quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Neuroeconomia


Terrence Chorvat, no blogue Neuroeconomics, chama a atenção para um artigo publicado no Journal of Economic Psychology, acerca de uma investigação experimental sobre as áreas do cérebro que são activadas quando os sujeitos são inquiridos sobre o "Asian Disease Problem", elaborado pelos investigadores Tversky e Kahneman (equacionado aqui). Para além da investigação, os autores do artigo abordam a teoria sobre como as perdas provocam consequências emocionais diferentes das dos ganhos. Chorvat tenta uma extrapolação para a teoria económica: (tradução do 'pura economia')
«Ao contrário dos modelos económicos correntes, onde todos os indivíduos calculam todos os valores esperados de todas as utilidades para depois, baseando-se neles, tomarem uma decisão, os indivíduos [da experiência referida] que escolheram certos ganhos, limitaram-se a seguir o resultado mais seguro, não parecendo que tenham feito tais cálculos (como é sugerido pela baixa activação parietal). Isto é consistente com a teoria dos autores [do artigo] de que os indivíduos optimizam uma combinação do uso de recursos cognitivos e de recompensa afectiva, mas também pode ser consistente com outras hipóteses.»
O artigo referido, The framing effect and risky decisions: Examining cognitive functions with fMRI encontra-se disponível aqui.

Alain Minc sobre Portugal


«Portugal vive numa espécie de "depressão pós-parto". O esforço que fizeram para estar no "coração" da Europa, para entrar no euro, foi formidável. Semelhante ao que os italianos fizeram. Agora, que "deram à luz", entraram em depressão. Mas quem haveria de pensar há quinze anos que Portugal estaria hoje no primeiro círculo europeu? Vocês nem sequer se dão conta do que conseguiram. - Público

Alain Minc sobre Santana


«O vosso primeiro-ministro gostaria de ser Berlusconi mas não tem nem os instrumentos, nem o talento, nem o "savoir-faire". Se um Berlusconi bem sucedido é, já de si, perturbador para um velho democrata, um Berlusconi que falha é ainda mais perturbador. Embora tenha a vantagem de ser passageiro.» - Público

Matemática


«O Senado da Universidade de Coimbra (UC) aprovou hoje a criação de cinco novas pós-graduações na área da Matemática, aumentando as opções para os que queiram aprofundar os seus conhecimentos neste domínio. Matemática para o Ensino, Matemática Pura, Estatística Avançada e Matemática Financeira, Análise Financeira e Optimização e Lógica e Computação são as pós-graduações que a UC vai passar a leccionar a partir do próximo ano lectivo.»

Portugal Diário

Agenda de Lisboa


«Cinco anos depois, o balanço da aplicação da Agenda de Lisboa não é famoso. Pelo contrário. Imaginada antes da "bolha" especulativa das novas tecnologias implodir, as suas metas de crescimento revelaram-se irrealizáveis. (...) Neste quadro, a decisão da Comissão presidida por Durão Barroso de deixar cair a referência à meta de 2010 não é um recuo: é realismo. E é de realismo que toda a Europa necessita, isto é, de metas palpáveis que possa ir ultrapassando de forma gradual, mas consistente. Pelo que é correcto centrar o foco da Agenda de Lisboa no essencial, e o essencial é encontrar os mecanismos para gerar crescimento económico, criar mais empregos e promover a inovação.»

José Manuel Fernandes - Público

Choque tecnológico versus choque de gestão


«Os dois "choques" deviam ser complementares, mas aquilo a que cada partido dá ênfase aponta para as suas políticas: no PS, para um maior peso do Estado como condutor da economia através do investimento tecnológico; no PSD, uma atenção à melhor utilização dos recursos, mas também uma certa indiferença aos factores qualitativos do desenvolvimento, como a educação e a formação profissional.»

José Pacheco Pereira - Público

Ricos esquerdistas...


«O interessante é ver como nas sondagens o Bloco de Esquerda recebe as intenções de voto dos bairros mais ricos das cidades. (...) O BE é, com o PP, um partido de gente que está bem na vida e dos seus filhos.»

José Pacheco Pereira - Público


Um passo em frente, outro atrás


Segundo o Diário Económico, Durão Barroso teve de recuar nas propostas de liberalização dos serviços e das substâncias químicas, o REACH, para fazer avançar a Estratégia de Lisboa. Barroso admitiu que estas directivas se tinham tornado “num tema de um debate político, criando receios de competitividade junto da indústria”, mas também entre os maiores Estados-membro.

Novo motor de busca


Ao fim de 18 meses de desenvolvimento, a Microsoft lançou o seu próprio motor de busca na internet. Entre as inovações conta-se uma ligação à Encarta, a enciclopédia detida pela empresa, e uma opção de "proximidade" que permite aos internautas reduzir as escolhas em função da proximidade geográfica.- Notícia do Financial Times


motor de busca

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Serviço de mudanças...


Abril de 2000: «Pedro Santana Lopes faz um ultimato ao PPD/PSD: ou o seu partido muda de vida ou ele muda de partido.» (Título do Expresso)

Bem, Pedro não mudou de partido, mas que mudou o partido, lá isso...

Coragem política


De Bagão Felix ao assumir a iniciativa (ainda que fosse obrigatória por lei) de desencadear o processo contencioso de cobrança das verbas do Totonegócio à seita do futebol. Igualmente de José Sócrates ao apoiar a medida sem reservas. Estas atitudes podem levar à perda de votos e é por isso que revelam coerência e determinação de quem as assumiu.

A nação e o guiador


O Miguel Esteves Cardoso escreveu em tempos textos notáveis sobre a fúria dromoscópica do português ao guiador (aka volante), seja de um camião TIR, seja de um triciclo motorizado. A Vitriólica dá-nos agora a pictórica do mesmo fenómeno. A bicicleta movida a jacto é certamente uma das grandes criações olvidadas do génio portuga.

Polémica na União


«Os governos do Reino Unido, da Alemanha e da Áustria rejeitaram, em cartas separadas dirigidas à comissária europeia da Concorrência, Neelie Kroes, os planos de redução das ajudas estatais na União Europeia (UE). As propostas prevêem uma redução generalizada dos limites máximos dessas ajudas com o objectivo de concentrar os apoios nos Estados pobres, nas pequenas e médias empresas, na inovação e na investigação, o que poderá afectar os subsídios à antiga Alemanha de Leste ou ao Norte da Inglaterra.» - Público.

Não conheço em pormenor as propostas pela senhora comissária mas, de um modo geral, e em igualdade de circunstâncias (de eficácia, por exemplo), creio que é preferível canalizar os apoios directamente para o sector produtivo (empresas) das regiões mais pobres. O dinamismo empresarial ajudará a desenvolver essas regiões em termos de sustentabilidade económica, mais do que quaisquer planos de investimentos públicos.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Negro amor


Negro amor - versão, por Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, da canção "It's all over now, baby blue", de Bob Dylan.

Excerto de uma interpretação de uma banda não identificada:

Uma versão de Negro amor pelos Engenheiros Do Hawaii pode ser escutada integralmente aqui.

Cinema português


anoslongas
metragens
espectadoresespectadores
por l.m.
200415193 19712 880
200112219 89118 324
199813575 82644 294
19977454 28764 898

Diário de Notícias

Julgamento de Saddam Hussein


« (...) Finalmente, qualquer tribunal que considere acusações criminais contra Saddam Hussein deve ter o poder e o mandato de considerar acusações contra líderes e pessoal militar dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e as outras nações que participaram na agressão ao Iraque, para que a igualdade de justiça perante a lei tenha qualquer significado. Nenhum poder ou pessoa pode estar acima da lei. Para que haja paz, os dias da justiça do vencedor devem terminar.»

Ramsey Clark
(ex-Procurador-Geral dos EUA)
jornal Público

Pedro e José


Eis aqui o resumo da campanha:
José designa Pedro incompetente
E também inconstante, e que a gente
Que deitar nele o voto nada ganha.

E Pedro insinua com vil manha
Que José é maricas e diferente
E, além disso, postiço e prepotente
E o país, indiferente, já nem estranha.

Não há choque fiscal ou de gestão
Ou tecnológico que lhe provoque
O esperado impulso ou emoção

Pois ninguém é capaz de dar o toque
A rebate que anime a Nação
Cujo estado não é mais que o de choque.

domingo, janeiro 30, 2005

David Friedman


O Cyberlibris chama a atenção para a análise coasiana de David Friedman (sim, é o filho):
«O primeiro passo a dar é o de compreender que uma externalidade não é simplesmente um custo gerado por um poluidor e suportado pela vítima. Em quase todos os casos o custo resulta de decisões de ambas as partes. Eu não estaria a tossir se a tua siderurgia não estivesse a libertar dióxido de enxofre. Mas a tua siderurgia não me provocaria qualquer dano se eu não estivesse a morar no caminho do fumo. É esta decisão conjunta - a tua de poluir e a minha de viver onde tu poluis - que produz o custo.»
Texto "The Swedes Get It Right" de David Friedman aqui; outros textos aqui.

Quadrinhos


Os Loucos Underground - um interessante blogue de Fábio Moon e Gabriel Bá, autores de banda desenhada. ( ver desenho ):
"O que mais enriquece o homem é o convívio com os outros (com as outras, diria o Bá). Somos, na essência, a soma de nossas experiências, somos o mundo em que vivemos e, assim, somos necessariamente ligados ao nosso mundo para sermos nós mesmos. Toda essa bobagem inicial vem para dizer o quão importante é a relação entre a história em quadrinhos e o leitor.

