sábado, julho 30, 2005

O certo é que...


O certo é que se encontram disponíveis on-line estudos sobre o novo aeroporto na OTA, como por exemplo os seguintes relatórios (cuja numeração indica que fazem parte de um conjunto mais amplo), alojados no site "NAER - Novo Aeroporto" (*) - embora a página-mãe tenha os links desactivados:
  • 4. Recursos hídricos subterrâneos

  • 8. Ecologia

  • 13. Economia regional e local

  • 15. Risco de colisão de aeronaves com aves

  • 16. Estimativa do número de sobreiros afectados

  • Anexos (referenciado por Os Pássaros)
  • No site do Instituto de Acústica (espanhol) encontra-se este relatório:
  • Estudo de Ruído (para Rio Frio e Ota)
  • A Resolução do Conselho de Ministros 18-B/2000 refere alguns dados estatísticos e projecções, bem como alguma argumentação de base contra a viabilidade da Portela.


    (*) - A NAER é uma sociedade anónima constituída pelo D-Lei 198/98, com o objectivo de "proceder ao desenvolvimento dos trabalhos necessários à preparação e execução das decisões referentes aos processos de planeamento e lançamento da construção de um novo aeroporto em Portugal continental."

    Figuinhos


    «Uma sobremesa a honrar os belos figos algarvios e a mais preguiçosa das árvores, a figueira: retire a polpa a 6 figos e bata-a com uma colher de mel, uma pitada de sal e outra de pimenta. Esmague um requeijão com um garfo de modo a ficar cremoso e ponha metade no fundo de uma taça; deite por cima o doce de figos e cubra com o restante requeijão.
    Enfeite com gomos de figo com a pele, regue com um fio de mel e polvilhe com um pozinho de canela. Algum problema? Os bons produtos adaptam-se bem a qualquer cozinha. Nós também.»

    Maria de Lourdes Modesto in Expresso

    Otites e tergiversações (II)


