sexta-feira, novembro 26, 2004

Divergir não é empobrecer


Notícia do Público:
O ex-primeiro-ministro Cavaco Silva advertiu ontem à noite, no Porto, que a situação económica em Portugal "é complicada" e que o país "vai continuar a empobrecer até 2006", afastando-se "cada vez mais" da Espanha e da União Europeia.
Divergir da União Europeia e empobrecer são duas coisas diferentes. Não creio que estejamos a empobrecer. Eu percebo a ideia: relativamente aos outros países europeus, ficamos mais pobres. Mas porque temos de nos comparar só com os europeus?

Seja devido à maior solidez das maiores economias europeias e ao seu stock de capital e de infraestrutura, nomeadamente a de ensino, seria difícil (embora não impossível) que fosse de outro modo. Quanto aos países da recente adesão: o nível económico baixo de que muitos deles partem cria condições objectivas para um crescimento rápido (como aconteceu com Portugal nos passados anos 60).

De qualquer modo, o quadro traçado por Cavaco Silva é muito preocupante. A perda de posição relativa no contexto da União pode ser considerada como "a oportunidade perdida", atendendo ao volume de ajudas comunitárias que recebemos e de cuja aplicação ninguém parece interessado em fazer a avaliação.

quinta-feira, novembro 25, 2004

A ciência deprimente



Previsões económicas da Primavera da Comissão Europeia, para Portugal:

ImportaçõesExportações
20042,95,1
20055,66,6
Fixe. Agora as previsões do Banco de Portugal, em Setembro (via Santander):

ImportaçõesExportações
20043,85,8
20055,36,8
Ainda fixe. Mas vejam agora o que diz o IAPMEI:
"... fraco dinamismo do valor das exportações, cujo crescimento no trimestre terminado em Agosto foi de 4,7%, relativamente ao do indicador de procura externa, que no mesmo período cresceu 13,3%."
Pois é. Uma explicação possível para o disparo das importações é o crescimento do investimento (previsão de 2,75 %), particularmente nas máquinas e produtos metálicos (previsão de 10%); Paul Krugman e os amigos, no tal estudo que realizaram em Portugal em 1976, já tinham chamado a atenção para este efeito. O pior é que as importações de bens de consumo cresceram igualmente, no 1º semestre de 2004, acima de 10%. Concordo com o Banco Santander: trata-se de uma "evolução preocupante, porque insustentável a prazo".

Quanto ao défice, regressemos às optimistas previsões da Comissão Europeia:
"Relativamente a 2005, a previsão para o défice público baseia-se na legislação actualmente em vigor (pressuposto de que “as políticas adoptadas serão mantidas”). Segundo as projecções, o défice deverá aumentar para 3,8% do PIB, reflectindo a persistência de um significativo desvio negativo do produto e a eliminação de todas as medidas extraordinárias."

Conexões


Isabel Prata em A Aba de Heisenberg dá notícia de uma palestra do Professor Castro Caldas sobre “Como se adapta o cérebro ao conhecimento da ortografia” e questiona-se:
"As conclusões destes estudos são claras e inquietantes, porque afinal não saber ler, não é só não saber ler, o cérebro menos 'ginasticado' apresenta muito menos conexões e ligações entre hemisférios, apresentando nos analfabetos muitas outras incapacidades. E estas conclusões estendem-se a outras competências: por exemplo parece que nos cérebros dos músicos as ligações entre hemisférios estão particularmente desenvolvidas. Até onde chegarão estas novas tecnologias: chegará o dia em que nos lerão a alma, qual Blimunda Sete Luas?"
Leia-se ainda o resumo da palestra.

Acredite se quiser...







Certa vez, num teste de Economia, apresentaram-me como exemplo dos "choques petrolíferos" os naufrágios dos petroleiros que depois poluíam os oceanos....

Produtividade


Um artigo do "Economist" afirma que a medição da evolução da produtividade do trabalho talvez não seja a melhor forma de avaliar o desempenho das economias:
"Se forem dados aos trabalhadores melhores máquinas e equipamentos, isto faz aumentar automaticamente o produto por homem-hora, mesmo que não ocorram ganhos na eficiência económica global ao ser contabilizado o capital extra dispendido".
E sugere antes a produtividade total dos factores (muito mais difícil de medir).

Brad Delong critica o artigo no seu blog. [sugestão de John Quiggin]

quarta-feira, novembro 24, 2004

Malentendidos


Os homens tendem a (mal) interpretar o comportamento das mulheres como orientado para o sexo, mais do que elas, nas interacções entre ambos. As mulheres tendem a interpretar essas relações mais como divertimento ou puramente relacional. Conclusões de "Flirting with Meaning: An Examination of Miscommunication in Flirting Interactions", um estudo de David Henningsen publicado pela revista Sex Roles.

Padrões e analogias


Através do Vinod's Blog cheguei ao interessante texto On Intelligence, People and Computers que Arnold King escreveu sobre o livro On Intelligence de Jeff Hawkins.

King explica o argumento central de Hawkins através da metáfora do jogo "Hangman" - um jogo de plavras em que se adivinham as letras uma a uma. Supondo (uso os exemplos de King em inglês) que para uma palavra de 5 letras avançámos com as letras B, T e U, e que confirmámos esta disposição:             U  T

Ou seja: sabemos que não existe a letra B na palavra, e que ela termina como UT. Que letra deveríamos tentar apostar a seguir? Uma boa estratégia neste ponto seria tentar pensar em palavras que terminem em UT mas que não contenham B. As possibilidades incluem "spout," "clout," "snout," e por aí fora. Isto faz das letras O e S boas apostas. Por outro lado, é difícil pensar numa palavra adequada que contenha um A ou um E. Mesmo sendo letras frequentes, seriam uma má aposta nesta altura.

No modelo de Hawkins as letras que temos em mente influenciam as nossas decisões quanto ao que temos de adivinhar. O resultado das adivinhas dá-nos depois mais informação para as tentativas seguintes.

Os processos de adivinhar e obter mais dados funcionam juntos. Hawkins argumenta que o processo sensorial usa este processo de adivinhação de padrões: o cérebro está constantemente a formar padrões e a comunicar internamente através de padrões.

King sugere que, passando do nível sensorial e motor para o nível das abstracções, o papel dos padrões é ocupado pelas analogias: "abordamos um novo conceito tratando-o como uma combinação de analogias com conceitos já existentes. Por exemplo, existem muitos jogos de tabuleiro que incluem o movimento de peças com base no lançamento de dados e instruções escritas em cartões. Se já tivermos jogado ao Monopólio, então outros jogos serão mais facilmente apreendidos através da analogia."

O não-economista Krugman


Delicioso texto de William L. Anderson, apostado na "desconstrução" do keynesianismo de Paul Krugman, por ele designado como um não-economista (noneconomist):
"Sim, Krugman tem um doutoramento do MIT em Economia, mas os seus escritos, tanto os populares como os académicos, demonstram que ele não acredita nas leis da Economia. Pelo contrário, como muitos outros com inclinações socialistas, acredita que o Estado é omnisciente e omnipotente e que simplesmente por decreto pode eliminar aqueles pequenos e desagradáveis problemas originados pela escassez."
E, mais para o lado teórico:
"Os economistas sabem, desde os primeiros dias da revolução marginalista, que é impossível fazer a comparação da utilidade interpessoal. Embora conceitos como "excedente do consumidor" e "perda de bem-estar social" possam ser apresentados na forma de gráficos, como ferramentas de ensino, não passam de ficções uma vez que o seu uso requer a medição da utilidade cardinal, e não apenas ordinal. Naturalmente, o uso da utilidade cardinal permite aos economistas apresentar a teoria económica em termos matemáticos através de cálculo multivariado, razão pela qual continua a ser usada como ferramenta explicativa, apesar de ser uma fraude."
Enfim: teórico, ma non troppo. O Mises Institute está repleto desta tralha ideológica© que pouco adianta para o conhecimento científico mas, seguramente, ajuda à propagação da causa.

(© VJS)

Uma carta americana


Carta aberta enviada ao presidente George Bush por um grupo de mais de 100 economistas americanos:
"Um certo grau de desigualdade é inerente a qualquer economia de mercado, criando incentivos para o progresso económico e tecnológico. Mas quando a desigualdade se torna extrema, pode ser socialmente corrosiva e economicamente disfuncional"
Cheguei lá através do ArgMax

Idiomática (1)


A expressão "intervala!", que usei no post anterior, era comum nos anos 60, na região alfacinha; usava-se para interromper os discursos verborreicos e/ou asneirentos. Ocorreu-me que seria um bom equivalente para o americaníssimo "give me a break".

Diálogos (1)


Alguns conhecidos meus, quase todos da minha rua, insinuam que o meu blog é "de direita e neo-liberal".

- Porquê ? - pergunto eu. Está aqui alguma coisa escrita que permita tal ilação?

- Ah e tal, porque tem muitas referências a blogs neo-liberais...

- Por favor, intervalem! Outra vez o argumento das "más companhias"? Mas eu tenho culpa de que na blogosfera (e na portuguesa em particular) a maioria dos sites mais interessantes, em termos de ideias e debates no campo da Economia, sejam o que são? Mostrem-me os endereços de blogs marxistas, ou keynesianos pelo menos, e eu os incluirei com todo o gosto.

terça-feira, novembro 23, 2004



"Quando olhamos para os cursos de economia e de gestão podemos perguntar-nos: onde está a cultura? A cultura portuguesa e a cultura em geral ? Um economista e gestor não poderá ter conhecimentos universitários em literatura? Quam fala em literatura fala em música, em arte em geral. Onde estão os nossos cursos abertos a estes conhecimentos, que existem e são leccionados nas nossas universidades?"

João de Sousa Andrade
Estão a ser formados economistas e gestores incultos?


Porque:




"Um economista que se limita aos conhecimentos da ciência económica - stricto sensu - é um pobre homem, nem chega simplesmente a ser um economista. Deve também possuir a cultura que o une à comunidade onde vive, e compreender a civilização que o enquadra e o mundo onde existe"


Manuel Jacinto Nunes
Temas Económicos

A moral da história





A edição de Dezembro de 2003 da revista "Economia Global e Gestão", do ISCTE, inclui o interessante artigo do Professor Mário Murteira, "From labour economics to knowledge economics: A vision of the second half of the 20th Century". Suponho que se trata do mesmo texto da lição de jubilação que teve lugar no dia 21 de Outubro de 2004: "Da Economia do Trabalho à Economia do Conhecimento: Uma Visão da Segunda Metade do Século XX".