Death Metal

Kingdom Of Maggots é uma banda de Death Metal de São Paulo que inciou recentemente as suas primeiras gravações em estúdio. Oiça a faixa "Macabre Infancy":


http://br.share.geocities.com/mario_sterzo/musica/macabre.mp3

Filmes-catástrofe

«No recente - e excelente - documentário "Los Angeles Plays Itself", o realizador e professor de cinema Thom Andersen defendeu que os filmes-catástrofe tendem a aparecer em alturas em que a cultura está em crise acerca da legitimidade da autoridade.»

Slate

Neurociência cognitiva


«Os estudos [de imageologia do cérebro] revelaram a maturação das regiões de tomada de decisão durante a adolescência; clarificaram o modo como nós armazenamos, recuperamos e perdemos as memórias, e identificaram os correlatos neurais do medo, da distracção e do afecto, tal como de vários traços de carácter, incluindo a extroversão, a empatia e a persistência. Observaram-se padrões de alarme quando os volutários viram faces de pessoas de outras raças - uma espécie de correlato neural do racismo. Os investigadores descobrem novas correlações todos os meses. Mas os neurologistas acentuam que a neurociência cognitiva ainda é jovem, que as suas ferramentas são muito grosseiras e os conhecimentos muito irregulares para que se possam prever comportamentos ou diagnosticar personalidades»

Slate

Vaclav Havel


«Hoje, a União Europeia está a dançar ao som da música de Fidel. O que quer dizer que, amanhã, pode não resistir à oportunidade de construir bases de mísseis nas costas da república Popular da China. No dia seguinte, pode permitir que as suas decisões sobre a Tchetchénia sejam ditadas pelos conselheiros do Presidente Vladimir Putin. Depois, por qualquer razão desconhecida, pode fazer depender a sua assistência a África dos laços fraternos com os piores ditadores africanos. Onde é que tudo isto acabará? Na libertação de Milosevic? Na recusa de um visto ao activista dos direitos humanos russo Sergey Kovaliov? Num pedido de desculpas a Saddam Hussein? Na abertura de conversações de paz com a Al Qaeda?

Vaclav Havel - Público

Peixe online


«O regime de venda de pescado fresco foi alterado, por decisão do último Conselho de Ministros, para passar a incluir a negociação à distância, com recurso à internet. De acordo com nota da resolução, este diploma foi “aprovado com carácter de urgência, tendo em conta a situação do sector da pesca”.

Correio da Manhã

Quero e mando. Mas posso ?


«Quero uma Europa com mercados mais abertos e com uma melhor regulamentação que, investindo na educação e com uma política social coerente, favoreça um crescimento durável e sólido»

Durão Barroso em Davos - Jornal de Notícias

Abandono escolar


«As estatísticas provam que o abandono escolar e a saída precoce do sistema de ensino continuam a ser chagas que envergonham o nosso país entre os parceiros europeus. O mais grave é saber que o insucesso escolar fere o país profundamente, pondo em causa o desenvolvimento social e económico desejado. São décadas de reformas e práticas pedagógicas ditas inovadoras e a par das metodologias mais em voga. Os investimentos feitos em educação também não têm sido despiciendos, principalmente quando comparados com os de outros países da Europa. Contudo, os resultados estão muito aquém dos desejados.»

Jornal de Notícias

Carga fiscal


«A carga fiscal em Portugal manteve a tendência de subida dos últimos anos, com a totalidade das receitas fiscais a ascender a 38,1% do Produto Interno Bruto em 2003. Segundo dados do Eurostat, Portugal é o terceiro país da União Europeia onde os impostos indirectos têm o maior peso na carga fiscal.»

Jornal de Negócios


sábado, janeiro 29, 2005

Cidades inteligentes


A Malásia inaugura hoje oficialmente a cidade tecnológica "Cybercity 1" na ilha de Penang, 350 quilómetros a noroeste de Kuala Lumpur, que amplia o chamado "Silicon Valley do Sudeste asiático". Ocupando 364 km, alberga 207 empresas e oferece actualmente 90 mil postos de trabalho, além de incluir uma zona residencial para 60 mil pessoas. A "Cybercity 1" marca o início da extensão para a ilha de Penang do chamado "Supercorredor Multimédia" (MSC), um plano que pretende formar na Malásia uma rede de cidades inteligentes, ligadas tecnologicamente às metrópoles mais modernas do mundo.» - Agência Lusa

Arnaldo Antunes


Natural de S. Paulo, Arnaldo Antunes é uma das mais marcantes figuras da música feita no Brasil. Depois de ter liderado os Titãs, arrancou com uma bem sucedida carreira a solo, intercalada com a escrita de canções para vozes como Marisa Monte, Gilberto Gil, Ney Matogrosso ou Rita Lee. Juntamente com Marisa Monte e Carlinhos Brown desenvolveu o conhecido projecto Tribalistas.

Arnaldo Antunes actua hoje (29) em Lisboa, e amanhã no Porto. Ouça-o aqui em conversa com Carlos Vaz Marques, na TSF:

Crédito: TSF
Página oficial de Arnaldo Antunes

Serviço Nacional de Saúde



«A ideia do PSD, resumidamente, é que a utilização do Serviço Nacional de Saúde seja paga pelos mais endinheirados e gratuita para os mais pobres. Para isso, quer criar um cartão que cataloga os utentes em quatro escalões de rendimento. No topo, os mais ricos (54 000 euros/ano), de quem se exige 14 euros por cada acesso às urgências e 200 euros por internamento (até agora, pagavam como os outros: cerca de sete euros por urgência). Na base, agrupam-se os mais pobres (menos de 6 500 euros/ano), a quem não se cobra um único euro pela utilização do SNS. E aqui residem as dificuldades. (...) Primeiro: o problema do SNS é a utilização abusiva que dele se faz. (...) Segundo: as taxas moderadoras foram criadas justamente para moderar o acesso (...) Terceiro: a saúde não deve nem pode ser taxada nos momentos de crise (...) Quarto: o SNS é um sistema obsoleto que tem tudo a ganhar com revoluções de sentido liberal. (...)»

Martim Avillez Figueiredo - Diário Económico

Bye, bye, Belmiro


«Belmiro de Azevedo disse ontem não pretender fazer mais investimentos em Portugal. Para o presidente do grupo Sonae, a prioridade de investimento centra-se, agora, em mercados onde exista consumo, pelo que deverá ser incrementada a já forte presença do grupo em mercados estrangeiros, como o Brasil ou o Canadá, disse à RTP, à margem do Fórum de Davos, na Suíça.»

Jornal de Negócios

Teoria da relatividade económica


António Rebelo de Sousa publicou o livro "Da Teoria da Relatividade Económica Aplicada à Economia Internacional e às Políticas de Cooperação - a sua tese de doutoramento. No Expresso de hoje, no suplemento Livros, Guilherme d'Oliveira Martins faz uma simpática recensão do livro.

Segundo informação da editora, no livro "apresenta-se um novo conceito de índice de desenvolvimento humano-dinâmico, defende-se uma nova concepção de política de desenvolvimento (conciliando-se a aposta no sector de bens transaccionáveis com a concomitante expansão do sector de economia doméstica) e de política de cooperação, enunciando-se, simultaneamente, algumas propostas concretas para o caso particular de Portugal."

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Cristina Branco


Cristina Branco lança um novo disco, Ulisses, já distante do universo do fado, onde se iniciou - mas de que se tem vindo progressivamente a afastar. Neste disco, cantado em várias línguas, incluem-se composições de José Afonso, Fausto, Vitorino e Joni Mitchell:
«[Joni Mitchell] tem um percurso semelhante ao meu, a vários níveis. Ela fala da vida como eu a interpreto. E há muitas particularidades na vida dela que se assemelham à minha. Por exemplo, estar sempre à margem da popularidade, ir sempre pelo caminho que acho ser o correcto. Conheço a Joni Mitchell desde pequenina. "A case of you" é uma das canções mais especiais dele. Toda a gente canta o "Both sides now" ou o "Black crow", mas "A case of you" tem a ver com o caos e a decadência.» (entrevista ao Público)
Cristina Branco fará diversos espectáculos em Portugal: dia 26 de Fevereiro em Lisboa (S. Luís), 3 de Março em Aveiro, 4 em Tavira, 9 em Famalicão, 11 e 12 no Porto.
Na página oficial de Cristina Branco podem ouvir-se trechos das suas interpretações incluindo, do CD Ulisses, este Redondo Vocábulo.
(se não abrir à primeira, insistir com try again)

Maria de Lurdes Pintassilgo


«Maria de Lurdes Pintassilgo é uma figura complexa, a sua história fez parte integrante do nosso Portugal durante o último meio século e da história do mundo que nos cercou. Estudando-a e não apenas lembrando-a como é justo, se verá como essa história, aparentemente dividida ao meio pela Revolução de Abril a que aderiu e de que foi mesmo figura emblemática, não é tão "maniqueista", como, em geral é vivida em termos de memória, seja ela politica ou cultural.»

Eduardo Lourenço - Público

Esquecimentos...


O Jornal de Negócios esteve a ler o programa eleitoral do PSD (mais precisamente, as duas versões já distribuídas) e em nenhuma delas aparece o objectivo de aumentar a idade da reforma dos funcionários públicos, antes anunciada pelo líder do PSD. Este Santana Lopes é capaz, ele próprio, de estar a precisar de reforma.