    Rui in Adufe:
    «Não é então razoável que eu, eleitor deste governo, me pergunte (não é preciso o ministro) que TGV e que aeroporto se vão fazer? Comboio a 200 ou a 320 à hora? Com que dinheiro? Com que gestão? Com que sustentação e com que impacto nos Orçamentos de Estado futuros? E com que retorno esperado para a economia nacional?»
    In jornal Público:
    «O ministro da Economia justificou hoje [num artigo de opinião publicado no jornal "Expresso"] a importância da construção do novo aeroporto de Lisboa e do comboio de alta velocidade pelas mais-valias que trazem para o crescimento e competitividade da economia portuguesa. (...) Manuel Pinho indica ainda que o novo aeroporto é financiado "quase exclusivamente pelo sector privado", considerando este "um projecto rentável". Manuel Pinho argumenta também que Portugal não pode ficar "paralisado" e isolado, numa altura em que os espanhóis têm já 9000 quilómetros de auto-estradas e querem alargar a rede de alta velocidade para os 10.000 quilómetros.»
    Vicente Jorge Silva in Diário de Notícias:
    «Assim, a partir do momento em que a agenda política do Governo passou a ser condicionada por este imperativo [medidas de austeridade draconianas que se revelaram inevitáveis devido ao estado das finanças públicas], era forçoso que outras componentes do seu programa fossem reavaliadas e objecto de uma nova síntese, nomeadamente as prioridades do investimento público e os megaprojectos da Ota e do TGV. Ora, isso não aconteceu, como se fosse possível conciliar estritamente a agenda pré-eleitoral e a agenda pós-eleitoral - e os sacrifícios exigidos aos portugueses não obrigassem a um maior rigor cirúrgico na política de investimentos.»
    Ruben de Carvalho in Diário de Notícias:
    «É necessário discutir se a Ota e o TGV são bons investimentos públicos - mas não é isso que está a acontecer recorrendo às dúvidas que os dois projectos levantam, o que a direita e o capital procuram é generalizar a ideia de que todo o investimento público é mau.»
    João Vieira Pereira in Semanário Económico:
    «O que move o governo em teimar levar avante com obras que poucos ou mesmo nenhuns defendem é algo desconhecido. Até agora a única justificação para a construção da OTA e do TGV é birrento “porque sim”. A força do populismo político é maior do que qualquer justificação. O poder político precisa de mostrar trabalho e de ter metas reais a que apontar.
    O plano tecnológico já é história. Agora é a OTA e o TGV que contam. Duas obras sobre as quais nada sabemos e que só começarão a ter efeitos visíveis sobre a economia lá para 2010. Mas duas obras que, pela força de Manuel Pinho e de Mário Lino, e com a complacência de José Sócrates, se tornaram a bandeira política deste Governo.»
    Manuel Alegria in Semanário Económico:
    «(...) milhares de analistas, economistas, jornalistas e “treinadores de bancada” que pululam por este País e que peroram sobre tudo e nada com uma desfaçatez que chega a chocar. Com raras e honrosas excepções, o que temos assistido nos últimos tempos acerca dos projectos da Ota e do TGV é bem ilustrativo desta autêntica paranóia de ser ouvido ou marcar posição, mesmo que do assunto em causa pouco ou nada se conheça. O que pouco interessa, desde que se alinhe pelo discurso da moda, aquele que alguém, bem ou mal intencionado, preparou para que outros, muitos, se possível, debitem a seu belo prazer em meios de comunicação ávidos de sensacionalismo.»
    Pedro Ferraz da Costa in Diário de Notícias:
    «O Governo deixou-se arrastar pelas máquinas de promoção dos grandes projectos e desistiu de assegurar o insubstituível papel do Estado na articulação de políticas e na compatibilização das diversas redes portos, aeroportos, estradas e ferrovias. As opções da Ota e do TGV são duas manifestações desse afastamento das realidades, quer quanto aos custos de investimento e de operação, quer quanto à inoportunidade estratégica face a necessidades mais prementes.»
    José Pacheco Pereira in Abrupto:
    «Todos nós ficaríamos mais informados e poderíamos discutir melhor, aceitando inclusive as razões do governo para tão vultuoso e controverso investimento. Não há nada a temer pois não? Não há segredos de estado, pois não? Não há razões para não se conhecerem, pois não? Até já deviam estar na rede. Eles devem estar feitos em suporte digital, é suposto. Por isso, ainda hoje podem ficar em linha, ou este fim-de-semana. Não há razões para demora. Sugiro também, para no governo se ouvir melhor, que outros blogues e mesmo os meios de comunicação social possam todos os dias repetir a pergunta, o pedido, até ele ter a única resposta razoável. SFF.»
    Carlos Manuel Castro in Tugir:
    «Os defensores do novo aeroporto dizem que a Portela estará esgotada dentro de uma década. Mas, e os restantes aeroportos? Pedras Rubras, Faro? Será que Portugal só tem um aeroporto?
    Continua a lógica do puro centralismo, que no caso do aeroporto, de central nem tem muito.»
    Nicolau Santos in Expresso:
    «Pois agora que aparece um Governo, que disse expressamente em campanha que queria compatibilizar o combate ao défice com o desenvolvimento e o investimento público, aqui d' El Rey que não é possível, tem de se deixar cair a Ota, o TGV e «tutti quanti», porque senão não conseguimos controlar o défice. Em matéria da qualidade do investimento público há certamente um grande debate para fazer - e parece que o Governo está disposto a fazê-lo a partir de Setembro. Em qualquer caso, sem investimento, público e privado, é que o país não vai para a frente. Se são «estes» os investimentos públicos que devem ser feitos é a questão que deve ser discutida. Mas está fora de causa que seja negativo que o Governo tenha dado aos agentes económicos, no início da legislatura, a informação sobre as grandes apostas que pretende fazer nesta matéria ao longo dos próximos quatro anos.»
    José António Lima in Expresso:
    «[Sócrates, na entrevista à SIC] foi convincente na justificação do pacote de investimentos do Governo, na defesa da Ota, do TGV (embora em versão minimalista, deixando cair alguns troços) e de outras obras públicas. Argumentando com a necessidade de não paralisar a economia do país, de ser absurdo que a rede de alta velocidade europeia acabe em Espanha ou de ser insensato não preparar alternativas para o esgotamento operacional a prazo do aeroporto da Portela.»

    sexta-feira, julho 29, 2005

    Últimas edições




    É sempre triste ver desaparecer um jornal - e neste sábado serão dois os que terão as suas últimas edições. Relembro este post d'O Vilacondense sobre uma reportagem feita em 1896 ao Commércio do Porto

    «Em 1854, o jornalismo portuense ocupava-se quase exclusivamente de questões políticas. Nestas circunstâncias, Manoel Carqueja e o dr. Henrique Carlos de Miranda, aos quais se juntou, pouco depois, Francisco Carqueja, irmão do primeiro, acharam que seria viável um jornal exclusivamente comercial. Assim, no dia 2 de Junho daquele ano, surge a público "O Commercio", porque "A Praça do Porto precisa d'um Jornal de Commercio, Agricultura e Industria, onde se tratem as materias economicas, historicas e instructivas deste tres poderosos elementos em que assenta a prosperidade das nações modernas.»

