quinta-feira, janeiro 06, 2005

A verdade às vezes dói

(Actualizado)

"Chegou a hora da verdade", disse ele
(Vítor Constâncio), referindo-se à redução do défice, ao apresentar o último boletim económico de Dezembro do Banco de Portugal (ver nota de apresentação). O problema é que o banco central reviu a taxa de crescimento da economia portuguesa para 1,6 % em 2005, quando o Orçamento de Estado foi elaborado com base numa previsão de crescimento de 2,4 % em 2005!

Junte-se a crescente dificuldade prática em se inventarem medidas excepcionais de receita e pode imaginar-se o que isto representa para a economia portuguesa nos próximos tempos. Mas também se podem imaginar as consequências eleitorais...

Entretanto o Primeiro Ministro e o ministro das Finanças encontram-se reunidos com Vitor Constâncio, sendo fácil imaginar os argumentos "económicos" de Santana Lopes perante esta desautorização das suas previsões.

Aguarda-se pois com expectativa o fim da reunião! É que a verdade às vezes dói!...

Actualização - afinal a "chamada" do Governador do Banco de Portugal a S.Bento serviu apenas para... mais uma conferência de imprensa do governo, com Bagão Felix a desvalorizar as previsões do Banco de Portugal e a citar...La Palice. Vejamos os "argumentos" do ministro das Finanças (frases não textuais):
Argumento 1 - pois, em Janeiro é muito fácil fazer previsões, mas eu tive que as fazer há uns meses atrás, o que é muito mais difícil [neste caso o ministro parecia até estar a aceitar as previsões do Banco de Portugal como boas, desculpando-se apenas do desacerto das suas];

Argumento 2 - o Banco de Portugal já se tem enganado em outras previsões que fez.
Ou seja: nem por uma vez o ministro desmentiu as previsões divulgadas por Vitor Constâncio mas, pelos vistos, já apanhou o estilo de Santana Lopes: fazendo de vítima (argumento 1) e insinuando que ele é que tem razão, embora sem nunca o afirmar directamente (argumento 2).

O regresso do Ocidente


Concordo muito com o artigo de Pacheco Pereira no Público de hoje: a crítica ao imperialismo e a glorificação dos movimentos e dos processos de libertação das colónias, após a II Grande Guerra, ainda que justificadas, tiveram como consequência uma desvalorização dos fundamentos técnicos e humanistas da sociedade ocidental, com valorização acéfala de tudo o que vinha dos "povos oprimidos", e desculpabilização das barbaridades vindas daqueles lados (a culpa era sempre dos ocidentais e da herança do imperialismo...).

Afirma Pacheco Pereira que o choque dos acontecimentos de 11 de Setembro tende a corrigir esta estranha deriva, mas não sei se não será mais uma esperança dele do que uma realidade.

[a desenvolver...]

Facada nas costas X


No Público: O primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, criticou ontem aqueles que "procuram acantonar ou encerrar o desporto na sombra ou em qualquer canto, retirando-lhe "o estatuto que lhe deve ser reconhecido".

Ou seja: Rui Rio.

Vem a propósito parafrasear o nome de um simpático (mas carote) restaurante do Ginjal: "Atira-te ao Rio!".

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Cassandra Wilson


Cassandra Wilson canta The Wind Cries Mary, de Jimi Hendrix, na versão da banda sonora do filme "Crossing Jordan": a ouvir a partir do excelente blogue de Nick Francis, Jazz and Conversation.

Imagens: | Down Beat | 2 | 3 | 4 | 5 |

livraria Buchholz


Soube agora, pelo A Revolta das Palavras, que a livraria Buchholz se encontra ameaçada.

O certo é que parece estar a desaparecer o modelo das livrarias urbanas com características próprias, "especializadas" em qualquer coisa, por troca com as mega-livrarias dos centros comerciais. É um tempo que desaparece e eu tenho pena. Talvez nós, que agora passamos o tempo nesses centros comerciais - porque vendem muitas coisas e nós já nem temos tempo nem estacionamento para andar a cirandar pelas ruas da cidade - sejamos todos culpados disso.

Recordo a Buchholz por várias coisas: um ambiente único que me é difícil qualificar, a diversidade de livros em língua estrangeira, muitos livros sobre e com música, e a galeria de exposições. Tinha mais coisas, mas eram estas que me levavam à Buchholz, onde de resto continuo a ir com alguma frequência, nem que seja para sentir aquele transporte do tempo.

A recordação mais antiga que tenho, que é a da primeira vez que ali entrei, é de uma exposição de pintura de Noronha da Costa, servida com uma "explicação" personalizada, a mim e ao meu amigo José Cristóvão, pelo crítico de arte Francisco Bronze. O "Chico" Bronze, que nos atraíra ali a partir das tertúlias do Café Central de Almada, tinha de escrever um texto qualquer sobre a exposição e cirandava de um lado para o outro, sentava-se, pensava, tomava notas, levantava-se, falava, punha hipóteses, divagava... simplesmente inesquecível.

Adenda: no Público de hoje o novo director-geral da Buchholz afirma que "a livraria não está em situação de pré-falência mas apenas a recuperar de uma fase crítica"; no entanto reconhece que "alguns importantes editores tinham cessado os fornecimentos à livraria devido às dificuldades financeiras da Buchholz, mas já os retomaram". Adiantou ainda que a notícia sobre a eventual pré-falência da livraria se ficou a dever "a um e-mail que em poucas horas se espalhou por centenas de endereços (...) remetido por algum cliente bem intencionado que julgou assim dar o seu melhor para ajudar a livraria".


[Imagem do site da livraria; clique para abrir pop-up com imagem mais abrangente]

Sítios que nos dão música



Página da Cruz Banda, de Cruz (voz e letras), Pedro Lopes (baixo), Tarantini (guitarra solo), Miguel (bateria) e Carapinha (guitarra ritmo). Disponíveis mensagens dos músicos, excertos do seu trabalho "Demo" e, integralmente, a composição "Quem está bem", que pode ouvir aqui:

Quem diria...


«Os seis parceiros sociais assinam, depois de amanhã, um acordo bilateral para dinamizar a contratação colectiva. Inédito, o acordo de princípio foi alcançado, ontem, pela CGTP, UGT e confederações patronais - CIP (Indústria), CAP (Agricultura), CCP (Comércio e Serviços) e CTP (Turismo). Na calha estão já outros acordos bilaterais, concretamente, em matéria de formação profissional.» (in Jornal de Notícias)

Temos de colocar a hipótese de que o país funciona melhor sem Governo.

Solidariedades lusas


Título do Correio da Manhã: «Porca Camila em perigo»

«Famosos tentam salvar animais (...) A porca Camila e os seus oito bacorinhos [adereços "vivos" do programa da TVI 'Quinta das Celebridades'] estão em perigo de vida. (...) O caso já originou uma verdadeira onda de solidariedade, com Mituxa Jardim, irmã de Cinha, a dar a cara e a fazer contactos (...) Os ex-concorrentes da ‘Quinta das Celebridades’ também estão indignados com este caso.»

Catelo Branco, o concorrente que considerou "uma verdadeira odisseia estar tanto tempo sem fazer umas comprinhas”, ainda não se pronunciou. Se tiverem pachorra leiam toda a notícia aqui.

[Gravura de Rafael Bordalo Pinheiro - "A Política: a Grande Porca"]

Indústrias Culturais


Interessante texto no blogue Indústrias Culturais sobre a dinâmica empresarial no sector cultural, onde pequenas empresas, fazendo uso das potencialidades tecnológicas da "nova economia", ameaçam as grandes empresas.

Há alguns anos desenvolveu-se a ideia de que as pequenas empresas seriam a solução para uma série de problemas económicos - movimento simbolizado pelo livro de 1973, de E. F. Schumacher, Small Is Beautiful (incluído pelo London Times Literary Supplement entre os 100 livros mais influentes desde a II Grande Guerra; edição portuguesa na D. Quixote, 1980). Talvez a "nova economia" venha dar um novo fôlego a essa teoria.

[O espírito do Small Is Beautiful tem vindo a ser defendido pela E.F. Schumacher Society]

Facada nas costas IX


Diário de Notícias:
«Cavaco Silva obrigou o PSD a deitar para o lixo o primeiro cartaz de pré-campanha do líder, Pedro Santana Lopes. Os outdoors estavam impressos e o primeiro até já tinha sido colado em Lisboa, na segunda-feira de manhã, na zona de Benfica.»
O cartaz apresentava 5 presidentes do PSD que foram também primeiros-ministros, incluindo Cavaco Silva e Santana Lopes, com a legenda: "Ninguém fez mais por Portugal" - uma tentativa de capitalizar a favor de Santana Lopes o prestígio das outras figuras.

Tudo indica que a famigerada intuição de Santana Lopes o anda a trair - e que não aprendeu nada com a reacção de Cavaco Silva à sua tentativa de colagem durante o último congresso do PSD, que foi seguida do artigo do Professor sobre a "má moeda".

Facada nas costas VIII


Depois de ter sido convidado por Santana Lopes para nº 2 das listas do PSD no Porto, Pôncio Monteiro foi desconvidado; é o próprio Pôncio quem nos esclarece:
«[Santana Lopes] diz que tem as costas cheias de cicatrizes pelas facadas que lhe deram, mas ele não se coibiu de me dar uma facada nas costas"» [in Público]
Fica para se saber qual seria o interesse, para o país, de Pôncio Monteiro como deputado: cargo que ele próprio afirma que não desejava. Tudo indica que a escolha de Pôncio Ponteiro tinha apenas um fim eleitoralista, dada a sua ligação ao Futebol,Clube do Porto, e que seria o "trunfo" face à "jogada" do presidente daquele clube, que ameaçou fazer campanha contra Rui Rio.

