terça-feira, agosto 23, 2005

Robert Moog

Faleceu Robert Moog, o criador do sintetizador Moog, um dos mais extraordinários instrumentos musicais e o único instrumento músical verdadeiramente novo que foi inventado desde o saxofone. Teve uma utilização importante em vários domínios musicais, mas para mim revelou-se através da música pop-rock e de bandas como os Manfred Mann - que o vi utilizarem no Festival de Vilar de Mouros de 1971 - e "Emerson, Lake and Palmer". A composição mais conhecida desta banda com utilização do Moog, num conhecido solo, foi "Lucky Man"; Keith Emerson dedicou grande parte da sua vida musical a desenvolver as potencialidades deste instrumento. Utilizações mais ou menos conhecidas deste instrumento foram a canção "Because", do último álbum dos Beatles, e as melodias clássicas tocadas por Walter Carlos no filme "Laranja Mecânica" (excertos aqui). A vida de Robert Moog continuou sempre ligada a esta tecnologia, através da sua empresa "Moog Music". O Hit da breakz também refere a triste ocorrência.

A importância do sintetizador Moog já tinha sido aqui referida. Trevor Pinch, professor de Ciência e Tecnologia da Universidade de Cornell, co-autor de "Analog Days: The Invention and Impact of the Moog Synthesizer", fez uma palestra sobre "Studying Technological Innovation Through Contexts of Use: The Case od the Electronic Music Synthesizer", cujo texto está disponível aqui, onde revela aspectos interessantes da criação do mercado para o Moog.

Outros textos relacionados:
  • "Klaus Schulze: miragens eternas", de Desidério Murcho.
  • Sintetizador Moog
  • Entrevista com Robert Moog
  • "Moog" - um filme documental realizado por Hans Fjellestad.

    Excertos da música do filme "Laranja Mecânica":
    | Title Music from a Clockwork Orange | March from a Clockwork Orange | La Gazza Ladra | Theme from a Clockwork Orange | Scherzo, Ninth Symphony: Second Movement | William Tell Overture | Orange Minuet | Biblical Daydreams |

    Alguns sons do Moog:
    | String | String* | Bell_Pad | Chick's | Funky | Pad | Bass'n'Reso | Bells | Vocals! |
  • segunda-feira, agosto 22, 2005

    Cidades

    Partindo da tendência histórica de queda dos custos de transporte, um estudo publicado na edição corrente do Journal of Economic Literature conclui que
    «Primeiro ocorre a concentração urbana, seguindo-se a re-dispersão. Dito de outra forma: à medida que os custos de transporte diminuem, os trabalhadores e as empresas movem-se, primeiro, das pequenas aglomerações para as grandes e, depois, das grandes para as pequenas. Conforme foi referido na introdução, a primeira fase está historicamente bem documentada, mas existe debate sobre se a segunda fase já teve início ou não.
    (...)
    «O padrão geral da [localização de] actividades, à medida que os custos de transporte diminuem, tende a exibir a forma de sino.»

    Takatoshi Tabuchi, Jacques-François Thisse e Dao-Zhi Zeng
    "On the number and size of cities"

    domingo, agosto 21, 2005

    A fábula da abelhinha

    Chegam finalmente as férias pelo que, por aqui, os posts se vão rarefazer. Fiquem bem, na companhia da fábula da abelhinha:


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    sexta-feira, agosto 19, 2005

    Notícias da ciência triste

    «O panorama económico internacional continua a não dar indicações favoráveis para a conjuntura nacional. No plano interno, o indicador de clima, com informação até Julho, continuou a agravar-se, atingindo o pior valor desde o início de 2004 e o indicador de actividade económica estabilizou em Junho. No entanto, a generalidade da informação quantitativa revelou para o mesmo mês uma situação menos desfavorável em todos os sectores. O consumo privado acelerou em Junho, fruto do contributo positivo da sua componente de bens duradouros, especialmente a automóvel, não se prevendo, porém, que seja uma melhoria sustentada.»

    Sintese Económica de conjuntura (relativa a Julho de 2005)
    Instituto Nacional de Estatística

    Pensamento crítico na blogosfera

  • O blogue Confessions of a Quackbuster faz uma recensão do livro "Critical Thinking about Research: Psychology and Related Fields" de Julian Meltzoff : «Este livro ensina-nos a avaliar a evidência científica, a ler um artigo científico e a fazer a sua critica. É uma bela análise de tudo o que pode correr mal numa investigação experimental. (...) Inclui 16 artigos fictícios com falhas intencionais. Podemos testá-los pessoalmente e ler depois a crítica do autor.»
    Capítulos do livro:
    1. Critical Reading
    2. Research Questions and Hypotheses
    3. Research Strategies and Variables
    4. The Sample
    5. Confounding Variables and Their Control
    6. Research Designs and Threats to Internal Validity
    7. Criteria and Criteria Measures
    8. Data Analysis, Discussion, and Conclusions
    9. Research Ethics
  • O blogue Hokum-Balderdash Assay faz referência ao livro "Introduction to Logic and Critical Thinking" de Merrilee H. Salmon

  • O TooMuchSexy.blog apresenta o paper que teve de fazer, de crítica a um editorial, que no caso foi "As Abortion Advocates March, Woman’s Death Reveals Horror of Abortion" de Donetta Robben.

  • O Soul Soup cita o artigo "Critical Thiking" de Dave Pollard.

  • O site da editora Wadsworth apresenta uma série de livros sobre lógica e pensamento crítico.
  • quinta-feira, agosto 18, 2005

    Pensamento Crítico ?

    A capacidade para o pensamento crítico é, talvez, um dos maiores "buracos negros" do ensino português: desde logo porque pouco se fala disso. Creio que muitos professores têm deparado com este problema: incapacidade dos alunos para equacionar problemas, ou para reconhecer uma questão quando ela é colocada sob um ângulo ligeiramente diferente daquele que foi ensinada ou que consta nos manuais. Acontece isto com alunos que sabem a matéria, mas apenas se ela for apresentada de forma facilmente reconhecível. Creio que este é um sintoma típico de fracas competências de pensamento crítico: dos alunos, e talvez também dos professores.

    Como não existem estudos científicos sobre o nosso ensino (apenas muitas "reformas", inspiradas sabe-se lá em quê...) não conhecemos a dimensão do problema nem a sua origem. Podemos suspeitar que a deriva pelo ensino "pós-moderno" e "hippie", com a ênfase no "prazer" em aprender (por oposição à suposta "tortura" do antigo estilo) tenha privado os alunos do desenvolvimento de capacidades críticas.

    Recordo, por exemplo, como as demonstrações de teoremas (no final do secundário) eram penosas: e nós não tínhamos que as "inventar": tinhamos apenas que seguir o percurso que alguém já tinha feito. Mas tinham essa capacidade de mostrar como se podia abordar um problema de várias formas, de utilizar uma mesma ferramenta para vários fins. Alguém hoje tem que demonstrar teoremas? A suposta simplificação da aprendizagem, feita em nome (que ironia!) da luta contra o ensino "acrítico" e "de empinanço" pode mesmo ter resultado em que o ensino, hoje, seja mais de "empinanço" do que antigamente. Não é por haver livros "sedutores", carregados de imagens e caixas de texto coloridas, que a memorização de matéria deixa de ter lugar.

    Na Internet encontra-se muita matéria sobre ensino e "pensamento crítico", essencialmente nos EUA. Não faço ideia se essa preocupação tem resultados efectivos na capacidade de pensamento crítico dos alunos, mas aflige-me que, aqui, isso nem sequer esteja na "agenda", como agora se usa dizer.

    Alguns exemplos:

  • O "Critical Thinking Project", uma iniciativa da Washingston State University, onde se encontram vários materiais de apoio: apresentações em powerpoint, fontes de informação, textos;

  • "Critical Thinking Community", com o objectivo de melhorar o ensino aos diversos níveis; realiza conferências, formação, disponibiliza materiais de apoio (artigos, videos, etç). Inclui vários textos em espanhol, como por exemplo: El Arte de Formular Preguntas Esenciales, La Mini-Guía para el Pensamiento Crítico Conceptos y Herramientas, Cómo Estudiar y Aprender una Disciplina, Pensamiento Analítico, Cómo Mejorar el Aprendizaje Estudiantíl, Ideas Prácticas para Promover el Aprendizaje Activo y Cooperativo, Guía de los niños al pensamiento crítico);

  • "Critical Thinking: The Value and Teaching of This Objective in the Information Age", texto que se inicia com uma história curiosa: um rapaz de 14 anos que escreveu um trabalho escolar sobre o Holocausto dos Judeus, trabalho onde a certa altura se lia: "encontro três motivos para a comum, mas errada, crença de que milhões de Judeus foram mortos durante a II Guerra Mundial";

  • "Beyond Critical Thinking: A Framework for Developing the Decision-Making Skills of Secondary School Students", enfatizando três ideias: (1) a capacidade de tomada de decisão é de vital importância para o currículo escolar dos EUA; (2) a boa tomada de decisão envolve a integração de valores pessoais e sociais com factos; (3) a tomada de decisão é uma capacidade [skill] e, tal como a biologia ou o basquetebol, requer o domínio de princípios básicos e bastante prática;

  • "Rationality and its application in the idea of Critical Thinking", uma análise da relação entre os dois conceitos;

  • "Student Assumptions About Knowledge and Critical Thinking in the Accounting Classroom", análise de três estádios do processo de resolução de problemas: (1) identificação da natureza do problema (2) análise da informação e enquadramento do problema (3) formular e justificar uma opinião sobre a solução mais adequada;

  • "Critical Thinking: Teaching College and University Students to Think Critically and Evaluate", uma espécie de manual com numerosos exemplos de aplicação na sala de aula;

  • "teaching Critical Thinking: Some Lessons from Cognitive Science", seis "lições" acerca do tema: (1) Pensar críticamente é "duro" (2) A prática ajuda a aperfeiçoar (3) Praticar para transferir [de um contexto para outro] (4) Teoria prática ("o conhecimento da teoria ajuda a perceber o que se passa") (5) Fazer mapas (mapeamento da argumentação (6) Preservação das crenças (evitar o preconceito);

  • "Critical Thinking and the Internet" - lista de livros sobre o assunto;

  • "Critical Thinking articles", listagem de artigos publicados em revistas científicas;

  • "Critical Thinking books";

    Critical Thinking and Learning Critical Thinking Critical Thinking: An Introduction
    Critical Thinking: Basic Theory and Instructional Structures Critical Thinking Handbook: High School, A Guide for Redesigning Instruction Critical Thinking in the Classroom

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    Da economia de mercado, ou dos conflitos armados?...

