente não distorcido, tomam decisões que maximizam a sua utilidade esperada dada a informação disponível, e implicitamente medem a utilidade em termos do seu interesse egoista.»
Se bem entendi, o que o artigo diz é que, muito embora a hipótese das escolhas racionais seja frequentemente questionada nos seus fundamentos, a feitura das leis não pode estar à espera que se confirme (ou infirme) essa possibilidade. Na falta de certezas quanto à possibilidade, avancemos com a plausibilidade. Isto é: aceitemos que as escolhas são racionais.
 
 (1) - em Portugal há quem prefira a designação de "Análise Económica do Direito" para a anglo-saxónica "Law & Economics".

Protestam os Italianos

Segundo uma notícia do TCS, algumas associações de consumidores de Itália convocaram uma "greve à electricidade" para hoje, em protesto contra os aumentos de preços. De acordo com uma delas, a Federconsumatori, 1/3 dos italianos desligou a luz entre as 10:30 e as 11:35 h. Para este mesmo período foi convocada a "5ª Greve às Compras", segundo a qual as pessoas deveriam adiar pelo menos uma compra. Diz a mesma organização que a este "adiamento" aderiram 78 % dos italianos.

Estas notícias despertam-me a curiosidade acerca de duas coisas, pelo menos: (1) Qual a vantagem - e o impacto - de apagar as luzes e adiar uma compra das 10:30 às 11:35 da manhã; (2) Como é que a Federconsumatori conseguiu apurar aquelas percentagens. Ela mesma esclarece esta última dúvida: "monitorando o acesso dos clientes aos super-mercados e através de entrevistas telefónicas aos consumidores.

Está-se mesmo a ver - ouvir - a conversa telefónica:
Federconsumatori - "Aqui fala da Federconsumatori; é para saber se adiou pelo menos uma compra, hoje, entre as 10:30 e as 11:35 da manhã?"
Consumidor - "Ó filho, então não adiei?! Várias e a todas as horas, e desde há que meses!"

Um sucesso de Professora


«(...) Há 16 anos, o "Teach for America" não passava de uma ideia de uma veterana de Princeton, Wendy Kopp. Ela acreditou que o país precisava de uma organização à imagem do Peace Corps que atraísse formadores de qualidade para as salas de aula com miúdos pobres. Com esta ideia em mente, ela aventurou-se corajosamente para obter fundos, recrutar voluntários e encontrar directores de escolas que os contratassem. Koope experimentou as dificuldades e reviravoltas de tudo o que é inovador mas, um ano depois, já tinha 500 recrutas.

Neste Verão, de mais uma vez uma nova classe de professores estará durante 5 semanas num instituto de formação para se preparar para as salas de aula. No Outono, apresentar-se-ão ao trabalho em algumas das mais difíceis escolas da América, classificadas pelo governo federal como "altamente necessitadas", e onde cerca de 95 % dos respectivos alunos pertencem a minorias. Cada membro do programa compromete-se com dois anos de ensino, pago pelos sistemas escolares locais com os mesmos valores dos restantes professores iniciantes; no fim deste serviço poderão qualificar-se para bolsas de estudo de 9.500 dólares.

Como se pode imaginar, os cépticos abundaram ao longo desta caminhada: outros professores avisando que gente sem a formação usual para o ensino nunca poderá ter sucesso na sala de aula; cínicos que afirmam que se trata apenas de um punhado de "meninos" de elite que só pretendem arranjar um passe para estudar Direito ou Gestão e que virarão costas às reformas sociais. Bem: os descrentes simplesmente não percebem a nova geração. [Desde o seu início em 1990, o TFA providenciou mais de 10 mil docentes, cujo trabalho abrangeu mais de 1 milhão e meio de crianças]

Há um ano, a organização Mathematica Policy Research (1) detectou que os alunos dos voluntários do Teach for America obtiveram melhores notas a matemática que os alunos de outros professores, incluindo docentes com muita experiência - e resultados idênticos em leitura (2). Em matemática, os alunos do TFA obtiveram um mês de avanço relativamente a outros alunos. Os resultados reflectem em parte o facto de 70 % dos voluntários do Teach for America serem oriundos das escolas com mais elevada cotação, comparativamente com menos de 3% para os outros professores. Os resultados reflectem igualmente a paixão que estes voluntários trazem para o seu trabalho.»