O Jornal de Negócios escreve que "Santana Lopes reafirmou que não gosta do trabalho de elaboração das listas, que no partido tem estado a cargo de uma comissão e que só hoje se vai inteirar dos resultados". Mas Pôncio Monteiro garante que Santana Lopes lhe telefonou várias vezes durante o dia e que, perante os seus receios, lhe assegurou: "Ó Pôncio, o presidente sou eu!".


Liberdade económica


"Portugal caiu este ano para o lugar mais baixo alguma vez registado no índice de liberdade económica calculado pela Heritage Foundation desde 1995. A classificação para o presente ano coloca Portugal no 37º lugar num total de 155 países, uma descida acentuada face à 31ª posição registada no ano passado."

Notícia do Jornal de Negócios

A Heritage Foundation é um think-tank norte-americano dedicado a propagar o liberalismo económico.

Produtividade afunda-se


A produtividade dos trabalhadores portugueses voltou a descer em 2003 e 2004, segundo o Diário de Notícias. A excepção aconteceu nos sectores da energia e serviços, que se destacam pelos elevados níveis de produtividade. Na construção, comércio, hotelaria e restauração, a produtividade evoluiu negativamente, enquanto a perda de produtividade nos transportes e comunicações foi invertida no início de 2004.

Gestão municipal


A Câmara de Lisboa vai assumir a dívida (14,7 milhões de euros) que tem para com a Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa (EMEL) até ao final de 2006.

A EMEL apresenta estava em risco de ser dissolvida pela aplicação do disposto no nº 4 do artigo 35º do Código das Sociedades Comerciais, que prevê "a dissolução automática das sociedades que mantenham, por dois exercícios consecutivos, os seus capitais próprios abaixo de metade do valor do capital social".

Notícia do Público

terça-feira, janeiro 04, 2005

Massa crítica



O ... blogo existo chama a atenção para o artigo A Massa Crítica nas Universidades, na edição de hoje do Público, escrito por um estudante de doutoramento da Universidade de Harvard, onde se utiliza repetidamente a expressão "massa crítica" como sinónimo de "sentido crítico".

Trata-se de um erro. Como justamente refere o ... blogo existo, «massa crítica [na física nuclear] é a quantidade mínima de material fissível necessária para que se possa manter por si mesma uma reacção em cadeia de fissões nucleares. Por extensão, a expressão é também utilizada em situações em que só a partir de um patamar mínimo é possível atingir resultados satisfatórios e auto-sustentáveis.»

Curiosamente, existe um movimento popular de ciclistas que, em certos dias e sem licença das autoridades, circulam calmamente pelas ruas das cidades, confrontando e agravando os problemas de trânsito. Trata-se de uma forma de protesto com o objectivo de afirmar o direito ao uso do espaço público pelos cidadãos, já que esse direito é negado pelo fluxo automóvel e pelas politicas de trânsito das cidades. O movimento teve início nos EUA, e creio que em Lisboa também se tem feito (todas as últimas sextas-feiras de cada mês ?)

Pois bem: este movimento também se designa "massa crítica" e a explicação é curiosa; em países como a China, onde a quantidade de biciletas é avassaladora, e em cidades e cruzamentos onde não há semáforos, os ciclistas param, incapazes de fazer frente ao fluxo automóvel; vão-se acumulando ali até ao ponto em que o seu número é tão grande (ou seja, até que se atinge a "massa crítica") que a onda de bicicletas consegue furar o fluxo motorizado.

Uma apresentação do movimento ciclista "massa crítica" pode ser encontrado aqui; links para diversas cidades do mundo encontram-se aqui; o equivalente luso encontra-se aqui.

As Meninas



Sara Afonso, 1928

Blogosfera em expansão


Segundo o Pew Internet & American Life Project, em 2004 a leitura de blogues por parte dos internautas norte-americanos cresceu em 58 por cento. (...) Destaque para os blogues dedicados à política, como são os casos do DailyKos ou do Talking Points Memo , que se destacaram durante a campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas, em que os blogues desempenharam um papel importante. Revela-se ainda que 57 % dos criadores de blogues são homens e que 48 % dos autores têm menos de 30 anos. - via Diário de Notícias.
  • Memo original (pdf): The state of blogging.



  • Best of Brit Pop


    Via Diário de Notícias: a BBC Radio 2 está a promover uma votação para escolher a melhor canção pop britânica dos últimos 25 anos. A escolha é feita a partir da seguinte lista de base (links para a BBC Radio 2):

    Gestão semi-privada


    Jornal de Notícias: «As reclusas da região Norte, até agora dispersas por várias cadeias, vão ficar concentradas no mais moderno estabelecimento prisional do país e o primeiro a ser gerido em parceria com uma Misericórdia.»

    Uma empresa a voar


    «Foi completamente inédito ver um ministro [Paulo Portas] anunciar em directo nos jornais televisivos a venda de uma empresa pública [OGMA]. Com este Governo tudo é possível, dir-me-ão.»

    Mas...

    «Com que garantias ficou o Estado português, que contrapartidas foram garantidas à Ogma e à restante indústria de defesa nacional, qual o papel da TAP no processo, que projecto para as Ogma defende o consórcio Embraer / EADS, eminentemente civil, onde fica a componente militar da Ogma, quantos postos de trabalho são salvaguardados, que internacionalização é garantida?»

    Alexandra Machado
    Jornal de Negócios

    A valsa dos impostos...


    Diário de Notícias: "Manuel Pinho diz que PS não planeia aumento do IVA. José Sócrates, por seu lado, lembra que não há margem para baixar os impostos."

    Diário de Notícias: Miguel Frasquilho promete que PSD irá baixar impostos: «qualquer governo do PSD baixará a carga fiscal, uma vez que o contrário é errado».

    Jornal de Negócios: "A maioria dos economistas contactados pelo Jornal de Negócios mostrou-se contrária à possibilidade de novas mexidas de impostos em Portugal no próximo ano."

    Jornal de Notícias: "Os economistas dividem-se quanto a uma eventual subida da taxa máxima do IVA para 20%, este ano. Por um lado, há quem defenda que os cerca de 250 milhões de euros decorrentes do aumento do imposto em 1% seriam uma boa forma de contornar o recurso sistemático a receitas extraordinárias."

    É hoje!... É hoje!...


    Segundo o Diário de Notícias a ministra da Ciência, Inovação e Ensino Superior vai apresentar hoje o Programa Operacional Ciência e Inovação 2010 que prevê, para o triénio 2004/2006, a criação de cerca de cinco mil bolsas de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento. O programa tem como objectivos primordiais:
    «a formação avançada, a mobilidade, a internacionalização, as novas áreas do saber, a transferência do conhecimento e a cultura científica», valorizando «as sinergias entre Ciência e Ensino Superior, promovendo a aproximação entre conhecimento científico e inovação empresarial», e ainda um valor muito significativo para construção de infraestruturas: novas faculdades de medicina, quer «cantinas e residências."
    Será por volta das 15:30 no Fórum Tecnológico da Lispolis, na Estrada do Paço do Lumiar. No portal do governo não consta nada.

    Previsões de economistas...


    No Diário Económico
    «Os economistas ouvidos pelo DE estão muito pessimistas sobre a possibilidade os partidos chegarem a um entendimento sobre o problema das finanças públicas depois das Legislativas de 20 de Fevereiro, concretizando o pacto de regime defendido pelo Presidente da República»
    Não quer dizer nada, porque é próprio dos economistas serem pessimistas: vem com o diploma. Tal como enganarem-se nas previsões que fazem. Vejam só esta previsão feita por J. K. Galbraith (divulgada em 1994 pela Folha de S. Paulo):
    «Os países da Europa Central, a ex-URSS e a China devem avançar rumo a uma estrutura pragmática do tipo da Europa Ocidental, dos EUA e do Pacífico. É uma passagem perigosa. Que esta grande transição ocupará o centro da atenção económica no próximo século é, talvez, a previsão que se pode fazer agora com segurança."»

    Maravilhas da evolução


    Via FísicosLX cheguei a esta notícia do Público:
    «Investigadores da Universidade de Chicago acreditam que o homem ocupa uma posição privilegiada na árvore da vida, sustentada pela rápida e invulgar evolução dos genes que regulam o desenvolvimento e funcionamento do cérebro humano, em relação aos primatas e outros mamíferos. »
    Não acham fantástico ? Eu fiquei deliciado, mas a minha alegria foi logo anulada por esta "descoberta":
    «Alguns cientistas acreditam que o desenvolvimento do cérebro humano foi regido por processos semelhantes aos que conduziram, por exemplo, ao desenvolvimento das hastes dos veados.»
    E as mulheres que não se estejam a rir porque isto também se refere ao seus cérebros (não sei se conhecem esta piada do Engels: segundo o materialismo dialético, o Homem teria "aprisionado" a Mulher em casa para garantir que a sua propriedade seria passada a um herdeiro legítimo - e não ao filho de um outro qualquer; vencida, a Mulher coroou o vencedor com um par de...; vem na "Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado".)

    segunda-feira, janeiro 03, 2005

    Comércio com bandidos


    Trading width Bandits (pdf), um texto de história económica de dois docentes da George Mason University:
    «É possível fazer negócios com bandidos? Na ausência de governo, a força superior de alguns agentes torna mais brato para eles roubar violentamente o que desejam a agentes mais fracos, do que comerciar para o obter. Esse foi o caso de intermediários que interagiram com produtores da África Centro Oriental na era pré-colonial. Perante esta ameaça os produtores recorreram a dois mecanismos para tornar possíveis as trocas com os intermediários. Por um lado usaram o crédito para alterar a estrutura de custo/benefício da opção pela violência em lugar do comércio. Por outro lado, os produtores exigiram tributos aos viajantes-comerciantes como prémio de risco.»
    Uma História (económica) de aventuras onde os portugueses fazem de bandidos. Sabem, aquelas "ofertas" que os portugueses levavam para os primeiros contactos com os nativos? Passaram a ser o "prémio de risco" exigido pelos produtores nativos. Via História Econômica.