    Inovação no Ensino da Economia

    Decorreu no passado mês de Julho, em Sydney, a "11th Australasian Teaching Economics Conference", com o tema: "Innovation for Student Engagement in Economics". Das comunicações apresentadas estão acessíveis em linha as seguintes:

  • "Securing participation: Experiments in a one-day introduction to economics" de Chris Geller

  • "The Double Paradox of Elementary Economics Education" de Eduardo Pol e Peter Carroll

    Uma outra comunicação, "Multimodal design for hybrid learning materials in a second-level economics course", não parece estar acessível, mas sobre o mesmo tema e com o mesmo autor encontra-se esta:

  • "Multimodal Design Considerations for Developing Hybrid Course Materials: An Issue of Literacy"



    Em Abril passado teve lugar em Bowling Green (Ohio) uma conferência com o tema: "Making Economics Come Alive in the Classroom: Critical Thinking and Economic Issues", onde Paul Krugman falou sobre "Economics in Action: Stories to Motivate the Models" e "Economics and the News of the Day", e Neil Browne sobre "The Joint Nurturing of Economic Understanding and Moral Reasoning: Using the Raw Material in a Robust Newspaper"

    Neil Browne, professor na universidade de Bowling Green, é autor de vários livros sobre o encorajamento do pensamento crítico e questões morais no ensino, entre os quais:
  • "Asking the Right Questions: A Guide to Critical Thinking"
  • "Striving for Excellence in College: Tips for Active Learning"



    A American Economic Association tem também programas de formação sobre este tema: "Teaching Innovation Program in Econnomics"
  • terça-feira, agosto 16, 2005

    Entrevista com Teodora Cardoso

    Teodora Cardoso, em entrevista ao Diário de Notícias (conduzida por Rudolfo rebelo), considera o PIIP
    como «uma oportunidade falhada porque não conseguiu ultrapassar credivelmente» a perspectiva de curto prazo:
    «A "conjuntura", que se mantém há pelo menos cinco anos e, por isso, já se tornou "estrutura", não impede, antes exige, que se tomem medidas relançamento que, como está abundantemente provado, têm de ser de natureza estrutural. Isso exige ver a Europa como muito mais do que o colete de forças do PEC como contrapartida para a obtenção de fundos que se usam para manter a aparência de prosperidade. Exige estímulo a investimentos estruturantes, competitivos e virados para o exterior, despesas públicas ao serviço da economia em lugar de serviços públicos que se contentem em exauri-la, políticas eficientes de energia, transportes, educação, saúde e justiça, e uma regulamentação do trabalho que concilie a competitividade com a equidade, o que muitos países mostram não ser impossível...»
    A economista rejeita a realização de grandes investimentos não fundamentados, mas rejeita igualmente o argumento de que não podemos investir por estarmos endividados:
    «Investimentos com racionalidade económica são indispensáveis ao desenvolvimento, são financiáveis e são mesmo a única forma de, a prazo, o endividamento se reduzir, fazendo crescer o rendimento. Quanto à Irlanda, bastou-lhe, na sua situação muito especial, um bom aeroporto em Dublim e as infra-estruturas britânicas para dispor de uma excelente capacidade logística, que permitiu às empresas que lá se instalaram abastecer-se e colocar eficientemente os seus produtos em qualquer mercado europeu ou mundial. Não é esse o caso de Portugal, onde é incipiente a coordenação e o desenvolvimento do transporte aéreo, marítimo e ferroviário, de passageiros e mercadorias. Quando a Espanha dá prioridade ao transporte ferroviário misto em bitola europeia e "altas prestações" (não confundir com o TGV, que é um caso particular restrito a grandes volumes de tráfego de passageiros a distâncias que o justifiquem) e quando desenvolve todas as suas ligações ao exterior, Portugal tem de escolher entre coordenar-se com essa estratégia ou manter critérios de investimento determinados por políticas de curto prazo e interesses.»

    Fundo ao fundo

    O Governo deliberou extinguir o Fundo de Cooperação de Investimento Português em Angola (FCIPA), que fora criado há 18 anos:
    «Atendendo a que não foi concretizada qualquer operação no âmbito do FCIPA e que, por outro lado, o acordo de reescalonamento da dívida de Angola, celebrado em 5 de Agosto de 2004, abrangeu o valor total da dívida daquele país associada ao FCIPA, a manutenção deste Fundo deixou de se justificar.»

    segunda-feira, agosto 15, 2005

    Fim do sonho

    A "Dreamworks", o estúdio criado há 11 anos pelo realizador Steven Spilberg, encontra-se à venda, apesar de ter conseguido grande sucessos como os filmes como o "Soldado Ryan", "American Beauty", "O Gladiador" e o recente "Guerra dos Mundos"; teve igualmente um falhanço recente com o filme "The Island".

    Tratava-se de um projecto ambicioso desde o início, procurando configurar-se como uma empresa multifacetada, produzindo filmes, animações, televisão, video-jogos e música. Mas nem tudo correu bem e Spilberg parece ter-se desinteressado do projecto.

    Bolsa de Londres à venda

    Notícia da Lusa: «O maior banco de investimento australiano, Macquarie Bank, está a ponderar avançar com uma oferta de compra da bolsa de Londres, o maior mercado accionista da Europa, anunciou hoje a instituição financeira. Num comunicado, citado pela agência Bloomberg, o Macquerie Bank adianta que "as deliberações estão numa fase muito preliminar" e que ainda não foi feita uma oferta de compra.

    A London Stock Exchange já está em negociações com a Euronext, plataforma que agrega as bolsas de Paris, Amesterdão, Bruxelas e Lisboa, para uma eventual compra. Na corrida à bolsa de Londres já esteve também a Deutsche Boerse, mas foi obrigada a retirar a oferta de 1,35 mil milhões de libras (1,97 mil milhões de euros), depois da oposição de accionistas de referência.»

    domingo, agosto 14, 2005

    Prémios Ig-Nobel da Economia

    AnoVencedorProeza
    2004VaticanoOutsourcing de orações para a Índia
    2003Karl Schwärzler e o LiechtensteinPor terem alugado todo o país para convenções empresariais casamentos, bar mitzvahs, etç.
    2002Várias empresas (Enron, etç)Por terem adaptado o conceito de "números imaginários" ao mundo dos negócios
    2001Joel Slemrod e Wojciech KopczukPela sua descoberta de que as pessoas atrasam as respectivas mortes de forma a beneficiar de taxas de imposto sucessório mais favoráveis: "o facto de termos descoberto que o adiamento da morte, mais do que a sua antecipação, tem mais probabilidade de ocorrer, sugere que este fenómeno é, em parte, um resposta real à fiscalidade" - "Dying to Save Taxes"
    Mais prémios aqui
    (agradecimentos a jfgmmg pela referência)

    sábado, agosto 13, 2005

    Corrupção

    «Mostramos que a probabilidade de uma empresa efectuar pagamentos adicionais irregulares é mais alta em ambientes com baixa incerteza relativamente à corrupção, e mais baixa onde a monitorização é mais efectiva. Mais especificamente: a frequência dos subornos aumenta quando as empresas sabem antecipadamente qual a dimensão dos subornos e acreditam que o serviço relacionado com o suborno será efectivamente fornecido, uma vez que o pagamento seja realizado. Adicionalmente, a frequência de subornos diminui se as empresas tiverem possibilidade efectiva, através de canais oficiais ou quadros superiores, para obter tratamento adequado sem necessidade de efectuar pagamentos não-oficiais.»

    "Bribery and the Nature of Corruption"
    Ana Herrera e Peter Rodriguez (2003)

    «[...] Em muitos países, a economia paralela não consegue sobreviver sem subornos. É frequentemente impossível, ou muito dispendioso, para uma empresa ou um indivíduo, escapar às restrições e interdições, e fazer negócios, sem subornar os responsáveis públicos. Proibir o suborno nunca é perfeitamente concretizável em termos e aplicar a lei, mas aumenta o risco e o custo dos subornos, bem como das transacções que eles viabilizam.
    [...]
    «Em que é que um suborno é diferente de um qualquer outro preço de mercado? Um preço de mercado assemelha-se a um suborno que o comprador entrega ao vendedor para o persuadir a partilhar algo (ou fazer algo) que o primeiro deseja. Contudo, o termo "suborno" é usado usualmente para descrever uma situação onde a troca é secreta, porque o subornado está contratualmente proibido de vender aquilo que vende. Oferecer subornos é muitas vezes legítimo, mas aceitá-los é frequentemente interdito. Por exemplo: os empregados de restaurante podem aceitar os subornos designados como "gorjetas" que os clientes habituais lhes dão, enquanto que os gestores de compras estão usualmente (embora não sempre, nem em todos os países) proibidos de aceitar prendas dos fornecedores. Portanto, em muitos casos, um suborno é simplesmente um preço que não pode ser aceite pelo subornado por razões contratuais.»