Paninhos quentes


O economista Silva Lopes, em entrevista a publicar amanhã pelo Diário Económico, propõe «o fim das promoções automáticas na Função Pública e, além disso, prefere trocar um emagrecimento do Estado por cortes reais nos salários dos funcionários do Estado.»

Será a diminuição dos salários uma alternativa ao desemprego, para os funcionários públicos ? Teoricamente, sim - mas será justa essa solução aplicada apenas a uma parte da população activa ? E quais seriam as consequências na motivação desses funcionários ?

Baby suicida



As mais recentes sondagens mostram descidas das intenções de voto no PS e PSD. Segundo o barómetro da Marktest, referida pelo Diário de Notícias, no PSD «o "trambolhão" é tal que o partido atinge o seu mínimo de sempre neste barómetro. O próprio Santana Lopes passou a ser o líder político com imagem mais negativa, atrás do presidente do CDS, Paulo Portas.»

Entretanto Santana Lopes ameaçou processar as empresas de sondagens caso os resultados eleitorais não as venham a confirmar. Eu aconselharia o Pedro a ir mais longe: a processar os próprios membros do barómetro que não acreditam nele. E, caso o país, nas urnas, confirme as sondagens, talvez seja caso para processar o próprio eleitorado. Pedro Santana Lopes já avisou - por mais do que uma vez - que não admitirá mais facadas nas costas. Depois dos abanões na incubadora e das chapadas no bebé, o que faltava agora era o eleitorado dar-lhe mais uma chapada... Oh caríssimos eleitores, isso não se faz a uma criança!...

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Teoria dos jogos


Os últimos indicadores que apresentam os EUA à frente da Europa em vários domínios económicos, com excepção no índice de sustentabilidade, são motivo para reflexão. Em termos anedóticos poderíamos afirmar: não faz mal, os EUA vão à nossa frente na criação de riqueza mas como a sustentabilidade está a nosso favor, eles vão desaparecer mais cedo e depois só ficamos nós.

Mas não é assim: a agressão ambiental constitui uma externalidade cujo preço é suportado por todos, ainda que só um a pratique. A verdade é que as preocupações ambientais proporcionam sustentabilidade no longo prazo mas penalizam a economia no curto e médio prazos. Os EUA têm resistido a assinar os tratados internacionais relativos à protecção do ambiente (tais como o Protocolo de Quioto) não por motivos de insensibilidade, mas apenas por motivos estratégicos.

O processo de globalização e a reorganização política mundial criou oportunidades de negócio únicas na história da humanidade. A "guerra" económica que se trava neste momento tem uma importância crucial para a hegemonia económica do futuro e os EUA não estão dispostos a ceder pontos; as preocupações ambientais do mundo estão a ser aproveitadas pelos americanos, pois as medidas de protecção ambiental traduzem-se numa redução da competitividade económica. A Europa submete-se aos tratados e critica os americanos, mas estes suportam bem os remoques e tentarão ganhar vantagens competitivas com a sua atitude.

Ao contrário da anedota inicial, o que pode acontecer é que os EUA adquiram uma tal vantagem económica que os condenados a desaparecer do mapa sejamos nós. Isto pode facilmente ser visto em termos da teoria dos jogos: ambos os contendores podem rejeitar as medidas de protecção ambiental, ou ambos as podem aceitar; esta última opção seria a melhor para a humanidade; mas cada um dos contendores tem vantagem em não se sujeitar a essas medidas, no caso do outro o fazer.

Neste caso ambos os adversários conhecem as intenções do outro e a situação mais lógica seria que, se um deles recusa as medidas penalizadoras, o outro também as recuse - mas não é o que está a acontecer. A Europa, mais romântica, crê talvez que acabará por dar o exemplo, ou que o resto do mundo alinhará pela nossa posição responsável. Mas, como é sabido, no domínio da política internacional não há amigos e sim interesses - e o interesse económico prevalecerá, pelo menos até que algo catastrófico e irreversível prove a loucura da destruição ambiental.

Sobre a posição dos EUA relativa ao Protocolo de Quioto veja-se esta notícia de Dezembro último do Portugal Diário

Estratégia de Lisboa


O mesmo Fórum Económico Mundial divulgou o Relatório relativo à estratégia de Lisboa, fazendo a avaliação do "choque tecnológico" europeu decidido em 2000 em Lisboa. Foi igualmente construído um índice relativo a indicadores tais como a "sociedade da informação", "inovação e I&D", "liberalização", "redes de empresas", "serviços financeiros", "empresas", "inclusão social" e "desenvolvimento sustentável". No índice composto Portugal surge em 14º lugar, no conjunto da Europa dos 15. Nalguns indicadores individuais Portugal sobe ao 13º lugar (empresas e sociedade da informação) e obtém o 11º nas redes de empresas, mas no geral só a Grécia lhe fica atrás.

Também é feita uma análise dos novos países aderentes e uma comparação entre os três melhores países da adesão e os quatro piores da Europa dos 15, ficando estes pior colocados na generalidade dos indicadores.

É igualmente feita uma comparação entre a Europa dos 15 e os EUA, verificando-se que os EUA manifestam melhor desempenho em sete dos oito indicadores observados. O único indicador em que a Europa "vence" é o do desenvolvimento sustentável.

Estamos assim longe do objectivo: transformar a Europa na região mais competitiva do mundo em 2010.

Competitividade


O Fórum Económico Mundial divulgou os índices de competitividade para o crescimento económico, com base em dados de 2004, onde Portugal surge em 24º lugar - um degrau acima da classificação do ano anterior. O primeiro lugar é ocupado pela Finlândia.

O quadro global, com os índices de 2004 e 2003, está disponível em pdf aqui. Os indicadores utilizados no índice estão aqui. O quadro dos primeiros 24 classificados é o seguinte:

PaísÍndicePaísÍndice
 Finlandia 15.95 Alemanha135.28
 EUA 25.82 Austrália145.25
 Suécia 35.72 Canada155.23
 Taiwan 45.69 Emiratos A.U.165.21
 Dinamarca 55.66 Áustria175.20
 Noruega 65.56 Nova Zelândia185.18
 Singapura 75.56 Israel195.09
 Suíça 85.49 Estónia205.08
 Japão 95.48 Honk Kong215.06
 Islandia105.44 Chile225.01
 R. Unido115.30 Espanha235.00
 Holanda125.30 Portugal244.96

quarta-feira, janeiro 26, 2005

À atenção da Liga de Futebol...


Em Cabo Verde, um campo de futebol é sazonalmente transformado em milheiral. Sempre que se aproxima a época das plantações, o "estádio" transforma-se em terreno agrícola. «Sem grandes oscilações, por volta do mês de Julho, os jogos de futebol passam para um plano secundário porque a estrela do momento é o milho, que passa a jogar ao ataque e em toda a largura do terreno.» - Portugal Diário

Modelo esgotado


António Vitorino, defende numa entrevista ao jornal espanhol «El País» que o modelo económico e social português «está esgotado» (...) «a lógica de apostar em actividades produtivas baseadas no baixo custo salarial não corresponde aos desafios do mundo globalizado». Como estratégia principal do PS, Vitorino defende que «Portugal deve apostar na investigação e na tecnologia para superar o esgotamento do modelo económico e social». [Portugal Diário]

Novo partido


O Speakers Corner Liberal Social anuncia a criação de um novo partido em Portugal, o Movimento Liberal Social (http://www.liberal-social.org), cujo registo cartorial seria feito hoje mesmo:
«Sem poder ser considerado de Direita (pois defende ideias como a legalização do aborto, a legalização dos casamentos entre homossexuais e a eutanásia), nem de Esquerda (pois defende a existência de uma economia de mercado competitiva e dinâmica e a redução do papel do Estado), o MLS - Movimento Liberal Social pretende vir a ocupar um espaço até aqui deixado vazio pelos partidos em Portugal e que representa uma fatia importante do eleitorado progressista, que até ao momento não se revia em nenhuma das forças políticas existentes.»
À partida anunciam-se como «a futura terceira maior força política portuguesa». Tão só. Nem modestos nem ousados.

Ai, a aridez da Economia...


«Um dos grandes méritos do World Economic Forum é exactamente o facto de as temáticas em discussão irem muito para além da aridez da economia e abarcarem desde a ciência e a cultura até à religião e o entretenimento, não esquecendo o cada vez mais polémico mundo dos media.»

Mário Bettencourt Resendes - Diário Digital

BCP: o mínimo divisor comum ?


Jardim Gançalves anunciou que abandona o leme do BCP, na mesma altura em que divulga resultados positivos, para tentar atenuar o previsível impacto bolsista. Só não percebi aquela sua declaração de que escolheu para sucessor um quarentão (que nem sequer é da actual administração), a conselho dos outros da sua idade.

Oxalá não se passe o mesmo que aconteceu com a escolha de Carlos Carvalhas para o quase homólogo PCP: para evitar o choque das "personalidades fortes" foram buscar um peão menor,aplicando aquilo que se poderia designar como estratégia do "mínimo divisor comum".

Défice orçamental: 5,3 % do PIB


«O défice orçamental do Estado agravou-se 10,1% em 2004, face ao ano anterior. Neste momento, o valor provisório da dívida do Estado é de 7101,5 milhões de euros, que corresponde a 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o ano passado.» [Jornal de Notícias]

Aguarda-se a reacção das candidaturas a esta palpitante notícia. Será choque tecnológico ? Será choque de gestão ? Será choque fiscal ? Ou será, simplesmente:
choque !