David Gergen, "A Teacher Success Story"

Video promocional do "Teach for America" aqui:
http://209.242.151.6/tfa/tfa_wm_small.wmv
(se não arrancar, copie o endereço e abra no seu leitor Windows, se for o caso; outras opções aqui)

(1) - Organização que ao longo de 35 anos tem conduzido alguns dos mais importantes estudos nos EUA sobre saúde, segurança social, educação, emprego, nutrição e políticas para a primeira infância; veja a respectiva página sobre Educação.
(2) - resumo das conclusões.

Querem Estado mínimo? Depois queixem-se!...

terça-feira, setembro 13, 2005

Blogosfera

Blogues com maior número de referências

 referênciasvisitas diárias
 1.Instapundit.com
4.819171.348
 2.Michelle Malkin3.697122.362
 3.Daily Kos: State of the Nation2.790701.824
 4.Captain's Quarters2.68133.073
 5.Power Line2.64283.813
 6.lgf: who blow up da owl?2.529106.851
 7.Boing Boing: A Directory of Wonderful Things2.447?
 8.DRUDGE REPORT 2005®1.988?
 9.Hugh Hewitt1.95250.691

Fonte: TTLB Ecosfere System

Preocupações dos investidores

Já se encontra disponível o Boletim Mensal de Setembro do Banco Central Europeu, do qual citamos a seguinte passagem:
Desde Maio de 2004, as classificações das obrigações soberanas também se alteraram, reflectindo preocupações por parte dos investidores financeiros quanto à deterioração das posições orçamentais de alguns países. O quadro mostra as classificações das obrigações soberanas por duas agências de notação de crédito: Standard & Poor's e Moody's. De acordo com a primeira, oito dos doze Estados-Membros da área do euro têm a notação AAA; enquanto a Bélgica tem a notação AA+, a Itália e Portugal têm a notação AA-, e apenas a Grécia tem a notação A. Entre Maio de 2004 e Agosto de 2005, as notações da Grécia, Itália e Portugal foram reduzidas, enquanto as classificações das obrigações soberanas para Espanha pelo Standard & Poor's foram revistas em alta. (...)
 Standard & Poor'sMoody's
Maio 04Agosto 05Maio 04Agosto 05
 BélgicaAA+AA+Aa1Aa1
 AlemanhaAAAAAA
AaaAaa
 Grécia
A+A (Nov.04)A1A1
 EspanhaAA+AAA (Dez.04)AaaAaa
 FrançaAAAAAAAaaAaa
 IrlandaAAAAAAAaaAaa
 ItáliaAAAA- (Jul.04)Aa2Aa2
 Países BaixosAAAAAAAaaAaa
 ÁustriaAAAAAAAaaAaa
 PortugalAAAA- (Jun.05)Aa2Aa2
 FinlândiaAAAAAA
AaaAaa

Fonte: Bloomberg/BCE

Dylan


All along the watchtower
"There must be some way out of here,"
said the joker to the thief,
"There's too much confusion,
I can't get no relief.
businessmen, they drink my wine,
plowmen dig my earth,
none of them along the line
know what any of it is worth."
Link: http://moonbeam.purevoid.org/~jonathan/music/Bob Dylan - All Along The Watchtower.MP3

Consumidores reagem


«O Fuel Lobby, o mesmo grupo que em 2000 provocou o caos nas estradas e nas bombas de gasolina inglesas, avisou durante o fim-de-semana levará a cabo um protesto nas refinarias inglesas entre as 6 horas de amanhã e o final do dia de sexta-feira. Os receios de uma nova crise de petróleo aumentaram ontem quando um porta-voz do Fuel Lobby apelou ao público para participar no protesto. Rumores de que o Governo planeia um sistema de racionamento da gasolina vieram também aumentar o pânico entre os condutores.»

Jornal de Notícias

Efeitos secundários

«Os incentivos oferecidos pelos ministérios do Trabalho e da Economia em complexas negociações para tentar demover multinacionais a despedir pessoal e deslocalizar a sua produção para o estrangeiro não estão, até agora, a resultar.»

Diário de Notícias

Esperemos que isto não seja um efeito secundário da demonstração demolidora do primeiro-ministro...

segunda-feira, setembro 12, 2005

Sempre a descer... para cima ?