    "In Defense of Bribery"
    Pierre Lemieux, Mises Economics Blog

    Preços a subir

    «Em Julho de 2005, a taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor (IPC) foi de 2,2%, situando-se seis décimas de ponto percentual acima do valor do mês anterior, quebrando o perfil descendente que se registava desde Abril.»

    Índice de Preços no Consumidor
    INE - Julho de 2005

    sexta-feira, agosto 12, 2005

    Mais um daltónico


    Miguel estagiou no "Público" em 1994: «Tive azar porque calhei na secção de Economia, que trata matéria cinzenta. O que é diferente de massa cinzenta»

    Miguel Clara Vasconcelos,
    realizador de cinema - in "Público-Y"

    quinta-feira, agosto 11, 2005

    111

    «Um estudo realizado pela Vasconcellos e Sá Associados e coordenado por Fátima Olão mostra que se o ritmo de convergência do PIB per capita português (em paridades de poder de compra) dos últimos 30 anos se mantiver, então o encontro entre o nível de vida de um português e o nível de vida médio da União Europeia a 15 países acontecerá daqui a 111 anos.»

    Rui Peres Jorge in Semanário Económico

    Relatórios sobre a OTA

    No Diário de Notícias de hoje:
    «A construção do novo aeroporto da região de Lisboa, na Ota, "terá impactos negativos significativos, fundamentalmente devido à destruição de habitats". A Ota "implicará a destruição de corredores ecológicos existentes" e "acarretará ruído além do legal". A "acessibilidade da procura lisboeta de transporte aéreo irá piorar" e "o município de Lisboa poderá perder receitas em consequência da quebra populacional e da relocalização de empresas para outros concelhos da região". Estes e outros conceitos não são retirados de nenhum relatório mandado realizar pela oposição à localização do novo aeroporto preferida pelo actual Governo. Consta, isso sim, do estudo preliminar de impacto ambiental elaborado pelo NAER (Novo Aeroporto) e ontem referido pelo ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, Mário Lino, na defesa que expôs da localização referida.»
    (...)
    «Curiosamente, quer o ministro quer a oposição não citam dois relatórios, também conhecidos em 1999, que só vieram à luz do dia por via da investigação jornalística. Os relatórios da British Air Authority (BAA) e do Manchester Airport, eram do conhecimento das autoridades aeroportuárias e políticas desde Julho desse ano mas só viram parcialmente a luz do dia nas páginas dos jornais em Novembro do mesmo ano. Desses relatórios inferia-se que a Portela teria capacidade, se devidamente remodelada, para 21 milhões de passageiros por ano, uma barreira que não deveria, segundo estimativas da época, ser ultrapassada antes de 2020.»

    Fantasmagorias

    Uma das coisas que mais me divertia na faculdade era o facto dos professores marxistas gostarem tanto do Keynes. Porque diabo não se limitavam eles a ensinar a contabilidade do produto material e o modelo do Feldman-Mahalanobis? Cheguei a confrontar alguns professores com isto, o que não terá contribuído nada para a minha popularidade, desde sempre em queda.

    Claro que eu os percebia muito bem: a teoria keynesiana, com grande prestígio na altura (facilidade de modelização, prémios Nobel), abria espaço à intervenção do estado na economia, uma coisa que um marxista nunca desdenha.

    É verdade que Keynes defendia o capitalismo e achava que o Estado só devia intervir quando o mecanismo de mercado, só por si, não resolvia o problema [o "problema", na altura, era o desemprego; quer dizer, já era a inflação, mas ainda se pensava que era o desemprego]. Ora, isto, para um [professor] marxista, não oferecia qualquer dificuldade. Ora sigam lá este raciocínio:
  • o Mestre diz que o Estado deve intervir quando o mercado não funciona adequadamente;
  • qualquer pessoa pode ver que o mercado nunca funciona adequadamente;
    logo:
  • O Estado deve intervir sempre.
  • Eis pois o comunismo deduzido com um simples silogismo. Mas o Keynes era coisa para o curto prazo, para a conjuntura; "a longo prazo estamos todos mortos", tinha respondido Keynes às almas a quem preocupava o facto da Teoria ser de pavio curto; isto os marxistas não podiam aceitar, porque eles "sabiam" muito bem que o indivíduos morrem, mas a classe operária (e o Partido) são eternos.

    Felizmente para o longo prazo e para o crescimento havia o modelo de Harrod-Domar, com a sua simplicidade desarmante. Pereira de Moura preferia chamar-lhe "Domar-Singer"; mas nem mesmo o Domar acreditava lá muito na criatura, a fazer fé nalguns dos seus desabafos ("a minha intenção era intervir nos ciclos económicos, e não derivar uma taxa de crescimento empiricamente significativa"; "é difícil estimular o desejado nível de poupança interna").

    Por isso não é de admirar que um site como o Marxists.org apresente, como escritor de referência, John Keynes e reproduza integralmente a sua Teoria Geral.

    Mas o Museu de Cera das Criaturas Marxistas tem muitas peças por recolher, vagueando ainda pelas grandes avenidas do Pensamento Económico Mundial. Por exemplo: ainda há quem pense que o modelo Feldman-Mahalanobis se pode aplicar, a "mercados descentralizados que imitam o comportamento dinâmico das economias de planificação centralizada".

    E o modelo de Harrod-Domar continua a fazer a felicidade dos tecnocratas que andam a ajudar os paises pobre a desenvolverem-se através da ajuda externa: "The Gost of Financing Gap - ou "Como o Modelo de Crescimento de Harrod-Domar ainda Assombra a Economia do Desenvolvimento".

    Bem se podem evocar aqui as palavras cantadas por outra das avantesmas dos anos 60:
    «Old habits die hard
      Old soldiers just fade away»
    Não é para admirar, portanto, que a medalhinha presidencial vá cair no regaço do "colectivo" U2...

    Estúpidos estudos

    O jornal Público inclui hoje um dossiê (acessível aqui) sobre a Ota, com o título "Governo escolhe Ota sem estudo de viabilidade económica" - um trabalho das jornalistas Cristina Ferreira, Inês Sequeira e Luísa Pinto.

    O jornal apresenta uma listagem de todos os estudos já realizados e diz, a certo passo:
    «Apesar de já se terem realizado 71 estudos parcelares, entre 1997 e 2005, onde foram gastos 12,7 milhões de € (comparticipação da UE de 6,6 milhões de €), apenas o que foi encomendado à Novolis (consórcio formado pelos bancos ABN e Efisa), se debruça sobre a avaliação económica do projecto Ota.

    «O "Público" teve acesso ao documento. Trata-se, no entanto, de uma análise muito superficial e mesmo desajustada do momento presente, não integrando sequer um análise aprofundada da obra em termos de custos e benefícios relativos, conforme reconheceu ao "Público" Guilhermino Rodrigues, presidente da ANA.

    «O gestor lembrou que o documento encomendado à Novolis foi realizado numa fase muito inicial. "E os estudos financeiros sofreram uma paragem, pois deixou de haver definições dos governos seguintes [Durão Barroso e Santana Lopes] quanto ao que queriam fazer com o aeroporto. Mas a ANA continuou a fazer estudos técnicos", o que explica que haja mais informação sobre estas matérias.»
    Noutra parte do dossiê, o jornal "Público" cita o presidente da ANA, que afirmou que "todos os estudos vão ser publicados na Internet"[*]. Os jornalistas questionam: "Contudo não é explicado porque é que esses estudos não estão já disponíveis na Net, apesar da insistência de muitos, desde Eduardo Catroga na entrevista que deu ao "Público", até cerca de sete dezenas de blogues".

    Outra revelação deste dossiê é a de que "até o ministro das Obras Públicas e Comunicações, Mário Lino, chegou a manifestar dúvidas sobre a escolha da Ota para instalar o empreendimento. Mais tarde, assumiria que era "o melhor que existe", face ao que já está estudado, e devido ao facto de "não se poder perder mais tempo".[**]

    Citando fonte oficial, o "Público" diz que a NAER está a fazer um levantamento de projectos similares de parceria público-privada, e que "o modelo para a Ota deverá seguir o que foi adoptado pela Grécia para o aeroporto de Atenas"; o objectivo seria transferir para os privados parte substancial do risco; a participação dos privados far-se-ia através da aquisição de 45 % do capital da ANA, numa processo de aumento de capital. A tal fonte oficial também "revelou" que vai ser solicitado ao "novo consultor financeiro" que estude um modelo de financiamento que preveja a participação do Estado "a título simbólico".


    [*] - esta afirmação é algo diferente da que faz o ministro no seu artigo de hoje no "Diário Económico", que diz apenas que irá apresentar, publicamente, o ponto de situação dos projectos da Alta Velocidade Ferroviária e Ota, respectivamente em Setembro e Outubro (...) [acompanhado da] divulgação, pela Internet, da informação actualizada sobre estes projectos.