    Penhoras automáticas ?


    No Jumento esclarece-se a verdadeira natureza da notícia do Público sobre a iminência de penhoras de contas bancárias pelo Fisco. Mau jornalismo do Público - a fazer lembrar os títulos sensacionalistas dos jornais de escândalos.

    Filosofia


    O Ao Mirante, Nelson aventurou-se a traduzir "The Philosophers' Drinking Song", de Eric Idle/Monty Python. Pois aqui vai a minha [2ª] versão:
    Emmanuel Kant era um bêbado e tanto
    incapaz de manter o rumo.
    Heidegger então preferia o garrafão
    e destilava, destilava, para auto-consumo.
    As bebedeiras de Hume provocavam o ciúme
    de Schopenhauer e de Schlegel,
    Wittgenstein, coitadinho, era uma esponja de vinho
    tão encharcada como o próprio Hegel.

    Nietzsche beberrão, caneca na mão, desvendava o instinto
    e Sócrates, então, só bebia do tinto.

    Thomas Hobbes ficava vítreo com o livre arbítrio
    de Stuart Mill a beber zurrapa.
    E Platão da caverna fazia uma taberna,
    onde as sombras curavam a ressaca.
    Aristóteles do barril bebia por um funil
    e o pifão de Espinosa, só visto!
    Já Descartes duvidava de tudo o que encontrava
    e pensava: "bebo, logo, existo!"

    Ai, Sócrates, Sócrates, a falta que nos fazes,
    de copo na mão, corrompendo os rapazes!...



    Com tal métrica só mesmo o Jorge Palma é que a poderia cantar...; letra original e acordes aqui.

    Iliteracia sontaguiana


    O Causa Liberal transcreve um texto de Srdja Trifkovic onde se afirma que:
    «A Srª Sontag deu uma sólida contribuição para a degradação dos padrões culturais ao longo das últimas quatro décadas. Mas, ao contrário de alguns propagadores de ideias perniciosas, tais como Voltaire, que podia apresentar-se numa prosa eloquente, Sontag era incapaz de escrever uma frase decente»
    Será que podemos inferir daqui que o pessoal da "causa liberal" não é sequer capaz de ler os textos de Susan Sontag? A ser assim, percebe-se a animosidade - e os comentários subsequentes.

    Nanotecnologia


    «A nanotecnologia proporcionará à humanidade maior controlo sobre a matéria a escalas diminutas. (...) podendo ser encontradas novas, excitantes e diferentes propriedades. (...) Neste mundo invisível, as pequenas partículas de ouro fundem a temperaturas algumas centenas de graus mais abaixo do que para uma pepita, e o cobre, que é normalmente um bom condutor de electricidade, pode tornar-se resistente em camadas minúsculas na presença de um campo magnético. Os electrões podem saltar de um ponto para outro, e as moléculas podem atrair-se mutuamente a distâncias moderadas (...)

    Mas descobrir novas propriedades à nano-escala é apenas o primeiro passo. O passo seguinte será o de fazer uso deste conhecimento. De grande utilidade será a capacidade para fazer coisas com precisão atómica, a qual permitirá aos cientistas produzir materiais com novas (ou melhoradas) propriedades ópticas, magnéticas, termais ou eléctricas.»

    Artigo no Economist.com

    Esclerose institucional


    «O problema da sociedade portuguesa e de algumas sociedades europeias é o da esclerose institucional. Sociedades estáveis tendem a desenvolver grupos de interesse especial focalizados na acção redistributiva para si próprios, cujo efeito é o de entravarem a inovação tecnológica e o crescimento económico. (...) É esta esclerose institucional, associada a um neo-corporativismo social, que explica a rigidez e ineficiência da despesa pública.»

    Paulo Trio Pereira no Público
    reportando-se ao livro de Mancur Olson
    "The Rise and Decline of Nations

    Notícias online


    Jornal de Negócios: "Os portugueses que consultaram sites de jornais ou de notícias nacionais em Novembro, a partir de casa, ascenderam a 589 mil, ou seja 47,3% dos internautas com mais de quatro anos, o que representa uma queda de utilizadores únicos de 5,8%, de acordo com a Marktest. "
    Sites mais visitados (em Novembro):
  • «Público» - 201 mil
  • «Record» - 168 mil
  • «Bola» - 164 mil
    Maior subida: «Diário de Notícias» ( + 11%)
    Maiores quedas: negócios.pt ( -20,5%) e «Correio da Manhã» (- 20,4%)

  • Modernização administrativa ?


    Diário Económico:

    «A avaliação dos funcionários públicos é a questão mais premente que se colocará logo nos primeiros dias de Janeiro aos sindicatos e ao próprio Governo. A avaliação do desempenho com base em objectivos não avançou em todos os serviços, pelo que uma parte dos funcionários terão de ser avaliados mediante um método diferente, que ainda não foi discutido com os sindicatos do sector.»

    O país em avaliação


    O Diário Económico vai fazer a monitorização permanente do Estado do País com um painel de 14 personalidades públicas portuguesas: "cada um dos convidados é responsável pela identificação dos seus indicadores que, uma vez definidos, produzem resultados objectivos sobre cada área. Com base nesses “factos”, cada convidado escreve um texto de avaliação que incide, justamente, nos resultados produzidos. Não são soluções que se pedem – um jornal não é o quórum adequado para isso – mas reflexões sobre a realidade de quem a conhece nas suas dificuldades. A equipa, de peso, é presidida por Luís Valadares Tavares, actual responsável pelo Instituto Nacional de Administração, que terá a seu cargo a gestão do olhar semestral à situação portuguesa."

    Previsão para o Iraque


    Loureiro dos Santos no Público:

    «Tendo em atenção a escassez de efectivos no terreno, com o moral a degradar-se, a incapacidade dos militares iraquianos que não dá mostras de se alterar, os objectivos do xiismo sob liderança iraniana, as repercussões políticas na América e o próprio debate que está em curso nas fileiras realistas republicanas, não admiraria que, ainda em 2005, os EUA começassem a reavaliar as vantagens da presença no Iraque. O que constituiria um rude golpe para o Ocidente e uma retumbante vitória do terrorismo internacional, que a invasão, pretensamente, pretendia combater.»

    O peso do Estado


    Mário Pinto, no Público, sobre "o peso do Estado":

    « (...) os partidos que se dizem da esquerda, e são praticamente metade do peso partidário do País, são a favor do «peso do Estado» e contra a sua redução beneficiando a sociedade civil - na qual, cultural e politicamente, não confiam.»
    (...)
    «Quem gasta, relativamente mais e pior, é a Administração social - sobretudo a educação pública e o sistema nacional de saúde - e também a administração autárquica - sendo que esta última pode gastar em quase tudo, e frequentemente gasta no que é menos necessário e enche mais o olho eleitoral.»
    (...)
    «Todos sabemos que gastamos muito mais do que a qualidade de serviço público que temos, quer na educação pública quer na saúde pública, por exemplo. Vem em todos os relatórios internacionais.»
    (...)
    «Alguém vai ter de emagrecer: ou o Estado ou a sociedade civil. Os políticos fazedores de programas eleitorais que pensem nisso; e não só em ganhar votos através de demagogia eleitoral.»

    domingo, janeiro 02, 2005

    O álibi da "depressão nacional"


    O Diário de Notícias organizou um pequeno dossiê sobre a "crise" e a "depressão" nacional: o grande tema dos últimos tempos. Mas um grande pequeno texto de Eduardo Lourenço desmonta o "álibi":
    «Houve momentos em que a litania da "depressão" nacional se pôde justificar. O nosso atraso era visível a olho nu. Assim éramos ou estávamos apenas há meio século. Esse atraso não foi inteiramebnte recuperado, como o imaginamos, naquilo que interessa ao futuro duma nação moderna europeia, mas sabemos agora melhor medir esse atraso e como proceder para o atenuar. Não é um esquizofrénico recurso ao álibi da "depressão" que nos curará dele.»
    Ou seja:
    «Se queremos estar sempre a escrever Os Lusíadas, para ter a sensação de imitar os homens dessa época, e nem sequer o ler, devemos pagar o preço: confrontarmo-nos com os desafios da realidade, tentando estar à sua altura.»

    sábado, janeiro 01, 2005

    Artie Shaw


    O clarinetista norte-americano Artie Shaw, figura lendária do Jazz, morreu ontem na sua casa em Los Angeles, com 94 anos. Entre os seus sucessos destacam-se "Begin the Beguine" (orquestração de um tema de Cole Porter), "Lady Be Good", "Indian Love Call" e "Frenesi". Shaw formou e dirigiu várias Big Bands, mas também produziu trabalhos de qualidade em pequenos agrupamentos de jazz.

    Sendo perfeccionista por natureza, pôs de lado o clarinete em 1954 e nunca mais voltou a tocá-lo, com o argumento de que já não conseguia atingir o nível artístico que desejava. Ele próprio admite que não conseguia tirar prazer do papel de "estrela" e que a luta pelo perfeccionismo estava a dar cabo dele: "Fazia-me ficar muito desconfortável. Eu desempenhava um papel com o nome de "Artie Shaw", as pessoas pediam-me autógrafos e então resolvi sair desse papel. Saí no meu ponto alto. Desisti". [Correio da Manhã]

    Nesta página do Artist Direct pode aceder-se a excertos de músicas de Artie Shaw.