O BdE cita uma frase de Vasco Barreto (no Memória Inventada), escrita para a revista académica "Natural Selections":
«Portugal é um país que se manteve em declínio constante durante os últimos oito séculos, essencialmente desde o seu nascimento»
Lendo-se o artigo, de que já saíu uma segunda parte, ficamos na dúvida sobre o alcance da afirmação. Por um lado parece referir-se à nossa tendência para a auto flagelação. Mas frequentemente também o artigo embarca na mesma comiseração:
«Veja-se por exemplo a Filosofia. A contribuição seminal de Portugal para este campo ocorreu no século XVII, quando os pais do ainda não nascido Espinosa foram expulsos do país, seguindo para Amsterdão. Desde dentão a única contribuição de Portugal para o mundo da ideias foi o termo 'desenrascanço'.»
Outra "descoberta" nesta onda é a de que o vinho do Porto é essencialmente uma criação inglesa em solo português. O artigo lista depois, sem critério aparente, alguns dos nossos heróis e feitos, para concluir que «Também parece evidente que os portugueses possuem uma notável capacidade para responder a desafios pontuais», dos quais elenca a reconstrução após o terramoto de 1755 e a Expo 98.

Existe de facto em Portugal uma teoria do "sempre a descer" , muito visível no senso comum desde o a revolução de Abril. Cada ano é sempre "pior" que o anterior - apesar da evidência sobre a melhoria das condições de vida. Também é possível encontrar citações de notáveis pensadores e artistas de quase todos os séculos da nossa existência que se lamentam da comparação com certos aspectos do estrangeiro próximo. Mas não deixa de ser estranho que ainda exista, e que se situe no seio dos países desenvolvidos (1), um país que esteve em permanente declínio durante oito séculos. Só se esteve a descer... para cima.
(1) - 27º no Índice do Desenvolvimento Humano, ver resumo em português (ficheiro zip + pdf)

Debate sobre as Autarquias

Algumas notas sobre o debate de há pouco na RTP1 ("Prós e Contras") sobre as Autarquias Locais:

Paulo Morais - excelente intervenção na denúncia dos mecanismos de corrupção nas Câmaras através das relações perversas geridas pelas máquinas partidárias; disse que frequentemente as forças partidárias actuam como bandos que assaltam as autarquias; salientou o mecanismo de escolha dos candidatos para as eleições locais como estando submetido ao critério prévio do subjugamento ao "facilitismo" e corrupção; não explicou tão bem a suspeita de que só agora denunciou estas situações por ter ficado de fora das listas, mas aludiu a que o teria feito no interior da máquina partidária, sendo por isso eliminado das listas (é o problema do ovo ou da galinha).

Maria José Morgado - para além de Paulo Morais, a única interveniente que verdadeiramente se centrou no problema da corrupção como sistema, e na corrupção das autarquias locais como tendo natureza endémica; respondeu bem ao desafio idiota de Fernando Ruas (do tipo: "ou aponta nomes ou cala-se") frisando que não se estava em tribunal mas sim num debate público; revelou a gravidade das investigações em curso; salientou que a resolução do problema não pode estar apenas no sistema policial; foi veemente, mas talvez não muito clara em algumas questões.

António Nogueira Leite - o melhor interveniente, que mais pontos esclareceu e que foi mais claro na exposição; disse muito bem que quem viaja de Norte a Sul do país e observa os atentados urbanísticos só pode optar por uma de duas explicações: ou foram eleitos idiotas para as Câmaras, ou haverá algum problema maior (subentende-se: corrupção); referiu que existe um certo facilitismo em toda a sociedade e deu como exemplo a fuga à Sisa; explicou que uma das causas porque pessoas competentes não aceitam cargos públicos é a exposição e enxovalhamento (dando como exemplo os ministros das Finanças); denunciou as empresas públicas como mecanismos de desorçamentação e de fuga a vários controlos da despesa pública; revelou que o actual sistema de financiamento não permite ao eleitor distinguir, entre os autarcas que realizam obra, aqueles que delapidam as finanças e comprometem as gerações seguintes, dos que fazem uma gestão financeira responsável e sustentável.

Joaquim Ferreira do Amaral - Uma das piores intervenções; ajudou a ocultar a raíz dos problemas apontando sempre a complexidade da legislação como a principal culpada da corrupção: uma boa ajuda que deu a Fernando Ruas; desdramatizou o problema dizendo que já esteve pior (por exemplo, o financiamento dos partidos), e também que era um problema que demoraria muito tempo a solucionar (ou seja: para se ir resolvendo...). Papel semelhante desempenhou um tal Rebordão Navarro, que foi buscar exemplos caricatos (o Ministério da Defesa é que licencia os vendedores de gelados nas praias...) para desviar o foco do assunto em discussão; (tudo estratégias de minimização de danos). Ferreira do Amaral exprimiu ainda a opinião de que se devia acabar com a figura das empresas públicas - para um gestor público, não está mal.