Dívida móvel


«A dívida acumulada da CP, Carris, Metropolitanos de Lisboa e do Porto, Transtejo, Soflusa e STCP ascendeu no final de 2004, a 4,6 mil milhões de euros, valor que equivale a 3,5% do Produto Interno Bruto » [Jornal de Notícias]

Aqui está um tema que deveria preocupar as regiões mais pobres do país: a quase totalidade desta dívida é gerada nas zonas mais ricas: Lisboa, Porto e litoral. E note-se ainda que este triste resultado é calculado "depois das indemnizações compensatórias", as quais saiem indiscriminadamente do Orçamento de Estado. Ou seja, todo o país suporta por igual este encargo - uma situação inadmissível.

Tal como refere a notícia, este descalabro financeiro nem sequer pode ser justificado pelo interesse público, pois o peso do transporte privado continuou a aumentar na última década - de 26% para 45% na Área Metropolitana de Lisboa e de 30% para 52% na Área Metropolitana do Porto, devido à ineficiência do transporte público.

Lá se vão as jóias da coroa



As jóias da coroa portuguesa roubadas há dois anos durante uma exposição na Holanda podem ser consideradas irrecuperáveis, já que a polícia desistiu das investigações. As jóias estavam avaliadas em 6,5 milhões de euros, mas o seu valor real é muito superior. Segundo um especialista, "os 150 quilates dos 35 brilhantes da gargantilha já terão sido relapidados em talhe moderno", tal como o grande diamante da bengala do D. José I. [Público]

A única consolação é que o valor do seguro sempre será uma esmolinha "pró défice".

Quando o real não corresponde à realidade...


Já sabíamos que "se torturarmos os dados durante tempo suficiente, eles acabarão por confessar" (Ronald Coase). Ficamos agora a saber que essas práticas torcionárias não ficarão impunes:
«A Câmara de Celorico de Basto admite mover uma acção judicial contra o Instituto Nacional de Estatística (INE), na sequência da revelação, por parte desta entidade, do estudo de poder de compra concelhio, que coloca este concelho do Tâmega em último lugar no "ranking" nacional.» [ Público ]
O Presidente da Câmara não só desvendou o crime, como nos revela o móbil:
«... associando a alegada manipulação a alguém do PS - cujo nome não revelou - a trabalhar no INE e à recente aparição de Marcelo Rebelo de Sousa em Celorico, onde é presidente da Assembleia Municipal, num jantar-comício ao lado de Luís Filipe Menezes. "Se ele não estivesse a participar na campanha, Celorico estaria 30 ou 40 lugares acima"»
Como se vê, a questão é transversal ao espectro partidário, e até um merceeiro e autarca, eleito pelo PSD para presidente da Junta, embora sem concordar "muito" com as suspeitas lançadas pela edilidade, critica o trabalho do INE: «É evidente que, da forma que eles [INE] fazem o apuramento, o resultado é real, mas não corresponde à realidade daquilo que se vive aqui».

terça-feira, janeiro 25, 2005

Eficiência e equidade


 
Market efficiency versus equity
Bart Hessel, Joop Schippers, Jacques Siegers (org.)

Estando fora de questão entregar tudo a um mercado totalmente desregulamentado, ou controlar tudo pelo Estado, o poblema resume-se a encontrar um equilíbrio entre os dois extremos. Não é que seja tarefa simples, mas duas das variáveis a incluir serão seguramente estas: eficiência (supostamente promovida pelo mercado livre) e equidade (supostamente favorecida pela regulação e políticas redistributivas)

O essencial e o acessório


Já se percebeu que esta campanha se está a concentrar em aspectos acessórios (datas e número de debates televisivos, características psicológicas dos candidatos, etç). A causa disto tanto pode estar na baixa qualidade dos próprios candidatos, como na apetência do eleitorado para estas superficialidades. O Presidente da República diz que o povo português já mostrou no passado que quer saber é da substância das propostas eleitorais e não de outras coisas, mas eu não estou tão seguro disso.

Ao acusar Sócrates de ser como aqueles meninos que têm medo de brincadeiras e ao sugerir (sem o enunciar) o nome que se costuma chamar a esses meninos (tanto quanto sei, será "mariquinhas" ou equivalente), Santana Lopes tenta fazer uma ligação com características pessoais de Sócrates que supostamente o diminuiriam para o exercício de cargos públicos. Santana Lopes não enuncia essas características porque tal seria politicamente incorrecto, mas não deixa de jogar na calúnia, ou no "escândalo", ainda que não expressamente enunciado.

Coisa semelhante fez Francisco Louçã quando, num debate televisivo, aludiu a que Paulo Portas, não tendo filhos, não estaria qualificado para tomar posição sobre o aborto. A diferença entre Santana Lopes e Francisco Louçã é que a insinuação deste último foi proferida no contexto de um acalorado debate, e a insinuação de Santana tem ar de ter sido pensada, pois encaixa noutros "argumentos" de desvalorização do candidato do PS, como o de afirmar que no PS é Vitorino quem tem ideias e não Sócrates.

Louçã pronuncia-se sobre a sua insinuação num artigo inserido no Público de hoje. Seria uma boa oportunidade para corrigir o lapso do debate, mas Louçã não chega lá. O melhor que consegue, depois de reafirmar o seu posicionamento "moderado" sobre o aborto, é admitir isto: "não sei se o defendi sempre da forma mais esclarecedora".

Não sabe ? Então o homem de tantas e tão firmes convicções não sabe uma coisa tão simples ? Foi ou não correcta a afirmação que fez ? Pode ou não Paulo Portas, embora não tendo filhos, ter uma opinião sobre o aborto ? E a opinião de outras pessoas que concordam com Louçã nesta questão e não têm filhos, também não vale ?

Isto faz lembrar muito um tique do sectarismo marxista (de onde Louçã vem e de onde talvez nunca tenha saído, apesar da cosmética bloquista) que, achando que tem razão, nunca pode admitir qualquer discrepância ou contradição de discurso. A convicção do acerto da ideologia transfere-se para o partido (ou para dirigente partidário) e portanto tudo o que se diz está sempre certo por definição. O conteúdo é tão certo que se sobrepõe esmagadoramente à forma. A ideologia está tão certa que qualquer prática feita em seu nome está justificada por princípio. Isto, como se sabe, teve consequências terríveis na vida dos povos (e das pessoas) que foram sujeitas à ideologia marxista, anulando a hipótese de debate e ferindo de morte a racionalidade que supostamente os governaria rumo a um mundo melhor.

Bolonha


João Vasconcelos e Costa, no Público de hoje escreve o artigo Bolonha em Portugal - a Grande Confusão , com reflexões muito valiosas sobre o processo de Bolonha, na sequência de uma série de artigos sobre o mesmo assunto que se podem encontrar online aqui, e que o autor tem também comentado no seu blogue Professorices.

Particularmente interessante é a análise dos relatórios oriundos das diversas áreas do ensino, salientando JVC que nem todos parecem ter compreendido (ou incorporado nas suas propostas) os reais objectivos do paradigma de Bolonha («tipologia diferente de educação académica e vocacional; formação académica de banda larga; ênfase na aquisição de competências; primado da aprendizagem sobre o ensino tradicional; etc.»). Eis o quadro comparativo das propostas, incluído no artigo:



ÁreasEsquemaNomes
Arquitectura5+(1-2)?
Artes dos spectáculos3+1+1?
Artes plásticas4+1?
Ciências humanas3+1+1B-L-M
Ciências políticas e internacionais3+2B-M
Ciências agrárias3+2B-M
Ciências exactas (e naturais?)3+1+1B-L-M
Ciências farmacêuticas6+??
Ciências sociais3+2B-M
Comunicação3+1+1B-?-M
Contabilidade3+1+1?-?-M
Desporto4+1L-M
Direito5+2L-M
Economia e gestão3+2L-M
Enfermagem4+2L-M
Engenharias3+2?-M
Formação de professores3+2?
Medicina0+6?
Medicina dentária0+5 M
Psicologia e C. educação3+0,75+1,25 B-?-M
Tecnologias da saúde4+1?
Turismo3+2?
Veterinária(5-6)+ (1-1,5)?
Notas:
a) Bolonha permite o esquema 0+5 (0+6 em Medicina), sem saída intermédia de 1º grau, e a que deve corresponder o grau de mestre. Mas somar-se-lhes formações adicionais pré-doutorais é contra as regras do processo.
b) As designações dos graus não são irrelevantes, principalmente em relação ao mercado de trabalho. Devia-se exigir a todas as comissões que fizessem propostas sobre isto.
[B=bacharelato; L=licenciatura; M=mestrado]


segunda-feira, janeiro 24, 2005

Desenvolvimento desigual


Trata-se de um dilema clássico do desenvolvimento: investir recursos nas regiões mais pobres de um país (reforçando a coesão social mas atrasando o "combóio" no seu conjunto) ou investir nas regiões mais desenvolvidas, que funcionarão como "locomotiva" e arrastarão todo o conjunto?

Há teorias para tudo. Kuznets indicou a curva em U invertido, segundo a qual numa fase inicial do desenvolvimento as diferenças individuais de rendimento tendem a aumentar, só se esbatendo numa fase posterior - dinâmica que também se pode esperar das regiões; Hirshman defendia para o desenvolvimento um caminho "desequilibrado"; os "pólos de crescimento" de Perroux também valorizam as regiões "locomotiva".

Esta discussão caíu entretanto em desuso, tal como os teóricos referidos. Mas o Público de hoje apresenta um estudo sobre o "desenvolvimento desigual" das regiões portuguesas, equacionando de novo este dilema.