    [**] - Martim Avillez de Figueiredo, director do "Diário Económico", escreve em Editorial que "Mário Lino, como outros ministros antes dele, está convencido [de] que a sua determinação é fundamental para o crescimento económico nacional. É por isso que não se incomoda com avançar para a Ota sem estudos rigorosos de impacto financeiro - a suposição é a contrária: a ausência de decisão será sempre pior para a economia do que uma má decisão". E conclui Martim Avillez de Figueiredo: "enquanto o mecanismo de escolha pública se mantiver centrado na ideia de que é a existência de escolhas públicas - boas ou más - que traz dinâmica à economia, a importância da Ota ou do TGV (para um ministro) será sempre fundamental. E assim se explica este fado nacional: o Estado a engordar, a economia a enfraquecer".

    Sincronização oligopolista ?

    A autoridade reguladora para o sector das comunicações - Anacom - afirma que "não há concorrência efectiva" entre os operadores de telemóveis, e que a estrutura oligopolista sugere a possibilidade de os operadores terem incentivos para um comportamento coordenado, em detrimento de um comportamento concorrencial. (notícia no DN).

    No seu comunicado, a Anacom refere que «desde meados de 2001, e ao contrário do que aconteceu anteriormente, os preços de retalho dos três operadores mantiveram-se relativamente estáveis, num comportamento não consistente com a descida generalizada dos custos. Uma análise à evolução dos preços entre Janeiro de 2002 e Março de 2005, considerando um consumidor com um perfil de consumo médio, aponta para uma relativa estabilização dos preços e para uma sincronização na evolução dos planos tarifários dos operadores.»

    Otites e tergiversações (IV)

    Em artigo de opinião no Diário Económico o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, escreve que o novo aeroporto na Ota foi sujeito, em 1998-1999, a uma avaliação de impacto ambiental, que abrangeu previsões de tráfego, localizações alternativas, impactes económicos e sociais, não tendo portanto razão (segundo ele) os críticos que o acusam de decidir avançar com aquele investimento sem estudos que suportem tal decisão. No entanto, admite que aquele estudo não aborda a vertente financeira.

    Como disse? Não aborda a vertente financeira? Então e decide-se avançar com um investimento daquela envergadura, na actual situação económica do país, sem ter estudado a vertente financeira? Oh sr. ministro...

    (O Diário Digital cita igualmente esta notícia)

    quarta-feira, agosto 10, 2005

    A Grande Marcha

    A China decidiu permitir que as suas grandes empresas (com importações ou exportações superiores a 1,6 mil milhões de €) acedam directamente aos mercados cambiais, possibilidade anteriormente só acessível a bancos e empresas financeiras. E deixou de indexar o yuan exclusivamente ao dólar, substituindo-o por um cabaz de moedas que inclui o dólar, o euro, o iene e o won da Coreia do Sul (notícia do Público). É a Grande Marcha rumo ao capitalismo.

    Textos de Encanto...

    Vital Moreira, no Causa Nossa, encanita-se contra o movimento que está a pôr em causa a contrução do Aeroporto na OTA nos termos e calendário que o governo anunciou:
    «Prossegue, apaixonada, a cruzada paroquial de Lisboa contra a mudança do aeroporto da Portela. Vale tudo. O Governo dá uma prestimosa ajuda, ao adiar para Outubro (vá-se lá saber porquê...) a divulgação dos estudos que sustentam a construção do novo aeroporto.»
    Que estilo ("cruzada paroquial")! Que capacidade de síntese ("contra a mudança da Portela")! Que profundidade de análise ("governo dá uma prestimosa ajuda")! Enfim... um encanto!

    (Parafraseando o Bernardo Soares eu diria: com encanto, mas sem enquanto)

    O outro défice

    «No 1º semestre de 2005 as exportações registaram uma variação homóloga 0,5% e as importações de 15,2%, determinando um aumento do défice da balança comercial com os países terceiros de 36,1%. Para o crescimento das importações contribuiu essencialmente o grupo dos Combustíveis minerais, cuja variação homóloga foi de 51,9%»

    Instituto Nacional de Estatística
    Estatísticas do Comércio Extracomunitário

    A culpa é da concorrência...

         «(...) no segundo trimestre de 2005 e por comparação com o primeiro trimestre, os critérios de concessão de empréstimos ao sector privado não financeiro terão permanecido praticamente inalterados, tendo apenas uma instituição bancária reportado uma ligeira diminuição da restritividade dos seus critérios, no segmento dos particulares.
         O aumento da pressão concorrencial, especialmente entre instituições bancárias, terá continuado a contribuir para uma menor restritividade dos critérios de concessão de empréstimos»

    Banco de Portugal
    "Inquérito aos Bancos sobre o Mercado de Crédito"

    Morto em combate

    «Un hombre surcoreano de 28 años, murió a causa de un fallo cardíaco después de jugar a simuladores de lucha online durante 50 horas, de manera casi ininterrumpida, en un cibercafé de la ciudad de Taegu (sureste del país).

    Según la policía, el hombre, del que sólo se conoce el apellido; Lee, se sentó enfrente del ordenador el 3 de agosto. Durante los tres días siguientes sólo se movió del sitio para ir al baño y para dar unas breves cabezadas en una cama improvisada.

    La policía cree que la causa de la muerte se debe a un fallo cardíaco provocado por el agotamiento.»

    "El País"

    Técnicas de Gestão

    «Veiga apertado por Filipe Vieira»

    (Título do Correio da Manhã)

    terça-feira, agosto 09, 2005

    Este homem amava a sua (e nossa) língua

    «O ter tocado nos pés de Cristo não é desculpa para defeitos de pontuação.
    Se um homem escreve bem só quando está bêbado, dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso respondo: o que é o seu fígado? é uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.»

    Bernardo Soares
    Livro do Desassossego

    (mas é suspeito de inside trading)

    Metodologia da Economia

    A metodologia da Economia, e a filosofia da Ciência em geral, não são propriamente temas que suscitem grandes paixões, embora, quando reduzidas a uma pergunta do tipo inquérito jornalístico relâmpago ("Acha que a Economia é uma Ciência? Sim ou Não?"), possa motivar algumas respostas.

    Em português temos a possibilidade de ler um bom livro sobre o assunto: "Metodologia da Economia", de Mark Blaug, publicado pela Gradiva.

    Na internet, está disponível um texto do Professor João Sousa Andrade sobre o assunto: "Algumas Observações sobre a Metodologia da Economia".

    Também disponível on-line:

    "Karl Raimund Popper: um filósofo e três abordagens da metodologia da Economia" (em pdf)

    "Popper, Hayek e a (Im)Possibilidade de Predições Específicas em Ciências Sociais" (em Word)

    Em inglês há muita coisa, evidentemente, mas saliento apenas o texto de Milton Friedman, "The Methodology of Positive Economics"

    Mas ao que eu gostaria de aceder em texto, é a lição de jubilação do Professor Jacinto Nunes, de 1996 - à qual tive felicidade de assistir - sobre este tema: "Introdução à Epistemologia e Metodologia Económicas Contemporâneas: O Post-Positivismo"; sei que foi publicado pela Faculdade de Direito de Coimbra e calculo que o ISEG também o tenha publicado, mas não sei exactamente onde encontrar. Alguém tem alguma pista?

    Experiências na sala de aula

    Classroom Expernomics é uma newsletter dedicada à divulgação de exemplos de uso de simulações e jogos na sala de aula, como método pedagógico. Os exemplos são fornecidos por docentes que leccionam Economia. Trata-se de uma iniciativa localizada nos EUA (embora os endereços referidos estejam alojados na GB). Nos EUA existe uma longa tradição de investigação e partilha de conhecimentos no domínio do ensino da Economia, incluindo a publicação de revistas de especialidade sobre este assunto.

    A primeira destas newsletters data de 1992 e apresenta três exemplos:
  • Preferências em distribuição de rendimentos
  • Feijões como meio de troca
  • Privatizações na União Soviética

    A última newsletter data de 2001. Pelo meio sugere-se um conjunto de "jogos" e simulações, abrangendo temas diversos como decisões de investimento, formação de preços, oligopólios, comércio internacional, leilões, elasticidades, bens públicos e, claro, o concurso de beleza keynesiano (*).


    (*) - Keynes recorreu à analogia do "concurso de beleza" por se tratar de um passatempo muito popular, promovido pelos jornais da sua época: publicavam-se imagens de mulheres e os leitores votavam na mais bonita; um prémio era atribuído aos que tivessem escolhido a vencedora. Sendo assim, quem estivesse interessado em ganhar o prémio, não escolhia aquela que achasse mais bonita, mas sim aquela que esperava que a maioria viesse a escolher. O exemplo é comparável com as bolsas de valores: não se compram os activos que se pensa serem intrinsecamente melhores, mas sim aqueles que se pensa que as outras pessoas irão preferir.
  • segunda-feira, agosto 08, 2005

    A ver passar navios...