    (Associação Portuguesa de Imprensa)


    O jornal «A Capital» foi fundado em 21 de Fevereiro de 1968 por Norberto Lopes e Mário Neves.

    Alexis de Tocqueville


    Comemoram-se hoje os 200 anos do nascimento de Alexis Charles Henri Maurice Clérel de Tocqueville, o aristocrata francês que observou o sistema democrático em gestação e detectou tanto as suas potencialidades quanto sua as fragilidades, as quais, ainda hoje, constituem o cerne das nossas certezas e das nossas dúvidas quanto a este sistema.

    Em 1831 e 1832, Alexis de Tocqueville esteve na América com o objectivo de estudar o sistema prisional, para transpor algumas soluções para França. O estudo acabou por não ter grandes resultados mas, paralelamente, Tocqueville verteu as suas reflexões sobre a sociedade e a política americanas em "Da Democracia na América", considerado um marco da cultura política ocidental".

    «O desenvolvimento gradual da igualdade de condições é, portanto, um facto providencial, tendo como características principais: ser universal, ser durável, escapar em cada dia ao poder humano; todos os acontecimentos, como todos os homens, servem ao seu desenvolvimento.

    Será sabedoria crer que um movimento social que vem de tão longe poderá ser interrompido pelos esforços de uma geração? Poderemos pensar que depois de ter destruído a feudalidade e vencido os reis, a democracia recuará perante os burgueses e os ricos? Interromperá ela a sua marcha, agora que se tornou tão forte e os seus adversários tão fracos?

    Para onde iremos, então? Ninguém o saberá dizer, pois faltam-nos termos de comparação: as condições são mais igualitárias hoje, entre os cristãos, do que jamais o foram, em qualquer tempo ou país do mundo; assim, a grandiosidade do que já foi realizado impede a previsão do que se poderá ainda realizar.

    O livro que ireis ler foi escrito sob a impressão de uma espécie de terror religioso, produzido na alma do autor pela vista desta revolução irresistível que marcha desde há séculos através de todos os obstáculos e que vemos, ainda hoje, avançar no meio das ruínas que ela própria provocou»

    ("Da Democracia na América")


    «Aquilo que em todos os tempos ancorou a liberdade no coração de alguns homens foi o seu encanto próprio, independentemente dos seus benefícios, foi o prazer de poder falar, agir, respirar sem constrangimento, sob o único governo de Deus e das leis.»

    ("O Antigo Regime e a Revolução")


    Textos de Tocqueville disponíveis on-line:
  • De la démocratie en Amérique I (1835)
  • De la démocratie en Amérique II (1840)
  • Deuxième lettre sur l'Algérie (1837)
  • Travail sur l'Algérie (1841)
  • Rapport sur l'Algérie (1847)
  • Tocqueville au Bas-Canada (escritos entre 1831 e 1857)
  • L'Ancien régime et la Révolution (1856)

    Em inglês:
  • Democracy in America, Volume 1
  • Democracy in America, Volume 2

    Outras fontes:
  • Biography
  • Alexis de Tocqueville: biographie - André Lacroix
  • Alexis d'Tocqueville Live Recitation
  • Jornais em risco


    Anuncia-se o encerramento dos jornais "A Capital" e "Comércio do Porto". De acordo com notícia do jornal "Público", a empresa proprietária dos dois jornais ("Prensa Iberica") rejeitou uma proposta de aquisição de ambas as publicações apresentada por cinco quadros do grupo (management by out; esta solução já fora aplicada à Capital em 1999). A hipótese de liquidação dos dois órgãos parece estar a causar mais impacto no Porto, onde o "Comércio do Porto" tem um peso simbólico maior.

    Política "Borda d'Água"




    «Alguém acha possível que possamos ter uma política económica agora inspirada no almanaque Borda d'Água, o que significa que apenas devemos investir quando faz bom tempo? Não! Devemos investir mesmo quando faz mau tempo, justamente para que venha o bom tempo.»

    Primeiro-ministro Sócrates, em resposta
    aos que criticam os grandes investimentos
    públicos por causa dos tempos de crise.
    (Citação do jornal "Público").

    quinta-feira, julho 28, 2005

    Níveis de contestação


    Os protestos de ontem, no Parlamento, atingiram um patamar a que que não se assistia há muito tempo. Segundo o Jornal de Notícias, «Centenas de trabalhadores da Administração Pública estenderam tarjas brancas onde se lia "não aprovem o roubo", ao mesmo tempo que, de olhos postos na bancada do governo, gritavam "fascistas", "gatunos" e "mentirosos".»