    Visões simplistas


    No Austríaco Lucas Mendes escreveu um post contra o salário mínimo onde se recupera uma velha teoria:
    «O preço dos salários, na verdade, está relacionado com a produtividade do trabalho e esta com a disponibilidade de capital que por sua vez, depende da quantidade de poupança disponível.»
    Muitas confusões numa frase tão pequena. A relação entre produtividade e taxa salarial ocorre, quando muito, a um nível sectorial e não individual; a diferenciação de salários individuais não decorre directamente da produtividade de cada posto de trabalho - é por isso que trabalhadores com o mesmo nível de produtividade auferem salários diferentes. A relação poupança-capital-produtividade é de um simplismo gritante ignorando, por exemplo, a tecnologia.

    O estabelecimento de salários mínimos tem a mesma natureza do estabelecimento de horários de trabalho máximos e idades mínimas para entrada no mercado de trabalho. Os que defendem o mercado como autoridade única e suprema deviam ser coerentes e exigir o desmantelamento de todo o sistema de regulação social, o qual tem uma dimensão cultural que ultrapassa a mera análise economicista. Não há de resto economia avançada que não tenha muitos "salários mínimos" estabelecidos no âmbito das negociações laborais.

    Claro que se pode discutir se determinada medida de política social é mais ou menos eficiente, mas condená-la na base de um "mandamento" económico é apenas mais uma forma de fanatismo. Tal como chamar "marxismo" a tudo o que não seja "austríaco". Tal como afirmar que «todos os países subdesenvolvidos têm salários baixos justamente porque o aporte de capital é baixo, ao passo que a mão-de-obra é abundante.» Por isso é que Richard Posner não apoia a ajuda pública ao combate à Sida: porque não vê «benefícios duma população acrescida nos países pobres».

    Votos para 2005


    Mª Manuel Leitão Marques, no Causa Nossa, faz um belo apelo para 2005:
    «Que este seja o ano da verdade financeira. Que nas eleições não se prometa o impossível e se apontem as dificuldades (numa espécie de "anti-campanha" pensada para cidadãos que não são estúpidos!); que se expliquem os sacrifícios incontornáveis, mas se mostrem também os seus objectivos, de tal modo que se perceba a coerência entre uns e outros; que as reformas e mudanças indispensáveis sejam pensadas com competência e rigor, para as pessoas e com as pessoas, sem dogmas nem preconceitos que nos amarrem a modelos já ultrapassados»
    Soa a utopia mas, supondo que um dia será assim, porque não começar já? E que a blogosfera também contribua isso!

    O Saúde SA também faz votos para «uma nova política, competente e sensata, sem clientelismos, defensora dos mais fracos e desprotegidos e dos verdadeiros interesses de Portugal», mas acrescenta logo um tal rol de desgraças de 2004 que nos faz duvidar.

    sexta-feira, dezembro 31, 2004

    Votos de um bom ano de 2005!

    Milagres não há. Haverá pacto?...


    Acabei de ouvir na Antena 2 excertos do discurso que o Presidente da República nos vai fazer amanhã. Espero que ele também tenha ouvido para saber o que vai dizer. Entretanto, na TSF, pode aceder-se ao seguinte excerto audio (sublinhados do "pura economia").
    «Em economia e finanças não há milagres. Apesar dos esforços realizados e dos custos sofridos nos ultimos anos, nomeadamente na administração pública, a consolidação orçamental está muito longe de estar concluída e, como é praticamente reconhecido por todas as forças políticas e sociais, tem de continuar mas de forma estratégica, equilibrada e justa para poder ser aceite por todos.

    «Nos últimos anos empenhei-me em promover algum entendimento quanto a estes grandes desafios entre as principais forças políticas. Tal entendimento, como é óbvio, não visa esbater as suas saudáveis diferenças programáticas nem substituir o combate político democrático entre elas.

    «Pretende, nesta matéria, melhorar regras e metodologias de gestão orçamental; despolitizar questões estritamente técnicas; aumentar a transparência das contas públicas e acordar alguns princípios fundamentais em domínios como por exemplo os da evolução da dívida pública, do financiamento das autarquias locais e das regiões autónomas, da gestão do sector da saúde ou da sustentabilidade da Segurança Social. Em tudo isto deve haver uma perspectiva de médio e longo prazos que transcende a duração normal da legislatura.

    «Após as eleições legislativas e independentemente dos seus resultados, continuo disponível para ajudar à obtenção do mencionado entendimento, caso haja e se manifeste claramente uma coincidência de vontades nesse sentido claramente por parte dos principais partidos políticos.»
    Confirma-se assim a proposta reforçada de um pacto de regime - a qual irá certamente dominar a campanha eleitoral. Mais uma vez Sampaio toma a iniciativa política. A dúvida que agora se levanta é: sendo a questão orçamental o tema central do debate eleitoral, o "grande divisor de fronteiras", poderão os partidos prescindir dessa arma? E, sendo assim, poderá criar-se algum consenso em plena arena eleitoral? Acho difícil, mas vamos aguardar para ver.

    Mas atenção: esta proposta só vai aparecer amanhã, portanto, vejam lá, não estraguem a surpresa!

    "Pinball Wizard"


    Notícia da Lusa: o músico Roger Daltrey, vocalista do grupo The Who, foi nomeado pela Rainha Isabel II comandante da Ordem do Império Britânico pela sua contribuição para "a música, a indústria do espectáculo e as causas humanitárias". O músico conseguiu arrecadar três milhões de euros com os seus concertos anuais a favor da luta contra o cancro no Albert Hall, em Londres.

    Formados em 1964, os Who foram uma da principais bandas do pop/rock britânico e a voz de Daltrey tornou-se conhecida em sucessos como "Substitute", "My Generation", "Won't Get Fooled Again" e "Pinball Wizard".

    Vídeo de My Generation.

    Prepara-te, Sócrates!


    Francisco Van Zeller, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa, em entrevista ao Diário Económico afirma que Sócrates não está preparado para ser primeiro-ministro:
    «Ao engenheiro Sócrates faltam um ou dois anos para estar preparado para o que aí vem».
    Bom, pelo menos ainda admite que não é um caso perdido. Já quanto a Santana Lopes, critica a sua liderança "errática, descoordenada e com muitos avanços e recuos em áreas muito visíveis".

    Se não é, parece.


    Glória Rebelo, no Público, escreve sobre a eliminação de barreiras alfandegárias decidida pela UE e alerta para a subsequente ameaça da China e também da Índia, a certos sectores industriais portugueses. O tom é marcadamente proteccionista:
    «Para a indústria portuguesa - com uma larga tradição de produção têxtil que tem vindo a sofrer enormes perdas de competitividade e mercado - a eliminação destas barreiras anunciada pela CE é, talvez, uma ameaça fatal a um sector que emprega mais de 150 mil pessoas e representa cerca de 16 por cento das exportações nacionais.»
    Glória Rebelo afirma que:
    «Não se trata de um "reacender do nacionalismo económico", mas sim de garantir que alguns sectores da produção industrial ou agrícola mantenham a sua competitividade económica, preservando, simultaneamente, no seu território o mercado de trabalho.»
    Bem, se não se trata de nacionalismo económico, pelo menos parece.

    Entretanto a «Agência Lusa noticia que o coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco defendeu hoje a necessidade de "medidas firmes de protecção do sector têxtil e do vestuário, face à liberalização do comércio mundial" a 1 de Janeiro.»

    Ai é só para 1 de Janeiro? Então ainda vamos muito a tempo!...

    Ricos e pobres


    O Center for Global Development divulgou um estudo sobre o empenhamento de 21 países desenvolvidos na ajuda ao desenvolvimento. A Holanda e a Dinamarca são os países com melhor desempenho neste domínio. Portugal (que em 2003 ficara em 3º lugar) situa-se em 14º lugar, juntamente com a Itália:
    1. Holanda
    1. Dinamarca
    3. Suécia
    4. Austrália
    4. Reino Unido
    6. Canadá
    7. EUA
     7. Alemanha
    7. Noruega
    7. França
    11. Finlândia
    12. Áustria
    13. Bélgica
    14. Portugal
     14. Itália
    16. Nova Zelândia
    17. Grécia
    18. Irlanda
    18. Suiça
    20. Espanha
    21. Japão

    Este índice global foi obtido a partir de índices sectoriais como a ajuda directa e as políticas comerciais (nível de barreiras colocadas aos produtos importados de países pobres) que revelam aspectos importantes da ajuda. Os EUA, por exemplo, ficam em primeiro lugar na política comercial (especialmente devido ao baixo nível das barreiras à importação de produtos agrícolas) mas apenas em 19º lugar na ajuda directa - resultado coerente com as suas políticas neo-liberais.

    Outros indicadores apurados são o investimento (dos países ricos nos países pobres), tecnologia (idem), migração (idem), ambiente (nível de poluição nos países ricos), segurança (missões humanitárias e de paz). O posicionamento de Portugal nos diversos rankings é o seguinte:
  • Política comercial - 7º
  • Investimento - 7º
  • Segurança - 10º
  • Ambiente - 11º
  • Tecnologia - 15º
  • Migração - 16º
  • Ajuda directa - 17º




  • Síntese - clique
         

    Leia ainda: artigo no Foreign Policy e referência no Diário de Notícias. Obrigado ao Nelson pela dica. Uma análise mais técnica pode ser obtida neste artigo: An Index of Donor Perfomance.

    quinta-feira, dezembro 30, 2004

    Faíscas na blogosfera


    O blogue Power Line, dos advogados John H. Hinderaker, Scott W. Johnson e Paul Mirengoff, foi considerado o "blogue do ano" 2004 pelo Time Magazine.