No texto da revista o Professor coloca a si próprio a seguinte questão: "afinal, qual é a moral da história ?". Trata-se de uma avaliação da Economia do Trabalho ao longo dos últimos 50 anos. Trata-se igualmente de uma avaliação pessoal, atendendo a que a vida profissional de Mário Murteira foi dedicada ao ensino desta teoria, numa óptica marxista. "Nos anos 50 e 60 a Economia do trabalho era um assunto de crescente importância nos EUA e Europa (...) 40 anos depois é a 'economia do conhecimento' que está na moda e o termo 'trabalho' parece ter-se tornado obsoleto".(...) "o que aconteceu ao trabalho e às "classes trabalhadoras" no chamado Primeiro Mundo ?"

Com o colapso das economias inspiradas nas teorias marxistas e o seu descrédito académico, justifica-se a pergunta, mas temos de reconhecer a coragem e a transparência com que Mário Murteira aborda a questão, de acordo com a frontalidade e honestidade intelectual que o caracterizam.

Percorrendo a história do pensamento económico deste meio século, recorda as investigações de Paul Samuelson, que mostraram que o conceito marxista do valor não poderia ser utilizado como base para a explicação do mecanismo de preços na economia de mercado.

Refere depois o modelo de Feldman-Mahalanobis, que supostamente fundamentava as opções da economia soviética e justificava o investimento em bens de capital, com sacrifício dos bens de consumo. M. Murteira diz que este modelo foi um caso extremo, quase até uma caricatura, do modelo de crescimento económico através do investimento em equipamento incorporando o progresso técnico - modelo aquele que foi divulgado em Portugal precisamente pelo professor. A propósito, cita a declaração de Ferreira Dias (o 'desenvolvimentista' do regime salazarista) de que "um país sem uma siderurgia, não é um país, é uma horta"; atendendo à ideologia de Ferreira Dias, Mário Murteira deveria ter desconfiado...)

O caminho da economia, no entanto, não veio confirmar a importância do investimento nas tais "industrias industrializantes" - no fim do século era o 'conhecimento' que se tinha tornado no factor estratégico para o desenvolvimento. A mudança da 'economia do trabalho' para a 'economia do conhecimento' é designada pelo Professor como "a grande transformação do sistema capitalista".

Para o final o artigo Mário Murteira passa a navegar em águas mais ideológicas. A certo ponto recupera a lei dos mercados, de J.B. Say ("a oferta cria a sua própria procura") para lhe dar uma outra interpretação: as necessidades dos consumidores são estimuladas pelas próprias empresas. E conclui que, a esta luz, teremos de questionar a "soberania do consumidor" que supostamente orienta o mercado. E apela à metáfora de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (que, no livro de Huxley, é um especialista em Marketing, manipulador dos gostos e preferências individuais em favor do seu patrão) para caracterizar a economia actual.

Refere depois o paradoxo deste desenvolvimento se situar apenas numa pequena parte do mundo, cita a revista Forbes ("é mais fácil ser um bilionário na América de hoje do que na de 1950") e reconhece que "a globalização assenta mais na esfera do capital financeiro do que na esfera do conhecimento ou do capital humano". e conclui:
"Naturalmente, tenho as minhas preferências. Mas não sou daqueles que confundem os desejos com a realidade. E muito menos dos que reproduzem - com maior ou menor convicção e ingenuidade analítica, a ideologia que suporta o mercado global."

"Não obstante, temos de admitir que esta segunda metade do século XX, com toda a sua violência e injustiça, foi muito mais positiva do que a primeira - período da sinistra "guerra dos trinta anos" entre 1914 e 1945, dos milhões de desempregados da Grande Depressão, do nazismo, fascismo e estalinismo, bem como da invenção e uso da bomba atómica. Esta comparação traz-nos algum conforto e alimenta a esperança de que necessitamos. Se ainda não compreendemos o progresso como "feliz fatalidade", ou seja, como inevitabilidade histórica, podemos considerá-lo como um possível e desejável futuro que depende apenas de nós, humanos, para acontecer".
Eis a "moral da história", segundo Mário Murteira.


Notas:
- As citações foram traduzidas por mim do inglês;
- O professor Mário Murteira é autor de uma interessante colectânea de artigos, com o título Economista Acidental, onde faz um percurso histórico pela sua vida académica e profissional (disponibizados online na Janela na Web).

Açúcar amargo


A produção portuguesa de açúcar, altamente apoiada por subsídios comunitários, sente-se ameaçada com o anunciado fim daqueles apoios - notícia do DN. O que choca neste relato é que não revela um pingo de orgulho económico: subsiste-se à conta do subsídio e, quando este ameaça desaparecer, lá vem o choradinho. Mas não sabe toda a gente que os subsídios à produção são, por definição, temporários?

Diz um dirigente agrícola que a redução de subsídios «iria arrasar o sector, que já trabalha com margens reduzidas e, no caso de Portugal, tem custos acrescidos de água e energia». Quer dizer que a existência de margens reduzidas e custos de produção elevados são justificação para subsídios? Ridículo...

Curiosa também é a pompa com que se anuncia a catástrofe: «o sector de produção de açúcar está em risco de acabar em Portugal caso a Comissão Europeia avance com as propostas para a reforma dos subsídios à produção daquele produto».

Existe, neste tipo de argumentação, uma exploração abusiva do genuíno sentimento nacionalista. As pessoas afligem-se de facto com a possibilidade do país poder vir a perder elementos fundamentais da sua identidade. Mas é abusivo vir defender o proteccionismo de sectores económicos (ou de empresas) com o argumento de que estamos a ser "invadidos" ou "comprados" ou "ultrapasados" por esses malandros dos "europeus", particularmente quando não existe qualquer sentimento nacionalista nesses empresários que, mais cedo do que tarde, venderão o negócio a quem der melhor preço.

Vários países europeus que se sentem afectados pela intenção da União de liberalizar este sector, emitiram uma carta onde defendem que a produção do açúcar se deve manter por todo o território comunitário. A decisão da União Europeia vai ser tomada a contra-gosto e resulta de uma queixa feita junto da OMC pelo Brasil e outros países, que acusam a União de garantir aos produtores europeus o preço de 632 € por tonelada, quando o preço mundial ronda apenas os 200 € (ver notícia).

segunda-feira, novembro 22, 2004

Pescas: "rent seeking" ?


Os espanhóis estão a comprar a nossa frota pesqueira - ver notícia. Isto é preocupante, tanto mais que as aquisições se dão depois de investimentos portugueses altamente financiados pela União (60 % a fundo perdido). "Rent seeking" à portuguesa?

"O problema de fundo do sector das pescas portuguesas em relação aos parceiros espanhóis reside no facto de os vizinhos do outro lado do Guadiana, comprarem todos os apetrechos para o barco entre 25 a 30 por cento mais baratos, e venderem o pescado por um preço mais elevado. O desequílibro da balança, dá-se logo, a partir do IVA, 19 por cento Portugal, contra os sete por cento em Espanha" - adianta um dos empresários portugueses. Afinal há concorrência leal ou não?

Outra parte da explicação, do mesmo empresário: "Modernizamos os barcos, mas o resto é arcaico. Os espanhóis sabem controlar as capturas de acordo com a procura do mercado, e assim estabilizam os preços. A par disso, possuem eficientes circuitos comerciais". Bom, isto já é outra loiça. A ser assim, não há desculpa para a relativa ineficiência nacional.

Mas há mais: a compra das embarcações portuguesas mais modernas por empresas espanholas obriga, segundo normas comunitárias já transpostas para a legislação portuguesa, a que se mantenha "um elo económico efectivo entre as embarcações e o país detentor das quotas de pesca por aquelas capturadas", ou seja, que "pelo menos 50 por cento das capturas da embarcação sejam desembarcadas num porto português e parte substancial das mesmas seja posta è venda localmente". Acontece que ninguém fiscaliza isto - e eu, sinceramente, não vejo nem viabilidade nem utilidade numa tal medida. Seria distorcer os mercados sem vantagem à vista.

Economistas na Ordem


Interessante entrevista de Murteira Nabo, candidato (único) a bastonário da Ordem dos Economistas, no Público. Concordo no essencial com o programa proposto de dar visibilidade e prestígio à Ordem, não através de medidas administrativas mas sim de acções concretas: "Vamos promover conferências e tomar iniciativas, como a publicação de uma revista trimestral, que afirmem a OE na sociedade portuguesa como uma instituição importante e prestigiada. Vamos fazer um congresso anual com pessoas prestigiadas. Propomos a criação de um barómetro de economia (...) um painel de profissionais de economia credíveis, que regularmente emita opinião sobre o estado da economia do país, que seja uma espécie de índice como é o índice do Banco de Portugal ou o do INE. Um painel credível que, ao emitir uma opinião, ela seja respeitada dada a qualidade da equipa."

Também concordo que "para as profissões liberais há que tornar obrigatório o reconhecimento público da profissão de economista pelo facto de se estar inscrito na Ordem". Se não for assim ninguém sabe quem anda a fazer o quê.

Outra orientação importante é a de alargar a área de influência da Ordem para além dos académicos e macroeconomistas, quase exclusivamente do ISEG e da Escola de Economia do Porto. "A OE tem dado, por razões da sua própria origem, mais prioridade às matérias da macroeconomia (...) Queremos que dê também importância à economia das organizações: empresas e Estado."

Causa Nossa


A propósto do aniversário do Causa Nossa -a quem damos os parabéns - recordo aqui um episódio passado com Ana Gomes, co-autora daquele projecto. Foi em Fevereiro de 1974, poucas semanas antes da Revolução. O MRPP (partido maoista a que Ana Gomes - ainda uma gaiata - pertencia, ou de que era simpatizante) convocara uma manifestão para a Praça do Chile, em Lisboa. Creio que o tema era a exigência do fim das guerras coloniais e a independência das colónias.

Ao contrário das manifestações convocadas boca-a-boca, que apanhavam a polícia de surpresa, esta tinha sido convocada com antecedência, através de pinturas nas paredes, autocolantes e panfletos. Portanto a polícia ía estar lá à espera dos manifestantes.