    É sabido, há muito tempo, que as pessoas aceitam pior a retirada de um direito ou regalia que já possuíam, do que a negação de uma a que julgam ter direito. É isso que explica a denominada "ilusão monetária": um trabalhador aceita pior que lhe baixem o ordenado 5 % num período sem inflação, do que lhe aumentem o ordenado 5 % com uma inflação de 15 % - mesmo sabendo que o efeito final é mais favorável no segundo caso (vejam lá, aderentes do neo-liberalismo económico, se tendes explicação para isto...)

    É, por isso, provável que assistamos nos próximos tempos a níveis de contestação raramente vistos - contrariando a teoria de que o que as pessoas desejam é um governo forte.

    Otites e tergiversações


    Bloguítica:
    «O manifesto divulgado pelo Diário de Notícias não deve ser ignorado, pelo contrário. Quem ouviu hoje Vítor Bento, na SIC Notícias, terá ficado a perceber muito claramente aquilo que está em jogo. Cada vez mais me parece que os projectos da Ota e do TGV são, no mínimo, uma precipitação. Uma precipitação muito cara.»
    A Arte da Fuga:
    «O Manifesto sobre o investimento público é um bom resumo de tudo quanto se tem vindo a dizer e a escrever sobre este governo. Não traz, por isso, nada de novo. Nem sequer traz algo de muito relevante. Limita-se a recordar velhas regras básicas de governação. É neste nível que estamos. O tempo das trapalhadas já passou. »
    O Insurgente:
    «Embora não concorde com o tudo o que é dito (nomeadamente a sua inquebrantável crença - ainda que menor que o presente governo - no dirigismo económico) partilho o repúdio que estes dirigem aos "elefantes brancos" que se anunciam.»
    Biblioteca de Babel:
    «Um povo estúpido acredita no que lhe disserem. Se pessoas, aparentemente inteligentes, afirmam uma coisa é porque deve ser verdade. Se os jornalistas não o contestam, concordando com o conteúdo que ali é debatido, questionando apenas um ou outro detalhe lateral, então é porque é mesmo verdade. (...) Se lhes disserem que é preciso um grande aeroporto, daqueles mesmo muito grandes, eles acreditam. Os empreiteiros ficam radiantes. (...) Se lhes disserem que investimento público é bom eles acreditam. A quantidade de empresários que ganha dinheiro à custa do Estado agradece-vos a todos, esses também gostam que vocês acreditem nisso.»
    Causa Nossa:
    «Entrada da estação (!?) ferroviária de Coimbra, Portugal, UE (sim, não é na África central). O país que o manifesto dos 13 economistas desconhece...»
    A Mão Invisível:
    «Se a OTA ou a solução proposta para o TGV proposto (bem diferentes do conceito de necessidade de reestruturação de terminais aéreos ou da rede de TGV) fossem as soluções óptimas para as graves deficiências logísticas que o País exibe, não exisitiria um silêncio soturno, assutado e verdadeiramente comprometedor por parte de quem as quer promover.»
    O Jumento:
    «Que Sócrates é um teimoso e tem mau feitio já toda a gente sabe, o que não se sabia era que iria relacionar-se com os portugueses impondo essas más características pessoais, é o que está fazendo nos projectos da OTA e do TGV; Sócrates parece não entender que quem não explica tais investimento arrogando-se a decidir porque a sua convicção íntima basta, está a fazer o mesmo que faria qualquer "déspota esclarecido". O otismo de que Sócrates parece sofrer está a impedi-lo de perceber que se arrisca a entrar numa queda irreversível que o conduzirá à derrota e ao esquecimento político.»

    quarta-feira, julho 27, 2005

    Tudo na mesma, tudo normal


    Uma das formas de "explicar" (ou perceber) um país é o de o analisar como uma soma de grupos de interesse que lutam e negoceiam entre si para obter o maior número de vantagens, embora mantendo uma coesão global necessária ao funcionamento do sistema. Portugal, de acordo com este modelo, esteve nos últimos meses em grande ebulição. Episódios como a demissão do ministro das Finanças e o "manifesto dos 13" são apenas manifestações dessa agitação.

    O facto do governo ter admitido ontem introduzir medidas fiscais de diferenciação positiva para o transporte público de mercadorias (notícia do Público) revela um dos sectores que talvez venha a obter alguma vantagem. É verdade que o governo apenas "admite", mas a ANTRAM já manifestou estar "satisfeita com o compromisso do Governo".

    Afinal, o país sempre funciona. Ufa!...

    Leituras de Verão


  • A economia portuguesa em 2004 - capítulo do Relatório sobre a Situação Geral dos Mercados de Valores Mobiliários", da CMVM.