    Nick Coleman, colunista do Minneapolis Star-Tribune, escreveu um artigo (acesso mediante registo gratuito) acusando o Power Line de fazer parte de uma cadeia de blogues de direita dedicados a atacar a imprensa mainstream ao serviço de certos "poderes":
    «These guys pretend to be family watchdogs but they are Rottweilers in sheep's clothing. They attack the Mainstream Media for not being fair while pursuing a right-wing agenda cooked up in conservative think tanks funded by millionaire power brokers.»
    E com isso desencadeou uma forte reacção da blogosfera. Polémica a merecer acompanhamento.

    No artigo do Times Magazine dedicado ao Power Line é salientado um elaborado post de 9.Set.2004, The Sixty-First Minute, duvidando da autenticidade de uns documentos potencialmente comprometedores de Bush, relativamente ao período em que serviu na National Guard.

    Princípios do consumidor responsável

  • Precaução;
  • Prevenção;
  • Elevado nível de protecção;
  • Uso das melhores tecnologias disponíveis;
  • Utilizador/Poluidor - Pagador;
  • Subsidariedade;
  • Cooperação internacional;
  • Equidade inter e intra-regional;
  • Solidariedade e coesão nacional;
  • Transparência.
  • Carlos Cupeto in Semanário Económico

    "Turquia subtrai seis zeros à lira turca"


    Segundo o Semanário Económico. E nós, por cá, não ganharíamos em fazer o mesmo à elite política ? A dificuldade só estaria na escolha...

    Calendário móvel


    Notícia do Correio da Manhã: o ministro das Finanças determinou que as receitas cobradas no dia 3 de Janeiro sejam contabilizadas como receitas de 2004. Bagão Felix justifica o despacho em virtude da tolerância de ponto concedida no dia 31 de Dezembro e nega qualquer violação do Princípio da Anualidade do Orçamento. Fontes contactadas pelo CM consideram que esta "operação escritural" é duvidosa.

    O que vale é que há sempre um culpado...


    Em 2004 o Governo anunciou «o maior investimento de sempre para a ciência em Portugal». No entanto, pouco ou nada chegou às instituições de investigação e aos investigadores. A ministra Graça Carvalho explicou que o problema residia em irregularidades do seu antecessor na aplicação do Programa Operacional para a Ciência Tecnologia e Inovação POCTI. (Notícia do DN)

    Hank Garland (1930-2004)


    Faleceu, com 74 anos, o lendário guitarrista Hank Garland, que abordou diversos estilos: country, rock e jazz, tendo tocado com Elvis Presley, Everly Brothers, Roy Orbison, Patsy Cline, Charlie Parker e muitos outros.

    Garland esteve na linha da frente do rock 'n' roll; teve uma carreira de prestígio como virtuoso do estilo country e foi um dos pioneiros da guitarra eléctrica, inspirando músicos de jazz como George Benson e outros.

    Ouça algumas linhas melódicas (riffs) criadas por Garland:

    (4 riffs separados por intervalos; notação musical em: Riot Chous Riffs)


    Notícias no Publico e no Entertainment News.

    Com ou sem factura ?


    Segundo notícia do Público, o sector informal representa 22,1 por cento do PIB português. Este número é referido num artigo de António Antunes (da Nova e do Banco de Portugal) e Tiago Cavalcanti (da Universidade de Pernambuco, Brasil), divulgado ontem pelo Banco de Portugal. O estudo está disponível (em pdf) aqui.

    Pergunta a um aluno de Economia: qual será a resposta "racional" a dar quando lhe perguntam: "Com ou sem factura?" (sabendo-se que, no segundo caso o bem ou serviço será mais barato por permitir ao fornecedor a fuga ao pagamento de impostos) ?

    Blogues e ensino da Economia


    O MariettaEcon apresenta como lema: "observações, análises e protestos dos estudantes das aulas de Economia do Dr. Delemeester no Marietta College". No post inicial, dirigido aos alunos, diz-se:

    «A blogosfera representa uma oportunidade para se expressarem de modo a que todos possam conhecer o vosso pensamento - e ter a oportunidade de comentar os vossos pontos de vista. Durante o semestre lectivo deverão fazer um post original de interesse para os outros estudantes, e dois comentários a um post de outro estudante, de modo a obter classificação "C". Mais posts e comentários contribuirão para melhorar a nota. Para a classificação dos posts e comentários será levada em conta a sua relevância para as aulas, a gramática, sintaxe e estrutura das frases. Cada post original deve inculir um weblink para a vossa fonte de inspiração ou qualquer website que permita ilustrar o vosso argumento.»

    Já o Teaching and Learning Economics With Technology, de Steven Meyers, tem como objectivo "incluir os meus pensamentos e os de outros acerca do ensino e aprendizagem com apoio da tecnologia. Embora o título do blogue acentue a Economia e eu seja um economista, muito daquilo que penso escrever aqui terá aplicação em diversas disciplinas".

    quarta-feira, dezembro 29, 2004

    Susan Sontag 1933-2004


    Com a sua famosa madeixa de cabelo branco (depois diluída numa farta cabeleira uniformemente grisalha), Susan Sontag foi, durante várias décadas, o símbolo - quase por antonomásia - do intelectual de esquerda americano. Nascida em Nova Iorque, Sontag conseguiu subir a pulso no exigente meio académico dos EUA. Depois de fazer o liceu em Los Angeles, formou-se em Chicago e prosseguiu estudos de filosofia, literatura e teologia em Harvard. Embora tenha experimentado a narrativa (em português pode ler-se O Amante do Vulcão e Na América), foi no ensaio que esta autora mais se destacou, nomeadamente com as obras Contra a Interpretação, Ensaios sobre a Fotografia e A Doença como Metáfora. Empenhada defensora dos Direitos Humanos, Sontag viveu largos períodos em Sarajevo (1993-96), tendo ficado célebre a sua encenação, durante o cerco, da peça À Espera de Godot, de Beckett. Foi-lhe atribuído o Prémio Príncipe de Astúrias para as Letras.

    José Mário Silva, DN

    «Não acho que seja bom para os EUA ou para o mundo que o presidente dos EUA seja o presidente do planeta. Mas não sou uma professora que pode ser demitida. Não trabalho na indústria do entretenimento cujos filmes ou canções podem ser boicotadas. Há muita retaliação. Sou uma pessoa autónoma, não tenho um emprego que possa perder. Mas as pessoas normais têm empregos. É difícil para elas serem valentes quando podem ser demitidas. Para Noam Chomsky ou para mim, sim, podemos dizer o que quisermos. O que é importante é construir um movimento político, não ter apenas vozes isoladas. Bush será reeleito por uma maioria avassaladora. Eu deveria corrigir-me: ele não será reeleito, será eleito. Da outra vez,ele não foi.»

    Susan Sontag em entrevista ao Globo, 1.Jun.2003
    Página sobre S. Sontag

    Finalmente uma boa notícia


    «Colónias de flamingos invadiram os braços do Tejo que banham a Moita e Montijo, sendo também visíveis junto de outras localidades. (...) Há uns anos seria impensável ver os flamingos no esteiro da Moita ou até nos arrozais de Benavente e no Trancão, mas a situação actual resulta especialmente de uma maior protecção em relação à caça furtiva que era feita nas zonas húmidas, pelo que, em vez de se agruparem apenas entre o Samouco e a Ponte da Erva, como acontecia antes, os animais têm mais tranquilidade »

    in DN

    O regresso do Professor Martelo


    «Acabaram-se as dúvidas. O regresso do Professor Martelo ao pequeno ecrã é no próximo dia 31, sexta--feira, no Contra-Informação Especial fim de ano. Na RTP1, a seguir ao Telejornal, vai estar em estúdio com Tristeza Guilherme, numa dupla inédita em televisão. Juntos, ao longo de 25 minutos, vão recordar os melhores sketches do programa e todo um ano do Contra o barco do aborto, a sucessão de Cassete Carvalhas («fenómeno tão raro como o avistamento de um cometa»), a queda do governo de Flopes e Tortas, a fuga de Furão Barroso, o Euro 2004.»

    in DN

    Portugueses eléctricos


    Notícia do DN: «Em apenas um ano Portugal mais que duplicou as suas importações de electricidade espanhola. E tudo porque os consumos estão a crescer a um ritmo que a produção não tem capacidade para responder.»

    Não percebo. A produção estagna e o consumo de energia dispara ? Alguém tem de explicar isto...

    Chorona


    No DN:
    "Em carta dirigida aos militantes do PSD o líder do partido pede-lhes «coragem» e «determinação» na disputa das legislativas antecipadas. (...) «O PPD/PSD tem no dia 20 de Fevereiro de 2005 talvez o mais mobilizador desafio eleitoral da nossa vida democrática», sublinha Santana.
    Já aqui o escrevi: o homem tem a mania que é herói. E ao mesmo tempo, um injustiçado:
    Santana afirma que desde a tomada de posse do seu Governo se assistiu a «inacreditável crispação política» por parte de alguns órgãos de comunicação social . Diz ainda que «interesses corporativos» contribuiram para que a instabilidade governativa fosse, constante e injustamente, posta em causa. «O trabalho reformista e modernizador para o qual estávamos mandatados foi permanentemente dificultado, abruptamente interrompido e colocado a julgamento antes do tempo»
    Não sei porquê, deu-me vontade de ouvir como música de fundo esta belíssima
    Chorona, de António Calvário:

    Saías do templo um dia, Chorona,
    Quando eu te vi ao passar.
    Julguei que eras uma Santa, Chorona,
    Que desceu do seu altar.

    [crédito: Música Anos 60]

    Feijoada




    «O nosso Parlamento acaba por ser uma mega-feijoada. Junta-se tudo nele para fazer um prato delicioso, e quando alguns saem para o Governo, só fica o odor do feijão.»