    O jornal Público de hoje inclui um pequeno artigo de Joaquim Ferreira da Silva que, a propósito dos investimentos propostos para o TGV e Ota, chama a atenção para a insensibilidade governativa para a nossa frente marítima:

    «(...) o plano de 25 milhões para investir nas infarestruturas que o governo considerou prioritárias (PIIP) nem uma linha refere o transporte marítimo. E, daquilo que as estatísticas nos indicam, ainda é por via marítima que Portugal movimenta a maior parte das mercadorias necessárias à sua sobrevivência. O petróleo, o carvão e o gás natural, matérias vitais para o país, utilizam 100 % do transporte por meio de navios.
    (...)
    «E o que nos surpreende é que não visionamos nenhum economista, especialista ou comentador de nomeada pedir que se invista na construção naval e no armamento marítimo tão necessários para reduzir essa gigantesca sangria de dinheiro paga aos proprietários de navios estrangeiros fretados para realizar aquele transporte.
    (...)
    «Veja-se como a Suécia, a Finlândia, a Noruega e a Dinamarca deixaram de fora o TGV mas tê os mais modernos portos e todo o seu ramal ferroviário, assim como os seus navios ferries estão incorporados na malha da bitola das linhas europeias tornando possível o transporte rápido das mercadorias entre esses países e os restantes a sul.»

    Há cerca de uma ano, a Comissão para os Oceanos formulou, a pedido do governo, uma estratégia para esse sector. Até o Expresso lhe dedicou quase exclusivamente um número da sua revista "Única". Como explicar este alheamento colectivo?


    Documentos relacionados:

  • Cinco Objectivos Estratégicos para os Oceanos (2004)

  • O Mar: um Oceano de Oportunidades para Portugal in Cadernos Navais (Abril/Junho 2005)

  • Programas de Investimentos em Infra-estruturas Prioritárias

  • Nota de imprensa do governo, de 5 de Julho de 2004, aquando da entrega do Relatório pela respectiva Comissão, onde se pode ler:
    «Com a estratégia ora apresentada, o País passa a dispor de um enquadramento geral e de longo prazo para todas as questões relacionadas com o mar, assim como de uma referência orientadora das decisões sectoriais que incidem sobre o oceano.»
  • Fraco jornalismo

    A propósito dos estudos sobre a localização do novo aeroporto na Ota, o Diário de Notícias on-line apresenta a seguinte curta notícia:
    «Por falta de análises e relatórios o Governo não tem razões para não fazer o novo aeroporto da Ota. Segundo o Ministério das Obras Públicas, já existem 70 estudos sobre a localização. Deverá havê-los para todos os gostos. Por isso, o Governo não se cansa de referir documentos que justificam a existência do novo aeroporto. Resta saber em quanto é que já vai a factura dos estudos encomendados pelos sucessivos executivos. Sem se ver obra.»
    Notícia que me suscita vários comentários:

  • Começa por não parecer uma notícia - assemelha-se mais a um parágrafo de um artigo de opinião;

  • o texto dá a entender que os "70 estudos" são análises recorrentes sobre o mesmo tema, quando a maioria deles abrange, provavelmente, aspectos tão diversos quanto a análise de ruído, perigo de colisão com aves, impacto ambiental, tráfego aéreo, etç.

  • com a passagem do tempo e alteração de determinadas realidades, justifica-se a realização de novos estudos; o raciocínio subjacente à notícia ("70 estudos já devem ser suficientes") apresenta um tom populista, reforçado pela seguinte observação, muito pouco neutra: "resta saber em quanto é que já vai a factura dos estudos encomendados".

  • Observemos atentamente este argumento: "Por falta de análises e relatórios o Governo não tem razões para não fazer o novo aeroporto da Ota". Mas sabe o DN quais as conclusões dos estudos? Pelo título da notícia, dir-se-ia que sim: "Ota tem estudos para todos os gostos e interesses". Neste caso, deveria haver estudos a dizer "sim, faça-se" e outros: "não, não se faça".

  • Como é sabido, não é o governo quem procura razões para "não fazer" esta obra - são determinados sectores da sociedade portuguesa que, ou estão contra a sua realização (pelo menos nos termos anunciados), ou requerem um melhor esclarecimento. O que pretende então o DN com este remoque - aconselhar o governo a avançar com a Ota?

    Questiona-se o matutino sobre o custo dos estudos. Ora o DN on-line certamente não ignora a notícia do seu colega Portugal Diário, que adianta um valor (12,7 milhões de euros) com base em fonte oficial, bem como a relevante informação de que o governo anunciou a intenção de fazer uma apresentação pública dos estudos em Outubro. Tal como não deve ignorar a movimentação dos blogues que exigem a divulgação pública dos estudos já realizados, também noticiada pelo Portugal Diário.

    Não sei se a edição em papel do DN adianta mais alguma coisa mas, no que diz respeito ao DN on-line, o que esta pequena notícia traduz é um jornalismo de fraca qualidade. Em poucas linhas consegue-se a proeza de cometer vários pecados jornalísticos: confusão entre noticiar e opinar, omissão (voluntária?) de informações relevantes, omissão da citação das fontes, inconsistências internas, ausência de neutralidade, populismo.
  • "Bombas "boas" e bombas "más"

    Os 60 anos do bombardemento de Hiroshima foram motivo de efeméride, nomeadamente na blogosfera. O cogumelo atómico fica sempre bem em imagem, comentada ou não. Não me surpreendeu que Vasco Pulido Valente, sempre pronto a desafiar o senso comum e a moda intelectual do momento, tenha ele próprio bombardeado esta efeméride, desmentindo os que apodam os bombardeamentos de Hiroshima e Nagazaki como "os maiores actos de terrorismo" (*).

    E Vasco Pulido Valente tem razão. Os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagazaki não foram sequer actos de terrorismo - por muito criticáveis que sejam; foram actos de guerra, e de uma guerra defensiva, pois foi o Japão quem, sem motivo justificável, a iniciou.

    Ao mesmo tempo, VPV comenta o horror dos bombardeamentos das grandes cidades europeias que, apesar de terem feito mais vítimas, pesam muito menos nas consciências dos "ocidentais", pois estão envoltos numa aura de romantismo, sendo vistos quase sempre "do alto", do ponto de vista dos bombardeiros aliados, perpetrados por jovens imberbes que só pretendiam voltar para casa para namoriscar as inglesinhas e beber cerveja, tipo "Memphis Belle" ou "Piccadilly Lily". Em lugar do fálico cogumelo, a feminina e disponível pin-up.

    O que faz com que nos impressione mais o cogumelo atómico? Uma coisa apenas: o facto de não possuirmos aquele tipo de bombas (portanto, são do "inimigo... americano").

    É uma reacção egoísta e hipócrita. Horrorizamo-nos com aquilo que nos pode vir a fazer mal, e não com aquilo que fez mal aos outros, pois nesse caso trataríamos de modo igual - chamando-lhe igualmente terrorismo - os bombardeamentos tradicionais. Mas não: essa "saga" fica tão bem nos filmes e nos documentários televisivos...

    Não me choca nada que se relembre a efeméride de Hiroshima e Nagazaki, e que se conjure o horror da guerra nuclear. Choca-me apenas que isso seja feito com segundas intenções, ao serviço da moda do momento: demonizar a América e relativizar o Terrorismo - como se a verdadeira ameaça de um ataque ou guerra nuclear não viesse, precisamente, desse mesmo Terrorismo.

    (*) Tudo isto se enquadra no relativismo com que se pretende desculpabilizar o terrorismo actual; na versão "dura", os relativistas dizem que os verdadeiros culpados do terrorismo são os americanos, por invadirem e ocuparem países, etc. Nesta outra versão, mais "mole", os terroristas são maus, mas piores do que eles são os americanos, porque praticam actos terroristas ainda piores. Exemplos:

    Lê-se no António Maria: "Até hoje ninguém se atreveu a julgar formalmente a destruição atómica de Hiroshima e Nagasaki à luz de uma teoria do Terrorismo, e no entanto, aqueles actos apocalípticos não teriam podido ilustrar melhor a definição de Terrorismo acima proposta: clandestinidade e secretismo, eleição de alvos civis, arbitrariedade absoluta, violência inaudita e espectacularidade." (Mas não se aplica isto também aos bombardeamentos de Londres - pelo Eixo - ou da França e da Alemanha - pelos Aliados?

    O Quinta Coluna chama-lhe, ironicamente, "um belo e heróico acto terrorista praticado pelo lado bom da História, que causou o maior número de mortos (mais de 90% dos quais civis) desde sempre: o equivalente a 45 vezes o 11 de Setembro".

    No Natureza do Mal escreve-se isto: "O bombardeamento de Dresden pela RAF foi um crime. Mas usavam as mesmas armas dos inimigos", e ainda isto: "Como a esquerda não pensa ou não tem onde, tem vergonha ou está de férias, os amigos da bomba atómica andam aí à solta. Ontem o Fernandes, hoje o Pulido Valente". Num outro post já tinha escrito: ""os cientistas, militares e políticos que produziram a bomba, esses super assassinos do século 20." Richard Feynman, por exemplo, terá ele sido um "super assassino do século 20" ?

    sexta-feira, agosto 05, 2005

    Econofísica

    Área de investigação resultante da cooperação entre economistas, matemáticos e físicos, aplicando ideias, métodos e modelos de Física Estatística e da Complexidade para analisar e quantificar dados decorrentes da actividade económica.

    Recentemente, diversas teorias da física, como a teoria da turbulência, "scaling", "random matrix theory" e/ou Grupo de Renormalização, têm sido aplicadas à economia, dando um considerável impulso nas técnicas modernas da computação em análise de dados, "risk management", mercados artificiais, macroeconomia, etc.