  • Viagens de Ulisses: Efeitos da Imigração na Economia Portuguesa - por Eduardo de Sousa Ferreira, Helena Rato e Maria João Mortágua

  • Custos de Contexto: vinte e dois casos ilustrativos
    Agência Portuguesa para o Investimento

  • Para combater o esquecimento científico e tecnológico
    por Joaquim da Costa Leite

  • Estratégia Nacional para o Desenvolvimento Sustentável - 2005-2015
  • Finalmente um debate económico a valer


    O Diário de Notícias de hoje apresenta o manifesto "O investimento público não faz milagres", um curto texto onde 13 economistas de renome (*) combatem a ideia de que crise económica do país se pode resolver pelo recurso a um programa de grandes investimentos públicos em infraestruturas:
    «Primeiro, porque, numa situação de excesso de despesa, mais investimento em obras públicas irá favorecer sobretudo as economias de onde importamos, sem efeito sensível na capacidade produtiva da economia portuguesa, agravando o défice externo (pois só há financiamento parcial de fundos comunitários).

    «Segundo, porque o tipo de emprego mobilizado pela construção pouco efeito terá na absorção do desemprego fabril gerado pela perda de competitividade da nossa indústria e mobilizará sobretudo a imigração.

    «Terceiro, porque tais investimentos irão agravar ainda mais o desequilíbrio das contas públicas, seja pela despesa directa, seja pelos custos de exploração futura, seja, como aconteceu nas SCUTS, pelas inevitáveis garantias para assegurar a mobilização do sector privado. Pelo menos!

    «Por fim, porque os portugueses não poderão compreender que lhes estejam a ser pedidos sacrifícios com impacto no seu nível de vida, quando o Estado se dispõe a gastar dinheiro em projectos sem comprovada rendibilidade económica e social.»
    Alternativa proposta:
    «Uma urgente e dedicada concentração de esforços visando apropriadas medidas de contenção orçamental (com uma estrita selectividade das despesas públicas), de incentivo económico a favor dos sectores produtores de bens transaccionáveis, de promoção da eficiência económica (nomeadamente através da redução das ineficiências geradas pelo próprio Estado) e de uma moderação da despesa colectiva.»
    O mesmo jornal apresenta os argumentos com que o ministro Manuel Pinho respondeu, ontem, às criticas ao tal programa de grandes investimentos públicos em infraestruturas (PIIP):
    Primeira crítica: o investimento público é o motor do crescimento. "Não, não é", sustenta Pinho. "Durante o período coberto pelo PEC entregue em Bruxelas, o investimento público não poderá ultrapassar os 3% do PIB. O motor do crescimento de longo prazo é o Plano Tecnológico."

    Segunda crítica: o investimento público previsto nos PIIP vai aumentar o défice externo num montante de 10 % do PIB. "Não, não vai", recusa o ministro. "O investimento previsto é cerca de 30% do previsto no PEC. Como este é de de 3% do PIB, o pior que poderia acontecer seria o défice aumentar em 0,9%. Mas para tal seria necessário que todo o investimento consistisse em importações, quando o programa foi desenhado para aumentar a competitividade."

    Terceira crítica: não foram ordenadas prioridades e os investimentos não são selectivos. "Pelo contrário, a filosofia dos PIIP é de, logo no início de uma legislatura, assumir compromissos relativamente às prioridades mais importantes", rebate Manuel Pinho.

    Quarta crítica: o Governo escolheu obras faraónicas, porque decidiu avançar com o novo aeroporto e com o comboio de alta velocidade. "Os investimentos em transportes e em logística são aqueles que têm um efeito multiplicador mais elevado", replicou o ministro, "sobretudo em economias que, em termos geográficos, têm uma localização periférica. É esse o nosso caso".

    (*) - António Carrapatoso, Nogueira Leite, Augusto Mateus, Fátima Barros, Fernando Ribeiro Mendes, Medina Carreira, José António Girão, Silva Lopes, João Ferreira do Amaral, João Salgueiro, José Almeida Serra, Miguel Beleza e Vítor Bento.

    Não fui eu que disse


    "Camionistas dirigem-se a Lisboa em passo lento." (noticiário da Antena 1)

    A passo lento? Querem ver que seguem a pé com os veículos pela arreata ?

    terça-feira, julho 26, 2005

    Politicamente correcto


    A palavra "falhar" deveria ser banida das salas de aula e substituída por "sucesso adiado", para evitar desmoralizar os estudantes - proposta de um grupo de professores ingleses.