    Fernando Sobral
    in Jornal de Negócios

    Diário Económico confirma


    O governo apressou-se a desmentir a notícia do Diário Económico, sobre as orientações do Ministério da Segurança Social para adiamento do pagamento dos subsídios de doença e de desemprego para Janeiro. A certa altura um ministro disse mais ou menos isto: não há alteração de datas mas, se há, não tem nada a ver com o défice !

    Hoje o DE reafirma a sua actuação:
    «Os documentos que sustentam a notícia de ontem estavam aqui, na redacção, há cinco dias. Isso mesmo, uma semana, e só foram libertados depois de asseguradas todas as confirmações. Podia, por isso mesmo, esquecer-se o assunto? Não podia.»
    Não podia nem devia.
    «Podemos falhar, todos podem, mas não foi isso que aconteceu ontem, como aliás se prova com o ‘follow-up’ que hoje se publica. Para que conste.»

    Parabéns ao Diário de Notícias


    Parabéns ao Diário de Notícias pelos seus 140 anos. Começou por custar 10 réis, numa altura em que os outros jornais custavam entre 30 e 60 réis. Aqui consultamo-lo de borla. Longa vida!

    Aproximadamente isso


    Numa entrevista ao Público, Álvaro Barreto revela ter feito uma proposta à ENI para adiamento da opção de controlo da Galp Energia, a partir de Fevereiro (ver abaixo O negócio do gás). O diálogo com a entrevistadora (Lurdes Ferreira) revela alguma insegurança, mal disfarçada na linguagem "politicamente correcta":
    P - Que "conversa construtiva" teve com o presidente executivo da ENI, Vittorio Mincato, na quinta-feira passada?

    R - Construtiva. (...) Estamos a conversar com a ENI e com outras entidades envolvidas no processo um adiamento para datas que permitam ao novo Governo fazer um projecto de rearranjo que considerar o melhor para o país. Entendemos que deveríamos deixar tudo aberto para o Governo que vier.

    P - A ENI aceitou o adiamento da opção de compra ?

    R - Não lhe sei dizer. Conversámos sobre isso. Fizemos-lhes uma proposta escrita e eles ficaram de estudar o assunto e voltar a falar connosco.

    P - E o adiamento proposto é até quando?

    R - Se queremos que o novo Governo pense com calma na melhor solução, com certeza que é para um período para além de Junho.

    P - Pode ir até ao fim do ano?

    R - Aproximadamente isso. Isto permite ao novo Governo fazer o rearranjo que entender que deve fazer.

    P - Portanto, não deixa soluções ?

    R -Tinhamos três soluções alternativas. (...)

    terça-feira, dezembro 28, 2004

    Santanismo (uma definição)


    Santanismo - s. m., comportamento errático de membros de um governo ou de uma organização política, caracterizado pela emissão de informações contraditórias, seja quanto a decisões já tomadas, seja quanto a decisões a tomar no futuro; essas contradições podem ocorrer entre declarações de diferentes membros, ou entre as declarações do mesmo membro proferidas em curtos intervalos de tempo e sem solução de continuidade (ou seja, proferidas como se não existisse qualquer contradição);
  • Ausência de coordenação política num governo;
  • Ausência de estratégia política num governo;
  • O mesmo que santana-lopismo.
  • O negócio do gás


    A GrandeLoja do Queijo Limiano revela que a empresa ENI Portugal Investments pode passar ser detentora, se assim o desejar e de forma automática, de 45,34 % do capital social da empresa Galp Energia - uma consequência do chumbo, pela Comissão Europeia, do processo de integração do gás:
    «Fica demonstrado por um lado, o amadorismo profissional ainda que pago a peso de ouro - a consultadoria da operação foi principescamente paga -, e por outro a fina ironia, de o presidente da comissão que chumbou a operação ser a mesma pessoa que à altura era primeiro-ministro do governo que propos a operação.»

    «Nas três operações de reorganização empresarial da Galp Energia, as mais-valias conseguidas pelo grupo Petrocontrol e ENI ascende a 900 milhões de Euros. Todas ficaram isentas por decreto ministerial de imposto de mais-valias.»
    Vale muito a pena ler todo o artigo.


    Gráfico disponível na página da Energy Information Administration

    Acreditam nisto?


    No seu blog "dialético", Gary Becker sugeriu que vale a pena o apoio internacional à luta contra a SIDA por parte de grupos filantrópicos e outros. Richard Posner discorda, porque:
    «Em primeiro lugar, não creio que a ajuda internacional constitua um bom uso de dinheiros públicos ou privados. Todos os problemas que a ajuda internacional procura aliviar podem ser resolvidos pelos recipientes da ajuda se adoptarem políticas sensíveis. Se não adoptarem essas políticas, então a ajuda internacional será provavelmente embolsada pela elite reinante, reforçando o seu poder de controlo, ou então simplesmente esbanjadada. O que podemos fazer pelos países pobres é reduzir as barreiras tarifárias às suas exportações. Com o dinheiro poupado ao eliminar a ajuda internacional poderemos compensar os nossos sectores afectados pela concorrência económica dos países pobres e desse modo reduzir a oposição política às reformas tarifárias. (...)

    «Em segundo lugar, não estou tão optimista como Becker sobre os benefícios duma população acrescida nos países pobres. (...)»
    Acreditam nisto? A mortalidade pela SIDA beneficiando a estrutura populacional dos países pobres?...

    Santanismo


    Teresa Caeiro, a ubíqua Secretária de Estado das Artes e Espectáculos, tinha decidido impugnar, em 15 de Dezembro, os resultados do concurso para os apoios pontuais ao teatro na região de Lisboa e Vale do Tejo, na sequência de uma reclamação de um concorrente preterido. As companhias de teatro, cansadas de tanta espera (trata-se de apoios à actividade de 2004 !) resolveram protestar, porque precisavam das verbas e porque tinham medo que se perdessem na voragem orçamental. Na altura Teresa Caeiro garantiu que isso não aconteceria porque existia cabimento orçamental e ele não desapareceria.

    Agora veio dar o dito por não dito e revogou o seu próprio despacho: a 23 de Dezembro a ministra da Cultura reconhecera à Lusa que, caso a situação dos concursos não fosse desbloqueada até ao final do ano, o Insituto das Artes (IA) deixaria de ter direito aos 700 mil euros já reservados, vendo-se obrigado a resolver o problema com recurso ao orçamento de 2005, que é insuficiente.

    Como se não bastasse, Teresa Caeiro aproveita agora para atirar as culpas para o organismo que ela própria tutela: "O IA é o responsável pelo bom funcionamento dos concursos e se tudo tivesse corrido de forma legal eu não teria que intervir", disse ontem Caeiro à agência Lusa. "Se não tivesse havido uma falta de controlo do IA o processo já estaria concluído." [ Notícia do Público ].

    Já em 22 de Dezembro Teresa Caeiro e o director do IA tinham dado um belo exemplo de santanismo:
    "O director do Instituto das Artes, Paulo Cunha e Silva, afirma que não vai abrir no próximo ano os concursos para os apoios pontuais às artes." [ Notícia do Público ]

    "Ao contrário de Cunha e Silva, Caeiro diz que os concursos «vão ser abertos como é evidente e ponto final, porque é uma obrigação do Estado»." [idem]

    Santana Lopes, o Original


    Segundo o Público, o líder do PSD considera que as pessoas estão fartas das campanhas eleitorais e quer fazer uma campanha diferente, que deverá passar por iniciativas como visitar aldeias recônditas e passar uma noite numa república coimbrã.

    Marcelo Rebelo de Sousa pensou a mesma coisa para as autárquicas de Lisboa mas o mais que conseguiu foi ter de nadar nas pestilentas águas do Tejo.

    Desempenho académico


    Via FísicosLX cheguei a esta notícia do DN sobre uma iniciativa da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto:
    «Uma análise estatística da performance dos alunos ao longo dos últimos quatro anos permitiu aos responsáveis perceber que o grande factor de fracasso dos alunos se devia às prestações académicas logo no primeiro ano. As inscrições em anos sucessivos, permitidas pelo sistema de créditos, deixando para trás disciplinas por fazer, é prática comum na faculdade, mas 60 por cento dos alunos que o fazem acabam por piorar a sua situação. Apenas um por cento dos estudantes com cadeiras em atraso consegue efectivamente ultrapassar essa situação.»
    Traçado o diagnóstico, a instituição desenvolveu um programa-piloto para 150 dos 700 novos estudantes que permitiu elaborar uma nova proposta de transição do primeiro para o segundo ano, mais rigorosa, mas acompanhada de uma série de medidas dirigidas às limitações detectadas na formação dos estudantes.

    Creio que todos os docentes conhecem o efeito perverso das "facilidades" de passagem de ano (que poderá ser agravado com o novo sistema de ECTS, âmbito Bolonha) mas aguardam-se agora os resultados reais da experiência da FEUP, cuja iniciativa merece, desde já, elogio e divulgação.

    D. Quixote



    Abre o teu saco de recordações
    E guarda só o essencial
    O mundo nunca deixou de mudar
    Mas lá no fundo é sempre igual
    ...
    Tens um peso enorme nos ombros
    os braços que pareciam voar
    tu continuas a falar de amor
    mas qualquer coisa deixou de vibrar
    os teus sonhos de infância já foram
    velas brancas ao longo do rio
    hoje não passam de farrapos
    feitos de medo, solidão e frio

    Jorge Palma        
    "D. Quixote foi-se embora"        


    «A música escrevi-a há vinte e tal anos na fase de Paris, de rua, de metro. A letra era em inglês, inventada à chuva entre o Petit Palais e o Odeon. Escrevi-a quando cheguei ao hotel. Chamava-se "Ballad of a stranger" (depois, já escrevi "Balada dum estranho", que não tem nada a ver). É evidente que a letra em português não podia ser uma tradução, mas mantém o mesmo espírito.» (in Publico)

    Os doentes e desempregados que paguem a crise?