    Alguns textos:
  • Econophysics: The emergence of a new field?
  • Research in Econophysics
  • Econophysics: The emergence of a new field?
  • Econophysics: A simple explanation of two-phase behavior
  • An Introduction to Econophysics: Correlations and Complexity in Finance (primeiras páginas do livro referido abaixo)

    Alguns livros:
    An Introduction to Econophysics: Correlations and Complexity in Finance New Directions in Statistical Physics: Econophysics, Bioinformatics, and Pattern Recognition The Mathematics of Financial Modeling and Investment Management
    The Monetary Theory of Production Theory of Financial Risk and Derivative Pricing Patterns of Speculation: A Study in Observational Econophysics

    Alguns links:
  • econophysics.org
  • Econophysics Forum
  • Is Econophysics a Solid Science?
  • Physics of Econophysics
  • Ota: governo tenta minimizar estragos

    No blogue Abrupto, Pacheco Pereira colocou há dias uma pergunta muito simples: «Pode o governo, sff, colocar em linha os estudos sobre o aeroporto da Ota para que na sociedade portuguesa se valorize mais a "busca de soluções" em detrimento da "especulação" ?»

    A pergunta remetia para uma declarações do ministro Manuel Pinho que, respondendo ao "manifesto dos 13", dissera: «Respeito muito os signatários, mas há sociedades que valorizam mais a especulação e a análise, enquanto outras valorizam mais a busca de soluções.»

    O Abrupto foi repetindo a pergunta e assinalando os blogues que iam aderindo a esta campanha, eles próprios repetindo a pergunta e/ou fornecendo novos dados e análises em reforço desta ideia simples: os estudos que se conhecem não permitem formular uma opinião fundamentada.

    Os jornais foram ignorando o problema, apesar de continuarem a retirar citações do Abrupto (como ainda hoje faz o Público).

    Finalmente o gabinete do ministro Mário Lino manifestou uma posição, divulgada hoje pelo Portugal Diário: «O Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações vai promover, em Outubro, uma apresentação pública do projecto do novo aeroporto e posteriormente divulgaremos toda a informação pertinente e necessária na internet». Até lá não haverá divulgação de qualquer estudo. Ficou-se igualmente a saber que o actual governo não realizou quaisquer estudos específicos. Mas vale a pena ler a notícia completa.

    Como não é previsível que se façam mais estudos até Outubro, a promessa do governo só pode ter uma interpretação, que o Portugal Diário escolheu para título: "Governo recusa-se a publicitar agora estudos sobre a Ota." A própria NAER, empresa formada com o objectivo realizar os estudos para o novo aeroporto, e que nisso gastou 12,7 milhões de euros, diz que só os divulga quando tiver autorização do governo. Assim vai a transparência e a governança em Portugal.

    O Abrupto salienta, muito justamente, o facto desta campanha ter decorrido exclusivamente na internet. Igualmente relevante é o facto do "furo" sobre a posição do governo ter sido conseguido por um jornal digital. No entanto este último facto pode ter duas leituras, não necessariamente exclusivas: bom trabalho jornalístico do Portugal Diário, e/ou o facto de o governo estar a tentar minimizar os estragos desta questão, limitando (se possível) o debate à blogosfera.



    Adenda

    Outra posição do governo é a de negar que haja qualquer secretismo neste assunto, dando como exemplo os "estudos preliminares de impacte ambiental relativos às localizações Ota e Rio Frio que estiveram em consulta pública entre Março e Maio de 1999." Sobre isto, pode dizer-se:

  • o que está neste momento em debate não é o impacto ambiental, nem sequer a necessidade de investimentos públicos neste sector, mas o custo de oportunidade de realizar aquele investimento agora;

  • quem acompanha estas consultas públicas sabe as limitações que os respectivos processos costumam revelar:
    - dificuldade de acesso fisico à documentação;
    - elevada tecnicidade;
    - alheamento dos cidadãos (e porque será ?);
    - ausência de efeitos reais das consultas, que funcionam apenas como processo de legitimação simbólica.
    O velho argumento: quem não se pronunciou não se pode vir queixar agora não serve nestas circunstâncias, atendendo à limitação temática da consulta, ao tempo decorrido desdes os estudos e às alterações das condições económicas e financeiras.
  • Ota e TGV: repescagem

    Repescando o que aqui foi escrito sobre Ota e TGV:

  • Preocupação com uma eventual "esterilização" da Caixa Geral de Depósitos tendo em vista "facilitar" o financiamento destes projectos;
  • Link para alguns estudos;
  • Referência a um texto da Vasco S. Coutinho;
  • Declaração de apoio ao movimento que exige o aprofundamento do debate sobre estes investimentos;
  • Citações (I)
  • Citações (II)
  • Citações (III)
  • A Arte dos Bancos Centrais

    «A grande inflação dos anos 1970 e as suas sequelas constituem um dos maiores eventos da história monetária. De facto, a incapacidade das autoridades monetárias, nas maiores economias industriais, para manter uma âncora nominal estável durante aquela década, motivou os subsequentes desenvolvimentos nas políticas e instituições monetárias (*). Estas incluiram a análise das regras monetárias, a mais famosa das quais foi sugerida por John Taylor, e a adopção generalizada de bancos centrais independentes. Houve também uma focagem na explicação dos mecanismos pelos quais a subsequente política monetária domou a inflação com o uso simultâneo de abordagens descritivas e análise quantitativa. Esta discussão alargou recentemente o papel da política monetária na redução das oscilações do produto, particularmente nos EUA.

    «Este paper reexamina as consequências da perda de credibilidade monetária nos anos 70 e o subsequente ganho de estabilidade. A ênfase é colocada na interacção entre mudanças no comportamentos dos políticos e do sector privado. Usando os recentes desenvolvimentos teóricos como guia, argumentamos que a estabilidade monetária permite que as decisões de formação de preços pelo sector privado sejam mais focadas nas expectativas da inflação futura. Esta redução da inércia inflacionária melhora as respostas da oferta, tornando mais fácil para as autoridades estabilizar a volatilidade do produto, mantendo simultaneamente as forças inflacionárias sob controlo. Na realidade, e em contraste com a literatura dominante, argumentamos que os benefícios decorrentes destas alterações na curva de Phillips se sobrepõem aos que resultam das mudanças das regras de política monetária.

    «Este paper pode ser visto como explorando a ligação entre a ciência e a arte da política monetária. Trabalhos académicos recentes sobre política monetária focaram-se na descrição de condutas, em termos de regras e consequências, em modelos construídos com estas regras. Os praticantes, por outro lado, insistem em que existe um elemento artístico neste processo, usando palavras como "credibilidade", que parecem mais apropriadas para textos de psicologia do que para a abordagem científica da política monetária típica dos trabalhos académicos. Defendemos que esta qualidade "artística" pode ser apreendida pelo impacto da política monetária nas percepções e comportamento do sector privado. Convencer o público de que está em boas mãos torna muito mais fácil aos responsáveis políticos conseguir simultaneamente estabilização da inflação e do produto. Este paper recorre a métodos analíticos da abordagem científica para explorar esse elemento artístico.»

    "Deconstructing the Art of Central Banking"
    Tamin Bayoumi e Silvia Sgherri
    Outubro de 2004 (working paper do FMI)


    Textos relacionados:
  • Política de Estabilização e Independência dos Bancos Centrais, João Sousa Andrade (2000)
  • An Historical Analysis of Monetary Policy Rules, John B. Taylor (1998)
  • The Taylor Rule and Optimal Monetary Police, Michael Woodford (2001)

    (*)- estiveram igualmente na base na mudança de políticas keynesianas (correcção dos ciclos com recurso a despesa pública, sintonia fina, etç) para políticas não-intervencionistas [nota do 'pura economia']
  • quinta-feira, agosto 04, 2005

    Video jogos


    «A média de idades dos americanos utilizadores de jogos são os 30 anos. Muitos deles são "nativos" do território digital, tendo crescido rodeados pela tecnologia, diz Marc Prensky, da "games2train", uma empresa que promove o uso educacional dos video-jogos. Ele descreve as pessoas mais idosas como "emigrantes digitais" que, tal como os recém-chegados em qualquer parte do mundo, têm que se adaptar, de formas diversas, à sua nova vizinhança digital

    «Chegar a uma terra estranha sem ter qualquer pista sobre a linguagem local, é duro. Os emigrantes digitais tiveram que aprender a utilizar tecnologias tais como a internet e os telefones portáteis. Mas poucos deles se dedicaram aos video-jogos. A própria palavra "jogo" gera confusão, pois evoca brincadeiras infantis. "O que eles não compreendem, porque nunca os experimentaram, é que estes jogos são complexos, necessitando de 30, 40 ou 100 horas para dominar", diz Prensky. Os video-jogos, na realidade, são jogados principalmente por adultos jovens. Apenas um terço dos utilizadores tem menos de 18 anos.» [ ver gráfico ]
    [...]

    «O uso dos video-jogos está tão espalhado que, se estivesse a contribuir para tornar as pessoas mais violentas, isso deveria ser visível. Em vez disso, na América os crimes violentos diminuiram claramente nos anos 90, exactamente quando o uso de video-jogos de computador estava a espalhar-se. Claro que também é possível que o número de crimes caísse ainda mais naquele período se não existissem video-jogos; no entanto, parece evidente que os video-jogos não estão a transformar a América num local mais violento do que já era.» [ ver gráfico ]

    In "Chasing the dream", um artigo do "The Economist" sobre video jogos.