À hora marcada (19 horas, creio, já lusco-fusco) um grupo avançou para o centro da Praça, alguns de barra de ferro na mão, entre eles a Ana Gomes. Foi uma escaramuça confusa e breve, a manifestação não chegou a arrancar. O sítio estava pejado de polícias à paisana e várias pessoas foram presas. Alguns dos desanimados manifestantes juntaram-se numa rua próxima (Rua António Pedro, paralela à Almirante Reis). Ana Gomes sangrava abundantemente: atirara-se a um oficial e este agredira-a com o pingalim, rasgando-lhe o lábio. Os amigos queriam levá-la para o hospital mas ela insistia em que tinha de se fazer a manifestação de qualquer modo, mesmo só com aquele grupo: eram uns 10 ou 15.

E assim foi: o pequeno grupo arrancou pela rua abaixo gritando palavras de ordem, numa altura em que o dia já tinha escurecido. Mas a marcha durou pouco: no cruzamento com a Pascoal de Melo, já próximo da Portugália, um polícia sacou da pistola e deu uns tiros para o ar, dispersando o protesto.

O velho Keynes...


Leia-se o seguinte parágrafo e imagine-se quem o poderia ter congeminado:
A época turbulenta de Revolução tinha passado e agora toda a gente, que era nova na sociedade, tratava de se instalar nos moldes que estavam disponíveis e que eram estreitos se não fosse um espírito de lucro que invadia todos os quadrantes. De certo modo era um espírito que vencia a moral comum, para a qual a pobreza era um dom muito poderoso, o que foi bem aproveitado pela marcha do proletariado. O velho Keynes mudara tudo com a sua fórmula de propensão ao consumo que forçava o emprego, fazendo crescer o rendimento das empresas. Com a descoberta de que os caminhos da riqueza são insondáveis, a corrupção entrou em vigor como se fosse um direito. Com a subida inflacionada dos salários, as pessoas criaram novos hábitos de gastos, conforto e desdém pelo aforro. Depressa cederam ao fenómeno do endividamento bancário e entregaram-se a um hedonismo desenfreado.
A Revolução referida é a de 25 de Abril de 1974. Se as palavras tivessem sido pronunciada por um aluno numa oral, teria de se lhe pedir para se explicar melhor … Mas não: foi escrita por Agustina Bessa Luís e está algures na página 144 do seu livro “A Jóia de Família”, da trilogia “O Princípio da Incerteza”.

Vejamos que keynesianismo é este. Propensão ao consumo que força o emprego e faz crescer o rendimento… ? Não parece estar escrito em "economês", embora também não se possa dizer que esteja fundamentalmente errado. E foi o "velho Keynes" quem "mudou tudo" ?

O que me parece é que o argumento de Agustina é mais do domínio da Sociologia (ou Psicologia, ou Antropologia, sei lá…) do que da Economia. E pode ser entendido como se a dessacralização da origem da riqueza, ou seja, o acreditar (com Keynes) que os mecanismos do enriquecimento são apenas mais uma máquina (e, como tal, amoral) levou as pessoas a aderir a uma filosofia hedonista e consumista, trocando a moralista poupança pelo consumo.

O argumento parece-me interessante. De facto o pensamento do século XX no "ocidente" foi muito caracterizado por isto: o abandono de Deus e da moral de base religiosa, por troca com um cientismo amoral que acreditou ser capaz de resolver todos os problemas da humanidade por recurso à ciência (já referi isto noutro post). Nunca me tinha ocorrido é que o Keynes fosse para aqui chamado. Mas como o Keynes parece caminhar para o desaparecimento (apesar da repescagem parcial do Krugman com a sua depression economics) será que haverá um retorno nesta progressão, ou será antes um caminho sem regresso, tal como a expulsão do Paraíso?

sábado, novembro 20, 2004

Cadilhe dixit


"O seu problema é micro e a solução é macro"

Miguel Cadilhe para um empresário - citado, hoje, por Carlos Magno na Antena 1)

Ciclos económicos e política


Em 1981 o Professor Francisco Pereira de Moura escreveu para a revista Estudos de Economia o artigo "Ciclos políticos e modelos político-económicos", apoiando-se em investigações de Kalecki e Akerman, e em modelos desenvolvidos por Bruno Frey. Pereira de Moura via grande potencialidade nestes modelos e oportunidade na sua aplicação à realidade portuguesa, "a qual se balanceou, em escasso tempo, dos esboços de transição do sistema económico-político orientados para um desenvolvimento humano a longo prazo para (re)equilíbrios conjunturais da economia".

A análise da influência da popularidade nas políticas económicas não podia estar mais na ordem do dia. Não haverá aí algum investigador que queira aproveitar esta oportunidade?

A grande questão, colocada por FPM, é: "terão os políticos verdadeiramente interesse na estabilização da economia?". Uma outra hipótese, que o professor qualifica como "esperança", seria a de o eleitorado ir aprendendo, com sucessivas experiências eleitorais, como é que o partido no governo se comporta e passar a votar estrategicamente".

sexta-feira, novembro 19, 2004

Quem sabe, sabe!


As mulheres estudam cada vez até mais tarde - são já 60 por cento dos estudantes universitários em Portugal - e têm mais sucesso escolar. Como consequência disto está a aumentar o número de casamentos em que a mulher tem níveis de escolaridade mais elevados que os do marido. No ano passado isto acontecia com 32 por cento dos casamentos, em 13 por cento era o homem quem tinha estudado até mais tarde e em 55 por cento dos casais havia níveis de qualificação idênticos - notícia do Público

Não sei como irá o ego masculino lidar com isto, mas acho que a auto-estima vai diminuir e os divórcios vão aumentar.

O ramalhete rubro das papoilas


Segundo o Público, em 2003, o Afeganistão era responsável pelo fornecimento de 76 por cento da heroína a nível mundial e, com o crescimento ocorrido em 2004, neste ano a percentagem subiu para 87 por cento. Só não foi pior porque o mau tempo e as pragas impediram que se ultrapassasse os valores recorde de produção, ocorrido no último ano antes da chegada dos taliban ao poder, em 1999. De facto, o regime dos "estudantes de teologia" baniu o cultivo das papoilas e por isso o nível mais baixo de produção ocorreu no ano de 2001. Segundo o Washington Times a produção de ópio representa cerca de 50 % do rendimento nacional do Afeganistão.

Afinal nem tudo é mau na guerra: a ocupação americana voltou a colocar a economia afegã a crescer.

quinta-feira, novembro 18, 2004

Friedrich Von Hayek


Um exemplar de "O Caminho da Servidão", de F. Hayek, foi-me oferecido em 1977 por um amigo sesimbrense, o Rafael Monteiro, por sua vez amigo do Orlando Vitorino, responsável pela edição portuguesa do livro, nesse mesmo ano, através da editora Teorema. A data de tal iniciativa não terá sido por acaso, pois o país continuava mergulhado na deriva marxista desde a Revolução de Abril e este grupo de pensadores andava seriamente interessado em retirá-lo de lá. A primeira impressão que o livro me causou foi a de que tinha muito que ver com política e pouco com economia. Por essa altura andava eu já enjoado de tanta discussão política e com pouca paciência para qualquer discussão dessa natureza. Hoje, porém, não posso deixar de me sentir impressionado com a saga que o percurso deste livro representou, nem com a relativa indiferença com que é visto entre nós.

O ano de 2004 dista precisamente 60 anos da sua publicação original. Pergunto-me porque terá levado tanto tempo a ser traduzido em Portugal ? Aparentemente, devido à sua componente anti-soviética, poderia agradar ao poder anterior à Revolução. Mas não: o nosso Estado Novo desconfiava das forças de mercado e, ao fim e ao cabo, era um defensor e praticante do planeamento central, ainda que num pólo oposto ao das "democracias populares"; toda a estrutura corporativa foi montada para conter as forças de mercado: uma das funções das corporações era a de evitar coisas perigosas tais como a concorrência. Idealmente, o Estado Novo pretendia também que a produção fosse regulada de acordo com as necessidades e isso justificava igualmente o poder arbitrário para licenciar novas indústrias (condicionamento industrial).

O que é curioso é que esta simpatia pelo planeamento acabava por determinar algumas companhias improváveis, já que os teóricos marxistas também o veneravam. Térá talvez sido por isso que um economista próximo do marxismo, como Francisco Pereira de Moura, tenha sido procurador à Câmara Corporativa (entre 1957 e 1965) para os Planos de Fomento, aplicando nesse âmbito a teoria keynesiana, pelo menos na sua versão a la Harrod-Domar. E não havia panfleto mais perigoso para o planeamento e para o keynesianismo do que o livro de Hayek.

Através do blog Hayek Links (via O Intermitente) descobri este texto de André Azevedo Alves com o título "O Caminho para a Servidão, 60 anos depois" - vale a pena ler.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Teoria da banana


Illustration by Robert Neubecker
Alguns dos primatas (homo sapiens) descascam as bananas a partir de uma das extremidades, enquanto todos os outros descascam a partir do lado oposto. Será isto um tema digno da análise económica? Claro: esse outro método "é contra-intuitivo e, portanto, atrai imediatamente qualquer economista, essa espécie que acima de tudo adora subverter a sabedoria convencional".

Steven E. Landsburg, na Slate, desenvolve o tema com supremo humor. O Cyberlibris retoma-o sob o título "Peeling bananas...Symmetry and Entrepreneurship". Quanto a mim vou pensar no assunto, fazer alguns testes (sim, descascar umas bananas) e já volto.

Terra da abundância


Enquanto muitos fabricantes da fast-food procuram "aligeirar" o produto com saladas e redução da gordura, a Hardee's propõe o apropriadamente designado "Monster Thickburger," com duas grossas argamassas de carne, 3 fatias de queijo, 4 de bacon e maionese entre duas fatias de pão com sementes de sésamo: 107 gramas de gordura, 1.420 calorias. Citado pelo Business Pundit.

Paraíso perdido


Serão os Planos Directores Municipais uma forma de planeamento verdadeiramente soviético, como assegura o Blasfémias ?