Reforma do PEC


Tal como já tinha sido referido por Eva Gaspar, as mexidas no Pacto de Estabilidade e Crescimento poderão abrir uma Caixa de Pandora que ainda provocará saudades do antigo PEC. Segundo artigo do Público de hoje (suplemento de Economia) o défice da Alemanha poderá atingir os 10 % se o PEC for flexibilizado:

Os reformadores defendem um período de análise mais longo, para evitar que as restrições orçamentais coartem políticas de médio e longo prazo - mas quem é que pode garantir que no médio e longo-prazo tais medidas irão corrigir os défices que se gerarem hoje ? E quem é que assegura que o mercado monetário ficará a olhar, impávido e sereno, para o crecimento dos défices?: "Olha, a Europa a endividar-se... que bom, pois vai gerar mais riqueza no futuro!..."

sábado, janeiro 22, 2005

Más notícias


A economia portuguesa está em perda desde o princípio do segundo semestre de 2004, de acordo com os indicadores de conjuntura do Banco de Portugal, ontem divulgados. (Indicadores de conjuntura aqui - ficheiro pdf).

Território arreferencial


«Costumava contar aos meus alunos, para explicar a dominância de um hemisfério cerebral sobre outro, a seguinte história se vendarmos os olhos a um humano e lhe pedirmos que prossiga (que siga em frente) num território arreferencial (um espaço sem marcas) ele, em vez de prosseguir, começa a andar às voltas, no sentido inverso ao da dominância do hemisfério.
(...)
Portugal, por vezes, parece comportar-se como este personagem, não porque seja cego, mas sobretudo porque não quer ver»

Paulo Cunha e Silva - Diário de Notícias

Por momentos pensei que era por falta de referências...

Campanha eléctrica


Depois do choque fiscal (proposta do PSD para uma redução dos impostos sobre as empresas) a campanha dos dois maiores partidos centra-se agora em torno do "choque tecnológico" (PS) e do "choque de gestão" (PSD).

No caso do "choque tecnológico" parece tratar-se de uma repescagem da "estratégia de Lisboa" (estratégia europeia do tempo da nossa presidência da UE - governo Guterres) e tem ar de coisa virada para as "Novas Fronteiras".

O "choque de gestão" (diminuição acentuada do "peso do Estado" em termos de despesa) é parecida com a proposta recente de Miguel Cadilhe, que advogou algo semelhante para a despesa pública primária.

Qualquer destas propostas de "choque" tem impactos negativos líquidos no emprego. No entanto, simultaneamente, as propostas são acompanhadas de promessas de criação de mais emprego: é a quadratura do circulo. No entanto, qualquer delas pode mais tarde vir a ser quebrada, com muita facilidade, utilizando outros argumentos (do tipo "a conjuntura não permitiu", ou "não quizemos aumentar o desemprego", etç.) O choque tecnológico ne sequer vem acompanhado de metas: é a promessa eleitoral mais fácil de quebrar, sem custos políticos. A proposta de redução da despesa pública é mais ousada nesse contexto.

Creio que seria mais proveitoso para o país que se fixassem metas relativas à produtividade e à competitividade externa. Neste momento são conceitos que os portugueses (incluindo muitos "economistas") não percebem sequer o que é - e a sua inclusão na agenda eleitoral teria a vantagem de proporcionar o seu esclarecimento em termos "populares". A discussão sobre o peso do Estado é simplesmente estéril: pode-se diminuir o peso do Estado com desorçamentação, criação de empresas públicas ou SAs e ficar tudo na mesma. As metas para o desemprego são igualmente inúteis: pode aumentar-se o emprego e dimuir o desemprego sem verdadeiramente melhorar o desempenho económico.

Esta ideia dos "choques", por outro lado, parece ser apenas mais uma roupagem de marqueting, uma moda - tal como, há um tempo atrás, houve a moda dos manifestos, aparentemente originários da famigerada "sociedade civil". Mas quanto a isto pouco há a fazer. As palavras foram feitas para ser usadas - e gastas.



Adenda - descobri que do programa do PSD faz parte a produtividade: proposta de a aumentar, "dos actuais 64% da média europeia para 75%, no final da legislatura".

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Visão vitriólica



O vitriolica webb's ite é um blog de Vitriolica (ou Madge), uma cidadã entrangeira que vive há algum tempo na zona de Azeitão. Apresenta uma visão ácida (ou seja, sulfúrica...) do modo como o urbanismo tem desqualificado aquela zona, bem como dos nossos hábitos sociais. Para além dos comentários certeiros, a página inclui extraordinárias aguarelas que representam aspectos da vida e da paisagem daquela região - mas que afinal representam todo o litoral português.

Por exemplo, em village life II, podemos ver a horrível paisagem da estrada nacional que atravessa Brejos de Azeitão, com os seus monstruosos outdoors, sujando a magnífica imagem da Arrábida, ao fundo.

Em strange portuguese men things, os homens portugueses e as suas fartas cabeleiras são impiedosamente retratados. As mulheres surgem em Shopping anyone?; e a vez dos jovens calha em Bad things and Worse things, e nem a terceira idade escapa em village life... dontcha just love it?:
[ The village papershop ] - It's where you can be ignored for a whole five minutes while the lady who owns the place hears about Mr Jones's goiter or Mrs Arthurson's daughter's divorce. It's where you can hear all about grinding poverty in a supposedly developed country. It's where you can hear about all the failings of the health service, about people getting nasty diseases, about traffic accidents and all manners of awful and unexpected deaths.
A não perder.

Venda de ilusões


«Bagão congela impostos antes das eleições»
«O Ministério das Finanças ainda não procedeu à actualização do imposto sobre os produtores petrolíferos (ISP) dos combustíveis. A actualização anual é em regra feita no início de Janeiro e este ano estava previsto um aumento de 2%, em linha com os definidos em anos anteriores. (...) Fontes da indústria, que aguardam a portaria, admitem que a demora possa ser motivada pela proximidade das eleições.» (Jornal de Negócios)

Vejam bem: o ministro que ainda há dias se considerava "muito satisfeito" com uma proposta de alteração do PEC no sentido de um maior rigor ("O corredor da demagogia [fica mais] estreito - a venda de ilusões já não é possível com a mesma facilidade") parece agora aceitar a venda de mais uns meses de ilusões - fazendo diminuir as receitas do Estado neste período, o que, no entanto, acabará por onerar os bolsos dos cidadãos mais tarde - e sempre com consequências mais gravosas.

Small is beautiful ?


Um estudo elaborado pelo Instituto PME Formação, que será apresentado hoje, no Porto, na sessão de encerramento da edição 2004 do Programa PME XXI, revela que as micro e pequenas empresas continuaram a investir e aumentaram o número de postos de trabalho, apesar da recessão económica.

As empresas inquiridas (81%) apontam a diferenciação da oferta como a chave do êxito, apesar de 74% ter assumido funcionar sem um plano de negócios estruturado.(Jornal de Notícias)

«Efeito rendimento»


«Portugueses querem gastar mais mas dizem que não podem»
(Diário de Notícias)

Acham que isto é notícia ? Notícia seria: «Portugueses podem gastar mais mas dizem que não querem»

Autogolos


"Estádios Novos Não Levam Mais Público ao Futebol"
A euforia do Euro 2004 terminou com o início da SuperLiga. Os estádios esgotados durante o Europeu realizado o ano passado em Portugal deram lugar a milhares de cadeiras vazias jornada após jornada. (Jornal Público)

Pois é: vamos ver agora como é que os municípios que se endividaram para construir os estádios se vão aguentar. Parece que há um caso em que já se começou a alugar as instalações desportivas para casamentos.

Biotecnologia


A Apbio - Associação Portuguesa de Bioindústrias, juntamente com o Governo, decidiram lançar a estratégia nacional para a biotecnologia, apresentada ontem em Lisboa, que visa aumentar o envolvimento das empresas. O secretário de Estado da Inovação referiu que Portugal tem das maiores taxas de investimento estatal em inovação e desenvolvimento, mas que na percentagem de investimento privado fica na cauda da Europa: "Fazer com que o sector privado se interesse e reconheça o potencial que existe em termos de retorno nesta área é o nosso objectivo. É aí que devemos concentrar os nossos esforços."

A ATGC, uma empresa de transferência de biotecnologia, deu ontem um contributo para o lançamento da estratégia nacional para a biotecnologia, com o exemplo daquilo que pretende criar nesta área: um fundo para a biotecnologia, uma empresa de capital de risco para incentivar a criação de novas empresas altamente promissoras. - jornal Público.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Que cromos


Santana Lopes acusou Sócrates de ter feito, quando ministro em gestão, a nomeação do seu próprio Chefe de Gabinete para um tacho qualquer; mas enganou-se (ou enganaram-no, que para isso parece estar bem acompanhado) e o PS exigiu um pedido de desculpas.

Pois bem: Santana Lopes lá pediu desculpas, mas acompanhadas de um tal requisitório que dá vontade de rir: que tentou telefonar a Sócrates ainda antes do PS exigir desculpas, mas que o outro não atendeu o telefone; que espera que o pedido de desculpas faça escola e por isso aguarda agora uma carta do PS com uma longa lista de pedidos de desculpa; e, além disso, que se enganou no nome, ou seja, na forma, mas não no conteúdo (faz lembrar aquela fábula do lobo e do cordeiro: "se não foste tu, foi o teu pai!"). Sócrates, claro, lá vai fazendo de ofendido, como se o PS não tivesse de facto feito nomeações enquanto em gestão. Que cromos!