    (Recolhido aqui)

    Professora à paisana


    Bill Goffe (na mailing-list tch-econ@elon.edu - ensino de Economia):

    «Tal como muitos docentes, tenho por vezes a sensação de que não compreendo os meus alunos lá muito bem. Vai sair um novo livro (aparentemente será lançado na próxima semana) que parece abordar este problema. A autora é uma professora de antropologia que se se tornou aluna durante um ano. Ela fez os possíveis por viver como caloira (usando o dormitório, prescindindo do cartão de estacionamento para docentes). Abordou esse ano como se estivesse numa cultura diferente. Eis um excerto da descrição que ela faz:»
    «Porque será que os alunos nunca aparecem no meu gabinete, a não ser que estejam com problemas no curso? Começo a questionar-me. Porque é que alguns dos meus alunos não tomam um único apontamento durante a minha grande aula? E que pensar daqueles estudantes que trazem grandes lanches e comem e bebem durante as aulas? Eu e os meus colegas tentamos constantemente compreender a razão de um comportamente que nos parece bizarro. Também fomos assim? Serão os estudantes actuais diferentes?"»

    "My Freshman Year: What a Professor Learned by Becoming a Student"
    Rebekah Nathan
    Cornell University Press - ISBN: 0801443970


    Este artigo: Undercover Freshman, revela um pouco mais sobre a aventura e o conteúdo do livro:

    «A ideia surgiu-lhe quando esteve a fazer uma auditoria a um curso. Rebekah Nathan reparou que os seus colegas estudantes - que não sabiam que ela era professora - incluíram-na nas discussões sobre planos para o fim-de-semana, trabalhos de casa, e o que pensavam do instrutor. Nathan compreendeu que na sua qualidade de docente, o seu estatuto tornava difícil a muitos estudantes falar abertamente com ela, por muito que o incentivasse.

    «Nathan preocupava-se com a hipótese dos estudantes começarem a parecer "pessoas de uma cultura diferente", e perturbava-a o facto de ela não compreender esta cultura com a qual interagia todos os dias. A experiência da auditoria apenas aumentou a sua frustração. Viu que bastava que os estudantes removessem o título de "professora" da sua persona para se abrirem com ela. Algo que não conseguia nas suas próprias aulas.»
    (...)
    «Baseando-se em entrevistas que fez, em conversas com colegas professores, nas suas interacções com professores e outros trabalhadores, bem como nas suas cuidadosas observações diárias, o livro proporciona um relato vigoroso da vida académica (...) Inserindo a sua própria experiência e dos seus colegas num contexto mais amplo, Nathan descobriu que os estudantes de hoje enfrentam novos desafios para os quais as instituições académicas não se encontram adaptadas. No fim do seu ano de caloira, ela sentia uma afectividade e respeito pelos estudantes como um todo, que anteriormente apenas reservava a certas pessoas. Ser estudante, descobriu ela, é uma tarefa árdua. Mas ela também indentifica algumas incompreensões, malentendidos e erros [misperceptions, misunderstandings, and mistakes] fundamentais, de ambos os lados, afectando negativamente a vivência académica.»

    Universidades amuadas


    Ontem fizemos aqui referência ao ranking das universidades portuguesas elaborado por Sousa Lobo. Hoje o jornal Público dá conta das reacções de desagrado da maioria das universidades - com excepção da primeira classificada, a de Aveiro.

    Há argumentos para tudo - desde o dizer-se que "os números não batem certo" até à "suspeita" pelo facto de a divulgação do documento numa altura em que os alunos estão a fazer as suas matrículas. Há mesmo um reitor (da U.Minho) que diz que "nos ouvidos dos alunos vai ficar uma coisa que não vale a pena". Há muitos argumentos no sentido de que não é adequado comparar universidades como um todo, que se deviam antes ter comparado áreas científicas, etç. O que não falta aos senhores reitores é imaginação.

    O certo é que, fundamentalmente, ninguém põe em causa os números. O estudo faz um ranking mas indica qual o critério utilizado: nº. de artigos publicados em revistas científicas por universidade e por professor. Não sendo um indicador absoluto, é dos melhores indicadores para aferir a capacidade dos professores para terem os seus conhecimentos actualizados, capacidade de trabalho, motivação, etç.

    Um argumento muito referido é o de que nas áreas das ciências sociais se publica menos do que nas ciências "duras". Ora bem, isso é precisamente o que o estudo diz. O estudo não diz que a Universidade de Aveiro é melhor do que as outras: diz apenas que publica mais, e isso há-de ser indicador de alguma coisa: o seu reitor afirma mesmo que a investigação foi definida como a prioridade da Universidade, tendo havido "uma opção pela qualidade em detrimento da quantidade, com qualificação do corpo docente, criação de boas infraestruturas e massa crítica e investimento feito pela própria universidade". Alberto Rafael indica ainda quais as áreas científicas onde têm apostado mais: ciências de materiais, telecomunicações, ciências e tecnologias de saúde.