Fernando Ruas - tentou a todo o transe o branqueamento da corrupção nas autarquias; usou sistematicamente o argumento de que só se devia falar em corrupção quando se podem apontar nomes (regra que, a ser aplicada, impediria a discussão; mas ele própoprio falou de perversidades nos contratos-programa entre governo e certas autarquias sem citar nomes); salientou os escassos casos de condenação efectiva de autarcas; admitiu que os presidentes das Câmaras criam empresas municipais para aproveitar a maior "agilidade" na realização de despesas, mas disse que a culpa era de quem fizera a lei. Entrou em contradição dizendo que as próprias Câmaras pedem mais fiscalização, e, noutro ponto, que as Câmaras são os organismos mais fiscalizados.

Fátima Campos Ferreira - também esteve bem, conduzindo o debate com vivacidade e frisando a perversidade do mecanismo de corrupçaõ, centrado nos partidos e no seu financiamento, impedidndo reformas e leis que o corrijam.

Um comentário final: quando um organismo tem uma doença grave, isso não significa que todas as suas células e órgãos estejam doentes; pode até ser uma minoria, mas a gravidade da situação pode colocar em perigo de vida o próprio organismo; analogamente, dizer que "haverá alguns autarcas corruptos mas há muitos mais honestos e por isso é injusto generalizar", ou que "não se deve falar a não ser de casos específicos de que se podem apontar culpados", ilude a gravidade deste problema: um problema que mina um órgão central da democracia - o sistema partidário e eleitoral - pondo em causa a sua capacidade de auto-correcção e sustentabilidade.

Palpites

Do livro de Sir Athur Conan Doyle, "A FAce Amarela" (citado em Digital Dialogues):
Holmes - Então o que pensa da minha teoria ?
Watson - Não passam de palpites.
Holmes - Mas pelo menos cobre todos os factos. Quando surgirem factos novos que não sejam cobertos por ela, nessa altura poderemos reconsiderá-la.

Perguntar não custa

Porque é que há tão poucos economistas eleitos? - pergunta o Environmental and Urban Economics. Refere-se aos EUA, bem entendido:
«Gostaria de acreditar que seriam aprovadas "melhores" políticas se 44,6% dos membros do Congresso fossem economistas (1), mas pode esta hipótese ser testada? Podem os economistas melhorar as políticas públicas se apenas se limitam a ser conselheiros dos políticos? Poucos de nós acreditam que os políticos sejam benevolentes planeadores paretianos, mas os economistas mais proeminentes continuam a ir a Washington para "aconselhar". Não faz confusão?»
Aqui está mais um que acredita no Pai Natal
(1) - 44,6 % é a percentagem de advogados eleitos para o Congresso

Nobelizáveis

Já anda no ar a lotaria do Nobel da Economia - o anúncio do(s) laureado(s) terá lugar no próximo dia 10 de Outubro (2ª feira). O O Insurgente chama a atenção para Israel Kirzner, uma aposta de Pete Boettke:
«Kirzner merece ter em Outubro esse reconhecimento que até agora lhe escapou. Se tiver de o partilhar com William Baumol, que seja, mas se o prémio for atribuído a Baumol ignorando-se Kirzner, será uma injustiça intetelectual travestida.»
Trata-se de gente do campo do empreendedorismo. Mas, se não puderem ser estes, Boettke adianta Jagdish Bhagwatti e Gordon Tullock.

Já o Guardian adianta os seguintes favoritos: Robert Barro [economia internacional e crescimento], Jagdish Bhagwati [economia e comércio internacionais], Eugene Fama [mercados financeiros, bolsas], Paul Krugman [economia e comércio internacionais] ou Paul Romer [modelos de crescimento endógeno].

O Thompson Scientific Laureates - uma espécie de "short list" para os Nobel - seleccionou para 2005:
Eugene F. Fama e Kenneth R. French - "pelas suas contribuições seminais para a compreensão entre os rendimentos das bolsas e as flutuações da actividade económica."
Robert J. Barro - "pelas suas contribuições pioneiras na macroeconomia empírica, em muitos campos, mas especialmente pelo trabalho sobre a dívida pública nos anos 70."
Paul Michael Romer - "pelo seu desenvolvimento de uma 'nova teoria do crescimento' que aborda uma questão fundamental em Economia: o que é que sustenta o crescimento económico num mundo caracterizado por rendimentos decrescentes e escassez."
A Bolsa de Nobelizáveis, no entanto, não parece estar a ser actualizada. Entretanto os prémios IgNobel também se agitam - já há bilhetes à venda para a cerimónia, em Harvard, que inclui uma mini-ópera!