Bem, a Carta de Atenas estava de facto imbuída desse optimismo racionalista que julgava poder vir a planear a cidade ideal, com as diferentes funções do viver humano todas muito bem organizadinhas em zonas, separadas por canteiros com florinhas, digamos assim.

O certo é que, se queremos ir almoçar um bom prato, com um amigo ou uma namorada (que até pode ser a legítima esposa) a um sítio inspirador, não escolhemos essas cidades ou esses bairros contruídos de acordo (?) com a racionalidade modernaça. Preferimos antes aquelas zonas históricas arrumadas à maneira medieval, casinhas multiformes, ruelas irregulares, etç. Não há coisa mais bonita que aquele estrangulamento em Alfama que obriga os trilhos dos eléctricos a enlaçarem-se à moda da espiral do ADN.

Pois, tudo isso é verdade. Mas poderemos nós voltar às regras medievais para construír as nossas cidades? Impossível: as mesmas "forças de mercado" que tanto assustam as almas poéticas fariam bem pior se não existissem esses famigerados PDMs racionalistas, ou soviéticos, ou o que lhes quiserem chamar.

Podemos talvez socorrer-nos da metáfora da expulsão do Paraíso: sim, houve um tempo (snif! snif!) em que podíamos construir as cidades organicamente, colina acima, colina abaixo, de acordo com a inspiração de cada um; mas, uma vez expulsos desse paraíso, já não há regresso. Aspirámos ao conhecimento, foi-nos concedido - e lá se foi a inocência. Resta-nos o remorso e a culpa, a confissão e o arrependimento.

Ou melhor: resta-nos seguir em frente, admitir a complexidade, lidar com ela sabendo que é uma fera indomável e perigosa, negociar os interesses sabendo que não existe uma plataforma estável de onde brote a justiça, a ética e a verdade, chame-se ela racionalidade, ou interesse público, ou sustentabilidade, ou ecologia.

Notas:
1) Os economistas também tiveram a sua deriva racionalista, lá para meados do ido século, tendo concluído que haviam descoberto as leis económicas fundamentais, domado a inflação, descoberto a cura para o desemprego, etç (ilusão que não atacou só os soviéticos...). Foi tão bonito. E os médicos iam curar todas as doenças, os políticos evitar todas as guerras (a famosa détante, lembram-se?). Depois, logicamente, vieram os hippies e disseram: bem, se é assim, já não precisamos mais de trabalhar nem de tomar banho, e estragaram a festa dos papás
2) A imagem de cima foi retirada deste texto de 1902, da autoria de Ebenezer Howard: Garden Cities of Tomorrow.

Os últimos 50 anos


Através do Mahalanobis cheguei ao inquérito feito pelo Wall Street Journal a vários economistas. Uma das questões foi: "Qual o desenvolvimento individual no pensamento económico, nos passados 50 anos, que teve impacto mais significativo no dia-a-dia das pessoas, e porquê?" Eis algumas das respostas:

George A. Akerlof: - "O uso da Teoria dos Jogos: permite aos economistas analisar os problemas com maior detalhe, possibilitando uma melhor correspondência entre as situações e a teoria."

Kenneth J. Arrow: - "Não sei exactamente o que é um "desenvolvimento individual". Diria antes que a ideia de modelizar as implicações de políticas alternativas, tornada possível pelo desenvolvimento teórico, pela revolução informática e pelo acréscimo do volume de dados, teve um efeito salutar nas políticas. O uso de modelos não conduz necessariamente a boas políticas, mas permite evitar as piores possíveis."

Milton Friedman: - "A aceitação da ideia de que a inflação é um fenómeno monetário. E porquê? Porque já produziu até agora mais de duas décadas de inflação relativamente baixa na maior parte dos países desenvolvidos, com produção relativamente estável e um elevado nível de desemprego e bem-estar."

Clive W.J. Granger: - "A capacidade para controlar a inflação."

Lawrence R. Klein: - "Não constituíu surpresa que Jan Tinbergen tenha recebido o primeiro Nobel da Economia (partilhado). O seu trabalho de modelização económica estava muito à frente do seu tempo, com muito menos recursos do que dispomos actualmente. Ele formulou os princípios da definição de políticas económicas e lançou as bases para a sua implementação através da inferência econométrica. Também o seu (segundo) modelo, construído para a Sociedade das Nações, tinha já muitas ideias interessantes sobre a distribuição de rendimentos, o efeito riqueza e a determinação de salários. Modelos tornados possíveis por estas descobertas dos anos 30 são hoje usados continuamente por todo o mundo."

Harry M. Markowitz: "Eu diria que foi a teoria do portfólio, mas sou suspeito."

John F. Nash Jr.: - "Não sei o que hei-de escolher; pode levar mais de 50 anos até que uma boa teoria económica se torne totalmente efectiva."

William F. Sharpe: - "A teoria monetária de Friedman e a teoria macroeconómica de Keynes (companheiros improváveis, para jogar pelo seguro).

Vernon L. Smith: - "O tema de Hayek sobre a utilização do conhecimento, no sentido de que a informação dispersa necessária para organizar uma economia não pode ser concentrada numa única mente; e que por isso os sistemas de comando e controlo têm necessariamente de falhar; e este tema destruiu ou forçou a liberalização das economias de controlo central do Chile, da União Soviética, da China, etç."

Robert M. Solow: - "Não tenho a certeza. Possivelmente foi o conhecimento melhorado do comércio internacional, das taxas de câmbio, e da macroeconomia das economias abertas (grandes números em causa)."

Outra das questões do WSJ, referida agora pelo Café Hayek, foi: "Em que esfera da vida, se é que em alguma, pensa que é mais importante limitar a influência das forças de mercado?".

Milton Friedman deu uma resposta misteriosa: - "A auto-propriedade dos seres humanos" (querendo talvez significar, segundo o Café Hayek, que não deve ser permitido às pessoas que se vendam ou se ofereçam para escravatura).

Lawrence Klein argumentou que as falhas de mercado e a corrupção são responsáveis por aquilo que ele designa como desvios (skewness) na distribuição do rendimento e da riqueza, quer no interior das economias nacionais, quer entre elas.

William Sharpe seleccionou "a extrema concentração do poder económico e político".

Joseph Stiglitz: - "A lista usual dos economistas começa com a distribuição dos rendimentos. Não há motivo para pensar que a distribuição do rendimento que emerge dos processos de mercado seja desejável ou aceitável. As forças de mercado descontroladas actuando livremente, sem o controlo do governo podem levar um grande número de pessoas a viver abaixo do nível de subsistência. Trata-se de uma área para intervenção do governo. Sabemos que as forças económicas sem controlo podem conduzir a grandes expansões e a grandes recessões. Temos de fazer algo acerca disso. Sabemos que o mercado pode levar à poluição – e existe aí um importante papel a desempenhar pelo governo. Sabemos que haverá insuficiente investimento em bens públicos. E quando pensamos na economia da inovação, devemos recordar que a maior parte da inovação do sector privado é baseada em investigação financiada pelo governo, como aconteceu com a Internet.

Robert Solow: - "Nas economias avançadas, eu diria: para evitar desemprego em massa, pobreza e desigualdades crescentes."

terça-feira, novembro 16, 2004

Reprise


Dizem que a Grécia aderiu ao Euro sem cumprir as condições exigidas e que, além disso, tem vindo a deteriorar as suas finanças. No entanto, não há possibilidade de voltar atrás, porque "não há base legal que possa questionar" tão insólita ocorrência. Pensando bem, este lapso jurisdicional revela grande inteligência, pois não se podiam prever penalizações para algo impensável de ocorrer. Ou podia?

Curioso, também, é sabermos isto da boca do próprio governo grego, o qual nos garante que "está provado que o défice orçamental grego nunca ficou abaixo dos três por cento desde 1999". Ou melhor: a denúncia é feita pelo actual governo conservador que, de caminho, aproveita para criticar o anterior governo socialista de ter "maquilhado" as contas nacionais. Mas onde é que eu já vi este filme?...

Desordem nas Ordens


O Público de hoje traz muito que ler sobre as Ordens Profissionais. António Marinho Pinto, candidato à O. dos Advogados, considera que ela tem estado “a reboque e atrelada aos interesses de quem se instalou nos tribunais, designadamente as magistraturas”. Bem, num contexto eleitoral estas declarações devem ser tomadas com alguma cautela, mas eu alimento as maiores dúvidas quanto à posição do actual bastonário contra a possibilidade de acesso às contas bancárias, como se se tratasse da mesma coisa que espreitar as pessoas na sua intimidade. Então os movimentos das contas não têm que estar espelhados e discriminados na contabilidade? Qual é o problema de poderem ser fiscalizadas para confirmar a sua veracidade?

Helena Roseta
, da O. dos Arquitectos, escreve sobre a razão de ser da coisa. É uma assustadora visão messiânica: como a arquitectura não tem qualidade, toca a atribuir à Ordem competências nesse campo; como as escolas apresentam problemas, toca a por a Ordem a policiar os cursos. etç. Depois lá reconhece que, qualquer dia, não haverá capacidade para conseguir estágios para todos os que os demandam. A culpa? Tinha de ser: é do Estado. Patético.

Muito bom é o artigo de Vital Moreira, equacionando os problemas de conflito de competências que as Ordens apresentam. E avisa que, com excepção da Ordem dos Advogados, é “particularmente decepcionante o panorama da função disciplinar na generalidade das ordens profissionais portuguesas (…) a informação é escassa, mas há fortes indícios de que prevalece em geral a impunidade disciplinar”.

Será necessário criar uma Ordem das Ordens para impor a ordem nas Ordens?

Escola relativista


Volto a falar do professor João César das Neves, desta vez para referir o seu artigo Suave catástrofe (DN, 15.Nov.2004). Concordo com a crua análise da escola nacional, ocupada a impôr “a visão mecanicista, politicamente correcta, relativista e estatizante que naturalmente germina no meio burocrata que a concebeu“.

Porém, no meio de tanto ruído e de tanta análise catastrofista, tão na moda, será possível alguém dar atenção à denúncia dos verdadeiros males?