    Preocupante

    No Diário de Notícias de ontem: «Segundo fontes do mercado ontem contactadas pelo DN, os desentendimentos entre Vítor Martins e o Governo resultaram, em grande parte, da recusa da administração da CGD em participar nos financiamentos privados aos grandes investimentos públicos, como o futuro aeroporto da Ota e a rede de TGV. No mercado fala-se de decisões de crédito polémicas e contestadas, que no entanto não chegaram a ser conhecidas. Confrontada com estas e outras questões, a administração da Caixa remeteu-se ontem ao silêncio. Também o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, através do seu gabinete, escusou-se a comentar.»

    Se os mecanismos de análise económica - nomeadamente de análise do risco - estiverem a ser postos em causa desta forma grosseira, então é caso para nos preocuparmos muito a sério - não apenas com os grandes investimentos públicos (Ota e TGV), mas com toda a actividade financeira do Estado.

    Realizar estas discussões em torno de pessoas é, em geral de evitar, mas quando o governo do partido que contestou a nomeação, para a administração da Caixa Geral de Depósitos, de Celeste Cardona - por evidente falta de perfil e experiência - lá coloca pessoas como Armando Vara (e deixando lá ficar Celeste Cardona!) isto pode significar uma de duas coisas (ou as duas): que os critérios de nomeações são de natureza meramente partidária (multi-partidária, para dizer melhor) e/ou que os critérios de gestão económica e financeira da CGD serão substituídos pela agenda partidária e eleitoral, e pelos interesses dos lóbis financiadores de campanhas eleitorais.

    Pergunto a mim mesmo se o aumento do IVA foi pensado para o défice ou para as obras de que certos grupos económicos desesperadamente necessitam.

    quarta-feira, agosto 03, 2005

    Irrealidade quotidiana



    { clique para ampliar }

    Há duas explicações possíveis para as "pegadas" existentes na falésia do Cabo Espichel. Segundo a lenda, seria o trilho de uma mula que transportara Nossa Senhora até ao Cabo. Segundo a ciência, seriam pegadas de dinossáuros, deixadas há vários milhões de anos em solo pantanoso, que mais tarde veio a petrificar.

    Ora o autor da maqueta da imagem apresentada acima, fotografada no Museu de Ciências Naturais de Madrid, conseguiu juntar as duas explicações numa só: Nossa Senhora aparece montada num dinossauro. Digam lá se isto não vos faz lembrar as americanices relatada no livro de Umberto Eco, "Viagem na irrealidade quotidiana": kitsch e falsificação.

    A imagem apresentada é forjada em Espanha - provavelmente pelo próprio Museu - pois nunca em Portugal se colocou a hipótese de a Nossa Senhora ter viajado no dorso de um dinossauro. Os visitantes devem-se ter divertido, no "gozoso y espectacular recorrido", observando "la recreación de una adoración de la Virgen asociada a la leyenda piadosa de Nossa Senhora da Mua", mas foram enganados se ficaram com a ideia de que aquela imagem foi imaginada pelos crentes. E a designação tradicional exacta é "Nossa Senhora da Pedra da Mua".



    Notas:

    A fotografia foi encontrada aqui; tratava-se de uma exposição temporária, que surge referida nesta notícia do 'El Pais'.

    Veja a localização e desenho dos trilhos das pegadas na Pedra da Mua (Crédito: Geologia no Litoral).

    Texto relacionado: Dinosaurs of Portugal, de Miguel Telles Antunes e Octávio Mateus.

    Financiamento do desenvolvimento

    «Em Portugal, a elevação do nível de vida pode conseguir-se mediante a aplicação de todos os recursos disponíveis em investimentos reprodutivos; mas também poderia conseguir-se, por exemplo, pela supressão de uma parte da população (então não há tanto "desemprego oculto", na agricultura sobretudo?), ou pela defesa legal do aborto (e deixaria de nos atormentar o problema de encontrar ocupação para mais de 40 000 jovens em idade de trabalhar, em cada ano...). Todavia, entre nós, não se aceitam estas duas últimas políticas de aumento do bem-estar, aliás extremamente lógicas, científicas e, quanto à última, de aceitação corrente em países estrangeiros considerados civilizados (a Índia, o Japão, o mundo anglo-saxónico, etc.). Poderá então aceitar-se uma política de industrialização que signifique para extensas camadas da população a estabilidade na miséria?, e a vida em condições infra-humanas ainda durante muitos anos mais?

    Se o processo de industrialização comportasse, no nosso país, a escolha de uma das alternativas enunciadas, a resposta, em face da concepção cristã do homem e da sociedade, seria um não enérgico e definitivo.

    Felizmente, parece possível prosseguir simultaneamente um programa acelerado de investimentos reprodutivos e um processo de elevação do nível de vida das classes mais pobres, pois existem os recursos, bastando não deixar que se mantenham estagnados nas mãos dos seus detentores, ou que se destruam sob as formas de consumos de luxo e de investimentos sem qualquer justificação social.
    (...)
    Se considerarmos a muito desigual repartição do rendimento compreenderemos porque razão não são tão baixas como poderiam parecer as disponibilidades de capitais; mais ainda, é esta desigualdade que está na origem dos dispêndios escandalosos em automóveis e festas, em vestuários e viagens, etc. ... tudo representando recursos reprodutivos que poderiam ser dirigidos para outras utilizações com manifesta vantagem para a colectividade.
    (...)
    Ora sucede que em Portugal a tendência para investir é muito limitada por parte dos particulares, por falta de espírito de empresa, desconfiança do capitalista e exiguidade de mercados; e nem a política de crédito contraria a estagnação dos capitais nem o poder público preenche a sua função supletiva em matéria de tanta gravidade, pondo os mecanismos das finanças do Estado ao serviço do desenvolvimento económico do País. É pela conjugação de todos estes factores que a autêntica escassez de capitais aparece notavelmente agravada, sobretudo naqueles empreendimentos que mais importam para o progresso da nação, ao mesmo tempo que se mantêm parados no sistema bancário, sob a forma de moeda mas constituindo autênticos depósitos de poupança determinados pelo motivo do investimento.

    O quadro não melhora muito quando consideramos os investimentos efectivamente realizados: os detentores de capitais orientam-se largamente para a construção de prédios monumentais; e quando colaboram na obra de fomento industrial não hesitam muitas vezes em financiar grandiosos edifícios fabris, decorados com frescos, cerâmicas e ferros forjados (pois "nem só de pão vive o homem"), instalando-lhes dentro mecanismos de qualidade inferior ou em segunda mão, ou ainda, e na melhor das hipóteses, equipamentos modernos destinados a produções supérfluas, planeadas para estratos populacionais de elevados rendimentos, e não para as grandes massas populacionais - essas não têm poder de compra...

    Onde estará o economista capaz de condenar o desvio, para a elevação imediata do nível de vida das classes mais pobres do país, de alguns milhões de contos parados nos bancos ou escandalosamente aplicados em consumos de luxo e em investimentos injustificáveis?»
    Francisco Pereira de Moura - excertos dum artigo originalmente publicado em "Rumo", Abril de 1955, com o título "Economia e dignidade dos homens"; incluído no livro "Por onde vai a economia portuguesa", de 1969.

    Torre Bela


    Há um filme-documentário sobre a ocupação da herdade da Torre Bela, que tem uma cena de antologia: um dos cabecilhas da ocupação tenta convencer um jornaleiro a entrar para a cooperativa; o pobre homem só tem de seu umas miseráveis ferramentas agrícolas (duas enxadas, uma pá...) mas, mesmo assim, resiste a entregar aquela escassa riqueza. O outro bem o tenta convencer: "entregando as tuas coisas, continuas a ser dono delas, porque isto passa a ser de todos". A cena é curta mas parece prolongar-se indefenidamente, com a argumentação do cooperativista a embater pesadamente no silêncio do trabalhador.

    Sempre achei que aquela cena traduz a verdadeira natureza do confronto que marcou aqueles tempos: não a esquerda contra a direita, não o comunismo contra o capitalismo, mas sim uma racionalidade verbalizada e politizada, contra uma sabedoria inata, conservadora, silenciosa. O tempo passa e acaba por dar razão a esta última.

    Creio que é o mesmo filme e a mesma cena que são recordados assim por Frederico Duarte Carvalho no "Para mim tanto faz":
    «É um documentário sobre a ocupação da herdade de Torre Bela, com cenas únicas. Aquele diálogo de "a tua pá é nossa, ó pá!", é de antologia... A primeira (e última) vez que vi este documentário foi há 10 anos, em Abril de 1994, num quarto de hotel em Cannes. Passou no canal franco-germano "Arte" e fiquei a absorver aquelas imagens e sons completamente novos para a minha mente. Nunca as tinha visto em Portugal. Nunca mais as vi depois. Foi nessa altura que comecei a questionar-me sobre o 25 de Abril...»
    Referindo-se a este documentário, Eduardo Cintra Torres escreveu:
    «As imagens sempre espantosas de camponeses da Torre Bela experimentando roupas ricas dos patrões, remexendo-lhes as gavetas com um misto de culpa, curiosidade e desejo, mas sem inveja; a reunião do MFA na Torre Bela, instigando (por escrito) os camponeses a criarem a sua própria legislação revolucionária, isto é, empurrando-os para a ocupação.»
    Alguns dados políticos sobre esta ocupação original (influenciada pela LUAR, não seguiu o modelo do PCP) encontram-se aqui.

    Sobre a Torre Bela existem dois documentários: um de 1975, realizado por Luís Galvão Teles, e outro de 1977 (mas talvez filmado em 1976), realizado por Thomas Harlan, e não estou certo a qual dos dois pertence a cena a que me refiro.