    Ainda por cima, o indicador de Aveiro (1,5 artigos por docente) fica muito acima das restantes: 0,87 para a U. Algarve e o resto abaixo disso. Lisboa - que vergonha ! - aparece em 4º lugar, pela mão da Técnica, a minha dilecta universidade.

    A aposta na investigação tecnológica tem sido frequentemente indicada como uma das linhas estratégicas para Portugal; e agora que há uma universidade que apresenta um indicador positivo nesse sentido, saltam os reitores das universidades velhas a contestar a validade da informação...

    É sabido o que é que faz o "prestígio" de uma Universidade: a antiguidade, a visibilidade política dos seus docentes, o número de Ministros ali formados, etç. Mas tudo isto são indicadores velhos, bons para eras passadas. E qual é o problema de uma universidade jovem ultrapassar as outras?

    Eu ficaria preocupado se os srs. reitores colocassem em causa a qualidade da investigação. Ficaria na dúvida se alguns deles dissessem: publicamos pouco mas aquilo que publicamos é de suprema qualidade. Mas não.

    A publicação em revistas científicas tem o mérito de garantir o controlo de qualidade dos artigos e da investigação subjacente. As revistas procuram prestígio e implantação; para isso procuram que os artigos publicados tenham qualidade e interesse. Claro que hão-de existir diferenças de qualidade entre diferentes revistas, mas a regra geral é esta. Toda a gente gosta de publicar em revistas científicas (dá prestígio, conta para o currículo, é bom para o ego) e por isso é um mercado concorrencial que assegura qualidade.

    Este é um critério, não infalível, mas tem muitos méritos. É um critério usado intensivamente em todo o mundo (não só os artigos publicados, mas também as subsequentes citações desses artigos feitos por outros artigos). Terão os senhores reitores críticos um critério alternativo para nos sugerir ?



    Textos relacionados, disponíveis na net:

  • The Universities Ranking Game, Competitive Strategies and Competitive Interactions (2004)
  • The Introduction of Quality Indicators in the Higher Education Institutions in Europe
  • The Top American Research Universities (2000)
  • Reinventing Europe's Universities (2004)
  • Evaluating the Evaluators (1999)
  • Qualitative Aspects of Quantitative Measurements in the Age of Cyberscience
  • Using National Data in Universities Rankings and Comparisons (2003)
  • The World University Rankings (2004)
  • Evaluating Economics Research in Europe: An Introduction (2003)
  • Rankings of Academic Journals and Institutions in Economics (2001)
  • segunda-feira, julho 25, 2005

    Um grande salto para um electrão


    A boa ciência, segundo consta, é aquela que traduz os conhecimentos em medições. Não admira por isso que se faça algum alarde sobre a medição, realizada recentemente, do tempo que um electrão leva a saltar dum átomo para outro: 320 atosegundos (um atosegundo equivale à milionésima parte de um milionésimo de segundo, ou 0,000000000000000001 segundos - portanto, é fazer as contas, como diria o engenheiro).

    Para os não engenheiros, adiantaremos que a relação entre um atosegundo e um segundo é da mesma ordem de grandeza que entre um segundo e a idade do universo (qualquer coisa como 14 mil milhões de anos). Trata-se de uma medição feita com uma precisão nunca antes alcançada, e foi feita em átomos de enxofre sobre uma superfície metálica - de ruténio. A proeza foi conseguida pelos investigadores Daniel Sánchez-Portal e Pedro Miguel Etxenike do "Donostia International Physics Center", juntamente com outros inbvestigadores, e deu origem a um artigo publicado esta semana pela revista "Nature".

    O relato deste acontecimento pode ser feito aqui, no site do PhysOrg, onde também se salienta a importância prática da descoberta, a qual «permitirá optimizar a concepção e desenho dos materiais que constituirão os futuros aparelhos electrónicos, nas áreas da nanoelectrónica e electrónica molecular. Esta técnica particular utilizada nesta experiência, permite distinguir entre diferentes valores do spin electrónico (efeito giromagnético) e abre caminho para novas áreas de investigação no campo da "spintrónica", uma nova electrónica onde o factor chave não é o electrão, mas o spin. Os processos de transferência de cargas são igualmente essenciais para a vida (na fotosíntese, por exemplo), para a produção de energia (células fotovoltaicas) e, em geral, para a fotoquímica e electroquímica.»

    A propósito: o"Donostia International Physics Center" fica mesmo em Espanha, ali no pais Basco. Eis no que se andam a entreter os vizinhos.