Entretanto um jornal de escândalos lá ousou colocar na primeira página uma notícia originária do Brasil sobre uma eventual ligação amorosa de Sócrates. É uma vergonha para a imprensa portuguesa. Repare-se que a notícia é: "um jornal brasileiro publicou..."

Isto está mesmo a ficar ao nível da valeta...

«Não me lembro...»


«Há dez anos que foi negociado o fim do acordo multifibras. Há dez anos que se sabe que a liberalização do comércio têxtil chegaria em 2005, depois de um longo período transitório, e desde 2001 que ficou definido que o acesso pleno da China à OMC iria coincidir com a mesma data. Ninguém pode invocar que não sabia.»

Luísa Bessa - Jornal de Negócios

Novo campeonato


«Ministério Público recupera processos crime contra clubes: não estando a ser pagas atempadamente as prestações ao Fisco, no âmbito do Plano Mateus, deixam de estar reunidos os requisitos para a suspensão de procedimentos criminais em curso.»

Semanário Económico

Diz-me com quem andas



«A situação repete-se e mais uma vez o ministro das Finanças será a figura chave do próximo Governo. É caso para dizer: Diz-me que é o teu ministro das finanças e eu dir-te-ei que primeiro-ministro serás.»

João Vieira Pereira - Semanário Económico

Congestão de diplomas


«Se isto é um Governo limitado a funções de gestão, então já não sabemos o que será um Governo investido de plenas funções. O Conselho de Ministros de hoje, o último com capacidade legislativa em temas de relevância política, está completamente congestionado por dezenas e dezenas de diplomas.»

Sérgio Figueiredo - Jornal de Negócios


Marketing viral


«O marketing viral é uma das mais rápidas, mais baratas e mais simples maneiras de obter mais adesões à sua newsletter ou visitas ao seu blogue ou página.»

In Blog Business World

Noronha da Costa
Crédito: Galeria Pedra do Guilhim



Os Troublemakers são um grupo francês, de Marselha, integrado originalmente por Fred Berthet, Arnaud Taillefer e Lionel Corsini. Fred lançou-se na música techno no início dos anos 90, com o 'Venus Attack Project'. Arnaud é guitarrista e baixo e também gráfico (responsável pela imagem do grupo). Lionel, ou seja, DJ Oil, é músico residente no clube Le Trolleybus de Marselha. Em 2001 publicaram 'Doubts & Convictions'e em 2003 a compilação 'Stereopictures Vol.2´'. Em 2004, já sem Fred Berthet, lançaram 'Express Way'.

Banda: Troublemakers
Álbum: Express Way (Blue Note, 2004)
Música: Lemon

upload original: thebeathunters

O blogue de Margot Wallström


Margot Wallström, a sueca que ocupa actualmente o pelouro das Relações Institucionais e Estratégia de Comunicação na Comissão Europeia ["O presidente Barroso criou este pelouro para melhorar o modo como comunicamos a 'Europa' aos cidadãos"] decidiu utilizar a página online a que tem direito no portal da CE para desenvolver um blogue, com o singelo título de:
my blog
«São seis da manhã. Está escuro, húmido e frio. As únicas criaturas vivas que se vêm são uma raposa, dois gatos e o homem dos jornais. Eu e o meu marido saímos para o habitual passeio (ou um leve jog) de 45 minutos. Este é o único tempo que consigo arranjar para fazer exercício embora fique algumas vezes (muitas!) cansada de morte e me questione se não é uma loucura fazer isto (para não mencionar que o meu marido se sente embaraçado por causa dos meus bastões de ski, que uso porque é bom para a coluna e nos permitem usar mais energia) mas mantermo-nos fisicamente em forma é tão importante que eu penso que vale a pena...» [tradução do 'pura economia']


quarta-feira, janeiro 19, 2005

Eugénio de Andrade, 82ºaniversário


As Mães

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem pelas bermas, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela vê, só ela vê.

Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.

Eugénio de Andrade


Programa da TSF sobre Eugénio de Andrade

Satisfeito, 'ma non tropo'


Afinal a reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que tanto tinha entusiasmado Bagão Felix:
«O PEC é um instrumento muito positivo para Portugal, um constrangimento bom para o país. O corredor da demagogia está muito estreito. A venda de ilusões já não é possível com a mesma facilidade. Torna a política mais séria, mais responsável e mais imaginativa» (in Público)
teve pouco acolhimento entre os ministros das Finanças da União Europeia, reunidos em Bruxelas, que preferem uma reforma mais ligeira das suas regras.

O Portal do Governo tem, desde ontem, em destaque uma notícia sobre o PEC, com fotografia do ministro das Finanças e o cabeçalho: Portugal satisfeito. Talvez fosse melhor acrescentar: Satisfeito, ma non tropo.

Vergonha ?


«Armadores de Pesca Vão Abastecer-se a Espanha»

«A Associação dos Armadores de Pesca Industrial (ADAPI) classifica de "vergonha" o preço dos combustíveis em Portugal, por comparação com o praticado em Espanha. De acordo com Pedro França, presidente daquela associação, o metro cúbico do gasóleo marítimo em Aveiro custa 315 euros, ao passo que no porto de Vigo é pago a 262 euros.» (in Público)

É caso para dizer: "é a globalização, estúpido!"

Boas e más notícias


A má notícia:

«O número de desempregados inscritos nos Centro de Emprego aumentou 3,6 por cento em Dezembro, face ao mesmo mês do ano anterior, revelou ontem o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). No final de Dezembro, estavam inscritos nos Centros de Emprego do Continente e Regiões Autónomas 468.852 indivíduos, mais 16.310 do que no mesmo período do ano anterior.»

E a boa:

«A produtividade do capital e do trabalho em Portugal cresceu mais do que nos EUA, entre 1990 e 2003, quando comparada a produção total por hora trabalhada, segundo um estudo do Deutsche Bank ontem divulgado. Entre 1995 e 2003, a produção por hora trabalhada aumentou anualmente 2,2 por cento em Portugal e 2,1 por cento nos EUA. De 1990 a 1995, a diferença de crescimento foi maior, já que Portugal viu a sua produtividade crescer 3,1 por cento por ano, contra os 1,3 por cento dos norte-americanos.»

in Público

Vírus eleitoral


«A um mês das eleições um temível vírus atacou os políticos portugueses. Lembraram-se de tudo o que os adversários prometeram e não cumpriram e esqueceram-se de tudo o que o seu próprio partido prometeu e se esqueceu de cumprir.
Não é grave. A falta de memória é a ideologia nacional.»

Fernando Sobral - Jornal de Negócios

Polémica chinesa II


«A globalização é uma selva onde só sobrevivem os mais fortes e audazes, as Macondes e as Riopeles. Dos outros, não rezará a história durante muito mais tempo.»

Pedro Marques Pereira - Diário Económico


Polémica chinesa


«Mas tem tanto de ridícula quanto de inquietante esta polémica criada no suposto incentivo que a visita de Sampaio faz à deslocalização de fábricas para a China. Grave não é o Presidente anti-patriota, que Sampaio não é. Grave é ver que o destino ainda está nas mãos de uns idiotas que representam os trabalhadores e de uns empresários que insistem ser absolutamente mentecaptos.»

Sérgio Figueiredo - Jornal de Negócios


terça-feira, janeiro 18, 2005

Venham nomes!


O mundo muda, toda a gente sabe, mas as mudanças não nos deixam de surpreender. Agora foi o patriarca Soares, o tal que idolatrava o "poder local" e que fez teoria ao proclamar que "um escudo é sempre mais bem aplicado por uma autarquia local do que pela administração central", que mudou de agulha e ousou dizer (ontem, na televisão) que há muita corrupção por essas bandas.

Já saltou para cena o presidente da Associação Nacional de Municípios, ofendidíssimo, a exigir nomes. Faz lembrar o Valentim Loureiro, que fez o mesmo depois de declarações públicas sobre a existência de corrupção no futebol, tendo mesmo exigido uma reunião com o Procurador da República, da qual saíu a dizer: "não há nada."

O que Soares devia agora esclarecer é onde é que esses escudos foram melhor aplicados pelas autarquias locais.

«Agarrem-me !»


Há alguns anos era possível (e talvez ainda seja) impedir a entrada de jogadores compulsivos em casinos, nomeadamente a pedido dos próprios, para evitar que se prejudicassem financeiramente devido à dependência do jogo. Talvez fosse de uma medida destas que Bagão Felix estava a precisar, já que se declara muito satisfeito com o facto das novas regras do Pacto de Estabilidade limitarem o recurso a medidas excepcionais. Só não se percebe porque é que recorreu ele próprio a tais medidas. Faz lembrar aqueles excitados que gritam compulsivamente: «Agarrem-me! Agarrem-me senão eu desgraço-me!» No caso vertente: «Agarrem-me senão vou aos fundos de pensões e ao património e desfaço tudo!»

De pedra e cal...


Nos últimos dias verificou-se um crescendo de declarações de ministros e secretários de estado, anunciando medidas e intensões políticas para prazos que ultrapassam as próximas eleições. Exemplos: a declaração do secretário de Estado da Saúde, Patinha Antão, de que "quer duplicar a quota de mercado dos genéricos nos próximos dois anos"; o anúncio, pelo ministro do Ambiente da criação do Instituto do Litoral, ou as declarações do ministro das Obras Públicas, António Mexia, acerca de mais duas travessias sobre o rio Tejo, assunto sobre o qual prestará "mais esclarecimentos daqui a um mês" (ou seja, à boca das urnas).