    Segundo o Diário Económico, «O Ministério da Segurança Social ordenou a suspensão do pagamento dos subsídios de doença e de desemprego que se deviam efectuar nos últimos dias deste mês. As baixas médicas e os desempregados que deveriam receber os respectivos subsídios nos dias 27 e 29 de Dezembro, vão ter de esperar até Janeiro.»

    Tudo indica que o "pequeno atraso" será uma grande ajuda para o desejado défice de 3 %. Contudo, se acreditarmos na Professora Manuela Ferreira Leite (ver em Tribunal de Contas apanha nota negativa) e o que contar para Bruxelas for a perspectiva dos compromissos e não uma óptica de caixa, então o atraso não poderia contar para a redução do défice...

    Contabilidade criativa


    «Um estudo do banco central alemão, o Bundesbank, concluiu que a rigidez das regras orçamentais da zona euro estimulou os governos a recorrerem à contabilidade criativa para cumprirem as metas determinadas.

    «Do conjunto dos países analisados, Portugal não surge como o pior, apesar de ter tido subidas de oito pontos percentuais na sua dívida em meados dos anos 80.»

    in Diário de Notícias

    segunda-feira, dezembro 27, 2004

    «Onde a ordem emerge...»


    O Catallarchy chamou-me a atenção para um artigo de Don Boudreaux no Cafe Hayek, que me deixou verdadeiramente pasmado.

    Na sequência da catástrofe ocorrida na Ásia, é previsível que os governos tenham de intervir mais activamente em vários domínios da vida social. Um desses domínios é o do controlo de preços, para evitar subidas em flecha dado o desequilíbrio entre a oferta e a procura de certos bens. Normal? Segundo Don Boudreaux, nem pensar!

    Ele vê duas vantagens na subida dos preços, mesmo em condições tão excepcionais:
    «(1) encoraja os fornecedores a abastecer maiores quantidades do que normalmente fariam a preços mais baixos;
    (2) encoraja as pessoas que pretendem esses bens, agora mais excassos, a usá-los tão judiciosamente quanto possível»
    Don Boudreaux não ignora a crítica decorrente: «Então e os pobres? Não serão excluídos do acesso a esses bens?» Ora ele não está muito certo disso. Ou, pelos menos, não está certo de que «as pessoas fiquem melhor com o controlo de preços pelo governo, do que sem esse controlo». E porquê?

    Bem, explica-nos ele pacientemente: se não for o mecanismo dos preços a determinar a distribuição dos bens entre os consumidores, terá de haver outro método. E entre os métodos possíveis ele encontra principalmente: filas, mercado-negro, ligações políticas ou comerciais, ou mesmo a violência!

    Vejamos: será que estar na fila é assim tão inaceitável, atendendo às circunstâncias? Pois aprendam com Boudreaux:
    «Embora não decorram custos monetários de esperar numa fila, os pobres podem ter maior dificuldade em ficar afastados das suas famílias após a catástrofe, por exemplo, porque têm crianças pequenas que devem ser vigiadas, ou porque têm de ser eles a reparar pessoalmente os seus telhados e canalizações, por não terem capacidade para contratar operários».
    O artigo apresenta mais argumentos, mas estes chegam para amostra da insanidade do pensamento neo-clássico levado até às últimas consequências.


    Notas:
    - «Onde a ordem emerge» é o subtítulo do Cafe Hayek, se bem traduzi...
    - Donald Boudreaux é docente da George Mason University. Um video do economista a falar sobre "A análise das decisões colectivas" está disponível aqui.

    Love (Arthur Lee)


    Os Love foram uma das mais significativas bandas do rock-folk psicadélico de meados dos anos 60. Apesar das vendas modestas dos seus três álbuns de originais (Love de 1966, Da Capo de 1967 e Forever Changes de 1968) tiveram uma grande influência no som da época. Forever Changes encontra-se ao mesmo nível de Piper at the Gates of Dawn (dos Pink Floyd) e Electric Ladyland (de Jimi Hendrix).

    O seu principal mentor, Arthur Lee, continua a manter um projecto com a designação Love with Arthur Lee - mas a época e o espírito são irrepetíveis. Para os que tiveram a oportunidade de escutar estas inovações no seu tempo - e também para os outros! - eis uma gravação ao vivo da excelente canção: "Alone Again Or".
    Yeah, said it’s all right
    I won’t forget
    All the times I’ve waited patiently for you
    And you’ll do just what you choose to do
    And I will be alone again tonight my dear

    Yeah, I heard a funny thing
    Somebody said to me
    You know that I could be in love with almost everyone
    I think that people are
    The greatest fun
    And I will be alone again tonight my dear

    [Banda desenhada de Mary Fleener sobre a canção Signed D.C., de 1966]

    Sismo/tsunami na Ásia






              Fotografias aqui e aqui.




    Sismo financeiro


    Na sequência do sismo as acções asiáticas desvalorizam; as companhias aéreas e as petrolíferas recuaram, enquanto as empresas de construção valorizaram.
    [ Jornal de Negócios ]

    domingo, dezembro 26, 2004

    Uma dúvida


    A indicação de hiperligações pode ser feita abrindo a nova janela em substituição da que se está a consultar (exemplo), ou abrindo uma nova janela (exemplo). Tenho encontrado os dois sistemas em blogues e gostaria de saber a opinião dos leitores sobre qual consideram o melhor sistema - pois para mim é indiferente. Agradecem-se sugestões (ou "teoria" sobre o assunto).

    Comportamento errado


    O Provedor do leitor do jornal Público, Joaquim Furtado, reconhece o comportamento errado de duas jornalistas que utilizaram, sem citar a origem, material dos blogues Substrato e Arqueoblogo, mas não considera que tenha havido plágio.

    Nunca no dia seguinte


    «Na sequência dos incêndios do passado verão, o Ministério da Agricultura, Pescas e Floresta já entregou às vítimas da catástrofe da Serra do Caldeirão a quantia de 777 275.30 euros. Os pagamentos ocorreram entre o dia 19 de Outubro e o dia 10 de Novembro do corrente ano.
    (...)
    «A cada uma das 1013 candidaturas correspondem papéis, formulários e inevitáveis tempos de espera. Como acontece por exemplo num acidente de automóvel, adianta o Ministério - "o carro nunca é arranjado e fica pronto no dia seguinte". O que não pode passar para a opinião pública é a ideia falsa de que esta questão foi tratada com falta de vontade ou celeridade.»

    in Portal do Governo
    (sublinhado nosso)

    Estado transparente


    «O Ministério da Educação já tem em seu poder o relatório final da auditoria às listas do concurso de docentes 2004/2005 realizada pela Inspecção-Geral de Finanças. (...) O relatório da IGF foi classificado de confidencial, o que, acrescido ao facto de estarem ainda a decorrer os trabalhos da Comissão de Inquérito, impossibilita a divulgação do mesmo.»

    in Portal do Governo

    Crise? Qual crise?


    «Crise orçamental? Qual crise? Pegue-se no folheto que o Governo fez distribuir sobre o Orçamento do Estado para 2005 e folheie-se.Verbas para vários níveis de escolaridade que aumentam entre 9% e 25% de 2004 para 2005. Dotações para a área do ambiente que sobem 30,4% a 200%. Investimento previsto para algumas regiões que dispara entre 29% e 53%. O tom geral do documento é compatível com isto. É só facilidades e coisas positivas.»

    Paulo Ferreira in Jornal de Negócios

    A economia em 2005


    "Em 2005 a economia mundial crescerá mais moderadamente, mas o seu ritmo de expansão continuará elevado. Os principais riscos para este cenário central são o dólar, o petróleo e a China."

    "Se a moeda norte-americana sofrer uma depreciação forte e abrupta, limitará o crescimento das economias cuja retoma está mais dependente do comércio externo, como é o caso da UEM. Em segundo lugar, há o risco de que o petróleo volte a registar uma valorização significativa, limitando o crescimento da economia global, com especial ênfase para as mais dependentes desta matéria-prima, como é o caso dos EUA. Em terceiro lugar, surge o risco de que a China observe um arrefecimento mais pronunciado, com implicações negativas ao nível da procura mundial."

    in Diário Económico

    Os blogues como armas eleitorais


    Via Daily Dish cheguei a este artigo da CBS News: Blogs: New Medium, Old Politics, onde se refere que:
    «Os blogues da Internet proporcionam um meio novo e não regulamentado para ataques com motivação política.»
    E dá como exemplo os dois blogues mais visitados da Dakota do Sul - "cheios de análises informais, opiniões e links" - que foram criados por consultores pagos da campanha de John Thune, político republicano que ganhou a candidatura para o Senado ao democrata Tom Daschle, o primeiro lider de bancada a perder uma eleição em 52 anos. Ambos os blogues favoreceram a eleição de Thune, embora nehum deles tenha referido a ligação financeira dos seus autores à respectiva campanha. No entanto, segundo a notícia, nenhuma lei parece ter sido violada.

    Os blogues referidos são o Daschle v. Thune e o South Dakota Politics; neste último, numa análise das eleições, reconhece-se que "os novos blogues foram um factor crítico na vitória de Thune; não teria vencido sem eles".

    Tudo calmo


    Dia de Natal. O Primeiro-Ministro emite um comunicado garantindo que o presidente da Caixa Geral de Depósitos se mantém «no pleno exercício das suas funções e no cumprimento do mandato».

    Nada de novo, portanto. Santana Lopes continua no seu posto, emitindo mensagens para que o país se mantenha calmo.

    sábado, dezembro 25, 2004

    Um "herói" do nosso tempo


    O Bloguítica chama a atenção para o "ridículo" da coligação do PSD com o PPM e o MPT e questiona-nos: «um PSD em profunda crise coliga-se com partidos que não existem politicamente. Premonição?»