Financiamento dos Municípios


O jornal Público de hoje, baseando-se numa auditoria do Tribunal de Contas, informa que as autarquias têm vindo a aumentar o seu nível de endividamento por recurso a outros esquemas de financiamento que não empréstimos, ultrapassando desse modo o limite de “endividamento (líquido) zero” imposto pelo governo. Por um lado temos que reconhecer a criatividade dos Municípios; por outro lado temos de lhes perguntar se estão conscientes das consequências financeiras dessa cavalgada – porque a verdade é que os limites de endividamento “legal” já são por si bastante generosos.

Sobre o financiamento local escreveu a fiscalista Marta Rebelo o artigo Dar Crédito aos Municípios… (DN de 7.Nov.2004) colocando oportunas questões: uma é a de saber porque é que o Governo não trata da mesma forma todos os sectores da administração no que toca ao cumprimento do Pacto de Estabilidade, menorizando as Autarquias. Outra é a pergunta sobre se a cultura financeira do sector local revela eficiência na gestão dos recursos. Por vezes parece que os Municípios se acham acima da necessidade de provar a boa gestão financeira.

Entretanto, o líder da oposição prometeu que, no caso de ganhar as próximas legislativas, criará "um novo modelo de financiamento para as autarquias locais", que as liberte da dependência da construção, o que tem sido "muito negativo para o urbanismo" em Portugal; mas há quem o prometa para mais cedo. Já o Governo tem um grupo de trabalho, coordenado pelo Professor Nogueira Leite, a preparar uma proposta equivalente mas que torne os municípios menos dependentes do Orçamento de Estado.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Guerra às pausas


O jornal Público revela que Norbert Walter, "importante economista do Deutsche Bank", lançou a ideia de que as pausas para fumar no local de trabalho não devem ser remuneradas - isto numa entrevista ao "Bild am Sonntag". Ao princípio ainda pensei que se tratasse de uma proposta coasiana no sentido de equilibrar o mercado da poluição, sendo os montantes não pagos aos fumadores canalizados para os fumadores passivos, por exemplo - e imaginei logo o meu rendimento a crescer. Mas a notícia não permite tais devaneios: o que Norbert Walter defende é que apenas o tempo de trabalho efectivo seja pago, circunstância que, segundo ele, permitiria às empresas baixar "bastante" as despesas com salários. A medida estender-se-ia também a outros vícios, tais como o do café.

Pode-se controlar o trabalho efectivo de duas maneiras - medindo o output real ou medindo o tempo de presença no posto de trabalho - e eu supunha que esta última seria a menos eficiente, já que se pode estar lá sem produzir grande coisa. Calculo também que estas pausas - ainda que eu não seja dependente de nenhuma delas - tenham um papel importante no equilíbrio psicológico do trabalhador e, logo, também na produtividade.

Creio que todos temos consciência de que o Estado Providência não tem condições para sustentar muitas das suas regalias, incluindo a duração reduzida da jornada de trabalho, mas retirar as pausas parece-me ser "pior a emenda do que o soneto". As pessoas não são autómatos.

sábado, novembro 13, 2004

O esquizofrénico livro do Professor Cavaco Silva


Em 1976, recém chegado da Universidade de York (Inglaterra) onde se doutorara, Aníbal Cavaco Silva publicou o livro Política Orçamental e Estabilização Económica, obra básica de estudo da cadeira de Economia Pública, do ISE, dirigida pelo Professor, com Manuela Ferreira Leite como assistente.

Era um bom livro de estudo, essencialmente keynesiano, basicamente instrumental, com desenvolvimento matemático dos diversos multiplicadores para formulação de políticas orçamentais de estabilização.

Cavaco Silva passou depois para a Universidade Nova (nas suas memórias explica que aceitou o convite que lhe dirigiram porque Económicas, na sequência da Revolução de Abril, já não servia para ensinar Economia) e o livro, com desenvolvimentos importantes, conheceu nova edição em 1982, agora com o título de Finanças Públicas e Política Macroeconómica. Uma nova edição surgiu em 1992, com uma importante inovação: a adição de um novo capítulo da autoria do Professor João César das Neves. É nesta colaboração que reside a esquizofrenia deste livro.

Afinal, não é este mesmo João César das Neves aquele que diz que a divisão da teoria entre micro e macro é enganadora, preferindo por isso a designação de “teoria da economia agregada”? O que faz então o Professor da Universidade Católica num livro keynesiano, num livro sobre macroeconomia?

Eis uma explicação possível: o livro de Cavaco Silva é bom e é útil mas, como é sabido, o keynesianismo caiu em “desgraça”, pelo menos no discurso oficial e académico. Governos de todo o mundo continuam a aplicar as políticas de “sintonia fina”, mas o discurso público emigrou para outras paragens. O paradoxo desta situação revela-se em muitas situações e, no caso de Cavaco Silva, este decidiu pedir a César das Neves que equacionasse o problema – uma ideia inteligente.

O que o capítulo escrito por JCN diz, em síntese, é isto: OK, o corpo deste livro é keynesiano, mas eu agora vou falar-vos de um outro paradigma, o neoclássico. Apresenta então uma curta excursão pela história do pensamento económico, partindo dos clássicos, passando à “revolução keynesiana” (sic entre aspas), depois à síntese neoclássica, depois aos monetaristas e finalmente à revolução clássica (sic sem aspas): Arrow, Debreu, Lucas, etç. João César das Neves conclui o seu capítulo com uma parábola heliocêntrica: quando surgiu o modelo de Copérnico, apesar de ser mais avançado do que o de Ptolomeu, em termos práticos, para cálculo da posição dos planetas, dava resultados inferiores. Moral da história: os keynesianos podem ter, ainda, um instrumental que para cálculo prático é mais eficiente, mas o modelo neoclássico é superior e acabará por prevalecer. Portanto, estudem as equações do Professor Cavaco Silva, apliquem-nas, mas esqueçam a teoria subjacente.

Tudo muito interessante, mas que faz desta obra o mais esquizofrénico livro de teoria económica.

sexta-feira, novembro 12, 2004

O valor (económico) de estar vivo


Um estudo realizado em 2003 por Gary Becker, Tomas Philpson e Rodrigo Soares, The Quantity and Quality of Life and the Evolution of World Inequality, tenta avaliar a convergência entre os países, ao longo das últimas décadas, incorporando a longevidade num conceito de “rendimento global” (”full” income). A conclusão é a de que os países que partiram (em 1965) com um menor rendimento, cresceram mais em termos deste “rendimento global” dos que os países mais desenvolvidos. A taxa média de crescimento foi de 140 % para os países desenvolvidos, contra 192 % dos países em desenvolvimento.

Donde surge este aparente paradoxo? A evidência mostra que, entre os diferentes países, existe convergência na longevidade, embora ela não ocorra no rendimento per capita. Como também existe uma correlação positiva entre a longevidade e o rendimento per capita, aquela relação deve estar a mudar ao longo do tempo. Ou seja: a longevidade aumenta para certos níveis de rendimento, e este aumento tem sido maior em países mais pobres.

O estudo apresenta ainda, para o conjunto de países analisados, quais as principais causas de morte em termos de influência nesta convergência. Para calcular o valor económico dos ganhos de longevidade e a sua decomposição para cada causa de morte, o estudo recorre ao rendimento per capita, às taxas de sobrevivência, a uma forma especial da função de utilidade (ou seja, a disponibilidade para pagar pela extensão da esperança de vida) com duas dimensões: a substituibilidade do consumo em diferentes períodos de vida (ou elasticidade de substituição inter-temporal) e o valor de estar vivo relativamente a estar morto. Doenças infecciosas, respiratórias e do sistema digestivo, condições congenitais e peri-natais e outras “mal definidas”, ocupam os primeiros lugares.

Os economistas têm esta tendência para quantificar, em termos monetários, aspectos como o valor económico de estar vivo, ou de viver mais uns anos. O estudo refere uma outra investigação (The economic value of medical research) que avaliou o valor agregado da variação média anual da esperança de vida nos EUA entre 1970 e 1990, tendo obtido uma estimativa que corresponde a mais de metade do valor do PNB real de 1980. Apesar do aspecto desagradável, ou pouco romântico, desta valorização monetária da vida, tais cálculos são úteis para ponderar e ajudar a escolher os investimentos públicos em termos da sua utilidade objectiva.

Relativamente às conclusões do estudo de Becker, pode-se argumentar que viver mais tempo não significa viver melhor – embora a maioria das pessoas pareça valorizar mais a longevidade do que a saúde imediata. Creio que uma opção de escolha faustiana entre “viver mais” ou “viver melhor” daria vantagem à primeira. O que prefeririam os povos: maior rendimento per capita ou maior esperança de vida? E você?

Deixem-me adivinhar: ambas as coisas, não é?

quinta-feira, novembro 11, 2004

Económicas e Bagaceiras


O Professorices chamou a atenção para a delirante criatividade que se espelha na designação de uma série de novas licenciaturas, dando origem a um interessante e participado debate sobre o abusivo (?) uso do vocábulo “ciência” em algumas dessas designações.

De facto, alguns cursos superiores incorporam hoje a designação de “ciências” com o aparente objectivo de lhes dar um status especial, apesar da duvidosa cientificidade das matérias em causa: ciências jurídicas, ciências da comunicação, ciências musicais, ciências políticas, etç.

O que é curioso é que a Economia, em Portugal, já sofreu desta maleita: quando surgiu a primeira escola especificamente destinada a formar economistas, logo se chamou “Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras”, abreviadamente ISCEF (ou ISSEF, numa altura em que ainda se grafava “sciências”). Compreende-se o esforço pois que na altura a profissão não tinha prestígio - não dava para Ministro, por exemplo, nem para gerir empresas, que era coisa para engenheiros e advogados. Os pais de António Manuel Pinto Barbosa – que viria a ser o grande reformador da escola nos anos 40 - ficaram muito desgostosos quando lhes anunciou que queria seguir uma carreira académica em Economia. Foi também o Professor Pinto Barbosa quem recordou este delicioso episódio (numa sua biografia escrita por João César das Neves e Francisco Azevedo e Silva):
”Já depois da minha formatura, era eu professor, apareceu uma grande notícia nessa altura: que um dos nossos diplomados tinha conseguido o lugar de chefe de repartição na Câmara Municipal de Lisboa. O Instituto quase que embandeirou em arco.”
Perante a pomposa designação, logo a presunção foi castigada com o apodo de “económicas e bagaceiras”. Uma “económica” era a designação popular da célebre sopinha que então, como ainda hoje, constituía a base alimentar de muito alfacinha; “sai uma económica!” era um grito-de-ordem comum nas tascas e restaurantes baratos; um dos métodos então existentes para enriquecer a “componente calórica” da sopa era mergulhar, na água a ferver, uma bola de sebo presa por um fio, pois era reutilizável, tal como a bala do Solnado na “Ida à guerra”. A "bagaceira", claro, era uma aguardente de bagaço. Uma económica e uma bagaceira elevavam, conjuntamente, o corpo e o espírito: era uma correlação forte.