O que tudo isto parece configurar é uma estratégia de marketing eleitoral, no sentido de dar a ideia de que os actuais governantes continuarão de pedra e cal no governo durante os próximos anos. Santana Lopes já tinha em tempos ensaiado qualquer coisa deste tipo ao anunciar medidas para os próximos 10 anos.

Duvido muito que este truque tenha algum efeito prático, mas esta gente não tem muito a perder e por isso todos os estratagemas são de esperar - e creio que iremos assistir a mais originalidades - destas e doutras - até às eleições.

Gostos não se discutem


"Preferências e valores: como se formam e como é que afectam o comportamento" - é o programa do livro de Gary Becker, "Accounting for Tastes", de 1998 (na linha do conhecido texto que Becker e Stigler publicaram em 1977: "De Gustibus Non Est Disputandum"):
«As experiências do passado e as influências sociais formam dois tipos de stocks de capital: pessoal e social. O comportamento presente pode fazer subir o capital pessoal futuro, mas este capital também pode decair com o tempo devido a "depreciação" psicológica e fisiológica, em resultado do comportamento anterior. O stock de capital do período seguinte é igual à formação de capital pessoal do período presente mais a parcela de capital presente não depreciada.

«Esta formulação é suficientemente flexível para incluir muitos tipos de comportamento. Por exemplo, o investimento pode depender de se fumar, de ir à missa, ou de jogar tenis, porque estes tipos de consumo aumentam os stocks de capital. O abuso de crianças e outras experiências podem influenciar as escolhas de adolescentes e de adultos ao afectar a acumulação de capital desde a infância. O divórcio, o desemprego, a publicidade e outras experiências podem igualmente determinar escolhas através da influência sobre a acumulação de capital pessoal»

Uma musiquinha para elevar o astral




Rick Baron - um americano de Newfoundland dedicado à música folk, como cantor e solista de guitarra e banjo. Na página de Rick Baron podem escutar-se músicas como este instrumental, "Campbells' Farewell", que também pode ouvir aqui:

EDP a sorrir


O logo da EDP tem de facto razões para sorrir:
«A EDP vai ver reforçada a sua posição dominante no mercado de produção eléctrica nacional ao garantir cerca de metade da capacidade dos pontos de ligação à rede eléctrica, que vai ser atribuída por este Governo. A perder ficam as eléctricas espanholas. A Endesa e a Gás Natural não recebem ligações e a Iberdrola fica com metade do pedido.»
(Notícia do Jornal de Negócios)
Assim vai a concorrência (e ainda há quem acuse o PSD de neo-liberalismo económico!)

Olha quem fala...


«Se tivermos em conta que um dos problemas fundamentais do ensino superior é a deficiente preparação com que os estudantes que terminam o secundário chegam a este grau de ensino e que as elevadas taxas de abandono no ensino secundário geram subutilização de recursos em muitos cursos do ensino superior, fácil se torna compreender que só de forma integrada se poderão encontrar respostas para estes e outros problemas.»

António Mendonça em artigo do Jornal de Negócios

Caro professor: não seria melhor que escrevesse sobre o ensino universitário, onde tem/teve responsabilidades, em vez de atirar as culpas para montante?

Feira da Ladra


À medida que se vão conhecendo os programas eleitorais cresce o sentimento de que tudo não passa de uma grande feira-da-ladra (no duplo sentido etimológico). As propostas parecem feitas apenas para captar votos e não existe qualquer lógica de integração numa estratégia coerente.

O economista Frasquilho, por exemplo, garantia que o PSD iria baixar o IRC; agora o programa do seu partido já diz que não baixa, mas o homenzinho continua a dar entrevistas como se nada fosse.

Em termos de propostas económicas o PS não faz melhor figura: as promessas de criação de emprego não são sustentadas em nada de consistente, apenas números atirados para o ar.

No meio de tanta patetice o CDS ainda se arrisca a parecer o único que sabe fazer contas; só por estar calado já faz melhor figura.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Encarte II


O Público de hoje (e provavelmente também outros jornais) inclui um encarte da Presidência do Conselho de Ministros e da UMIC, essencialmente dedicado a divulgar o Programa Nacional de Compras Electrónicas - iniciativa para modernização do processo de aquisições pela administração pública.

Ao contrário do encarte sobre o orçamento, este documento tem grande qualidade de apresentação e de conteúdo, com informação muito detalhada e incluindo ainda "links úteis", glossário e FAQs.

Constância de Constâncio


Quando se falou da última conferência de imprensa do Governador do Banco de Portugal, alguns comentários insinuaram que durante os governos de Guterres o economista não tivera a mesma atitude de alerta para os problemas. Nem de propósito: o Público de hoje chama a atenção para a constância de Constâncio, citando as suas declarações desde que ocupa aquele cargo, entre as quais:
«2000 "Padrão de consolidação orçamental tornou-se insustentável" - logo na tomada de posse, Vítor Constâncio avisa o Governo de António Guterres que as despesas de consumo público não poderiam continuar a crescer ao mesmo ritmo dos últimos anos.»

Maçã amarga


O jornal Público (no suplemento Computadores - link não disponível) - noticia que a Apple processou três blogues por divulgação antecipada de produtos. Todos os blogs em causa se dedicam aos produtos Apple, esforçando-se por divulgar as novidades com a maior antecedência. Um dos objectivos da empresa é o de saber quem é que lhes forneceu a informação.

Um dos visados é Nicholas M. Ciarelli, de 19 anos, estudante de Harvard, que administra o site Think Secret desde a idade de 13 anos. A Apple considera que Ciarelli obteve a informação - sobre o novo Mac mini - de forma ilegal [ver também notícia aqui].

Outros dos blogues causa são o Apple Insider e o Power Page, que têm natureza comercial; neste caso são acusados de divulgar um produto com o nome de código Asteroid, um acessório para ligação de equipamento musical aos Mac. Entretanto a Electronic Frontier Foundation decidiu apoiar os blogues contra a tentativa de revelação das fontes, dentro do princípio de que "os blogues obtêm furos noticiosos, tal como os jornalistas o fazem. Devem poder manter a confidencialidade para garantir o livre fluxo de informação" ["Bloggers break the news, just like journalists do. They must be able to promise confidentiality in order to maintain the free flow of information"].
Descobri entretanto que o ContraFactos & Argumentos já tinha feito uma referência ao assunto aqui.

Nova polémica eleitoral com blogues


O Wall Street Jounal refere mais uma polémica intervenção de bloguistas que desenvolveram actividade influente em campanhas eleitorais, em defesa de uma determinada candidatura, ao mesmo tempo que receberam pagamentos dessa mesma candidatura. Já aqui tinhamos referido um caso semelhante. Os blogues agora debaixo de fogo são o MyDD de Jerome Armstrong, e o DailyKos de Markos Zuniga.

Claro que os pagamentos não estiveram directamente ligados ao funcionamento dos blogues, mas sim a actividades de consultoria que os seus autores fizeram para a campanha. Além disso os dois bloguistas alegaram que, num caso, a ligação à campanha foi publicitada no blogue e, noutro caso, que o blogue foi encerrado durante o período de consultoria.

Nos EUA a blogosfera tem sido muito crítica das ligações financeiras perversas que ocorrem entre certos jornais/jornalistas e candidaturas eleitorais que são depois tratadas favoravelmente por essas entidades. As revelações de que o mesmo pode estar a acontecer com os blogues constitui, por isso, um choque para a blogosfera.

ISEG


No Ordem nos economistas, Luís reflecte sobre o ISEG e a respectiva inserção no mundo actual. Já antes, Nuno Palma tinha feito um exercício semelhante:
«Agrada-me no passado esta escola ter lutado pela democracia, mas pagámos por ela um preço bem caro. Não pela luta em si, pelo que veio a seguir.»
Bem, o que veio a seguir foi a ultrapassagem do ISEG por outras escolas de Economia. Não creio que o facto do ISEG não ficar em primeiro lugar nos rankings deva ser motivo de angústias: alguém tem de ficar em primeiro lugar. Por excelente que uma instituição seja, nada impede que outras a consigam ultrapassar. A questão essencial é sim a do papel da escola na vida do país.

Estou afastado do ISEG há muitos anos para poder falar sobre o caso com conhecimento de causa, mas é um assunto que me interessa. É sabido que, no passado, o ensino do ISEG teve uma forte componente keynesiana e que o desprestígio dessa corrente teórica também atingiu o Quelhas. Também é verdade que na escola os gurus do keynesianismo eram, na sua maioria, marxistas de crença; terão talvez imaginado que as técnicas de planeamento e a intervenção estatal de base keynesiana se poderia aproximar de uma teoria económica que se fundisse com a promessa marxista da sociedade sem classes. Desilude-me que a escola não consiga fazer e afirmar uma leitura positiva desse período - pelo menos, que se veja.

Outra coisa que correu mal, mas que merecia reflexão, foi a "desconstrução" da "escola quartel" feita imediatamente antes do 25 de Abril. Misturando influências marxistas (vertente maoista) e anarquistas (via Maio de 68), vários pensadores do movimento estudantil (exemplos: Ferro Rodrigues, Luís Graça) promoveram a crítica e propuseram a "destruição" duma escola (o próprio ISEG) que se acreditava servir apenas para "formar quadros para a burguesia". A palavra de ordem era então: "Abaixo a escola quartel !"

