
José Cid tem uma carreira longa, iniciada em 1956, quando fundou o grupo "Babies". Em 1960 seguiu-se o "Conjunto Orfeão", com os conhecidos José Niza e Proença de Carvalho (actualmente advogado).
Mas é em 1966, com a criação do "
"Quarteto 1111"" e a composição de "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" que o país toma conhecimento de José Cid. O impacto é tão grande que o programa de rádio "Em Órbita", exclusivamente dedicado à música pop-rock de expressão anglo-saxónica, abre um excepção (a única) para emitir uma música portuguesa. É de referir que os padrões de qualidade do "Em Órbita" eram elevados, tendo contribuído para divulgar em Portugal nomes como o de Bob Dylan, Donovan, Joan Baez, etç.
A excepcionalidade da transmissão desta canção justificou a leitura prévia de um comunicado (disponível
aqui), lido pelo locutor João Mota, que corporiza um autêntico manifesto para uma nova música popular portuguesa. Entre os "requisitos mínimos" deste manifesto estavam:
1 ° - Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.
2° - Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.
3° - Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Bênidorm.
4° -Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse de forma a não deixar dúvidas, apelando a uma imitação grotesca que se faz no estrangeiro, quer na forma de copia pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
E o comunicado adiantava ainda mais: "O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país."
Estas eram algumas das qualidades atribuídas pelo "Em Órbita" à composição de José Cid. Algumas pessoas poderão considerar o episódio algo ridículo, mas isso deve alertá-las para o seguinte: talvez as posições que defendem hoje venham a ser consideradas igualmente ridículas.
Em Agosto de 1969 José Cid tentou organizar o primeiro festival pop-rock em Portugal, no Estoril (parque dos Salesianos); a proibição em cima da hora irritou a assistência, que queimou umas quantas cadeiras, seguindo-se a intervenção da polícia de choque, com escaramuças que se prolongaram palas ruas do Estoril (ver
aqui). Nesse mesmo mês de Agosto teve lugar nos EUA o mítico Festival de Woodstock. Portugal terá de esperá por 1971 para ter o seu Woodstock, o
Vilar de Mouros de 1971, onde o "Quarteto 1111" também participou.
Ainda em 1969 José Cid grava o seu primeiro disco a solo, "Lisboa Camarada", que é proibído pela censura. Também nesse ano o "Quarteto 1111" grava o seu primeiro LP, com o nome do grupo, que é lançado no início de 1970 e imediatamente proibido, com apreensão dos exemplares prensados. Trata-se de um álbum conceptual, com um fio condutor em torno dos temas da emigração, do racismo e da guerra. A canção com o título "A Lenda de Nambuangongo" (nome mítico da zona de Angola onde eclodiu a guerra) fala expressamente da guerra e termina com uma mensagem de paz forçada pela natureza:
E o vento rugindo (...)
fendeu a montanha
De dentro saíram
na raça irmanados
indígenas brancos
e negros soldados
Era demais para a censura. Mas também não era exactamente a "mensagem" da esquerda estudantil contestatária (na linha do Maio de 68) ou da oposição comunista, que preferia uma emancipação pura dos africanos, e não essa coisa de "braço dado". Este disco inclui ainda a primeira edição da canção "Trova do Vento que Passa", de Manuel Alegre e Adriano Correia de Oliveira.
Trata-se de um disco de grande qualidade musical, tanto nos temas melódicos como nos arranjos, execução instrumental e qualidade de gravação. Uma obra-prima do pop-rock português que ficou na gaveta. A PIDE não gostou. Mas a esquerda também não: haveria de preferir as baladas chatas e soturnas, mais de acordo com o "realismo popular" soviético, que era o que passava nas sessões musicais clandestinas promovidas pelas associações de estudantes.
Com o 25 de Abril chegou a grande radicalização: numa discussão do tipo "qual o detergente que lava mais branco", a esquerda radical só considerava legítimo o pessoal do Canto Livre (Zeca Afonso, Adriano, etç.) considerado mais "consequente", com desprezo por todos aqueles que tinham, por exemplo, participado nos Festivais da Canção: tal era o caso de José Cid.
Por esta altura, é certo, já José Cid tinha criado os "Green Windows", uma variante do "Quarteto 1111" com coros femininos e a cantar em inglês, para tentar entrar no mercado internacional: uma espécie de "Abba à portuguesa". Obtém grande sucesso comercial com "20 anos", porém a
inteligentzia não mais perdoará a José Cid, que passará a ficar rotulado como cantor "comercial" e de gosto duvidoso.
Sobre esses "20 anos" já passaram outros 30 anos. Mortos os "Abba", já a elite musical os reconhece como um "grupo importante", elogiado um pouco por todo o lado.
Em 1978 Cid gravou nova obra prima: o LP "10,000 Anos Depois Entre Venus e Marte", considerado hoje uma das melhores obras de rock progressivo em todo o mundo. E assim estamos nós: um dos nossos mais criativos artistas, e com maior sucesso, tanto no país como no exterior, considerado aqui como um artista sem qualidade. Creio que isto diz muito sobre o país que somos. Eu próprio alimentei esse preconceito. Mas não há maneira de esconder a idiotice desta atitude.
É certo que José Cid parece ter uma febre por acompanhar tudo o que é novidade: ainda recentemente o ouvi na rádio dizer que estava a seguir uma nova corrente, o "etno rock". Esta deriva constante pode ter contribuído para alienar muitos dos admiradores que foi entretanto conquistanto: a inovação na música (como noutras áreas) não é apreciada no nosso país.
José Cid bem se queixa da injustiça com que é tratado, mas não tem hipótese: os "heróis" desta telenovela musical nunca se auto-promovem: esse é um trabalho reservado para alguns corifeus.
Há uma semana, no programa "O Amigo da Música", o ouvinte convidado passou, como uma das "músicas da sua vida", um tema de José Cid - precisamente os "20 anos". Foi quanto bastou para a Antena 1 receber emails de ouvintes indignados com o facto. Acharam, certamente, que José Cid não tem "cabidela" num programa de qualidade.
Eis o que somos: um país com a censura na cabeça de cada um. No programa em que participei, José Nuno Martins citou uma frase do
Maio de 68: "As paredes têm ouvidos. Os ouvidos têm paredes". Creio que é isto que explica a censura da intelectualidade portuguesa a José Cid.
(*)
Índex: designação da lista de livros proibidos pela Inquisição; por analogia: lista de obras ou autores proibidos.
Adenda - referi o caso de José Cid, mas poderia também ter referido o de Lena d'Água, que parece não "passar" no crivo da "qualidade" cultural da nossa
intelligenzia; Lena d'Água tem um blogue intimista, assumidamente para falar da sua música e de si (como são todos os blogues, embora a maioria se disfarce de púlpito da boa moral). Bastou uma
referência aqui a esse blogue para logo alguém ter ficado ofendido. Pois volto a conselhar uma visita ao
blogue da Lena d'Água, que agora também disponibiliza canções da Lena, tais como as excelentes "Armagedon" ou "Redondo Vocábulo" e, sobretudo, "Laura" (com Jorge Palma).