Mas voltando ao Quelhas (outra das designações populares da escola, nome da rua) em lugar de “económicas e bagaceiras” tenho ouvido, mais recentemente, “alcoólicas e bagaceiras”; não sei se é designação antiga – eu não me lembro dela – mas parece-me a outra mais abrangente e mais alfacinha, além de que esta última sofre de uma nítida redundância.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Ordens: polícias das Universidades?


Luís Conraria, na sequência do Professorices, levantam o problema do corporativismo das Ordens profissionais, em termos com que concordo. No entanto é possível que seja o mau funcionamento de alguns dos mecanismos da nossa vida colectiva que está a alimentar esta corporativice (ou corporativite).

Por exemplo: estarão as Universidades a desempenhar suficientemente bem o papel da avaliação e graduação dos conhecimentos? Ou: existe uma razoável uniformidade, entre as diversas Universidades e para cursos equivalentes, dos sistemas de avaliação? No caso de não ser assim, criam-se argumentos favoráveis ao crivo suplementar das Ordens.

Mas não me parece que seja solução, para tais problemas, a criação de novos exames e novos estágios, porque então deixamos de ter um problema para ter dois: nas Universidades e nas Ordens.

A situação chega ao ridículo, como é o caso da Ordem dos Arquitectos, de se pronunciarem sobre o conteúdo das disciplinas, propondo alterações, como condição para a famosa “creditação”, ou “acreditação”. A Ordem dos Economistas também se está a pôr em bicos de pés, com esse esquema das creditações dos cursos, tentando fazer-se necessária, quiçá imprescindível: é sempre a velha luta por uma fatia do poder. Conheço um caso de recusa de inscrição, nesta Ordem, de um licenciado em Gestão do Sector Público (do ISCSP) por “não ser da área da Economia”.

Creio, no entanto, que as Ordens podem ser úteis em aspectos deontológicos relacionados com a prática profissional, e também na definição de estratégias para o ensino, mas a montante da Academia e não como polícias à porta das Universidades.

Economia, Imperialismo e Drogas


O Imperialismo da Economia define-se como a convicção de que o núcleo central da Economia – a teoria da escolha – é, em princípio, aplicável a todo o comportamento humano. Por exemplo: economistas (como Gary Becker) explicando fenómenos como a descriminação racial, o crime ou o casamento, por aplicação da teoria económica.

Será isto sequer um problema? A Antropologia e a Sociologia também podem explicar as “compras” feitas por um consumidor num qualquer centro comercial. A divisão da realidade em “disciplinas” é puramente artificial, por isso não é de estranhar que as fronteiras se esboroem com facilidade. Já me parece inadequado afirmar que só existe uma ciência social: a Economia.

A propósito desta “invasão” de outras áreas disciplinares pela Economia, refira-se o estudo de Becker, Grossman e Murphy sobre The Economic Theory of Illegal Goods: The Case of Drugs.

O estudo começa por demonstrar que, sendo o valor social de um bem inferior ao seu valor privado, a sociedade preferirá que o consumo se torne legal, restringindo o consumo através de uma taxa monetária penalizadora. No entanto, reconhece que esta conclusão é contraditória com o facto, observado, da ilegalização, ao longo da história, do consumo de drogas, da prostituição e do jogo, por exemplo.

Os autores acreditam que a explicação se encontra nos diferentes impactos destas duas estratégias na classe média, por um lado, e nas classes mais pobres, por outro. A classe média preferiria a ilegalização, as classes mais pobres prefeririam a taxação. A ilegalização é um dissuasor mais efectivo para classes com maiores rendimentos: as penas de prisão são socialmente mais gravosas, enquanto que o seu maior rendimento torna a taxação menos efectiva. Passa-se o oposto com os mais pobres. Como a classe média tem maior poder político do que os pobres, é esta a opção que tem sido adoptada.

Antes do degelo


Escreveu Agustina Bessa-Luís:
"Não é o amor que interessa aos homens, mas as crenças naturais na capacidade de sentir. Isso explica como pessoas de tão elevada linhagem mental, como Rousseau, se deixasse manobrar pela sua governanta, que era analfabeta e o meteu numa série de intrigas vergonhosas com os amigos. Ela decerto desencadeou funções do seu cérebro que não são as que determinam o conhecimento. Funções do inconsciente em que o tempo não tem medida e é intemporal. É possível que as mulheres exerçam uma influência para além de qualquer razão nesse inconsciente que é a única barreira perante a morte."
Esta senhora, já se sabe, com o seu arzinho de camponesa inofensiva, avança com um bisturi em cada mão e vai revolvendo as entranhas do ser humano, até um ponto em que os despojos ficam irreconhecíveis - ou em que nós já não os queremos reconhecer.

Este discurso agustiniano cola muito mal ao paradigma dominante de que os homens e as mulheres são (ou devem ser) iguais, apesar de todas as evidências em contrário. Parece remeter para um passado próximo em que a mulher era, em termos económicos, a escrava do homem, a empregada do homem - os livros estão repletos de situações desse tipo. Mas a análise sibilina parece alcançar um território mais longínquo, tão longínquo que mal distinguimos o que supostamente nos é apontado, embora queiramos muito ver o que é na realidade.

"Antes do degelo" significa o quê? Antes da idade adulta? Antes da civilização? Antes da hominização? Antes do conhecimento?

[Antes do Degelo, Agustina Bessa-Luís, 2004 (página 221)]

terça-feira, novembro 09, 2004

Porquê a guerra? Porque sim.




Nothing for Money: artigo de Paul Krugman (de 14 de Março de 2003) onde e ele explica a alguns americanos preocupados que não é por causa do conflito Euro-versus-Dolar que os EUA vão para a Guerra.

"Portanto, esta particular teoria da conspiração está errada. Então, perguntais vós, porque está esta gente tão determinada em ter a sua guerra? A resposta é porque sim. Apenas porque sim."

Crescimento económico

Artigo de Paul Romer sobre Economic Growth: "o crescimento económico ocorre sempre que as pessoas pegam em recursos e os transformam em algo que é mais valioso", mas com ênfase na criatividade: "cada nova geração apercebe-se dos obstáculos colocados ao crescimento pela limitação dos recursos e efeitos colaterais indesejáveis [como a poluição] caso não sejam descobertas novas ideias". Trata-se de um artigo para uma enciclopédia - The Fortune Encyclopedia of Economics - e recorre a uma curiosa metáfora fisico-quimico-culinária.

FMI em auto-avaliação


O Diário de Notícias faz referência a um estudo realizado por dois investigadores do FMI, Catia Batista e Juan Zalduendo, segundo o qual "as previsões de crescimento avançadas pelo Fundo Monetário Internacional têm pecado por excesso de optimismo".

O estudo, Can the IMF's Medium-Term Growth Projections Be Improved?, desenvolve uma variante do modelo de crescimento neoclássico que, embora não respondendo às críticas que lhe têm sido feitas - e que são sumariamente referidas no estudo - tenta "rodear" algumas da limitações. Os investigadores reconhecem que as previsões do FMI tiveram um "fraco" desempenho em algumas regiões e que é possível melhorar os instrumentos de previsão de crescimento utilizados.

segunda-feira, novembro 08, 2004

Que românticos que nós somos


Numa entrevista a Paula Rego a jornalista Ana Sousa Dias, num estilo entre o perguntar e o insinuar cúmplice, opinou que lhe devia custar muito separar-se das obras, ao que a pintora retorquiu: não; vender é uma maravilha.

Pois é, mas a intelectualidade continua a achar, romanticamente, que a arte é celestial e o comércio é vil. O que sentirá esta gente quando recebe o ordenado: vergonha?



Nova "marca" com fraco design


O IPIMAR oferece uma camisola a quem encontrar uma destas marcas que aquele organismo de investigação andou a colocar em sardinhas durante o Verão. Para além da marca tem de se indicar a data e local onde foi encontrada, bem como a data e local de captura do sardináceo. Acho muito bem o apelo à colaboração da população, mas parece-me que quem não souber da campanha e encontrar apenas a marca na sardinha não vai longe apenas com a informação ali impressa.

Entropia e (de)crescimento


Não me parece difícil considerar a metáfora do “não há almoços grátis” como o equivalente, para a Economia, da 1ª lei da termodinâmica. Mais problemática é a transposição para a Economia do fenómeno físico da entropia – ou da 2ª lei da termodinâmica. No entanto é isso precisamente que tentam fazer economistas como Nicholas Georgescu-Roegen, Hazel Henderson e William Krehm.

Georgescu-Roegen (1906-1994), economista romeno, escreveu sobre este assunto o livro “The Entropy Law and the Economic Process”, de 1971. Para além de ter procurado integrar a economia e a termodinâmica, Georgescu-Roegen também o fez com a biologia evolutiva e a ecologia, pelo que é conhecido como o pai da economia ecológica:

Em termos de metáfora, leis como a da queda tendencial da taxa de lucro (de Marx) e dos rendimentos decrescentes podem ser considerados como entropias do sistema económico. E parece também evidente que tem de se reflectir na actividade económica a entropia que ocorre no mundo material. Mas estes economistas vão mais longe e tentam instituir a entropia como lei económica.

A lei física da entropia é bastante contra-intuitiva e parece ser negada a todo o momento perante os nossos olhos: dizem-nos que uma vez misturados dois líquidos de cores diferentes, eles já não se voltam a separar: o nível de organização da matéria corre inexoravelmente de patamares superiores para patamares inferiores, e chegará um dia em que tudo estará “misturado”, inerte e imóvel. Porém, nós assistimos diariamente a fenómenos opostos: os processos biológicos dos seres vivos trabalham incessantemente, e com sucesso, para estruturar a matéria em níveis elevados de organização. A actividade económica também: desde os minérios que transformamos em objectos e máquinas sofisticados, até ao incessante trabalho administrativo de arrumar letras em complexos estruturados de palavras, e papéis impressos ou manuscritos em estruturadíssimos arquivos (físicos ou electrónicos), tudo parece caminhar do nível menos complexo para o mais complexo.