Pois bem: veio o 25 de Abril e foi isso mesmo que foi feito: a escola foi destruída e, em seu lugar, montada uma farsa em torno de "seminários"; professores competentes e que tinham forjado o ISCEF enquanto escola de referência, como António Manuel Pinto Barbosa, foram cruamente saneados e, para o corpo docente, entrou uma série de gente cinzenta (é o adjectivo mais benigno que me ocorre).

É certo que não tardou muito (2 anos ?) para que o movimento reformador refluísse: a experiência dos seminários cedo se revelou infrutífera e havia a clara consciência de que a Católica e a Nova eram ameaças de mercado importantes. No entanto, creio que nunca foi feita a devida crítica aos acontecimentos, uma crítica inteligente que permita incorporar o que de positivo teve esse espirito contestatário que, no fundo, visava apenas melhorar o mundo. Por outras palavras: não foi feito o luto que permita libertar a mente da escola para novos voos; a escola parece estar como naquele ditado: gato escaldado de água fria tem medo. Depois de ter tentado fazer uma revolução no ensino da Economia e de ter falhado, é de esperar que se temam novas aventuras e que isso seja paralizante.

Porém, 30 anos passados, talvez já seja altura de fazer um balanço sério. Eu gostaria muito de assistir, e eventualmente participar, num tal exercício.

Nota - as imagens são do Maio de 68, iconografia recorrente nos cartazes de parede que existiam na cantina da escola.

domingo, janeiro 16, 2005

Meditação


A alma de Santana, abandonada,
Debruçando-se à janela, medita:
"- Que é do povo que antes me aclamava
Por Lisboa, Figueira e na Invicta ?"

De facadas cosida e cozinhada
Em lume que o Partido espevita,
Pobre alma, lê astros e acredita
Que outra sorte lhe estará destinada.

Mas o céu nada diz que a pena valha,
E Santana cogita, coça e pensa,
Quando sente uma intuição que se espalha

No corpo como bruma doce e densa:
"- Já sei como motivar a maralha:
Convocar Conferências de Imprensa!"

"Não acontecimentos"


"Vivemos Paralisados pela Inveja", diz o filósofo José Gil na revista Pública (suplemento do Público) de hoje:
«Nós temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante. Dificilmente alguém dirá: "Que bom o que tu fizeste. Estou muito contente." Não. Vão-nos decerto criticar. Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. Bom senso.»
Quanto aos "media":
«Movem-se em circuito fechado. Têm uma acção de absorção. Só se existe se se aparecer na televisão. Mas estar e aparecer na televisão não é a mesma coisa do que viver a vida, na materialidade das ruas e do tempo.»
E o significado de "não inscrição":
«Significa que os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento.»
Concordo com estas afirmações. É talvez um outro modo de significar o "desaparecimento dos valores" ou das "ideologias" que movimentavam as pessoas. Também constato que não se conversa muito sobre as obras de arte ou espectáculos, mesmo quando são usufruidos. Recordo-me de filmes como "Os Pássaros" (de 1963) ou "A primeira Noite" (de 1967) terem dado grandes debates nos dias seguintes, à mesa do café. Hoje isso é impensável: ficamos pelo "gostei", "não gostei", "não é mau..." - uma espécie de discurso "politicamente correcto" para as relações inter-pessoais. Querer ir um pouco mais além na leitura ou no retirar de consequências fica assim um bocadinho... ridículo... démodé.

O certo é que se não tivermos ideias firmes, certezas, objectivos prosseguidos com convicção, não podemos dizer que algo é "bom" ou não. Bom para quê ou para quem ? O mais que podemos afirmar é que, "para mim, é bom", ou seja: "gostei".

Adenda: Quem não apreciou nada as ideias do filósofo foi Eduardo Cintra Torres, que no Publico de 17.Jan.05, comenta com ironia o livro de José Gil, "Portugal Hoje: O Medo de Existir", sobre a mesma temática:
«Este doloroso retrato do país é habitual; partilham-no elites e povo; mas é exagerado, como o próprio dá a entender. (...) O retrato demolidor que Gil traça da sociedade portuguesa não se limita aos políticos e aos "media", abarcando também a administração, os meios e criadores culturais, o povo em geral e a Crítica, que não sai do "fundo dos espíritos" para iluminar os seus leitores e receia colocar-se, como deveria, entre a obra e o público.»
E:
«Apesar de terminado [o livro] já em plena governação de "descaramento político" de Santana Lopes, não há razão para José Gil ignorar que José Sócrates é gémeo de Santana Lopes na sua ontologia mediática e na inclusão no "sistema".»
E ainda:
«Mas José Gil não está apenas, como analista, fora deste retrato. O seu pessimismo histórico põe-no dentro e é, também ele, uma forma do "medo de existir" e de justificação da inacção. É o intelectual como observador não-participante e, já agora, como telespectador - impressionado, impressionista e impressionante.»

Portugal e Irlanda


O artigo de opinião de Vasco Pulido Valente no jornal Público de hoje coloca uma questão a ponderar: hoje são frequentes as comparações que fazemos entre nós e a Irlanda, para chegar à conclusão de que aquele país aplicou uma melhor estratégia de desenvolvimento. A comparação é convincente porque os dois países parecem semelhantes em tudo: quase o mesmo ponto de partida, a mesma dimensão (e, na minha escola primária, ensinavam que havia outra semelhança: ambos os povos faziam da batata a sua base alimentar...)

No entanto esquecemo-nos das ligações privilegiadas entre a Irlanda e os EUA e a Inglaterra: a cultura e a localização geográfica, que favorecem o investimento daqueles países (e principalmente dos EUA) na Irlanda.

E eu acrescento: assim fosse o Brasil uma das mais avançadas economias do mundo. Mas, se o não é, Portugal também não se pode queixar, já que para isso também contribuíu (por exemplo, com leis que proibiam a manufacura naquela colónia).

Buchholz


A revista Pública (suplemento ao jornal Público de hoje) apresenta, na revista, uma excelente reportagem sobre a Livraria Buchholz: a história de Karl Buchholz, seu fundador (um empresário "global" avant la lettre), comentários de diversos frequentadores da Buchollz ao longo da sua existência, pormenores do seu funcionamento- tudo muito interessante.

A Buchholz é já uma lenda. Aconselho aqueles que ainda a não conhecem a visitá-la, pois também concordo com a opinião, expressa no artigo do Público, de que as livrarias dos grandes centros comerciais não possuem a qualidade de atendimento e de disponibilidade de catálogo que este tipo de livrarias podem proporcionar.
Livraria Buchholz
Rua Duque de Palmela, 4
1250-098 Lisboa

Negócios da China


A capa do Correio da Manhã de hoje anuncia em grandes parangonas: "Fábricas texteis vão para a China". A notícia baseia-se em declarações de duas grandes empresas portuguesas daquele sector (Maconde e Riopele), que "admitem levar a produção para o Extremo Oriente".

Em consequência, dirigentes sindicais do sector já vieram acusar Jorge Sampaio de proteger os empresários nas suas visitas (estas empresas fizeram parte da comitiva que acompanhou Sampaio à China).

Não creio que seja justo acusar Jorge Sampaio. É a dinâmica económica da globalização que faz transferir as produções com baixa incorporação de valor para países com mão-de-obra mais barata. Foi isso que trouxe os texteis de baixa gama para Portugal, e é isso que determina agora a sua deslocalização. Sampaio não tem poder para tanto. E, apesar de tudo, se não forem os empresários portugueses a aproveitarem essas oportunidades, outros o farão.

O certo é que uma das possíveis consequências da visita (também noticiada pelo mesmo jornal) é a hipótese de a China aceitar uma derrogação da entrada livre dos seus texteis em Portugal - se é que essa excepção é possível no contexto da União Europeia.

Mas até mesmo as derrogações acabam por ter um fim. É bem melhor que as empresas portuguesas aproveitem as oportunidades de negócio na China, nomeadamente neste sector que conhecemos bem, do que continuarmos a apostar em proteccionismos que só nos farão afastar cada vez mais do tal "pelotão da frente", e que nunca garantirão os postos de trabalho - apenas ospoderão manter artificialmente durante maisalgum tempo.

sábado, janeiro 15, 2005

Sons da sonda Huygens



Através do Abrupto cheguei ao site da Agência Espacial Europeia que disponibiliza sons recebidos da sonda Huygens. O primeiro, captado pelos microfones da sonda, dá uma reprodução realista daquilo que ouviria um viajante que seguisse a bordo:

O outro é uma conversão para sons audíveis de alguns dos ecos de radar recebidos durante os últimos quilómetros da descida para Titã. À medida que a sonda se aproxima da superfície lunar, aumentam a intensidade e a frequência do som:


Altos e baixos das SCUT


Segundo o Jornal de Negócios, António Mexia abandonou a ideia de estabelecer um raio de 30 km para a isenção de portagem nas SCUT (auto-estradas sem cobrança ao utilizador)..

O modelo de isenção agora anunciado brange não só os concelhos da área de influência geográfica, mas também os que têm um IPCC – Índice de Poder de Compra Concelhio mais de 50% inferior à média nacional; no total serão 131 concelhos e uma população potencial de 4,7 milhões de indivíduos - quase metade da população portuguesa.

Dá que pensar. Será que esta "benesse" não vai anular o efeito pretendido - ou seja, a geração de receitas para financiar a extensão da rede de auto-estradas ? E não será que existe um pretendido efeito eleitoralista por detrás desta medida ?