    Sobre esta herdade e esta ocupação foram escritos dois livros:
  • de Helga Novak, "Die Landnahme von Torre Bela", Rotbuch, Berlin, 1976;
  • de Francis Pisani, "Torre Bela, On a tous le droit d'avoir une vie" - Simoën, Paris, 1976;

    (Este assunto surgiu por causa de um interessante debate sobre cooperativas no Semiramis.)
  • Santana não (con)vence


    a) Numa entrevista ao jornal "Expresso", o presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, revela-nos que é ele "o político português, de longe, com mais citações na net. Tenho 230 ou 240 mil, umas boas e outras más. Há dois meses, Mário Soares tinha 180 mil, Cavaco Silva 140 mil, Durão Barroso 120 mil..."

    Um jornalista do "Público" resolveu confirmar os números e, no Google, o ranking obtido foi:
  • "Durão Barroso" - 106.000
  • "Santana Lopes" - 92.400
  • "Mário Soares" - 72.500
  • "Cavaco Silva" - 49.600
  • b) Intrigado, resolvi fazer o meu próprio ranking, no Google e acrescentando Jorge Sampaio, que "deu":
  • "Durao Barroso" - 178.000 (sem til; com til=105.000)
  • "Mario Soares" - 106.000 (com acento=75.900)
  • "Jorge Sampaio" - 130.000
  • "Santana Lopes" - 93.000
  • "Cavaco Silva" - 49.700
    (donde se conclui que o jornalista do Público dever ter feito a busca com acentos...)
  • c) Tentei depois o Search.msn:
  • "Mario Soares" - 59.218
  • "Durao Barroso" - 56.922
  • "Jorge Sampaio" - 46.127
  • "Santana Lopes" - 26.210
  • "Cavaco Silva" - 19.600
  • d) Depois voltei ao Google, restringi a busca a "páginas de Portugal"(*) e lá obtive um 2º lugar para Santana.
  • "Jorge Sampaio" - 64.900
  • "Santana Lopes" - 55.500
  • "Durao Barroso" - 54.400
  • "Mario Soares" - 49.100
  • "Cavaco Silva" - 30.500
  • e) Finalmente, subtraindo estes números aos da alínea b), resulta a seguinte popularidade "lá fora":
  • "Durao Barroso" - 123.600
  • "Jorge Sampaio" - 65.100
  • "Mario Soares" - 56.900
  • "Santana Lopes" - 37.500
  • "Cavaco Silva" - 19.200
  • Levantam-se aqui várias lebres. Passando por alto a elevada auto-estima do citado Pedro, a discrepância dos números assustou-me. Será que os números mudam significativamente dia-a-dia? Será que se ajustam conforme a pessoa que faz a consulta e as suas preferências pessoais? (não se riam, porque é o que parece acontecer com as sondagens eleitorais de empresas da especialidade...)

    É claro que este indicador de "popularidade" (ou o que quer que seja que estas citações indiquem) teria que penalizar Soares e Cavaco, pois quando a internet começou a explodir entre nós, aqueles politicos já não desempenhavam cargos mediáticos. Pela mesma razão se explicam os elevados números de Durão Barroso, para além da visibilidade do actual cargo.

    Porém, e para lá do anedótico desta "citometria" política, levanta-se uma questão interessante: será que o "efeito internet" tenderá a colocar na sombra políticos e acontecimentos relevantes da era pré-internética, salientando factos menores mas posteriore e, por isso, beneficiando da exposição on-line?

    Par além da evidente inutilidade desta busca (só justificada pela época estival) descobri que, afinal, os motores de busca sempre têm alguma sensibilidade aos acentos das palavras, estando eu convencido do contrário.


    (*) - não é equivalente a "páginas de portugueses em Portugal", mas sim a páginas alojadas em servidores portugueses; os inúmeros blogues portugueses alojados no Blogger, por exemplo, não são contabilizados com esta restrição.

    terça-feira, agosto 02, 2005

    "Reprises"


    «[...] E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, conspira-se; rodam as carruagens de aluguer, levando a 300 réis por corrida, inimigos do imposto. Prepara-se o cheque ao ministério histórico, vem a votação... Zás! cai o ministério histórico.

    E ao outro dia, o partido regenerador no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de S. Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos desceram, as transacções suspenderam-se; os comboios cruzam-se cheios de autoridades demitidas, o rédito diminuiu, a opinião descreu mais, a fé pública dissolveu-se mais - mas finalmente caiu aquele ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.»

    Eça de Queiroz, Maio de 1871
    Citado por João Duque in Semanário Económico


    «É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma.»

    Príncipe de Salina in "O Leopardo"
    de Tomasi de Lampedusa (já citado aqui)

    Compadre



    «A politização da CGD não ajuda a credibilizar uma instituição que, pelo menos desde o início de 2004, vive em situação de instabilidade interna permanente. Este será, assim, o principal trabalho do novo presidente, Carlos Santos Ferreira, ele próprio um ministeriável do PS e compadre de António Guterres.»

    António Costa in Diário Económico

    Os mercados não dormem...


    Para grandes males...
    «Enquanto a confiança dos consumidores cai para os níveis mais baixos desde Setembro de 2003, o pessimismo de empresários e comerciantes bate mínimos históricos.»
    ... grandes remédios:
    «17 mil pipas Vinho do Porto penhorado prestes a inundar mercado, 40% abaixo do valor médio de mercado.»

    The corporation




    O filme "The Corporation" (baseado no livro "The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power", de Joel Bakan) anda a acumular prémios internacionais: 24 ao todo, incluindo escolhas do público, como o do Festival de Brasília e do "Sundance Film Festival". Tem a participação de numerosas personalidades, tais como os académicos Noam Chomsky, Peter Drucker e Milton Friedman - o qual emitiu esta deliciosa sentença: "pedir a uma grande empresa que seja socialmente responsável faz tanto sentido como pedir o mesmo a um edifício." Veja a lista de personalidades.

    Sinopse: «'The Corporation' aborda a natureza e crescimento espectacular desta instituição dominante do nosso tempo. Imagens da cultura pop, anúncios, noticiários da TV e propaganda institucional, pretendem esclarecer a influência das grandes empresas nas nossas vidas. Tomando à letra o seu estatuto legal de "pessoa", o filme coloca the corporation no sofá do psicanalista, para obter uma resposta à pergunta: "que tipo de pessoa é isto?" Provocador, espirituoso, informativo, o filme incorpora 40 entrevistas com especialistas e críticos- incluindo Milton Friedman, Noam Chomsky, Naomi Klein e Michael Moore - e ainda verdadeiras confissões, casos de estudo e estratégias para a mudança.»

    No site da BBC avisam-nos: «Talvez você não saiba, mas vive num mundo que está a ser governado secretamente por uma entidade não-humana (...) Em linguagem corrente, o monstro é conhecido como "The Corporation". O filme com o mesmo nome é uma desconstrução de duas horas e meia do modus operandi desta atrocidade de factura humana, actualmente fora de controlo.»

    A realização é de Jennifer Abbott. Portugal não consta ainda da lista de distribuição.

    Ainda Friedman


    Lendo comentários de outros relativos ao aniversário de Milton Friedman, descobri o site da série de televisão que o economista fez no início dos anos 80: Free to Choose. Encontram-se ali documentos interessantes, tais como o texto "Money and Economic Development", resultante de duas "Horowitz Lectures" que Friedman fez em 1972.

    Ali também se encontram excertos em video de debates:
  • entre Robert Heller e Friedman:
        http://freetochoose.net/media/media_78_1.rm
  • entre George Stigler e Mark Green:
        http://freetochoose.net/media/es-gov-reg.ram

    No Heritage Tidbits encontrei esta citação de Friedman:
    «O progresso industrial, os melhoramentos mecânicos - todas as grandes maravilhas que a era moderna criou - representaram relativamente pouco para os ricos. Os ricos na Grécia Antiga pouco teriam beneficiado com o moderno sistema de canalizações: os escravos diligentes forneciam-lhes água constantemente. Televisão e rádio? Os Patrícios de Roma podiam ter os melhores músicos e actores nas suas casas; podiam contratar os grandes actores como empregados domésticos. Roupa pronto-a-vestir, super-mercados - tudo isso e muitos outros desenvolvimentos modernos teriam acrescentado pouco às suas vidas. As grandes conquistas do capitalismo ocidental resultaram principalmente em benefícios para as pessoas comuns. Estas conquistas tornaram acessíveis às massas as regalias e amenidades que antes constituíam prerrogativas exclusivas dos ricos e poderosos.»
  • Simetrias


    Diz "O Acidental" que «boa parte das pessoas continua a ligar automaticamente liberalismo e economia. É como se houvesse um cordão umbilical entre o liberal e o guito. O liberal, nestas mentes reaccionárias – à esquerda e à direita - é o tipo que sonha com cifrões, é o ser infame que rouba a esmola do ceguinho da esquina, é aquele que cobra cem paus à velhinha quando esta pede ajuda para atravessar a rua.«»

    Concordo. Mas - se bem entendo o significado da expressão "mentes reaccionárias" - tão reaccionárias como essas pessoas, são as que confundem o estado-social com o comunismo, vendo o "caminho para a servidão" em toda e qualquer medida intervencionista do Estado. Para certos auto-apregoados liberais, o intervencionista é um ser infame que rouba aos empresários a riqueza que estes criam, para a distribuir por um bando de velhinhas preguiçosas.