Pois é, dizem os físicos, mas por cada um desses processos de organização e estruturação ocorre um outro processo de sentido inverso, que não só anula o efeito do primeiro mas que o ultrapassa, sendo o saldo final favorável à entropia.

William Krehm oferece-nos alguns exemplos: “a pressão da crescente população industrial sobre os alimentos que tanto preocupou David Ricardo depois das guerras napoleónicas e aumentou a renda fundiária na Grã Bretanha, foi ultrapassada com as “Corn Laws” e a revolução nos transportes. A necessidade de expansão dos mercados sentida pelo novo sistema industrial obteve como resposta num colonialismo agressivo e na exportação de capital. A crise dos anos 30 originada na insuficiência da procura foi resolvida pela revolução keynesiana. As técnicas keynesianas, pelo seu lado, contribuíram para a expansão do sector público ao ponto de adulterarem o sistema de sinalização (preços) do mercado. Mas, por volta dos anos 70, o sistema de preços já não tinha mais território para esta fuga em frente: “a solução que se arranjou para enfrentar aquela acumulação de entropia foi uma cruzada holística para inverter tudo o que tinha ocorrido desde os anos 30, e o resultado foi o encolher forçado dos serviços públicos, a desregulação do comércio e dos capitais, o refazer da história, a linguagem e a moralidade da sociedade impondo uma liberdade total a tudo o que pudesse conduzir a lucros mais elevados.”

É claro que o previsível esgotamento dos recursos minerais, particularmente os energéticos, e as ameaças de alterações climáticas catastróficas, temas maiores da agenda ecológica, encaixam bem no processo entrópico: a actividade económica dá origem a novos produtos e a soluções para novos e velhos problemas (para as doenças, antigas e novas, a farmacologia e a bio-tecnologia, por exemplo) mas à custa da desestruturação de outros sistemas, o que, em última análise, conduzirá à morte do conjunto (recordam-se do Relatório do Clube de Roma e das propostas de “crescimento zero”? - veja aqui um resumo) Esta foi uma das hipóteses desenvolvidas por Georgescu-Roegen e apresentada no seu livro “La décroissance. Entropie - Écologie – Économie”, cujo texto se encontra disponível na net neste site. Veja-se também o modelo da ampulheta de Georgescu-Roegen (clicando no desenho).

Tudo isto parece simultaneamente muito poético e pouco científico, particularmente devido ao empenhamento pós-moderno nas novas praxis. Mas não deixa de merecer um olhar atento.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Emagrece e aparece!


Um estudo da Universidade de York (Toronto, Canadá), apoiado na tese do papel do cortex pré-frontal para a tomada de decisões, sugere que anomalias nos processos corticais e sub-corticais que regulam a inibição de "satisfações-de-curto-prazo" quando a consequências de longo prazo são prejudiciais, podem explicar as (más) decisões de escolha de comida na nossa cultura, dominada por alimentos saborosos mas exageradamente calóricos - o que explicaria parte dos casos de obesidade.

O estudo testou positivamente a correlação entre a existência de dificuldades de tomada de decisão e a tendência para comer demais. Por este andar os obesos arriscam-se, também, a que não confiem neles para os negócios.

Decision-Making Deficits and Overeating: A Risk Model for Obesity

Britannia, rule the oil


O Economist acha que a economia inglesa está melhor preparada do que a de outros países industrializados para enfrentar com sucesso a alta do preço do petróleo. Por um lado, e relativamente aos choques dos anos 70, tornou-se menos dependente daquela fonte energética (veja-se no gráfico o indicador de intensidade de consumo, a mais favorável do G7). Por outro lado, entre os grandes, só o Canadá apresenta um melhor saldo comercial quanto ao comércio do viscoso.

Crescer não chega

O PNB americano cresceu 3,7 % no 3º trimestre de 2004 [taxa anualizada], razoavelmente acima dos 3,3 % do trimestre anterior. O "Economist", no entanto, encara com optimismo moderado esta perfomance, baseada essencialmente no crescimento do consumo, dado o alargamento do défice comercial e a desaceleração da variação de stocks.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Leituras sobre Jesus Cristo

Já farto das tretas de Dan Brown ("O Código Da Vinci") fiquei contente por saber que estava traduzido em português um livro sobre "A Verdadeira História de Jesus". Quem o dizia eram vários responsáveis da Igreja Católica, num programa radiofónico de Carlos Pinto Coelho. Comprei o livro (Editorial Notícias, autor: E.P.Sanders) que de facto parece ser um exercício sério de busca da verdade histórica sobre a vida de Jesus.

Impressionou-me o facto de Jesus ter acreditado que a vinda do "reino de Deus" à terra estava para breve, e de os discípulos terem conversado com ele sobre pormenores práticos do tipo: como é que chego lá, em que lugar é que vou ficar sentado (relativamente a Deus, é claro). Jesus Cristo lá ia respondendo às questões com umas evasivas: "eu sou o caminho", ou "a casa de Deus tem muitos quartos", etc., que hoje são inteligentemente lidas como metáforas.

O corpus da religião católica, na realidade, não nasceu "completo" com Jesus Cristo, o qual, em termos teológicos, pouco mais representava do que uma ligeira variante do Judaismo, incorporando profecias e aspirações colectivas comuns a outras seitas da época. Ele foi sendo construído ao longo dos séculos, a partir da imagem fortemente idealizada de Cristo e da sua deriva apostólica. Isso não quer dizer que seja menos verdadeira: pelo contrário, a ideia de que existe uma "verdade histórica" sobre Jesus Cristo que, uma vez revelada (ou descoberta) permitiria reconduzir a religião Católica a uma pureza inicial, é que não passa de um mito.

Promoção da ciência


Gosto deste anúncio de promoção de uma revista científica para miúdos:

Também interessante, o blog sobre ciência para jovens: O DNA vai à escola.

Toca a apagar os graffiti, já!

Um estudo publicado no The Economic Journal do corrente mês (Novembro, 2004) encontrou uma correlação negativa entre a taxa de criminalidade relativa a "danos na propriedade" e os preços dos imóveis. Curiosamente não foi encontrada correlação significativa entre o número de assaltos e o valor das propriedades.

Uma explicação possível relaciona-se com a diferente visibilidade destes actos: os assaltos não deixam marcas visíveis, mas o vandalismo, os graffiti e outro danos sobre as propriedades podem ser tomados como sinais ou sintomas de uma vizinhança problemática.

Caros proprietários, toca a apagar diligentemente os graffiti e a reparar essas cancelas e vidros partidos!

O artigo, em ficheiro pdf, encontra-se disponível em: The Costs of Urban Property Crime.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Exames para quê ?

Por causa dos atrasos no início do ano lectivo, os paizinhos (e as maezinhas) exigem que os estudantes do secundário não tenham exames nacionais no 9º ano. Os sindicatos, cínicos, acham que "seria mais prudente não fazer os exames". A Ministra da Educação, teimosa, insiste em torturar as criancinhas, mas garantindo que praticamente não haverá chumbos ("dá para que não haja problemas de reprovações" ... "quem vier com nota 5 passa sempre"). Assim vai o país. Não se poderia fazer uma lei que atribuisse os diplomas logo à nascença ? Poupava-se dinheiro e poucas vergonhas.

terça-feira, outubro 26, 2004

Neuroeconomia: o regresso do "animal spirits"


O mecanismo do marcador somático parece coerente com a teoria da racionalidade limitada. Em Economia, o pressuposto das decisões racionais levanta dois problemas importantes:
- os agentes económicos não podem dispor de toda a informação relevante e

- ainda que dispusessem, a quantidade de informação seria tão grande que o cérebro não teria capacidade para a processar.
Pode ser que o trilho adaptativo da racionalidade limitada seja percorrido com a ajuda da memória emocional proposta por António Damásio. No seu livro "O Erro de Descartes" é descrita uma experiência laboratorial com humanos, o "jogo de cartas", que o próprio Damásio admite ser uma simulação da actividade económica. Os pacientes com disfunções no sistema emocional não conseguem "adivinhar" as regras do jogo, ao contrário dos que não têm esse problema, os quais acabam por "adivinhar" as regras de um jogo aparentemente caótico, onde os impulsos emocionais de "ganhar" ou "perder" ajudam a perceber a racionalidade escondida.

Peter Drucker, nas suas memórias, apresenta um exemplo muito curioso dum velho "capitão da indústria" que contraria a análise da sua equipa de gestores, favoráveis a um investimento financeiro "infalível", que tinha inclusivamente uma espécie de aval do Banco de Inglaterra. Resultado: os gestores estavam enganados. Questionado sobre o que o teria levado a "descobrir" a verdade, o experiente homem terá dito qualquer coisa como "desconfiei porque o tipo tinha respostas para tudo". Este é o tipo de comportamento que costumamos rotular como "intuitivo", pelos vistos erradamente: em lugar da intuição está, provavelmente, o mecanismo do marcador somático a ajudar à tomada de decisão.

As "funções de surpresa potencial" de George Shackle também poderiam ser explicadas pelo marcador somático. É curioso como estas "intuições", desprezadas pelos economistas por causa da sua aparência pouco científica (desprezo que, em si mesmo, traduz uma atitude pouco científica) parecem agora ser mais "legitimas" a partir de experiências laboratoriais controladas. Porém - suprema ironia - é bem provável que tudo isto venha dar razão àqueles que construiram modelos matemáticos do comportamento económico "não realistas". A ciência tem destas coisas. na altura da sua formulação, não havia modelo mais "afastado da realidade" do que a teoria da atracção universal de Newton: era "evidente" que não havia nenhum meio de transmitir a informação necessária à atracção, nenhum cabo a ligar os planetas, e no entanto... Newton, de resto, estava consciente desse "ponto fraco".

A Neuroeconomia apresenta-se assim como um caminho bastante promissor. Quem sabe se, depois de se terem tornados "matemáticos", não terão os economistas de se especializar agora em Medicina...