    Banhos quentes ou água fria ?


    A tricandidatura de Mário Soares à Presidência da República anda a deixar o pessoal marado: já não falam de política, apenas da idade do homem.

    Nem mesmo o inteligentíssimo Professor Marcelo encontrou melhor argumento (contra) do que dizer que há 25 anos o Soares trocava "milhares" por "milhões". Então, mas ele não foi já Presidente depois disso - elogiadíssimo pelo Professor-nadador?

    O Professor Marcelo já na semana anterior tinha "avisado" que Mário Soares, se fosse eleito, traria problemas ao governo. Pareceu-me mais uma tosca tentativa de "desmotivar" Sócrates que, já se sabia, andava a ponderar a hipótese.

    Eu não simpatizo lá muito com o velhote Soares, mas toda esta nervoseira dos formadores de opinião estão a tornar-me o homem mais simpático.

    Lembram-se do xeque-mate que Soares deu a Cavaco quando fez a presidência aberta na Área Metropolitana de Lisboa? - a mostrar as barracas, os desempregados, etç. Quebrou a imagem de "país moderno" que se tinha instalado, desmascarou o pretenso "bom aluno" da União Europeia, na aplicação dos Fundos, etç.

    Pode-se imaginar que Mário Soares fez isso para favorecer a esquerda, mas também se pode ver como prestou um favor ao país, mostrando que o rei ia nu.

    O certo é que, depois disso, Guterres voltou a embalar a malta na cantiga do "país com capacidade organizativa, reconhecida lá fora", etç.

    O Professor Marcelo diz que o país precisa de um Economista na Presidência (ao nível que nós chegámos...). Mas pensemos bem: Cavaco, como mais tarde Guterres, iludiu-nos - ou ajudou a que nos iludíssemos - quanto ao real estado do país. Mário Soares desmascarou-o e acordou-nos com água fria. De qual dos dois é que estamos a precisar agora? Banhos quentes ou água fria?



    E por falar em modelo económico: alguém sabe qual é o modelo económico do professor Cavaco Silva? Relembrando o que escrevi sobre o seu trabalho teórico (ver aqui), o que se detecta é que se trata de um puro keynesiano, que para dar um ar liberal à obra pediu a João César das Neves para lhe escrever um capítulo liberal-coisa-e-tal. Não me parece que fosse vantajoso ter na Presidência um economista a orientar os ministérios das Finanças ou da Economia - e também não sei se é a isso que ele aspira - mas é um argumento que vai ter curso nos próximos tempos.

    Universidades no pódio


    O Professor Luís Sousa Lobo, ex-reitor da Nova, elaborou um ranking das universidades portuguesas, baseado no número de publicações científicas, poderado pelo número de docentes. A classificação, divulgada pelo jornal "Público" de hoje, é a seguinte:

    UniversidadeNº artigos
    (a)
    Docentes
    (b)
    Rácio
    (c=a/b))
    Posição
    Incremento
     Aveiro6123991,531108
     Algarve1932210,87226
     Porto115013800,833106
     Técnica (Lx)96011860,81491
     Coimbra
    6409530,67558
     Nova4747030,67655
     Minho4066310,64784
     Lisboa63111420,55837
     Madeira
    30950,329-1
     UBI612380,26107
     UTAD923620,251127
     Évora873820,231218
     Açores421840,23127
     Aberta131120,2146
     ISCTE272270,12146


    Texto do "Público".

    sábado, julho 23, 2005

    Dez leis fundamentais

    João Pereira Coutinho

    João Pereira Coutinho, no Expresso de hoje, aponta dez leis fundamentais da "crónica"; eu creio que podemos substituir "crónica" por "blogue" que ainda fica mais verdadeiro:
    «1º. A crónica não é um género jornalístico; a crónica é um género literário;
    2º - A crónica pode partir da relidade mas, não raras vezes, a crónica cria a sua própria realidade;
    3º - a crónica não é análise nem comentário; a crónica é confissão e hipérbole;
    4º - a crónica não pretende formar ou influenciar; a crónica deve entreter e, se possível, opinar;
    5º - a crónica não vive da especialização; a crónica vive da diversidade;
    6º - a crónica vale pelo estilo e pela substância; em caso de conflito, sacrifique-se a substância;
    7º - a crónica não pondera opiniões contrárias à sua; a crónica pondera apenas uma opinião que seja contrária às outras;
    8º - a crónica não está certa ou errada; a crónica, como diria Wilde, está apenas bem escrita ou mal escrita;
    9º - a crónica é pessoal; a crónica é um prolongamento do ego;
    10º - a crónica deve ser tão fácil de ler como de esquecer.»