    Ha um traço de personalidade em Santana Lopes, que eu designaria como "feminino", que se manifesta, por exemplo, na grande importância que é dada à coincidência de datas (o que ele considera uma coisa "impressionante", apesar de por vezes a coincidência não ser assim tão exacta). Já na tomada de posse do seu governo, tentou que ela coincidisse com uma efeméride qualquer associada a Sá Carneiro.

    É provável que esta aliança com o PPM - sem negar o "desespero de causa" referido pelo Bloguítica - se imponha ao evanescente político como a inevitável reconstituição de uma época dourada na sua vida, a dos tempos "heróicos" em que trabalhou com Sá Carneiro (que ele evoca recorrentemente), a época do governo do Bloco Central (onde também houve uma aliança com o PPM, que na altura tinha alguma visibilidade).

    Todos estes "sintomas", bem como o episódio do "está escrito nas estrelas", manifestam uma mente alienada a uma certa mitificação precoce da própria vida. Essa alienação explicaria algumas "inconsistências" (para nós...) do discurso de Santana (visível, por exemplo, no seu famoso "discurso de estado", onde misturava assuntos importantes com banalidades) bem como a sua febre de contacto com outros estadistas, como se estivesse já a escrever a sua própria biografia heróica.

    Leituras sobre Jesus Cristo


    Ao longo deste ano tive oportunidade de participar em interessantes debates online sobre "O Código Da Vinci". Considero este livro uma especulação incompetente e oportunista sobre algo que, com fundamento, preocupa e atrai as nossas mentes: quem foi realmente Jesus Cristo?

    Creio que esta inquietação tem duas vertentes: uma mais directamente ligada ao homem que Jesus foi; outra mais relacionada com a natureza da religião: teria sido o Cristianismo actual a religião verdadeiramente propagada por Cristo?

    Eu estou convencido que o Cristianismo actual é muito diferente, em muitos aspectos, daquilo que o próprio Cristo ensinou, mas acho isso normal e positivo. O Cristianismo primitivo era apenas uma variante do Judaismo, uma variante algo exarcebada e nem sequer muito original (outros profetas tinham antes divulgado ideias que Cristo retomou) mas com um aspecto que se viria a revelar revolucionário: a ideia de que todos são iguais perante Deus. Cristo ensinava-o e praticava-o - o que não era muito bem aceite naquela sociedade hierarquizada, onde os judeus nem sequer estavam no nível mais baixo.

    Teriam de passar séculos até que essa ideia conseguisse prevalecer na sociedade como conduta a seguir (embora na prática muitas vezes não o seja). Quanto ao resto da teologia que a Igreja católica foi desenvolvendo, não pode ser considerada como um afastamento da ideias originais de Cristo, mas sim uma adaptação a uma sociedade em mudança e cada vez mais complexa em termos sociais.

    Todas as organizações religiosas são conservadoras, mas a Igreja Católica e as Ingrejas Cristãs em geral são das que melhor souberam responder aos desafios dos tempos de mudança.

    Por isso, essa febre de querer procurar o verdadeiro Cristo para confrontar (e "desmascarar") a Igreja Católica é uma busca vã. O corpus da teologia deve ser aceite como produto histórico; pode e deve ser questionado, com sempre o foi, mas em função das necessidades espirituais do presente e dos fundamentos lançados por Jesus Cristo - não na confrontação com aspectos anedóticos ou chocantes da vida do "filho do Homem", supostamente secretos e mantidos latentes, ao longo dos séculos, por seitas secretas (a tal "tese" do "Código Da Vinci").

    No entanto, acho interessante a busca da verdadeira vida de Jesus, enquanto homem da História, nosso antepassado. Sobre isto recomendo o livo de E. P. Sanders, "A Verdadeira História de Jesus". É um relato diferente da visão adocicada da actual catequese, mas é um relato sério, baseado na própria Biblia e noutras fontes credíveis.

    Sou ateu. Ou melhor: agnóstico. Mas respeito muito a religião católica e a sua Igreja. Foram fundamentais na formação do nosso país e da nossa sociedade e creio que continuam a ser. Por isso fiquei muito satisfeito por encontrar o livro, que ando agora a ler, de outro não-crente, o filósofo Fernando Savater, com o título "Os Dez Mandamentos no Século XXI", dedicado a «tentar explicar como os dez mandamentos afectam as pessoas de hoje».

    No blog Travessias encontrei este extracto:
    «Todavia, nós, os não-crentes, acreditamos nalguma coisa: no valor da vida, da liberdade, e da dignidade, e que o gozo dos homens está nas mãos deles e de mais ninguém. São os homens que devem enfrentar com lucidez e determinação a sua condição de solidão trágica, porque é essa instabilidade que abre caminho à criação e à liberdade.»
    Na página da Professora Lucília Nunes encontrei, também acerca do livro de Savater, estes comentários:
    «Dei de caras com o novo livro de Fernando Savater e não pude evitar um sorriso para o título: «Os Dez Mandamentos no século XXI. Tradição e actualidade do legado de Moisés» (Dom Quixote, Novembro 2004). Folheei-o, e encontrei discussões do autor com Deus e com Moisés, numa perspectiva de releitura das Tábuas da lei, à luz do nosso tempo e da sociedades em que vivemos.»

    «Diálogo do filósofo com o Senhor», a propósito do 1º mandamento.
    «O escritor tem uma troca de opiniões com o Senhor» a propósito do 2º.
    «O autor tem uma discussão laboral com Deus», em torno do 3º.
    «O Senhor, que se considera pai de tudo e de todos, escuta algumas reflexões do autor», acerca do 4º.
    «Iavé escuta em silêncio as acusações do Sr. Savater», por causa do 5º.
    «Iavé e Savater têm uma conversa sobre sexo», em torno do 6º.
    «O autor pede a Deus que o esclareça sobre o que significa roubar», a propósito do 7º.
    «Iavé e o filósofo pedem que não mintamos uns aos outros», em relação ao 8º.
    «O autor diz que não desejar a mulher do próximo é uma antiguidade, e Iavé fica contrariado», em relação ao 9º.
    Finalmente, «O autor e Iavé analisam as dificuldades de fazer cumprir este mandamento», que é o 10º.

    sexta-feira, dezembro 24, 2004

    Natal


    Véspera de Natal. O que se poderá escrever, num dia assim, num blog de economia?

    Penso por vezes se esta azáfama dos últimos dias não será uma antecipação do futuro: todos os dias ocupados em adquirir prendas para familiares e amigos - pelo menos nesta privilegiada parte do mundo.

    Ontem, em Lisboa, esta imagem: um grupo de vendedores da revista Cais descansava à beira da estrada, sobre um pequeno triângulo de relva no meio de um cruzamento; uma miúda afastava-se do grupo, a chorar, amuada, com o braço direito sobre a face; quando chegou à beira da estrada, parou; o pai aproximou-se, elevou-a nos braços carinhosamente e trouxe-a de volta ao grupo; depois o semáforo abriu e o trânsito retomou a vertigem da velocidade.

    Um bom Natal para todos! Votos de felicidades para aqueles que a mão invisível coloca à beira da estrada!

    quinta-feira, dezembro 23, 2004

    O encarte da fralda


    Ocorreu-me que esta seria a designação ideal para a folha de propaganda distribuída pelo governo em alguns jornais diários. A fralda, esse recipiente do que é rejeitado. Símbolo da imaturidade, da incontinência e da... [error 424] ... object required ...

    Instantâneo


    O Blasfémias chamou muito justamente a atenção para o facto de que o governo, ao afirmar que a nova solução para reduzir o défice é ainda melhor do que aquela que foi chumbada por Bruxelas, está a admitir que optou primeiro por uma solução menos satisfatória.

    O problema é que o virus eleitoral provoca uma febre que obscurece as faculdades mentais de qualquer político, chegando a afectar a memória de curto prazo e fazendo-o expelir a primeira ideia que vem à cabeça e que pareça ter impacto eleitoral. Já nem é o longo prazo que é sacrificado: é o curto prazo que é imolado no altar do instantâneo.

    Política de lixo, lixo de política


    O actual governo parece apostado em cumprir todo o catálogo de monstruosidades da política: agora foi o ministro do Ambiente que ameaçou demitir-se, forçando o Primeiro Ministro a declarar publicamente a sua confiança. E tudo isto foi sendo divulgado, em tempo real, para a imprensa.

    Não parece haver dúvida de que é a próxima campanha eleitoral que está por detrás desta coreografia política. O principal candidato da oposição - José Sócrates - tem para apresentar como trunfo a sua passagem pelo Ministério do Ambiente, embora com o "percalço" do forte movimento de rejeição da co-incineração. O tema do tratamento dos lixos está por isso a transformar-se no leit motiv da pré-campanha eleitoral.

    Nobre Guedes tem-se desmultiplicado em acções de confrontação virtual com José Sócrates - aconteceu por exemplo na semana passada no acto de assinatura da Simarsul (empresa pública para as infraestruturas de saneamento da Península de Setúbal). O discurso de Nobre Guedes concentrou-se na comparação daquilo que ele fez no Ministério do Ambiente versus o-que-Sócrates-não-fez. Diversos autarcas da margem sul ponderaram abandonar a cerimónia, tendo sido demovidos pela Governadora Civil, do PSD, que também parece não ter achado graça ao discurso.

    A dinâmica eleitoralista de Nobre Guedes constitui uma ameaça para o próprio Santana Lopes ao tentar posicionar-se como o opositor privilegiado de Sócrates. Percebe-se, por isso, que o PM tente controlar as iniciativas de Guedes. Mas, neste caso e mais uma vez, o CDS roubou pontos ao PSD.