Um bom texto sobre este assunto: Implications of the Affect Heuristic for Behavioral Economics de Paul Slovic (2002)

Quem também prece ganhar pontos com estes desenvolvimentos são as teorias darwinianas: o facto do organismo utilizar como elemento relevante do mecanismo racional um outro mecanismo "inferior" (as emoções secundárias, que parece que partilhamos com outros mamíferos...), encaixa bem no modelo evolutivo em que órgãos de uma determinada fase da evolução são adaptados para o funcionamento de órgãos que surgem posteriormente no processo evolutivo.

Razão tinha o Keynes com o seu "animal spirits". Seria também intuição do Lord?
"Even apart from the instability due to speculation, there is the instability due to the characteristic of human nature that a large proportion of our positive activities depend on spontaneous optimism rather than mathematical expectations, whether moral or hedonistic or economic. Most, probably, of our decisions to do something positive, the full consequences of which will be drawn out over many days to come, can only be taken as the result of animal spirits - a spontaneous urge to action rather than inaction, and not as the outcome of a weighted average of quantitative benefits multiplied by quantitative probabilities."


"... human decisions affecting the future, whether personal or political or economic, cannot depend on strict mathematical expectation, since the basis for making such calculations does not exist ... it is our innate urge to activity that makes the wheel go around ..."

Keynes, Teoria Geral

Sendo muito bem concebido (ao longo de milhões de anos) o mecanismo não é infalível. Além disso foi desenvolvido para uma realidade envolvente diversa daquela que construimos com a sociedade mercantil. Provavelmente daremos um grande avanço no conhecimento dos mecanismos económicos e com isso ficaremos ainda mais ignorantes, porque mais conscientes da nossa ignorância.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Atenas: Medalha de Bronze para a Econometria


Usando métodos econométricos, Andrew Bernard e Meghan Busse fizeram uma previsão de medalhas para o Jogos Olímpicos de Sidney que se aproximou muito do resultado efectivo. Um artigo com explicitação do modelo foi publicado na Review of Economics and Statistics, vol. 86, no.1: "Who Wins the Olympic Games: Economic Resources and Medal Totals" (pdf).

Uma previsão para Atenas, com o mesmo modelo, encontra-se aqui. Neste caso parece que os econometristas não passaram da medalha de Bronze; a previsão e a realidade para os primeiros 20 países é a seguinte:

# País Ouro Prata Bronze Total Previsões
OuroTotal
1EUA3539291033793
2China321714632757
3Russia272738922983
4Austrália171616491454
5Japão1691237618
6Alemanha141618481355
7França11913331237
8Italia101111321233
9Coreia do Sul912930727
10Reino Unido9912301027
11Cuba971127725
12Ucrania95923120
13Hungria86317514
14Roménia85619823
15Grécia664161027
16Noruega5-1618
17Países Baixos49922921
18Brasil43310112
19Suécia4127211
20Espanha311519311

terça-feira, outubro 19, 2004

Preferências reveladas...

Temos de admitir que a operação de marketing do manual de economia "Economics" do Paul Samuelson é inteligente. Note-se: o prestígio do produto anda intimamente associado à imagem do nobelizado velhinho, certo? Mas, e se o homem morre? O produto apodrece? É bem provável.

Daí que em 1985 a fábrica do "Economics" tenha adicionado ao Paul um (mais) jovem e saudável William. "Assumindo" que um destes dias se dá o passamento do velhinho, lá estará o Nordhaus para dar continuidade às vendas; repare-se que o processo pode ser mantido ad eternum, adicionando sempre mais um William à fotografia.

Um pouco mais subtil (ma non tropo) é a cosmética que o conteúdo do livro - a designada "matéria" - vai sofrendo. Lá vão decaindo os modelos keynesianos e outros "souvenirs" do século XX, em troca não se percebe bem de quê. Entretanto as vendas vão revelando as preferências do consumidor, quod erat demonstrandum.

Um artigo critico-apologético do manual, escrito por Mark Skousen, pode ser consultado em: The Perseverance of Paul Samuelson's Economics

A mão invisível de Deus... ou do Diabo?


No Simbiótica João escreve que a metáfora smithiana da "mão invisível" teria originalmente conotações teísticas, significando apenas que "é por obra e graça de Deus que o Homem pretende enriquecer. Dessa forma permite também enriquecer os seus semelhantes", e que a interpretação actual que identifica a mão invisível com o mercado selvagem e a não intervenção governamental na Economia é "perfeitamente abusiva".

Não me parece. Como muito bem explica - e fundamenta - Albert Hirshman no seu livro “As Paixões e os Interesses” [já aqui referido no post "As paixões compensadoras"] o egoísmo e a ganância do capitalista nascente eram inicialmente vistas como um “mal menor” e por isso aceitáveis, ou mesmo desejáveis, como alternativa a outros meios de obtenção de poder e riqueza como a guerra ou o assassínio, etc. Dificilmente se pode atribuir a Deus a pretensão humana de enriquecer (a não ser no sentido da omnipotência: se Deus criou tudo, então tudo lhe pode ser atribuído; mas não me parece…).

Creio que neste caso os direitos autorais não revertem para Deus mas sim para o Diabo. Salvo melhor opinião.

sexta-feira, julho 09, 2004

Coisas improváveis

Querendo apresentar exemplos absurdos de coisas improváveis que acontecem perante os nossos olhos e o nosso espanto, o artigo do The Economist sobre 'Emerging markets, emerging risks' cita a popularidade duradoura de Cliff Richard e a vitória da Grécia no Euro 2004. Portugal agradece as referências, ainda que indirectas.

quinta-feira, julho 08, 2004

Retoma? Mas qual retoma?

É oficial: Vitor Constâncio garante que a retoma se está a dar pelo lado da procura interna, precisamente o tipo de retoma que se considerava indesejável. Diz o Governador do Banco de Portugal que é uma consequência do futebolístico Euro 2004: crescem o Consumo e o Investimento.

Que dirão agora os defensores da maioria que tão ardentemente defenderam a política de "sacrifícios" explicando que essa era a via certa para a única recuperação saudável? Ou seja: sobretudo teria de se evitar que a procura interna aumentasse antes da externa.

Mal no retrato ficam igualmente os socialista e bloquistas, que garantiam que as medidas do governo cessante iriam paralizar o país. Ou seja: há argumentos para todos e para que a confusão se perpetue - no país onde ninguém se engana e todos têm razão.

Temendo-se que o nível de endividamento se encontre positivamente associado com a perda de flexibilidade da economia, esta retoma pode não ser uma boa notícia.

As paixões compensadoras

Uma tese interessante: a crítica de Friedman e Fukyama seria apenas dirigida aos países em desenvolvimento, e não aos países desenvolvidos.

Se isto fosse verdade, então teriam de existir (pelo menos) duas teorias económicas diferentes: uma para os ricos, outra para os pobres. A Economia seria apenas contingencial. Mas o certo é que Fukyama também se refere aos países desenvolvidos, citando os escândalos Enron e WorldCom.

Hayek e outros na mesma linha mostraram como as burocracias socialistas e o planeamento racional totalitário eram caminhos errados, e os acontecimentos posteriores sempre lhes deram razão. Agora, se se provar que a "mão invisível" também não leva a lado nenhum, isso não significa que os "estatistas" tenham razão, mas apenas que o caminho tem de ser procurado noutro lado.

Em As Paixões e os Interesses ("argumentos políticos para o capitalismo antes de seu triunfo") Albert Hirschman mostra como, na fase inicial do capitalismo, a "mão invisível" era vista apenas como um escape "relativamente melhor" do que as guerras e os crimes, para a natureza violenta do ser humano. É a tese das "paixões compensadoras": procurar a riqueza (e o poder ?) através dos negócios sempre seria melhor do que através de outros meios moralmente mais reprováveis. Posteriormente essa força motora do capitalismo foi travestida numa espécie de "bondade criadora" (de riqueza, entenda-se). Ao que parece, estamos agora a descobrir o demónio por trás do ídolo.

terça-feira, julho 06, 2004

Mais ou menos Estado

A polémica em torno de “mais Estado” ou “menos Estado” voltou a aquecer com o artigo de Francis Fukuyama publicado pelo 'The Observer' no passado dia 4. Comentado pelo Causa Liberal, pel’O Intermitente, pel’O Observador, e pelo Adufe, o título do artigo de Fukuyama não podia ser mais eloquente: “Bring back the state".

Os comentadores liberais apressaram-se a esclarecer que Fukuyama não defende o retorno do Estado, em termos de “mais Estado”, mas sim o reforço do exercício das suas competências com maior efectividade. Tudo se explicaria por recurso a duas palavras: o que Fukuyama defende é o reforço (strenght) do papel do Estado nalgumas áreas e não o alargamento a sua extensão (scope).

Jogos de palavras. Fukuyama afirma claramente no seu artigo que a era do “menos Estado” (que ele designa como a “era Reagan-Teacher”) está a terminar e o pêndulo oscilará agora em sentido oposto.

Razões desta mudança: enquanto que os grandes problemas do século XX tiveram origem em nações demasiadamente poderosas, tais como a Alemanha, o Japão e a ex-União Soviética (justificando-se então a defesa da diminuição do peso do Estado), muitos dos problemas actuais, tais como a pobreza, os refugiados, a violação dos direitos humanos, a sida e o terrorismo, são provocados por Estados muito fracos do Terceiro Mundo.

É certo que Fukuyama escreveu que “do ponto de vista do crescimento económico é melhor ter um Estado relativamente modesto em extensão mas forte na sua capacidade para realizar funções básicas tais como a manutenção da Lei e a protecção da propriedade”. Mas reconhece logo a seguir que não foi isso que aconteceu nos últimos anos. Aplicada a países em desenvolvimento, “a revolução Reagan-Teacher… teve um perverso efeito prejudicial”.

Somado à autocrítica de Milton Friedman [ver em pdf] que admitiu ter errado quando advogou como receita para as economias da ex-União Soviética: “privatizar, privatizar, privatizar”, o artigo de Fukuyama deixa os liberais em maus lençóis. Não admira, por isso, que o Causa Liberal faça um prudente aviso à navegação: as posições de Fukuyama não podem ser consideradas liberais. Aguarda-se o que os outros liberais, que rapidamente se colaram ao artigo do Fukuyama, terão a dizer a isto.